CONSULTAS

Para consultas, além da "Caixa de pesquisa" em cima à esquerda podem procurar em "Etiquetas", em baixo do lado direito, ou ver em PÁGINAS, mais abaixo ainda do lado direito, o "Mapa do Blogue"

Este blogue pode ser visto também em

3 de outubro de 2011

270-Alterações forçadas à escrita e nomes da Guiné

Chamaram Nova Lamego a Gabú, que já era Gabú, chamaram Teixeira Pinto a Canchungo, que já era Canchungo, e, agora, Aldeia Formosa a Quebo. E raio do acordo ortográfico pai também fez das suas naquela altura... Mas gostava que alguém me dissesse se viu o tal centro comercial...
«...

Mudança do nome da povoação de Quebo e criação de um centro comercial
O «Boletim Oficial» n.º 39. de 27 de Setembro, insere a Portaria nº 100, segundo a qual :
Convindo dar execução ao que foi decidido na última Conferência dos Admi­nistradores no que respeita à criação de um centro comercial na região de Contabane da Circunscrição Civil de Fulacunda, agora bastante valorizada pela construção da passagem submersível do Saltinho;
Considerando que igualmente foi decidido que o novo centro comercial se localisasse na povoação de Quebo, que passaria a denominar-se «Aldeia Formosa», tendo em vista a Portaria n." 10, de 11 de Fevereiro dc 1946;
O Encarregado do Governo da Colónia da Guiné, etc., determina:
1.º Que a povoação de Quebo da circunscrição civil de Fulacunda passe a denominar-se Aldeia Formosa;
2.º Que seja criado nessa povoação um centro comercial.
«...
Normas de escrita dos nomes geográficos
Mais uma importante medida promulgada pelo Governo da Colónia em defesa da nossa língua, por vezes tão maltratada na Guiné. Ela deve associar-se à Portaria n.º 10, de 1946, do aportuguesamento dos nomes e às imposições de nomes portu­gueses a várias povoações, conforme temos aqui noticiado.
Transcrevemos na Íntegra o texto da Portaria n.º 71de 7 de Julho.
«A poucos terão passado despercebidas as dúvidas, para não dizer as confusões, que a cada passo surgem com a grafia dos nomes geográficos da Guiné.
Na verdade, seria preciso ser deveras cuidadoso para escrever com acerto pala­nas cuja pronúncia nem sempre é fácil de aprender e por vezes difere, até entre os grupos étnicos que povoam a mesma região, para não falar dos outros.
Mas além desta dificuldade, que seria de considerar e admitir, surge-nos, porém, o mais estranho desprezo por parte das pessoas responsáveis - que não serão só as autoridades, mas todos os civilizados - pela escrita e pela pureza das palavras, detur­pando-as sem rebuço, não só na pronúncia como na ortografia. Esta é por vezes inconcebível, e só uma ignorância lamentá vel da nossa língua - e, evidentemente, de qualquer outra - pode explicar,
Aliam-se estes casos tristes ao pouco interesse que tem havido pela expansão da lingua portuguesa e até por vezes ao gosto lamentável de adulterar as nossas palavras e os nossos hábitos, confundindo-os, rebaixando-os, com os elementos que, pelo contrário, seria necessário elevar.
Também aqui se verificam as tradicionais deformações provenientes da leitura de cartas hidrográficas feitas por estrangeiros, que escreveram na sua língua os nomes que ouvir-nu e que agora nós lemos com sons diferentes; por exemplo, a ilha de «Jeta», escrita pelos ingleses como «Jata» e depois assim copiada por nós. Outras confusões resultariam ainda de má impressão das cartas, tais como: ilha das Areias, ou Areas, hoje conhecida por Arcas; ilha do Mel, em vez de Meio; Corbelha, por Caravela.
Certos casos de adulteração de nomes dificilmente terão remédio; Bafatá, Gabú e tantos mais ficai ão talvez a balizar uma estrada de ignorância e mau gosto. Haverá, no entanto, possibilidade de deter a onda infecta, antepondo-lhe uma norma, não diremos perfeita, evidentemente, mas, pelo menos, estudada e meditada, sob a dupla égide da razão e do interesse nacional.
Dois aspectos vamos fixar, primeiro, registando os nomes tais como a história ou 0<; povoo; aborígenes os conservaram, ou pela escrita ou pela pronúncia. Segundo, dando-lhes agora urna ortografia que não pode ser outra senão a oficial, a do Acordo Ortográfico Luso-Brasileiro, de 10 de Agosto de 1945, aprovado pelo Decreto n.º 35228, de 8 de Dezembro do mesmo ano. Nós não temos tch, nem y, nem k, nem outras fantasias cujo emprego denuncia por vezes uma pretensa cama­dinha de verniz sobre uma incultura espessa.
Nem sempre será fácil adaptar sons complexos à nossa grafia, mas nada se perderá em os aproximar ele/a tanto quanto possível.
Ficará para mais tarde, ou para melhores mãos fazer a obra de depuração que se impõe: substituir definitivamente por nomes portugueses os nomes estranhos que povos que vieram muito depois de nós souberam impor, na presença dos Portugueses, revelando assim qualidades que parecem não terem interessado a muitos coevos com­patriotas nossos e faltam com certeza aos que hoje ainda se embasbacam e fazem gala em adoptar, e até cm descobrir, tão exótica toponímia.
Por agora, começaremos pela publicação de algumas normas e de uma primeira relação de nomes, a que outras, certamente, se seguirão, logo que haja possibilidade de recolher mais numeroso. e mais seguros elementos.
Nestas condições, o Governador da Colónia da Guiné, no uso das faculdades que lhe são atribuídas pelo artigo 31.º do Acto Colonial e pelo nº 19.º do artigo 33: da Carta Orgânica do Império Colonial Português, determina:
Artigo Lº Que na escrita dos nomes geográficos indígenas sejam observadas as normas que fazem parte integrante desta portaria.
Art. 2.º Que seja observada oficialmente a ortografia que consta da primeira relação de nomes geográficos que faz parte integrante desta portaria, devendo para esse efeito uma separata estar sempre patente para consulta em todas as secretarias dos serviços públicos, incluindo os postos e delegações isolados.
Art. 3.º Que sejam desde já alterados todos os impressos, selos e registos e se proceda a todas as diligências para fazer vigorar a ortografia indicada.
Cumpra-se.
Residência do Governo da Colónia da Guiné, em Bissau, 7 de Julho de 1948. - O Governador, M. M. Sarmento Rodrigues, capitão-de-fragata.

