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21 de novembro de 2011

304-O caminho dos escravos


Guiné-Bissau
Cacheu canta e dança junto ao rio "o caminho dos escravos" 
  
Cacheu, Guiné-Bissau- A cidade guineense de Cacheu, a norte de Bissau, começou este fim de semana oito dias de danças nas ruas, música e filmes, para lembrar que a primeira feitoria portuguesa na Guiné-Bissau também já foi "Caminho de Escravos".   
Cacheu é a cidade mais antiga da Guiné-Bissau e fica junto do rio com o mesmo nome, tendo crescido muito graças ao tráfico negreiro. Portugal aboliu a escravatura em 1869 e meio século depois nasceu Caetano José da Costa. Hoje, 90 anos mais tarde, à sombra de um cajueiro, conta à Lusa:
"Naqueles tempos ficou este nome, caminho de escravos, porque os escravos comprados nos arredores eram embarcados aqui, para fora".   
Por isso, pelo segundo ano consecutivo, Cacheu lembra durante uma semana "o caminho dos escravos" com exposições e filmes mas principalmente música e dança tradicional, com o palco principal junto ao rio e ao baluarte construído pelos portugueses.   
[este é do Brasil, mas devia ser idêntico no Cacheu...]
É no forte que está em exposição o último caldeirão para fazer comida para os escravos, agora já meio destruído. "Cá em Cacheu havia recordações de outros tachos, quando eu era pequeno, em algumas casas. Usavam-se nas casas familiares, onde se podia conservar água. Havia até maiores mas quando nos lembrámos de conservar já era tarde, já estava tudo destruído", lembra Caetano José da Costa.   
De resto, diz, não há grandes vestígios desses tempos, talvez umas correntes numa vila vizinha, do outro lado do Cacheu. Nem da importância que a cidade já teve, quando o comércio era fomentado por tanto tráfico humano que Cacheu pode ser comparado à ilha de Gorée (Senegal), garante.  
A escassa centena de metros, junto do rio, um palco abandonado à hora do calor anima-se todas as tardes com atuações de grupos de mandjuandade, que antes se espraiam pela principal rua de Cacheu. José Lopes está lá, é rei de um dos grupos, a rainha uma mulher alta, forte, cabelo liso escorrido e sorriso tímido.   
"Mandjuandade é uma cultura" diz à Lusa José Lopes. Depois busca as raízes da manjuandade, que terá tido origem no casamento. Quando a mulher tinha queixas do marido procurava uma amiga ou amigas, a quem contava os seus desgostos, e criavam uma música sobre isso. Depois, quando a aldeia se reunisse, as amigas cantariam a música, ao mesmo tempo recados para o marido e lamentos da mulher.   
"Basicamente mandjuandade é uma forma de as mulheres transmitirem os seus sentimentos, e uma fonte de conselhos, porque o marido quando ouve a musica já sabe que a mulher está a dizer o que se passa em casa", diz José Lopes.   
No interior da Guiné-Bissau há muitos grupos de mandjuandade e muitos estão esta semana em Cacheu. Hoje já não é sobre a relação entre casais e já não se usam metades de barris mas sim tambores e tabuinhas para acompanhar os cânticos. Hoje são grupos de bairro que se juntam, que organizam festas, que animam cerimónias alegres (casamentos) ou tristes (funerais), ou mesmo cerimónias tradicionais como a do fanado (circuncisão e excisão).   
Assemelham-se a um rancho folclórico, com roupas típicas também, e no sábado ao fim do dia receberam o músico Manecas Costa a dançar na principal rua de Cacheu, sua cidade natal.    
Cacheu, com o seu forte construído pelos portugueses, o caldeirão dos escravos e grandes e estátuas como as de Diogo Cão e Nuno Tristão. Cacheu dos símbolos de Portugal um pouco por toda a cidade. Cacheu cidade histórica, olha esta semana o rio e canta e dança "o caminho dos escravos". 


Angop.20-11-2011 19:10 


20 de novembro de 2011

303-Tratado breve dos rios de Guiné

(Ver também "A descoberta da Guiné")Depois da "Introducção" do "Publicador", o livro do André Álvares de Almada começa na página 18.

