Coronel Matos Gomes
...A unidade de comandos não era apenas uns seiscentos homens negros que lá estavam. Eram todas aquelas relações que iam para a estrutura das companhias de africanos [ ... ] era toda uma teia enorme. Quando se dá o 25 de Abril, é-lhes colocada uma questão clara de opção: eles continuavam a ser militares portugueses e, portanto, podiam regressar aqui a Portugal e integrar-se na estrutura militar - e isso aconteceu com alguns, relativamente poucos - mas a grande maioria, nomeadamente estes quadros que tinham uma influência efectiva e que eram comandantes, opta por ficar lá e por estabelecerem eles próprios ligações que passam por ser ligações formais, por ligações familiares, por ligações de todos os níveis, com compromissos ponto a ponto com o PAIGC. E, nesta unidade, nós, nós os europeus, que lá estávamos (nessa altura éramos dois apenas - eu e o Baptista da Silva) passamos a ter notícias (eles falavam connosco e o falar connosco já era importante) de que quadros daquela unidade iam à Guiné-Conacri falar com quadros importantes do PAIGC e negociavam a sua passagem para o novo poder. Ora bem: esta unidade de comandos tinha uma percentagem...
Manuel de Lucena
Isso era um bocadinho mais tarde porque logo a seguir ao 25 de Abril eles iam fazer acções lá abaixo.
Coronel Matos Gomes
Isso eram acções que já estavam planeadas dentro de um determinado enquadramento anterior ao 25 de Abril. No dia 27 Isso já não. Depois disso as coisas passam a ser mais complicadas e levam inclusivamente ao saneamento do comandante. Não é um saneamento, é impedir que ele entre naquela unidade, o que leva depois a um aspecto muito interessante que é o exercício do poder (e a unidade que esse poder do MFA na Guiné tinha), o que leva a que seja o general Mateus da Silva, como encarregado do Governo, e o comodoro Almeida Brandão [a intervirem] nesse processo. E toda a gente, os africanos e os europeus lá aceitam as decisões que foram ali tomadas - e, portanto, essas decisões são efectivamente tomadas, não há alternativa a isso.
(...) Vão, vêm e negoceiam com o PAIGC a passagem do poder e a sua situação. Isto é: não há dúvida nenhuma para eles de que eles se vão integrar num novo processo e de que têm um lugar. Das grandes questões que se devem colocar a todos nós é: porque é que isso depois falha? Como é que o PAIGC começa a falhar? Porque o PAIGC tinha, até nesse aspecto, um capital de esperança e de adesão que foi posteriormente desbaratado. Mas os militares africanos que combateram por Portugal, na sua enorme maioria e naquilo que era decisivo, estavam dispostos a negociar e a aceitar um novo poder. Não havia dúvida de que era o PAIGC que estava no terreno.
(...)
Coronel Florindo Morais
...A certa altura, eles (oficiais graduados que pertenciam ao quadro) manifestaram vontade de vir para Portugal. E eu mandei fazer uma lista. Vim a Lisboa uns dias, de férias, e fui ao Palácio de Belém. Falei com o Almeida Bruno, expôs-se a situação ao general Spínola e o nosso general disse: «Sim, senhor, quantos são?» Eu respondi: «Na ordem dos 50». Porque não eram só oficiais, havia também no batalhão soldados e sargentos desertores do PAIGC - esses tinham, evidentemente, a cabeça por um fio. Eu regressei a Bissau, fiz uma reunião e disse: «Meus senhores, quem efectivamente quiser pode regressar e continua a sua vida militar em Portugal, após a independência». [E eles respondem:] «Sim, senhor». Passa-se algum tempo e continuamos com as reuniões (eram reuniões e mais reuniões) e, a certa altura, quando se falou que afinal já não seriam coronéis, começaram a pôr determinadas questões: «Como é que vai ser?» E eu disse: «Meus amigos, como vai ser depois da independência, não sei, porque eu vou-me embora. Só há uma solução: é perguntar a quem cá fica». Estes oficiais, sobretudo o capitão Sisseco, foram elementos muito importantes nos primeiros contactos com o PAIGC. O Sisseco era uma autoridade gentílica e religiosa, tinha uma grande aceitação entre a população da Guiné e mesmo entre os próprios elementos do PAIGC (pelo menos nessa altura, depois devem ter perdido a consideração, porque o mataram). Mas até essa altura ainda tinham imensa consideração e precisavam dele. E ele começou a desenvolver contactos na área de Cassine, com o apoio de um homem de mar-e-guerra, que era o «Tio Patrício», também conhecido por «copo de cinco». E fizeram-se os primeiros contactos: primeiro no terreno, no Faraba, apeados, promovido pelo próprio batalhão de comandos. Portanto, o batalhão de comandos começou a desenvolver contactos com o próprio PAIGC. Ao primeiro contacto de que tenho conhecimento foram [o na altura] brigadeiro Fabião, eu, o Hugo dos Santos, o ajudante dele que era o Faria Paulino. E fomos ao Faraba encontrarmo-nos com o Mário Cabral, que foi mais tarde ministro, irmão do Luís Cabral e do Amílcar Cabral.
