Lembranças da Guiné, na guerra e já fora dela. Pesquisa, comentários e factos. A memória sempre presente. Não está por ordem. É conforme me vou lembrando. Tudo o que tem a ver com a Guiné, a sua história, as etnias, a colonização e as guerras de resistência. Também a minha experiência durante a guerra colonial (está nos primeiros posts). Para quem não sabe ou viveu que veja e avalie se é realidade ou ficção. Para quem sabe ou viveu são lembranças.
13 de agosto de 2011
236-Aspectos e tipos da Guiné - XIII
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235-Do Alentejo para a Guiné
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12 de agosto de 2011
234-O bem e o mal, o bom e o mau
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11 de agosto de 2011
233-Coluna de operações contra os papéis em 1915
Trata-se de uma das operações realizadas durante "As batalhas de Bissau". Começou a 5 de Junho, com a tomada de Intim. A 10 ocupou Antula e a 12 chegou a Jaal, onde Teixeira Pinto, que comandava a coluna, foi ferido e regressou a Bissau. Passou o comando ao tenente Sousa Guerra. Este é o relatório que ele fez a Teixeira Pinto, quando este reassumiu o comando.
Tem uma segunda parte em que faz o elogio de alguns dos homens intervenientes na operação, o que julgo não ter interesse para aqui.Ao ler isto lembro-me de alguns dos nossos relatórios...
«Exmo Senhor Comandante da Coluna de Operações contra os Papéis
Em 12 de Junho, pelas 15 horas, entregava-me V. Exa. o comando da coluna, por ter de retirar-se para Bissau, onde, por opinião médica, devia tratar-se dos ferimentos recebidos, em Jaal, nesse mesmo dia.
De como decorreram as operações desde essa data até 1 de Julho e da forma como o pessoal da coluna desempenhou os serviços, que lhe foram cometidos, dirão as singelas e mal ataviadas linhas que seguem.
1
DAS OPERAÇÕES REALIZADAS
Até ao dia 14, nada ocorreu digno de menção. Neste dia, levantámos o acampamento para Safim de Cima, que fica a um quarto de hora de Safim de Baixo e onde já tínhamos resolvido estabelecer uma tabanca de guerra.
Depois de acampados, mandei fazer a exploração dos terrenos circunjacentes, onde se travaram algumas escaramuças, sendo o gentio repelido. Tivemos 9 homens feridos e 2 mortos. Os dias 15 e 16 decorreram tranquilamente, tendo ficado resolvido que às 7 horas de 17 sairia uma força de 200 irregulares para bater Entoche.
Em 17, a força, a que me acabei de referir, logo depois de ter percorrido uns mil metros na direcção S.O., é atacada fortemente pelo gentio que desenvolve até ao acampamento, atacando este por O. e N.O.
Abdu Injai, com 400 irregulares, vai juntar-se à força, que tinha saído do acampamento, e consegue levar de vencida até Jaal uma parte do gentio atacante; a outra é repelida pelas forças de defesa do acampamento (regulares e irregulares de Alfha Seilu).
O combate terminou às 14 horas, tendo nós 10 homens feridos e 5 mortos e 1 cavalo ferido. Da parte do gentio, a avaliar pela quantidade de mortos abandonados, contra o seu costume, no campo, devia haver um considerável número de baixas.
Até 20 nada ocorreu digno de registo. Neste dia, marchàmos para Contumo, tendo deixado, na tabanca de guerra de Safim, o segundo sargento Faria com 6 soldados da 2.ª companhia indígena de infantaria da Guiné e 100 irregulares e tendo comunicado ao Comando Militar de Nhacra a existência desta tabanca. Partimos de Safim às 8 1/2 horas da manhã, indo a coluna organizada de forma a atender a um provável ataque do flanco esquerdo ou da retaguarda em Jaal.
A marcha fez-se sem novidade, passando a coluna em Jaal ás 11 e meia horas e chegando às 12 a Bessaca, onde parámos o tempo indispensável para se reforçar a guarda-avançada, atendendo a que daqui em diante era certo o encontro com o gentio.