Normas gerais para observar na escrita dos nomes geográficos da Guiné Portuguesa
I. São banidas todas as formas dj, sendo substituídas por j (Jabicuuda, Guileje).
2. A terminação am é banida, sendo substituída por:
a) ã ou ão - sempre que se trate de som nasal ou que dele também se apro­xime (Bissorã, Biribão};
b) ame ou a sempre que não se trate de som nasal (Darsalame, Binta),
3. As terminações am/ podem ser substituídas, em casos especiais, por ão (Copelão) .
4. A terminação on deverá ser sempre substituída: por ão (Bissilão), por om (Ocom) ou por one (Cantone),
5. A terminação li é substituída por le ou l sempre que se trate de palavra com acento tónico na vogal que antecede o I (Xitole, Mansal), mas é mantida sem­pre que a palavra seja aguda (Jagali).
6. A; terminações, bi, li, qui, di e ti são substituídas por be, ne, que, de e te, mudos, sempre que se trate de palavras graves (Dulombe, Mansomine. Quique, Sare Bode, Caansate), mas são mantidas sempre que as palavras sejam agudas.
7. O som tch ou tx será grafado com ch (Piche, Cholufe). O som x, tal como cm xarope, será representado por x (Pecixe, Xime),
8. O h, quando aspirado, deve ser mantido (Home).
9. Quando se trate de palavras não agudas, mas terminadas em a ou e francamente abertos, devem essas vogais escrever-se com acento grave, a fim de não alterarem a acentuação túnica (Uelíngarà, Quitáfinê ), devendo contudo suportar-se a escrita correspondente à pronúncia, embora errada, consagrada pelo uso de palavras tais como Bafatá (os fulas dizem Báfata).
10. O u mudo não tónico final deve sempre substituir-se por o. Tolerar-se-à o uso inveterado de Gabú, que devia ser Cabo.
11. O topónimo mandinga cunda constitui sempre sufixo ligado à raiz (Bajo­cunda).
12. Os topónimos e serão escritos separadamente sempre que as palavras que precederem sejam de origem portuguesa ou comecem por vogal (Gã Grande, Gã Júlio, Cã Ieorofim); em todos os outros casos os topónirnos e serão consi­derados prefixos e ligados aos nomes respectivos, com as formas gã, cã, gam, cam, gan e can, conforme as regras da ortografia portuguesa (Ganhala, Camamadu, Gam­pite, Cambasse, Candemba, Canchicamo),
13. Sinchã é a forma correcta de escrever o topónino fula que designa povoa­ção nova, constituindo sempre uma só palavra.
14. Sare é a forma correcta de escrever o topónimo fula que nomeie povoação não recente, constituindo sempre uma só palavra.
Esta portaria e normas são acompanhadas de uma extensa e laboriosa «Pri­meira relação de nomes geográficos da Guiné Portuguesa», escrito, segundo a orto­grafia oficial, contendo cerca de 2.800 nomes de povoações, fontes, ilhas, pontas, rios, regulados, cidades, canais, bolanhas, pontes, reinos, lugares, postos, bancos, terri­tórios, portos, lagoas, circunscrições, rápidos, ilhéus e esteiros, baixos, rias, cabos, cachoeiras, colinas, vilas e matas.
É de esperar que termine assim a anarquia da escrita dos nomes geográficos da Guiné, não só por parte dos serviços públicos como ainda entre os particulare­s, os quais sem dúvida hão-de compreender o alcance de tão patriótica medida.»

