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23 de julho de 2011

223-Aviões acidentados ou abatidos na Guiné durante a guerra colonial. E se a guerra continuasse?...

O jornal "Expresso" de 6 de Outubro de 1973 tinha um título na primeira página: "Aviões abatidos na Guiné-Bissau". Essa notícia dizia:
«Segundo notícias da France Presse, provenientes de Argel, foram abatidos três aviões portugueses do tipo Fiat G91, na Guiné-Bissau durante o mês de Setembro pelo PAIGC - anunciou um comunicado desta organização. O comunicado acrescenta que estas perdas elevam a 25 o número de aviões portugueses abatidos na  Guiné-Bissau desde Março último». 
Claro que esta notícia não passou e teve de ser substituída por outra, a censura cortou-a. Mas não foi pelo exagero do número de aviões abatidos. Nesse caso, haveria que dizer não foram nada 25, foram só 2, ou 3... O que se passava é que se queria fazer crer que nós estávamos na maior nas nossas acções de policiamento contra bandidos, e nem pensar dizer uma coisa dessas. ...Nem havia guerra nenhuma.
Mas tínhamos várias aeronaves. Estas foram as principais no Teatro de Operações na Guiné:
Fiat G91
O Fiat G91 começou a ser fabricado pela Itália em 1956, mas, a partir de 1958, passou a ser construído pelo consórcio Dornier/Messerschmitt/Heinke. Foram adquiridos 40 à Alemanha em 1966, porque a Turquia e a Grécia tinham recusado a sua compra e tendo como contrapartida a cedência de instalações para treino das tripulações alemãs na base de Beja. Iam sendo fornecidos durante a guerra e distribuídos pelos vários TO. Num total de 136, os últimos foram recebidos em 1976! Em Março de 1966 foram oito Fiat G91-R/4 para a Base Aérea nº 12, em Bissalanca, a qual só ficou operacional para eles em Junho desse ano. Mais tarde foram para lá mais 2. Em 1971/1974 estavam lá 10, no entanto só 8 estavam disponíveis, os restantes estavam inoperacionais.
O Fiat G91 era uma aeronave de ataque ao solo, não adequada ao combate aéreo, sendo o seu pior inimigo, por isso, os canhões anti-aéreos e os mísseis.
Aviões Fiat acidentados ou abatidos:
22 de Fevereiro de 1967 - Fiat G91-R/4, pilotado pelo major Armando Augusto dos Santos Moreira (comandante da Esq. 121). Caiu devido à explosão prematura da uma bomba. O piloto ejectou-se e foi recuperado.
-  28 de Julho de 1968 - Fiat G.91R/4, pilotado pelo tenente-coronel Francisco da Costa Gomes (Comandante do Grupo Operacional 1201), abatido devido a disparos de arma de 12,7mm no lado de lá da zona de fronteira com a Guiné-ConakryO piloto ejectou-se e foi recuperado.
- 25 de Março de 1973 Fiat G.91-R/4, pilotado pelo tenente Miguel Cassola Cardoso Pessoa, abatido por um míssil SAM-7 "Grail" na zona de Guiledje. O piloto ejectou-se e foi recuperado.
- 28 de Março de 1973 - Fiat G.91-R/4, pilotado pelo Tenente-coronel José Fernando de Almeida Brito (Comandante do Grupo Operacional 1201), abatido por um míssil SAM-7 "Grail" na zona de Madina do Boé. O piloto morreu. 
-  1 de Setembro de 1973 - Fiat G.91-R/4, pilotado pelo Capitão Carlos Augusto Wanzeller, abatido devido a disparos de arma de 12,7mm. O piloto ejectou-se e foi recuperado.
-  4 de Outubro de 1973 - Fiat G91-R/4, pilotado pelo Capitão Alberto Roxo da Cruz, abatido devido a disparos de arma de 12,7mm. O piloto ejectou-se e foi recuperado.
31 de Janeiro de 1974 - Fiat G91-R/4, pilotado pelo tenente Victor Manuel Castro Gil, abatido por um missil  SAM-7 "Grail", na zona de Canquelifá; o piloto ejectou-se e foi recuperado, após andar vinte quilómetros no mato.
T6 Harvard
Os T6 Harvard são de origem americana, criados em 1935 pela North American. Os EUA utilizaram-nos durante a Segunda Guerra Mundial e durante a Guerra da Coreia. Portugal adquiriu os primeiros 28 em 1947, mais 20 em 1951 ao abrigo de um acordo de defesa com os EUA  (Mutual Defense Assistance Program), tendo isto naturalmente a ver com a cedência da base das Lajes. Vieram mais depois, chegámos a ter um total de 257. Antes da guerra colonial serviam essencialmente para instrução dos pilotos militares. Durante ela tiveram um importante papel. Depois dela voltaram a ter papel de treino e instrução.
No entanto, dois T-6, a mando de Spinola, bombardearam o RALIS em 11 de Março de 1975, matando o soldado Joaquim Luís e fazendo 14 feridos. Em 1978 foram abatidos ao activo.
AviõesT6 acidentados ou abatidos:
- 22 de Maio de 1963 - dois T6 "tocam-se", na zona de Tombali; um deles cai, morrendo o piloto, furriel Eduardo Nuno Ricou Casals; o outro faz uma aterragem de emergência, sendo o piloto, sargento António Lobato, aprisionado pelo PAIGC; foi libertado aquando da operação Mar Verde;
- 21 de Janeiro de 1964 - um T6 é abatido por fogo anti-aéreo durante a operação Tridente; morre o piloto, alferes João Manuel Pité;
- 6 de Abril de 1973 - T6 abatido por um missil  SAM-7 "Grail", entre Guidage e Bigene; major Mantovani Filipe, o piloto, morre.
DO-27
Dornier DO-27, é de fabrico alemão, em colaboração com a firma esdpanhola CASA. Avião monomotor, asa alta, trem de aterragem convencional fixo, com capacidade para seis passageiros ou equivalente em carga. Ao serviço da FAP desde 1961, chegando a haver 146. Durante a guerra colonial eram utilizados para transporte de passageiros, evacuação de feridos, reconhecimento aéreo e transporte de correio. Às vezes, raramente, utilizavam  foguetes ofensivos montados sob as asas. Foram abatidos ao efectivo em 1979.
Aviões DO-27 acidentados ou abatidos:
- 6 de Abril de 1973 - DO-27 pilotado pelo furriel Baltazar da Silva e transportando um médico, de Bigene para Guidage, foi abatido por um missil  SAM-7 "Grail"; morreram todos os ocupantes;
- 6 de Abril de 1973 - DO-27 pilotado pelo furriel Carvalho e tendo a bordo a enfermeira pára-quedista Giselda Antunes quase foi atingido por um missil SAM-7 "Grail", na zona de Guidage; avariou e teve de regressar a Bissalanca;
6 de Abril de 1973 - DO-27 pilotado pelo furriel António Carvalho Ferreira, e transportando o major Mariz, um militar ferido e um enfermeiro, saíu de Guidage, foi abatido por um missil  SAM-7 "Grail"morreram todos os ocupantes; presume-se que tenha caído no Senegal. 
Alouette III
O Alouette III foi um dos mais valiosos e eficientes meios militares utilizados por Portugal na Guiné durante a guerra colonial. É um helicóptero utilitário ligeiro de transporte, monomotor, fabricado pela Aérospatiale, em França, onde foi utilizado sobretudo para socorro e evacuação de alpinistas ou turistas nos Alpes. Portugal começõu a comprá-los em Abril de 1963. Chegou a ter 142. Na Guiné foram equipados com:  uma metralhadora AA52 de 7.62mm ou um canhão GIAT M621 de 20mm, quatro mísseis ar-superfície AS.11 ou dois AS.12, toperdos mk 44. Serviram para desembarque de ataques das tropas especiais, comandos e pára-quedistas. E muito para recuperação de feridos e mortos em operações.
A FAP tem actualmente 18.
Helicópteros Alouette III acidentados ou abatidos: 
A não ser o que refiro a seguir não consegui ter conhecimento de mais.
- 25 de Julho de 1970 - cai na foz do rio Mansoa um Alouette III levando a bordo os deputados José Pedro Pinto Leite, Leonardo Coimbra, Vicente de Abreu e Pinto Bull; eram acompanhados pelo capitão José Carvalho de Andrade; o piloto era o alferes Francisco Lopes Manso; morreram todos; a versão oficial é que foi queda provocada por chuva muito intensa, mas o PAIGC reivindicou o seu abate. 
Notícia sobre a guerra colonial – Jornal do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) (1970):
«No dia 25 deste mês, os colonialistas portugueses sofreram um dos seus maiores reveses na nossa terra. Um helicóptero, que transportava quatro deputados, entre os quais o traidor do nosso povo, James Pinto Bull, e dois oficiais do exército colonial, foi abatido sobre o rio Mansoa pelos nossos valentes combatentes».

