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24 de agosto de 2011

238-Casamansa

Quem costuma ir por terra de Portugal à Guiné nota a diferença: 
a sensação de secura trazida do Sara Ocidental e da Mauritânia continua quase a mesma quando se penetra no Senegal, só desaparecendo ao atravessar a Casamansa. Aqui já nos sentimos na Guiné, devido ao clima e à vegetação. É uma região muito parecida, clima quente, de baixa altitude e com chuvadas como as da Guiné, o que não sucede no resto do Senegal. Integrada na "zona dos rios" (Gâmbia a norte, Casamansa, e Cacheu, Mansoa, Geba e Rio Grande a sul) dá-lhe essas características. O restante Senegal (168.452km2, sem a Casamansa) tem o dobro da dimensão desta "zona" (75.745km2), mas só tem um grande rio no norte, o rio Senegal.
Pelo pluviómetro acima representado se vê as diferenças climatéricas entre o Senegal e a Casamansa. Enquanto o clima do Senegal é do tipo sariano o da Casamansa é do tipo tropical. Enquanto em Ziguinchor há 1.250mm de chuva por ano, em Podor, no norte do Senegal, 440mm. Esta a razão por que, primeiro os franceses e depois os senegaleses, tanto se empenharam na Casamansa. 
Os historiadores têm dúvidas se foi Dinis Dias que chegou ao rio Casamansa em 1445 ou se foi Cadamosto, também ao serviço do Infante D. Henrique, em 1446. Foi quem lá chegou que lhe chamou rio do "mansa dos Cassangas". Os cassangas era uma tribo minoritária, assimilada pelos mandingas, que vivia, e ainda vive, entre o rio Cacheu e o rio "Casamansa". "Mansa" era o título dos senhores do império mandinga do Mali, que dominaram desde o rio Senegal até ao Alto Níger desde 1230 a 1600.
Em 1645 os portugueses fundaram a feitoria de Ziguinchor, na margem esquerda do rio Casamansa. Quando chegaram àquele local parece que os nativos começaram a chorar  porque pensaram que os vinham buscar para serem escravos. E faziam-no com razão, pois era a prática dos portugueses naquela zona. Há quem diga que foi essa a razão do nome: "cheguei e choram" deu a corruptela Ziguinchor. Mas há quem se incline mais para outra ideia: vivia naquela região a tribo dos "izguinchos", daí o nome dado à feitoria. Mais tarde se formou a cidade com gente vinda de Geba e de Cacheu, e um presídio, isto é, uma fortificação, sob o comando da capitania do Cacheu. Aí, sobretudo, desenvolveu-se o comércio de escravos, vindo de todo o reino do Gabu (decorrente do império do Mali), que englobava a Casamansa, a Gâmbia e a Guiné.
Desde o século XV que os franceses andavam também por ali no comércio de escravos. Em 1638 fundaram o entreposto comercial de Saint Louis, na foz do rio Senegal, e no século XVII várias lutas houve emtre eles e os portugueses, holandeses e ingleses para o domínio da região. Em 1677, por exemplo, ocuparam a ilha de Gorea, em frente à agora Dakar, que estava ocupada pelos holandeses, que, por sua vez, a tinham tirado aos portugueses em 1617. Perderam-na para os ingleses durante as guerras napoleónicas e recuperaram-na em 1817. Esta ilha, descoberta por Dinis Dias em 1444, foi um importante posto no tráfico de escravos. Para esse efeito aí construíram os portugueses uma feitoria-fortaleza, tal como fizeram em S. Jorge da Mina e S. Baptista de Ajudá.
Forte da ilha de Gorea (Gorée actualmente)
Forted de S. Jorge da Mina (Elmina, no Gana)
 


Forte de S. Baptista de Ajudá, no Benin
( as imagens foram colhidas na Wikipédia)
Com o aparecimento de movimentos antiesclavagistas e algumas medidas iniciadas no início do século XIX para a abolição do tráfico de escravos (grande negócio iniciado pelos portugueses em 1441… Antão Gonçalves foi quem, nesse ano, trouxe para Portugal os primeiros escravos de Arguim, Mauritânia - ver aqui), as grandes potências europeias viraram-se mais para a exploração das matérias-primas e para o comércio em África. Em 1822 deu-se a independência do Brasil e Portugal já não era uma grande potência, tinha uma vida interna complicada pelas lutas entre liberais e absolutistas, e outras lutas intestinas, além de grandes dificuldades em conseguir a ocupação efectiva dos seus territórios coloniais. Como era o caso da Guiné.
Por isso os ingleses e os franceses, sobretudo, sentiram-se à-vontade para iniciativas. Os ingleses em Bolama e nos Bijagós (ver aqui) e os franceses na Casamansa.
Em 29 de Março de 1828, Jean-Clément-Victor Dangles consegue que o chefe da aldeia Cayounou ceda um terreno em Brin (na margem do Casamansa e a poucos quilómetros de Ziguichor) para a França estabelecer uma feitoria. A 22 de Janeiro de 1836 é o chefe da aldeia d Kagnout que cede aos franceses a ilha de Carabane, na foz do rio Casamansa,  também para uma feitoria. No ano seguinte, a 24 de Março, Dagorne, governador da ilha de Gorea conseguiu do rei mandinga Bodian Dofa poder instalar um posto em Selho (actual Sédhiou], no alto Casamansa, na margem esquerda do rio e a 12 milhas de Farim.
Nesta altura, vale a pena ver o que disse Alexandre Herculano na sessão de 6 de Julho de 1840 da Câmara dos Deputados, era a guerra entre cartistas e setembristas:
Honório Pereira Barreto, não Governador ainda, era comerciante em Cacheu,  bem se esforçou:
Em 21 de Dezembro de 1844, conseguiu que o rei banhum de Sango Dogu, residente em Bissari, na margem do rio Casamansa,  lhe desse «para todo o sempre» todo o terreno não cultivado nessa região, declarando que «ainda que tivesse guerra com O Presídio de Ziguinchor, em nada essa guerra prejudicaria esse contrato livremente feito». Nesse mesmo mês, no dia 29, dos chefes de Mascaço, na margem esquerda daquele rio, cedem-lhe um terreno na margem do rio com 198 metros de fundo para construção de estabelecimentos de negócio, podendo ter a bandeira portuguesa e ser fortificados; o mesmo conseguiu, também nesse dia, dos habitantes de Gone e Cabone; e no dia seguinte, 30, fez idênticos acordos com os chefes de Nhamu, Blandor e Santague.
Homem activo, em Janeiro seguinte, de 1845, conseguiu terrenos dos chefes de Seneguer e Bambuda, no dia 4, do chefe de Faracunda no dia 5 e do de Sangaje no dia 9.
Em 12 de Maio de 1845, Honório Barreto cedeu ao Estado todos esses terrenos que adquirira.
Em 1848, o residente francês de Selho ameaçou ocupar Jagubel, terrenos que Honório Barreto tinha comprado em 11 de Abril de 1844, juntamente com outros em Afinhame. Jagubel era um ponto muito importante do comércio do sal. O Governador de Cacheu reagiu contra, a pedido do comandante militar de Ziguinchor.
A 4 de Fevereiro de 1850, a França assina um tratado de protectorado com a o rei Bodian Dofa em Selho (actual Sédhiou).
A 21 de Outubro de 1855, Honório Barreto, já como Governador do Distrito da Guiné, manifesta, em ofício dirigido ao Governador Geral de Cabo Verde, a sua satisfação pelas notícias que tinha de que a França reconhecia os direitos dos portugueses sobre a Casamansa e prometia abandonar as feitorias que ali tinha. «Se isso for verdade, fica a Guiné feliz, porque aquele rio exporta o dobro do que exportam os outros portos juntos», dizia Barreto.
Mas não era verdade. Logo a 28 de Março de 1856, o mesmo Governador de Cabo Verde fez chegar ao Ministro do Ultramar cópias de correspondência entre Barreto e o delegado francês em Selho, em que o Governador da Guiné protestava contra as tentativas daquele delegado sobre Ziguinchor.
Mas a vida para os franceses também não era fácil, pode dizer-se que foram os primórdios da resistência na Casamansa:
- a 9 de Março de 1860 dá-se a batalha de Hilol, a 50 km de Ziguinchor, contra as tropas coloniais francesas vindas da ilha de Gorea; nessa batalha morreu o capitão Aristide Protet, atingido por uma flecha envenenada e enterrado de pé pelos guerreiros de Csamansa;
- a 11 desse mesmo mês de Março, travou-se nova batalha contra os franceses em Thionk-Essyl, no norte Casamansa;
- mais outra em Sandinière, na zona de Kolda, a 10 de Fevereiro de 1861; o coronel Émile Pinet-Laprade, comandante de várias expedições contra os casamansenses, faz o elogio da sua resistência a 19 desse mês;
- mas o elogio ao inimigo não quer dizer que não o queira dominar, e há outra batalha em Djembering, 10 km a norte de Cap Skirring, em 3 de Fevereiro de 1865.
Foram algumas das reacções contra a ocupação francesa, que durou anos, sempre à revelia dos interesses portugueses.  E é interessante ver aqui o que disse o padre Marcelino Marques de Barros em 30 de Novembro de 1880, numa carta dirigida ao Ministro da Marinha, Visconde de S. Januário:

A França estava activa, e com arte:
- a 12 de Outubro de 1882, criou o Território Autónomo da Casamansa com capital em Gorea (Gorée actualmente), ilha em frente a Dakar (!), às ordens do vice-governador Farque com o título de Administrador Superior; em 1894, a capital foi transferida para Selho (Sédhiou), na Casamansa, pelo governador Henri de Lamothe;
- mas, entretanto, a 3 de Novembro de 1883, é acordado com o rei Mussá Molo Baldé um protectorado no Fouladou (alto Casamansa); o reino de Mussá Molo Baldé compreendia uma parte da Gâmbia, da Casamansa e das duas Guinés, e o Administrador Superior ficou com um representante na corte do rei Mussá, em Hamdalahi, na Casamansa, a norte de Kolda.

Já com pouca convicção, certamente não motivados pela política central, os portugueses ainda organizaram uma coluna “para combater o gentio” de Jobolor, Jabocuor e Bori, na zona de Ziguinchor, tendo tomado parte nas operações um contingente de artilharia e a canhoneira Bengo. Decorreu de 1 a 16 de Abril de 1884,sob o comando do capitão António José Machado.  A coluna foi louvada “pelo bastante denodo com que se houve no ataque de Bori, única que não veio solicitar perdão».
Esforço escusado. Já havia negociações diplomáticas e, a 12 de Maio de 1886, foi assinada em Paris a Convenção entre Portugal e França sobre os limites da Guiné Portuguesa, ficando a caber à França o território de Casamansa. Em troca, a França cedeu a Portugal o território de Cacine, da Guiné Francesa, e comprometeu-se a reconhecer “a influência soberana e civilizadora” de Portugal nos territórios que separavam Angola de Moçambique. Era o “mapa cor de rosa”… 

