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20 de setembro de 2011

19 de setembro de 2011

258-Os Felupes II

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257-Descoberta da Guiné

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18 de setembro de 2011

256-Os pára-quedistas

Pára-quedistas - Operações 

As unidades de pára-quedistas constituíam uma das reservas dos comandantes-chefes e estes empregavam-nas como forças de intervenção nas zonas onde os movimentos de guerrilha estavam melhor organizados. 
A companhia de pára-quedistas era a unidade de manobra base com capacidade para actuar autonomamente, embora também tivessem sido empregues unidades de menores efectivos. 

Raramente foi utilizado um batalhão em combate, excepto para operações com lançamento de pára-quedas. Para aumentar a sua mobilidade os páras utilizaram com frequência os helicópteros em acções de surpresa. 



Operação Jove - Captura do capitão cubano Pedro Peralta 
16 a 19 de Novembro de 1969 

O«corredor de Guileje» constituía a principal linha de infiltração do PAIGC na Guiné. Na realidade, tratava-se de um trilho de terra batida aberto na floresta, que vinha de Kandianfara, na República da Guiné-Conacri, e penetrava no território pela região do Quitafine, no Sul. Em Novembro de 1969, os serviços de escuta portugueses captaram a informação da passagem de uma importante coluna com material de guerra, na qual se deslocaria Nino Vieira, ao tempo o mítico comandante da Frente Sul, tendo o Comando-Chefe das forças portuguesas na Guiné atribuído ao Batalhão de Caçadores Pára-Quedistas n.º 12, a missão de interceptar os guerrilheiros. 
Duas companhias de páras foram transportadas, em 16 de Novembro, por avião, de Bissau para Aldeia Formosa, no Sul, e a partir deste quartel os homens foram colocados no terreno por helicóptero. 
A emboscada foi montada em 17 de Novembro, com 70 homens numa base recuada, 35 em apoio e outros 35 sobre o trilho do «corredor de Guileje». 
Em 18 de Novembro, após progressão difícil pela mata e pouco depois de os 35 elementos deste grupo de assalto terem instalado o dispositivo, ouviram-se vozes e surgiram na picada dois homens armados, um branco e um negro. O pára-quedista apontador da metralhadora abriu fogo, matando o guerrilheiro negro e ferindo o branco, tendo este último conseguido fugir para o interior da floresta, tentando dissimular o rasto de sangue, mas, após perseguição difícil, os pára-quedistas encontraram o ferido completamente exausto pelo sangue perdido. Foram-lhe prestados os primeiros socorros e num interrogatório sumário identificou-se como sendo Pedro Rodriguez Peralta, capitão do exército cubano, de 32 anos, nascido em Santiago de Cuba. Seria evacuado por helicóptero para Bissau e dali para Lisboa, sendo libertado após o 25 de Abril de 1974. 



Operação Grifo - A morte do capitão no «corredor do Guileje» 

A Operação Grifo previa a realização de emboscadas por um pelotão de pára-quedistas no Sul da Guiné, para impedir a penetração de guerrilheiros vindos da Guiné-Conacri. Essa força montou uma emboscada de madrugada, em terreno que oferecia bons abrigos, ficando a aguardar. Cerca das dez horas aproximou-se um grupo de guerrilheiros. Já muito perto dos pára-quedistas, os primeiros homens fizeram fogo de reconhecimento, lentamente foram entrando na «zona de morte» da emboscada, mas logo recuaram por terem detectado a presença dos páras, que abriram fogo e causaram algumas baixas. Ocorreram, a partir de então, factos reveladores do grau de preparação dos guerrilheiros e da capacidade dos páras. Segundo o relatório da operação, «a reacção do inimigo foi incrivelmente rápida e com grande potencial de fogo em tiro rasante. 
Um dos três guerrilheiros sobreviventes da «zona de morte» abriu fogo, atingindo o capitão Tinoco de Faria, que, ao sentir-se alvejado, tentou mudar de posição, sendo novamente baleado com gravidade. Alguns segundos depois, foram abatidos os três guerrilheiros que tentavam fugir, mas os restantes tinham-se instalado junto à mata ocupada pelas forças portuguesas, desencadeando violento ataque com metralhadoras pesadas. 

Numa pausa, o pelotão tentou transportar o ferido para local onde fosse possível a sua evacuação, pois inspirava sérios cuidados. O inimigo mudou de táctica, seguindo as tropas e flagelando-as à distância. Ao chegar à margem do rio Tenhege, o pelotão sofreu novo ataque de elementos emboscados no interior da mata. Entretanto, o estado de saúde do capitão agravou-se de forma irrecuperável, tendo morrido cerca do meio-dia. 