António Duarte Silva
Foi ministro de várias coisas. Não é irmão.
Coronel Florindo Morais
Não é irmão? Estava convencido de que era. Esse foi o primeiro contacto feito no terreno, em que fomos de viatura, desarmados, eu só me lembrava dos majores! [Referência aos três majores (Passos Ramos, Magalhães Osório e Pereira da Silva) que, em 20 de Abril de 1970, tendo sido enviados pelo general Spínola a um encontro secreto com elementos do PAIGC, foram assassinados no decorrer dessa missão]: Porque, quando lá chegámos, estava uma força armada por todos os lados à nossa espera. Correu bem, felizmente correu bem, e depois houve outros, vários, contactos no terreno.
...... foi em Julho, Agosto, fins de Julho, porque foi antes de eu vir a Lisboa. Foi esse o primeiro contacto. Entretanto, na área de Cassine, o Sisseco desenvolveu também vários contactos com o PAIGC, e a certa altura conseguiu-se trazer a [?], que era a sede do aquartelamento do batalhão, uma primeira delegação de militares do PAIGC, que vieram para Bissau, trazidos pelo comandante Heitor Patrício, oficial de marinha. Trouxe-os e alojou-os naquelas casas ali junto ao palácio do governo e no outro dia fui lá buscá-los de manhã e levei-os para o batalhão. Reuni os oficiais e os sargentos numa sala, apresentei as pessoas (não me recordo de nomes), eram quadros superiores do PAIGC e disse: «Meus amigos, fazem favor de pôr agora as questões que me têm posto a mim, de pôr essas questões agora a estes elementos do PAIGC». E saí e deixei-os à vontade. Fui-me instalar no bar de cabos, ou de praças, que era mesmo em frente da sala e ali fiquei com o Patrício. Estava com alguma curiosidade sobre a forma como ia decorrer essa reunião. Entretanto, criou-se um ajuntamento de militares, de soldados, à porta da sala. Os soldados criaram um burburinho porque não estavam satisfeitos por terem ficado de fora e diziam: «Estes já não saem de cá». Aí eu tremi, mas lá se conseguiu desmobilizar aquela gente. E a reunião, tanto quanto soube mais tarde, correu mal [por causa de] um homem, o Jamanca, que era um príncipe fula, com quarenta e muitos anos, perto dos 50, era uma figura característica, tinha uma barbinha, usava um bastão. O Jamanca começou a reunião desta maneira, depois de eu ter saído: «Já assisti à independência de cinco países africanos, em todos eles o que eu vi foi mortos, tipos pendurados nas árvores, julgamentos sumários, etc. Será que vocês cá também vão fazer o mesmo?» Eu, quando soube disto, disse: «Jamanca, desaparece daqui, o mais depressa possível, assinaste a tua sentença de morte». Ele não o quis fazer, regressou para as suas terras, Bambadinca, salvo erro.
Aqui o coronel Florindo Morais é corrigido por um dos presentes: as terras de Jamanca eram em Bafatá.Aqui o coronel Florindo Morais é corrigido por um dos presentes: as terras de Jamanca eram em Bafatá.
