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10 de setembro de 2011

248-A ARA destrói vários helicópteros e aviões na Base Aérea de Tancos

«Uma das maiores operações da ARA foi a reali­zada na Base Aérea de Tancos, na madrugada do dia 8 de Março de 1971, pouco mais de quatro meses após a do Cunene, e que se saldou pela destruição de dezenas de aviões e helicópteros militares. O governo fascista ficou em estado de pânico e a PIDE completamente desorientada.
O pesado saldo desta operação em destruição de material e aeronaves e a facilidade com que um comando da ARA tinha penetrado nas instalações militares mais importantes do Continente, o então chamado «Polígono de Tancos», causaram um efei­to político e psicológico devastador entre o Governo e as autoridades militares fascistas.
Foi isso que Marcelo Caetano mais tarde registou nas suas memórias quando, utilizando os mesmos termos da PIDE, diz com certo desalento, o seguin­te:
«A campanha contra a DGS não tardou, porém, a recrudescer.
O governo conseguiu manter esta polícia em actividade discreta na Metrópole até ao momento em que, a seguir ao fracasso elei­toral das oposições, reapareceram as orga­nizações e acções terroristas. Do Partido Comunista nasceu então a ARA (Acção Revo­lucionária Armada) que reivindicou a autoria de vários golpes, sobretudo dados no porto de Lisboa [. . .]. O mais grave destes actos terro­ristas foi o cometido em Tancos, onde um grupo conseguiu entrar no aquartelamento da Força Aérea e montar num hangar o disposi­tivo, que pela explosão de vários engenhos, conduziu à destruição de aviões e helicópteros no valor de muitos milhares de contos e cuja falta afectou a eficiência da aeronáutica militar.»(1) (Sublinhado nosso, JS.)
De facto, além do significado político e militar da Base, nela estavam concentradas as principais unida­des aéreas estacionadas no País. Aí se processava a instrução e treino militar dos pilotos dos helicópteros, cuja acção era cada vez mais decisiva na condução da guerra nas longínquas colónias de África.
Esta foi uma das operações mais complexas, dispendiosas e de mais longa preparação, porque era necessário um êxito absoluto, que o não seria se o comando em acção sofresse baixas ou se algum mi­litar fosse atingido pelas explosões. Ambos os riscos eram altamente prováveis, sobretudo o segundo, por­que havia o hábito de roubar durante a noite gasoli­na das aeronaves e porque, do outro lado de uma das paredes do objectivo - o hangar principal da base -, dormiam muitos soldados na respectiva ca­serna.
A obtenção da chave do hangar, por parte do camarada Ângelo de Sousa [2] , foi relativamente simples.
Nesse tempo da guerra colonial, aos fins-de-semana, uma boa parte dos oficiais e sargentos mili­cianos abasteciam as suas viaturas particulares nas reservas de combustível da Base, servindo-se dos mais variados «truques». Um deles era «roubarem» a gasolina das aeronaves no hangar, com a conivên­cia do «quarteleiro», o militar responsável pela sua manutenção.
O Ângelo de Sousa, que sabia disto muito bem, num determinado fim-de-semana (uma sexta-feira de manhã), abeirou-se do «quarteleiro» do hangar, seu amigo, pedindo-lhe que lhe emprestasse a chave para esse fim-de-semana. «Para quê - perguntou-lhe o outro - se tu nem sequer tens carro?» Então o Ân­gelo contou-lhe a seguinte estória:
«É verdade que eu não tenho carro, ma este fim de semana vem cá um oficial amigo meu do Porto, sábado ou domingo, para me visitar. É uma viagem longa, já vês, como eu não estou muito abonado sempre é uma forma de compensar o meu amigo pela sua deslocação.»
Embora reticente, o amigo «quarteleiro» lá lhe emprestou a chave do hangar que o Ângelo, como o combinado, prontamente fez chegar, nesse mesmo dia, às mãos do Raimundo Narciso.
Já com alguma experiência na matéria, rapida­mente se fez uma cópia da dita chave na nossa pró­pria «oficina» com base num molde impresso num pedaço de sabão. Depois de e ter assegurado da boa execução da cópia, o Ângelo, ainda nesse me mo dia, devolveu ao «quarteleiro» a chave original, alegando que, afinal, o seu amigo do Porto lhe havia telefo­nado a anular a visita ...
Como laboratório improvisado foi alugado um apartamento na Praça do Estados Unidos da Amé­rica, em Lisboa, onde o dispositivo técnico e os seus testes (verificação de detonadores, ligações eléctrica e cálculos da potência da fonte de energia neces á­ria) foram realizados, ao longo de dois meses, en­quanto noutros locais decorriam outras diligências preparatórias, como fazer explodir em praias de di­fícil aces o - as da costa do Cabo da Roca, por exemplo - detonadores e amostras de certos explo­sivos artesanais previamente preparados no laborató­rio central.
Ao começo da noite de 7 de Março de 1971, par­tiram de Lisboa dois carros com destino à estação da CP de Santarém, um alugado e conduzido por Rai­mundo Narciso que coordenou directamente todos os movimentos preparatórios da operação, e outro con­duzido por Carlos Coutinho que, além de transpor­tar o comando envolvido na acção, levava também o volumoso dispositivo técnico, como se de transporte de fruta se tratasse.
As dezasseis cargas explosivas e quatro incendiá­rias, a rede de cabos eléctricos e detonadores, bem como as demais componentes do dispositivo, estavam devidamente acondicionadas na grande mala do car­ro e sobre elas alguns sacos de fruta, tendo mesmo havido o cuidado de espalhar bastantes maçãs.
Paga a portagem na Portela de Sacavém, as duas viaturas tiveram de parar alguns metros à frente, numa aparatosa «operação stop» montada pelas for­ças policiais que, ao contrário do que era habitual, exibiam espingardas automáticas G-3.
Após a verificação de documentos, três polícias procederam à revista da viatura conduzida por Carlos Coutinho que, ao abrir a mala, lhes ofereceu maçãs. Só um aceitou, «para provar», e todos desejaram boa viagem. O autocolante, que um deles colocou no pára-brisas da viatura, desejava o mesmo, em nome do Comando Geral da PSP, e tinha uma função não declarada: avisar os outros postos da «operação stop» de que aquela viatura já tinha sido controlada. De facto, tanto nas imediações de Santarém como da Barquinha, o carro foi mandado parar e encostar à berma, porém em nenhum dos casos chegou mesmo a parar, porque a pequena força da GNR, ao identi­ficar o autocolante, imediatamente mandou seguir.
No parque de estacionamento da CP em Santa­rém, onde chegaram cerca das 23 horas, os camara­das vestiram uniformes da Força Aérea e trocaram de viatura com Raimundo Narciso, mudando para ela o material da operação. Recordados pela última vez os principais cuidados a ter durante a operação, o comando da ARA partiu para o objectivo e, tal como estava planificado, entrou com toda a natura­lidade - e até com as «devidas» honras militares - pela porta de armas da Base, cerca da meia-noite, en­tre a movimentação normal da última entrada geral.
Encabeçado por Carlos Coutinho, que «era» um oficial da Base de São Jacinto devidamente unifor­mizado e documentado, o comando dirigiu-se imedia­tamente para o hangar principal, cuja segurança exterior ficou cometida ao António Eusébio.
É de salientar o papel determinante desempenha­do pelo Ângelo de Sousa nesta operação, da qual foi o inspirador, pois prestava então serviço militar na­quela Base e conhecia todos os seus meandros. No dia seguinte, aliás, deveria receber o seu breve! de piloto de helicópteros, numa cerimónia de grande pompa e circunstância que outras «circunstâncias» iriam abortar.
◊◊◊
Entrando no hangar com chave «normal», o comando da ARA encontrou ainda mais aviões e he­licópteros que os esperados, o que levou a uma reconsideração dos planos. Mesmo assim, levou ape­nas 1 hora e 20 minutos a instalar dezenas de me­tros de cabos eléctricos, cordão detonante, cargas explosivas e incendiárias, além do complicado siste­ma eléctrico necessário para provocar as explosões e incêndios que haveriam de destruir as aeronaves e o próprio hangar em poucos minutos.


