CONSULTAS

Para consultas, além da "Caixa de pesquisa" em cima à esquerda podem procurar em "Etiquetas", em baixo do lado direito, ou ver em PÁGINAS, mais abaixo ainda do lado direito, o "Mapa do Blogue"

Este blogue pode ser visto também em

5 de agosto de 2011

228-Os comandos africanos II

Coronel Matos Gomes
...A unidade de comandos não era apenas uns seiscentos homens negros que lá estavam. Eram todas aquelas relações que iam para a estrutura das companhias de africanos [ ... ] era toda uma teia enorme. Quando se dá o 25 de Abril, é-lhes colocada uma questão clara de opção: eles continuavam a ser militares portugueses e, portanto, podiam regressar aqui a Portugal e integrar-se na estrutura militar - e isso aconteceu com alguns, relativamente poucos - mas a grande maioria, nomeadamente estes quadros que tinham uma influência efectiva e que eram comandantes, opta por ficar lá e por estabelecerem eles próprios ligações que passam por ser ligações formais, por ligações familiares, por ligações de todos os níveis, com compromissos ponto a ponto com o PAIGC. E, nesta unidade, nós, nós os europeus, que lá estávamos (nessa altura éramos dois apenas - eu e o Baptista da Silva) passamos a ter notícias (eles falavam connosco e o falar connosco já era importante) de que quadros daquela unidade iam à Guiné-Conacri falar com quadros importantes do PAIGC e negociavam a sua passagem para o novo poder. Ora bem: esta unidade de comandos tinha uma percentagem...
Manuel de Lucena
Isso era um bocadinho mais tarde porque logo a seguir ao 25 de Abril eles iam fazer acções lá abaixo.
Coronel Matos Gomes
Isso eram acções que já estavam planeadas dentro de um determinado enquadramento anterior ao 25 de Abril. No dia 27 Isso já não. Depois disso as coisas passam a ser mais complicadas e levam inclusivamente ao saneamento do comandante. Não é um saneamento, é impedir que ele entre naquela unidade, o que leva depois a um aspecto muito interessante que é o exercício do poder (e a unidade que esse poder do MFA na Guiné tinha), o que leva a que seja o general Mateus da Silva, como encarregado do Governo, e o comodoro Almeida Brandão [a intervirem] nesse processo. E toda a gente, os africanos e os europeus lá aceitam as decisões que foram ali tomadas - e, portanto, essas decisões são efectivamente tomadas, não há alternativa a isso.
(...) Vão, vêm e negoceiam com o PAIGC a passagem do poder e a sua situação. Isto é: não há dúvida nenhuma para eles de que eles se vão integrar num novo processo e de que têm um lugar. Das grandes questões que se devem colocar a todos nós é: porque é que isso depois falha? Como é que o PAIGC começa a falhar? Porque o PAIGC tinha, até nesse aspecto, um capital de esperança e de adesão que foi posteriormente desbaratado. Mas os militares africanos que combateram por Portugal, na sua enorme maioria e naquilo que era decisivo, estavam dispostos a negociar e a aceitar um novo poder. Não havia dúvida de que era o PAIGC que estava no terreno.
(...)
Coronel Florindo Morais
...A certa altura, eles (oficiais graduados que pertenciam ao quadro) manifestaram vontade de vir para Portugal. E eu mandei fazer uma lista. Vim a Lisboa uns dias, de férias, e fui ao Palácio de Belém. Falei com o Almeida Bruno, expôs-se a situação ao general Spínola e o nosso general disse: «Sim, senhor, quantos são?» Eu respondi: «Na ordem dos 50». Porque não eram só oficiais, havia também no batalhão soldados e sargentos desertores do PAIGC - esses tinham, evidentemente, a cabeça por um fio. Eu regressei a Bissau, fiz uma reunião e disse: «Meus senhores, quem efectivamente quiser pode regressar e continua a sua vida militar em Portugal, após a independência». [E eles respondem:] «Sim, senhor». Passa-se algum tempo e continuamos com as reuniões (eram reuniões e mais reuniões) e, a certa altura, quando se falou que afinal já não seriam coronéis, começaram a pôr determinadas questões: «Como é que vai ser?» E eu disse: «Meus amigos, como vai ser depois da independência, não sei, porque eu vou-me embora. Só há uma solução: é perguntar a quem cá fica». Estes oficiais, sobretudo o capitão Sisseco, foram elementos muito importantes nos primeiros contactos com o PAIGC. O Sisseco era uma autoridade gentílica e religiosa, tinha uma grande aceitação entre a população da Guiné e mesmo entre os próprios elementos do PAIGC (pelo menos nessa altura, depois devem ter perdido a consideração, porque o mataram). Mas até essa altura ainda tinham imensa consideração e precisavam dele. E ele começou a desenvolver contactos na área de Cassine, com o apoio de um homem de mar-e-guerra, que era o «Tio Patrício», também conhecido por «copo de cinco». E fizeram-se os primeiros contactos: primeiro no terreno, no Faraba, apeados, promovido pelo próprio batalhão de comandos. Portanto, o batalhão de comandos começou a desenvolver contactos com o próprio PAIGC. Ao primeiro contacto de que tenho conhecimento foram [o na altura] brigadeiro Fabião, eu, o Hugo dos Santos, o ajudante dele que era o Faria Paulino. E fomos ao Faraba encontrarmo-nos com o Mário Cabral, que foi mais tarde ministro, irmão do Luís Cabral e do Amílcar Cabral.