Pois, em Bafatá. Bambadinca era perto, foi o sítio onde ele depois acabou por fazer uma asneirada. Acabou por fazer cercar uma companhia. Ele, Jamanca, um tropa, cercou uma companhia de soldados e criou para ali um granel que foi depois preciso lá ir desmobilizar aquilo. Mas nessa reunião foram postas várias questões e a todas elas o PAIGC deu garantias.
Falha na gravação devida à mudança de cassete.
...O Fabião tinha o seu orçamento até 31 de Dezembro e disse: «Meus amigos, quem quiser sair já, eu pago seis meses». E pagou seis meses a cada um. Voluntários para Lisboa não houve nenhum, e todos aceitaram ficar lá passando à disponibilidade em 31 de Dezembro de 1974. Ficaram com seis meses de vencimento.
Manuel de Lucena
Com uma excepção...
Coronel Florindo Morais
O Marcelino da Mata não, porque o Marcelino da Mata estava cá quando foi o 25 de Abril e já não regressou, foi proibido de ir à Guiné. Havia um outro que estava também em Lisboa, era o Tomás Camará, que estava no hospital e foi verbalmente proibido de regressar. Acabou por regressar depois da independência e isso custou-lhe a vida. Mas o Marcelino estava cá e cá ficou.
Já agora um apontamento engraçado: a certa altura recebi uma mensagem que vinha da Presidência, do Bruno, a pedir para mandar de imediato a mulher do Marcelino da Mata. Mandei um oficial meu e disse-lhe: «Olha, vai à procura da mulher do Marcelino» e [levava] uma reqursiçao para o avião. Meteu-se a mulher no avião para o Marcelino ficar cá quietinho e calado. Quando cá chegou recebi outra mensagem: «Não é esta mulher, é a nova!» E a nova foi, e a outra voltou.
Portanto, estas duas coisas: por um lado, a garantia que deram alguns quadros superiores do PAIGC aos oficiais e sargentos de que nada lhes aconteceria após a independência; por outro, o dinheiro que o Fabião lhes ofereceu, os vencimentos adiantados (do que inclusivamente [resultou] que se esgotassem nesses dias, em Bissau, as motorizadas, as ventoinhas, essas coisas), levou a que todos tivessem optado por ficar na Guiné e que nenhum quisesse ter vindo. Não houve nenhum militar desses que tivesse declarado «quero ir [para Portugal], quero continuar militar» e que não o tivesse feito. Este é um ponto que causa para aí muita confusão.
Foi ministro de várias coisas. Não é irmão.
Coronel Florindo Morais
Não é irmão? Estava convencido de que era. Esse foi o primeiro contacto feito no terreno, em que fomos de viatura, desarmados, eu só me lembrava dos majores! [Referência aos três majores (Passos Ramos, Magalhães Osório e Pereira da Silva) que, em 20 de Abril de 1970, tendo sido enviados pelo general Spínola a um encontro secreto com elementos do PAIGC, foram assassinados no decorrer dessa missão]: Porque, quando lá chegámos, estava uma força armada por todos os lados à nossa espera. Correu bem, felizmente correu bem, e depois houve outros, vários, contactos no terreno.
