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26 de agosto de 2011

241-Eleições presidenciais de 13 de Fevereiro de 1949 na Guiné

Segundo o recenseamento de 1950 feito à "população civilizada" (ver aqui), que não será exactamente, é claro, mas que se aproximará muito da situação em 1949, são estes os "portugueses" da Guiné na altura:

Circunscrições
Varões
Fêmeas
Bafatá
418
310
Bissau
2.017
1.767
Bolama
448
433
Bijagós
61
55
Cacheu
243
218
Catió
198
166
Farim
386
337
Fulacunda
156
112
Gabú
108
81
Mansoa
215
164
S. Domingos
36
25
TOTAIS
4.286
3.668
Estão aqui incluídos os negros e mestiços "civilizados", de acordo com o Acto Colonial. Pode ser uma base para ter ideia de quantos poderiam ter votado, retirando, evidentemente os "varões" e "fêmeas" menores, que não podiam votar (não está visto quantos eram).
Há que ter em conta também que nem todas as "fêmeas" já consideradas maiores podiam votar. Embora o decreto-lei 19.694, de 5 de Maio de 1931, desse a capacidade eleitoral às mulheres, só podiam votar as que fossem chefes de família (isto é, viúvas, divorciadas ou separadas de pessoas e bens, mas com família própria) e tivessem completado o ensino secundário, pelo menos.
A estas eleições concorreram Óscar Carmona, para reeleição e apoiado pelo Estado Novo, e Norton de Matos, apoiado pela oposição ao regime de Salazar. Norton de Matos fez campanha mas acabou por desistir, alegando falta de liberdade no acto eleitoral.
Foram estes os resultados desta votação na Guiné, segundo informação da União Nacional ((o único membro nas mesas de voto, certamente...): 
Secções de voto
Inscritos
Votantes
A favor
Contra
Bissau
971
474
456
4
Bolama
129*
145
143
-
Bafatá
160
123
121
1
Farim
98
72
72
-
Cacheu
105
87
83
4
Catió
84
73
73
-
Fulacunda
101
87
85
2
Mansoa
87
62
62
-
Bijagós
47
34
33
-
Gabú
49
28
28
-
S. Domingos
28
28
28
-
 TOTAIS
1.929
1.213
1.184
11
*Está assim. De acordo com o total deveriam estar 199 inscritos em Bolama.
Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume IV, Nº 13, 1949
A UN não dá notícia dos votos brancos e nulos. Mas, segundo o que está expresso deveriam ser: 4 em Bissau, 2 em Bolama e 1 em Bafatá.
Mas, numa chamada "Recapitulação", diz-se que há que deduzir aos inscritos 213 que estavam "ausentes, mortos ou presos", o que dará, de facto, 1.715. Também retira 503 que chama de "abstenções voluntárias", e já são 1.213, que é o total dos votantes. Muito longe do número referido no quadro acima, o total dos "portugueses"... da Guiné.
Segundo as minhas contas, os inscritos que não votaram distribuem-se assim:

Secções de voto
Inscritos
Não votaram
Bissau
971
497
Bolama
199*
54
Bafatá
160
37
Farim
98
26
Cacheu
105
18
Catió
84
11
Fulacunda
101
14
Mansoa
87
25
Bijagós
47
13
Gabú
49
21
S. Domingos
28
-

1.929
716 (37,8%)

* Correcção minha
Pode-se concluir que estavam assim distribuídos os números de "ausentes, mortos ou presos" e de "abstenções voluntárias", com maior peso em Bissau.