António Duarte Silva
Foi ministro de várias coisas. Não é irmão.
Coronel Florindo Morais
Não é irmão? Estava convencido de que era. Esse foi o primeiro contacto feito no terreno, em que fomos de viatura, desarmados, eu só me lembrava dos majores! [Referência aos três majores (Passos Ramos, Magalhães Osório e Pereira da Silva) que, em 20 de Abril de 1970, tendo sido enviados pelo general Spínola a um encontro secreto com elementos do PAIGC, foram assassinados no decorrer dessa missão]: Porque, quando lá chegámos, estava uma força armada por todos os lados à nossa espera. Correu bem, felizmente correu bem, e depois houve outros, vários, contactos no terreno.
...... foi em Julho, Agosto, fins de Julho, porque foi antes de eu vir a Lisboa. Foi esse o primeiro contacto. Entretanto, na área de Cassine, o Sisseco desenvolveu também vários contactos com o PAIGC, e a certa altura conseguiu-se trazer a [?], que era a sede do aquartelamento do batalhão, uma primeira delegação de militares do PAIGC, que vieram para Bissau, trazidos pelo comandante Heitor Patrício, oficial de marinha. Trouxe-os e alojou-os naquelas casas ali junto ao palácio do governo e no outro dia fui lá buscá-los de manhã e levei-os para o batalhão. Reuni os oficiais e os sargentos numa sala, apresentei as pessoas (não me recordo de nomes), eram quadros superiores do PAIGC e disse: «Meus amigos, fazem favor de pôr agora as questões que me têm posto a mim, de pôr essas questões agora a estes elementos do PAIGC». E saí e deixei-os à vontade. Fui-me instalar no bar de cabos, ou de praças, que era mesmo em frente da sala e ali fiquei com o Patrício. Estava com alguma curiosidade sobre a forma como ia decorrer essa reunião. Entretanto, criou-se um ajuntamento de militares, de soldados, à porta da sala. Os soldados criaram um burburinho porque não estavam satisfeitos por terem ficado de fora e diziam: «Estes já não saem de cá». Aí eu tremi, mas lá se conseguiu desmobilizar aquela gente. E a reunião, tanto quanto soube mais tarde, correu mal [por causa de] um homem, o Jamanca, que era um príncipe fula, com quarenta e muitos anos, perto dos 50, era uma figura característica, tinha uma barbinha, usava um bastão. O Jamanca começou a reunião desta maneira, depois de eu ter saído: «Já assisti à independência de cinco países africanos, em todos eles o que eu vi foi mortos, tipos pendurados nas árvores, julgamentos sumários, etc. Será que vocês cá também vão fazer o mesmo?» Eu, quando soube disto, disse: «Jamanca, desaparece daqui, o mais depressa possível, assinaste a tua sentença de morte». Ele não o quis fazer, regressou para as suas terras, Bambadinca, salvo erro.
Aqui o coronel Florindo Morais é corrigido por um dos presentes: as terras de Jamanca eram em Bafatá.Aqui o coronel Florindo Morais é corrigido por um dos presentes: as terras de Jamanca eram em Bafatá.
Pois, em Bafatá. Bambadinca era perto, foi o sítio onde ele depois acabou por fazer uma asneirada. Acabou por fazer cercar uma companhia. Ele, Jamanca, um tropa, cercou uma companhia de soldados e criou para ali um granel que foi depois preciso lá ir desmobilizar aquilo. Mas nessa reunião foram postas várias questões e a todas elas o PAIGC deu garantias.
Falha na gravação devida à mudança de cassete.
...O Fabião tinha o seu orçamento até 31 de Dezembro e disse: «Meus amigos, quem quiser sair já, eu pago seis meses». E pagou seis meses a cada um. Voluntários para Lisboa não houve nenhum, e todos aceitaram ficar lá passando à disponibilidade em 31 de Dezembro de 1974. Ficaram com seis meses de vencimento.
Manuel de Lucena
Com uma excepção... 
Coronel Florindo Morais
O Marcelino da Mata não, porque o Marcelino da Mata estava cá quando foi o 25 de Abril e já não regressou, foi proibido de ir à Guiné. Havia um outro que estava também em Lisboa, era o Tomás Camará, que estava no hospital e foi verbalmente proibido de regressar. Acabou por regressar depois da independência e isso custou-lhe a vida. Mas o Marcelino estava cá e cá ficou.
Já agora um apontamento engraçado: a certa altura recebi uma mensagem que vinha da Presidência, do Bruno, a pedir para mandar de imediato a mulher do Marcelino da Mata. Mandei um oficial meu e disse-lhe: «Olha, vai à procura da mulher do Marcelino» e [levava] uma reqursiçao para o avião. Meteu-se a mulher no avião para o Marcelino ficar cá quietinho e calado. Quando cá chegou recebi outra mensagem: «Não é esta mulher, é a nova!» E a nova foi, e a outra voltou.
Portanto, estas duas coisas: por um lado, a garantia que deram alguns quadros superiores do PAIGC aos oficiais e sargentos de que nada lhes aconteceria após a independência; por outro, o dinheiro que o Fabião lhes ofereceu, os vencimentos adiantados (do que inclusivamente [resultou] que se esgotassem nesses dias, em Bissau, as motorizadas, as ventoinhas, essas coisas), levou a que todos tivessem optado por ficar na Guiné e que nenhum quisesse ter vindo. Não houve nenhum militar desses que tivesse declarado «quero ir [para Portugal], quero continuar militar» e que não o tivesse feito. Este é um ponto que causa para aí muita confusão. 