Para fazer chegar a corrente eléctrica da fonte de energia a todas as cargas foram necessários 350 me­tros de fio eléctrico duplo, distribuído por um fio central de 100 metros de comprimento, por uma extensão de 50 metros ligando as pilhas à armadilha preventiva e 20 extensões de 10 metros cada que es­tabeleciam a ligação entre cada carga e o fio central.
As cargas explosivas estavam todas ligadas a um sistema eléctrico único, tendo por esse facto as explo­sões das cargas sido simultâneas. Cada helicóptero continha uma carga colocada em cima do depósito de gasolina ou dentro do próprio motor. Os helicópteros maiores receberam duas cargas e se houve dois ou três aviões mais pequenos que as não receberam, as explo­sões e a propagação do grande incêndio que durou horas não deixou coisa alguma por arder. Segundo testemunhas oculares só ficaram ferros calcinados den­tro do hangar. De todas as aeronaves da base só es­caparam três aviões que se encontravam nas pistas.
O fio eléctrico utilizado foi o vulgar fio eléctri­co que se encontra no mercado, como, aliás, todo o restante material eléctrico.
A armadilha preventiva colocada na porta no acto da retirada teve em vista impedir que um eventual acesso ao hangar, por alguém estranho à operação, a fizesse abortar ou causar um desastre pessoal. Com a armadilha preventiva, se a porta fosse aberta antes da hora marcada, todo o mecanismo seria accionado antecipadamente com um mínimo de consequências para o intruso.



Como o sistema de armadilha felizmente não foi accionado, aproximadamente à hora marcada, 4 da manhã, a operação registou um êxito absoluto. Foram completamente destruídas pelas explosões e pelo fogo cerca de três dezenas de helicópteros e aviões militares, isto é, a principal reserva de material mi­litar desta natureza então existente no Continente em estado operacional.
Quanto ao pessoal da Base, não houve qualquer vítima. Mesmo os soldados que dormiam na caser­na contígua, o único incómodo que tiveram foi se­rem acordados por um enorme estrondo que fez estremecer tudo e que nem foi imediatamente loca­lizado por eles, já que a própria parede da caserna não sofreu o mínimo beliscão. Mas acordada foi toda a Base, tal como as restantes unidades militares do Polígono e as povoações da zona.
No regresso do comando da ARA a Lisboa, o primeiro relatório oral foi feito a Raimundo Narciso em Santarém, enquanto os camaradas mudavam de vestuário e identidade, ainda antes da deflagração do dispositivo, e o segundo, já certamente com todos os alarmes no ar, foi feito, pouco depois das 4 da ma­nhã, a Francisco Miguel, junto à portagem da Portela de Sacavém, onde já não havia qualquer vestígio da frustrada «operação stop», muito provavelmente re­lacionada com a passagem do quinquagésimo aniver­sário da fundação do PCP (6-3-1921).
Na tarde do domingo seguinte, o camarada Carlos Coutinho teve acidentalmente um relatório quase exaustivo dos resultados da operação. Foi ao cinema Berna, em Lisboa, ver O Soldado Azul e no intervalo saiu para o foyer para fumar. O mesmo fizeram dois indivíduos que aí conversavam emocionadamente e sem quaisquer cuidados. Ambos eram oficiais da Força Aérea e o mais falador pertencia à Base de Tancos. Descreveu com pormenores impressionantes o material destruído, bem como as perturbações re­sultantes, e aludiu a especulações e suspeitas que circulavam no meio militar e que apontavam para movimentações dos altos comandos, talvez porque Marcelo Caetano estava longe de gozar da simpatia de muitos militares.
Poucos dias depois, um oficial superior da Base de Tancos faleceu num acidente de helicóptero e as especulações adensaram-se ainda mais, chegando mesmo às redacções dos jornais. Os rumores e espe­culações apenas terão amainado quando a autoria da operação se tomou do conhecimento geral.

A Comunicação Social, mesmo amordaçada, reage às mentiras oficiais sobre Tancos

Como era de esperar, o governo fascista, não podendo ocultar o acontecimento, fez tudo para lhe retirar importância e diminuir o impacte polí­tico.
No dia 9 de Março, numa brevíssima «Nota» da Secretaria de Estado da Aeronáutica para a Comuni­cação Social, diz-se que:

«Cerca das 3 e 30 da madrugada de hoje, sabotadores, iludindo a vigilância do pessoal de guarda da Base Aérea de Tancos, consegui­ram introduzir-se num "hangar" daquela uni­dade e colocar cargas explosivas comandadas por um sistema de relojoaria, que, ao explodi­rem, originaram a destruição de algumas ae­ronaves e danos em outras.
Não houve desastres pessoais. Foi imedia­tamente iniciado um inquérito pelas autorida­des militares que solicitaram a colaboração dos serviços civis de segurança.»