25 de agosto de 2011

240-Como Antão Gonçalves levou os primeiros escravos

CAPÍTULO XII

Como Antão Gonçalves trouxe os primeiros cativos

(…) Acabada a viagem daqueste, quanto ao principal mandado, Antão Gonçalves chamou Afonso Guterres, um outro moço da câmara, que era com ele, e assim os outros do navio, que eram por todos vinte e um, e falou-lhes em esta guisa: Irmãos e amigos! Nós temos já nossa carga [peles de lobo-marinho e azeite], como vedes, na qual acabamos a principal força de nosso mandado, e bem nos podemos tomar, se mais não quisermos trabalhar além daquilo que nos principalmente foi encomendado; mas quero porém saber de vós outros, se vos parece que é bem que tentemos de fazer alguma cousa, porque aquele que nos cá enviou, possa conhecer alguma parte de nossa boa vontade, ca me parece que seria vergonha tomarmos assim ante a sua presença, com tão pequeno serviço. E em verdade eu considero que, quanto nos esta cousa foi menos encarregada pelo infante nosso senhor, tanto devemos em ela de trabalhar com muito maior peso. Ó que formoso aquecimento seria, nós que viemos a esta terra por levar carga de tão fraca mercadoria, acertarmos agora em nossa dita de levar os primeiros cativos ante a presença do nosso príncipe! E quero-vos dizer o que tenho considerado para receber vosso avisamento: e isto é, que em esta noite seguinte, eu com nove de vós outros, aqueles que mais dispostos estiverdes para o trabalho, quero ir tentar alguma parte desta terra, ao longo deste rio, para ver se sinto alguma gente, ca me parece que de razão devemos achar alguma cousa, pois é certo que aqui há gentes, e que tratam com camelos e outras alimárias, que levam suas cargas; e o tráfego daquestes principalmente deve de ser contra o mar; e pois que eles de nós ainda não hão nenhuma sabedoria, não pode o seu ajuntamento ser tamanho que nós não tentemos suas forças; e encontrando-nos Deus com eles, a mais pequena parte da vitória será filharmos [agarrarmos à força] algum, do qual o Infante nosso senhor não será pouco contente para cobrar conhecimento por ele de quais e quejandos são os outros moradores desta terra. Pois qual será o nosso galardão, sabê-la-eis pelas grandes despesas e trabalho que ele nos anos passados, somente a este fim, tem oferecidos. Vós vede o que fazeis, responderam os outros, ca pois capitão sois, é necessário que naquilo que mandardes sejais obedecido, não como Antão Gonçalves; mas como nosso senhor, ca bem deveis de cuidar que aqueles que aqui somos, da criação do Infante nosso senhor, temos desejo e vontade de o servir, até pôr nossas vidas na sorte do derradeiro perigo. Porém a nós parece, que vossa intenção é boa, com tanto que vós não queirais aí meter outra novidade, pela qual se nos recresça perigo, com pouco serviço de nosso senhor. E finalmente determinaram fazer seu mandado, e o seguir até onde mais chegar pudessem. E tanto que a noite sobreveio, Antão Gonçalves apartou aqueles nove, que lhe mais aptos pareceram, e fez com eles sua viagem, segundo antes determinara E sendo afastados do mar, quanto podia ser uma légua, acharam ali um caminho, o qual guardaram, presumindo que poderia por ali acudir algum homem, ou mulher, que eles pudessem filhar; e seguiu-se de não ser assim, por cuja razão Antão Gonçalves pôs em prazimento aos outros, que fossem mais avanta seguir sua intenção, ca pois já demovidos eram, não seria bem de tomarem assim em vão para seu navio. E contentes os outros, partiram dali, seguindo por aquele sertão espaço de três léguas onde acharam rasto de homens e moços, cujo número, segundo seu parecer, seriam de quarenta até cinquenta, os quais seguiam ao revés do que os nossos andavam. A calma era muito grande, e assim por razão dela, como do trabalho que passado tinham, velando a noite e andando assim de pé, e sobretudo à míngua da água, que aí não havia, sentiu Antão Gonçalves que o cansaço daqueles era já mui grande, a qual cousa ele bem podia julgar por seu próprio padecimento. Amigos, disse ele, aqui não há mais; nosso trabalho é grande, e o proveito me parece pequeno, quanto pelo seguimento deste caminho, ca estes homens são contra a parte donde nós vimos, e o melhor conselho que podemos haver, é que voltemos contra eles, e pode ser que à volta que fizerem, se apartaram alguns, ou por ventura chegaremos sobre eles onde jouverem em alguma folga, e cometendo-os de rijo, pode ser que fujam, e fugindo, algum haverá aí menos ligeiro, de que nos podemos aproveitar, segundo nossa intenção, ou por ventura será nossa dita melhor, e acharemos catorze ou quinze, com os quais faremos nossa presa de maior avantagem. Não era este conselho em que se pudesse achar dúvida, quanto nas vontades daqueles, porque cada um aquilo mesmo desejava. E voltando contra o mar, em pouco espaço do seu caminho, viram um homem nu, que seguia um camelo, levando duas azagaias na mão, e seguindo aqueles nossos, não havia aí algum que de seu grande cansaço tivesse sentido. E como quer que aquele fosse só, e visse que os outros eram tantos, todavia quis mostrar que aquelas armas eram dignas para ele, e começou de se defender o melhor que pode, fazendo sua contenença(1) mais áspera do que sua fortaleza requeria. Afonso Guterres o feriu de um dardo, de cuja ferida o mouro recebeu temor, e lançou suas armas como cousa vencida; o qual filhado, não sem grande parazer daqueles, indo assim adiante, viram sobre um outeiro a gente, cujo rasto seguiam, da soma dos quais era aquele que traziam filhado. E não faleceu por suas vontades de chegar a eles, mas o sol era já mui baixo, e eles cansados, consideraram que semelhante cometimento lhe podia trazer maior dano que proveito, e porém determinaram de se recolher a seu navio. E indo assim aviados, viram ir uma moura negra, que era serva daqueles que ficavam no outeiro, e posto que o conselho d'alguns daqueles fosse que a deixassem ir, por não travar nova escaramuça, de que pelos contrários não eram requeridos, ca pois eram em vista, e o seu número era mais que dobrez(2) sobre eles, não podiam ser de tão pequenos corações, que lhe deixassam assim levar cousa sua. Antão Gonçalves todavia disse, que fossem a ela, ca podia ser que o menos preço daquele encontro faria aos contrários cobrar corações contra eles. E já vedes, voz de capitão, entre gente usa a obedecer, quanto prevalece. Seguindo seu acordo, a moura foi filhada, sobre a qual os do outeiro quiseram acudir; mas vendo os nossos aparelhados de os receber, não somente se retraíram para onde estavam, mas ainda fizeram viagem para outra parte, voltando as costas aos conrários. (…)


