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25 de agosto de 2011

240-Como Antão Gonçalves levou os primeiros escravos

CAPÍTULO XII

Como Antão Gonçalves trouxe os primeiros cativos

(…) Acabada a viagem daqueste, quanto ao principal mandado, Antão Gonçalves chamou Afonso Guterres, um outro moço da câmara, que era com ele, e assim os outros do navio, que eram por todos vinte e um, e falou-lhes em esta guisa: Irmãos e amigos! Nós temos já nossa carga [peles de lobo-marinho e azeite], como vedes, na qual acabamos a principal força de nosso mandado, e bem nos podemos tomar, se mais não quisermos trabalhar além daquilo que nos principalmente foi encomendado; mas quero porém saber de vós outros, se vos parece que é bem que tentemos de fazer alguma cousa, porque aquele que nos cá enviou, possa conhecer alguma parte de nossa boa vontade, ca me parece que seria vergonha tomarmos assim ante a sua presença, com tão pequeno serviço. E em verdade eu considero que, quanto nos esta cousa foi menos encarregada pelo infante nosso senhor, tanto devemos em ela de trabalhar com muito maior peso. Ó que formoso aquecimento seria, nós que viemos a esta terra por levar carga de tão fraca mercadoria, acertarmos agora em nossa dita de levar os primeiros cativos ante a presença do nosso príncipe! E quero-vos dizer o que tenho considerado para receber vosso avisamento: e isto é, que em esta noite seguinte, eu com nove de vós outros, aqueles que mais dispostos estiverdes para o trabalho, quero ir tentar alguma parte desta terra, ao longo deste rio, para ver se sinto alguma gente, ca me parece que de razão devemos achar alguma cousa, pois é certo que aqui há gentes, e que tratam com camelos e outras alimárias, que levam suas cargas; e o tráfego daquestes principalmente deve de ser contra o mar; e pois que eles de nós ainda não hão nenhuma sabedoria, não pode o seu ajuntamento ser tamanho que nós não tentemos suas forças; e encontrando-nos Deus com eles, a mais pequena parte da vitória será filharmos [agarrarmos à força] algum, do qual o Infante nosso senhor não será pouco contente para cobrar conhecimento por ele de quais e quejandos são os outros moradores desta terra. Pois qual será o nosso galardão, sabê-la-eis pelas grandes despesas e trabalho que ele nos anos passados, somente a este fim, tem oferecidos. Vós vede o que fazeis, responderam os outros, ca pois capitão sois, é necessário que naquilo que mandardes sejais obedecido, não como Antão Gonçalves; mas como nosso senhor, ca bem deveis de cuidar que aqueles que aqui somos, da criação do Infante nosso senhor, temos desejo e vontade de o servir, até pôr nossas vidas na sorte do derradeiro perigo. Porém a nós parece, que vossa intenção é boa, com tanto que vós não queirais aí meter outra novidade, pela qual se nos recresça perigo, com pouco serviço de nosso senhor. E finalmente determinaram fazer seu mandado, e o seguir até onde mais chegar pudessem. E tanto que a noite sobreveio, Antão Gonçalves apartou aqueles nove, que lhe mais aptos pareceram, e fez com eles sua viagem, segundo antes determinara E sendo afastados do mar, quanto podia ser uma légua, acharam ali um caminho, o qual guardaram, presumindo que poderia por ali acudir algum homem, ou mulher, que eles pudessem filhar; e seguiu-se de não ser assim, por cuja razão Antão Gonçalves pôs em prazimento aos outros, que fossem mais avanta seguir sua intenção, ca pois já demovidos eram, não seria bem de tomarem assim em vão para seu navio. E contentes os outros, partiram dali, seguindo por aquele sertão espaço de três léguas onde acharam rasto de homens e moços, cujo número, segundo seu parecer, seriam de quarenta até cinquenta, os quais seguiam ao revés do que os nossos andavam. A calma era muito grande, e assim por razão dela, como do trabalho que passado tinham, velando a noite e andando assim de pé, e sobretudo à míngua da água, que aí não havia, sentiu Antão Gonçalves que o cansaço daqueles era já mui grande, a qual cousa ele bem podia julgar por seu próprio padecimento. Amigos, disse ele, aqui não há mais; nosso trabalho é grande, e o proveito me parece pequeno, quanto pelo seguimento deste caminho, ca estes homens são contra a parte donde nós vimos, e o melhor conselho que podemos haver, é que voltemos contra eles, e pode ser que à volta que fizerem, se apartaram alguns, ou por ventura chegaremos sobre eles onde jouverem em alguma folga, e cometendo-os de rijo, pode ser que fujam, e fugindo, algum haverá aí menos ligeiro, de que nos podemos aproveitar, segundo nossa intenção, ou por ventura será nossa dita melhor, e acharemos catorze ou quinze, com os quais faremos nossa presa de maior avantagem. Não era este conselho em que se pudesse achar dúvida, quanto nas vontades daqueles, porque cada um aquilo mesmo desejava. E voltando contra o mar, em pouco espaço do seu caminho, viram um homem nu, que seguia um camelo, levando duas azagaias na mão, e seguindo aqueles nossos, não havia aí algum que de seu grande cansaço tivesse sentido. E como quer que aquele fosse só, e visse que os outros eram tantos, todavia quis mostrar que aquelas armas eram dignas para ele, e começou de se defender o melhor que pode, fazendo sua contenença(1) mais áspera do que sua fortaleza requeria. Afonso Guterres o feriu de um dardo, de cuja ferida o mouro recebeu temor, e lançou suas armas como cousa vencida; o qual filhado, não sem grande parazer daqueles, indo assim adiante, viram sobre um outeiro a gente, cujo rasto seguiam, da soma dos quais era aquele que traziam filhado. E não faleceu por suas vontades de chegar a eles, mas o sol era já mui baixo, e eles cansados, consideraram que semelhante cometimento lhe podia trazer maior dano que proveito, e porém determinaram de se recolher a seu navio. E indo assim aviados, viram ir uma moura negra, que era serva daqueles que ficavam no outeiro, e posto que o conselho d'alguns daqueles fosse que a deixassem ir, por não travar nova escaramuça, de que pelos contrários não eram requeridos, ca pois eram em vista, e o seu número era mais que dobrez(2) sobre eles, não podiam ser de tão pequenos corações, que lhe deixassam assim levar cousa sua. Antão Gonçalves todavia disse, que fossem a ela, ca podia ser que o menos preço daquele encontro faria aos contrários cobrar corações contra eles. E já vedes, voz de capitão, entre gente usa a obedecer, quanto prevalece. Seguindo seu acordo, a moura foi filhada, sobre a qual os do outeiro quiseram acudir; mas vendo os nossos aparelhados de os receber, não somente se retraíram para onde estavam, mas ainda fizeram viagem para outra parte, voltando as costas aos conrários. (…)