18 de novembro de 2011

302-A islamização na Guiné

O Capitão de Fragata M.M.Sarmento Rodrigues, à época Governador da Guiné, proferiu uma conferência na Escola Superior Colonial, em 20 de Novembro de 1947, tendo como tema "Os Maometanos no futuro da Guiné Portuguesa". Entre várias considerações na defesa da colonização portuguesa, referiu-se também como via, na altura, o avanço do islamismo na Guiné:
«...Metade da população da Colónia, ocupando metade do território, está hoje islamizada. A parte restante é feiticista. Cristãos, muito poucos.
Dos moiros, que todos se dizem árabes, são as tribos Fulas (Futa­-fulas, Fula-forros e Fula-pretos), os Mandingas, os Sossos e moderna­mente os Beafadas, os principais representantes, Ocupam a parte interior da Colónia, deixando no litoral os «bárbaros». Apenas no Sul, em Cacine, os Sossos avançam como um braço ao longo da beira-mar; e em Fula­cunda os Beafadas, habitantes de grande parte da região até ao mar, sucumbiram à pressão muçulmana e abriram-lhe, portanto, as portas até ao oceano.
De resto, os feiticistas ainda estão entrincheirados desde Varela e Suzana até ao rio, com os Felupes e Baiotes a fazerem resistente barreira; pelas terras de Cacheu e Canchungo, baluarte dos paganíssimos Manjacos, e através de Bissau e Mansoa, com os seus Papéis e Balantas, pouco dados à contemplação religiosa; e lá estão também os Bijagós impe­netráveis, isolados nas suas ilhas encantadoras, defendidos pelo mar das invasões dos maometanos, tradicionalmente pouco dados às navegações oceânicas.
Ao Sul os Balantas assenhoriam-se, progressivamentc, das novas terras de Catió; e os doces Nalus vacilam e vão caindo sob a pressão impetuosa dos Sossos catequistas.
É esta a posição.
Verifica-se, pois, em toda a Colónia, uma nítida linha de demarcação religiosa. Vem da fronteira do Norte, do Sedengal até Barro, separando os Mandingas dos Baiotes : segue dali, por Bissorã, para Bambadinca até ao Corubal, dividindo os Balantas primeiro dos Oincas e depois dos Fulas de Bafatá; sobe pelo dorso do Quinara até morrer em S. João, deixando os Balantas, pagãos, de um lado, junto ao estuário do Geba e os Beafadas, moiros, do outro; finalmente, os Balantas feiticistas reali­zam a ocupação dos litorais de Catió.
Ao longo e em volta dessa linha de combate - ou melhor, de avanço para os moiros e de resistência para os outros - notam-se os mais eviden­tes sinais de luta.
Um pequeno exemplo.
A tabanca de Sansanto está entre Mansoa e Bissorã. Um pouco antes, para o lado de Mansoa, as aldeias são de Balantas, alegres, bebe­dores, meio-nús, trabalhadores, feiticistas, amantes das saborosas aventuras.
Para o lado oposto, para Bissorã, já nos poentes doirados se recortam as silhuetas dos albornozes brancos em adoração a Allah! São os Mandingas, cada qual um catequista, há pouco tempo ainda cate­quisados pelos seus escravos Fulas, a golpes de espada, porque de outra forma não se resolviam a deixar de ser bebedores.
Sansanto fica entre as duas linhas. Mas o drama já penetrou as moranças da plácida tabanca. Em umas os homens ainda não largaram as deliciosas liberdades primitivas. Noutras, as brancas gilabas já lhes revestem os corpos, num primeiro sinal de muçulmanização. Aquele balanta «vai virar mandinga»! Ainda não reza, não está iniciado, mas já lhe entrou nos sentidos a admiração pelos maometanos, pelos mantos alvos, pelas cerimónias que ele não compreende, pelo porte mais digno.
Esse alegre balanta, folião, irrequieto, amante da boa pinga, vai deixar de roubar, de se divertir sem peias, de se embriagar ruidosamente. Dentro de dias, de semanas, Mahomet será o seu profeta e os seus músculos de aço, que vigorosamente lavravam a terra, hão-de enlan­guescer, pois à dura luta com a natureza vai preferir a contemplação dos paraísos de Allah, sentado numa esteira orando ao sol poente, talvez trabalhando o coiro à sombra do beiral, enquanto as suas mulheres, as suas escravas, de enxada em punho e filhos às costas, ao sol e à chuva. hão-de cavar e semear a terra para servir humildemente o arroz branco ao seu ocioso senhor!...