Operação Vulcano  

A Operação Vulcano ocorreu na Guiné, em Março de 1969, e o que seria a operação típica de ataque de pára-quedistas a uma base de guerrilheiros, com o apoio da aviação, esteve à beira de se transformar em sério desaire. O PAIGC, depois das primeiras acções contra os aviões portugueses efectuadas com metralhadoras 12,7 mm, deu novo passo para contrariar a superioridade aérea portuguesa, e no Sul da Guiné, na fronteira com a Guiné-Conacri, foram referenciadas, na zona de Cassebeche, posições de armas antiaéreas ZPU-4 (quádruplas), de origem soviética, pelo que se decidiu realizar uma operação para destruir essas armas e capturá-Ias. A operação iniciou-se com o bombardeamento aéreo realizado pelos sete aviões Fiat G-91 (R4) disponíveis no território, a que se seguiu a tentativa de heliassalto com duas companhias de pára-quedistas apoiadas por helicanhões, uma a norte e outra a sul das posições do PAIGC. Na manhã de 7 de Março, na primeira formação de bombardeamento, um Fiat acertou com uma bomba de 200 kg numa ZPU e «acredita-se que tudo vai correr pelo melhor». Os helicópteros AL-III colocaram a vaga inicial de pára-quedistas, mas logo depois do desembarque estes começaram a ser batidos pelo fogo e descobriu-se que continuavam activas três armas antiaéreas. Um Fiat e um DO-27 foram atingidos, mas conseguiram regressar à base, sendo decidido empregar a reserva de 40 pára-quedistas, que se viram envolvidos num incêndio provocado pelos disparos das armas. A companhia de pára-quedistas encontrava-se a 500 metros da posição da ZPU, mas estava detida debaixo de fogo. Outro avião foi atingido, tendo o comandante da operação considerado «a situação preocupante». Os páras não progrediam devido à reacção das forças do PAIGC, só existiam cinco aviões operacionais, não era possível empregar os helicópteros armados, que não tinham qualquer possibilidade de sobrevivência naquelas circunstâncias e, à medida que o dia avançava, mais difícil seria recuperar os pára-quedistas. «Torna-se urgente tomar uma decisão perante a iminência do desastre», escreveria o comandante da operação, e as hipóteses eram dar ordem para os páras se lançarem ao assalto às posições mais fortes, com elevados custos em baixas, mantê-los na área, obrigando-os a pernoitar e deixando-os à mercê dos ataques com morteiros e artilharia durante a noite, ou mandar retirar. Foi esta última a opção tomada e a meio da tarde, todas as forças portuguesas tinham abandonado o Quitafine. Aquilo que poderia ter sido grande «ronco», um sucesso, falhara por falta de meios de bombardeamento capazes de eliminar as resistências antes do assalto, mas o PAIGC, que viu a maior parte das suas armas destruídas por estarem em posições fixas, aprendeu que, para ter êxito na luta antiaérea, necessitava de armas de emprego mais flexível, facilmente transportáveis e dissimuláveis. Essa arma seria o míssil terra-ar SAM-7 (Strella), que surgiu em 1973 e desequilibrou a guerra na Guiné a favor do PAIGC. Fonte: 

http://www.guerracolonial.org/

17 de setembro de 2011

15 de setembro de 2011

253-"De Campo em Campo", entrevista a Bobo Keita, comandante do PAIGC

UNICEPE
Praça Carlos Alberto, 128-A 
4050-159 PORTO

2011-09-24, sábado, às 16h00: 
apresentação do livro DE CAMPO EM CAMPO, de Norberto Tavares de Carvalho
 (conversas com o Comandante do PAIGC Bobo KEITA ). 

Apresentação feita por JORGE RIBEIRO

DE CAMPO EM CAMPO 




Trata-se de uma empolgante narrativa da guerra colonial, por alguém que a viveu de corpo e alma, do primeiro ao último momento. Futebolista nato, Bobo Keita cruzou-se no estrangeiro com o Presidente Kwame Nkrumah do Gana, do qual ouviu a mensagem que o preparou para os lances que iria efectuar no campo político. Respondendo ao apelo de Amílcar Cabral, foi com elegância e convicção que fez a sua preparação militar no ex-bloco comunista.