2 de outubro de 2011

269-A guerra de Geba II

Em "A guerra de Geba I" (aqui) há uma descrição genérica, com datas e alguns factos, sobre a guerra feita pelas forças portuguesas do presídio de Geba contra as rebeliões nas zonas de Bafatá e do Gabú. Como diz aqui Avelino Teixeira da Mota, era o local mais avançado das forças colonizadoras no último quartel do século XIX. E ele apresenta aqui o relatório do homem que comandou aí as operações contra a não aceitação do domínio português: o capitão Sousa Lage.

(Clicar em X, em baixo à direita, para ver em ponto grande)


29 de setembro de 2011

266-Alguns aspectos de uma "Crónica da Colónia", 1947

Os colonialistas, afinal, davam-se bem


«Visita oficiaI de Sua Excelência o Governador da Gâmbia
No dia 9 de Fevereiro, às 9 horas, chegou a Bissau Sua Excelência o Governa­dor da Gámbia, Sir Andrew Wright, que foi acompanhado desde a fronteira de S. Domingos por Sua Excelência o Governador Sarmento Rodrigues. 
(...)

O bicho perguntou-lhe: Do you speak kiriol?...

«Cerimónia da condecoração do Oovernador Sarmento Rodrigues

Realizou-se no dia 21 de Fevereiro às 10,30 horas na Fortaleza de S. José de Bissau a cerimónia da imposição das insígnias da comenda da 'Legião de Honra a Sua Excelência o Governador Sarmento Rodrigues, a quem recentemente foi confe­rida tal distinção pelo Governo da República Francesa.
Damos a seguir o relato extraído do Boletim de Notícias «Arauto>:
«Um pouco antes daquela hora chegaram à Fortaleza Sua Excelência o Gover­nador Sarmento Rodrigues acompanhado de Sua Excelência o Almirante Sol, Madame Sol, ajudante de campo 1.. Tenente Cloteau, Madame Mounot, esposa do Chefe do Estado Maior do Comando em Chefe das Forças Navais da Africa Ocidental Fran­cesa, Rcnée Lalouette, conselheiro diplomático junto do Governo da A. O. F. - os quais constituindo a missão especialmente enviada para a cerimónia, na véspera tinham vindo para Bissau a bordo dum hidroavião da base de Bel-Air, Dacar- 1.° Tenente Peixoto Correia, Chefe de Gabinete e 2.° Tenente Teixeira da Mota, oficial às ordens do Almirante.
(...)
Este padre sem chapéu colonial ainda vai apanhar uma insolação... As madames também vieram, à conta, claro.

Não há problemas, madames. Hoje não há ataque nenhum.



As preocupações com os parques infantis


Será que o pretinho está a ser repreendido por não deixar entrar as meninas brancas?...
...Ah, afinal elas podiam estar no parque da Amura, residência oficial do Governador!
Fonte:

265-Esboços de localidades em 1947

Esboços de algumas localidades feitos em 1947. Era para ficar assim... Quem por elas passou veja se identifica alguma coisa.


 