Reagindo a esta falsa informação e traduzindo de algum modo a insatisfação da Comunicação Social de então, dias depois deste lacónico comunicado, o "Observador" de 19-3-71, publicava o seguinte:

«A BOMBA DE TANCOS

Até ao momento em que escrevemos este comentário, tudo o que o País sabe a respei­to da explosão provocada em Tancos é o que consta de uma lacónica nota oficiosa, trans­mitida por intermédio da Secretaria de Estado da Informação e Turismo. Laconismo que tem certamente ponderosas razões de segurança atrás de si, mas que deixa em campo, infru­tuosamente quando não gravemente nocivo, um clima de inquietação propício ao boato. E este, como se sabe, é um dos grandes trun­fos da guerra psicológica. Que foram 2 ou 20 helicópteros, que morreu (ou não) muita gen­te, que foi este ou foi aquele, que na noite da explosão se encontravam em jantarada cheia de expectativa muitos correspondentes da im­prensa estrangeira em Lisboa, tudo isto corre de boca em boca, agreste e dissolvente como ácido. [. . .]
Repetimos que é natural virem a saber-se pormenores mais concretos dentro de horas ou dentro de dias; mas o tempo que passou já não o recuperará o nosso "moral", e ele é ex­tremamente importante.[. .. ]»


Mais mentiras tardias sobre Tancos


Passado quase um mês sobre as destruições de Tancos o Governo, através da Secretaria de Estado de Informação e Turismo (SEIT), convoca para o dia 1 de Abril (talvez por ser o dia das mentiras) uma con­ferência de imprensa com a presença do Dr. Geraldes Cardoso, director-geral da Informação, onde, perante a curiosidade dos numerosos jornalistas centrada na questão de Tancos, este repete as mesmas mentiras, chegando a afirmar que «as aeronaves são na sua maioria recuperáveis» e, com modos de grande gene­rosidade, ainda acrescentou que, «como em Portugal não existe a pena de morte, os responsáveis incorrem em penas que não podem exceder 24 anos [ ... ].»»


(1) Marcello Caetano, "Depoimento", Distribuidora Reconi, Rio de Janeiro-S. Paulo, 1974, p. 77.
[2][bom amigo, falecido prematuramente poucos anos após o 25 de Abril - nota minha] 

247-Unidades mobilizadas para a Guiné

(clicar em X, em baixo à direita, para ver em ponto grande)