CAPÍTULO XIII
Como Nuno Tristão chegou onde era Antão Gonçalves, e como o fez cavaleiro

(...) Agora saibamos como Nuno Tristão, um cavaleiro mancebo, assaz valente e ardido, que fora criado de moço pequeno na câmara do Infante, chegou àquele lugar onde era Antão Gonçalves, o qual trazia uma caravela armada com especial mandado do seu senhor que passasse além do porto da Galé, o mais longe que pudesse, e des i(3), que se trabalhasse de filhar gente por qualquer maneira que melhor pudesse; o qual correndo sua viagem, chegou ali onde era Antão Gonçalves. (...)

(1)   "contenença" significa "actual presença".
(2)   "dobrez" tem o sentido de "duplo".
(3)    “dês i” corresponde a “desde aí, desde então”



(...) 5. Imediatamente o senhor Infante fez uma armada de duas caravelas e mandou um cavaleiro já de idade que se chamava Nuno Tristão; por capitão em outra caravela ia Antão Gonçalves, muito moço, que depois teve o castelo de Tomar, com outros moços da câmara do senhor Infante. Ordenou-lhes que fosse até ao Rio do Ouro e que, se encontrassem gente, fizessem tratado de paz com ela. Assim foram até ao Rio do Ouro; de noite foram com batéis até à costa e ao alvorecer viram uma gente que vinha tirar água a um poço.

Cheios de satisfação, saltaram em terra com as suas armas e apanharam treze homens e mulheres, enquanto o resto fugia. Entre eles, tomaram um ancião muito respei­tável, de nome Adavu". Alguns deles eram ruivos, outros negros. E assim, cheio de contentamento, o capitão-mor armou cavaleiro o mais novo, ainda jovem, que tinha o nome de Antão Gonçalves e era parente do capitão da ilha da Madeira.  (...)

O autor desta narração, Diogo Gomes de Sintra , que chegou ao rio Geba em 1456, também se vangloria:

(...) 7. De novo o senhor Infante fez uma armada de quatro caravelas. Os capitães: Gil Eanes de Vilalobos, cavaleiro; Lançarote, almoxarife do rei em Lagos, Nuno Tristão e Gonçalo Afonso de Sintra. E houve muitos homens de nobreza que foram a Arguim e passaram além onde tomaram uma ilha que tem o nome de Teslim e outra ilha grande chamada Tider e outra mais, Onar.

A ilha de Tider encontraram-na cheia de homens e de mulheres. Só eu, Diogo Gomes, almoxarife de Sintra, apanhei 22 pessoas que se tinham escondido e empurrei--as sozinho diante de mim, como animais, por meia légua até aos barcos. O mesmo fez cada um dos outros. Captu­rámos nesse dia desses cenégios 600 homens de cor ruiva e uns 50 negros e com eles regressámos a Portugal, a Lagos do Algarve (ver aqui), onde se encontrava o senhor Infante. Ficou ele muito satisfeito connosco.


Como eram transportados os escravos nas caravelas
http://maracatu.org.br/o-maracatu/historia/
Depois, mandou o senhor Infante de novo Gonçalo Afonso de Sintra. Foram outra vez às ditas ilhas e deram combate aos sarracenos Cenégios. As mulheres fugiram, mas Gonçalo de Sintra perseguiu-as dentro de água; as mulheres apanharam lodo do mar e lançando-lho na cara cegaram-no de tal modo que ele ficou sem ver. Os homens caíram sobre ele e mataram-no, Os outros regressaram à caravela e voltando a Portugal levaram a nova ao senhor Infante, acompanhados de mais de 60 cenégios, de um e outro sexo.(...)

24 de agosto de 2011

239-Sem Timor...