A marcha continuou sem um tiro até ás 13 e meia horas, quando começou o ataque da guarda avançada à povoação de Contumo, que ás 14 estava em nosso poder, retirando o gentio para uma linha natural de defesa, que há entre Contumo e Bor, linha constituída por uma série de palmeiras tendo do lado desta povoação um riacho, isto é, um verdadeiro fosso aquático. Daí começou fazendo fogo sobre a guarda avançada, que operava uma demonstração sobre essa linha.
Eu e o Abdul, com todas as outras forças contornámos o riacho na sua origem, que era próxima, e caímos resolutamente sobre o gentio, batendo-o sobre Bór para onde retirou e onde continuou a sua defesa.
Reunida a guarda-avançada, todas as forças atacaram Bór, sendo o gentio repelido com inúmeras perdas, retirando para o mato próximo donde continuou fazendo fogo, que em breve tinha de cessar pela perseguição que lhe foi feita.
Ás 15 e meia horas podíamo-nos considerar possuidores de Bór. Tivemos 4 homens feridos.
Foi grande o número de armas e munições encontradas.
Ás 16 horas, o gentio tornou a vir atacar-nos, sendo repelido com êxito.
No dia 21, saíram forças que exploraram os terrenos circunjacentes. No dia 22, o gentio atacou o acampamento pelas 13 e meia horas, sendo repelido depois de meia hora de tiroteio.
Nos dias 23, 24 e 25, nada de anormal.
Fez-se uma tabanca de guerra em Bór, onde ficou o chefe Sori Jólo com a sua gente.
As 6 horas do dia 26, iniciamos a marcha para Bejamita.
Como tínhamos de passar em Bissalanca, onde, segundo informações de diversas procedências, grumetes e papeis se tinham organizado defensivamente, o efectivo dos diferentes escalões da coluna teve por base aquelas informações, estabelecendo-se o efectivo o máximo para a guarda, avançada.
Às 8 e meia horas, começava o tiroteio na testa da coluna. Tinha a guarda-avançada atingido Bissalanca, que estava defendida pelo gentio.
Iniciou-se o combate, desenvolvendo a guarda avançada e ficando de reserva as restantes forças.
Depois de vivo tiroteio, o gentio retirou para o mato, que fica ao N. da povoação, onde se defendeu valentemente, sendo por fim repelido, deixando muitos mortos abandonados no campo e sendo-lhe feitos 129 prisioneiros. Da nossa parte, baixa nenhuma. O combate terminou às 12 horas.
Às 12 e meia horas, continuámos a marcha para Bejamita, tendo sido reforçada a guarda da rectaguarda por ser provável um ataque do gentio por esse lado.
Após uns minutos de marcha, foi a guarda avançada atacada por muitos papeis e grumetes contra os quais abriu fogo, pondo-os em debandada e atingindo, nesta perseguição, uma tabanca, cujo nome soubemos, depois, ser Pelonde. Aqui chegámos ás 13 horas e tivemos de acampar por todos se encontrarem fatigados, das correrias feitas ao gentio.
Em 27, ainda tivemos de permanecer em Pelonde pelo motivo que acima referi.
Às 6 horas de 28, quando se organizava a coluna para seguir para Bejarnita, cai de surpresa sobre nós o gentio.
Desenvolvendo, imediatamente, as forças para o combate, tomámos a ofensiva com extraordinário vigor, o que fez com que ele retirasse, sendo perseguido com tenacidade pelas nossas forças.
O combate estava terminado às 7 horas, tendo nós 2 homens feridos e um cavalo morto.
Soubemos posteriormente, que ele foi dos mais terríveis para o gentio, pelo grande numero de baixas que teve, especialmente gente de Biombo e Bejamita.
Tive ocasião de observar o grande número de camas, feitas com folhas de palmeira, que estavam colocadas do lado do caminho para Bejamita e a uns 5OO metros, se tanto, de Pelonde, do que deduzo que o gentio, tendo passado a noite ali, se preparava para cair sobre nós de madrugada.
Valeu-nos, certamente, o termos começado os preparativos de marcha às 4 horas.
Chegámos a Bejarnita ás 10 e meia horas, tendo havido apenas durante a marcha uns tiros isolados em Bissauzinho.