1 de setembro de 2011

246-Aspectos e tipos da Guiné XV

Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume XXVII, Nº 102, 1972

245-O Gonçalves

             (...)
Às vezes encontrávamo-nos com os da Filosofia. Havia um dos filósofos, como lhes chamávamos, que eu achava simpático. Era o Gonçalves, um tipo aberto e que nunca me vinha com aquelas coisas passadas a papel químico, conversa decorada, como era hábito dos noviços meus colegas. Quando nos encontrámos, um dia, desabafei:
“Estou a ficar baralhado com o que o Padre Mestre diz, um bocado”, porque, apesar de gostar dele, tive receio de lhe dizer que eram muitas as minhas dúvidas.
“Aguenta, pá. Eu sei como é porque também por lá passei. O papel dele é esse, para que saiam dali como ele quer. Mas na Filosofia vai ser melhor, estudamos umas coisas porreiras, eu até gosto. Abre-nos a mente e não é tão massacrante”.
“Tá bem, mas é difícil”.
“Deixa andar. O futuro ainda vem aí, não é já agora. Muita coisa pode acontecer, sabes lá tu”.
E contou-me a história de um seminarista que, desgostoso com a sua vida de clausura, despiu a sotaina, pendurou-a numa figueira e fugiu, saltando o muro do seminário. Não deu para trocar comentários, porque apareceu ao pé de nós um padre.
“Que grande conversa, hei. Estão a filosofar?”
Era o hábito. Nunca deixavam que dois estivessem muito tempo a falar sozinhos. Fiquei chateado e radicalizei. Deu-me vontade de deixar aquela porcaria. Gostava de encontrar uma figueira, para pendurar todos os meus complexos, todas as minhas frustrações, todas as cadeias que me rodeavam dia a dia e nas quais eu me ia deixando enlear. Fui-me embora.
Nessa noite fez uma trovoada medonha. Foi como eu estava, grandes tormentas e mim. Saí da cama e fui para a janela ver os raios e o ribombar dos trovões. 
No dia seguinte fui chamado ao Director Espiritual. Era assim, de vez em quando éramos chamados. Pregavam que quem não compreende a direcção espiritual está em perigo de fracassar, que ela faz parte da autoridade que Jesus deu à sua Igreja, que Jesus quer que nos sujeitemos aos seus representantes. Até me consideraram tolo quando citaram S. Bernardo: “Quem se faz mestre de si mesmo põe-se sob a guia de um tolo”.
Mas fui lá e manifestei-lhe o meu desagrado pela cena do dia anterior.
“Eu sei que vocês são amigos. Mas olha que a amizade é uma coisa muito delicada e que facilmente se estraga.”
“Mas eu dou-me bem com ele, é com quem eu mais gosto de falar”.
“Percebo. Mas tem cuidado. Porque este apego pode impedir de servir bem a Deus. ”.
 Ainda falou sobre outras tretas. Mas a que me ficou foi a táctica pedagógica das insinuações. Que merda! O que é que isto tinha a ver com eu gostar de falar com o Gonçalves?
          (...)
           Mas entrei na Filosofia.
Lá encontrei o Gonçalves, que me deu as boas vindas e me reafirmou que aquilo não era mau, até tinha interesse. E era verdade. Gostei das novas matérias, eram outra coisa, ajudavam-me a reflectir. Lógica, Filosofia-Cosmologia, Análise Literária, Literatura Portuguesa. Excelentes. Empenhei-me. Havia também outras: Português, Latim e Grego, claro, e Geografia,  Matemática e Desenho. Não tão motivadoras, mas empenhei-me também. No entanto, fui verificando que havia muito individualismo e falta de camaradagem. Cada um cuidava da sua capelinha. A não ser com um ou outro, e o Gonçalves é claro, que me pareciam de espírito menos pesado, nunca me dei com mais ninguém. E continuava a haver a maçada das missas diárias, e a dobrar ao domingo, e mais os terços e as pregações. A certa altura comecei a ter dúvidas se me aguentaria.
Um dia, houve uma festa qualquer, e foram convidados familiares dos filósofos. Veio a minha irmã e o meu irmão. Gostei de estar com eles e, às tantas, juntou-se-nos o Gonçalves e a irmã dele, que também tinha vindo. Convivemos e eu fiquei encantado com ela. Era linda e simpática, achei que ela também tinha simpatizado comigo. Era uma coisa nova no meu tão pequeno universo. Quando aquilo acabou e nos despedimos, foram as palavras de circunstância mas na minha cabeça disse-lhe adeus, amor, ficarás no mais fundo do meu coração, és aquela estranha sensação que sinto no fim dum sonho lindo. Fazes-me lembrar o sonho mais belo que tive até agora.
A situação passou e voltei ao pessimismo depois. A vida é uma comédia. Às vezes, pensamos ser os protagonistas. Só no fim é que descobrimos que fomos o histrião. Voltei a esforçar-me por matar em mim o sentimento. Cada vez me convencia mais que a insensibilidade era o estado da verdadeira felicidade. Só me sentia bem quando estava longe dos outros. Amei a solidão, longe dos homens e de tudo o que me perturbava. Só, comigo, era o melhor. Não havia maior estupidez do que recordar o passado, principalmente se foi um passado feliz.
Houve uma altura que fiquei doente, já nem sei porquê.. Olhei para as paredes do quarto e lá estava Deus de um lado e a sua mãe do outro. Ele numa cruz e a mãe dele calada. Há quanto tempo aí estais?, pensei. Tudo calado, tudo morto. Estive até muito tarde sem comer. Fui visitar o vizinho do lado que também estava doente. A minha vontade era ficar fechado dentro do meu casulo. Venceu-me o sentimento... não passou de sentimento. Mas queria ter um coração de pedra, insensível e duro. Gostava de consegui-lo.
(...)
No fim desse mesmo mês de Fevereiro, o Director chamou-me novamente e disse-me que eu ia para o Porto, para dar aulas num colégio que lá têm de miúdos pobres e abandonados.
“É para pensares”, disse-me ele.
“Já estou farto de pensar! Mas está bem, vou continuar a pensar.”
 Nem o segundo ano da Filosofia me deixaram acabar. Tive pena, mas era bom mudar daquilo tudo, deixar aquela gente que detestava na sua maioria.
(...)
Um dia o Omero, que era o gestor das coisas correntes do colégio, entregou-me uma carta. Era do meu amigo Gonçalves. Dizia-me ele:
“Inesquecível amigo. Encontrei-me há meses com o Padre Zé Maria. Já estava muito mal. Sei que morreu (só os filhos da mãe é que não morrem...). Rememorando tempos e sucessos passados, falámos também em ti. É a vida. A difícil vida sem lenitivos. Sem nada. Quase insípida. Mas a que temos de achar sabor. O ambiente aqui na Faculdade é primário. Leve. Um conjunto de diletantes. Pouca profundeza. Nenhuma mentalidade. Uma Universidade sem ideologia. Os professores despejam a bocejar coisas, ideias, doutrinas, sem nada de vivencial, sem nada de colectivamente equilibrado. O equilíbrio é para eles um pressuposto da nossa parte. Tenho-me lembrado bastante de ti. Previa já esse desfecho. São coisas aborrecidas. Azedas como absinto. A vida talvez venha a ser um arroto de absinto de Deus. Gostava muito que me escrevesses. Talvez te possa ser útil a minha ajuda em qualquer sector.
Teria muito gosto em te escrever uma carta imensa, mas não me é possível. Que Deus, o pai dos fracassos, das topadas, das incompreensões, dos suicídios lentos, das câmaras de gás e dos campos de concentração, o fazedor de tudo o que na vida sabe a absinto, a fel e a vómito te proteja. Sem Ele, nada. Esgotados os recursos dos homens há sempre uma apelação: Ele. Adeus. Cumprimentos do Gonçalves.
Era o estilo dele, irónico. E deu-me a morada na Rua Almirante Barroso, em Lisboa. Como o invejei por ter encontrado a figueira... Não lhe respondi porque não estava com disposição na altura, e também com receio que alguém lesse o que eu tinha vontade de dizer-lhe sobre os meus desejos de mudança. Pensei no apertado controlo que havia no Noviciado e na Filosofia e não sabia se o não fariam ali também.
(...)
Quando fui para o RI1, na Amadora, ia chateado porque tinha acabado de cumprir os 9 dias de detenção que o comandante da EPI me tinha dado, mesmo no dia em que acabou o Curso de Oficiais Milicianos. Mas tive uma surpresa. Encontrei lá o Gonçalves. Feitas as apresentações da praxe, fui ter com ele, como combináramos, a uma mesa lá ao canto do bar de oficiais, no primeiro andar.
"Então, senhor Aspirante, como é que vieste aqui parar?", perguntou-me ele.
"Olha, mandaram-me. E tu, o que é que fazes aqui?"
"Estou aí numa companhia que está prestes a embarcar para Moçambique. E tu, o que é que vieste fazer?"
"Oh, o que é que achas?... É evidente que é até me arranjarem também uma companhia que vá para a guerra. É a vida".
"É a vida o caraças. Tens de pensar", e abaixou a voz, "que nós, sobretudo, é que decidimos da nossa vida".
"Tá bem, mas há coisas que são inevitáveis, e esta é uma delas".
"Não é nada, pá, não é nada. Tu podes mudar..." Calou-se porque se sentaram na mesa ao lado dois outros aspirantes. Vi que conheciam o Gonçalves.
"São dois gajos da minha companhia".
Ficámos um momento em silêncio.
"Ouve lá, lembrei-me agora. Naquela carta que me enviaste quando eu estava no Porto disseste que andavas na Universidade. Onde é que andaste?"
"Na Faculdade de Letras de Lisboa, em História".
Fiquei espantado.
"É pá, porra, não pode ser. Eu também andei lá, em Românicas, e nunca te vi...".
"Pois, não me deves ter visto, não. É que eu estive um ano dentro, em Caxias, por participar nas lutas estudantis. Não te preocupes", disse-me quando olhei receoso para a mesa do lado, "toda a malta da companhia sabe disto. Quando foste para lá já eu não estava, certamente. Depois de sair da pildra mandaram-me para a tropa".
Olhámo-nos os dois.
"Mas estiveste em Mafra, claro, e também não te vi lá..."
"Devo ter estado no curso anterior ao teu... Bem, tenho de me ir embora. Como vês", e apontou-me a braçadeira no braço, "estou de serviço".
"Hás-de-me contar como é que foi isso".
Levantou-se. apertou-me a mão e segredou-me ao ouvido:
"Adeus. Hás-de ter notícias minhas".
Nunca mais o vi. No dia seguinte, antes do render da guarda, procurei-o mas não o encontrei. Perguntei ao sargento de dia:
"Onde é que está o aspirante Gonçalves?"
Ficou atrapalhado e baixou os olhos. Levantou-os e olhou para o lado. Acabou por me fitar calmamente.
"Não sei onde está, ninguém sabe, desapareceu". Fez uma pausa e baixou novamente os olhos. "E a FBP que tinha de serviço também ninguém sabe dela".
Foi assim a deserção do Gonçalves.
Um ano depois, quando estava no HMP, por ter sido ferido na Guiné, contei isto ao Norberto (ver isto), que também lá estava. Disse-me que tinha conhecido o Gonçalves e que, infelizmente, ele tinha morrido num desastre de automóvel em França.
Foi mesmo "um arroto de absinto de Deus", pensei.