Calculista, cedo entendeu que os amuletos não passavam de meras fantasias e passou a interessar-se pelos conhecimentos e técnicas mais ligados à lógica. " Não ouves o zumbido da bala que te ceifa a vida porque a sua velocidade é superior à do som." Foi assim que o ex-futebolista se formou como militar no emaranhado de trepadeiras e lianas que formam o traiçoeiro solo da Guiné-Bissau. Lutou no Norte e no Leste, comeu ratos e macacos, bateu-se como um leão, foi ferido mas nunca perdeu o ânimo. Sobretudo depois da morte de Cabral. O domínio aéreo, outrora da exclusividade do exército português foi suplantado com o míssil Strella e o Grad. Com esses engenhos, o PAIGC começou o abate de caças portugueses nos céus da Guiné; a supremacia dos ares mudou de campo. Último Comandante a entrevistar-se com o Amílcar Cabral poucas horas antes da sua morte, Bobo Keita participou na captura do assassino e na libertação de Aristides Pereira. A morte do líder intensificou os campos de batalha até que no dia 25 de Abril de 1974, deu-se o golpe de estado em Portugal, antecedente lógico que permitiu o desanuviameneto tanto esperado. Membro da delegação do PAIGC que participou nas negociações de Londres e de Argel, Bobo Keita afirma que o ambiente entre as duas delegações não foram sempre tão cordiais como se pretendeu.

Para ilustrar um desses momentos de tensão, foi quando perante um impasse a delegação do PAIGC anunciou que ia regressar e retomar a guerra. O Dr Mário Soares teria elevado a voz frisando bem alto : "Guerra, guerra, vocês só pensam é na guerra...!". Com a assinatura dos Acordos de Argel os homens de Cabral regressaram efectivamente mas para preparar a fase de transição da retirada do exército português. Foi assim que no dia 13 de Outubro de 1974, Bobo Keita escoltava, com o devido brio e respeito, o último Governador Colonial da Guiné, o Brigadeiro Carlos Fabião que ia apanhar o avião que o conduziria a Portugal. A cena marcou o fim da guerra colonial na Guiné e também o fim desta empolgante narrativa

O Autor (por ele próprio)

Nasci na Guiné-Bissau onde fiz os meus estudos primários, secundários e universitários. Em Novembro de 1972, estudantes travaram-se de razões com o General António de Spínola. Pus-me logo à cabeça do movimento. Do palácio do Governador fui conduzido à prisão da PIDE/DGS. Solto, criei a minha célula juvenil paralelamente às minhas actividades no seio de militantes do PAIGC que operavam em Bissau. Preso em Maio de 1973, fui condenado a 3 anos de trabalhos forçados. O "25 de Abril" restituiu-me a liberdade. Pude então dar corpo às minhas tendências poéticas e literárias. Participei na primeira Antologia dos poetas da Guiné-Bissau. Chefe do Departamento da Cultura da Juventude Africana Amílcar Cabral (1977-1980), Chefe dos Serviços da Migração (1978-1980), fui preso na sequência do golpe de estado do 14 de Novembro de 1980 na Guiné-Bissau. Apôs 36 meses de isolamento e 6 meses de trabalhos forçados, fui libertado. Com o pretexto de retomar os meus estudos universitários interrompidos, em 1983 abandonei o meu país e emigrei-me para a Suíça. Diplomado no Instituto dos Altos Estudos Especializados de Genebra, professor e Master Europeu em Mediação, trabalho como funcionário e faço parte da lista dos Mediadores
Civis do Estado de Genebra. Sou fundamentalmente Combatente da Liberdade da Pátria.