29 de Março de 1967

Regressei ao RAC de Oeiras depois de uma licença de 10 dias, benesse do Decreto nº 42937. Obrigadinho. Mas não fiquei nada satisfeito quando lá cheguei e o capitão disse aos alferes que, afinal, não íamos para Timor. Tinham-nos dito que talvez… Afinal, disse-nos, vamos para a Guiné. Foda-se, que merda! reacção geral.
Fiquei lixado, peguei no distintivo e mudei-lhe o lema: passou de “Sem Temor” para “Sem Timor”. Que não podia ir com isto assim no desfile que iríamos fazer antes de embarcar, mas todos vimos que o capitão também não estava nada satisfeito. Tá bem, mas agora dá-me para desopilar.
Não me apeteceu nada ficar no quartel depois do jantar, não tinha nada a fazer, e decidi ir apanhar o comboio até Lisboa. Os meus camaradas, não vi bem se a sério ou a brincar, perguntaram-me se me ia pirar. Não, disse-lhes a sério, não me vou pirar, não vos ia abandonar, vou só dar aos meus velhotes esta boa notícia… Fiz mal. E daí… não sei, talvez não, tinha de ser, tinha de lhes dizer. O meu pai ficou macambúzio e preocupado, a minha mãe e a minha irmã choraram.
Não aguentei e vim para este bar.
Dá-me licença que me sente aqui?... Obrigado.
Um gin tónico, se faz favor!
...Não é a primeira vez que cá venho mas agora não sei o nome do bar, não me vem à cabeça. Situação embaraçosa para quem pretende divagar a partir dele, da sua configuração interna, daquilo que se vê através dos seus frequentadores, do mundo que encerra em si e fora de si. Mas não interessa, os meus pensamentos vão estar longe daqui.
Olhe, mais outro gin tónico!
…Afinal, acho que sim. É importante o nome das coisas, dos seres, dos lugares... Penso que os nomes atribuídos têm muito a ver com a natureza das coisas, dos seres e do seu ambiente. Quando digo rosa, digo e sinto tudo o que a rosa é: o cheiro, as pétalas coloridas, o redondo belo. Quando se fala no Marquês todos sabem que é a praça onde está o Marquês de Pombal com o leão a tiracolo. Não, está aos pés, é verdade. Mas faz tanto parte dele que é como se o tivesse a tiracolo. E mulher… ah, mulher é amor, seios, pernas, ancas, sexo. Os nomes deixaram de ser unicamente nomes e passaram a ser, a personificar coisas concretas. Quando proferimos um nome temos em nós, automaticamente, um retrato, uma vivência e um conjunto de características que só conseguiríamos descrever por frases mais ou menos extensas, mais ou menos difíceis de explicar. O nome é a síntese em nós de tudo isso.
Mais um!
…Levantei o copo mas o homem não me viu. Tenho de bater no copo.
Mais um gin tónico!
…Dar nomes às coisas e às pessoas é bom, para economizar palavras e explicações entre quem se conhece. Tenho uma amiga linda como uma flor… os bidonvilles de Champigny são piores que o Casal Ventoso… diz tudo, sem mais explicações. E, veja lá, e se aquela flor a que chamamos rosa tivesse outro nome… por exemplo esterco ou trampa? E se à trampa chamássemos rosa? Estávamos a introduzir aberrações no nosso código de entendimento, subverteríamos esse código. A discussão generalizar-se-ia onde agora existe entendimento. Chocaríamos os nossos amigos e os contactos do dia-a-dia, passaríamos por loucos perante os nossos concidadãos, como diria Camus.
Traga mais um, se faz favor!
Sente-se bem? Já vai no quarto… Não quer comer nada?
Não. Já jantei. Mas tem razão. Traga-me antes um whisky… Traga lá, homem!
…E se a loucura se generalizasse, se cada um decidisse a sua própria subversão, seria a guerra civil. Mas neste caso, ou no caso de se dar uma única subversão de forma colectiva, a tendência será regressar a uma nova normalidade, assente em novos códigos. Mais simplesmente na segunda hipótese, com muita dificuldade na primeira. Mas lá se chegaria. Lembrei-me agora desta: é colónia ou província ultramarina que se deve dizer?... Não se assuste, isto é só conversa. E desculpe lá a linguagem, mas é que saí há pouco tempo da Faculdade de Letras. Bem, tenho de ir andando, tenho de voltar ao quartel. Sim, sou tropa.
Não quer que o ajude? Posso levá-lo…
…Não, obrigado. Estou como o aço, dentro de dias vou embarcar para a Guiné. Gosto em conhecê-lo, adeus e até ao meu regresso. Não se ria, senão choro. 

238-Casamansa

Quem costuma ir por terra de Portugal à Guiné nota a diferença: 
a sensação de secura trazida do Sara Ocidental e da Mauritânia continua quase a mesma quando se penetra no Senegal, só desaparecendo ao atravessar a Casamansa. Aqui já nos sentimos na Guiné, devido ao clima e à vegetação. É uma região muito parecida, clima quente, de baixa altitude e com chuvadas como as da Guiné, o que não sucede no resto do Senegal. Integrada na "zona dos rios" (Gâmbia a norte, Casamansa, e Cacheu, Mansoa, Geba e Rio Grande a sul) dá-lhe essas características. O restante Senegal (168.452km2, sem a Casamansa) tem o dobro da dimensão desta "zona" (75.745km2), mas só tem um grande rio no norte, o rio Senegal.
Pelo pluviómetro acima representado se vê as diferenças climatéricas entre o Senegal e a Casamansa. Enquanto o clima do Senegal é do tipo sariano o da Casamansa é do tipo tropical. Enquanto em Ziguinchor há 1.250mm de chuva por ano, em Podor, no norte do Senegal, 440mm. Esta a razão por que, primeiro os franceses e depois os senegaleses, tanto se empenharam na Casamansa. 
Os historiadores têm dúvidas se foi Dinis Dias que chegou ao rio Casamansa em 1445 ou se foi Cadamosto, também ao serviço do Infante D. Henrique, em 1446. Foi quem lá chegou que lhe chamou rio do "mansa dos Cassangas". Os cassangas era uma tribo minoritária, assimilada pelos mandingas, que vivia, e ainda vive, entre o rio Cacheu e o rio "Casamansa". "Mansa" era o título dos senhores do império mandinga do Mali, que dominaram desde o rio Senegal até ao Alto Níger desde 1230 a 1600.
Em 1645 os portugueses fundaram a feitoria de Ziguinchor, na margem esquerda do rio Casamansa. Quando chegaram àquele local parece que os nativos começaram a chorar  porque pensaram que os vinham buscar para serem escravos. E faziam-no com razão, pois era a prática dos portugueses naquela zona. Há quem diga que foi essa a razão do nome: "cheguei e choram" deu a corruptela Ziguinchor. Mas há quem se incline mais para outra ideia: vivia naquela região a tribo dos "izguinchos", daí o nome dado à feitoria. Mais tarde se formou a cidade com gente vinda de Geba e de Cacheu, e um presídio, isto é, uma fortificação, sob o comando da capitania do Cacheu. Aí, sobretudo, desenvolveu-se o comércio de escravos, vindo de todo o reino do Gabu (decorrente do império do Mali), que englobava a Casamansa, a Gâmbia e a Guiné.
Desde o século XV que os franceses andavam também por ali no comércio de escravos. Em 1638 fundaram o entreposto comercial de Saint Louis, na foz do rio Senegal, e no século XVII várias lutas houve emtre eles e os portugueses, holandeses e ingleses para o domínio da região. Em 1677, por exemplo, ocuparam a ilha de Gorea, em frente à agora Dakar, que estava ocupada pelos holandeses, que, por sua vez, a tinham tirado aos portugueses em 1617. Perderam-na para os ingleses durante as guerras napoleónicas e recuperaram-na em 1817. Esta ilha, descoberta por Dinis Dias em 1444, foi um importante posto no tráfico de escravos. Para esse efeito aí construíram os portugueses uma feitoria-fortaleza, tal como fizeram em S. Jorge da Mina e S. Baptista de Ajudá.
Forte da ilha de Gorea (Gorée actualmente)
Forted de S. Jorge da Mina (Elmina, no Gana)
 