244-Guiné terra de desterro, os franceses, ainda as batalhas de Bissau, e a construção das suas fortalezas

Para ver a construção das fortalezas de Bissau. Quem as construiu: deportados, criminosos e vadios. Quem era a sua guarnição: os mesmos deportados, criminosos e vadios. E alguma coisa sobre as pretensões dos franceses...
(os sublinhados são meus)

Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume XXVI, Nº 103, Julho de 1971

28 de agosto de 2011

243-Chegada a Mafra

Pensei na vida que me esperava para os próximos anos não com apreensão ou receio, mas apenas com curiosidade e mera expectativa. Nem sequer a guerra, de que ouvira falar através de terceiros, que também a não tinham conhecido directamente, nem sequer ela me era motivo de medo ou angústia. Nos momentos de desilusão amorosa tinha-me vindo o desejo de mudança, mas, com mais calma, tive pena de mal ter iniciado os estudos na universidade, preferia tê-los acabado primeiro. No entanto, não deixava de ser simpática a expectativa de vir a envergar a farda de oficial e poder aparecer assim fardado à família, aos amigos, e a uma namorada qualquer que eu havia de ter. Disciplina de quartel, vida de caserna, também não era coisas que me preocupassem, não seria muito mais do que aquilo a que estivera já habituado desde pequeno.
Já lá ia uma hora do Rossio em direcção a Torres Vedras. Na carruagem, não completamente cheia, iam vários rapazes, uns sozinhos, como eu, outros em grupos de dois ou três. Era Janeiro e o frio era intenso, sendo talvez por isso que o ambiente não condizia com a juventude que ocupava a carruagem. Nem os que iam em grupo passavam de uma ou outra risada, sem continuidade, perdida. Num desses grupos sobressaía um tipo louro e magro, bigode louro e olhos verdes vivos sobressaindo do rosto como olhos de camaleão. E era por estar sempre a falar em voz baixa com os outros dois que o acompanhavam, passando ao mesmo tempo os olhos pela carruagem, por todos os cantos e por todos os rostos, em jeito camaleónico. Só que ele mais parecia receoso à espera de ataque do que emboscado à procura de presa.
Quando o comboio estacou, com uma enorme chinfrineira de travões, na estação que serve Mafra toda a gente da carruagem saiu e  juntaram-se outros vindos das outras mais à frente e mais atrás. Ainda eram mais de trinta. Com malas e sacos à laia de pratos de balança estacaram a procura do convento e o comboio lá seguiu para Torres Vedras.
"Os nossos cadetes vão ter de ir a pé para o quartel", e o soldado mirava o pessoal com ar de sonso.
Naturalmente, todos se juntaram naquele lado.
"Mas para onde é que fica o quartel? Não nos pode ensinar o caminho para lá?", perguntaram quase todos.
"Os nossos cadetes não têm nada que enganar. Por detrás daquele morro que se vê daqui a quinhentos metros, no sítio onde a estrada da estação faz a curva, logo a seguir fica o convento e o quartel. Eu não posso ir com os nossos cadetes porque estou à espera do comboio para Lisboa. Mas não tem nada que enganar", e afastou-se à pressa.
Passou para o outro lado da gare. O comboio para Lisboa foi chegando e ele lá seguiu nele.
"Quem é que é de Lisboa?", perguntou alguém.
Três disseram que sim, mas que nunca tinham vindo a Mafra e que não conheciam, portanto, nem a terra nem o malfadado convento.
"Mas sempre pensei que tinha umas torres bestialmente altas. Afinal, parece que não, pois, se está tão perto daqui e nem se vêem", arriscou um dos alfacinhas.
"Começamos cedo a ficar fodidos. Toda a gente tem guia de marcha, não é? O que é que ela diz? Não é até Mafra?" Era um dos que falavam com o dos olhos camaleónicos.
Toda a gente mirou o papel e concordou.
"Mafra é uma vila, tem casas, tem ruas e tem o sacana do convento, que é mesmo grande como toda a gente aprendeu na escola. É ou não é verdade?"  
Ninguém respondeu porque era mesmo verdade.
"Então foderam-nos, pois claro. Se não se vê daqui é porque é mesmo longe. O magala deve mas é ser alentejano.”
E continuou, quando os protestos começaram a surgir de todos os lados.
"Isto é psicológico. Os gajos usam estes métodos para a malta começar a amochar".
Os protestos generalizaram-se, a maior parte disse daqui não saio a pé, que me venham buscar de carro. Mas houve quem, embora sob protesto, decidisse que era melhor agarrar na bagagem e arrancar em direcção ao quartel, não vá o diabo tecê-las. E lá arrancaram sete ou oito.
 "Esperem lá, seus nabos! Então ninguém se lembrou de ir perguntar ao chefe da estação? Aguentem aí que eu vou lá ver como é".
 Era o camaleónico a falar. Todos largaram as malas e dirigiram-se também ao chefe da estação.
Ele riu-se a brava.
"Esse gajo esteve a gozar com vocês. Há meia hora, chegou aí outro grupo e ele fez-lhes o mesmo. Eram dez e foram andando pela estrada fora". 
De filho da puta para cima tudo chamaram ao magala.
"Há uma camioneta do quartel que faz a ligação. Daqui até lá ainda são uns dez quilómetros. Ela não deve tardar aí".
O alívio era geral e os impropérios ao magala gozâo ficaram esquecidos.
As conversas generalizaram-se e estabeleceram-se ali os contactos mútuos entre indivíduos que iriam viver em conjunto e de forma intensa os próximos meses e, alguns, os próximos anos. A camioneta lá chegou e levou-os até Mafra. Toda a gente galhofava com os dez maçaricos que tinham caído na esparrela do magala.
E lá chegámos. Mas era meio-dia e disseram-nos para ire dar uma volta pela vila e aparecer às duas da tarde. O convento era uma aranha medonha que tecia a vila, e esta só existia porque havia o convento e, sobretudo,  porque havia o quartel. Sim, porque seria impensável ver os frades, se os houvesse, a coçarem os... hábitos pelos cafés e restaurantes da vila. A teia de pequenos negócios estendia-se ao longo das ruas e ruelas que saíam do convento em direcção às hortas, aos pomares, aos minifúndios dos saloios. Quem caía nessa teia? Os turistas, que acorriam em camionetas aos tesouros artísticos, e a tropa, de passagem para a voragem da guerra. Recém-chegados fomo-nos espalhando pelos vários restaurantes e cafés fronteiros ao convento. Os grupos formaram-se naturalmente de acordo com as várias levas de camioneta. Num desses restaurantes entraram o camaleónico e os outros dois que com ele cochichavam no comboio, eu e mais três que tinham vindo na mesma leva. Juntámo-nos todos numa mesa grande.
“Vocês foram dos que agarraram nas malas para vir a pé até aqui”, e o camaleónico fitou ironicamente quatro dos comensais, “a gente topou logo que aquilo era peta do magala. Se vocês não se põem a pau, vão ser comidos por tudo e por nada daqui para a frente. Aqui o Rolando também ia caindo, se não fosse eu avisá-lo.”
“Eu não fui”, disse eu.