227-Os comandos africanos I

Voltando aos "Estudos Gerais da Arrábida", no painel de 29 de Agosto de 1995... 
Já referi alguns aspectos no post 125:
- «Nós sabemos que, nessa unidade de comandos e nos fuzileiros negros, havia elementos do PAIGC... 
(...) Sem nenhuma dúvida. Por confirmações da PIDE e quase por conversas...
(...) Mas nós sabíamos que havia militares que eram do PAIGC e estavam ali assim, sem nenhuma...» - Coronel Matos Gomes.
E agora a situação após o 25 de Abril:
Coronel Matos Gomes
(Carlos Matos Gomes (n. 1946) Oficial dos Comandos, comandante de Tropas Nativas Especiais. Em Moçambique, participou na operação "Nó Górdio", Fez a sua missão na Guiné de Julho de 1972 a fins de Junho de 1974. Pertenceu à primeira Comissão Coordenadora do Movimento dos Capitães na Guiné. Foi membro da Assembleia do MFA.
Porque a questão é que nós começámos a conversar com eles sobre o futuro deles. E o futuro deles era regressarem a Portugal e integrarem-se nas Forças Armadas portuguesas, ou era serem desmobilizados e ficarem como cidadãos nacionais guineenses, portanto, eram questões que estavam em aberto. É quando eles nos começam a dizer: «Não senhor, disso já tínhamos tratado.» É quando nos começamos a aperceber da profundidade da ligação familiar, pessoal, etc., com pessoas do PAIGC; já havia militares nos comandos com o emblema das forças do PAIGC.
(...) O [caso] Folques é: aquela unidade [dos comandos] diz que não o aceita como comandante. Porque é que isso acontece? Se se reparar na lista dos oficiais que vão ao palácio do governo prender o general Bettencourt Rodrigues, há um capitão Saiegh que era um oficial dos comandos.
(...) A questão do batalhão de Comandos e do Folques: o [major] Folques estava lá desde Maio/Junho de 1972. Mas batalhão de comandos na Guiné é constituído no início de 1973 e é Bruno que vai comandar. O Folques vai comandar a seguir, quando Bruno se foi embora, aliás, com o general Spínola. Comandar uma unidade daquelas é comandá-Ia militarmente e é também ter uma noção do que é, ou do que era, o papel político que aquela unidade representava; e era ter também uma noção daquilo que eram os próprios guinéus que ali estavam. Estas unidades tinham um valor combativo, que era um determinado valor, tinham um valor político, que era um outro valor, e tinham contradições graves.
(...) Os comandos africanos tinham talvez uma percentagem maior de gente urbanizada, da ilha de Bissau, papéis, tinham alguns balantas bons, tinham depois alguns grupos mais estruturados de felupes, e tinham também depois uns grupos, uma percentagem relativamente elevada de fulas. Essas unidades foram metidas em situações de combate muito violentas, com baixas muito grandes, e criando uma desconfiança enorme naqueles combatentes negros, relativamente aos comandantes brancos; eles passaram por experiências muito más, algumas com o Alpoim Calvão (como a da [operação Mar Verde na] Guiné-Conacri), outras do antecedente, porque havia gente que estava a combater naquela altura, em 1974, que andava a combater desde 1963, desde o início da guerra, portanto, homens com quase quarenta anos, e dez, doze anos de guerra. Essa gente, ao contrário daquilo que se pensa, tinha um pensamento político. As contradições étnicas na Guiné obrigam a que os grupos étnicos tenham consciência deles próprios, tenham consciência das relações de aliança e das relações de oposição; os fulas sabem com quem se aliam, os balantas sabem com quem se aliam e quem são os inimigos, toda aquela gente pensa politicamente. E eles têm uma relação muito fina e sofisticada com os europeus e com os colonos. Isto só para dizer que eles, quando o 25 de Abril ocorre, eu da minha parte, quer eu, quer o Baptista da Silva, que estávamos envolvidos neste processo, envolvemos sempre os oficiais que comandavam directamente as tropas, nomeadamente, os comandos.
Manuel de Lucena
E o Marcelino da Mata?
Coronel Matos Gomes
O Marcelino da Mata é outra história. Os comandantes das unidades de comandos, esses africanos que comandavam as suas unidades, nós envolvemo-los sempre nesse processo e o representante deles era o Saiegh. O Saiegh era um homem que tinha o 5° ano do liceu, feito a tropa cá em Portugal, tinha estado em Santarém e tinha estado em Tavira, tinha um irmão que era furriel dos comandos, que era jogador de futebol da Académica de Bissau e era do PAIGC. A mulher dele era professora da escola secundária e também era do PAIGC. O tio, o Fidélis Almada, era dirigente do PAIGC, e é um misto de libanês também; e o outro, o Sisseco, é meio-primo do Nino Vieira, e de uma etnia de que há muito pouca gente. Quando se deu o 25 de Abril, o Saiegh, dentro daquela política que a Guiné ia ser para os quínéus, achou que não devia ter confiança no Folques, entendeu que não era por ali que as coisas funcionavam. Quando o Folques deu ordem ao batalhão para ir fazer a tal operação que estava planeada para se realizar no Sul, aí as coisas já não eram assim; aquela gente entendeu que o comandante não podia entrar no batalhão. Isto leva a que depois se faça uma reunião com o general Mateus da Silva, que era o encarregado do Governo, com o comandante-chefe que era o almirante, e teve de se arranjar uma solução, porque se aquela unidade entrava em descontrolo (em desequilíbrio já ela estava), a situação na Guiné passava a ser verdadeiramente complicada. Isto leva a que se tenha que encontrar uma solução, e a solução foi tirar esse comando e eu ficar transitoriamente ali assim.
Manuel de Lucena
Quanto tempo ficou nesse comando?
Coronel Matos Gomes
Cerca de mês e meio.
General Mateus da Silva
(Eduardo Mateus da Silva: Engenheiro militar da Arma de Transmissões. Chega à Guiné em Junho de 1972, como tenente-coronel. Membro do MFA desde os primórdios. Encarregado do governo da Guiné, depois do 25 de Abril.)
Sobre esse caso convém acrescentar o seguinte. Foi das coisas que mais me incomodou na Guiné, até porque o Folques era da minha terra, somos amigos de infância, tinha uma relação muito próxima com ele e ele, de facto, não merecia isso porque é um militar brilhantíssimo. Mas eu julgo que ele tinha uma certa dificuldade em compreender as subtilezas da situação naquela altura e então forcei um bocado até conseguir convencê-lo a aceitar sair do batalhão de comandos. Felizmente, aconteceu uma situação em Bolama: um batalhão que tinha chegado da metrópole, que devia ir para uma zona do Sul da Guiné, recusou-se a sair de Bolama; os militares diziam que a guerra já tinha acabado, não tinham nada que sair de Bolama. Então o Folques ofereceu-se para ir lá pegar no batalhão e levá-lo. O comandante do batalhão, era um tipo de artilharia [ ... ]. Chega lá todo infeliz a Bissau, a dizer: «Eles não querem ir». E o Folques vai lá, a um batalhão que ele não conhecia, não tinha qualquer contacto com os soldados e com a personalidade deles, pega no batalhão e leva-o ao sítio. Não houve problemas nenhuns.
(...)
José Manuel Barroso
(José Manuel Barroso: Jornalista. Capitão miliciano na Guiné de Julho de 1972 a Maio de 1974. Colaborador directo do general Spínola, na Guiné. Membro do MFA da Guiné.)
…Ficou muito claro, poucos dias depois do 25 de Abril. E tão claro fica que os comandos africanos verificam rapidamente que o poder já não está aqui, o poder vai ser outro, e vão rapidamente a Conacri tentar negociar o seu estatuto e a sua situação com aquele que era, obviamente, o poder emergente.
(...)
Coronel Florindo Morais
Florindo Morais: Vai para a Guiné, como major, nos primeiros dias de Junho de 1974, sendo o último comandante do batalhão de Comandos Africanos na Guiné e regressa na véspera da independência