Missil SAM-7 Grail - "Strella"
Outros Fiat e DOs foram metralhados e sentiram ondas de choque de strellas razantes, vários alouettes foram metralhados. Segundo Gil Moutinho, ex-furriel piloto na Guiné:
depois de 6 de Abril de 1973 «Os bombardeamentos de Fiat e T6 passaram a ser feitos a altitudes superiores às habituais o que lhe retirou alguma precisão. Houve a recomendação para evitar a altitude de voo entre os ~50 pés (~15 a 20mts) e os ~7500pés (~2500mts), pois eram os parâmetros de eficácia dos Strellas. Os hélis continuaram em altitudes baixas (a rapar) pois não precisavam de alguma altitude para aterrar. Nos DO’s, inicialmente subíamos em espiral à vertical das pistas, até atingir a altitude de segurança, e descíamos à vertical dos destinos. Rapidamente abandonámos esse procedimento, pois com cargas máximas, temperaturas elevadas do ar e dos motores e com uma demora de 30 min. a atingir a altitude,já apareciam alguns problemas técnicos, e começámos a rapar as bolanhas e os rios. 
Aqui quando a experiência e conhecimentos do terreno eram verdes poderia haver problemas de navegação e na época seca a visibilidade também era escassa».(http://tabancadosmelros.blogspot.com/2010/10/recordacoes-do-gil-moutinho.html)
Interessante o referido pelo Major-General Pilav José Duarte Krus Abecasis, situação de 1969, in http://www.revistamilitar.pt/modules/articles/article.php?id=360:
«Despacho do General Brilhante Paiva, CEMFA, de 10JUL.69:
O Comandante da 1ª Região Aérea visitará o Teatro de Operações da Guiné,contactando localmente com a actividade operacional em curso, no âmbito da Força Aérea, ouvindo os Comandantes das Unidades sobre os problemas que mais os preocupam, contactando oficiais e sargentos para melhor avaliar do estado de espírito das tropas”.
No desempenho de tal missão foi dado observar:
1. Tudo o que, de qualquer forma, recordasse a chefia do Gen Schultz era votado à destruição. Foram desarticuladas estruturas erguidas com tenaz profissionalismo para servir o esforço de guerra. E a verdade é que o Gen Scultz se limitara, no âmbito da Força Aérea, a testemunhar a sua implantação e, inteligentemente, se apercebera da sua eficácia.
2. Em BISSAU. Quartel‑General do General Comandante‑Chefe.
  18.00 H loc de 18JUL 1969
  “Briefing” diário
Estas reuniões passaram a denominar‑se de “CENTRO CONJUNTO DE OPERAÇÕES”. Esta alteração, tomada à letra, implicava uma limitação no leque de assuntos, deixando de fora os mais importantes e adequados a uma reunião do Estado‑Maior Conjunto do Comandante‑Chefe; a atmosfera reinante em tais reuniões era outra. Em JUL69 eram os majores e capitães a dialogar, informalmente, com o COMCHEFE. Não seria fácil ao Comandante Militar, Brigadeiro Nascimento, intervir para avançar com a sua opinião, nem, menos ainda, aos coronéis presentes. Não se perdia oportunidade, eventualmente, de encarecer as “provas” de desembaraço de subalternos milicianos nas suas unidades, “no mato”. O COMCHEFE incitava vivamente a que fossem ouvidos, nas deslocações dos seus “assessores”. Sem esforço, se seria induzido a pensar que o dispositivo não dispunha de Comandantes válidos.
3. BASE AÉREA 12, BISSALANCA
  Situação do Grupo Operacional
Rendimento catastrófico da Manutenção às aeronaves atribuídas:
a) Frota de aviões “DO‑27” quase totalmente parada;
b) Dos 19 helicópteros “Al III” apenas 3 se encontravam na situação desejável de “combat ready”. 
Ausência de controlo de qualidade, mais do que de controlo de quantidade.»