BOBO KEITA


11 de setembro de 2011

252-Chegada à Guiné

      A planície de água amarelenta estendia-se até onde a neblina deixava ver e o ar quente que dela se desprendeu penetrou-me na pele e nos pulmões. 0s olhos não conseguiam ir mais além nesta paisagem fechada. Um sufoco na voz e um suor pelo corpo todo não me deixaram dizer nada quando alguém perto de mim comentou que era o rio Geba, fora atingido pelo espanto e pelo receio que vinham do incógnito, ricocheteando pela água e pelo nevoeiro. Onde é que eu vim parar!...
      Lera muitos condores, cavaleiros andantes, mundos de aventuras… mas as perspectivas juvenis que tivera de aventura e emoção diluíram-se naquele ambiente mortiço, apenas apossando-se de mim o sentimento da chegada ao inevitável. Fiquei apreensivo com o que estaria para mais além. Ao pé ninguém se riu, ninguém cantou, ninguém agitou os braços de contentamento, o futuro era aquilo para todos, amarelo e nebuloso. Quedei-me com o olhar perdido, tentando adivinhar o concreto ainda invisível, apenas com o vislumbre que me fora dado em Mafra na especialidade de atirador, e que era para vir matar ou para vir ser morto.
      Não mato nem uma mosca nem um mosquito, só os enxoto para não me incomodarem, as abelhas e vespas deixo-as voltear à vontade, esperando que não vejam nada em mim que lhes interesse e sintam que não lhes quero mal, aos gatos e cães só faço festas e atiro comida, até já fui arranhado e mordido mas nunca lhes bati, apenas bato com o pé para ver as lagartixas correrem velozes por entre as ervas, pego no rabo das osgas que vejo nas paredes da minha casa e amando-as pela janela fora. É verdade que atirei um martelo à cabeça do Jaime, o meu amigo cabo-verdiano, porque nos chateámos e ele me chamou um nome que eu não gostei, mas fiquei contente por não lhe ter acertado e continuámos amigos, e também dei um murro num colega cadete que me empurrou quando estávamos numa formatura em Mafra. Mas nunca me passou pela cabeça matar alguém, nem agora. E morrer, morrer foi um desejo quando seminarista amargurado com os recalcamentos da minha natureza e por causa da pressão da instituição que me amarrava, mas depois disso quero é viver a vida que sonhei, não quero já morrer. É mau matar, e morrer também. Que vou fazer?
     A questão do mal menor, evidência da situação imposta, o menos mau quando não há remédio, o dilema de quem não consegue matar uma mosca face aos que vêm do mato a gritar mata, mata, como me disseram? Não tive tempo de cimentar qualquer ideia, porque veio o capitão e disse que chegava uma vedeta que o ia levar a Bissau, para ir ao QG receber ordens, que os alferes podiam ir com ele, mas que tinha de ficar um em troca com o que estava de Oficial de Dia. Ofereci-me.
     “Fico eu, não estou com disposição para andar mais de barco”.
Agora não estava nada para isso, não imaginando, é claro, para o que estava destinado no dia seguinte. A vedeta levou o capitão e os outros alferes, fiquei com todos no “transatlântico” que nos trouxe durante sete dias, um navio cargueiro que largou do cais de Alcântara em direcção à Guiné.
Ao fim de sete longos e incómodos dias e noites tenebrosas em que se viu só mar, sem gaivotas nem terra à vista, o cargueiro chegou à foz do chamado rio Geba. Eram cinco da tarde e já começava a escurecer. Viam-se ao longe já algumas luzes que, foi dito a todos, era a cidade Bissau. Já nos tinham falado que iríamos parar à Guiné, mas isto do rio e da cidade eram nomes novos. Acabava por ser a visão directa do que tinha sido o vago conhecimento quando me mostravam os mapas na escola e me diziam que era o Império Colonial Português, a que começaram a chamar, mais recentemente,  Províncias Ultramarinas. Ali estava a Guiné, uma delas, ficámos todos a saber que tinha uma capital chamada Bissau no estuário do rio Geba. Eram aquelas luzes ao longe.
Fiquei esticado no meu beliche.
Já dormitava quando abriram a porta de rompante, vinham excitados.
“É pá, não sabes o que perdeste. A cidade é pequena e não vale nada, só se vêem pretos e tropa por todo o lado, mas tem uns bares porreiros, há marisco e cerveja ao preço da chuva. Não quiseste vir, agora estás feito, o Braga disse que amanhã logo de manhã vamos numa LDM pelo rio acima até ao nosso destino.”
“Feito já eu estou há muito tempo. Sei lá o que é uma LDM… E, já agora, qual vai ser o nosso destino?.”
“É pá, é uma lancha onde nos vão meter a todos, é uma lancha de desembarque, chamam-lhe menor… quanto ao sítio para onde vamos o capitão disse que é sigiloso.”
“Tá bem, caguei, tanto me faz, deve ser a mesma merda em todo o lado.”