Foi um período curto o que vai desde os primeiros dias de Julho até à véspera da independência. Mas foi um período vivido muito intensamente e - é interessante - também com alguns riscos. O período era de tal maneira conturbado e não se sabia bem onde é que estava o poder que, a certa altura, eu senti receio. Senti mais receio nalguns dias ou nalgumas noites desse período do que propriamente em combate. Mas antes de entrar nalguns factos que me parecem importantes, eu gostava de definir a minha posição sobre o que penso da descolonização, em termos muito gerais. A descolonização que nós tivemos, há quem diga que foi boa, há quem diga que foi má. Acho que foi a possível, e foi a possível naquelas circunstâncias. Eu penso que a descolonização poderia ter sido muito melhor, se tivesse sido feita em tempo de paz, não-revolucionário, por exemplo, dentro do período de governação marcelista. E porquê? Primeiro, porque o potencial humano militar (os quadros, as condições sociais) estava esgotado. Não vale a pena escamotear, tinha atingido o limite. Uma percentagem esmagadora das subunidades importantes na quadrícula, que eram as companhias, eram em cerca de 90% comandadas por milicianos, capitães milicianos, feitos à pressa, à força, com toda a boa vontade mas com uma impreparação nítida - que isto não seja [visto] com desprezo. O potencial humano, portanto, estava esgotado. Os oficiais do quadro eram muito poucos, estavam cansados e muitos estavam pelas repartições; no comando efectivo das tropas, no terreno, havia uma pequena percentagem. As forças especiais eram aquelas que, apesar de tudo, dispunham ainda de quadros permanentes no comando das suas tropas, portanto aí uma vantagem que essas tropas tinham. Por outro lado, a descolonização não foi melhor porque houve falta de força. Só era possível ter feito esta descolonização de uma forma muito melhor se a tropa continuasse no terreno, continuasse a combater e continuasse a morrer. Depois do 25 de Abril, não era possível mentalizar um soldado, era muito difícil, muito difícil, um soldado, um oficial, um sargento de que tinha que continuar a morrer, de que tinha de continuar a combater porque aqui saía todos os dias nos jornais, todos os dias havia manifestações [em que se dizia]: «Nem mais um soldado para as colónias»! Algumas unidades, nalgumas colónias, pura e simplesmente, punham o saco às costas e apresentavam-se no cais, como aliás chegou a acontecer em Bissau, apresentaram-se no cais [a dizer]: «Acabou o nosso tempo, queremos embarcar»; «Acabou a guerra, queremos embarcar». Era muito difícil manter nesta situação a força suficiente para poder negociar a descolonização.
... Concretamente, quanto ao batalhão de comandos. Eu fui apanhado um bocado à pressa, de um dia para o outro, e lá fui. Quando lá cheguei, o então capitão Matos Gomes fez-me um ponto da situação, que obviamente não era brilhante, porque havia grandes preocupações por parte dos oficiais que lá estavam. Havia oficiais naturais da Guiné, cabo-verdianos, e europeus. As companhias de europeus regressaram de imediato: uma estava a acabar [o seu tempo], a outra estava formada ou tinha acabado de chegar, creio que estaria uma em substituição da outra, mas vieram as duas de imediato [para a metrópole] passados poucos dias, e ainda bem. Importa reconhecer que foi uma medida acertada, fazer regressar, de imediato, a Lisboa as companhias de comandos brancas, porque o processo, com eles lá, talvez tivesse sido muito mais complicado. Davam-nos, por um lado, uma segurança maior, uma força maior, uma capacidade negocial maior ao comandante-chefe para poder negociar; mas também poderiam ter provocado atritos, com consequências muito graves. Aquilo era um barril de pólvora, a qualquer momento, podia deflagrar um conflito muito grave, que emperrasse todo o processo de descolonização. A primeira curiosidade que surgiu, recordo-me... Fiz a primeira reunião de oficiais, a grande maioria era de cor, cabo-verdianos e uma pequena percentagem de guinéus. Eu fiz a apresentação da praxe e respondeu o capitão Sisseco ou o Saiegh, não me recordo bem: «Nós também temos muito prazer em tê-lo cá como comandante, nós os futuros coronéis da Guiné». E eu aí fiquei aterrado, sem pinta de sangue. A partir daí apercebi-me da situação que era grave, porque eles diziam: «O general Spínola prometeu a Guiné para os quinéus, para nós que estávamos aqui a combater; queremos que o general Spínola venha cá fazer-nos a entrega». Era assim que eles diziam. Claro que nem era politicamente conveniente o general Spínola lá ir, como aliás não foi, nem essa entrega era possível, nem eles seriam nunca coronéis. Era preciso mentalizá-los de que eles, a partir dali, eram civis, teriam de ir para a vida civil! E então foi um período muito engraçado. Começávamos às 8 da manhã em reunião e acabávamos às 2 ou 3 da manhã, quando já ninguém aguentava mais discussões deste tipo. Procurávamos informar qual era a situação na Guiné e qual seria o futuro deles e meter-lhes naquela cabeça que eles, coronéis, não podiam ser. Isto foi correndo. Há aqui também um aspecto interessante a realçar. Havia várias tropas nativas (milícias e tropas militares regulares) e havia umas tropas assim esquisitas. E as tropas foram muito claras e disseram: «Nós só desmobilizamos quando os comandos [africanos] o fizerem, nós só entregamos as armas quando os comandos o fizerem».
General Mateus da Silva
Desculpe interromper. Eram cerca de 20 mil, as milícias. As armas distribuídas e as companhias africanas, na Guiné, não eram um problema pequeno!
Coronel Floriano Morais
Houve aqui uma responsabilidade grande e um perigo que se correu. A certa altura, eu senti que estava entre dois fogos: entre o fogo do Governo e do comando-chefe e o fogo que eram os comandos e as próprias tropas naturais, que faziam o que os comandos quisessem. Houve que tomar uma decisão; eu corri riscos e tomei-a. Entretanto começaram a circular papéis, eu chamei-os lá e disse: «O português disto está um bocado incorrecto. Eu não gostaria que os oficiais do batalhão emitissem papéis sem que pelo menos o português seja correcto. Além disso não queria que saísse desta unidade nenhum papel que não fosse assinado por mim, ou pelo menos, levasse o meu visto». Corrigindo os primeiros papéis que eles quiseram fazer, começaram a ter o meu visto. Isto deu-me a possibilidade de ir tendo informação do que eles iam fazer e, por outro lado, de ir procurando, de alguma maneira, amolecer e contornar as coisas.
Mas o risco que se viveu nessa altura foi a constituição de uma terceira força: os comandos podiam ter constituído uma terceira força, estiveram na eminência de o fazer, o batalhão de comandos e toda a tropa de naturais da Guiné. Esta terceira força ia intercalar-se, ia ficar no meio entre o PAIGC e o próprio governo português, o próprio comando militar português. Isto deu [azo a] algumas incompreensões do próprio comando-chefe português e deu algum trabalho a desmobilizar. Recordo que a certa altura eu e o meu 2° comandante, o Glória Alves, recebemos uma ordem para começarmos a entregar as armas. Só que era difícil, porque eles não as davam! Eles não as davam! E então, as armas foram entregues de uma maneira muito engraçada. Foram entregues ao fim-de-semana, dentro de armários metálicos. Carregávamos armários metálicos nas viaturas e íamos entregá-los ao quartel-general, armários metálicos que, por acaso, iam cheios de armas. Todas as colunas iam sob o comando do 2° comandante, o Glória Alves. Um dia, o sentinela apontou-lhe a espingarda e disse: «Não sai, meu comandante.» Ele, que é gago, começou a gaguejar, o soldado não percebia o que ele estava a dizer e ele portou-se com grande coragem e saiu mesmo