“Até podia ser verdade o que o magala dizia. Não me admirava nada. Ou pensas que os gajos estão preocupados com as tuas comodidades? Não me pareceu nada anormal que nos fizessem palmilhar uns quilómetros com as malas às costas. Mais do que isso ainda hás-de amargar”, profetizou o  Orlando, deixando ao mesmo tempo transparecer a preocupação de justificar a  sua credulidade perante a ironia do outro.
“Mas eu cá não fui desses, pá”, era moreno e usava o cabelo bastante curto, tinha uma cara de garoto reguila e falava à alentejana, “a mim, ao António Realinho, nunca eles hão-de caçar. Só se for para jogar à bola, que é o que eu fazia lá no Lusitano. Acreditem, rapazes, que vim para a tropa porque tive de vir e, como não foi por gosto, não tenho intenções de me cansar.”
“Não era verdade, por acaso. Mas, se fosse e tu não tivesses andado, bem te podias lixar. Vocês é a primeira vez que estão em contacto com as coisas militares, mas eu não, eu sei como neste meio são exigentes. Pensando bem, não poderia ser de outra maneira, se é que querem ter um exército minimamente capaz de fazer a guerra. Eu estive na Milícia e sei o que é a disciplina. Por isso é que arranquei sem me admirar que fosse como o magala dizia.”
Quem assim falou com ar sério era o mais alto e entroncado do grupo.
“Caga na disciplina e vamos mas é à manja, que eu estou com uma galga do caraças. Já que vamos estar juntos durante alguns meses, pelo menos, é melhor apresentarmo-nos desde já. Eu cá sou o Norberto”, disse o camaleónico, “e este nabo que ia caindo na peta do magala é o Rolando e este gajo que está à minha frente com cara de bêbedo é o Simões. E tu, pá?”, perguntou curiosamente ao que falara anteriormente e que estivera na Milícia.
“Eu chamo-me Fernando Carreira”, respondeu ele.
Olharam para mim.
“António Aiveca”.
Todos, menos o Realinho, olharam para mim com cara de que raio de nome. Mas não liguei.
“E eu já vos disse que sou o Realinho, alentejano de gema e jogo à bola no Lusitano de Évora”.
O outro, de que ninguém ainda sabia o nome e que estava macambúzio, abatido, acabou por desabafar:
“Esse gajo aí, como é que te chamas?, Carreira, fala de disciplina e de fazer a guerra. Não sei o que é que tu fazes na vida, pá, para falares disso tão à-vontade. Eu sou o Pais, o Carlos Pais, sou agente técnico de engenharia electrónica nas Oficinas Gerais de Material Aeronáutico em Alverca, mas, é verdade, pá, estou-me cagando para a tropa, para esta porra toda, para tudo o que é militar. Estou farto deles. Só me vou esforçar por uma coisa aqui dentro, e não é jogar à bola.”
“Mas tens alguma queixa da bola?”, respingou o Realinho.
“Não, pá, era só para dizer que vou fazer tudo por tudo para ver esta merda toda pelas costas. Casei-me há um ano e tenho uma miúda com dez meses, custa-me muito estar longe dela e da minha mulher. Além disso, um gajo nunca sabe o que lhe pode acontecer.”
Era um tipo baixo, de cabelo negro, sobressaindo sobre um ar amarelado que lhe envolvia toda a pessoa. Mas era desenvolto e falara com veemência. Todos olharam para ele com certa simpatia. Só o da Milícia manteve um ar ausente, pouco receptivo àquela tragédia. Fraqueza, parecia pensar. Mas, como apareceu nessa altura o criado, todos se distraíram a encomendar que comer. Todos pediram refeição completa, menos eu. Pedi apenas sopa, um prego e uma cerveja.
“Assim não te safas, pá. Come cá fora enquanto podes, pois lá dentro só tens uma alternativa, ou comes merda ou morres à fome. Faz como eu, para já um bife com batatas fritas, sopa, uma cervejinha. Ó senhor empregado, traga pão, manteiguinha e azeitonas para a gente se ir entretendo. E pode trazer também as bebidas”, e o Realinho sorriu-se para todos, satisfeito.
“O problema é que não posso comer mais do que isso”, e  acrescentei, receando que tivessem compreendido que estava doente, “não  estou preparado para fazer uma despesa maior. Pensei que iríamos almoçar no quartel e não trouxe dinheiro que chegasse, isto é, trouxe, mas não o posso gastar já agora, senão não me chega para o resto da semana.”
Fiquei com a impressão que olharam para mim como para um pelintra. O Simões, o tal coradinho que estava assentado à frente do Norberto, abriu o bico pela primeira vez e disse, com manifesta intenção de salvar a minha atrapalhação.
“É pá, come lá à-vontade que eu empresto-te dinheiro e logo me pagas.”
“Está bem, obrigado”, mas fiquei pouco à-vontade.
Uma breve pausa e foi o Carreira que reatou a conversa.
“O Pais tem razão, mas parece-me que situações como a dele são  fatais, é mesmo difícil pensar que não possam existir numa situação de guerra.”
“Também não digo que não. No entanto”, e o Norberto mirou o Carreira de cima para baixo, “também é natural que nem todos gostem de se ver metidos nessa situação. Eu, por exemplo, não posso dizer que me agrade estar aqui, pensando no que está para vir. Sou professor primário e sou casado. Não é pela minha profissão, que até gosto dela, mas que teria mesmo que abandonar mais tarde ou mais cedo, já que não me dá para viver, mas é, sobretudo, porque tenho de estar longe da família. Se tivesse filhos, como o Pais, estaria ainda muito mais tramado. Haverá ainda outras razões que não vêm agora para o caso, mas a fundamental é uma, e é que não me interessa morrer, mas, a partir de agora, passo a ter muitas mais hipóteses de que isso venha a suceder. Por tudo o que isso acarreta para a família, e para mim próprio, claro. Eu percebo o Pais e acho que ele tem razão em sentir-se tramado. Reage à maneira dele, o que deve ser aceite.”
O Simões olhava para ele com ar sorridente, na expectativa de uma deixa para poder intervir. E apanhou esta.
“Cá por mim já tenho uma maneira. Andei a estudá-la durante muito tempo e aconselhei-me, até, com alguns tipos amigos que já passaram por estas coisas. E encontrei a maneira ideal.”
”A sorna, querem apostar?”, e o Rolando riu-se com a própria piada, e todos sorriram, olhando para o Realinho.
“Não é isso, pá. Vocês estão a gozar, mas eu encontrei a maneira científica de me ver livre disto. É a doença, pá”.
“Vai dar ao mesmo”, tornou o Orlando. 
Todos se riram novamente
“Não é nada a mesma coisa. E já te digo porquê. Se tu optas pela sorna, como o Realinho, topam-te e vão estar sempre a pau contigo, vão sarnar-te o juízo todos os dias. E isso não leva a atingir o objectivo final que é, pelo menos para mim, ver-me livre disto, da tropa, não me meter nessa coisa dos tiros. A sorna vai-te ajudar a passar o tempo da melhor maneira possível, com um mínimo de aborrecimentos, poupando ao máximo o corpinho, mas, se te topam, e não sei como não poderá deixar de ser, além dos gajos te foderem ainda mais, chegas ao fim disto e vais na mesma seguir o curriculum dos morituri.
“Essa é boa, mas troca lá isso por miúdos”.