Aniceto Afonso e Matos Gomes, "Guerra colonial"
Já em 31 de Dezembro de 1972, um documento oficial do comando militar português na Guiné prevê a utilização, pelo PAIGC, de canhões antiaéreos, lançadores múltiplos de foguetões, viaturas anfíbias, PT-76 e BTR-40 e carros de combate T-34, aumentando o seu potencial bélico.
Mas o aparecimento dos SAM-7 Grail foram uma surpresa.
O apoio aéreo às tropas passou a ser limitado. Os helicópteros deixaram de fazer evacuações em Maio de 1973, passaram a fazê-las depois mas a muito baixa altitude; os Fiat demoraram muito tempo a adaptar-se à ameaça dos mísseis; os T6 deixaram de voar. Os transportes aéreos, após estudos, passaram a fazer-se com limitações, voando acima dos 6000 pés e utilizando escasso número de pistas.
A 8 de Maio de 1973 o PAIGC inicia o cerco a Guidage, durou um mês. A operação Ametista Real, em território do Senegal, acabou com o cerco.
18 de Maio desse ano, início da operação Amílcar Cabral por parte do PAIGC contra o quartel de Guiledje. No dia 22 a guarnição portuguesa abandona o aquartelamento.
A 31 de Maio agrava-se a situação em Gadamael-Porto devido à pressão do PAIGC e à retirada de Guiledje.
Durante esse mês de Maio de 1973 o PAIGC realizou o mais elevado número de acções militares desde o início da guerra: 220.
Já em 31 de Março tinha sido desencadeado um violento ataque ao aquartelamento de Bedanda com utilização de viaturas blindadas.
António de Spinola deixa o comando do CTIG e regressa a Portugal a 9 de Agosto.
A 21 de Janeiro de 1974 dá-se a primeira acção da guerrilha na cidade de Bissau: lançamento de engenhos explosivos contra autocarros da FAP. Uma semana depois dois outros engenhos rebentam num café de Bissau frequentado por militares portugueses, houve feridos.
No dia 22 de Fevereiro de 1974 rebentou uma carga explosiva no QG de Bissau, ficando ferido o segundo-comandante. Foi reivindicado pelo PRP-BR (a ARA só actuou em Portugal e sempre com o cuidado de não causar vítimas...).
Acrescento aqui o que me parece exemplificativo; está nos comentários, mas acho uma informação valiosa, sobretudo vindo de quem vem:
Gostava apenas de acrescentar ao seu texto, que considero interessante, de que me lembro como se fosse hoje!... sim é verdade que " ...No dia 22 de Fevereiro de 1974 rebentou uma carga explosiva no QG de Bissau, ficando ferido o segundo-comandante..." mas além do 2º comandante, o Coronel Galvão de Figueiredo (o caso mais grave), também o Chefe do Estado Maior do CTIG, Coronel Henrique Gonçalves Vaz, sofreu algumas escoriações! ainda me lembro de o ver a chegar a casa, com os óculos sem lentes, a cara cheia de vidros e algum sangue na zona dos ouvidos.... mas com um grande sorriso, a comunicar-nos (à família) "estejam descansados que eu estou bem,ainda não foi desta ..." No dia seguinte estive a visitar a Zona da explosão e ouvir alguns soldados que assistiram no momento da explosão, à projecção de portas e janelas pela parada fora..... segundo esses testemunhos, o impacto foi deveras impressionante, nomeadamente à destruição dos gabinetes dos Oficiais do Estado Maior do CTIG, especialmente o do Chefe do Estado Maior, Coronel Henrique Gonçalves Vaz, que ficou totalmente destruído.... Recentemente ouvi num programa da Televisão, os pormenores do transporte dos explosivos para "essa acção terrorista" no QG em Bissau, bem como o transporte dos detonadores..... foram transportados no interior de melões por militares portugueses, pertencentes às Brigadas do PRP..... às horas da explosão, tudo indica que não teriam "intenção de matar militares", talvez apenas desmoralizar "as nossas forças" no Teatro de Operações da Guiné! 
27 de Novembro de 2011
Luís Beleza Gonçalves Vaz
(filho do Coronel Henrique Gonçalves Vaz)
Mas já há muito que se encarava a ameaça dos MIGs estacionados na Guiné-Conakry. O PAIGC estava a preparar pilotos para eles. Em 1972, a operação Mar Verde, em território da Guiné-Conakry, tinha como um dos seus objectivos a destruição desse aviões. Não conseguiu. Portugal tentou obter mísseis antiaéreos nos EUA e na Inglaterra. Aí não conseguiu. Foi na África do Sul que obteve mísseis Crotale, duas unidades de tiro. A RAS tínha-os comprado à França...