4 de agosto de 2011

226-Adriano Moreira

«Um dia, Salazar chamou-o para o desafiar a pôr em prática as críticas que vinha formulando à política ultramarina do regime. Três anos antes, chegado de Nova Iorque, onde participara na 11 sessão da Assembleia Geral da ONU na qualidade de representante do Ministério do Ultramar, Adriano Moreira alertara o regime para a inevitabilidade da batalha “que se travará em África, com os meios de propaganda, de infiltração subversiva, de descrédito e (…) de sedição”.Aceite o seu programa de uma “autonomia progressiva e irreversível”, legisla a um ritmo frenético: estatuto do indigenato, lei das terras, código do trabalho rural, estudos gerais universitários. Dois anos mais tarde, Salazar volta a chamá-lo, mas agora para lhe dizer que é necessário “mudar de política”. Ao que replica, de imediato: “Acaba de mudar de ministro.” Mais de três décadas passadas, ainda acredita que o império português era um caso especial, a requerer uma solução diferente. Considera um erro a inflexão de Salazar (“um centralista, que temeu perder o controlo administrativo dos territórios ultramarinos”) e admite que se ele tivesse convencido de que uma III Grande Guerra era inevitável, pelo que se impunha a manutenção do império. Reserva os piores adjectivos para a descolonização, “uma debandada sem precedentes na História”. O que não o impede de considerar hoje viáveis os novos países. Licenciado em Direito com 21 anos, advogado da Standard Eléctrica aos 23, a frustrada experiência governativa, aos 40 anos, encontrou-o e deixou-o a leccionar no ensino superior. (“Nunca estive de acordo com a prática do anterior regime – e que infelizmente parece também ser deste – de fazer circular o pessoal político entre as cadeiras do governo e das administrações das empresas.”) Orgulha-se de ter convocado o último plenário do conselho ultramarino da História de Portugal e de ter animado já fora do Governo, a realização do I e do II congressos das Comunidades de Cultura Portuguesa. Admira Churchil e o bispo da Beira, Sebastião de Resende, cujas mensagens e homilias (algumas defendendo medidas que protagonizou quando ministro) acaba de compilar e prefaciar no livro “Profeta em Moçambique”, que foi a Roma, esta Páscoa, oferecer ao Papa. O CDS constituiu a sua única experiência partidária. Hoje com 72 anos, espero ansioso que avancem em definitivo os Estudos Gerais da Arrábida – um projecto seu para a cooperação com os PALOP e as comunidades portuguesas no estrangeiro. “A minha velha paixão”, diz, com o entusiasmo que costuma ter quem está realmentea paixonado.

Público – Podia ter sido de outra maneira o que aconteceu nas ex-colónias portuguesas de África? 
ADRIANO MOREIRANão vale muito a pena tentar averiguar o destino do mundo se o nariz de Cleópatra tivesse sido diferente e feio…

P. – Mas o senhor viveu por dentro o que se passou…
R. – Churchil (líder que muito admirei) disse no acto de posse que não tinha sido nomeado para presidir à liquidação do império britânico, e não tinha sido nomeado para outra coisa… Já nessa altura Portugal era um país exógeno, isto é, dependente da pressão de factores externos. Provavelmente a perspectiva portuguesa, durante muitos anos, foi a de conseguir que a Guerra de 1939 – 45 se resolvesse de acordo com o método antigo da balança de poderes: vencer o perturbador da ordem internacional (o Eixo, naquele caso) e depois recuperá-lo para a restauração da ordem antiga. E até talvez (trata-se de uma hipótese, apenas) houvesse no governo quem entendesse, como [o ex-Presidente dos EUA [Richard] Nixon, que a III Grande Guerra era inevitável, o que tornava útil para os aliados a manutenção das estruturas portuguesas.

P. – Quando aceitou o convite para ministro do Ultramar, mais de metade dos africanos viviam já em territórios descolonizados. Salazar não compreendia os ventos que sopravam no mundo?
R. – É precisamente por isso que vale a hipótese explicativa da crença na utilidade da estrutura portuguesa. Os factos, contudo, rapidamente demonstraram que ela não tinha fundamento.

P. – Qual era o seu programa de acção?
R. – Iniciar um processo acelerado de reformas que recuperasse o tempo perdido, de modo a encontrar um novo equilíbrio dentro da mesma área a que chamávamos “lusíada”. Daí as medidas que tomei: a revogação do estatuto do indigenato, os códigos das terras, do trabalho rural e da administração da justiça, o desenvolvimento do aparelho do ensino, sobretudo liceal, a institucionalização das universidades…

P. – Amílcar Cabral, por exemplo, estendeu por diversas vezes um ramo de oliveira a Portugal e o regime nunca respondeu.
R. – Cabral nunca teve contacto comigo, ao contrário de Mondlane, a quem encontrei na ONU. Ouça bem, eu quando saio do Governo é porque me dizem que é preciso parar as reformas, porque o poder central estava a sair enfraquecido das autonomias. Houve um segundo factor: o mito da guerra ganha. Dissera-se à tropa para aguentar pela solução política e agora surgia a ideia de que ganháramos a guerra.»

Entrevista de Adelino Gomes 
In o “PÚBLICO” de Sábado, 22 Abril, 1995

225-A situação na Guiné era insustentável

Alguém recomendou a consulta do site www.ahs-descolonizacao.ics.ul.pt/guine.htm. Segui o conselho e fui ver. Trata-se da página do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e que, neste particular, se refere à descolonização da Guiné. Transcreve os debates havidos nos chamados “Estudos Gerais da Arrábida” sobre esta matéria. Maravilhoso, duplamente maravilhoso! Quem me dera lá ter estado… por duas razões: primeiro para poder usufruir da bela paisagem da serra da Arrábida, que ainda não conheço;
 segundo por poder ouvir quem esteve por dentro dos meandros da guerra, quem dela teve uma visão global, quem conviveu com os decisores.
Eu, alferes cercado pela mata do Oio ou de Sambuiá, sofredor de ataques e emboscadas, executor de acções e operações por outros decididas, testemunha de mortes de camaradas por causa delas, obrigado a ter que matar para não morrer… teve de ser. Sofrimento e dor, suor e sangue, pensar em viver… sem ideologias. Alguns tinham-nas, sei, mas a maioria acho que não. As posições actuais dos que as tinham não me admiram, é natural, são coerentes. Só me espanta é a convicção cerrada daqueles que falam da guerra na Guiné sem dela terem conhecimento directo. Mas tá bem, estamos num país livre (ainda bem) onde todas as asneiras são possíveis.
O primeiro debate que li foi o do painel de 29 de Agosto de 1995, com o General Mateus da Silva, o Coronel Matos Gomes, o ex-Capitão Miliciano José Manuel Barroso e o Coronel Florindo Morais. É extenso, como todos os debates foram, não é razoável pô-lo todo aqui (mas quem quiser pode seguir o conselho e lê-lo por completo no site acima referido) e vou só respigar alguns aspectos que têm a ver com o tema que coloquei como cabeçalho.