Ver outros esboços aqui

26 de setembro de 2011

264-Ataque a Cumbamori

Do livro "De Campo em Campo, Conversas com o Comandante Bobo Keita", de Norberto Tavares de Carvalho: 
(Não é, obviamente, a operação Ametista Real. Terá sido uma das operações do COP3. Agradeço que quem a consiga identificar me dê essa indicação para aqui a referenciar) Grato ao Francisco Teixeira, que "ouviu" este meu apelo e fez um comentário que eu coloco aqui, porque me parece importante para mais esclarecimento:  "O ataque a Cumbamori a que se refere, aconteceu em 11 de Dezembro de 1967. Tivemos, de facto, 4 mortos que tivemos de abandonar no terreno porque sofremos onze feridos, dois em estado grave que tiveram de ser transportados em macas ao longo de cerca de 20 kms, distância até Guidage donde partíramos. O assalto foi feito pelos Roncos de Farim e pelo meu pelotão. O In teve bastantes mortos - a surpresa do ataque foi total - e quando tentou cercar-nos com um grupo de cerca de 12 elementos, na retirada, sofreram uma emboscada de dois pelotões da CCaç.1546 a que eu também pertencia, sofrendo pelo menos 3 mortos que ficaram no terreno.. Francisco Teixeira-Alf. Miliciano 031233/64. Nome da operação: Chibata"
Há um comentário )de quem? Gostava de saber...) que também acho pôr aqui: umAnónimoMar 14, 2012 07:00 PM
"O ataque ao campo fortificado de Cumbamori foi, de facto a 11 de Dezembro de 1967. Iniciou-se às por volta das 5 horas da madrugada mas a surpresa do mesmo não existiu. Dias antes, aquele local foi sobrevoado várias vezes por um avião de reconhecimento da FAP. As forças do PAIGC estavam avisadas e preparadas para uma eminente intervenção do Exército Português. Foram Os Roncos de Farim,comandados pelo Alf. Mil. Morais Sarmento, que procederam ao assalto, depois de conduzidos ao local por uma mulher prisioneira. Apoiados por um poletão de uma Unidade que não recordo, instalado a cerca de 3 km a norte de Cumbamori (que teve contacto com as forças inimigas) e da Companhia que estava instalada em Binta que fez cordão de detenção a sul, já no território da ex-colónia. Nenhuma desta forças tomou contacto com os Roncos que iniciaram a retirada por volta das 10,30h. Sem qualquer apoio de outras forças, nomeadamente da FAP, completamente abandonados à sua sorte, Os Roncos tiveram de abandonar 4 mortos no teatro de operações e de transportar 15 feridos e 2 prisioneiros ao longo de vários quilómetros,em território senegalês, até Guidage. Notícias posteriores confirmaram um número elevado de baixas causadas ao inimigo. Operação mal planeada por gente sedenta de medalhas e outras honrarias, foi mais uma página sangrenta da Guerra Colonial na Guiné e uma dor profunda e eterna para os familiares daqueles que nela pereceram."

«Capítulo 1. A batalha de Cumbanghor (ou Cumbamori)

Esses dirigentes combinaram encontrar-se connosco em Cumbaghnor para discutirem uma melhor organização das operações. Foi no dia em que a minha primeira filha N'Bália, a quem pus o nome da minha falecida mãe, completou sete dias depois do seu nascimento. Naquela tarde muita gente estava ali presente para a formação dos camaradas. Com o reforço das novas armas, planeava-se a reestruturação da forma dos ataques aos barcos portugueses com as armas que acabavam de chegar. A ideia era, depois de redefinidos os critérios normativos e as estratégias das acções, concentrar uma equipa no rio Farim e dar luta cerrada aos barcos portugueses. Nessa altura eu é que comandava a Frente Norte e a Unidade designada para essa operação era comandada pelo Irénio Nascimento Lopes.
Não sei como é que os Tugas souberam daquela concentração - tinham de certeza informadores bem situados. Só que, por acaso, não sabiam o número de homens que se tinha reunido no local. Estavam ali concentrados mais de duzentos combatentes. Outros até dormiam nas barracas perto da fronteira. Os Tugas foram guiados por alguém que conhecia muito bem a zona. Porque em vez de nos atacarem vindos da Guiné Portuguesa, deram a volta e foram concentrar-se na fronteira do Senegal. Daí marcharam para Dentro. Os camaradas não os viram chegar pois nunca desconfiavam que os Tugas poderiam atacar do extremo norte para Dentro.
Avançaram e, muito engenhosamente, conseguiram desarmar e apanhar alguns dos nossos. Envolveram-nos literalmente numa cortina de camuflados. Houve então um momento de confusão onde se ouviram gritos de «Tugas! Tugas!». Capturaram-nos logo, mais de dez homens. Um deles conseguiu libertar-se e fugiu-lhes das mãos. Aí os Tugas começaram a disparar. «Mas o que é que se passa?» - ouviam-se vozes dos camaradas. Já era de madrugada, por volta das seis da manhã. Depois de passado o efeito dos primeiros minutos e de termos dominado o pânico, começámos então a organizar-nos para replicar contra o ataque. Para complicar ainda mais a situação já caótica, de longe começou a sobrevoar uma avioneta e pensámos logo que a PIDE/DGS também fazia parte do assalto porque era o estilo deles. A manobra era típica e estávamos habituados a associar o ruído longínquo das avionetas às acções da PIDE/DGS. Mas acabámos por nos convencer de que os disparos vinham da pradaria e não dos ares. Os Tugas estavam no chão! Os tiros prosseguiram, havia camaradas capturados que depois conseguiram escapar-se, outros não. Avançámos então ao encontro dos portugueses.
Houve fogo concentrado e depois de intenso tiroteio dum lado e doutro, os Tugas resolveram bater em retirada deixando no chão cerca de quatro cadáveres em cima de um dos depósitos onde guardávamos as armas. Os camaradas que conseguiram escapar julga­ram que indo para a fronteira do Senegal estariam ao abrigo, só que tiveram de novo o azar de se cruzarem com os Tugas que batiam em retirada. Foram apanhados entre dois fogos. Perseguimos os Tugas que nos lançavam bazookadas enquanto se retiravam. O Julião Lopes apanhou um estilhaço perto do olho, o Queba Mané correu para a fronteira onde apanhou um tiro e morreu. Foi a única baixa mortal que tivemos nesse dia, o resto eram feridos, mas em número relativamente importante.
Enterrámos o Queba aí mesmo. Na mesma tarde, os Tugas bombardearam intensivamente a zona com canhões de longo alcance. Obuses que pareciam chover do céu. Preocupava-me com o evoluir da situação pensando na M'Bália, que, no colo da sua mãe, estava longe de imaginar em que mundo se encontrava. As duas não se mexeram da base até a calma ter voltado.
Aquela batalha foi terrível, foi mesmo um grande momento da nossa luta de libertação. Tivemos sorte naqueles dias porque estavam ali mais de duzentos homens. Nós estávamos habituados a movimentar­-nos em pequenos grupos, por isso éramos guerrilha. Combater num comando com mais de duzentos homens necessitava de uma outra estratégia. Mas, enfim, conseguimos puxar os Tugas para fora da frente em que nos encontrávamos. Os comandantes presentes no local fizeram valer as suas técnicas de organização nos combates e cada um pegou num grupo de homens e avançou contra o inimigo.
Resolvemos, então, intensificar a formação dos camaradas.
Trabalhámos todo o resto do dia e formámos novos grupos que logo de madrugada foram instalar-se no rio Farim.