Assim foi. Mas só depois do almoço, pois disseram que só podia ser com a maré a encher, é que a tal LDM encostou à bochecha do barco. Com ordens e reparos das tripulações de cima e de baixo, a escada de portaló foi baixada e presa na lancha, após o que todos fomos descendo, ajoujados de sacos, malas e outras bagagens, os soldados e sargentos para o convés e os oficiais no alto, perto da cabine. Largou pelo rio acima, com águas tão claras como as do mar, nada que se parecesse com as que estavam quando tínhamos chegado. Do lado direito uma ilha verdejante, à esquerda a cidade de Bissau, casas pequenas amareladas, várias embarcações no porto pequeno, montes de pretos a ver passar. Seguiu ronronando os motores.
Parecia um cruzeiro turístico, todos procurando, dum lado e doutro, encontrar pontos altos para ver a paisagem, nós, os alferes, e o capitão víamos melhor porque estávamos lá alto ao pé da cabine. Rio largo, maravilha, lembrava-me das travessias do Tejo debaixo do sol escaldante do verão. Mas não, não havia Cacilhas à vista, nem os guindastes gigantes da Lisnave ou, mais longe, as chaminés fumegantes da CUF no Barreiro. Não ia apanhar a camioneta para a Costa da Caparica nem ia atravessar o Sado para Tróia e ir ter com a Natércia. Que raio de lembrança agora, do meu primeiro amor! Juro que não vou pensar mais nela.
Mas não, eu sou o morto a cavalo de Henri Ghéon.  É melhor não jurar. Mas não tenho a certeza de nada. O homem, todo o homem deveria ser como Norberto: consciente da sua incerteza, condenado a ser um joguete das circunstâncias. Gergório, o chefe, e os que juraram, faltaram a esse juramento, por motivos que eles julgaram justos. E eram justos, humanos, dignos de consideração. Mas faltaram, e pecaram por isso. Ninguém jura falso impunemente. Bem fez Norberto que não jurou. Julgou-se como realmente era, inconstante, sujeito às circunstâncias, teve medo de não cumprir o jurado. Qualquer juramento é forçado. Força-se o homem a jurar aquilo que ele não está seguro de poder fazer. O homem é forçado a cumprir um juramento. Quando o cumpre não pratica uma boa acção. Que esta deve vir do fundo, com gosto. Quem jura vai contra a sua própria natureza inconstante, contra o seu próprio destino. Coloca o homem em situações angustiosas ou, então, faz com que ele falte levianamente. Porque será necessário ao homem jurar, às vezes? Para se enganar a si mesmo, ou, melhor, para calar aquela voz contínua que lhe diz que “todo o homem é mentiroso”, que é incerto o dia de amanhã, que tudo pode acontecer na vida.
Cortaram-me os pensamentos. Gerou-se grande agitação ao pé da cabine. O rio estreitara muito, com densa floresta nas margens, com curvas e contracurvas sempre a aparecerem, o marinheiro agarrado à metralhadora pesada dizia que na próxima curva costumavam ser atacados, provocando grande apreensão nos rostos de todos. O alferes Castro, o ranger, de olhos esbugalhados, gritava:
“Onde estão as nossas armas?”
Mas o capitão dizia:
“Quando chegarmos ao destino é que as temos”.
“Estão a gozar com os periquitos”, rosnava o Zé Pedro, de riso céptico. O Aprígio, o mais novo e sempre calado normalmente, olhava sem dizer nada. Eu, sacado abruptamente dos meus pensamentos, fiquei receoso, enquanto o Braga dizia para a tropa no convés que se baixasse.
“Já começam a foder-nos. Não sei se são eles ou são os nossos. Ou uns e outros…”, deu-me para comentar.
Mas não houve nada, seguíamos por aquele rio que parecia serpentear por entre árvores descomunais, palmeiras e outra vegetação densa e intrincada de nomes ainda desconhecidos. Após uma curva mais apertada vimos ao longe uma clareira à beira rio, parecia uma praia, estava com gente, cheia de camuflados. Chegámos. Alívio de todos. A lancha chegou-se à frente, abriu a porta da proa, o capitão foi o primeiro a saltar para a água baixa, atrás foi a tropa fandanga com os seus haveres, ordenada pelos alferes. Amontoaram-se em terra seca, sacudindo os pés molhados, enquanto o Braga conversava com outro capitão que se encontrava entre aqueles camuflados todos que olhavam risonhos para os recém-chegados. Chegou-se depois o capitão a nós:
“A lancha vai regressar a Bissau, antes que a maré comece a descer. A companhia vai dormir aqui e amanhã seguirá em coluna auto para o seu destino.”
“Então isto ainda não acabou?”, grunhiu o Zé Pedro.
“Está a começar”, e ri-me.
“Uma caminha fazia-me jeito agora”, largou o ranger enquanto se espreguiçava.
“Mas não vai haver camas”, disse o capitão. “O comandante daqui disse-me que as camas estão todas ocupadas pela companhia dele, só arranja uma para mim. Ali mais à frente há um terreno, levem os homens para lá, abanquem por pelotões, ficarão ali durante a noite”.
O Zé Pedro baixou a cabeça, apertou os dedos e exclamou:
“Que foda do caralho.”
O Aprígio disse que merda, baixinho. Eu encolhi os ombros e abri os braços de resignação, o ranger Castro desvairou-se perguntando onde estavam as G3.