Eis o que dizem estes homens:

General Mateus da Silva
(Eduardo Mateus da Silva: Engenheiro militar da Arma de Transmissões. Chega à Guiné em Junho de 1972, como tenente-coronel. Membro do MFA desde os primórdios. Encarregado do governo da Guiné, depois do 25 de Abril.)
0 que estava em jogo em Angola e Moçambique era incomparavelmente mais importante, mas foi na Guiné que tudo se decidiu. Marcelo Caetano estava mesmo disposto a aceitar um colapso militar na Guiné, para não perder a face (na sua lógica de que todos os territórios coloniais eram igualmente parcelas de Portugal) e assim poder concentrar todos os esforços nas duas províncias mais vastas e mais ricas. Mas foi talvez esta lógica de político sem visão que despertou a consciência dos militares. Para os militares, a quem já uma vez os políticos tinham apresentado ao país como culpados pela perda de Goa, Damão e Diu, era inaceitável suportarem o vexame de serem novamente responsabilizados por um colapso na Guiné, onde a guerra era total, o conflito militar era mais duro e violento, e onde, ao mesmo tempo, a luta pela conquista e adesão das populações pelas ideias e pelo espírito era mais agressiva. «Ao contrário do que se passava em Angola e Moçambique, onde, longe do teatro de operações, a vida decorria com normalidade, na Guiné, ninguém podia ficar indiferente: a guerra ouvia-se, sentia-se, vivia-se com intensidade e com dramatismo.
Na Guiné defrontámos um adversário superior que agiu com determinação e com inteligência; que não forçou uma vitória militar, porque precisava de tempo para criar uma consciência e identidade nacionais, num mosaico de culturas e raças, mas que soube jogar com o apoio internacional, com uma máquina de propaganda eficaz e com o aumento progressivo da pressão militar.
Na Guiné, os interesses económicos em jogo cedo perderam expressão e, por isso, apenas sobrava o confronto sem sentido entre povos e raças.
Na Guiné, tarde demais, tudo se tentou generosamente para recuperar o atraso e injustiça de séculos.
Na Guiné, que exigia os melhores e que depois os devorava: uns tombaram, outros foram irreversivelmente transformados.
Para servir na Guiné, eram escolhidos e convidados pelo então Governador e Comandante-chefe, general Spínola, aqueles que ele considerava os melhores oficiais, principalmente com provas dadas na área operacional e que mais tarde foram preponderantes na eclosão do 25 de Abril. 
...
Ele [Bettencourt Rodrigues] sabia muito pouco. Há uma história que demonstra a forma diferente do general Bettencourt Rodrigues exercer a sua função de comando, como comandante-chefe. O general Spínola falava com muita facilidade à hierarquia, até cá abaixo. Qualquer capitão podia muito facilmente obter acesso ao general Comandante-chefe. Portanto, estes circuitos funcionavam quase em ligação directa. Ao passo que o Bettencourt Rodrigues, até por questões de feitio pessoal e de formação militar e profissional, como oficial de Estado-Maior, a primeira acção que lhe corresponde como comandante-chefe é cortar essa ligação, e coloca um fusível na ligação, que era o seu Chefe de Estado-Maior, o coronel Hugo Rodrigues da Silva, passando a ser impossível um comandante de uma unidade falar com o comandante-chefe ou com outro operacional. Tudo passava pelo coronel Chefe de Estado-Maior. Para os comandantes das unidades, habituados a negociar concretamente com Deus Nosso Senhor, as coisas passaram a ser muito complicadas e a reacção é deste género: «Bom se ele não quer saber, não sabe e pronto!» E passa a saber muito menos coisas. Além de não saber aquilo que era o estado de espírito, passa a não saber também coisas [concretas] essenciais.
(...)
José Manuel Barroso
(José Manuel Barroso: Jornalista. Capitão miliciano na Guiné de Julho de 1972 a Maio de 1974. Colaborador directo do general Spínola, na Guiné. Membro do MFA da Guiné.)
Outro dia, ao telefone, o general Mateus da Silva dizia-me, e com razão, que uma das coisas que nós não fizemos no 25 de Abril, quando tomámos o palácio do Governo em Bissau, foi tentar ficar com a documentação do general Bettencourt Rodrigues. Pensamos que se perdeu toda uma série de comunicações entre ele e o Marcelo Caetano [ ... ]. Eu penso que o general Bettencourt Rodrigues (eu continuei a lidar com ele, não do modo como lidava com o Spínola, mas quase diariamente) tentou aguentar o que estava, não quis fazer grandes alterações, criar grandes problemas, grandes conflitos. Tentou aguentar o que estava em função das instruções que levava. Simplesmente, o que sucede, quando o general Bettencourt Rodrigues lá chega - e até pelo facto do general Spínola regressar à metrópole -, é que havia já um desencanto total em relação à evolução. Quer dizer, a própria retirada do general Spínola do terreno de operações (e do poder político na Guiné) significou, para a grande maioria dos oficiais, não só [para] os que conspiravam lá abertamente, quer fossem spinolístas ou não, mas também [para] os próprios milicianos, uma forma de dizer: «Isto não tem safa, tem que haver uma outra evolução qualquer». Ou: «O próprio Spínola já não tem qualquer hipótese e vai-se embora.» Pelo general Bettencourt Rodrigues, havia respeito, não era da «brigada do reumático». Mas ele era um corpo estranho.
(...)
Coronel Matos Gomes
(Carlos Matos Gomes (n. 1946) Oficial dos Comandos, comandante de Tropas Nativas Especiais. Em Moçambique, participou na operação "Nó Górdio", Fez a sua missão na Guiné de Julho de 1972 a fins de Junho de 1974. Pertenceu à primeira Comissão Coordenadora do Movimento dos Capitães na Guiné. Foi membro da Assembleia do MFA.
Eu combati em Angola, na Guiné e em Moçambique. A Guiné tinha particularidades que, aliás, foram aqui mencionadas. E esta «política da Guiné melhor», do general Spínola, tinha obviamente reflexos na sociedade civil da Guiné e reflexos também nas orientações que eram dadas às unidades militares. Uma das questões, que era dramática e muito difícil de executar por parte das unidades militares, eram algumas missões em áreas que se chamavam «a céu descoberto», zonas que tinham populações que obviamente tinham contactos com o PAIGC, e onde as forças armadas portuguesas iam com algumas dificuldades, onde não era permitido, quer à artilharia portuguesa, quer à aviação portuguesa fazer bombardeamentos, isto é, quando lá se colocavam unidades sabia-se que não teriam esses apoios de fogo, e era um relacionamento muito, muito difícil. A que é que isto obrigava? Obrigava a que, quando havia contacto ou quando a unidade fazia prisioneiros, esses prisioneiros eram bem tratados, isto é, eles eram considerados como elementos que interessava utilizar na acção psicológica a fim de que naquela zona pudessem dizer bem de nós. Daí que não vou dizer que não tenha havido casos de eliminação de prisioneiros, porque esta guerra, a guerra de Portugal em África, foi exactamente igual às outras, com todos esses problemas, sérios e complicados, de violência. Mas na Guiné havia esse extremo cuidado. Entre os prisioneiros políticos, havia políticos ligados ao PAIGC, alguns sindicalistas e alguns elementos que desertavam, e isso acontecia com alguma frequência - militares da Guiné que desertavam na tentativa de ir para o Senegal ou para a Guiné-Conacri, e na tentativa de irem para o PAIGC.