E se a guerra continuasse?...
Se mais aquartelamentos tivessem de ser abandonados, se tivéssemos de os ir atacar no Senegal ou na Guiné-Konakry, se a guerrilha passasse para as cidades, se os MIGs atacassem, se nem os Fiat91 nem os Crotale chegassem para eles... o que seria? Nada bom de certeza, e sei que não gostaria de lá estar. 

21 de julho de 2011

222-Abdul Indjai


21.V.1909 - Os Balantas atacam, com intenso tiroteio, o posto de Goli, desde  as 7 da manhã até às 12 horas. A 25 desse mês, esse posto é reforçado, fazendo parte desse reforço Abdul Indjai, recém nomeado régulo de Cuor, e o seu grupo de auxiliares
12.IV.1913 -  Teixeira Pinto inicia uma campanha contra a região insubmissa do Oio, onde bivaca no dia 15, precedido pelas forças de Abdul Indjai compostas por 400 irregulares,
26.XII.1913 a IV.1914 - Desenrolam-se operações contra os indígenas de Cacheu e Churo, tendo-se distinguido a acção do chefe de guerra Abduil Indjai.
25.II.1914 - «Por ter dado sempre sobejas provas de sua dedicação ao Governo e manifestado a mais heróica valentia» o régulo Abdul Indjai foi nomeado tenente das forças de 2.ª linha.
IV-VIII.1914 - Operações contra os Balantas de Abril a Agosto de 1914. Entre outros, distinguiu-se o chefe indígena    Abdul Indjai. 
15-V-1916 - Por despacho do governador publicado nesta data foi o chefe de guerra Abdul Injai, tenente de 2." linha, nomeado régulo da região do Oio, em atenção aos «relevantes serviços por ele prestados, tendo dado sobejas provas de lealdade e dedicação ao Governo».
8-VII-1919 - É declarado o estado de sítio nas regiões de Bissorã e Farim por motivo de Abdul Injai se recusar a acatar as ordens do Governo.
16-VIII-1919 - Foi preso em Farim o régulo Abdul Injai, tenente de 2.ª linha, que se entregou às autoridades locais com a sua gente terminando assim as operações militares de Oio. 
29-VIII-1919 - Foi demitido do posto de tenente das forças de 2.ª Linha o régulo Abdul Injai e destituído do cargo de régulo da região do Oio, sendo-lhe imposto a transferência para a Ilha da Madeira pelo tempo de 10 anos.O mesmo foi mais tarde deportado para Moçambique, tendo, porém, morrido em Cabo Verde. 