...... foi em Julho, Agosto, fins de Julho, porque foi antes de eu vir a Lisboa. Foi esse o primeiro contacto. Entretanto, na área de Cassine, o Sisseco desenvolveu também vários contactos com o PAIGC, e a certa altura conseguiu-se trazer a [?], que era a sede do aquartelamento do batalhão, uma primeira delegação de militares do PAIGC, que vieram para Bissau, trazidos pelo comandante Heitor Patrício, oficial de marinha. Trouxe-os e alojou-os naquelas casas ali junto ao palácio do governo e no outro dia fui lá buscá-los de manhã e levei-os para o batalhão. Reuni os oficiais e os sargentos numa sala, apresentei as pessoas (não me recordo de nomes), eram quadros superiores do PAIGC e disse: «Meus amigos, fazem favor de pôr agora as questões que me têm posto a mim, de pôr essas questões agora a estes elementos do PAIGC». E saí e deixei-os à vontade. Fui-me instalar no bar de cabos, ou de praças, que era mesmo em frente da sala e ali fiquei com o Patrício. Estava com alguma curiosidade sobre a forma como ia decorrer essa reunião. Entretanto, criou-se um ajuntamento de militares, de soldados, à porta da sala. Os soldados criaram um burburinho porque não estavam satisfeitos por terem ficado de fora e diziam: «Estes já não saem de cá». Aí eu tremi, mas lá se conseguiu desmobilizar aquela gente. E a reunião, tanto quanto soube mais tarde, correu mal [por causa de] um homem, o Jamanca, que era um príncipe fula, com quarenta e muitos anos, perto dos 50, era uma figura característica, tinha uma barbinha, usava um bastão. O Jamanca começou a reunião desta maneira, depois de eu ter saído: «Já assisti à independência de cinco países africanos, em todos eles o que eu vi foi mortos, tipos pendurados nas árvores, julgamentos sumários, etc. Será que vocês cá também vão fazer o mesmo?» Eu, quando soube disto, disse: «Jamanca, desaparece daqui, o mais depressa possível, assinaste a tua sentença de morte». Ele não o quis fazer, regressou para as suas terras, Bambadinca, salvo erro.
Aqui o coronel Florindo Morais é corrigido por um dos presentes: as terras de Jamanca eram em Bafatá.Aqui o coronel Florindo Morais é corrigido por um dos presentes: as terras de Jamanca eram em Bafatá.
Pois, em Bafatá. Bambadinca era perto, foi o sítio onde ele depois acabou por fazer uma asneirada. Acabou por fazer cercar uma companhia. Ele, Jamanca, um tropa, cercou uma companhia de soldados e criou para ali um granel que foi depois preciso lá ir desmobilizar aquilo. Mas nessa reunião foram postas várias questões e a todas elas o PAIGC deu garantias.
Falha na gravação devida à mudança de cassete.
...O Fabião tinha o seu orçamento até 31 de Dezembro e disse: «Meus amigos, quem quiser sair já, eu pago seis meses». E pagou seis meses a cada um. Voluntários para Lisboa não houve nenhum, e todos aceitaram ficar lá passando à disponibilidade em 31 de Dezembro de 1974. Ficaram com seis meses de vencimento.
Manuel de Lucena
Com uma excepção...
Coronel Florindo Morais
O Marcelino da Mata não, porque o Marcelino da Mata estava cá quando foi o 25 de Abril e já não regressou, foi proibido de ir à Guiné. Havia um outro que estava também em Lisboa, era o Tomás Camará, que estava no hospital e foi verbalmente proibido de regressar. Acabou por regressar depois da independência e isso custou-lhe a vida. Mas o Marcelino estava cá e cá ficou.
Já agora um apontamento engraçado: a certa altura recebi uma mensagem que vinha da Presidência, do Bruno, a pedir para mandar de imediato a mulher do Marcelino da Mata. Mandei um oficial meu e disse-lhe: «Olha, vai à procura da mulher do Marcelino» e [levava] uma reqursiçao para o avião. Meteu-se a mulher no avião para o Marcelino ficar cá quietinho e calado. Quando cá chegou recebi outra mensagem: «Não é esta mulher, é a nova!» E a nova foi, e a outra voltou.
Portanto, estas duas coisas: por um lado, a garantia que deram alguns quadros superiores do PAIGC aos oficiais e sargentos de que nada lhes aconteceria após a independência; por outro, o dinheiro que o Fabião lhes ofereceu, os vencimentos adiantados (do que inclusivamente [resultou] que se esgotassem nesses dias, em Bissau, as motorizadas, as ventoinhas, essas coisas), levou a que todos tivessem optado por ficar na Guiné e que nenhum quisesse ter vindo. Não houve nenhum militar desses que tivesse declarado «quero ir [para Portugal], quero continuar militar» e que não o tivesse feito. Este é um ponto que causa para aí muita confusão.