(...)…embora com o general Bettencourt Rodrigues o ritmo das operações tivesse diminuído, não só por vontade dele, por uma opção táctica sua, mas já por dificuldades militares estruturais.
(...) Havia mais do que isso. Nós sabemos que, nessa unidade de comandos e nos fuzileiros negros, havia elementos do PAIGC...
Manuel de Lucena [moderador]
E havia oficiais guinéus? 
Coronel Matos Gomes
Nos fuzileiros, não. Os oficiais eram todos europeus. Nós sabíamos que, nestas unidades, havia elementos do PAIGC. Sem nenhuma dúvida. Por confirmações da PIDE e quase por conversas. Era relativamente frequente os sargentos e oficiais guinéus falarem com os oficiais europeus sobre as emissões do PAIGC na rádio Conacri.
Luís Salgado Matos [moderador]
Então como é que podiam ter a certeza de que o PAIGC não sabia das operações? Se lá tinha pessoas infiltradas...
Coronel Matos Gomes
Que não sabia? Às vezes nem nós próprios sabíamos. As operações, desde que as coisas estejam montadas para se iniciarem muito rapidamente... 
Luís Salgado Matos [moderador]
Mas essa não. Tinha três dias de preparação. Três dias já dava para preparar... 
General Mateus da Silva
Mas não sabiam o local para onde iam
Coronel Matos Gomes
Uma unidade daquelas... por causa dessa de ter várias alternativas tivemos azares complicados com as fintas de dizer vai para a esquerda e depois o engano foi nosso e nós acertámos no sítio onde não queríamos. Mas isso acontecia. Desencadear boatos de que íamos fazer aqui ou acolá e... pronto, as coisas não funcionavam. E, a partir do momento em que se combatia, combatia-se. Aliás, o combate na Guiné era uma técnica complicada... Embora houvesse muitas baixas... Mas nós sabíamos que havia militares que eram do PAIGC e estavam ali assim, sem nenhuma...
(...)
Coronel Matos Gomes
…a situação, que era muito difícil e obrigava a que todos nós nos encontrássemos e as ideias circulassem com muita facilidade; a dureza da situação e a dificuldade da situação militar obrigando a que os militares que lá estavam equacionassem o futuro. A questão que se punha na Guiné era a da resolução efectiva de uma situação que nós achávamos que não tinha saída militar e isso é tão mais interessante quanto se verifica que essa ideia é assumida por militares que poderiam continuar a combater lá. Em termos políticos e em termos militares era possível, aos oficiais e às restantes unidades (aos pára-quedistas, aos comandos, aos fuzileiros e à Força Aérea) dar uma ideia de presença efectiva sobre o território durante muito tempo: nós tínhamos um porto onde poderíamos sempre ser reabastecidos, que era Bissau. Se garantíssemos quatro ou cinco pontos fortes: se garantíssemos a presença em Bissau, em Bafatá, em Nova Lamego, em Teixeira Pinto, em Aldeia Formosa, as coisas poderiam manter-se e nós tínhamos essa ideia. Mas sabíamos que isso não correspondia a nenhuma alternativa credível.
(...)
Era fundamental para as forças portuguesas na Guiné ter o apoio aéreo e isso era possível. Mas problema que se punha na Guiné era o problema colonial de fundo, era que aquela guerra ali estava de facto perdida. Daí que tenha sido na Guiné que surgiram praticamente todos os oficiais que vão desempenhar um papel decisivo no MFA aqui em Portugal, desde o general Spínola a todo o seu grupo, até depois a militares como o Casanova Ferreira, o Manuel Monge, o Salgueiro Maia, o Otelo, toda a gente, porque é ali que se vê que a questão colonial, a guerra, não tem saída; e a Guiné é até um laboratório importante de análise daquilo que acontece aqui em Portugal, porque os factos da tomada do poder e o golpe já referido pelo general Mateus da Silva - que foi de facto um golpe muito autónomo relativamente ao golpe do 25 de Abril - revela uma coisa interessantíssima: é que aquele golpe da Guiné foi feito sem o grupo dos spinolistas. 
(...)
Não, nunca houve pânico. A seguir aos mísseis, houve um período de cerca de 30 dias ou um mês e meio em que não se realizaram grandes acções aéreas, movimentos aéreos, mas mesmo assim continuou-se a voar, de helicóptero, cá para baixo no Sul. Encontraram-se outras formas de actuar e as coisas passaram a funcionar. Houve problemas muito sérios no Norte, em Guidage e, depois cá em baixo, em Guileje, o que para nós era o indício de que, em termos militares, a situação na Guiné estava perdida. É que as forças regulares já não tinham capacidade para acorrer a dois pontos críticos ao mesmo tempo. A partir do momento em que o PAIGC desencadeou uma acção muito importante no Norte, em Guidage, e desencadeou outra cá em baixo no Sul, em Guileje, as Forças Armadas portuguesas já só tinham capacidade de resolver um problema. Não era possível manter uma situação a este nível.
(...)
Guidage é a última grande operação do general Spínola, em Maio ou Junho de 73. A única grande operação que o general Bettencourt Rodrigues lançou foi em Canquelifá, em Fevereiro [de 1974] e já foi uma operação nitidamente defensiva, para manter um ponto forte ali assim, um ponto forte que já era um ponto fraco.
(...)
Eu penso que não é necessário justificar a situação de ruptura, a situação militar de ruptura, na Guiné, com a falta do apoio da Força Aérea, nem com a questão dos mísseis. No início das guerras, são as guerrilhas que tentam destruir obras de arte [militar] e obstruir os movimentos das tropas regulares. Na fase final da Guiné, ali na zona de Bambadinca e depois cá em baixo, em Bedanda, já eram as forças portuguesas que se defendiam a destruir pontes, para o PAIGC não se poder aproximar com as viaturas de lagarta e meia-lagarta de que já dispunha.
Isto foi uma alteração completa da situação e justificou que, efectivamente, não houvesse outra solução senão terminar a guerra.
(...)
José Manuel Barroso
…E a Guiné, de certo modo, é emblemática, sob vários pontos de vista. É emblemática na medida em que as pessoas, os militares, que claramente conspiravam no interior, desde muito cedo, entendiam (e falo sobretudo desde 72) que em nenhuma circunstância eles permitiriam que a Guiné se transformasse numa segunda Índia, ou seja, eles não deixariam, mesmo que tivessem que actuar contra a metrópole, contra o poder local, não deixariam as forças portuguesas serem humilhadas.
 (…)
Quando o PAIGC intensifica a pressão e há problemas sérios, o Spínola começa a querer que nas notícias venha exactamente o número de mortos e de feridos que nós temos. Enquanto no início tínhamos três mortos e oito feridos e ele dizia «Eh pá, ponha só um», a partir do momento em que a situação, do ponto de vista militar, se agravava substancialmente e em que de Lisboa não havia nenhuma resposta política, ele dizia: «Não senhor, é exactamente o que sucedeu». E as notícias assim vinham.
… da tentativa que ele faz de chegar a um acordo com o Amílcar Cabral através do Senghor. Portanto, quando ele começa a perder toda a confiança e todas as esperanças na capacidade de Marcelo de fazer evoluir as coisas. São os dois momentos chave.