ANTES da narração, quero dizer que não pretendo discutir a figura de Abdu Injai - um dos heróis da ocupação da Guiné - e menos ainda diminuir a sua personalidade.
Ao citar factos, desejo apenas dar a conhecer o homem, tal como nos aparece.
A mentalidade de um «não civilizado» só pode ser compreendida, em certos casos, por aqueles que lhe conhecem a religião, os usos e costumes tribais e o temperamento próprio - muitas vezes também a sua convivência com civilizados, graduada pela cultura destes últimos.
Daqui deve inferir-se que, neste âmbito, o que para nós representa socialmente uma má acção, pode ser para ele motivo de glória e vice-versa.
O balanta, por exemplo, não rouba pelo lucro material que lhe pode advir da vaca furtada, mas pela importância social que lhe trará o facto de o saberem audacioso, valente e, sobretudo, conseguir roubar sem ter sido apanhado o animal furtado, ainda que ele próprio o seja (uma prova de esperteza).
De resto, foi o temperamento aventureiro de Abdu e sua provada valentia que deram a Teixeira Pinto um dos seus melhores colaboradores nas campanhas da ocupação; digamos pacificação.
Conhecedor dos homens e sabedor das características especiais das guerras africanas, ele soube certamente com quem lidava, mas soube também aproveitar as suas qualidades de guerreiro destemido, sendo além disso um precioso auxiliar pelo conhecimento que possuía da topografia local.
* *
O que vai ler-se foi-me contado - na parte que diz respeito à vida de Abdu Injai antes de ter sido chamado a cooperar na campanha superiormente comandada pelo capitão Teixeira Pinto - por um velho mandinga, nascido em Geba e que, quando pequeno, o pai levou para território francês, por ter resolvido fixar ali a sua residência.
Disse-me que tinha convivido pessoalmente e durante alguns anos com o Abdu, seu vizinho na povoação onde ambos residiam e que, ainda meninos, correram juntos várias aventuras, sendo já nessa altura aquele considerado um valentão, pelo que sempre tomava a chefia do bando de garotos que capitaneava.
Abdu Injai nasceu de pais «yolof», na povoação denominada Salum, da Circunscrição de Koalac (Senegal), e, segundo o informador, devia ter vindo ao mundo entre os anos de 1860 e 1865.
Muito novo ainda, dedicou-se ao comércio ambulante, parecendo que também fez dinheiro, ainda que encobertamente, vendendo escravos que numa ou noutra sortida conseguia aprisionar.
Sobre a veracidade desta última parte, tenho dúvidas, bem podendo ter acontecido que o meu informador se deixasse levar pela sua imaginação, ou talvez mesmo por qualquer antigo rancor, o que no decurso das nossas conversas me quis parecer.
Mas como comerciante, os seus gastos exagerados - gostava de ostentar grandeza e cobiçava quantas mulheres bonitas encontrava - fizeram com que, em determinada ocasião, não pudesse pagar as dívidas contraídas, resolvendo fugir para Zinguinchor, que começava o seu desenvolmento como centro comercial, sob o domínio francês.
Já ali residiam bastantes funcionários e as casas mais importantes de Dacar estabeleciam as suas agências, numa visão justa sobre o futuro do novo porto de saída para as oleaginosas do Senegal.
Durante dez anos Abdu Injai fez parte dos grupos que auxiliavam a carga e descarga dos barcos; nos intervalos para se manter e à única mulher que o acompanhava, saía para a pesca na sua pequena canoa e muitas vezes o Sol o encontraria remando, em busca de cobiçado peixe, sem querer confessar ao seu companheiro destas lides - um yolof também - o quanto o enojava esta vida miserável de pescador, sempre com mãos e vestes cheirando a peixe, trabalhando para satisfazer o estômago das gentes e dificilmente ganhando para o seu sustento.
A temporada era longa demais para o seu carácter dado a aventuras e como nada aparecia que o fizesse entrever uma melhoria na sua vida, resolveu ir a Dacar, consultar «marabout» de fama que o aconselhasse sobre o futuro.
Não se sabe se foi por conselho deste que resolveu conhecer o nosso território, primeiramente carregando os fardos de peixe seco até às povoacões fronteiriças e depois alargando as suas excursões até à vila de Cacheu.
De Cacheu, onde procurou o convívio e a amizade de manjacos e cobianas, foi-se internando no território e dentro de pouco tempo tornou-se conhecido de chefes e influentes, que o recebiam com agrado, pois sabia cativá-los com as histórias, que contava, sobre os povos que habitavam o Senegal e a Gâmbia, e os conselhos com que lhes resolvia as doenças, dizendo-se conhecedor de ervas para aliviar os padecimentos e aplicando as «mezinhas» feitas com aquelas.
Andaria então por quarenta anos a sua idade e a sua compleição física era de molde a permitir todas as vicissitudes no tratamento.
Em Calequisse, mais do que em nenhuma outra povoação, era Abdu Injai estimado, entrando em casa do régulo com a maior liberdade, desde que conseguira curar dos seus padecimentos a sua mulher preferida, e, como o sabiam seu grande amigo, todos os do «chão» lhe tributavam respeito, estando entre eles como na sua própria terra.
Como era homem que se dizia capaz de conseguir tudo o que pretendia, de uma vez, estando em Pelundo, foi procurado por um dos «grandes», que se prontificou a garantir-lhe um óptimo lucro se fosse capaz de conseguir-lhe uma pequena bombarda, das que os manjacos usam carregar com pólvora seca para dar as repetidas salvas nos seus festejos ou por morte de pessoas importantes. Como para ele nunca havia dificuldades, seduzido além disso pela enorme recompensa e consequente importância que o caso lhe daria entre os de Pelundo, logo aceitou a incumbência.
Passavam-se, porém, os dias e de ninguém conseguia a venda do objecto encomendado.
Qual era o manjaco, merecedor desse nome, que voluntariamente se desfaria de uma peça tão importante, que o tornava credor da maior consideração entre os seus? Não havia, como não existia homem daquela raça capaz de cometer um furto que representava como que um sacrilégio e que, mesmo não sendo descoberto, traria para o seu autor um sem número de infelicidades.
Mas se não conseguia um manjaco que, vendendo ou roubando, lhe entregasse a cobiçada pequena bornbarda, ele Abdu Injai, é que não era homem para recuar, deixando de ganhar a prometida soma que o tornaria feliz por algum tempo - talvez com a possibilidade de, mais uma vez, se tornar comerciante.
Quem sabe se não estaria naquela pequena dificuldade a solução para a sua vida no futuro?
É talvez por estes motivos que, aproveitando-se da liberdade que gozava em casa do régulo de Calequisse, rouba uma das suas bombardas, guardadas em lugar seguro, escondendo-a em local escolhido previamente, bem dentro do mato.
Pretende conhecer, antes de a levar, se o dono dará pela falta. Passam-se três ou quatro dias e a sua impaciência não consente mais delongas.
Abdu Injai despede-se do seu hospedeiro, como faz sempre que sai da terra, seguindo para Pelundo.