Forte de S. Baptista de Ajudá, no Benin
( as imagens foram colhidas na Wikipédia)
Com o aparecimento de movimentos antiesclavagistas e algumas medidas iniciadas no início do século XIX para a abolição do tráfico de escravos (grande negócio iniciado pelos portugueses em 1441… Antão Gonçalves foi quem, nesse ano, trouxe para Portugal os primeiros escravos de Arguim, Mauritânia - ver aqui), as grandes potências europeias viraram-se mais para a exploração das matérias-primas e para o comércio em África. Em 1822 deu-se a independência do Brasil e Portugal já não era uma grande potência, tinha uma vida interna complicada pelas lutas entre liberais e absolutistas, e outras lutas intestinas, além de grandes dificuldades em conseguir a ocupação efectiva dos seus territórios coloniais. Como era o caso da Guiné.
Por isso os ingleses e os franceses, sobretudo, sentiram-se à-vontade para iniciativas. Os ingleses em Bolama e nos Bijagós (ver aqui) e os franceses na Casamansa.
Em 29 de Março de 1828, Jean-Clément-Victor Dangles consegue que o chefe da aldeia Cayounou ceda um terreno em Brin (na margem do Casamansa e a poucos quilómetros de Ziguichor) para a França estabelecer uma feitoria. A 22 de Janeiro de 1836 é o chefe da aldeia d Kagnout que cede aos franceses a ilha de Carabane, na foz do rio Casamansa,  também para uma feitoria. No ano seguinte, a 24 de Março, Dagorne, governador da ilha de Gorea conseguiu do rei mandinga Bodian Dofa poder instalar um posto em Selho (actual Sédhiou], no alto Casamansa, na margem esquerda do rio e a 12 milhas de Farim.
Nesta altura, vale a pena ver o que disse Alexandre Herculano na sessão de 6 de Julho de 1840 da Câmara dos Deputados, era a guerra entre cartistas e setembristas:
Honório Pereira Barreto, não Governador ainda, era comerciante em Cacheu,  bem se esforçou:
Em 21 de Dezembro de 1844, conseguiu que o rei banhum de Sango Dogu, residente em Bissari, na margem do rio Casamansa,  lhe desse «para todo o sempre» todo o terreno não cultivado nessa região, declarando que «ainda que tivesse guerra com O Presídio de Ziguinchor, em nada essa guerra prejudicaria esse contrato livremente feito». Nesse mesmo mês, no dia 29, dos chefes de Mascaço, na margem esquerda daquele rio, cedem-lhe um terreno na margem do rio com 198 metros de fundo para construção de estabelecimentos de negócio, podendo ter a bandeira portuguesa e ser fortificados; o mesmo conseguiu, também nesse dia, dos habitantes de Gone e Cabone; e no dia seguinte, 30, fez idênticos acordos com os chefes de Nhamu, Blandor e Santague.
Homem activo, em Janeiro seguinte, de 1845, conseguiu terrenos dos chefes de Seneguer e Bambuda, no dia 4, do chefe de Faracunda no dia 5 e do de Sangaje no dia 9.
Em 12 de Maio de 1845, Honório Barreto cedeu ao Estado todos esses terrenos que adquirira.
Em 1848, o residente francês de Selho ameaçou ocupar Jagubel, terrenos que Honório Barreto tinha comprado em 11 de Abril de 1844, juntamente com outros em Afinhame. Jagubel era um ponto muito importante do comércio do sal. O Governador de Cacheu reagiu contra, a pedido do comandante militar de Ziguinchor.
A 4 de Fevereiro de 1850, a França assina um tratado de protectorado com a o rei Bodian Dofa em Selho (actual Sédhiou).
A 21 de Outubro de 1855, Honório Barreto, já como Governador do Distrito da Guiné, manifesta, em ofício dirigido ao Governador Geral de Cabo Verde, a sua satisfação pelas notícias que tinha de que a França reconhecia os direitos dos portugueses sobre a Casamansa e prometia abandonar as feitorias que ali tinha. «Se isso for verdade, fica a Guiné feliz, porque aquele rio exporta o dobro do que exportam os outros portos juntos», dizia Barreto.
Mas não era verdade. Logo a 28 de Março de 1856, o mesmo Governador de Cabo Verde fez chegar ao Ministro do Ultramar cópias de correspondência entre Barreto e o delegado francês em Selho, em que o Governador da Guiné protestava contra as tentativas daquele delegado sobre Ziguinchor.
Mas a vida para os franceses também não era fácil, pode dizer-se que foram os primórdios da resistência na Casamansa:
- a 9 de Março de 1860 dá-se a batalha de Hilol, a 50 km de Ziguinchor, contra as tropas coloniais francesas vindas da ilha de Gorea; nessa batalha morreu o capitão Aristide Protet, atingido por uma flecha envenenada e enterrado de pé pelos guerreiros de Csamansa;
- a 11 desse mesmo mês de Março, travou-se nova batalha contra os franceses em Thionk-Essyl, no norte Casamansa;
- mais outra em Sandinière, na zona de Kolda, a 10 de Fevereiro de 1861; o coronel Émile Pinet-Laprade, comandante de várias expedições contra os casamansenses, faz o elogio da sua resistência a 19 desse mês;
- mas o elogio ao inimigo não quer dizer que não o queira dominar, e há outra batalha em Djembering, 10 km a norte de Cap Skirring, em 3 de Fevereiro de 1865.
Foram algumas das reacções contra a ocupação francesa, que durou anos, sempre à revelia dos interesses portugueses.  E é interessante ver aqui o que disse o padre Marcelino Marques de Barros em 30 de Novembro de 1880, numa carta dirigida ao Ministro da Marinha, Visconde de S. Januário:

A França estava activa, e com arte:
- a 12 de Outubro de 1882, criou o Território Autónomo da Casamansa com capital em Gorea (Gorée actualmente), ilha em frente a Dakar (!), às ordens do vice-governador Farque com o título de Administrador Superior; em 1894, a capital foi transferida para Selho (Sédhiou), na Casamansa, pelo governador Henri de Lamothe;
- mas, entretanto, a 3 de Novembro de 1883, é acordado com o rei Mussá Molo Baldé um protectorado no Fouladou (alto Casamansa); o reino de Mussá Molo Baldé compreendia uma parte da Gâmbia, da Casamansa e das duas Guinés, e o Administrador Superior ficou com um representante na corte do rei Mussá, em Hamdalahi, na Casamansa, a norte de Kolda.

Já com pouca convicção, certamente não motivados pela política central, os portugueses ainda organizaram uma coluna “para combater o gentio” de Jobolor, Jabocuor e Bori, na zona de Ziguinchor, tendo tomado parte nas operações um contingente de artilharia e a canhoneira Bengo. Decorreu de 1 a 16 de Abril de 1884,sob o comando do capitão António José Machado.  A coluna foi louvada “pelo bastante denodo com que se houve no ataque de Bori, única que não veio solicitar perdão».
Esforço escusado. Já havia negociações diplomáticas e, a 12 de Maio de 1886, foi assinada em Paris a Convenção entre Portugal e França sobre os limites da Guiné Portuguesa, ficando a caber à França o território de Casamansa. Em troca, a França cedeu a Portugal o território de Cacine, da Guiné Francesa, e comprometeu-se a reconhecer “a influência soberana e civilizadora” de Portugal nos territórios que separavam Angola de Moçambique. Era o “mapa cor de rosa”… 