Reclamado por Portugal na Conferência de Berlim (realizada entre 19 de Dezembro de 1884 e 26 de Fevereiro de 1885). Mas «os nossos amigos ingleses" não gostaram e, a 11 de Janeiro de 1890 fizeram o célebre "ultimato", com ameaça de guerra, o que impediu esse objectivo. E os franceses, amigos da onça, ficaram caladinhos. Foi tudo por água abaixo, mapa cor de rosa e... Casamansa.
E a Casamansa foi entregue formalmente assim: uma força do Batalhão de Caçadores Nº 1, composta por 1 oficial inferior, 1 cabo e 6 soldados, partiu de Bissau para Ziguinchor no dia 16 de Novembro de 1887, a fim de esperar a chegada da delegação francesa e entregar aquela praça. Mas, oficialmente, só em 22 de Abril de 1888 é que é considerado o fim da presença portuguesa lá e o começo da francesa, com protestos da população d Ziguinchor nessa data.
Dividiu-se um país e um povo comum entre duas potências:
Desenvolve-se a resistência contra a ocupação colonial da França, apesar das manobras envolventes desta:
- logo a 1 de Dezembro de 1886 são mortos três militares franceses, o tenente Truche, os sodados Seguin e Renaudin, são mortos na batalha de Séléky, região de Mof Ewi, com descendentes de Kinara, na Guiné;
- e o administrador Martin, em 1891, em relatório para o governo, alegando que a população da Casamansa é uma cambada de anarcas, recomendou que fossem nomeados para as suas aldeias chefes oriundos do Senegal;
- o capitão francês Forichon é morto em 21 de Maio de 1891 em Sédhiou (Selho);
- a 7 de Maio de 1893, o governador da África Ocidental Francesa, Henri de Lamothe, assina um tratado com o rei de Fogni, Fodé Kaba Doumbouya, em Bona, no norte Casamansa;
- a 18 de Maio de 1906, Djignabo ataca o quartel francês de Séléki, sendo aí morto; é considerado um herói da Casamansa;
- Novembro de 1908: o governador Camille Guy transfere a capital da Casamansa de Sédhiou para Ziguinchor, dividindo a região em Alta, Média e Baixa Casamansa. Nessa altura o administrador Noirot propôs a criação de uma Casamansa indpendente;
- no início da primeira guerra mundial, em 1914, o Alto Comissário da República de França, Blaise Diagne, encarregado do recrutamento de tropas coloniais, é mal recebido na Casamansa; o padre Jean Esvan, aberto opositor do recrutamento forçado, é preso; há grande manifestação em Ziguinchor exigindo a sua libertação;
- durante a visita do Governador Geral da África Ocidental Francesa, William Ponty, em 20 de Março de 1914, os casamanseses manifestam-se exigindo, pela primeira vez, a independência;
- em Janeiro de 1927, o administrador Maubert fuzilou vários resistentes casamanseses no local onde está agora o Monumento aos Mortos de Ziguinchor;
Aline Sitowé Diatta
- em 1940, a rainha diola Aline Sitowé Diatta, de Kabrousse, na Baixa Casamansa, percorre a região clamando contra os impostos sobre os produtos agrícolas para alimentar o esforço de guerra dos franceses; foi presa e torturada em 28 de Janeiro de 1943, colocada num calabouço em Tumbuctu, primeiro, depois em Saint Louis e, mais tarde, no Mali, tendo aí morrido em 1944; é considerada uma heroína do seu povo;
- em 9 de Fevereiro de 1943, o famoso resistente Kafandyen mata, em Effok, o sargento Maurice Scobry; a 3 de Março seguinte, as tropas coloniais francesas queimam a aldeia e massacram os seus habitantes;
Bandeira do MFDC 
- é fundado, a 4 de Março de 1947, o Movimento das Forças Democráticas da Casamansa (MFDC), sendo seu líder Victor Shumehemba Diatta, o primeiro doutorado em literatura francesa em todo o continente africano; defensor público da independência, foi assassinado alguns meses depois;
- em 1948 surge o jornal "A Voz da Casamansa", o primeiro jornal inteiramente africano;
-  no Congresso do MFDC de 1954, em Bignona, dá-se a cisão do movimento: uma parte, liderada por Émile Badiane defende a aliança com o Bloco Democrático do Senegal (BDS) de Léopold Sédar Senghor; a outra parte quer continuar a luta pela independência do Camansa;
- morre em Junho de 1955, em Jibélor, perto de Ziguinchor, a rainha Aloendiso Bassène, seguidora de  Aline Sitowé Diatta, e também ela um símbolo da resistência;
- em Agosto de 1955 surge um segundo partido casamansês, o MAC, Movimento Autónomo da Casamansa, dirigido por Assane Seck e Louis da Costa;
- aquando da greve e da matança de 3 de Agosto de 1959 no cais de Pidjiguiti, em Bissau, milhares de casamanseses manifestaram o seu apoio aos irmãos guineenses;
- independência da Federação do Mali; Léopold Senghor pede a independência do Senegal, apoiado por Émile Badiane (o da cisão no MFDC) que com Senghor tinha feiro uma aliança política para 20 anos, mas à revelia do MFDC e do povo da Casamansa;
- 20 de Agosto de 1960: independência do Senegal; os militantes do MAC queimam as bandeiras senegalesas em toda a Casamansa, sendo os seus dirigentes presos e torturados; em Sédhiou e Marsassoum foram mortos 8 membros do MAC;
- Senghor, em Março de 1962, divide a Casamansa em duas: Região da Casamansa, com capital em Ziguinchor, e Região do Senegal Oriental, com capital em Tambacunda;
- os deputados casamanses Ibou Diallo e Dembo Coly são presos e encarcerados por pedirem a independência da Casamansa e se recusarem a tomar posição sobre o conflito entre Senghor e Mamadou Dia (este tentara um golpe de estado a 17 de Dezembro);
- em 1971, o filme "Emitai", do cineasta casamansês Sembène Ousmane, é censurado pela administração senegalesa, porque se centra na luta dos camponeses do Casamansa contra os soldados franceses que lhes queriam confiscar os produtos agrícolas, durante a segunda guerra mundial.
Desde a fundação de Ziguinchor, e durante os séculos XVII e XVIII, os portugueses a isto se limitaram: a ter ali uma feitoria, ponto de apoio ao comércio de escravos. O mesmo sucedia noutros lados da África Ocidental com as outras potências coloniais.
No século XIX, os objectivos mudaram, como já referi mais atrás. E, como se pode verificar, foram os franceses que preocuparam os casamanseses, porque eram eles os ocupantes de facto, mesmo antes de 1886. Já havia resistência contra eles antes e continuou após este ano, claro.
Desde a independência do Senegal, em 1960, até 1980 a presença francesa na Casamansa foi desaparecendo. Mas, nesse período, foi-se aí expandindo a ocupação senegalesa, caracterizada pela corrupção de quadros casamanseses, por grande e anárquica exploração dos seus recursos naturais, deslocação para a região de população senegalesa, sabotagem da política de ensino própria, administração controlada pelos senegaleses e presença militar desmesurada.