“Isso é latim”, adiantei-me eu, "morituri quer dizer os que vão morrer. Os soldados romanos, quando iam para o combate, saudavam o imperador  com ave, Caesar, morituri te salutant, isto é, salve, César, os que vão morrer saudam-te".
O Realinho, que manifestara a sua ignorância, e os outros olharam para mim com um misto de curiosidade e de ironia, de tal modo que continuei tentando justificar a minha sabedoria e para não pensarem que tinha andado no seminário.
“É que eu fiz o Latim do 7°ano há alguns meses e tinha uma cadeira de Latim na Faculdade de Letras, andava em Românicas.”
O Simões quis continuar.
“Não me cortem o fio à meada. Com sorna ou sem sorna, se não tomarem como objectivo ver tudo isto pelas costas e procurar as vias para isso, vão seguir direitinhos para a guerra. E é o que eu não quero. Por isso é que eu vou ficar doente do coração desde a altura em que puser os pés na porta do quartel. Desde essa altura vou ser um doente cardíaco, meus amigos. Mas um doente cardíaco colaborante, empenhado nos exercícios, em todos, desejoso de aprender a ser um bom oficial. Não acreditam? Pois hão-de ver.”
De facto, todos olhavam para ele muito cepticamente.
“Estou a ver que vocês não percebem nada.”
O comer já viera, estavam todos entretidos a matar a maldita, e o Simões continuou a falar, entremeando tudo com bife, com batatas fritas e vinho tinto.
“Eu explico,” e fez uma pausa nos ruídos de faca e garfo, mantendo apenas o rilhar ritmado do bife, “é que sofro mesmo do coração. Pois bem: apesar de ser doente, o Simões vai ser o gajo mais entusiasta em todos os exercícios e treinos. Mas, porque sou doente cardíaco, não vou conseguir terminá-los, vou sentir muitas dificuldades e vou, até, ter algumas crisesitas. Naturalmente, todos vão ter pena de mim, coitado, que se esforça imenso mas não consegue nada, e os manda-chuvas dirão que sou muito esforçado mas que não tenho condições físicas, que será perigoso insistir neste tipo de coisas comigo, etc.”
“Não está mal visto, não senhor”, apreciou o Norberto, “mas não percebo uma coisa, ó Simões. Como é que tu vais ter essas crises? Isso pode durar um certo tempo, mas eles vão-te fazer exames, electrocardiogramas e outras coisas e, se não encontrarem nada, não vão ter razões para te afastar.”
“Isso é a parte de risco que existe. Como em tudo, há sempre um certo risco, uma probabilidade, maior ou menor, de não resultar. Vou jogar na probabilidade de, face às dúvidas e aos elementos contraditórios que lhes surgirem, os médicos jogarem pelo seguro, não se arriscarem, preferirem pôr no relatório que eu não devo fazer exercícios ou ser submetido a esses esforços”, e avançou com mais uma garfada de batatas fritas, enquanto os outros deglutiam pensativamente.
O único manifestamente ainda não convencido dos resultados desta actuação era o Carreira, que pôs uma dúvida.
“É pá, desculpa lá, mas continuo a não ver como é que um médico, recebendo embora informações verbais ou escritas, vai aceitar essas informações como traduzindo uma verdade que é contraditória com aquilo que ele verifica através de exames técnico-científicos. Parece-me que vocês todos estão a subestimar os médicos militares. São tipos batidos em todas as golpadas desse género e não vão cair assim com essa facilidade que tu pensas.”
“Eu sou mesmo doente, é verdade. Esta é a ideia geral. Quanto aos pormenores, só vos garanto é que tenho os meus trunfos e que irei lançar a confusão na cabeça dos doutores.”
“Quer dizer que vamos ficar no suspense? Conta lá, conta como é para a gente fazer o mesmo”, pediu o Pais.
“Isso ia complicar o sistema do Simões e torná-lo, até, ineficaz. Já pensaste o que era aparecerem uma data de cardíacos? Aí é que os gajos começavam a desconfiar.”
“O Norberto tem razão. Vocês gozaram um bocado com a minha modalidade de não fazer nada, de não me cansar, sorna como lhe chamou o Rolando, mas garanto-vos que há-de dar resultado. É o Realinho, o filho da minha mãe que o garante.”
“Também me parece. Se todos fizessem sorna, tinham de fechar esta merda.”
Todos se riram com a piada do Rolando. Mas ele continuou mais a sério.
“Parece-me que esta modalidade do Realinho não é de desprezar. Só tem um inconveniente. Tem de ser adoptada por muitos para dar resultado. Se for só o Realinho, ou mais dois ou três, não dá nada. Eles são topados e isolados, sem outro efeito que não seja levarem na corneta.”
“Subverter isto tudo? Isso é perigoso. É uma forma colectiva de contestação. Ponham-se a pau com essa ideia.”
O Norberto, o Simões e o Rolando miraram o Carreira com curiosidade, parando de comer. Os outros também lhe lançaram um olhar interrogativo. Só eu continuei a comer, sem levantar a cabeça,  alheio ao alcance desta intervenção do ex-milícia.
“Estou, apenas, a fazer de advogado do diabo”, justificou-se o Carreira, manifestamente atrapalhado com os olhares que lhe lançaram.
O facto é que a conversa parou ali, agarrando-se todos à tarefa de comer. Como quem de repente se vê sozinho no meio de um silêncio incómodo, decidi falar.
“Eu estou um bocado desgostoso porque deixei ainda a meio  um curso a que me agarrara com unhas e dentes. Andava no 3°ano de Filologia Românica. Não sei, ainda, o que seria no futuro, se professor, se escritor, se outra coisa qualquer. Mas o que é facto é que eu estava a gostar daquilo e tenho pena de o ter deixado. Esforcei-me muito por fazer o 7°ano, marrei que me fartei. A minha preocupação era vir para a tropa como oficial. Eu sabia que tinha de vir, embora estivesse esperançado que não era já agora, que me deixavam acabar o curso. Não sucedeu, paciência. Não percebo é a vossa fobia em relação à tropa.”
“Não percebes?! Por onde é que tens andado, pá? Com certeza, andaste noutro mundo”, atirou-me o Pais no meio de uns gafanhotos.
“Também compartilho a estranheza do Aiveca pela vossa fobia. E podes estar certo, Pais, que não tenho andado por outro mundo”, o Carreira preparava-se para continuar, mas o Norberto interpôs-se.
“Vocês são é parvos. Então vimos para aqui perder três ou quatro anos dos melhores da nossa vida, passamos a ter milhentas possibilidades de levar um tiro nos cornos, salvo seja, podemos voltar à vida civil sem braços, sem pernas, sem olhos, sem colhões, não se riam, é pá, por tudo isto vocês acham que devemos gostar desta porra?”, e o Norberto abria os olhos, mais salientes ainda na cara branca, tingida de vermelho pela emoção e pelo vinho.
“Acho que interpretaste mal aquilo que eu e o Aiveca dissemos”, avançou o Carreira cautelosamente.
“Eu penso o mesmo que o Norberto”, disse o Simões.
“E eu também”, acrescentou o Realinho.