Pelas 13 e meia horas do dia 29, o voluntário Carlos Cabral Avelino entrega-me duas comunicações do comandante da Lancha-Canhoneira Flecha. Uma escrita às 4 horas e outra às 10 do mesmo dia.
Na primeira, dizia o referido comandante que o gentio sitiava a tabanca de guerra de Bor, desde a madrugada de 28; que os sitiados estavam com falta de cartuchos (tinham apenas 20 a 30 cartuchos por homem); que o gentio (grumetes e papeis) estivera à fala com os sitiados a quem tinha dito que de manhã (na de 29) havia de estar na posse daquela provação.
A segunda comunicação, em que o comandante da «Flecha» se mostra arreliadíssimo por só conseguir àquela hora ter contacto com as forças de terra, accrescentava: «que não sabia se chegariamos a tempo de salvar a gente de Bór, pois estava informado de que estavam quasi sem cartuchos».
Em face destas comunicações, resolvi marchar imediatamente em socorro de Bór, mandando, acto contínuo, levantar o acampamento.
A marcha iniciava-se ás 14 horas, isto é, três quartos de hora depois da ordem de levantar o acampamento.
Chegámos a Pelonde ás 17 horas sem ter havido um único tiro. Às 20 e meia horas, a guarda-avançada atacava os sitiantes de Bór, sendo logo reforçada pelos regulares e irregulares de Alpha Seilu, travando-se encarniçado combate, que terminou às 22 horas, Tivemos 6 homens feridos e 1 mortosendo o gentio posto em debandada..
Chegámos a Pelonde ás 17 horas sem ter havido um único tiro. Às 20 e meia horas, a guarda-avançada atacava os sitiantes de Bór, sendo logo reforçada pelos regulares e irregulares de Alpha Seilu, travando-se encarniçado combate, que terminou às 22 horas, Tivemos 6 homens feridos e 1 mortosendo o gentio posto em debandada..
A marcha deste dia, já pela escuridão, já pela irregularidade do caminho e emaranhado de arbustos e árvores, que seguindo-o se cruzam por cima dele, detendo-nos de minuto a minuto para nos desenvencilharmos, constituiu um verdadeiro suplicio!
Valha-nos ao menos termos conseguido o que tanto desejávamos: a salvação dos irregulares de Bor, que, apenas tiveram um homem morto e dois feridos, durante o cerco feito pelo gentio.
Nos dias 30 de Junho e 1 de Julho saíram forças em exploração, travando-se pequenas escaramuças com o gentio, que sempre foi vencido.
No dia 2 de Julho, assumia V. Ex.ª o comando da Coluna, constituindo este facto para todos nós motivo de extraordinário jubilo, que V. Ex.ª viu exteriorizado na espontânea e calorosa manifestação que lhe foi feita quando da sua chegada ao acampamento de Bor.»
Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume IV, Nº 14, Abril de 1949
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232-Nos 25 anos do Centro de Estudos da Guiné Portuguesa
Frei Henrique Pinto Rema, OFM, é um padre franciscano que dedicou grande parte da sua vida ao estudo das missões católicas na Guiné, nomeadamente as missões franciscanas, tendo também obras sobre a história da Guiné. Tem obra memorável sobre Santo António, a sua vida e os seus sermões. É membro da Academia Portuguesa de História, da qual já foi Secretário.
Estudioso empenhado, foi, durante a guerra colonial, membro do Centro de Estudos da Guiné Portuguesa e colaborador do seu Boletim. Durante esse período, do seu espírito aberto e pragmático já dei nota no blogue em "Condomínio complicado entre a cruz e a espada".
Mas também neste que aqui coloco agora e que foi publicado em Janeiro de 1971, não o impedindo de referir os méritos de Amílcar Cabral nas publicações que fez no Boletim sobre aspectos da agricultura da Guiné, nem de o mencionar como Vogal que foi da Comissão Executiva do Centro de Estudos, de Junho de 1954 a Junho de 1956.
Este artigo é precioso para quem quiser ter ideia do que foi o Centro de Estudos, saber de todos os que com ele colaboraram, e das suas publicações.