A resistência continuou, contra os senegaleses:
- uma manifestação estudantil em Ziguinchor, a 11 de Janeiro de 1980, é reprimida pelo exército senegalês, sendo o estudante Idrissa Sanhá friamente abatido por um oficial senegalês; dá-se também uma grande manifestação de mulheres em frente às instalações do governo de Ziguinchor; o hotel "Le Diola" foi incendiado;
Abbé Augustin Diamacoune Senghor
- falhada tentativa de assassinato do Abbé Augustin Diamacoune Senghor, Secretário Geral do MFDC, a 15 de Janeiro de 1980,  em Jibélor (houve mais outras tentativas de o assassinar; morreu em Paris em 2007; não é da família do Léopold Senghor...);
- 23 de Agosto de 1980: conferência do Abbé Augustin Diamacoune Senghor na Câmara do Comércio de Dakar sobre "A Resitência Casamansesa"; milhares de casamanseses manifestam-se em frente da Presidência, na Avenida Roume, em Dakar, gritando "Vinte anos já chega! Viva a independência da Casamansa!";
- a 28 de Dezembro de 1982 realiza-se, em Ziguinchor, uma manifestação com mais de 100.000 participantes, reprimida pelo exército senegalês; morreram 200 e 400 foram presos; contam que o comissário Cheik Tidiane Kane executou a tiro de pistola 7 dos manifestantes;
- a 6 de Dezembro de 1983, 8 polícias do Senegal foram mortos quando entraram num bosque de Diabir, em Ziguinchor, para capturar um grupo de rebeldes;
- a 13 de Dezembro de 1983, o Tribunal de Segurança do Estado Senegalês condena 9 dirigentes do MFDC (entre eles o Abbé Diamacoune) a 5 anos de cadeia e outros e independentistas a 3 anos;
- a seguir, no dia 18, 175.000 pessoas manifestam-se em Ziguinchor reclamando a independência da Casamansa e a libertação dos presos políticos; o exército senegalês faz mais de uma centena de mortos e 700 presos; consta que houve torturas e vários desaparecidos de pois de levados para o Senegal;
- 76 mulheres casamansesas detidas na Prisão Central Reubeus de Dakar protestam, a 23 de Janeiro de 1984, contra os maus tratos e condições sub-humanas; foram torturadas e transferidas para a prisão de Rufisque (antigo "Rio Fresco", nome dado pelos portugueses), nos arredores de Dakar;
Fevereiro de 1984: o Abbé Diamacoune é transferido da prisão de Reubeus para a prisão de Thiès, a 75 km  de Dakar; criação, na floresta, das Forças Combatentes do MFDC, "Atika", dirigido por Sidy Badji;
- a 7 de Abril de 1984 o Senegal proibiu o uso da palavra "Casamansa" em todos os documentos oficiais, devendo usar-se "Região de Ziguinchor", e nomeou para lá um governador militar;
- em resultado de um processo instaurado a 105 prisioneiros políticos, a decisão de 18 de Novembro de 1985 absolveu 73, condenou 14 a 10 anos de prisão em Koutal, 6 a 15 anos e 1 a pena perpétua na prisão de Hann;
- o MFDC reune em Bignona, a 22 de Outubro de 1986, 14.000 membros e 1.200 combatentes armados exigindo a  libertação imediata e sem condições do Abbé Diamacoune; no dia 25 seguinte registam-se violentos confrontos e muitas prisões nessa cidade;
- a 2 de Janeiro de 1988 o Abbé Diamacoune termina a sua pena de cinco anos de prisão e regressa ao Casamansa;
- 12 soldados senegaleses morreram e 8 ficaram feridos, em 19 de Dezembro de 1988, durante uma emboscada montada pelo Atika.
Em 1989 e 1990 intensificaram-se os ataques da resistência armada contra as tropas senegalesas em toda a região do Casamansa. Acossados no mato, os soldados senegaleses desforram-se prendendo e torturando civis casamanseses: 712 prisões e 27 desaparecidos em Abril de 1990.
- a 14 de Junho de 1990, em Ziguinchor, o Abbé Diamacoune é preso pela segunda vez;
- em 29 de Março de 1991 há um encontro entre deputados do PDS (Partido Democrático Senegalês, presidido por Abdoulaye Wade; é Presidente do Senegal desde 2000) e os líderes do MFDC para negociações de paz;
- o Senegal, a 28 de Maio de 1991, liberta 355 presos políticos casamanseses, detidos desde 24 de Abril de 1990, entre eles o Abbé Diamacoune;
- no dia 31 desse mês é assinado, em Bissau, um acordo de cessar-fogo;
- e a 16 de Junho seguinte, o governador militar de Ziguinchor, general Amadou Abdoulaye Bieng, é substituído por um governador civil;
- novo acordo de cessar-fogo, assinado em Cacheu, Guiné-Bissau, a 17 de Abril de 1992;
- a 1 de Setembro de 1992 os soldados senegaleses atacam um grupo armado do MFDC em Kaguitt, a 10 km de Ziguinchor, e sofre um morto;
- entre 20 e 30 de Setembro de 1992, vários confrontos entre forças senegalesas e do MFDC, resultando 42 mortos, entre eles 10 civis;
- Em Janeiro de 1993, Sidy Badji, comandante das forças combatentes do MFDC é afastado e substituído por Léopold Sagna (Sanhá...);
- em 15 de Fevereiro de 1993 Nino Vieira convida o Abbé Diamacoune para nova reunião de paz em Bissau;
- mas, surpresa, o Abbé é novamente preso e obrigado a ler um discurso conciliador em 8 de Abril;
- violentos confrontos entre o MFDC e tropa senegalesa, a 18 de Abril de 1993, em Youtou-Effok; morreram 306 soldados;
- segundo acordo de cessar-fogo a 8 de Agosto de 1993, assinado em Ziguinchor;
- 14 de Agosto de 1994, manifestação em Ziguinchor, debaixo de intensa chuva, com 20.000 simpatizantes do MFDC;
- 68 militares senegaleses foram mortos e 8 viaturas suas destruídas a 22 de Janeiro de 1995, em Boutoupa Camaracounda;
- em Março de 1995 realiza-se o Congresso do MFDC em Sédhiou ciom a presença de 6.000 participantes de toda a Casamansa;
- prisão de quatro turistas franceses (os casais Cave e Gagnaire), a 8 de Abril de 1985, na estrada de Oussouye, acusados de cumplicidade com o MFDC; nunca mais se soube deles;
- a 25 de Abril de 1955 várias pessoas são presas e torturadas pelos militares senegaleses, entre as quais quatro conselheiros do Abbé: Sanoune Bodian, Edmond Bora, Sarani Manga Badiane et Mamadou Diémé;
- deportação para o Senegal numa fragata militar, em 8 de Junho de 1985, de 213 presos casamanseses;
- seis membros da família da rainha Anna Sambou de Djiwemte são executados em Edjougou, a 17 de Julho de 1995: Adama, Aliou, Amady, Fodé, Sidate Sambou e Malang Diatta;
- No dia 25 desse mês o MFDC mata 38 soldados senegaleses em Babonda;
- a 6 de Setembro seguinte são 18 pára-quedistas que são mortos em Mangacounda;
- 18 de Setembro de 1995 a Guiné-Bissau e o Senegal atacam posições da resistência casamansesa;
- O Abbé Diamacoune, a 3 de Dezembro de 1995, faz um apelo de cessar-fogo e propõe um calandário de negociações a partir de 8 d Abril de 1996.