    "Já disse que amanhã, só quando chegarmos onde ficaremos definitivamente é que teremos as armas da companhia que vamos render! O capitão daqui garantiu-me que não haverá problemas!"
       "Meu capitão, mas isto assim não pode ser, não é seguro", segredava-lhe o ranger, de olhos esbugalhados.
         "Ó nosso alferes, garantiram-me que estarão em segurança, vamos lá para o sítio onde ficarão esta noite!”
“Já começo a ver quem é que nos está a lixar”, disse eu baixinho.
Já passava muito das cinco horas e o sol já estava longínquo, quase adormecido, acenando rente às matas que estava para se ir deitar. Um céu de laranja suja permitiu-lhes ainda ver que era um terreno com alguns arbustos pequenos e ervas rasteiras em frente do aquartelamento.
“Instalem-se como puderem”, ordenaram os alferes, “amanhã vamos largar cedíssimo.”
O capitão já tinha basado para ir comer com o outro lá do sítio. Passado uns tempos apareceram uns soldados da companhia local com um grande caldeirão de sopa e umas malgas de lata, distribuíram também o conduto: rações de combate. Todos comeram a sopinha e, a seguir, as conservas de feijão com chouriço e de sardinhas, os biscoitos secos e adoçaram a boca com frutas cristalizadas. Vários protestaram com a ementa, mas a maior parte achou que, já que não havia outro remédio para a fome que tinham, tinha de ser. O Zé Pedro refilou:
 “Estamos feitos”, e mandou as latas por abrir para longe. 
 Eu fiz como ele mas com as latas já vazias, aconselhando que era melhor para as formigas não nos chatearem toda a noite. Depois de terem vindo os mesmos a recolher as malgas vazias, o pessoal começou a ajeitar os leitos, uns faziam dos pés martelo-pilão para alisar a terra, outros colhiam erva para fazer travesseiros, procuravam comodidades. Acabaram por se deitar naquilo, que o corpo estava cansado e pedia descanso. Ninguém esteve para conversas. Só o soldado Pauleta é que gritou:
“ Ó Fonseca, não te peides senão ainda foge tudo pensando que é um ataque.”
“Tinha que ser este gajo”, disse eu, “está calado pá e põe-te mas é a dormir.”
O que me valeu é que esta merda para mim já não era tão novidade assim. Dormi várias noites como agora quando fiz parte do pelotão do inimigo durante a semana de campo na serra do Montejunto, no final do COM em Mafra. Só numa noite estive melhor, foi quando a Teresa Tarouca nos deixou dormir num palheiro da sua quinta. Simpática, ah fadista. De resto foi em chãos como este. Mas aquela foi uma guerra gira, esta não ia ser de certeza. Andávamos de camuflado, éramos os únicos, e as populações, quando descíamos às aldeias, recebiam-nos de braços abertos, coitadinhos vão para a guerra, e davam-nos comida e levavam-nos para as adegas. Muito porreiro. Quando havia jogos lá íamos nós à tasca que tinha televisão e lançávamos very-lights quando Portugal ganhava, foi um delírio com aqueles golos do Eusébio à Coreia. Grande bebedeira apanhámos. Até era uma festa para nós. Só aquele palerma do capitão Casimiro é que ia estragando tudo quando nos apanhou um dia a comer numa adega e disse que estávamos presos. Bem protestámos, que à hora de almoço não podia haver guerra, mas ele não quis saber. Houve porrada com os dele, claro, e tiro de bala simulada, e ele, ridículo, a atirar tiros de pistola para o ar e a dizer ao zé-povinho do sítio vejam lá como são valentes os soldados portugueses. Palerma. Também o lixámos. Ainda me dá vontade de rir, na noite seguinte fomos ao acampamento deles e cortámos as espias das tendas. Grande gozo. Não gostei lá muito foi da última noite quando nos cercaram, estávamos nós a dormir nos regos de um campo de milho, deixei lá o sabre quando fugi, e o comandante da Escola Prática deu-me nove dias de detenção. Mas até foi um gajo porreiro, pois disse que não me dava dez senão eu passava a sargento. Por causa do filho da puta do tenente Galveias, que me apanhou no S. Jorge à civil e fez queixa de mim, já me tinha dado dez antes. Nunca gostei daquele sacana, mau para os nossos cadetes.
E os cabrões dos mosquitos que não me largavam, estava farto, eram aos montes. No Montejunto não havia. Que coisa do caraças… não ia poder dormir com certeza.
E assim foi. A noite foi muito agitada. Já não era só o chão duro que não deixava dormir, era a mosquitada que se banqueteava nas peles finas com o sangue fresco que provocava o desconforto daqueles corpos, com palmadas repetidas, virando-se e revirando-se. Mas chegaram as cinco da manhã, o sol também parecia estar a chegar, quando o Braga apareceu a bater palmas e a gritar:
“Toca a levantar que temos de ir embora, ó nossos alferes ponham o pessoal a mexer.”
 Estremunhados, desgrenhados e com as fardas descompostas, foram-se levantando aos poucos, devagar, uns foram mijar longe, alguns cagar, mas outros mijaram mesmo na cama improvisada.
“Vamos lá, toca a andar que as GMC estão ali à espera”, insistia o capitão.