Estudioso empenhado, foi, durante a guerra colonial, membro do Centro de Estudos da Guiné Portuguesa e colaborador do seu Boletim. Durante esse período, do seu espírito aberto e pragmático já dei nota no blogue em "Condomínio complicado entre a cruz e a espada".
Mas também neste que aqui coloco agora e que foi publicado em Janeiro de 1971, não o impedindo de referir os méritos de Amílcar Cabral nas publicações que fez no Boletim sobre aspectos da agricultura da Guiné, nem de o mencionar como Vogal que foi da Comissão Executiva do Centro de Estudos, de Junho de 1954 a Junho de 1956.
Este artigo é precioso para quem quiser ter ideia do que foi o Centro de Estudos, saber de todos os que com ele colaboraram, e das suas publicações.
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5 de agosto de 2011
231-Aspectos e tipos da Guiné - XII
![]() |
| Subida à palmeira - Bijagós |
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| Morro de baga-baga |
Boletim Cultural da Guiné Portugesa, Volume XXVIII, Nº 110, Abril 1973
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230-Os comandos africanos IV
Adelino Gomes
É aceitável que as autoridades portuguesas mandem desarmar o batalhão de comandos e as forças locais, sem receberem uma contrapartida, sem nenhuma garantia de que aqueles homens não serão massacrados mais tarde ao mais cedo?
Coronel Matos Gomes
Qual era a garantia que se podia ter?
Adelino Gomes
Pelo menos uma garantia verbal, a boa fé negocial...
Coronel Matos Gomes
Foi nessa boa fé... Eu já falei com o Fabião sobre isso, porque todos nós temos esse trauma dessa gente que morreu e que combateu connosco. Quando se faz a transferência de poder, e é uma transferência de poder, já não é um reconhecimento de Portugal da independência da Guiné-Bissau, os responsáveis da Guiné-Bissau, que já eram reconhecidos pela comunidade internacional, garantiram de uma forma pessoal que todo o processo da independência iria decorrer da forma mais pacífica e mais justa possível, nomeadamente, que iriam ser respeitados os direitos, em termos de trabalho, dos trabalhadores da administração (e muitos deles foram); que iriam ser respeitados os direitos, ou pelo menos a vida e a integridade dos militares; que até se iria fazer transferências. Recordo-me, em domínios mais técnicos, que eles pretenderam [até] que isso acontecesse, por exemplo, na Marinha. Marinheiros que estavam nas oficinas navais, para garantir que os navios e os motores e tal funcionassem, ficaram. Todas essas transferências foram garantidas por personalidades reconhecidas pela comunidade internacional!
Que depois essas personalidades se tenham revelado como se revelaram é uma questão que já não é da responsabilidade portuguesa. A negociação teve de ser feita de boa-fé e essas garantias de boa-fé de dirigentes políticos de um Estado reconhecido por 86 países foram dadas aos representantes políticos da potência que estava a descolonizar e a passar a administração!
Carlos Gaspar
Não há aí um excesso de zelo?
Coronel Matos Gomes
Um excesso de ingenuidade?
Carlos Gaspar
Não. De zelo.
Coronel Matos Gomes
De zelo de quem?
Carlos Gaspar
Da vossa parte. Se eu percebi bem a sua análise do desertor do PAIGC que estava integrado no Exército, ninguém garantia...
Coronel Matos Gomes
Há um caso que se verifica claramente. O Rafael Barbosa, que era talvez a personalidade mais marcante nesse aspecto de dissidência do PAIGC, como era uma personalidade política conhecida, ninguém lhe tocou.
Manuel de Lucena
O caso Rafael Barbosa não punha logo problemas de equilíbrio interno?
Coronel Florindo Morais
Eu tentei não só que viessem [para a metrópole] como saíssem para o Senegal. Em conversas, nas várias reuniões que tive com eles, aconselhei-os a, no mínimo, irem passar uns meses ao Senegal. Tenho a consciência tranquila.
[José Manuel Barroso?]
Pelos vistos não lhes teria valido de nada. Só quatro anos depois é que começaram a ser dizimados.
Coronel Florindo Morais
Não sei.