Coronel Matos Gomes
Mas não havia dúvidas para quem, por exemplo, estava no terreno a combater de que o relacionamento entre o comandante-chefe e o presidente do Conselho de Ministros era péssimo. E de que esse relacionamento era péssimo porque eles tinham soluções completamente distintas para a resolução do problema da guerra e do problema colonial.
General Mateus da Silva
No princípio de 73, não me lembro bem, houve uma festa, na companhia de Bula, do Salgueiro Maia... Era o Dia da Cavalaria. Eu estive presente, o Matos Gomes também, e fiquei surpreendido porque houve ali uma sessão musical, na qual participaram furriéis e alferes milicianos, e o Salgueiro Maia, a cantar as músicas do Zeca Afonso. E estava presente o [coronel] Dias de Lima, que era um dos braços direitos do general Spínola. Primeiro, fiquei surpreendido com aquilo, que mostrava a ligação entre oficiais do quadro e milicianos. Estão a ver o que era o ambiente numa companhia no mato, em que se fazia isso, mas com toda a naturalidade! O Dias de Lima ficou muito ofendido. Eu tenho a sensação de que ele ficou ofendido, não tanto pelo aspecto político, mas mais porque ele considerava promiscuidade militar. Fez uma participação ao general Spínola que ficou incomodado com aquilo, porque não estava interessado que aquilo tivesse algum efeito. Eu fui pessoalmente ouvido nesse auto, como testemunha, e defendi, obviamente, o Salgueiro Maia e minimizei tudo o que se tinha passado. O resultado foi que o general Spínola mandou arquivar o auto e não aconteceu nada. Chamou o Maia e deu-lhe assim uma descompostura de circunstância e não aconteceu nada. É só para mostrar que em 23 de Junho de 73, aconteciam coisas destas na Guiné, numa companhia no mato, com a maior naturalidade. 
(...)
José Manuel Barroso
Não exageremos. O que eu quis dizer simplesmente é que, quando foi do Congresso dos Combatentes, nós mantínhamos uma informação e, através dessa rede e com mais gente em Bissau, conseguiram-se também n assinaturas de milicianos, 400 e tal, de protesto contra o Congresso. O que eu queria dizer também com isso é que, na fase em que se discutia a hipótese de uma actuação se em Lisboa não se fizesse nada e a situação se tornasse insustentável, nós contávamos claramente também com essa rede de companhias comandadas por milicianos. De facto, nós, Forças Armadas, tínhamos, para além do que já disse o Matos Gomes e o Mateus da Silva, uma organização no terreno que tinha um poder militar efectivo.
(...)
Coronel Matos Gomes
A grande questão que se passa na Guiné é [haver] uma grande densidade de militares e a situação militar [ser] sem saída. Primeiro, o discurso do general Spínola de que tinha de haver uma solução política é um discurso que passa muito bem. Porquê? Porque não havia solução militar. O discurso do general Spínola em Angola não era possível porque as coisas corriam relativamente bem. Na Guiné não, as coisas corriam muito mal e cada dia pior. De maneira que o discurso e a tomada de posições que promovessem uma saída política, quer na Guiné, quer aqui (e sabia-se que a solução tinha de passar por Lisboa) passava. Agora, na Guiné, havia a disponibilidade de toda aquela força para participar na alteração, e não era necessário grande sofisticação ideológica. Era dizer assim: «A guerra não tem solução, o regime não dá outra solução que não seja a guerra, de maneira que é necessário derrubar o regime». Isto era tão primário quanto isto. A maior parte dos militares entra neste processo com estas premissas básicas.
(…)
E é já nesta altura, no Verão de 73, que na Guiné se apresenta uma situação que deriva daquele estudo de situação que referiu há pouco: «A situação na Guiné é insustentável». Porque neste Verão, Julho/Agosto de 73, foi a altura em que houve a grande crise no norte, de Guidage, e o chamado abandono de Guileje, em que as Forças Armadas portuguesas na Guiné já não tinham capacidade de resposta. Portanto, o problema era dramático, em termos de situação militar, na Guiné.
(...)
Setembro de 73. Ora, em Julho de 73, já andavam militares da Guiné a explicar, quer ao regime, quer à oposição, que a situação da Guiné era insustentável. Já os militares da Guiné tinham tido a consciência de enviar cartas dirigidas desde o Presidente da República ao ministro da Educação e ao ministro da Defesa. Já se tinha conseguido que na Guiné os militares dos quadros permanentes se tivessem quotizado para contratar um advogado para defender o Coutinho Lima, o tipo que comandava Guileje. O advogado dele era o irmão do tipo que foi primeiro-ministro, o Palma Carlos. Esse é que foi o advogado e foi lá. Portanto, já havia esse tipo de consciência. Na Guiné a situação é esta.
(…) A questão que se coloca é que, num determinado momento, um conjunto de militares estava na Guiné e é confrontado com uma situação sem saída. Digamos que já tinha dos seus antecedentes um conjunto de experiências anteriores, que lhe permitia fazer comparações: «Isto em Angola é assim, em Moçambique é assado, agora isto tudo vai confluir para o beco sem saída, que é a Guiné».
José Manuel Barroso
Eu penso que há uma coisa interessante e que o embaixador Hall Themido foca no livro dele, que é a continuada negociação do governo do Marcelo para obtenção de novas armas para as forças portuguesas (mísseis red eye). Eu penso que havia ali uma tentativa de ganhar tempo, para que as forças portuguesas na Guiné dispusessem de alguns recursos militares, que aumentassem a sua capacidade de defesa, e para que isso pudesse constituir, na hipótese de um diálogo com o PAIGC, um reforço da posição portuguesa. Eles lutaram muito por isso e, nas vésperas do 25 de Abril, os mísseis finalmente estavam à disposição, na Alemanha. Foi uma longa luta e houve uma importante personalidade do regime anterior que me confirmou e que me falou justamente desse ganhar tempo nos últimos meses do regime.
General Mateus da Silva
Eu acho que ainda há outro factor que está por provar: o próprio PAIGC não quis forçar. Do meu ponto de vista, o PAIGC, se quisesse, depois do Verão de 73, podia-nos ter infligido algumas derrotas militares, porventura mesmo humilhantes, e acho que o PAIGC não o quis fazer, por várias razões: primeiro, para infligir essas derrotas também tinha de arriscar mais e tinha de ter mais baixas; depois, porque não tinha pressa, porque o tempo jogava a favor deles, até para criar uma certa unidade, identidade e consciência nacional, isso jogava a favor deles e acho que fazia parte da estratégia deles não quererem humilhar Portugal em negociações.
(...)Aliás, essas novas armas não nos iam dar superioridade militar. Era por causa dos meios aéreos que o PAIGC tinha ou iria ter. Eram meios de defesa. Mas não iam melhorar a situação nem dar-nos vantagem nenhuma. Eram mísseis anti-aéreos.
Coronel Matos Gomes
Houve uma tentativa de se adquirirem Mirages em França.
General Mateus da Silva
Mas o Mirage para aquele tipo de guerra ... O Fiat G-91 era mais do que suficiente.

######

O Coronel Florindo Morais entrou no debate doutro tema. Brevemente hei-de trazê-lo aqui.