E este drama que hoje persiste, eficazmente, embora sem violência, já vem de longos tempos, sem descanso e com seus períodos de exacer­bação e massacre. Vinda do Senegal, dos almorávidas, ou de mais longe ainda, nos impérios ou nas idades, a bandeira do crescente tem vindo sistemática e incansavelmente a submeter os pagãos ou a empurrá-los para o mar. A nossa Guiné coube, sobretudo, ser alvo das atenções dos fanáticos que do Futa Jalom, no último século desceram pelas encostas e se espraiaram pelas planícies, alfange alçado, impondo o seu crê ou morres aos boçais agricultores serni-nús. E aonde não chegou a força da guerra, foi o artifício. Os Fulas introduziram-se primeiro como criados e servidores, foram-se alargando em número e em importância; impuse­ram-se no princípio pela superioridade de espírito e, no momento preciso, de armas na mão, transformaram os seus senhores em seus escravos. É esta, em rápida impressão, a história dos Mandingas da Guiné, outrora prestigiados, hoje postos em segundo plano pelos Fulas.
Assim os Fulas avassalaram toda a faixa do interior, catequizando os nossos Mandingas - que por sua vez já tinham fugido a um ataque semelhante feito na sua própria pátria de origem, - e outras raças, «virando» os Beafadas, seduzindo os Nalus e empurrando para o mar os mais impenitentes.
Ser fula era ser alguém. Era o poder das armas e o poder da fé. Apenas a tradição não os ajudava e por isso ainda hoje alguns fulas não são árabes e ainda muitos mandingas se não decidiram a deixar de ser «Soninqués», bebedores.
Mas o que podemos dizer é que se num dado momento não tivesse surgido a ameaça do nosso poderio e o dos franceses, povos como o felupe e outros teriam desaparecido ou adorariam Mahomet. A fúria catequista de um Fodé Cabá e outros arrasava tudo, cortava todas as cabeças que se não curvassem perante AlIah. Fomos nós que evitámos essa heca­tombe e assim, indirectamente, preparámos o campo para a nova semente ira cristã.
Ora a invasão maometana, visou o nosso território de há longos séculos. Já no século XV havia propagandistas entre o povo mandinga - no tempo em que o rei de Portugal se dizia senhor da Guiné e pre­tendia fazer muita cristandade.
Esta nossa permanente e generosa intenção foi, de início, efectuada pelo envio de missionários, verdadeiros homens de fé - não isenta de audácia - que trabalharam com espantoso desembaraço, desvendando as terras, investigando os costumes e baptizando. Não se poderá dizer que tivessem efectuado um perfeito apostolado e conseguido insuflar puras luzes de religião cristã nos escurecidos cérebros da selva: mas a verdade é que, com a simples água baptismal lançaram a primeira, e porventura a mais sólida, semente de uma nova vida espiritual. O baptismo assim dado ficou amarrando as consciências primitivas a um novo e alto dever. Não foi ele ministrado sob o cutelo ameaçador; mas mesmo que o fosse, como O fizeram os ferozes sequazes de Mahomet; um homem baptizado fica preso a essa religião e não raro se torna um entusiasta do credo que lhe foi imposto.
Foi, então, com os primeiros missionários que nasceram os primi­tivos núcleos de cristãos da nossa Guiné. Desde o início, as caravelas da Guiné traziam os padres, embora poucos, espalhavam-nos pela costa e eles internavam-se, com inacreditável êxito, pelo interior. Os Bijagós, Farim, Geba e outros pontos foram percorridos com extraordinário pro­veito para a dilatação da fé.
Os chefes indígenas abriam-se sem receios, e muitos entregaram-se às novas ideias redentoras. Sobre o mapa nebuloso desse tempo brilham autênticos focos de luz: Cacheu, Geba, Guínala...
Perdeu-se, porém, a continuidade. As naus pouco se detinham na Guiné, passavam à Mina, iam já para a índia. A Guiné era uma terra entregue à exploração directa, delegada um pouco aos colonos de Cabo Verde. Não se pensou mais em evangelização.
Entretanto vieram os moiros, pregando por um lado e dizimando os mais rebeldes. E nós assistimos, quase indiferentes, à instalação em nossa casa, da maior barreira à nossa expansão.