Entre 1990 e 1995 o MFDC fez mais de um milhar de mortos às tropas senegalesas. Os comandos dos combatentes do MFDC estavam assim distribuídos em 1995: Léopold Sagna na floresta da Baixa Casamansa, Mathieu Alias, «Gagarine», na floresta de Bayotte, e Salif Sadio na região de Badonda até Goudomp, a este. Os bombardeamentos do exército senegalês e os violentos confrontos com a "Frente Sul" do MFDC empurraram a população para a cidade de Ziguinchor ou para a Guiné-Bissau. Em 1996, estimam os responsáveis de Casamansa, estariam refugiados na Guiné-Bissau 22.000 casamanseses.
- em Janeiro de 1996 o exército senegalês envenena as águas de Oussouye, a poucos quilómetros da fronteira com a Guiné-Bissau, provocando a morte de 170 pessoas;
- o começo das negociações entre o MFDC e o Senegal, programada para 8 de Abril, é adiada "sine dia" e os vistos nos passaportes dos representantes do MFDC para Paris são recusados; os representantes da Casamansa recusam ir a Paris sem o Abbé Diamacoune;
- a 17 de Março de 1997 uma delegação do MFDC estabelece-se em Paris, graças à acção do embaixador em Dakar André Lewin;
- 26 de Maio de 1997: militares senegaleses disparam sobre uma manifestação de estudantes em Bignona, matando 2, ferindo 12; prendem outros 22;
- a 24 de Agosto de 1997, são presos Sarani Manga Badiane, membro da direcção do MFDC, Koulamouyo Edgar Diédhiou, membro do MFDC, Simon Malou, professor primário reformado, Léon Toupane, sacristão em Zuguinchor, Sékou Sadio, barman, François Sambou, educador, e mais outros 18; nunca mais se soube deles;
- as forças da resistência do MFDC montam uma emboscada ao exército denegalês, a 19 de Agosto de 1997, em Madina Mankangne (Mancanha...) e matam 38 soldados e 4 oficiais;
- a 3 de Dezembro de 1997, o coronel Gaye executa 42 casamanseses civis em Kolda;
- em Janeiro de 1998, o Abbé Diamacoune faz um novo apelo à paz;
- aquando da revolta de 7 de Junho de 1998 na Guiné-Bissau, o governo senegalês envia 1.200 soldados para apoiar Nino Vieira; os guerrilheiros do MFDC apoiam os revoltosos guineenses.
- em Janeiro de 1999 o Abbé Diamacoune e o Presidente do Senegal, Diouf, negoceiam nova paz;
- em Fevereiro desse ano, o governo senegalês liberta 123 membros do MFDC presos em Ziguinchor, Kolda e Dakar, acusados de acções contra a segurança do estado;
- o MFDC e o governo senegalês reúnem-se na Gâmbia em 26 de Dezembro de 1999, decidindo um cessar-fogo e reuniões mensais para decidir o futuro da Casamansa.
Com estas conversações lançou-se a divisão no seio da resistência casamansesa e o braço armado do MFDC recusou a paz com o ocupante.
Em Dezembro de 2000, o governo senegalês lança um aviso a toda a imprensa que qualquer divulgação de comunicados oriundos do MFDC poderá prejudicar os esforços de paz e será punida nos termos do Código Penal. No mesmo dia deste aviso, um jornalista e um editor do jornal "Le Populaire" foram presos e interrogados durante 7 horas por publicarem uma resenha de 19 anos do conflito na Casamansa. Foram acusados de "falsas notícias e acção contra a segurança nacional". Foram libertados no mesmo dia.
Confrontos esporádicos continuaram em 2001, sobretudo em Junho e Julho, com algumas mortes. A imprensa deu notícia de ataques e emboscadas, presumivelmente de homens armados do MFDC. Nesse ano continuavam presos sem julgamento, em Dakar e Kolda, 30 membros da resistência.
Durante o ano de 2002, homens armados suspeitos de pertenceram ao MFDC,  fizeram várias mortes. Em Março atacaram veículos a 4 km de Diouloulou e mataram 7 civis; em Outubro dispararam sobre um taxi em Diabang e mataram 3 passageiros. As forças de segurança senegalesas estenderam vários postos de controle na zona de Ziguinchor para captura de armas e veículos.
Nesse ano o Abbé Diamacoune disse ter 2.300 homens em armas. No entanto, a 1 de Dezembro de 2001, Sidi Badjie, líder do Atika, braço armado do MFDC, dissera não aceitar mais servir às ordens do Abbé Diamacoune.
A 30 de Dezembro de 2004 nova reunião do governo com o MFDC para acordo de paz.
O nível da resistência diminuiu e, em 2004, milhares de deslocados (entre 10 a 15.000) regressaram à Casamansa, vindos da Gâmbia e da Guiné-Bissau.
Depois do seu regresso à Guiné-Bissau 7 de Abril de  2005, Nino Vieira passa a apoiar o governo senegalês contra os rebeldes da Casamansa.
O governo senegalês tinha reunido com o movimento rebelde em Fevereiro desse ano em Foundiougne com a promessa de novo encontro, o "Foundiougne2" para pôr em prática o acordo, mas a data foi adiada por várias vezes.
A 16 de Março de 2006 o exército da Guiné-Bissau envolve-se em luta contra a facção do MFDC liderada por  Salif Sadio, inclusive com bombardeamentos sobre a base deste na Casamansa, alegadamente por ele desestabilizar a zona de S. Domingos e manter bases na Guiné.
E também a Gâmbia apoiou o Senegal. Em Setembro de 2007 a polícia desse país prende e mata 15 membros do MFDC.
- a 30 de Dezembro de 2006 o MFDC mata, em Sindian, o Presidente do Coselho Regional de Ziguinchor, El Hadji Lamine Badji;
- em Dezembro de 2007 dão-se violentos confrontos entre forças do MFDC e do exército senegalês em Baraka Bounao, entre Ziguinchor e a fronteira guineense;
- a 19 de Dezembro de 2007 o MFDC faz vários mortos, entre eles o conselheiro especial do Presidente do Senegal, Chérif Samsidine Néma Aidara;
- vários confrontos em Outubro de 2009 no Alto Casamansa;
- a 8 de Dezembro de 2009 um cabo senegalês é morto pelo MFDC;
- 21 de Março de 2010: um militar foi morto e cinco ficaram feridos entre os quais dois em estado grave, numa operação que ocorreu contra as posições de rebeldes na Casamansa; na semana anterior, já dois tinham morrido em confronto com os guerrilheiros do MFDC;
- 13 de Janeiro de 2011: homens armados do MFDC atacam dois veículos do exército senegalês na estrada de Bignona-Sénoba, na fronteira gambiana, fazendo vários feridos, evacuados para o hospital;
- 11 de Fevereiro de 2011, o comandante François Diatta, de uma das facções do MFDC, em entrevista a "Nobas di Guiné", "advertiu ao governo de Senegal que a sua facção está a preparar para desencadear a guerra em Dacar e recusa quaisquer negociações com as autoridades senegalesas";
- 30 de Julho de 2011: forças do Senegal violaram a fronteira da Guiné-Bissau, em Varela, para alegadamente impedirem acções dos rebeldes da Casamansa;
- 21 de Agosto de 2011: 50 homens armados, supostamente do MFDC, atacam a aldeia de Balantacounda, na fronteira com a Guiné-Bissau, aí refugiando-se depois;
- 19 de Agosto de 2011: o Presidente Wade do Senegal desloca-se a Banjul para pedir o apoio da Gâmbia contra os rebeldes da Casamansa.
Já vai longo este apanhado. São algumas datas. 
Quando acabará? 
Parece-me que... a luta continua.