Reclamado por Portugal na Conferência de Berlim (realizada entre 19 de Dezembro de 1884 e 26 de Fevereiro de 1885). Mas «os nossos amigos ingleses" não gostaram e, a 11 de Janeiro de 1890 fizeram o célebre "ultimato", com ameaça de guerra, o que impediu esse objectivo. E os franceses, amigos da onça, ficaram caladinhos. Foi tudo por água abaixo, mapa cor de rosa e... Casamansa.
E a Casamansa foi entregue formalmente assim: uma força do Batalhão de Caçadores Nº 1, composta por 1 oficial inferior, 1 cabo e 6 soldados, partiu de Bissau para Ziguinchor no dia 16 de Novembro de 1887, a fim de esperar a chegada da delegação francesa e entregar aquela praça. Mas, oficialmente, só em 22 de Abril de 1888 é que é considerado o fim da presença portuguesa lá e o começo da francesa, com protestos da população d Ziguinchor nessa data.
Dividiu-se um país e um povo comum entre duas potências:
Desenvolve-se a resistência contra a ocupação colonial da França, apesar das manobras envolventes desta:
- logo a 1 de Dezembro de 1886 são mortos três militares franceses, o tenente Truche, os sodados Seguin e Renaudin, são mortos na batalha de Séléky, região de Mof Ewi, com descendentes de Kinara, na Guiné;
- e o administrador Martin, em 1891, em relatório para o governo, alegando que a população da Casamansa é uma cambada de anarcas, recomendou que fossem nomeados para as suas aldeias chefes oriundos do Senegal;
- o capitão francês Forichon é morto em 21 de Maio de 1891 em Sédhiou (Selho);
- a 7 de Maio de 1893, o governador da África Ocidental Francesa, Henri de Lamothe, assina um tratado com o rei de Fogni, Fodé Kaba Doumbouya, em Bona, no norte Casamansa;
- a 18 de Maio de 1906, Djignabo ataca o quartel francês de Séléki, sendo aí morto; é considerado um herói da Casamansa;
- Novembro de 1908: o governador Camille Guy transfere a capital da Casamansa de Sédhiou para Ziguinchor, dividindo a região em Alta, Média e Baixa Casamansa. Nessa altura o administrador Noirot propôs a criação de uma Casamansa indpendente;
- no início da primeira guerra mundial, em 1914, o Alto Comissário da República de França, Blaise Diagne, encarregado do recrutamento de tropas coloniais, é mal recebido na Casamansa; o padre Jean Esvan, aberto opositor do recrutamento forçado, é preso; há grande manifestação em Ziguinchor exigindo a sua libertação;
- durante a visita do Governador Geral da África Ocidental Francesa, William Ponty, em 20 de Março de 1914, os casamanseses manifestam-se exigindo, pela primeira vez, a independência;
- em Janeiro de 1927, o administrador Maubert fuzilou vários resistentes casamanseses no local onde está agora o Monumento aos Mortos de Ziguinchor;
Aline Sitowé Diatta
- em 1940, a rainha diola Aline Sitowé Diatta, de Kabrousse, na Baixa Casamansa, percorre a região clamando contra os impostos sobre os produtos agrícolas para alimentar o esforço de guerra dos franceses; foi presa e torturada em 28 de Janeiro de 1943, colocada num calabouço em Tumbuctu, primeiro, depois em Saint Louis e, mais tarde, no Mali, tendo aí morrido em 1944; é considerada uma heroína do seu povo;
- em 9 de Fevereiro de 1943, o famoso resistente Kafandyen mata, em Effok, o sargento Maurice Scobry; a 3 de Março seguinte, as tropas coloniais francesas queimam a aldeia e massacram os seus habitantes;
Bandeira do MFDC 
- é fundado, a 4 de Março de 1947, o Movimento das Forças Democráticas da Casamansa (MFDC), sendo seu líder Victor Shumehemba Diatta, o primeiro doutorado em literatura francesa em todo o continente africano; defensor público da independência, foi assassinado alguns meses depois;
- em 1948 surge o jornal "A Voz da Casamansa", o primeiro jornal inteiramente africano;
-  no Congresso do MFDC de 1954, em Bignona, dá-se a cisão do movimento: uma parte, liderada por Émile Badiane defende a aliança com o Bloco Democrático do Senegal (BDS) de Léopold Sédar Senghor; a outra parte quer continuar a luta pela independência do Camansa;
- morre em Junho de 1955, em Jibélor, perto de Ziguinchor, a rainha Aloendiso Bassène, seguidora de  Aline Sitowé Diatta, e também ela um símbolo da resistência;
- em Agosto de 1955 surge um segundo partido casamansês, o MAC, Movimento Autónomo da Casamansa, dirigido por Assane Seck e Louis da Costa;
- aquando da greve e da matança de 3 de Agosto de 1959 no cais de Pidjiguiti, em Bissau, milhares de casamanseses manifestaram o seu apoio aos irmãos guineenses;
- independência da Federação do Mali; Léopold Senghor pede a independência do Senegal, apoiado por Émile Badiane (o da cisão no MFDC) que com Senghor tinha feiro uma aliança política para 20 anos, mas à revelia do MFDC e do povo da Casamansa;
- 20 de Agosto de 1960: independência do Senegal; os militantes do MAC queimam as bandeiras senegalesas em toda a Casamansa, sendo os seus dirigentes presos e torturados; em Sédhiou e Marsassoum foram mortos 8 membros do MAC;
- Senghor, em Março de 1962, divide a Casamansa em duas: Região da Casamansa, com capital em Ziguinchor, e Região do Senegal Oriental, com capital em Tambacunda;
- os deputados casamanses Ibou Diallo e Dembo Coly são presos e encarcerados por pedirem a independência da Casamansa e se recusarem a tomar posição sobre o conflito entre Senghor e Mamadou Dia (este tentara um golpe de estado a 17 de Dezembro);
- em 1971, o filme "Emitai", do cineasta casamansês Sembène Ousmane, é censurado pela administração senegalesa, porque se centra na luta dos camponeses do Casamansa contra os soldados franceses que lhes queriam confiscar os produtos agrícolas, durante a segunda guerra mundial.
Desde a fundação de Ziguinchor, e durante os séculos XVII e XVIII, os portugueses a isto se limitaram: a ter ali uma feitoria, ponto de apoio ao comércio de escravos. O mesmo sucedia noutros lados da África Ocidental com as outras potências coloniais.
No século XIX, os objectivos mudaram, como já referi mais atrás. E, como se pode verificar, foram os franceses que preocuparam os casamanseses, porque eram eles os ocupantes de facto, mesmo antes de 1886. Já havia resistência contra eles antes e continuou após este ano, claro.
Desde a independência do Senegal, em 1960, até 1980 a presença francesa na Casamansa foi desaparecendo. Mas, nesse período, foi-se aí expandindo a ocupação senegalesa, caracterizada pela corrupção de quadros casamanseses, por grande e anárquica exploração dos seus recursos naturais, deslocação para a região de população senegalesa, sabotagem da política de ensino própria, administração controlada pelos senegaleses e presença militar desmesurada.