Diálogo imperceptível.Coronel Matos Gomes
Nós estamos aqui a discutir a questão da administração portuguesa naquele momento. Isto tem a ver com a questão jurídica. Isto não é nenhuma desculpabilização daquilo que foi feito na altura. Em termos de reconhecimento da identidade desses militares, o que se verifica é que hoje em dia, esses cidadãos da Guiné, nascidos na Guiné, mas que combateram por Portugal, que foram militares e cidadãos portugueses até 1974, o Estado português, hoje, também não os reconhece como portugueses. Isto é, eles nem sequer têm direito a pensões por ferimentos em combate pelo facto de não serem cidadãos nacionais; isto hoje, passados 20 anos e com o tempo todo que essas questões tiveram para ser resolvidas. Ainda relativamente à questão da boa fé que deveria levar a que se acreditasse na palavra do PAIGC, havia o aspecto formal de eles serem já dirigentes reconhecidos pela comunidade internacional, mas havia também o antecedente de uma experiência de relacionamento do PAIGC com prisioneiros nossos, e eles trataram sempre os prisioneiros, mesmo africanos, de uma forma humana e legal (como nós não tratávamos os prisioneiros deles). Nós nos comandos tínhamos casos, que eles conheciam. [Por exemplo, um caso que aconteceu comigo de] um tenente que era comandante de uma companhia, que é ferido, nós perdemos-lhe o rasto, julgámos que ele tinha morrido. Chega mesmo a preparar-se todo o funeral e passado dois dias ele estava a falar na Rádio Conacri. Disse que tinha sido feito prisioneiro, tinha sido levado para o Senegal e depois foi para Conacri e que estava a ser bem tratado; portanto, faz aquela descrição típica do prisioneiro. Esse homem, depois do 25 de Abril, regressa a Bissau. Era um balanta. Foi prisioneiro, vai e regressa. Disse como foi tratado, sem nenhum problema. E ficou na Guiné-Bissau, não como militar, mas como taxista. Quando o general Eanes vai à Guiné-Bissau, ainda ele tinha um táxi em Bissau. E depois morre num acidente completamente estúpido: ia a meter gasolina no carro, fumou e aquilo pegou fogo.
Falha na gravação devida à mudança de cassete. Nesta parte da gravação o coronel Florindo Morais ter-se-é referido aos ultimatos de elementos do PAIGC para que as tropas portuguesas abandonassem os aquartelamentos.
Manuel de Lucena
E qual é a data?
António Duarte Silva
Isto é Junho ou Julho. É na zona Leste. O que é muito importante é que uma série de soldados de outras unidades começaram a pedir aos soldados que estavam lá ao lado do PAIGC para não continuar.
Coronel Matos Gomes
Pois. Porque Buruntuma era o pior sítio da Guiné. Aliás, quando lá esteve o general Schultz, Buruntuma era o «cu de judas» da Guiné. É no vértice superior direito do [mapa] e era, de facto, um buraco infecto onde os soldados deviam pedir aos inimigos para os mandarem embora.
Apartes sobre Buruntuma e a sua localização.
António Duarte Silva
[ ... ] Houve problemas com os comandos! E a questão política é muito importante. A questão dos comandos foi discutida nas conversações de Londres, em Maio. Mas a aceleração deste processo todo [levou a que] em Argel já não fosse discutida. E não foi discutida porque Portugal acedeu às condições que impunha o PAIGC, e em Argel o PAIGC já não quis discutir a questão dos comandos africanos.
Manuel de Lucena
Você tem informações precisas de que Portugal quis discutir, o PAIGC disse que não e Portugal não discutiu? Ou é uma dedução?
Duarte Silva
Tenho informação de que em Londres se discutiu a questão das forças africanas, que era uma das últimas questões para resolver. E de que houve reuniões [ ... ] para discutir essa questão. Se houvesse em Londres um acordo para ser assinado, a situação das forças africanas tinha de constar desse acordo; este é o primeiro aspecto da questão. O segundo aspecto da questão é que a parte operacional das negociações do Acordo de Argel, entre o PAIGC e as forças portuguesas, foi decidida em Bissau. Quer dizer, mesmo os textos não foram discutidos à mesa das conversações em Argel; vieram de Bissau directamente para Argel.