Ficou a pairar no ar uma certa falta de à-vontade. Eu estava encarnado que nem um pimento, as orelhas em brasa, e mantinha o copo da cerveja entre os lábios, como quem procura primeiro o que há-de dizer. O Rolando, no entanto, que já terminara de comer, cachimbo entre os dentes, olhava apreciativamente para todo o grupo, em especial para mim, e acabou por me interpelar de uma forma serena e conciliadora.
“Tu disseste que és de Lisboa, não é?”
“Sou. Isto é, nasci em Lisboa, mas passei a maior parte da minha vida na província”, mas não lhe quis dizer por que locais dessa província andara.
“Se calhar o problema é esse. Deves andar arredado daquilo que preocupa toda a malta da nossa idade, que é ir à guerra e poder morrer. É muito difícil para nós, de qualquer modo, vir para este casarão e obedecer a tudo o que nos quiserem mandar, nem que seja levar no cu.”
“ Aí pára! Isso não faço eu nem que me fuzilem!”
“Bocas, só bocas, ó Realinho. Até aposto que fazias isso e muito mais só para não te encherem a barriga de chumbo.”
“Espera aí, ó Simões. Deixa-me continuar a vender o meu peixe a este gajo”, e o Rolando virou-se novamente para mim, “o que eu queria dizer é que não podemos aceitar de braços abertos esta vida que vamos ter nos próximos anos. Porque não vai ser um mar de rosas, porque nada nos promete de bom. Pelo contrário. Não me digas que não concordas comigo. Como é que não consegues compreender que a malta não goste disto e procure safar-se desta ou daquela maneira?”
  Falou sempre calmamente, fitando-me sem hostilidade. Parecia mais empenhado em convencer o interlocutor do que em atacar as suas opiniões. Pegou novamente no cachimbo e na bolsa de tabaco e procedeu calmamente aos preliminares de todo o fumador de cachimbo. Já tinham vindo os cafés. Todos, menos eu, pediram bagaços para acompanhar. O ambiente geral no restaurante era de à-vontade e descontracção, ruidoso, os ocupantes das mesas já tinham almoçado, bebido bem. Estava-se na altura das piadas e das anedotas, das gargalhadas sonoras e prolongadas, do bater estrepitoso nas chochas e nas bordas das mesas. De momento a momento, fazia-se um silêncio, com um zumbido estilo mosca como fundo, mas que eram as conversas, o contar da anedota na fase da atenção, coincidente em todas as mesas. Mas logo surgia a gargalhada em coro, numa mesa primeiro, depois na outra, e na outra, ou em duas ou três ao mesmo tempo, parecendo obedecer a uma cronometragem. E era a cronometragem da anedota picante, do palavrão metido oportunamente, da obscenidade relatada com todos os matadores, a preceito. Tudo curto, necessariamente jogando no imprevisto e no peso das próprias palavras e situações. Todos se sentiam bem e estavam contentes, pelo menos aparentemente. Apenas um casal de meia-idade, em mesa ao canto da sala, parecia incomodado com o ambiente efusivo à sua volta. Comiam em silêncio, olhando reprovadoramente sempre que rebentavam as gargalhadas, e trocavam entre si olhares de concordância cúmplice, como quem já não necessita falar sobre o que os rodeia, para não se repetirem desnecessariamente um ao outro. Essa identidade de pensamentos sobre o que se passava, por um lado, a habituação a situações dessas, que, certamente, testemunhavam ciclicamente, fazia-os continuar a comer silenciosamente, embora com profundas críticas estampadas no rosto.
Eu, que estava de frente para o casal, já notara as recriminações silenciosas. Disse ao Rolando, que estava do outro lado da mesa:
“Há um casal de velhos atrás de ti que está farto de nos rogar pragas. Não te vires agora que eles estão a olhar para cá. Os olhos deles parecem setas. Não nos querem matar, com certeza, mas davam-nos umas boas palmadas, se pudessem. Devem sentir-se como num templo profanado. Se tivessem a coragem de Jesus Cristo, expulsavam-nos daqui a pontapé. Mesmo assim, não sei se não chamarão o criado para nos pôr na rua.”
Rolando ouvia-me de cachimbo entre os dentes, no meio de outras conversas que se tinham repartido por toda a mesa. Com a excitação da comida e da bebida, cada um queria contar a sua, sem dar grande importância ao que os outros diziam. Daí que, os temas da conversa que fora comum até aí passassem a ser base de diálogo entre os parceiros mais próximos ou mais a geito para ouvirem o que cada um queria, à viva força, dizer.
“É curiosa a tua comparação”, Rolando falou por entre dentes.
Não disse nada, mas interroguei-o com o olhar.
“Não é pelo seu sentido metafórico, que é capaz de condizer com o que se está a passar. Penso é que ninguém se lembraria de fazer essa comparação, no meio das mais desbragadas conversas que nos rodeiam.”
Corei mais uma vez, ficando visivelmente atrapalhado. No entanto, como quem se antecipa a uma pergunta iminente, com receio de ficar mais atrapalhado ainda, avancei:
“Veio-me à ideia. Se calhar, são influências da minha formação religiosa. É que eu andei num colégio de padres. Na verdade, não me ocorreu outra imagem que me fizesse lembrar esta vozearia tremenda, os risos, o tinir dos talheres e o olhar justiceiro daqueles dois defensores do cerimonial sagrado que, com certeza, representa para eles o almoço a dois, joelho contra joelho.”
“Está bem apanhado, sim senhor.”
O Rolando quedou-se pensativo, de olhar no vazio, mas eu interessei-me em continuar a conversa.
“Compreendo que as pessoas habituadas a virem almoçar aqui todos os dias, que serão na maior parte dias de sossego, compreendo que se sintam aborrecidas com tanto barulho, tanto mais que o vocabulário não é do mais vernáculo. As pessoas que trabalham encontram aqui uma forma de repouso, uma compensação à agitação das suas actividades no trabalho, uma forma de abstracção das chatices e aborrecimentos que lhes são impostos nas suas relações obrigatórias com os outros.”
   “Estás-me a sair um bom filósofo. Mas essa capacidade de compreensão não a tiveste há pouco, quando se falou aqui da tropa, dos incómodos e chatices que ela traz a todos, até a ti. Também disseste que te alterou os planos de estudo, não é verdade? Porque é que aceitas, então, passivamente esse incómodo e pareces não compreender que haja quem não os possa aceitar assim como quem chupa um rebuçado?”.
Rolando apontava-me o cachimbo com ar inquisitorial, mas retraiu-se quando viu que eu corava.
“Não leves a mal, que isto é apenas um gesto de estilo.”
“Se calhar exprimi-me mal há pouco. Não pretendia recriminar ninguém. Não queria criticar-vos, era apenas dizer o que eu próprio sinto. E é verdade que tenho alguns inconvenientes com isto tudo, mas não sinto fobia nem revolta. Aceito as vossas reservas e compreendo-as, não tenho absolutamente nada contra elas.”
“Mas olha que há quem tenha.”
As conversas acabaram e todos se levantaram quando alguém avisou que estava na hora. Cerca das duas da tarde, formou-se uma grande fila à frente de uma das portas que dava acesso ao quartel. 

27 de agosto de 2011