A resistência continuou, contra os senegaleses:
- uma manifestação estudantil em Ziguinchor, a 11 de Janeiro de 1980, é reprimida pelo exército senegalês, sendo o estudante Idrissa Sanhá friamente abatido por um oficial senegalês; dá-se também uma grande manifestação de mulheres em frente às instalações do governo de Ziguinchor; o hotel "Le Diola" foi incendiado;
Abbé Augustin Diamacoune Senghor
- falhada tentativa de assassinato do Abbé Augustin Diamacoune Senghor, Secretário Geral do MFDC, a 15 de Janeiro de 1980,  em Jibélor (houve mais outras tentativas de o assassinar; morreu em Paris em 2007; não é da família do Léopold Senghor...);
- 23 de Agosto de 1980: conferência do Abbé Augustin Diamacoune Senghor na Câmara do Comércio de Dakar sobre "A Resitência Casamansesa"; milhares de casamanseses manifestam-se em frente da Presidência, na Avenida Roume, em Dakar, gritando "Vinte anos já chega! Viva a independência da Casamansa!";
- a 28 de Dezembro de 1982 realiza-se, em Ziguinchor, uma manifestação com mais de 100.000 participantes, reprimida pelo exército senegalês; morreram 200 e 400 foram presos; contam que o comissário Cheik Tidiane Kane executou a tiro de pistola 7 dos manifestantes;
- a 6 de Dezembro de 1983, 8 polícias do Senegal foram mortos quando entraram num bosque de Diabir, em Ziguinchor, para capturar um grupo de rebeldes;
- a 13 de Dezembro de 1983, o Tribunal de Segurança do Estado Senegalês condena 9 dirigentes do MFDC (entre eles o Abbé Diamacoune) a 5 anos de cadeia e outros e independentistas a 3 anos;
- a seguir, no dia 18, 175.000 pessoas manifestam-se em Ziguinchor reclamando a independência da Casamansa e a libertação dos presos políticos; o exército senegalês faz mais de uma centena de mortos e 700 presos; consta que houve torturas e vários desaparecidos de pois de levados para o Senegal;
- 76 mulheres casamansesas detidas na Prisão Central Reubeus de Dakar protestam, a 23 de Janeiro de 1984, contra os maus tratos e condições sub-humanas; foram torturadas e transferidas para a prisão de Rufisque (antigo "Rio Fresco", nome dado pelos portugueses), nos arredores de Dakar;
Fevereiro de 1984: o Abbé Diamacoune é transferido da prisão de Reubeus para a prisão de Thiès, a 75 km  de Dakar; criação, na floresta, das Forças Combatentes do MFDC, "Atika", dirigido por Sidy Badji;
- a 7 de Abril de 1984 o Senegal proibiu o uso da palavra "Casamansa" em todos os documentos oficiais, devendo usar-se "Região de Ziguinchor", e nomeou para lá um governador militar;
- em resultado de um processo instaurado a 105 prisioneiros políticos, a decisão de 18 de Novembro de 1985 absolveu 73, condenou 14 a 10 anos de prisão em Koutal, 6 a 15 anos e 1 a pena perpétua na prisão de Hann;
- o MFDC reune em Bignona, a 22 de Outubro de 1986, 14.000 membros e 1.200 combatentes armados exigindo a  libertação imediata e sem condições do Abbé Diamacoune; no dia 25 seguinte registam-se violentos confrontos e muitas prisões nessa cidade;
- a 2 de Janeiro de 1988 o Abbé Diamacoune termina a sua pena de cinco anos de prisão e regressa ao Casamansa;
- 12 soldados senegaleses morreram e 8 ficaram feridos, em 19 de Dezembro de 1988, durante uma emboscada montada pelo Atika.
Em 1989 e 1990 intensificaram-se os ataques da resistência armada contra as tropas senegalesas em toda a região do Casamansa. Acossados no mato, os soldados senegaleses desforram-se prendendo e torturando civis casamanseses: 712 prisões e 27 desaparecidos em Abril de 1990.
- a 14 de Junho de 1990, em Ziguinchor, o Abbé Diamacoune é preso pela segunda vez;
- em 29 de Março de 1991 há um encontro entre deputados do PDS (Partido Democrático Senegalês, presidido por Abdoulaye Wade; é Presidente do Senegal desde 2000) e os líderes do MFDC para negociações de paz;
- o Senegal, a 28 de Maio de 1991, liberta 355 presos políticos casamanseses, detidos desde 24 de Abril de 1990, entre eles o Abbé Diamacoune;
- no dia 31 desse mês é assinado, em Bissau, um acordo de cessar-fogo;
- e a 16 de Junho seguinte, o governador militar de Ziguinchor, general Amadou Abdoulaye Bieng, é substituído por um governador civil;
- novo acordo de cessar-fogo, assinado em Cacheu, Guiné-Bissau, a 17 de Abril de 1992;
- a 1 de Setembro de 1992 os soldados senegaleses atacam um grupo armado do MFDC em Kaguitt, a 10 km de Ziguinchor, e sofre um morto;
- entre 20 e 30 de Setembro de 1992, vários confrontos entre forças senegalesas e do MFDC, resultando 42 mortos, entre eles 10 civis;
- Em Janeiro de 1993, Sidy Badji, comandante das forças combatentes do MFDC é afastado e substituído por Léopold Sagna (Sanhá...);
- em 15 de Fevereiro de 1993 Nino Vieira convida o Abbé Diamacoune para nova reunião de paz em Bissau;
- mas, surpresa, o Abbé é novamente preso e obrigado a ler um discurso conciliador em 8 de Abril;
- violentos confrontos entre o MFDC e tropa senegalesa, a 18 de Abril de 1993, em Youtou-Effok; morreram 306 soldados;
- segundo acordo de cessar-fogo a 8 de Agosto de 1993, assinado em Ziguinchor;
- 14 de Agosto de 1994, manifestação em Ziguinchor, debaixo de intensa chuva, com 20.000 simpatizantes do MFDC;
- 68 militares senegaleses foram mortos e 8 viaturas suas destruídas a 22 de Janeiro de 1995, em Boutoupa Camaracounda;
- em Março de 1995 realiza-se o Congresso do MFDC em Sédhiou ciom a presença de 6.000 participantes de toda a Casamansa;
- prisão de quatro turistas franceses (os casais Cave e Gagnaire), a 8 de Abril de 1985, na estrada de Oussouye, acusados de cumplicidade com o MFDC; nunca mais se soube deles;
- a 25 de Abril de 1955 várias pessoas são presas e torturadas pelos militares senegaleses, entre as quais quatro conselheiros do Abbé: Sanoune Bodian, Edmond Bora, Sarani Manga Badiane et Mamadou Diémé;
- deportação para o Senegal numa fragata militar, em 8 de Junho de 1985, de 213 presos casamanseses;
- seis membros da família da rainha Anna Sambou de Djiwemte são executados em Edjougou, a 17 de Julho de 1995: Adama, Aliou, Amady, Fodé, Sidate Sambou e Malang Diatta;
- No dia 25 desse mês o MFDC mata 38 soldados senegaleses em Babonda;
- a 6 de Setembro seguinte são 18 pára-quedistas que são mortos em Mangacounda;
- 18 de Setembro de 1995 a Guiné-Bissau e o Senegal atacam posições da resistência casamansesa;
- O Abbé Diamacoune, a 3 de Dezembro de 1995, faz um apelo de cessar-fogo e propõe um calandário de negociações a partir de 8 d Abril de 1996.