Manuel de Lucena
E qual é a data?
António Duarte Silva
Isto é Junho ou Julho. É na zona Leste. O que é muito importante é que uma série de soldados de outras unidades começaram a pedir aos soldados que estavam lá ao lado do PAIGC para não continuar.
Coronel Matos Gomes
Pois. Porque Buruntuma era o pior sítio da Guiné. Aliás, quando lá esteve o general Schultz, Buruntuma era o «cu de judas» da Guiné. É no vértice superior direito do [mapa] e era, de facto, um buraco infecto onde os soldados deviam pedir aos inimigos para os mandarem embora.
Apartes sobre Buruntuma e a sua localização.
António Duarte Silva
[ ... ] Houve problemas com os comandos! E a questão política é muito importante. A questão dos comandos foi discutida nas conversações de Londres, em Maio. Mas a aceleração deste processo todo [levou a que] em Argel já não fosse discutida. E não foi discutida porque Portugal acedeu às condições que impunha o PAIGC, e em Argel o PAIGC já não quis discutir a questão dos comandos africanos.
Manuel de Lucena
Você tem informações precisas de que Portugal quis discutir, o PAIGC disse que não e Portugal não discutiu? Ou é uma dedução?
Duarte Silva
Tenho informação de que em Londres se discutiu a questão das forças africanas, que era uma das últimas questões para resolver. E de que houve reuniões [ ... ] para discutir essa questão. Se houvesse em Londres um acordo para ser assinado, a situação das forças africanas tinha de constar desse acordo; este é o primeiro aspecto da questão. O segundo aspecto da questão é que a parte operacional das negociações do Acordo de Argel, entre o PAIGC e as forças portuguesas, foi decidida em Bissau. Quer dizer, mesmo os textos não foram discutidos à mesa das conversações em Argel; vieram de Bissau directamente para Argel.
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229-Os comandos africanos III
Adelino Gomes
Eles partem de uma posição de grande receio e desconfiança. Alguns dias ou semanas antes tinham manifestado o desejo de vir para Portugal. Então o que é que os convenceu? Essa delegação foi muito convincente ou foram os seis meses de ordenado adiantado? O que é que os convenceu?
Coronel Florindo Morais
Se calhar um bocado de cada coisa.
...Para mim, na minha leitura, foi um pouco de cada coisa. Por um lado, o dinheiro; por outro lado, a convicção de que... Esta convicção era apresentada de uma outra maneira. Eu recordo-me de o Saiegh, que era o mais evoluído, dizer: «Nós ficamos cá, esta é a nossa terra, a Guiné para os guinéus, nós queremos ficar aqui, queremos contribuir para o progresso, para a independência desta terra». Mas esta era já uma ideologia, digamos, que sobrava.
António Duarte Silva
Nessa altura não tinha fugido ninguém para o Senegal. Estavam todos em Bissau.
Coronel Florindo Morais
Não, não. Não tinha fugido ninguém, nem houve nenhuma morte de militares. Houve um caso qualquer de um tipo que desapareceu, que estava nos voluntários, que era um tal Zeca Freitas, ou qualquer coisa assim, mas havia ali um problema de saias pelo meio. Até porque o PAIGC, nesse momento, mantinha-se nos aquartelamentos, nas suas bases, e só depois, pouco tempo antes da independência, é que começou a fazer-se a [passagem] dos nossos quartéis para o PAIGC, já em finais de Agosto, princípios de Setembro.
António Duarte Silva
O batalhão são cerca de cem homens, não?
Coronel Florindo Morais
Não, são mais, são mais. Cada companhia tinha cerca de cento e tal homens. Nós tínhamos em efectividade duas companhias de comandos e uma Companhia de Comando e Serviços. Portanto, andaria na ordem dos 450.
Coronel Matos Gomes
Chegou a ter 600.
Coronel Florindo Morais
Mas isso com a tropa de cá.
Coronel Matos Gomes
Não, com as três companhias africanas.
Coronel Florindo Morais
Ah, sim. Porque havia uma terceira companhia africana que depois foi desmobilizada.
António Duarte Silva
Chegou a ter seiscentos.