FARP, exercício de treino militar
Foto: Arquivo Amílcar Cabral/Fundação Mário Soares

As coisas eram assim mesmo: ataque inimigo, contra-ataque da nossa parte e vice-versa. A Iuta não foi fáciI...
Como dissera, a frente estendia-se de Varela a Djumbembem. Estávamos aí olho por olho dente por dente com as guarnições do exército colonial que disputavam connosco a primazia daquela frente. Compreendemos que aquele que tomasse a iniciativa em primeiro lugar recolhia vantagens sobre o outro. Foi assim que, pouco depois da batalha de Cumbaghnor/Cumbamori, preparámos uma operação de represália contra eles. O quartel de Ingoré era o nosso objectivo.
Antes de partir para essa operação, apareceu-me o camarada Joaquim Furtado, Nini, que se dirigia para Ziguinchor. Em Samine informaram-no de que eu me encontrava nas matas à espera da hora de atacar o quartel de Ingoré. Foi ter comigo no comando da operação e embora vendo que estava ocupado insistiu em falar comigo. Disse-lhe para me esperar na base pois ia realizar uma operação e que logo que regressasse poderíamos então conversar. O Joaquim Furtado não quis ficar, disse que ia connosco. Eu disse-lhe que ficasse, que aquilo não iria demorar muito. Queria ir comigo e insistiu tanto que tive que o aceitar no grupo. À hora marcada começámos então o assalto ao quartel de Ingoré. À ordem de atirar, abrimos fogo intenso. Depois do efeito surpresa, os Tugas reagiram também com fogo cerrado.
Mantivemos o ataque durante um bom momento e depois resol­vemos bater em retirada, pois o objectivo da operação, que era simplesmente de flagelar a posição inimiga, fora atingido. O quartel estava a arder. O ataque tinha também a finalidade de nos anteciparmos à organização de um vasto assalto que o inimigo pretendia fazer, segundo informações que tínhamos, a partir desse quartel, contra as nossas bases.
No movimento do recuo organizado, o Joaquim Furtado apanhou um estilhaço de morteiro na coluna. Levámo-lo logo ao ponto de concentração, onde estava um médico que lhe deu os primeiros socorros.
Já de madrugada metemo-lo numa ambulância para Ziguinchor, onde foi internado, tendo sido mais tarde evacuado para Dakar.
O Hospital de Ziguinchor recebia todos os doentes e feridos da Frente Norte e do Chão Manjaco. Os que precisavam de tratamentos mais especializados eram evacuados para Dakar. Os que deviam seguir para a Europa, dado o estado grave dos ferimentos, eram enviados para os países que nos apoaivam, ou seja, os países do Leste Europeu. Foi o meu caso, mais tarde, quando fui ferido em combate ...
E foi nesse ataque ao quartel de Ingoré que o Joaquim Furtado, Nini, cuja participação nem estava prevista, ficou para sempre paralisado. Depois de ter recebido o tratamento, conseguia deslocar-se mas com extrema dificuldade. Não posso dizer que foi teimosia da sua parte, mas se me tivesse escutado ...
Eu disse-lhe antes do ataque: "Olha, nós já fizemos o reconhecimento e conhecemos todos os detalhes do percurso, da ordem em que vamos atacar e do momento da retirada. Tu não és da zona e não conheces este terreno, fica aqui e aguarda o meu regresso." Mas ele insistiu ... Quando apanhou o estilhaço do morteiro, caí logo em cima dele e gritei-lhe para não se levantar. Fiquei aí com ele porque o tiroteio dos Tugas intensificara-se enquanto nos retirávamos. Só quando as balas diminuíram de intensidade é que o consegui carregar e avançar com ele às costas para uma zona segura. É preciso saber que, no momento da retirada de um ataque, costumo ordenar a retirada primeiro das forças do flanco esquerdo, depois as do lado direito e finalmente as do meio. O Joaquim Furtado, que se encontrava no flanco central, quando se levantou para se retirar, recebeu o projéctil na coluna e isso imobilizou-o imediatamente. Ficou paralisado.
A luta na fronteira era difícil. Porque, às vezes, os portugue­ses atravessavam todo o Norte e iam fechar a estrada que ligava Sa­mine a Kolda. Uma vez chegaram mesmo a atacar uma tabanca senega­lesa e daí levaram porcos, vacas, carneiros. Levaram tudo para os seus quartéis em Bigene. Nós fomos interceptá-los já perto de Bigene. Andavam confiados, seguros de que já não havia perigo ne­nhum. Surpreendêmo-Ios e conseguimos recuperar todo o gado rou­bado às populações da zona fronteiriça de léram, Cumbaghnor/Cum­bamori, etc.