Entre 1990 e 1995 o MFDC fez mais de um milhar de mortos às tropas senegalesas. Os comandos dos combatentes do MFDC estavam assim distribuídos em 1995: Léopold Sagna na floresta da Baixa Casamansa, Mathieu Alias, «Gagarine», na floresta de Bayotte, e Salif Sadio na região de Badonda até Goudomp, a este. Os bombardeamentos do exército senegalês e os violentos confrontos com a "Frente Sul" do MFDC empurraram a população para a cidade de Ziguinchor ou para a Guiné-Bissau. Em 1996, estimam os responsáveis de Casamansa, estariam refugiados na Guiné-Bissau 22.000 casamanseses.
- em Janeiro de 1996 o exército senegalês envenena as águas de Oussouye, a poucos quilómetros da fronteira com a Guiné-Bissau, provocando a morte de 170 pessoas;
- o começo das negociações entre o MFDC e o Senegal, programada para 8 de Abril, é adiada "sine dia" e os vistos nos passaportes dos representantes do MFDC para Paris são recusados; os representantes da Casamansa recusam ir a Paris sem o Abbé Diamacoune;
- a 17 de Março de 1997 uma delegação do MFDC estabelece-se em Paris, graças à acção do embaixador em Dakar André Lewin;
- 26 de Maio de 1997: militares senegaleses disparam sobre uma manifestação de estudantes em Bignona, matando 2, ferindo 12; prendem outros 22;
- a 24 de Agosto de 1997, são presos Sarani Manga Badiane, membro da direcção do MFDC, Koulamouyo Edgar Diédhiou, membro do MFDC, Simon Malou, professor primário reformado, Léon Toupane, sacristão em Zuguinchor, Sékou Sadio, barman, François Sambou, educador, e mais outros 18; nunca mais se soube deles;
- as forças da resistência do MFDC montam uma emboscada ao exército denegalês, a 19 de Agosto de 1997, em Madina Mankangne (Mancanha...) e matam 38 soldados e 4 oficiais;
- a 3 de Dezembro de 1997, o coronel Gaye executa 42 casamanseses civis em Kolda;
- em Janeiro de 1998, o Abbé Diamacoune faz um novo apelo à paz;
- aquando da revolta de 7 de Junho de 1998 na Guiné-Bissau, o governo senegalês envia 1.200 soldados para apoiar Nino Vieira; os guerrilheiros do MFDC apoiam os revoltosos guineenses.
- em Janeiro de 1999 o Abbé Diamacoune e o Presidente do Senegal, Diouf, negoceiam nova paz;
- em Fevereiro desse ano, o governo senegalês liberta 123 membros do MFDC presos em Ziguinchor, Kolda e Dakar, acusados de acções contra a segurança do estado;
- o MFDC e o governo senegalês reúnem-se na Gâmbia em 26 de Dezembro de 1999, decidindo um cessar-fogo e reuniões mensais para decidir o futuro da Casamansa.
Com estas conversações lançou-se a divisão no seio da resistência casamansesa e o braço armado do MFDC recusou a paz com o ocupante.
Em Dezembro de 2000, o governo senegalês lança um aviso a toda a imprensa que qualquer divulgação de comunicados oriundos do MFDC poderá prejudicar os esforços de paz e será punida nos termos do Código Penal. No mesmo dia deste aviso, um jornalista e um editor do jornal "Le Populaire" foram presos e interrogados durante 7 horas por publicarem uma resenha de 19 anos do conflito na Casamansa. Foram acusados de "falsas notícias e acção contra a segurança nacional". Foram libertados no mesmo dia.
Confrontos esporádicos continuaram em 2001, sobretudo em Junho e Julho, com algumas mortes. A imprensa deu notícia de ataques e emboscadas, presumivelmente de homens armados do MFDC. Nesse ano continuavam presos sem julgamento, em Dakar e Kolda, 30 membros da resistência.
Durante o ano de 2002, homens armados suspeitos de pertenceram ao MFDC,  fizeram várias mortes. Em Março atacaram veículos a 4 km de Diouloulou e mataram 7 civis; em Outubro dispararam sobre um taxi em Diabang e mataram 3 passageiros. As forças de segurança senegalesas estenderam vários postos de controle na zona de Ziguinchor para captura de armas e veículos.
Nesse ano o Abbé Diamacoune disse ter 2.300 homens em armas. No entanto, a 1 de Dezembro de 2001, Sidi Badjie, líder do Atika, braço armado do MFDC, dissera não aceitar mais servir às ordens do Abbé Diamacoune.
A 30 de Dezembro de 2004 nova reunião do governo com o MFDC para acordo de paz.
O nível da resistência diminuiu e, em 2004, milhares de deslocados (entre 10 a 15.000) regressaram à Casamansa, vindos da Gâmbia e da Guiné-Bissau.
Depois do seu regresso à Guiné-Bissau 7 de Abril de  2005, Nino Vieira passa a apoiar o governo senegalês contra os rebeldes da Casamansa.
O governo senegalês tinha reunido com o movimento rebelde em Fevereiro desse ano em Foundiougne com a promessa de novo encontro, o "Foundiougne2" para pôr em prática o acordo, mas a data foi adiada por várias vezes.
A 16 de Março de 2006 o exército da Guiné-Bissau envolve-se em luta contra a facção do MFDC liderada por  Salif Sadio, inclusive com bombardeamentos sobre a base deste na Casamansa, alegadamente por ele desestabilizar a zona de S. Domingos e manter bases na Guiné.
E também a Gâmbia apoiou o Senegal. Em Setembro de 2007 a polícia desse país prende e mata 15 membros do MFDC.
- a 30 de Dezembro de 2006 o MFDC mata, em Sindian, o Presidente do Coselho Regional de Ziguinchor, El Hadji Lamine Badji;
- em Dezembro de 2007 dão-se violentos confrontos entre forças do MFDC e do exército senegalês em Baraka Bounao, entre Ziguinchor e a fronteira guineense;
- a 19 de Dezembro de 2007 o MFDC faz vários mortos, entre eles o conselheiro especial do Presidente do Senegal, Chérif Samsidine Néma Aidara;
- vários confrontos em Outubro de 2009 no Alto Casamansa;
- a 8 de Dezembro de 2009 um cabo senegalês é morto pelo MFDC;
- 21 de Março de 2010: um militar foi morto e cinco ficaram feridos entre os quais dois em estado grave, numa operação que ocorreu contra as posições de rebeldes na Casamansa; na semana anterior, já dois tinham morrido em confronto com os guerrilheiros do MFDC;
- 13 de Janeiro de 2011: homens armados do MFDC atacam dois veículos do exército senegalês na estrada de Bignona-Sénoba, na fronteira gambiana, fazendo vários feridos, evacuados para o hospital;
- 11 de Fevereiro de 2011, o comandante François Diatta, de uma das facções do MFDC, em entrevista a "Nobas di Guiné", "advertiu ao governo de Senegal que a sua facção está a preparar para desencadear a guerra em Dacar e recusa quaisquer negociações com as autoridades senegalesas";
- 30 de Julho de 2011: forças do Senegal violaram a fronteira da Guiné-Bissau, em Varela, para alegadamente impedirem acções dos rebeldes da Casamansa;
- 21 de Agosto de 2011: 50 homens armados, supostamente do MFDC, atacam a aldeia de Balantacounda, na fronteira com a Guiné-Bissau, aí refugiando-se depois;
- 19 de Agosto de 2011: o Presidente Wade do Senegal desloca-se a Banjul para pedir o apoio da Gâmbia contra os rebeldes da Casamansa.
Já vai longo este apanhado. São algumas datas. 
Quando acabará? 
Parece-me que... a luta continua.