No trajecto, colhe o objecto roubado e carrega-o, convencido de que ganhou a partida.
Quis, porém, o destino, que logo após a sua saída, um dos servos do régulo de Calequisse, indo à arrecadação onde estavam as bornbardas, desse por falta de uma.
Dado o alarme, o régulo que, possivelmente, não tinha confiança no seu hóspede - um estrangeiro e demais yolof - manda segui-lo, e os encarregados da perseguição vão encontrá-lo já no Pelundo, de noite, descobrindo na própria casa onde pernoitava, a coisa furtada, que não havia tido tempo de entregar àquele a quem se destinava.
Ali mesmo o amarraram com cordas que traziam, e assim, preso e de mãos atadas atrás das costas, conduzem durante cerca de 35 quilómetros (de Pelundo a Calequisse) aquele que uns anos depois há-de concorrer para que seja dominada a rebeldia dos manjacos. Em Calequisse o régulo não o quer ver e manda-o meter num compartimento da sua casa onde improvizou um calabouço. Reserva-lhe um castigo especial, que sirva de exemplo para outros audaciosos.
De facto, o preso sente com surpresa que na parte inferior das paredes exteriores há um ruído, como se alguém pretendesse fazer um orifício, não podendo, porém, pensar que em pleno dia, pretendiam dar-lhe fuga. Dura pouco a sua indecisão, pois vê a parede furada em dois sítios e logo que este trabalho fica concluído, entram no improvizado calabouço alguns dos homens de confiança do régulo que, sem o desamarrar, obrigam o preso a enfiar os pés nos referidos orifícios.
Sentado ou deitado no chão, numa posição quase insustentável e agora com os pés na parte de fora da casa e o resto do corpo no interior dela, cogita Abdu Injai na maneira como sair daquela situação, e, sozinho cm terra estranha, como conseguir subornar os carcereiros, tanto mais que o pouco dinheiro que possuía havia-o perdido ou tinha-lhe sido roubado depois de preso.
Todos os ardis que aprendeu e aqueles que o seu cérebro cogitava não lhe trazem a solução desejada e, no entanto, se encontrasse quem quisesse levar-lhe um recado a certa mulher do régulo, talvez conseguisse modificar a situação.
Sente-se deprimido, mas na sua mente nasce também um projecto de vingança que há-de pôr um dia em prática, se Allah o tirar desta situação difícil.
Passam as horas; vem o cabaço com a comida e tiram as cordas que lhe prendem as mãos.
Cheio de fome, come apenas o .suficientc para se manter alerta, com receio do veneno, mas não é este o castigo que lhe está reservado.
Perto da noite, ouve grande algazarra e percebe que bastante gente se dirige para o local da prisão. Crê chegada a hora de morrer, mas soou apenas a hora do castigo.
Vêm queimar-lhe os pés com um ferro em brasa, para que fique impossibilitado de andar depressa, pois quem rouba necessita ter meios para fugir.
Ainda no dia seguinte sofre o mesmo martírio, dando gritos que soam agradàvelmente aos ouvidos do seu carrasco, mas nessa noite, não se sabe como - talvez por favor da tal mulher do régulo com quem se supõe tenha mantido relações íntimas - consegue fugir com os pés em sangue, feridas que depois de cicatrizadas farão recordar até ao fim da sua vida o furto cometido e alimentarão sempre aceso o ódio aos manjacos, especialmente os de Calequissc.
Parece que mais tarde, durante a campanha, teve ocasião de se vingar cabalmente.
Há aqui uma pequena temporada sem noticias de Abdu Injai, que depois nos aparece no Gabú, onde consegue tornar-se amigo de um fula, grande criador de gado bovino.
Na casa deste último permanece durante algum tempo, captando-lhe a estima e fazendo-se valer pelas suas habilidades, tanto que o seu hospedeiro, condoído da sua situação pecuniária, lhe oferece auxílio.
É assim que os habitantes de Bafatá passam a conhecê-lo transformado agora em negociante de gado, que adquire no Gabú para vender ou abater naquela povoação.
Por essa ocasião tem a sua residência na «morança» do seu protector, onde constituiu nova família, parecendo que assim será a sua vida até final, por haver já passado, com a idade, o gosto pelas aventuras e o amor à riqueza e consequente importância social a que primeiro aspirava.
A ambição e espírito aventureiro não deixam, porém, que o sedentarismo seja a sua norma de viver e por isso resolve obter o gado vacum por meio de extorsões, visto que com as compras não obtém o lucro que ambiciona.
Facilmente consegue ligar-se com outros do mesmo estofo e organiza um grupo armado com que vai até à região do Oio, onde assalta as povoações, roubando o gado bovino que depois mandava vender em Bafatá.
Apanhados de surpresa os oincas, que viviam em povoações afastadas umas das outras, facilmente se deixaram dominar pela impetuosidade dos assaltantes, aos quais opunham fraca resistência quando estes, depois de roubada a manada ou parte dela, seguiam o seu caminho, conduzindo-a para o lugar do acampamento.
Mas a gente do Oio não era de molde a deixar-se espoliar sem procurar desforço condigno.
Não havia memória que deixassem sem resposta qualquer provocação e os «blufos» (1) balantas bem o sabiam, pois já alguns tinham sido mortos, quando apanhados a furtar gado.
Na estação seca, em que os currais ficam ao ar livre, dormindo sob a protecção das estrelas, tornava-se necessário que se escalassem nas «moranças» os guardas que toda a noite vigilantes e bem armados evitavam o atrevimento dos balantas.
Agora, porém, o caso era de maior gravidade: os «blufos» vinham aos pares e fácil era aos guardadores descobri-los e dar-lhes o tiro de «longa» (2) que, mesmo não acertando, os atemorizava e fazia retardar por algum tempo as incursões; estes, porém, eram muitos, bem armados e respondiam aos vigias oincas com descargas que sempre deixavam vestígios.
Além disto, em vez de fugir atacavam, levando a guerra dentro das próprias povoações onde, por vezes, até as mulheres dos moradores eram vítimas da sua concupiscência.
Resolveram, portanto, acabar com os assaltantes.
Reuniram-se os chefes e os grandes, combinaram o seu plano de defesa e quando a quadrilha veio para novo assalto, deram-lhe combate e reduziram a pouco mais de um terço o grupo dos assaltantes.
Sem despojos e deixando grande parte dos seus homens - feridos ou mortos - em poder da gente do Oio, retiraram os vencidos para Bafatá e desta vez sem que o «judeu» (3) pudesse contar as façanhas do Abdu Injai.
Dissolveu-se o que restava do bando, mas não por muito tempo. Desta vez, após a formação do novo grupo, também por ele capitaneado, resolveu Abdu transferir o campo das operações para a região de Begine, perto de Bambadinca, habitada por mandingas também possuidores de grande número de cabeças de gado bovino.
Mas também dali teve um dia de fugir com os seus homens, muito inferiores em número, resolvendo dissolver o bando.
Outro interregno e aparece Abdu lnjai como régulo de Cuór, onde se encontrava quando Teixeira Pinto, disfarçado em inspector de uma casa francesa, fez o reconhecimento dos territórios para o plano da campanha.