CAPÍTULO XIII
Como Nuno Tristão chegou onde era Antão Gonçalves, e como o fez cavaleiro

(...) Agora saibamos como Nuno Tristão, um cavaleiro mancebo, assaz valente e ardido, que fora criado de moço pequeno na câmara do Infante, chegou àquele lugar onde era Antão Gonçalves, o qual trazia uma caravela armada com especial mandado do seu senhor que passasse além do porto da Galé, o mais longe que pudesse, e des i(3), que se trabalhasse de filhar gente por qualquer maneira que melhor pudesse; o qual correndo sua viagem, chegou ali onde era Antão Gonçalves. (...)

(1)   "contenença" significa "actual presença".
(2)   "dobrez" tem o sentido de "duplo".
(3)    “dês i” corresponde a “desde aí, desde então”



(...) 5. Imediatamente o senhor Infante fez uma armada de duas caravelas e mandou um cavaleiro já de idade que se chamava Nuno Tristão; por capitão em outra caravela ia Antão Gonçalves, muito moço, que depois teve o castelo de Tomar, com outros moços da câmara do senhor Infante. Ordenou-lhes que fosse até ao Rio do Ouro e que, se encontrassem gente, fizessem tratado de paz com ela. Assim foram até ao Rio do Ouro; de noite foram com batéis até à costa e ao alvorecer viram uma gente que vinha tirar água a um poço.

Cheios de satisfação, saltaram em terra com as suas armas e apanharam treze homens e mulheres, enquanto o resto fugia. Entre eles, tomaram um ancião muito respei­tável, de nome Adavu". Alguns deles eram ruivos, outros negros. E assim, cheio de contentamento, o capitão-mor armou cavaleiro o mais novo, ainda jovem, que tinha o nome de Antão Gonçalves e era parente do capitão da ilha da Madeira.  (...)

O autor desta narração, Diogo Gomes de Sintra , que chegou ao rio Geba em 1456, também se vangloria:

(...) 7. De novo o senhor Infante fez uma armada de quatro caravelas. Os capitães: Gil Eanes de Vilalobos, cavaleiro; Lançarote, almoxarife do rei em Lagos, Nuno Tristão e Gonçalo Afonso de Sintra. E houve muitos homens de nobreza que foram a Arguim e passaram além onde tomaram uma ilha que tem o nome de Teslim e outra ilha grande chamada Tider e outra mais, Onar.

A ilha de Tider encontraram-na cheia de homens e de mulheres. Só eu, Diogo Gomes, almoxarife de Sintra, apanhei 22 pessoas que se tinham escondido e empurrei--as sozinho diante de mim, como animais, por meia légua até aos barcos. O mesmo fez cada um dos outros. Captu­rámos nesse dia desses cenégios 600 homens de cor ruiva e uns 50 negros e com eles regressámos a Portugal, a Lagos do Algarve (ver aqui), onde se encontrava o senhor Infante. Ficou ele muito satisfeito connosco.


Como eram transportados os escravos nas caravelas
http://maracatu.org.br/o-maracatu/historia/
Depois, mandou o senhor Infante de novo Gonçalo Afonso de Sintra. Foram outra vez às ditas ilhas e deram combate aos sarracenos Cenégios. As mulheres fugiram, mas Gonçalo de Sintra perseguiu-as dentro de água; as mulheres apanharam lodo do mar e lançando-lho na cara cegaram-no de tal modo que ele ficou sem ver. Os homens caíram sobre ele e mataram-no, Os outros regressaram à caravela e voltando a Portugal levaram a nova ao senhor Infante, acompanhados de mais de 60 cenégios, de um e outro sexo.(...)