Julgo evidente que a cristianização de gentios significa civilização.
E tenho como certo que ela quer dizer também nacionalização. Trata-se portanto de um problema nacional, de resto baseado nas tradicionais direc­trizes da nossa expansão, as quais temos mantido, com extraordinária intuição, através dos séculos. ...»

16 de novembro de 2011

301-Lágrima de preta

Belo enquadramento da artista e professora Leonor Machado (é casada com o camarada tabanqueiro de Matosinhos Jorge Cruz) do também belo poema do pai do meu amigo Frederico de Carvalho. Não fiz estas análises mas conheci muitas pretas assim, e com as mesmas conclusões.

11 de novembro de 2011

298-Guerra entre mandingas e fulas na região de Gabú

       (Ver também "A invasão fula da Circunscrição de Bafatá")    
A
tomar como verdadeiros os elementos fornecidos por alguns indígenas mais considerados no seu meio, principalmente Mamadú Baldé, mais conhecido por Mamadú Tabassai, com cerca de noventa anos de idade, toda a região do Gabú era habitada, antes da dominação mandinga, por uma tribo a que os fulas designam por Manuje - que são os actuais balantas de Mansoa e os Conhage que ocupam a região que lhes deu o nome. As suas habitações eram circulares e construídas de pedra, particularidade que hoje se não verifica em tribo alguma da Guiné, e cobertas a palha.
Enquanto esta tribo vivia em paz e sossego, os habitantes de «Mandem», região do Sudão, viviam numa intranquilidade constante por circunstâncias políticas, económicas e morais, chegando a pedir auxílio aos portugueses, então estabelecidos no baixo Senegal, protecção que não foi possível prestar em virtude das condições especiais em que se encontravam. Esses habitantes de «Mandem» eram os mandingas, que, depois do desmembramento do seu império, abandonaram aquela região e estabeleceram-se na Gâmbia, baixo e alto Casamança e na actual Guiné Portuguesa. Os que se encaminharam para a Guiné, estabeleceram-se na região do Firdu, onde fundaram a sua primeira povoação que denomi­naram Paiungo, hoje pertencente a colónia francesa, tendo como chefe Tiramam.
Uma vez instalados, procuraram formar o seu império, para o que tiveram de travar lutas com os povos primitivos - os balantas. Estes tiveram de abandonar a região e fugiram, uns para Mansoa e outros para Conhague.
Começaram por atacar a região de Maná, onde ficou como admi­nistrador um batulai chamado Macan Sane e depois passaram para Tumaná, Cessará, Badora, Canadú, Mansoná, Sancorlá, Farim, Camacó, voltando novamente para Paiungo, que ficou sendo a capital do Império até ao reinado de Mansairá Sane, que a transferiu para Cansalá.
Em todas as regiões conquistadas deixaram um batulai, isto é, um auxiliar do régulo, de cujos nomes derivou a designação dada à região que administravam. Assim: em Maná ficou Macam Sane, como acima foi dito; em Tumaná, Tumam Mané; em Cussará, Có Sara; em Badora, Doró Bá Sanha; em Canadú, Canarn Bá Mané; em Mansoná, Mansom Manjam; em Sam Corlá, Sancolá Soncó; em Farim, Colibá Manjam; em Camacó, Camam Manjam.
E assim formaram o seu império, que não tomou grande vulto porque se fixaram muito afastados uns dos outros e portanto sem con­dições para manterem uma unidade política rígida.
E deste modo a Guiné Portuguesa recebeu a massa invasora man­dinga, onde veio em busca de refúgio e tranquilidade que não encontrara na sua terra natal - Mandem.