Parece que o Governador Muzanty, procurando esquecer o seu passado e reconhecendo as suas qualidades aproveitáveis, numa época em que não abundavam homens fiéis entre os indígenas, viu nele, com razão, um futuro chefe de guerra, destemido auxiliar, fazendo-o chefe daquela região.
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Desde o início da campanha, é uma das principais figuras e grande colaborador do seu comandante, o chefe de auxiliares Abdu Injai.
Por várias vezes é citado o seu nome, entre os de maior valor. Estava no seu elemento e a guerra prestava-se a satisfazer os seus instintos naturais.
Era a guerra em Africa, feita à maneira dos africanos, pois de outro modo não podia ser, prestando-se a todos os actos individuais de ousadia e em que, isoladamente, quando chega a hora da victória, cada um procede como entende.
A relativa disciplina, em certos casos só requerida aos civilizados, que acima de tudo têm que manter as características de uma condição superior, não podia ser exigida nessas mesmas ocasiões àqueles - os indígenas - que não compreendem a guerra sem a chacina e posse do que os vencidos, em fuga desordenada, deixaram ficar.
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Acabou a campanha com a vitória absoluta das forças comandadas pelo capitão Teixeira Pinto,
Pelos serviços relevantes prestados ao Governo Português durante toda aquela época, foi Abdu Injai nomeado régulo do Oio, correspondendo assim ao desejo que manifestou. São-lhe além disso oferecidas, também como prémio dos seus bons serviços, todas as presas de guerra que havia feito com os auxiliares do seu comando.
Mas, pelo seu temperamento não era homem para, durante a paz, dirigir subalternamente os negócios da região que lhe fora confiada.
Os que o rodeavam, muitos dos quais nascidos em território estrangeiro, verdadeiras aves de rapina, aconselhavam a não se submeter inteiramente e procuravam convencê-lo que os seus homens, agora bem adestrados na guerra, sairiam vencedores mesmo que combatessem com as tropas portuguesas que não podiam causar estorvo só com a sua provada valentia, em virtude do reduzido número, agravado pelas faltas derivadas do rigor do clima e naturalmente impaludadas.
De novo começaram os assaltos no Oio e as exigências de toda a espécie feitas aos aborígenes, agora sob a ameaça da autoridade suprema indígena, que as sancionava.
Não podendo suportar por mais tempo as violências sobre eles exercidas, os habitantes da região dirigiram suas primeiras queixas ao representante do Governo, e o Governador, supondo que o mal acabaria quando acabasse a excitação produzida pela recente campanha, mandava aconselhar o Abdu, querendo demonstrar-lhe apenas por palavras que os vencedores de ontem, quando enquadrados nas tropas de ocupação, seriam os vencidos de amanhã, se persistissem na desobediência.
Mesmo assim, não paravam os distúrbios, e o Governador Sousa Guerra - o antigo chefe de estado maior da coluna de Teixeira Pinto, decide falar pessoalmente cem o régulo Abdu Injai,
Estava-se em 1919. Uma manhã a vila de Farim fica atemortzada com a multidão que, tendo atravessado o rio a vau, lá para os lados de Tambicó, se dirige com todo o cerimonial de tambores e «judeus» para o bairro indígena.
A frente seguiam a cavalo Abdu Injai e os seus conselheiros -- os «Jauras».
Umas horas mais tarde são recebidos no edifício da Administração pelo próprio Governador que, no entanto, havia ordenado que só atravessariam a cidade o régulo e os seus conselheiros, o que foi cumprido.
Ainda uma vez, procura o Governador aconselhar Abdu Injai à obediência e faz-lhe ver todos os inconvenientes do seu procedimento.
Espera-se que, depois das palavras do Governador - ditas com aquela firmeza que denuncia a resolução de terminar irrevogavelmcnte com uma situação deprimente para as autoridades portuguesas - o assunto ficará solucionado.
Ouviram todos - régulo e «batulais» (4) - mas não se convenceram. De novo no Oio, recomeçaram as extorsões e violências contra os oincas. Decide o Governador mandar intimar o régulo Abdu Injai a entregar todas as armas que a sua gente possuía.
É o princípio do fim.
Recusando acatar a ordem, é considerado revoltado e organiza-se uma coluna para o submeter, sob o comando do capitão Augusto José de Lima Júnior.
Ao mesmo tempo determina-se ao Administrador da Circunscrição dos fulas - em Geba - que marche à testa dos auxiliares daquela região, atravessando o Oio, para se reunir às forças que estacionam em Mansabá.
Mas esta última coluna já não devia ter qualquer interferência na campanha, visto que em três dias a tropa comandada pelo capitão Lima havia submetido os revoltosos e feito prisioneiro o régulo, com a sua gente.
No entanto, algumas baixas houve entre os componentes da coluna e bastantes dos indígenas sublevados morreram ou ficaram feridos.
Um dos militares que encontrou a morte durante as operações foi o alferes Figueira, atingido por um tiro isolado quando se encontrava em Mansabá, actual Posto Administrativo da Circunscrição de Farim, onde um pequeno monumento recorda aos actuais colonos os tempos em que a Guiné não era, como hoje, um país onde os indígenas e civilizados vivem na melhor harmonia, concorrendo cada um com o seu esforço e capacidade para o progresso da terra onde trabalham. 
Julgado e condenado a deportação para Moçambique, Abdu Injai, quando em Cabo Verde aguardava o transporte que o levaria para o degredo, pede e obtém do Governo da Metrópole que o deixe ficar no arquipélago.
Os seus principais conselheiros seguiram para Angola e alguns voltaram à Guiné depois de cumprido o castigo. 
Destes últimos, ainda há pouco existia, em idade bastante avançada, o futa-fula Cherno Bocar, que residia em Mansoa e, segundo reza a tradição, era o executor das sentenças de morte, no reino do Abdu.
Ao ser preso, uma única das inúmeras mulheres com quem vivia ficou com ele, tendo as restantes fugido. Da tribo papel, era uma das presas da campanha de ocupação.  Ainda criança, quando foi submetido o gentio da Ilha de Bissau, Abdu fez dela sua mulher, e, apesar da diferença de idades, foi a única que o seguiu para o desterro.  Ainda hoje é viva a Imbombo - é este o seu nome - e depois da morte do seu marido e senhor, voltou para a sua terra natal, residindo actualmente no Bairro Indígena do «Chão de Papeis, da cidade de Bissau.  
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Assim termina a história da vida de um guerreiro, a quem o destino não quis dar morte condigna, pois que, pelo seu temperamento e espírito aventureiro, pertencia-lhe encontrá-la em combate.  Dando a conhecer os factos da vida de Abdu Injai, antes da sua actuação como cabo de guerra nas campanhas de 1914/15, de que, por mero acaso, fiquei sabedor, pretendo concorrer para que o historiador de amanhã o veja sobre o seu verdadeiro aspecto.  
Amadeu Nogueira 
Administrador 