NB - Da CART1690 houve 15 elementos que foram evacuados para o HMP de Lisboa por motivo de doença. Dois exemplos de uma das razões disso: o destacamento de Banjara esteve, em certa altura, com dois meses sem abastecimentos, devendo os seus ocupantes desenrascarem-se comendo macacos e cobras; quanto à água, porque só havia fora do arame farpado, estabeleceu-se tacitamente uma escala: num dia iam os do PAIGC da zona e noutro dia iam os nossos buscá­-Ia [ver "Um dia em Banjara"]; em Barro, quando as barcaças demoravam muito tempo a trazer-nos os abastecimentos pelo Cacheu, tínhamos de ir "caçar" as vacas que o PAIGC tentava levar do Senegal para o Oio - era uma forma de poder comer de jeito.

A. Marques Lopes, ex-Alf.Mil.At./nf., CART 1690/CCAÇ 3, actualmente Cor. DFA reformado. www.tabancapequenadematosinhos.blogspot.com 29.03.2009.

Tínhamos uma unidade que controlava Guidage e Binta. A base de Sambuiá controlava Bigene e Ingoré, e a base de S. Domingos controlava S. Domingos, Apidjo e Suzana. Não dávamos muita importância a Varela porque ali não havia tropa portuguesa.»

25 de setembro de 2011

263-Ataque da aviação à "base do Gazela", em Sinchã Jobel

Do livro "De Campo em Campo, Conversas com o Comandante Bobo Keita", de Norberto Tavares de Carvalho: 

Capítulo 2. A base do 'Gazela' é flagelada por bombardeiros do exército português