251-Organização militar do PAIGC





Organização  militar

  O PAIGC apresentava, já em 1962, uma organização apreciável, sendo nítida a articulação entre as acções políticas e militares, de modo a concorrerem para a obtenção da independência da Guiné. Nesse ano, o PAIGC elaborou um Plano de Actuação e Organização Militar, em que definia o esquema geral de uma estrutura militar. Este esquema inicial previa dois tipos diferentes de grupos armados de guerrilha: de área (territoriais) e móveis (de intervenção). Estes grupos constituíram a unidade elementar, de cuja associação foram resultando unidades de escalão superior.
   No final de 1962, os grupos já estavam armados com granadas de mão e pistolas-metralhadoras (PPSH).
    Em 1963, a partir das unidades de que já dispunha e da influência de alguns quadros recém-formados na China, o PAIGC decidiu criar o Exército Popular, a Milícia Popular (encarregada da vigilância das áreas libertadas) e reestruturar a guerrilha.
  O Exército Popular (EP) e a Milícia Popular foram formalmente criados em Fevereiro de 1964, em cumprimento das resoluções do I Congresso do PAIGC, bem como a reestruturação da guerrilha. Esta e o Exército Popular passaram a constituir as Forças Armadas Revolucionárias Populares (FARP), enquanto as milícias continuaram a depender dos órgãos político-administrativos. O território foi dividido em três inter-regiões, Norte, Sul e Leste (esta nunca chegou a ser activada), agrupando as 13 regiões existentes do anterior, cada uma das quais dispunha de um comando militar único e estava dividida em zonas e em sectores. Ainda no I Congresso, foi criado na cúpula do partido um conselho de guerra, directamente dirigido pelo secretário-geral que funcionará como verdadeiro estado-maior. Em 1965, os comandos militares únicos inter-regiões passaram a designar-se comandos gerais do Norte e do Sul, em 1966, comandos de frente, assim se mantendo até ao final da guerra. Estes comandos controlavam e coordenavam as acções em toda a área à sua responsabilidade. A Frente Leste, embora criada, nunca foi estruturada.
 Em 1969, o PAIGC evoluiu para nova divisão administrativa e militar, em função do seu avanço político. Foi criada a Comissão Nacional das Regiões Libertadas e, militarmente, o território foi dividido pelo rio Geba nas frentes Norte e Sul, e estas em sectores ou zonas. As unidades do PAIGC estavam agrupadas em três tipos distintos:
- Infantaria: grupos, bigrupos e bigrupos reforçados, predominantemente dotados de armas ligeiras e lança-granadas-foguete (LGF).
- Artilharia: morteiros, canhões, antiaérea e artilharia pesada (morteiros e foguetões).
- Grupos especiais: miras telescópicas, sapadores, lança-granadas-foguete e comandos.
  O bigrupo constituiu a unidade em que assentou a organização para o combate do PAIGC. Unidade de composição flexível, com elevado poder de fogo, estava tão excelentemente adaptada às características da guerra que as forças portuguesas que combateram na Guiné copiaram a sua organização, tendo o general Spínola proposto uma alteração na organização das companhias de caçadores, baseada na estrutura desta unidade.
   Em 1971, o PAIGC procedeu a nova reestruturação das suas Forças Armadas, que passaram a ser designadas Forças Armadas Nacionalistas, nas quais surgiu a Marinha Nacional Popular em paralelo com o Exército Popular, que passou a ser designado por Exército Nacional Popular, e as Forças Armadas Locais, que substituíram e integraram as milícias populares. As Forças Armadas Nacionalistas (FAN) tinham por função conduzir a luta armada em todo o território. O Exército Nacional Popular constituiu a componente terrestre das FAN e a sua base foi o bigrupo, formado por 38 combatentes.
  Três ou quatro bigrupos constituíam um corpo de exército (CE), e dois ou mais CE formavam um exército. Os exércitos e os corpos de exército actuaram nas nove frentes criadas em 1970, e que foram progressivamente activadas.
   A Marinha Nacional era a fracção das FAN preparada para lutar nos mares e rios da Guiné e de Cabo Verde. Era formada por unidades navais e por unidades de fuzileiros, estas organizadas à semelhança dos bigrupos de exército. Em 1971, o PAIGC estava a treinar em Conacri uma equipa de homens-rãs, com a assistência de técnicos russos.
  A terceira componente das FAN eram as Forças Armadas Locais (FAL), que substituíram as milícias e correspondiam à evolução da guerra. A unidade base das FAL era o grupo de 19 homens, armados com pistolas-metralhadoras (PPSH), bazucas (RPG-2) e carabinas (Simonov), forças essas organizadas por zonas e por conjuntos de tabancas.