Coronel Matos Gomes
Chegou a ter seiscentos.
Coronel Florindo Morais
Eram duas companhias operacionais de comandos e havia uma terceira que entretanto tinha sido desmobilizada. Na altura da descolonização, a que me estou a reportar, eram duas companhias mais uma CCS (Companhia de Comando e Serviços).
António Duarte Silva
Esse princípio de que os militares tinham de ser pagos constou de um anexo do Acordo de Argel. Está escrito que tinham de ser pagos até Dezembro de 1974.
Coronel Florindo Morais
Não sabia disso.
António Duarte Silva
Não passou essa norma?
Coronel Florindo Morais
Acabou por passar porque foram pagos até Dezembro de 1974.
Apartes.
Manuel de Lucena
Sr. coronel, há aqui um problema de datação. A lei 7/74 é de Julho. Portanto estes contactos são anteriores ao Acordo de Argel?
Coronel Florindo Morais
Qual é a data do Acordo de Argel?
Manuel de Lucena
Agosto.
Coronel Florindo Morais
Deve ser simultâneo. Não posso garantir datas.
Manuel de Lucena
Estes acordos locais precedem [o Acordo de Argel]. Esse é que é o ponto.
Coronel Florindo Morais
Não sei. Sinceramente não sei. Não tenho datas precisas que me permitam afirmar se é uma iniciativa do brigadeiro Fabião que depois fica consagrada no Acordo de Argel ou se é o cumprimento [desse acordo]. É possível que tenha sido uma iniciativa [do brigadeiro].
Manuel de Lucena
Acordo de Argel refere os militares em geral e não em especial os comandos.
Acordo de Argel refere os militares em geral e não em especial os comandos.
António Duarte Silva
[O Acordo de Argel refere-se] às forças africanas.
Manuel de Lucena
Portanto, não só os comandos mas [também] os outros: as outras companhias africanas não comandos, não tropas especiais.
Coronel Florindo Morais
Pois, neste caso o que interessava desmobilizar em primeiro lugar era os comandos.
José Pedro Castanheira
Tem a indicação de quantas pessoas receberam esses vencimentos adiantados?
Coronel Florindo Morais
Foram todas. Na altura tinha cerca de 450 a 500 pessoas. Nessa altura ganhava-se muito pouco. Eu não sei quanto ganhava, mas ganhava para aí uns doze, treze contos. Para fazermos o cálculo teríamos de inflacionar.
Estes eram talvez os primeiros apontamentos que gostava de deixar à vossa consideração. Se houver alguma questão que queiram pôr...
Manuel de Lucena
Como é que se faz a passagem? Porque a determinada altura correu-se o risco da constituição de uma terceira força (comandos e tropas de naturais). Depois há uma evolução que os leva a aceitar tudo isso. O que é que esteve em vias de acontecer? Acha que houve um momento decisivo em que podia ter-se constituído e não constituiu?
Coronel Florindo Morais
Não diria que houve um elemento decisivo; houve uma mentalização, e eles próprios começaram a perceber, a ler a realidade.
Manuel de Lucena
E em que altura é que acontece o desarme?
Coronel Florindo Morais
Eles devem ter saído em Agosto, saíram gradualmente, não saíram todos ao mesmo tempo, não houve uma desmobilização, digamos assim. O desarme é em final de Agosto.
Manuel de Lucena
Já estavam estes acordos feitos, nessa altura.
Coronel Florindo Morais
Sim, sim.
Manuel de Lucena
Então porque é que as armas têm de sair escondidas?
Coronel Florindo Morais
Têm de sair escondidas porque eles não as deixavam sair de outra maneira!
Manuel de Lucena
Mesmo assim.
Coronel Florindo Morais
Mesmo assim.
Manuel de Lucena
Isso é um bocado misterioso. Já tinham aceitado que vocês se iam embora...
Coronel Florindo Morais
Eles próprios não teriam ainda aceitado a desmobilização na altura em que se tiram as armas; as armas tiram-se anteriormente a esse acordo. Mas quero dizer ainda uma coisa sobre isso: havia uma grande quantidade de armamento na posse de cada um dos oficiais e sargentos; todos os oficiais e sargentos tinham Kalashnikovs, tinham armamento nas suas próprias casas, que trataram de esconder, que era armamento capturado e que, portanto, não estava sob controlo.