14 de agosto de 2011

237-A invasão fula na Circunscrição de Bafatá

      SEGUNOO a tradição, há cerca de cem anos, Alfá Moló, régulo de Firdú (território francês), entrou na Colónia, pelo regulado de Sam CorIá, área do Posto Administrativo de Contuboel, e, depois de dominar algumas regiões situadas na margem direita do rio Gêba, fixou-se em Dandum, hoje sede do regulado de Gussará, naquele tempo povoado por Beafadas, Mandingas e Soninqués (bebedores), donde veio atacar Chime (Bassum) e foi derrotado pelo régulo Ansumane Sambú, auxiliado por DjaJiá Nanqui, régulo de Cossé, que não tomou      parte activa nos combates.                                                        
      Regressado a Firdú, como se sentisse ferido pela derrota de Chime, Alfá Moló voltou a Dandum e pensou em atacar o régulo de Cossé, cuja fama tinha chegado até ao território francês. Aconselhado pelo seu «mouro» Saico Umarú, expediu um ultimatum ao régulo Djaliá Nanqui, que, por sua vez, confiado na união, valentia e fidelidade do seu povo, imediatamente destacou um emissário para prevenir Alfá Moló da sua visita, a todo o momento. Nesse mesmo dia, a alta noite, Djaliá, que era «pauteiro» - Bafá-Uanguiré (cabeça aberta) - fez as suas cerimónias e, no dia seguinte, de manhã cedo, reuniu o povo e, em palavras convincentes, lhe disse: «Afinal o tal régulo Alfá Moló, que .nos pretende fazer guerra, não é homem e está quase a morrer. Estive com ele a noite passada e mal lhe toquei com as mãos na cabeça, adoeceu. Tinha levado um machado (Qllissá) para lhe partir a cabeça, mas penalizou-me imenso o estado dele e deixei-o. Coitado! - Djantôlé !». De facto, ao romper da aurora, morria em Dandum o famoso Alfá Moló, conforme mensagem recebida do sobrinho de Djaliá, Saneá Nanqui, régulo de Badora. Recebida que foi a notícia, a povoação de Galú Maro, uma das mais anti­gas da Circunscrição e sede do regulado de Cossé, envolveu-se numa balbúrdia infernal. Por todos os lados ressoavam tambores, dançavam velhos e crianças, repletos de satisfação, pois que muitas vidas se tinham poupado. O régulo mandou abater vacas, carneiros e cabras, que dis­tribuiu pela comitiva. Em seguida, chamou o povo, afirmando: «Muito agradeço a vossa pontualidade e mais uma vez vos assevero o inque­brantável poderio de Cossé».
Por morte de Alfá Moló, subiu ao trono de Firdú o seu filho Mussá Moló, cuja maior preocupação era a de continuar a obra do pai, isto é, submeter os restantes territórios. À medida que estes eram expugnados, os régulos eram substituídos por Fulas escolhidos dentre os melhores guerreiros. Venceu o régulo de Chime e ali deixou Belá Baldé, pai de Hábido Baldé, penúltimo régulo daquele território. Em seguida atacou Carantabá (Corubal), povoação que muito se tinha distinguido pelas suas notáveis fortificações, até então consideradas inexpugnáveis. Depois de muitos dias de resistência, foi completamente arrazada, tendo os seus habitantes fugido para Quínara, que era o refúgio dos Beafadas. Deu a «reinança» de Corubal a Damam Baldé, pai de Moli Baldé, seu último régulo, falecido em Buba, em 1938.
Após a ocupação de Corubal, Mussá Moló, por necessidade impe­riosa, teve de voltar a Firdú. Como lhe tivesse constatado que a morte do pai tinha sido por feitiçaria, e que o régulo de Cossé se considerava insuperável pelas suas práticas sortílegas, Mussá Moló, que era dotado de um temperamento rígido e severo, génio impetuoso e por vezes insu­portável, imediatamente convocou os seus melhores guerreiros e narrou­-lhes os fados que lhe haviam constado. Consultado o seu «mouro» (con­selheiro), que lhe deu todas as esperanças de vitória, Mussá mandou preparar o exército com que ia desiludir Djaliá do seu mágico poderio. Volvida uma semana, tinha chegado a Dandum, onde foi visitar a sepul­tura do pai e fazer as cerimónias de costume. Porém, ficou estupefacto com a morte do seu rival e de Saneá Nanqui, régulo de Badora, por onde tinha que passar.
Como os Mandingas de Bigine, a maior povoação de Badora, não quisessem reconhecer Bali Sanhá como régulo, este pediu auxílio a Mussá Moló para a sua submissão. Saqueada Bigine, Nimam Dabó, então régulo de Cossé, fugiu com toda a comitiva para Corubal e dali para Quinara, embora tivesse sido aconselhado pelo seu lugar-tenente, Galona Dabó, a não o fazer. A povoação de Galú Maro ficou indefesa e desprovida de tudo. Toda a população se pôs em debandada. Mães fugiram, deixando crianças nos leitos, e crianças se internaram no «mato», ao Deus dará, a chorarem pelas mães, que, com certeza, nunca mais tomariam a ver. Mussá Moló era o terror dos Mandingas e Beafadas.
Cossé foi dado a Djobore Baldé, pai de Infali Balclé, seu actual régulo. Como Djobore não quisesse abandonar a companhia de Mussá Moló, deu o território a SambeI Comandim, seu tio, para governar pro­visoriamente. Por morte deste, Djobore foi a Galú Maro para fazer as cerimónias habituais e assumir as funções de régulo, O que lhe foi recusado pelo filho de SambeI Comandim, Gueladje Baldé, que se achava investido naquele cargo. Em face da recusa, Djobore pediu a intervenção do Comando Militar de Gêba, que resolveu a questão a favor de Gueládje.
o reinado de Gueládje durou cerca de 15 anos, tendo sido destituído, por ter auxiliado o régulo Bóncó Sanhá, que sucedeu a Ieró Mané, na guerra contra Adulai Baldé, régulo de Chime, em 1908, o qual, por sua vez, havia solicitado auxílio ao Governo da Colónia, que lhe foi prestado pelo comando militar de Chime. Derrotados em Taibatá (sede do regu­lado de Chime) e em Cam Pampi (Badora), Boncó e Infali Soncó, régulo de Cuór, fugiram para este território, tendo transposto o rio em Fa, desembarcando no porto de Aldeia, donde foram refugiar-se em Úio.
A fuga de Boncó Sanhá para o Oio provocou um interregno no regu­lado de Badora, durante o qual esteve subordinado ao régulo de Chime. Por relevantes serviços prestados, o Governo deu o território a Sampocá,. cuja «reinança» durou apenas um ano. A Sampocá sucedeu Assete Seidi, que reinou durante seis anos. Por morte deste, Boncó foi nomeado, nova­mente, em recompensa de valiosos serviços prestados ao Estado nas cam­panhas de pacificação, tendo o seu reinado durado cerca de 40 anos. Era valente e cheio de prestígio.
Com a destituição de Gueládje, Cossé foi dado a Djobore Baldé, em recompensa do auxílio prestado na guerra de Chime, tendo o seu reinado durado cerca de 20 anos. A Djobore sucedeu Issufo, seu filho, que reinou durante oito anos, tendo-lhe sucedido Infali Baldé, seu irmão, actual régulo.
Cabomba e Bulole, como eram territórios pequenos, não puderam oferecer resistência a Mussá Moló. Depuseram as armas, e o primeiro foi dado a Tócótchel Baldé, muito conhecido pelo seu penteado, cujas tranças se atavam por baixo do queixo, e o segundo a Samba Móló Baldê, que fundou a povoação de Sa-Moló (Sa, simplificação de Samba, e Moló, nome da mãe). A Tócótchel (pequenino) sucedeu Sambei Uma Baldé, de quem foi sucessor lerondim Baldé, penúltimo régulo de Cabomba, sendo estes dois filhos daquele. Sambei Baldé foi sucessor de Sa Moló, tendo sido destituído, há cerca de 15 anos, por má condução da política indígena, e o território de Bulóle anexado a Badora.
Pelo exposto vê-se que quase todos os régulos Fulas da área de Bafatá (Gabungábé) devem a sua «reinança» a Mussá Moló. A designa­ção de «Gabungábé» é atribuída a todas as raças que habitam a margem esquerda do rio Gêba, ou seja do lado de Gabú, sendo as raças que habitam a margem oposta denominadas «Brassungábé». do lado de Brasso, Circunscrição Civil de Farim, sobre as quais, oportunamente, farei detalhada referência, por ainda não ter coligido todos os elementos relativos à sua história.
Augusto de Barros
Chefe de Posto de Bambadinca

Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume II, Nº 007, 1947 

11 de agosto de 2011

233-Coluna de operações contra os papéis em 1915

Trata-se de uma das operações realizadas durante "As batalhas de Bissau". Começou a 5 de Junho, com a tomada de Intim. A 10 ocupou Antula e a 12 chegou a Jaal, onde Teixeira Pinto, que comandava a coluna, foi ferido e regressou a Bissau. Passou o comando ao tenente Sousa Guerra. Este é o relatório que ele fez a Teixeira Pinto, quando este reassumiu o comando. 
Tem uma segunda parte em que faz o elogio de alguns dos homens intervenientes na operação, o que julgo não ter interesse para aqui.
Ao ler isto lembro-me de alguns dos nossos relatórios...

«Exmo Senhor Comandante da Coluna de Operações contra os Papéis

Em 12 de Junho, pelas 15 horas, entregava-me V. Exa. o comando da coluna, por ter de retirar-se para Bissau, onde, por opinião médica, devia tratar-se dos ferimentos recebidos, em Jaal, nesse mesmo dia.
De como decorreram as operações desde essa data até 1 de Julho e da forma como o pessoal da coluna desempenhou os serviços, que lhe foram cometidos, dirão as singelas e mal ataviadas linhas que seguem.

1
DAS OPERAÇÕES REALIZADAS
Até ao dia 14, nada ocorreu digno de menção. Neste dia, levantámos o acampamento para Safim de Cima, que fica a um quarto de hora de Safim de Baixo e onde já tínhamos resolvido estabelecer uma tabanca de guerra.
Depois de acampados, mandei fazer a exploração dos terrenos circun­jacentes, onde se travaram algumas escaramuças, sendo o gentio repelido. Tivemos 9 homens feridos e 2 mortos. Os dias 15 e 16 decorreram tranqui­lamente, tendo ficado resolvido que às 7 horas de 17 sairia uma força de 200 irregulares para bater Entoche.
Em 17, a força, a que me acabei de referir, logo depois de ter per­corrido uns mil metros na direcção S.O., é atacada fortemente pelo gentio que desenvolve até ao acampamento, atacando este por O. e N.O.
Abdu Injai, com 400 irregulares, vai juntar-se à força, que tinha saído do acampamento, e consegue levar de vencida até Jaal uma parte do gentio atacante; a outra é repelida pelas forças de defesa do acampa­mento (regulares e irregulares de Alfha Seilu).
O combate terminou às 14 horas, tendo nós 10 homens feridos e 5 mortos e 1 cavalo ferido. Da parte do gentio, a avaliar pela quantidade de mortos abandonados, contra o seu costume, no campo, devia haver um considerável número de baixas.
Até 20 nada ocorreu digno de registo. Neste dia, marchàmos para Contumo, tendo deixado, na tabanca de guerra de Safim, o segundo sar­gento Faria com 6 soldados da 2.ª companhia indígena de infantaria da Guiné e 100 irregulares e tendo comunicado ao Comando Militar de Nhacra a existência desta tabanca. Partimos de Safim às 8 1/2 horas da manhã, indo a coluna organizada de forma a atender a um provável ataque do flanco esquerdo ou da retaguarda em Jaal.
A marcha fez-se sem novidade, passando a coluna em Jaal ás 11 e meia horas e chegando às 12 a Bessaca, onde parámos o tempo indispensável para se reforçar a guarda-avançada, atendendo a que daqui em diante era certo o encontro com o gentio.
A marcha continuou sem um tiro até ás 13 e meia horas, quando começou o ataque da guarda avançada à povoação de Contumo, que ás 14 estava em nosso poder, retirando o gentio para uma linha natural de defesa, que há entre Contumo e Bor, linha constituída por uma série de palmeiras tendo do lado desta povoação um riacho, isto é, um verdadeiro fosso aquático. Daí começou fazendo fogo sobre a guarda avançada, que operava uma demonstração sobre essa linha.
Eu e o Abdul, com todas as outras forças contornámos o riacho na sua origem, que era próxima, e caímos resolutamente sobre o gentio, batendo-o sobre Bór para onde retirou e onde continuou a sua defesa.
Reunida a guarda-avançada, todas as forças atacaram Bór, sendo o gentio repelido com inúmeras perdas, retirando para o mato próximo donde continuou fazendo fogo, que em breve tinha de cessar pela perse­guição que lhe foi feita.
Ás 15 e meia horas podíamo-nos considerar possuidores de Bór. Tivemos 4 homens feridos.
Foi grande o número de armas e munições encontradas.
Ás 16 horas, o gentio tornou a vir atacar-nos, sendo repelido com êxito.
No dia 21, saíram forças que exploraram os terrenos circunjacentes. No dia 22, o gentio atacou o acampamento pelas 13 e meia horas, sendo repelido depois de meia hora de tiroteio.
Nos dias 23, 24 e 25, nada de anormal.
Fez-se uma tabanca de guerra em Bór, onde ficou o chefe Sori Jólo com a sua gente.
As 6 horas do dia 26, iniciamos a marcha para Bejamita.
Como tínhamos de passar em Bissalanca, onde, segundo informações de diversas procedências, grumetes e papeis se tinham organizado defen­sivamente, o efectivo dos diferentes escalões da coluna teve por base aque­las informações, estabelecendo-se o efectivo o máximo para a guarda, avançada.
Às 8 e meia horas, começava o tiroteio na testa da coluna. Tinha a guarda-avançada atingido Bissalanca, que estava defendida pelo gentio.
Iniciou-se o combate, desenvolvendo a guarda avançada e ficando de reserva as restantes forças.