   Nas zonas libertadas, constituíam as Forças Armadas das Regiões Libertadas (FARL). Era nas FARL que se integravam os destacamentos femininos, cada um constituído por 18 membros e comandado por um homem com experiência militar, tendo como adjunto uma mulher.
  As FAL e as FARL tinham a missão de apoiar os serviços de segurança e de trabalho político; defender as regiões libertadas; guardar as instituições sociais do partido (hospitais, escolas, armazéns, etc.); participar nas acções militares ao lado do Exército Popular e ajudar as populações nos trabalhos agrícolas e de reconstrução. 
   O potencial militar do PAIGC abrangia os aspectos de material e pessoal. Quanto ao material, não diferia do dos restantes movimentos de libertação e será tratado em conjunto. Pode afirmar-se, contudo, que não se registaram durante os anos de guerra dificuldades insuperáveis na sua quantidade, notando-se mesmo crescente volume de material disponível, fruto do constante aumento dos seus apoios externos. No que diz respeito ao pessoal, embora as características da luta de guerrilhas torne difícil precisar os efectivos empenhados e estabelecer estimativa esclarecedora, o comando militar português considerava, em 1971, as seguintes bases:
 Efectivos por unidades:
- bigrupo 38/44
- bigrupo reforçado 70
- grupo de artilharia 50
- grupo de canhões/morteiros 23
- grupo de foguetões/antiaéreos 16
 Efectivos por regiões:
 Inter-Região Norte: 
- Frente São Domingos/Sambuiá 630
- Frente Canchungo/Biambe 760
- Frente Morés/Nhacra 680
- Frente Bafatá/Gabu Norte 730
Inter-Região Sul:
- Frente Bafatá/Gabu Sul 200
- Frente Bafatá/Xitole 160
- Frente Buba/Quitafine 1230
- Frente do Quinara 560
- Frente de Catió 370
  Além destes efectivos, que totalizavam cerca de 5500 elementos para o Exército Popular, há que acrescentar cerca de 2000 milícias, 900 a 1000 em cada inter-região. O PAIGC, atendendo à taxa de natalidade e mortalidade existente, podia aumentar os seus efectivos em cerca de 5000 combatentes, valendo-se somente das populações controladas
   Na sua actividade militar, o PAIGC realizou, de 1969 a 1972, a média mensal de 70 acções da sua iniciativa, causando às forças portuguesas uma média superior a nove mortos e 71 feridos.
   Mas só durante Maio de 1973 as forças portuguesas na Guiné sofreram 63 mortos, 269 feridos e um prisioneiro, tendo o PAIGC realizado 166 ataques a posições militares portuguesas, 36 emboscadas, 12 ataques contra aeronaves, um contra embarcações e implantado 105 minas, das quais 66 foram accionadas por militares portugueses, o que dá ideia do agravamento da situação na Guiné em 1973.
   O dia 25 de Março de 1973, em que o PAIGC abateu um avião Fiat G-91 com um míssil terra-ar, que no relatório português foi designado por «arma desconhecida, tipo foguete» e só mais tarde identificado como Strella, representou o fim da supremacia aérea das forças portuguesas na Guiné. Mas não foi acção isolada nem fortuita, já que, só na semana de 25 de Março a 1 de Junho, o PAIGC realizou as seguintes acções antiaéreas: - Um Fiat G-91 foi abatido em 25 de Março sobre Guileje, tendo-se o piloto ejectado e sendo posteriormente recuperado;
- Dois aviões T-6 foram flagelados junto à fronteira da Guiné-Conacri, na zona de Guileje;
- Um helicóptero AL III foi flagelado com tiros de metralhadora;
 - Um Fiat G-91 foi atingido em 28 de Março, com «arma desconhecida, tipo foguete», em Medina do Boé, tendo explodido e morrido o piloto - o tenente-coronel piloto-aviador Brito, o primeiro a ser abatido por míssil Strella aos comandos de um avião de reacção. A outra aeronave que com ele fazia parelha foi também flagelada com a mesma «arma desconhecida», mas conseguiu escapar.       Na semana seguinte, de 1 a 8 de Abril, continuaram as acções antiaéreas do PAIGC:
- Um DO-27 flagelado com lança-foguetes RPG;
- Um helicóptero AL III flagelado com tiros de armas ligeiras em Guileje;
- Um T-6 abatido por arma desconhecida na região de Binta/Guidage, tendo-se despenhado e o piloto morrido; - Um DO-27 abatido em Binta/Guidage, tendo morrido o piloto e o passageiro, um major do Exército;
- Um DO-27 flagelado em Talicó, sem consequências.
  A guerra, a partir de então, passou a ser diferente. Numa reunião de comandos militares realizada em Bissau, em 15 de Maio, o general Spínola referiu-se à situação nestes termos:
  «Encontramo-nos, indiscutivelmente, na entrada de um novo patamar da guerra, o que necessariamente impõe o reequacionamento do trinómio missão-inimigo-meios ( ... ) em reuniões preparatórias ressaltou nítida a conclusão da precariedade dos meios actuais para enfrentar a situação, que considero crítica pelas perspectivas da evolução que se desenha ... »
Fonte: http://www.guerracolonial.org/