Manuel de Lucena
Portanto, eles continuavam de certo modo armados.
Coronel Florindo Morais
Continuavam.
Manuel de Lucena
Talvez não muito municiados. Para as Kalashnikovs talvez não tivessem muitas munições.
António Duarte Silva
Aliás, esse veio a ser o grande argumento que o PAIGC mais tarde utiliza para...
Coronel Florindo Morais
Como sabe, o argumento surge a 12 de Março de 75, a seguir ao 11 de Março cá. Tanto quanto eu sei, porque isso eu já não vivi directamente, mas vivi cá; fui tendo algumas informações. A seguir ao 11 de Março, e em ligação com o 11 de Março, foi apontado um golpe, dir-se-ia da FLING, um partido sem grande expressão, mas de tendência pró-americana. Com base nesse suposto golpe, esses militares foram todos capturados e estiveram presos até 1978 e só foram fuzilados em 1978.
Adelino Gomes
Mas antes do 11 de Março de 1975 houve alguns que foram assassinados.
Coronel Florindo Morais
Antes do 11 de Março, que eu saiba, foi esse Jamanca e esse Zeca Lopes ou Zeca Freitas. O Sisseco e o Saiegh foram em 1978, já depois da ida do general Eanes à Guiné. Quando o general Eanes foi à Guiné eles estavam presos, mas ainda vivos.
Adelino Gomes
A história que me contaram foi diferente. Foi que o general Eanes quis trazê-los, o Luís Cabral prometeu que os ia buscar; e quando foram à procura deles, eles já não existiam e o Luís Cabral invocou desconhecimento.
Manuel de Lucena
O Bruno diz que esta versão do Luís Cabral é mentira e que gostava de debater isso na televisão.
Coronel Florindo Morais
Os depoimentos do Luís Cabral merecem muito pouca confiança. Eu posso dizer o seguinte: quando o general Eanes foi à Guiné, na preparação da sua visita, quis saber qual era a situação e qual era a posição em relação aos comandos e foi documentado sobre isso. Tanto quanto sei, sem poder garantir, foi um dos pontos que ele debateu. Depois, em 1980, 1981, apareceu cá o primeiro desses oficiais, foi um dos que consegui fugir para o Senegal. E no Senegal, através de diligências feitas pela Associação de Comandos, começaram-se a trazer para cá os refugiados dos comandos que estavam no Senegal. Um dos primeiros oficiais que apareceu apresentou-se (esse já morreu também, não aprendeu com a História), referiu e deu algumas indicações relativamente a isso e disse que eles foram mortos só em 1978, aliás, creio que há testemunhos históricos que efectivamente foi só em 1978 e já depois da visita do general Eanes.
Manuel de Lucena
E esse homem que veio cá voltou para lá?
Coronel Florindo Morais
Voltou para lá e foi morto lá. Mas foi morto numa acção, entrou de viatura por ali adentro, isso foi recente, foi já em 1985, 1986. Já não foi morto numa represália, foi numa acção policial, foi morto porque ia com certeza fazer qualquer coisa, que não era propriamente ir à missa. E teve um despiste e depois foi apanhado.
General Mateus da Silva
Mas quantos eram os que foram presos e depois mortos?
Coronel Florindo Morais
Meu general, eu não sei. Mas tanto quanto sei, oficiais só escapou esse. E o Marcelino obviamente. O próprio Tomás Camará, que estava cá e foi lá, também foi preso. E não tenho conhecimento de nenhum oficial que tenha escapado.
António Duarte Silva pergunta se terá sido morta uma dezena de oficiais.
Coronel Florindo Morais
Eram mais. Eram mais de vinte.
António Duarte Silva
Há uma lista num livro de um Luís Aguiar, sobre a descolonização, e são cerca de trinta, creio eu.
Coronel Florindo Morais
Isso é possível.
Coronel Matos Gomes
Talvez não sejam tantos, mas à volta dos vinte, sim, de certeza.
Publicada por
A. Marques Lopes
à(s)
17:55
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