Fiquei ali até 1969. Ainda em 1968 fomos fazer uma operação na zona de Cantacunda. Naquela operação fui juntamente com o Braima Bangura(18), comandante de destacamento. Apanhámos naquele dia onze Tugas. Foram todos evacuados para Conacri. [ Foi o ataque feito ao destacamento de Cantacunda da CART1690, na noite de 10/11 de Abril de 1968. Ver aqui ] Da segunda vez que fomos à mesma zona, apanhei um tiro, um estilhaço de morteiro, aqui debaixo do ventre, que saiu pelas nádegas, mas mesmo assim conse­gui andar nove quilómetros a pé, a perder sangue, naquela noite. Não podia dizer aos camaradas que tinha sido ferido para não os desanimar.
Aconteceu quando o camarada que estava à minha frente com uma bazooka nos ombros, caiu numa mina e eu fui atingido pe los estilhaços da mina. O camarada perdeu um pé e aquilo doía­-lhe muito. Pediu-me que lhe desse um tiro para poupar o seu sofri­mento.
Eu estava armado com a minha faca militar. Disse-lhe que não, que ele não podia morrer ali. Peguei no meu punhal cortei-lhe o pé ferido que enterrei na mata. Cortei a palha duma bananeira, lavei-a com a água do cantil e com uma ligadura improvisada bandei-Ihe o pé. Fiz-lhe dois torniquettes na perna para parar a hemorragia. Pusemo­-lo numa maca e levámo-lo para lugar seguro. Foi aí que um camarada percebeu que eu também sangrava. Fez-me ver que havia sangue no meu camuflado. Eu disse-lhe que era sangue do camarada ferido e que eu não tinha sofrido nada.
Só quando chegámos à base, e depois do médico ter dado os primeiros socorros ao camarada ferido, é que resolvi ir ter com ele. Disse-lhe então que estava ferido. Despi as calças e mostrei-lhe o lugar do impacto do estilhaço. O médico não acreditou. Era um cubano. Depois de me observar concluíu que eu tinha apanhado um tiro na bexiga. Eu disse-lhe que queria ter a certeza de que era de facto isso que me tinha acontecido, pois a dor que eu sentia não indicava um ferimento assim tão grave. Aquilo aconteceu no dia 9 de Junho de 1968. Foi a segunda vez que os Tugas acertaram em mim.
Fui fazer chichi e não senti nenhuma dor ou qualquer outra reacção que me impedisse de deslocar. O cubano fez-me um tratamento local e fiquei mais calmo. Afinal não era assim tão grave, disse para com os meus botões...
Naquela manhã preparámo-nos para evacuar todos os feridos para a fronteira através do rio Farim. O Gazela e o Hilário esta­vam no lado do N'Djobel (Sinchã Jobel) Fui até lá para os avisar de que deviam abandonar o local sobretudo porque, a meu ver, não tinham tomado as devidas precauções. Para se desloca­rem abriam caminhos como se fossem estradas para carros. Ven­do aquilo, pensei logo que poderia haver perigo em caso de ataque do inimigo.
Mais a mais que, o batedor, que fazia o reconhecimento do grupo, regressava sempre e dizia que tudo estava normal. Reuni-me com eles e disse-lhes que deviam abandonar o local. O Gazela, que era um dos chefes militares presentes na região, tentou convencer-me de que não havia perigo nenhum naquela zona. Por volta das quatro horas da manhã, depois de ver que não conseguia convencê-los, saí com os meus homens e arrancámos.
A meio caminho andado, perto de Inchalé, ouvimos o ruído de aviões. Eram aviões de caça, bombardeiros. Disse aos meus homens: «Dirigem-se para a base do Gazela!» Dito e feito, os jactos atravessaram os ares e as bombas caíram sobre os nossos camaradas. A primeira vítima foi o Comissário político, o Hilário.
O Hilário morreu logo aí. Enviei quatro camaradas para irem ver o que tinha acontecido na base. De regresso, disseram-me que tinha sido um ataque relâmpago dos portugueses, que haviam bombardeado a zona com aviões fazendo mortos e feridos. Resolvi mandar buscá-los para que se juntassem a nós, que também contávamos feridos que deviam seguir para a fronteira...


[ Quando estive em Sinchã Jobel em 2006 - conto aqui essa visita - , vi isto


...e isto]

Fizemos uma só caravana, os que tinham sofrido os bombardeamentos e nós. Eu tinha uma bengala na mão e deslocava-me com cuidado, visto a minha ferida. Chegámos ao rio Farim, verificámos se não havia nenhum barco nas redondezas. Às vezes os barcos portugueses rebocavam botes e as tropas que iam nos botes escondiam-se debaixo da sombra dos tarrafes e os barcos afastavam-se. Se não se prestar atenção, mal se apercebe de um movimento de homens e os Tugas escondidos nos tarrafes, saem do escondirijo e começam a fazer fogo sobre a malta.
(18) O Braima Bangura foi executado após a independência, acusado da suposta tentativa de golpe de estado alegadamente dirigida pelo Coronel Paulo Correia, conhecido como "O caso 1 7 de Outubro".