**
Pouco tempo depois a sorte que os mandingas tiveram foi a que os fulas encontraram na sua pátria - Massina.
Os fulas, levados pela ambição de governar e pela imposição da religião de Mahomet, entraram em lutas entre si.
Os povos vizinhos - os Bambarãs - vendo as desinteligências entre eles invadiram a região e subjugaram-nos. Então, lentamente, procuraram a sua fuga para o Casamansa e Gabú, onde já havia alguns elementos da sua tribo, para onde tinham vindo à procura de pastagens para o seu gado. E assim os fulas se foram fixando na região do Gabú, mas com o prévio consentimento dos mandingas. Estes permitiam a sua entrada
na região porque eram portadores de grandes quantidades de gado, prin­cipalmente vacum, e viam neles excelente fonte de riqueza.
Tanto assim era que os fulas, para construírem as suas habitações, junto da reinança, necessitavam de uma licença especial e tinham de pagar um certo tributo, por vezes pesado. Mas apesar disso, tudo suportavam porque não atingia as proporções dos que lhes eram lançados na região por eles abandonada e além disso a pequenez do seu número não lhes permitia a ideia da reacção. À medida que as migrações fulas se iam avolumando, os dominadores iam-nos sobrecarregando com impostos cada vez mais pesados.
No momento em que os fulas viviam mais subjugados, apareceu um fula de Toró, chamado Saico Umarú, vindo de Meca, com o fim de conhecer a região e as possibilidades de propagar a religião de Mahomet. Foi hóspede de Alfá Moló, um pobre pastor, mas bom caçador. No dia em que chegou a sua casa, o Alfá encontrava-se ausente, mas sua mulher recebeu-o condignamente pois vira nele uma pessoa de bem. Logo que regressou a mulher apresentou-lhe o hóspede. O Alfá mandou matar um carneiro para ele e sua comitiva. Poucos dias depois o Saico Umarú pede ao Alfá para o acompanhar, o que fez, indo até Geba. Então o Saico, reconhecido, disse-Ihe que ainda um dia seria régulo de toda a região por eles percorrida. Despediram-se e o Alfá voltou para sua casa, conti­nuando a mesma vida de pastor. Mas um dia os mandingas apanharam­-lhe um carneiro e ele dirigiu-se ao régulo a reclamar; este respondeu-lhe que uma vez apanhado jamais lhe seria restituído,
o Alfá pensou em vingar-se, e levado pelas palavras do profeta Saico, chamou todos os fulas e expôs-lhes a questão, dizendo que estavam a ser muito martirizados e que portanto ou se revoltavam contra o man­dinga ou teriam de abandonar a região. O seu primeiro plano foi matar o régulo - Mofá Genum - O que fez, um dia em que o foi cumpri­mentar. Depois de o ter morto disse o que tinha feito, portanto que se preparassem, ou para fugir ou para se baterem com o mandinga. Os fulas optaram por irem ao seu encontro, do que foram bem sucedidos. Foi este o primeiro alarme da revolta dos fulas. Como se não sentissem ainda com forças para se verem livres do jugo mandinga, pediram auxílio aos futa-fulas, a quem prometeram submissão e fidelidade ao seu credo reli­gioso, pois estes já estavam islamizados enquanto que aqueles ainda viviam no seio do feiticismo. Os fulas de Futa vieram em seu auxílio e bateram os mandingas em Dorna, ficando Alfá Moló senhor daquela região, mas sendo orientado pelos fulas do Futa. Foi este o primeiro recontro entre fulas e mandingas. O Alfá Moló, senhor já de uma força considerável, continuou a bater os mandingas, chegando a Pirada onde se travou uma grande luta, obrigando-os a retirar para Sissaucunda, de onde foram também repelidos. Então os mandingas reuniram-se em Cam Salá à espera do que viria a suceder, armando-se e mandando pedir armas a Geba, de onde trouxeram seis peças de artilharia.