Depois de vivo tiroteio, o gentio retirou para o mato, que fica ao N. da povoação, onde se defendeu valentemente, sendo por fim repelido, dei­xando muitos mortos abandonados no campo e sendo-lhe feitos 129 pri­sioneiros. Da nossa parte, baixa nenhuma. O combate terminou às 12 horas.
Às 12 e meia horas, continuámos a marcha para Bejamita, tendo sido reforçada a guarda da rectaguarda por ser provável um ataque do gentio por esse lado.
Após uns minutos de marcha, foi a guarda avançada atacada por muitos papeis e grumetes contra os quais abriu fogo, pondo-os em deban­dada e atingindo, nesta perseguição, uma tabanca, cujo nome soubemos, depois, ser Pelonde. Aqui chegámos ás 13 horas e tivemos de acampar por todos se encontrarem fatigados, das correrias feitas ao gentio.
Em 27, ainda tivemos de permanecer em Pelonde pelo motivo que acima referi.
Às 6 horas de 28, quando se organizava a coluna para seguir para Bejarnita, cai de surpresa sobre nós o gentio.
Desenvolvendo, imediatamente, as forças para o combate, tomámos a ofensiva com extraordinário vigor, o que fez com que ele retirasse, sendo perseguido com tenacidade pelas nossas forças.
O combate estava terminado às 7 horas, tendo nós 2 homens feridos e um cavalo morto.
Soubemos posteriormente, que ele foi dos mais terríveis para o gentio, pelo grande numero de baixas que teve, especialmente gente de Biombo e Bejamita.
Tive ocasião de observar o grande número de camas, feitas com folhas de palmeira, que estavam colocadas do lado do caminho para Beja­mita e a uns 5OO metros, se tanto, de Pelonde, do que deduzo que o gentio, tendo passado a noite ali, se preparava para cair sobre nós de madrugada.
Valeu-nos, certamente, o termos começado os preparativos de mar­cha às 4 horas.
Chegámos a Bejarnita ás 10 e meia horas, tendo havido apenas durante a marcha uns tiros isolados em Bissauzinho.
Pelas 13 e meia horas do dia 29, o voluntário Carlos Cabral Avelino entrega-me duas comunicações do comandante da Lancha-Canhoneira Flecha. Uma escrita às 4 horas e outra às 10 do mesmo dia.
Na primeira, dizia o referido comandante que o gentio sitiava a tabanca de guerra de Bor, desde a madrugada de 28; que os sitiados esta­vam com falta de cartuchos (tinham apenas 20 a 30 cartuchos por homem); que o gentio (grumetes e papeis) estivera à fala com os sitiados a quem tinha dito que de manhã (na de 29) havia de estar na posse daquela provação.
A segunda comunicação, em que o comandante da «Flecha» se mostra arreliadíssimo por só conseguir àquela hora ter contacto com as forças de terra, accrescentava: «que não sabia se chegariamos a tempo de salvar a gente de Bór, pois estava informado de que estavam quasi sem cartuchos».
Em face destas comunicações, resolvi marchar imediatamente em socorro de Bór, mandando, acto contínuo, levantar o acampamento.
A marcha iniciava-se ás 14 horas, isto é, três quartos de hora depois da ordem de levantar o acampamento.
Chegámos a Pelonde ás 17 horas sem ter havido um único tiro. Às 20 e meia horas, a guarda-avançada atacava os sitiantes de Bór, sendo logo reforçada pelos regulares e irregulares de Alpha Seilu, tra­vando-se encarniçado combate, que terminou às 22 horas, Tivemos 6 homens feridos e 1 mortosendo o gentio posto em debandada..
A marcha deste dia, já pela escuridão, já pela irregularidade do caminho e emaranhado de arbustos e árvores, que seguindo-o se cruzam por cima dele, detendo-nos de minuto a minuto para nos desenvencilharmos, constituiu um verdadeiro suplicio!
Valha-nos ao menos termos conseguido o que tanto desejávamos: a salvação dos irregulares de Bor, que, apenas tiveram um homem morto e dois feridos, durante o cerco feito pelo gentio.
Nos dias 30 de Junho e 1 de Julho saíram forças em exploração, tra­vando-se pequenas escaramuças com o gentio, que sempre foi vencido.
No dia 2 de Julho, assumia V. Ex.ª o comando da Coluna, consti­tuindo este facto para todos nós motivo de extraordinário jubilo, que V. Ex.ª viu exteriorizado na espontânea e calorosa manifestação que lhe foi feita quando da sua chegada ao acampamento de Bor.» 


Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume IV, Nº 14, Abril de 1949

232-Nos 25 anos do Centro de Estudos da Guiné Portuguesa

Frei Henrique Pinto Rema, OFM, é um padre franciscano que dedicou grande parte da sua vida ao estudo das missões católicas na Guiné, nomeadamente as missões franciscanas, tendo também obras sobre a história da Guiné. Tem obra memorável sobre Santo António, a sua vida e os seus sermões. É membro da Academia Portuguesa de História, da qual já foi Secretário.
Estudioso empenhado, foi, durante a guerra colonial, membro do Centro de Estudos da Guiné Portuguesa e colaborador do seu Boletim. Durante esse período, do seu espírito aberto e pragmático já dei nota no blogue em "Condomínio complicado entre a cruz e a espada". 
Mas também neste que aqui coloco agora e que foi publicado em Janeiro de 1971, não o impedindo de referir os méritos de Amílcar Cabral nas publicações que fez no Boletim sobre aspectos da agricultura da Guiné, nem de o mencionar como Vogal que foi da Comissão Executiva do Centro de Estudos, de Junho de 1954 a Junho de 1956.
Este artigo é precioso para quem quiser ter ideia do que foi o Centro de Estudos, saber de todos os que com ele colaboraram, e das suas publicações.


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