24 de setembro de 2011

262-De Campo em Campo-Conversas com o comandante Bobo Keita

Foi hoje no Porto, na UNICEPE, Cooperativa Livreira de Estudantes, o lançamento do livro de Norberto Tavares de Carvalho:

O jornalista Jorge Ribeiro apresentando o livro

O Norberto contando sobre Bobo Keita











Assistência... e simpatia.
-o-

Muitos ex-combatentes portugueses da guerra colonial na Guiné têm retratado por escrito as suas vivências, a maior parte com visão pessoalista do que lá passaram, mas vários com a noção de enquadramento dessa experiência ingrata no contexto da vida e do regime vivido, então, em Portugal, e alguns até com notável cunho literário. Há muitos livros. Também no ciberespaço se encontram muitos blogues individuais com relatos de situações, transcrição de histórias das companhias, blogues colectivos com relatos, opiniões, interpretações. Todos com montes de fotografias. Há quem diga que é a catarse das angústias e perplexidades que marcaram uma juventude, mas eu vejo mais que é, como disse Rui de Azevedo Teixeira, "tempo de maturidade e apaziguamento".
O certo é que, com horizontes mais restritos ou mais amplos, é a história contada pelos seus intervenientes. E a iniciativa do Norberto Ta­vares de Carvalho, e a aceitação dela por parte do Bobo Keita, abre um caminho muito pouco percorrido "pelo outro lado": serem os combatentes do PAIGC a contarem também o que fizeram, o que viram, o que viveram durante a guerra, darem-nos a sua visão dos factos e situações. Luís Cabral escreveu, Pedro Pires também, mas foram dirigentes de topo com visão mais ampla, têm mérito como factores e descritores da história sem dúvida. Mas o guerrilheiro e comandante no terreno Bobo Keita, habitante das matas e bases de guerrilha, parece-se mais com os portugueses que também calcorrearam as mesmas matas e foram atacados nos seus quartéis.
Era bom que houvesse mais outros a fazer o que ele fez. Muita da história ficará por contar, vai-se perder quando morrerem os velhos guerrilheiros. Em Abril de 2006 fui à Guiné-Bissau e, entre outras coisas, quis conhecer pessoalmente o comandante Lúcio Soares (o encontro com ele contei aqui). É que, era eu alferes, tínhamos andado os dois aos tiros, eu dum lado e ele do outro. Eu atacava a base dele em Sinchã Jobel e ele atacava os nossos destacamentos. Através de um amigo comum, o Pepito, consegui marcar um almoço com ele no Colete Encarnado em Bissau. Foi interessante,
Os dois maduros e apaziguados. Soubemos que eu tinha 21 anos e ele 23 quando lutámos nesse período da guerra. Também me disse que estava em Cabo Verde aquando do golpe do Nino Vieira em 1980, fiquei agora a saber que também sucedeu com Bobo Keita. "Estás a brincar. eu estou a escrever o meu livro!" disse-lhe este quando interrogou o Lúcio Soares sobre o apelido da Quinta da Costa, como vem na entrevista. Talvez tenha sido depois deste meu encontro no Colete Encarnado ... Se tivesse sido antes, pode ser que eu conseguisse o que lhe pedi: que me contasse a versão dele de situações em que estivemos os dois.
Não consegui, com pena minha.
Não é fácil. Os portugueses, salvo raras excepções, escreveram livros e textos sobre a guerra só depois do 25 de Abril, já sem pressões, condicionamentos ou receios. Na Guiné-Bissau, com todas as complicações e convulsões ainda não apaziguadas, infelizmente, creio que se mantêm os receios. Sinal disso, parece-me, são as reticências e palavras vagas nas respostas do Bobo Keita às perguntas sobre o Nino, menos quando fala das diferenças entre as chefias da Frente Sul e as da Frente Norte, os peitos vermelhos, porque é uma questão de orgulho pessoal. Mas há outra razão, é claro: a tradição oral da generalidade do povo guineense, nomeadamente os mais velhos. O colonialismo, desprezando a educação dos gentios, contribuiu para a continuação dessa generalização e para que, agora, só as camadas mais intelectualizadas, mais jovens sobretudo, possuam outros meios de expressão. Nestas circunstâncias, de louvar o que fez o Norberto Tavares de Carvalho: ganhar-lhes a confiança e, de gravador na mão, ouvi-los falar. Quanto a Lúcio Soares, tenho esperança que a filha dele, que é formada em comunicação social, se disponha a fazer isso.
Para quem, durante a guerra colonial, lutou "do outro lado" a leitura destas memórias do Bobo Keita tem um interesse muito especial. Porque estive em Cantacunda, em Banjara e na "base do Gazela" (que substituiu em Sinchã Jobel o Lúcio Soares quando este foi para o Morés), porque estive em Barro, na zona norte, entre Ingoré e Bigene. Revejo-me em muitas situações por ele contadas, pois passou também por esses locais. 

23 de setembro de 2011