Anos depois do primeiro recontro, os fulas, animados pelo bom sucesso, pediram novamente auxílio aos futa-fulas - Almame Umarú - para tentar repelir definitivamente os mandingas e ficarem senhores de toda a região.
O Almame reuniu a sua gente, entrou em Pachisse, e foi acampar junto a Cam Salá. Mandou três emissários entender-se com o régulo mandinga Janque Uale, dizendo para se converterem ao islamismo e prestarem vassalagem ao Almame régulo do Timbó, caso contrário seria tudo arrasado. Janque Uale recebeu-os mal, recusando-se a tudo quanto os emissários lhe pediam e mandou reunir toda a sua gente para lhes fazer frente se o tentassem atacar. Depois de tudo preparado, mandou um sobrinho, Turá Sane, ao acampamento dos fulas, sob o disfarce de impor condições, mas com o fim de conhecer as forças de que ele dis­punha. Quando regressou, apanhou uma pouca de areia que entregou ao tio, na presença de todos os grandes, dizendo: “Conta os grãos de areia, e pelo seu número saberás quantos são os soldados fulas.”
Janque Uale, não acreditando, preparou tudo para receber o ataque.Os fulas invadiram a paliçada, e os mandingas responderam com tanta impetuosidade que os fizeram recuar. Novamente os fulas caem sobre o cercado, sob o comando do Alrname, com todo o poder e força. Janque Uale, quando se viu perdido, reuniu toda a sua gente, deixou entrar os fulas no cercado, e quando viu que a gente inimiga que ali se encontrava era em grande número, entoando cânticos guerreiros, lançou o fogo a toda a pólyora que possuía. Assim morreram heroicamente, para não caírem nas mãos do régulo futa fula e não ficarem subjugados aos fulas de quem tinham sido suseranos. Esta guerra ficou sendo conhecida por «Turu-Bam», o que quer dizer – “a sementeira acabou.”
Foi nesta luta que apareceu, pela primeira vez, a artilharia por parte dos mandingas.
Mas a guerra não terminou de todo.
       Um dos irmãos do Janque Uale, Mancoró Sane, depois da derrota sofrida pelos mandingas em Cam Salá, pensou em reconstituir o império; reuniu toda a gente que conseguiu retirar-se de Cam Salá e estabeleceu-se novamente em Pirada, onde deu início à construção de uma paliçada, como ainda hoje se pode verificar, pois existem vestígios. Ainda a cons­trução não estava concluída, já o filho do Alfá Moló, Mussá, juntamente com alguns futa-fulas, estava às portas pronto a fazer guerra. Dessa luta saíram vencedores os fulas, desaparecendo assim, para sempre, a ideia da reconstituição do império mandinga, pois os que escaparam ao morti­cínio de Pirada e Cam Salá dispersaram-se, uns para a colónia francesa e outros para o Oio (Farim), ficando desta maneira os fulas senhores de toda a região anteriormente ocupada pelos mandingas. Nesta luta os mandingas utilizaram também artilharia. Uma dessas peças foi encontrada no local da fortificação, tendo sido levada por Sua Excelência o Gover­nador, Comandante Sarmento Rodrigues, para o Museu Etnográfico, em Bissau, havendo memória de uma outra que desapareceu, dizendo os indí­genas que se quebrou.
Francisco Grandão Chefe de Posto