(1) Blufo -Palavra que, entre OS balantas, designa o rapaz incrrcuuciso.  
(2) Longa - Longa é a espingarda de carregar pela boca, usada pelos illdigella.  
(3) ]udeu- Uma tribo especial, cuja origem ainda hoje se conhece mal.  Já existia há 500 anos e a sua ocupação era como hoje, cantar os feitos guerreiros dos chefes importantes das outras tribos.  Não lhes era permitido casarem com os indivíduas que não fossem «judeus» e em tempos antigos não tinham sequer o direito de entrar em qualquer habitação, sem estarem especialmente autorizados pelo respectivo dono, conforme nos conta André Álvares de Almada no seu «Tratado Breve dos Rios da Guiné».  
(4) Batulais - Os ministros ou conselheiros.

 Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume IV, nº 13, 1949

13 de julho de 2011

221-Literaturas africanas

Debater as Literaturas Africanas

"Percursos, trilhos e margens" é o tema do Colóquio Internacional de Literaturas Africanas em Língua Portuguesa, que decorre no Auditório do CIUL, no Picoas Plaza, em Lisboa, amanhã, quinta-feira, 14, e sexta-feira, 15

Pintura de Malangatana
Pintura de Malangatana

Organizado por Maria Calafate Ribeiro, inclui uma dúzia de conferências, mesas-redondas e lançamentos de livros. Depois da sessão de boas-vindas, os trabalhos começam com uma comunicação de abertura por Laura Cavalcante Padilha (às 10). Pires Laranjeira, Inocência Mata e Carmen Tindó Seco e Elena Bruguioni falam sobre Literaturas Africanas de Língua Portuguesa: Paradigmas e Itinerários Críticos (às 11). A receção crítica nos media vai ser debatida por José Carlos de Vasconcelos, João Céu e Silva, Marta Lança. Luís Carlos Patraquim e João Melo (14 e 30). O mesmo Luís Carlos Patraquim vai estar numa mesa redonda com as escritoras Ana Paula Tavares e Ana Mafalda Leite (16 e 30). Na sexta-feira, os seguintes temas e intervenientes: Crítica Literária e Paradigmas Pós-Coloniais, com Renato Jorge, Lívia Apa, Elena Brugioni, Simone Pereira Schmidt (9 e 30); Pelos Trilhos da Escrita: Narração e Crítica Literária, com Odete Semedo, Jéssica Falconi, Moema Parente Augel e Pires Laranjeira (11 e 30); Políticas e Circuitos Liberais, com Zeferino Coelho, José Sousa Ribeiro, Cecília Andrade, André Heráclio do Rêgo e Margarida Calafate Ribeiro; e ainda uma mesa redonda com José Luandino Vieira, Joaquim Arena, João Melo, Odete Semedo e Laura Cavalcante Padilha. Serão lançados os livros, ambos da Afrontamento, Literatura da Guiné-Bissau: contado os escritos da história, com apresentação de Inocência Mata (dia 14, às 19); Literaturas Insulares, : Leituras e Escritas de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, apresentado por Laura Cavalcante Padilha (dia 15, às 19).

Jornal de Letras, 13 de Julho de 2011