9 de novembro de 2011

297-A Fortaleza de Bissau e a Companhia do Grão Pará e Maranhão

 Gravura inclusa em "Ensaio de Iconografia das Cidades Portuguesas do Ultramar.2", de Luís da Silveira
José Mendes da Cunha Saraiva apresentou ao Congresso do V Centenário de Descobrimento da Guiné, em 1946, uma comunicação sobre este tema, tendo sido tiradas estas conclusões:
«1.º - Instituída a Companhia Geral do Comércio e Navegação do «Grão Pará e Maranhão», em 1755, foi concedida pelas seus estatutos à Junta de Administração a faculdade de estabelecer o comércio na Guiné C0ml determinados privilégios.
2.º - Para protecção do comércio que a Companhia ia estabelecer naquele ponto da Costa de Africa, sobretudo no porto de Bissou em relação com as capitanias do Grão Pará e do Maranhão, tomava-se necessário protecção imediata para ocorrer a qualquer eventualidade.
3.º - A fortaleza antiga de Bissau encontrava-se, à data do estabelecimento da Administração da Companhia naquela Praça, em completo estado de ruína, sem armamento, munições ou outro qualquer meio de defesa para resistir, como se vê da descrição que em Abril de 1761 o capitão da dita praça Filipe José do Souto e Matos fez em informação que remeteu à Junta, a pedido desta.
4.º - Os reparos das muralhas e baluartes não eram suficientes para se esperar deles uma boa defesa, em virtude de actos de desrespeito que os ingleses haviam tido para com os representantes da Companhia que ali exerciam o comércio, e isto dei­xava em sérias dúvidas a acção dos administradores da Feitoria estabelecida.
5.º - Em face de factos tão visíveis, e como era preciso sem demora assegurar a acção e livre exercício daquele comércio, que era principalmente o da escravatura negra, marfim, cera e outras espécies e drogas que deveriam seguir para o Maranhão, foi a Junta autorizada, depois de consulta régia, a mandar fazer uma fortaleza, e para isso, foi remetido vário material de Lisboa, pelos navios que iam em lastro, com pedra das pedreiras de Alcântara, telha, cal e tijolos dos fornos do Rio Seco.
6.º - Foi encarregado de levantar a planta e de dirigir as obras da Fortaleza o sargento-mor Engenheiro Manuel Germano da Mata, mas só em 1765 esta acção se começou a pôr em prática.
Várias instruções expediu a Junta da Companhia para os seus administradores, e solicitou ao superior dos religiosos que auxiliasse aquele intento e prestasse todos os serviços e meios para o bom desempenho daquela missão.
As instruções COIII que o Director das obras partiu para Bissau eram todas no sentido de se entender o melhor possível com os administradores e com os régtt!os naturais para que aquelas gentes não hostilizassem os interesses do comércio e a construção da Fortaleza. No entanto, parece que o engenheiro Manuel Germano da Mata não foi muito hábil no forma como se conduziu no trato com os régulos e gen­tios, porque estes certamente o hostilizaram e por isso, como represália, mandou queimar algumas mesquitas.
7.º - Na direcção da obra e forma como se conduziram os serviços, adivinhava-se através da correspondência que a Companhia dirigia ao sargento-mor, engenheiro Manuel Germano da Mata, que este não curava muito dos interesses que lhe foram confiados.
As obras da fortaleza tornavam-se morosas, e a Junta da Companhia instava com o engenheiro pela sua rápida conclusão; e por isso começava a impacientar-se pela falta de informações sobre esta questão.
Em face disto e das más informações que o Governador da Praça, Sebastião da Cunha Souto Maior, e os administradores da Feitoria do comércio da Companhia prestavam à Junta, foi mandado regressar à Corte, o já então Tenente-coronel Manuel Germano da Mata, como se vê na carta de 18 de Janeiro de 1769, em que lhe orde­nava fizesse entrega da direcção da obra ao governador.
8.º - Foi encarregado da direcção para conclusão da obra da Fortaleza de Bis­sau em substituição daquele, o sargento-mor António Feliz do Amaral, cuja nomea­ção, depois de a Junta haver conseguido licença e aprovação do Rei, lhe foi comu­nicado em carta de 10 de Março de 1770.
Partiu o novo director da obra para Bissau logo em seguida, e da sua compe­tência se houve bem e de boa conta.
As obras da fortaleza terminaram e foi dada por concluída, conforme a Junta de Administração da Companhia declara na representação de 10 de Outubro de 1774, dirigida ao Rei, em que pede autorização para mandar nomear a indispensável guarnição.
Por isso, o decreto de 28 de Novembro seguinte, nomeava os oficiais que deviam constituir a guarnição da Fortaleza de S. José de Bissau e indicava para sargento-mor o Capitão Luís da Silva Cardoso.
9.º - Na construção e municiamento da Fortaleza da Praça de S. José de Bis­sau, gastou a Junta de Administração do Grão Pará e Maranhão, avultada soma, mas os interesses da Junta ficaram assegurados para o exercício do comércio que tanto se empenhava em explorar».(1)
...E o que era a Companhia do Grão Pará e Maranhão?
A escravidão indígena, isto é, dos povos naturais do Brasil, foi proibida no Estado do Grão Pará e Maranhão em 1752. Foi feita, por isso, uma petição da Câmara Municipal de S. Luís do Maranhão ao Governador e Capitão-general Francisco Xavier   de Mendonça Furtado (meio-irmão do Marquês de Pombal) para que fosse autorizada a formação de uma sociedade para comércio de importação de escravos africanos.
O Marquês acolheu a ideia e ganhou para ela grandes comerciantes de Lisboa e Porto, tendo esta Companhia sido formada em 7 de Agosto de 1755, com o objectivo de vender escravos em grande escala para o desenvolvimento da agricultura e também fomentar o comércio. Recebeu o monopólio do tráfico de escravos durante vinte anos e o transporte de outras mercadorias para o Grão Pará e Maranhão, teve a garantia da Armada Real para escolta dos seus navios, sendo os seus funcionários considerados ao serviço do rei, e também prioridade nas alfândegas.
A Companhia de Jesus não gostou destes privilégios, pois prejudicavam os seus interesses comerciais na região, sendo acompanhada por outros comerciantes que alegavam comércio desleal. O vice-provincial dos jesuítas do Maranhão induziu o bacharel em Direito  João Tomaz de Negreiros e o padre Bento da Fonseca a peticionarem à Coroa Portuguesa expondo o descontentamento dos comerciantes locais. Pombal mandou prender o bacharel, o padre e alguns comerciantes signatários da petição, proibiu qualquer acção conta a Companhia e que deviam ser punidos os padres que usassem o púlpito para instigar ao descontentamento.
O comércio entre S. Luís do Maranhão e a metrópole floresceu. De 1755 a 1760 era um navio por ano, mas já foram setenta navios entre 1760 e 1771, com cargas de algodão, arroz, cacau, gengibre, madeira e mais.
Quanto ao comércio de escravos, até 1755 (data da criação da Companhia) apenas  3.000 havia no Estado do Grão-Pará e Maranhão. Entre 1755 e 1777 esse número subiu para 12.000, vindos de Cacheu, Bissau e Angola.
D. Maria I extinguiu a Companhia em 25 de Fevereiro de 1778, no entanto a sua liquidação só foi concluída em 1914.(2)
Era na altura, como se vê, um potentado com influência política. Decidia os seus interesses com o apoio do poder, nem que fosse preciso pôr a máscara do Mecenas (táctica velha mas ainda actualíssima...). Não é, pois, de admirar que fizesse correr com o  Tenente-coronel Manuel Germano da Mata.
(1) Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Nº 101-104, 1946
(2) Dados extraídos da Wikipedia

8 de novembro de 2011

296-A descoberta da Guiné

Notável e bem fundamentado trabalho de Avelino Teixeira da Mota.
O Almirante Teixeira da Mota foi figura prestigiada no campo da investigação histórica. Vai já abaixo uma pequena biografia sua e uma resenha das suas obras, algumas publicadas postumamente. Poderão ser vistas também no livro
(Ver também "Tatado breve dos rios de Guiné")(Para ver em ponto grande carregar em X, em baixo à direita)
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6 de novembro de 2011

295-Preocupações com a educação e a exploração da mão-de-obra na Guiné

Algumas intervenções e conclusões muito significativas sobre quais eram as preocupações sobre a educação e a exploração da mão-de-obra na Guiné em 1946. Foram produzidas na sessão da manhã do dia 25 de Maio desse ano, durante a Conferência sobre o V Centenário do Descobrimento da Guiné.
 Da intervenção do Padre Dias Dinis:
«Sob este aspecto [o ensino], a nossa Guiné, encravada em territórios estrangeiros e isolada de outras colónias portuguesas, tem necessidade de dedicar especial cuidado ao assunto - criando um ensino adaptado às suas necessidades e características de colónia agrícola; publicando e usando compêndios próprios, como se faz na vizinha Guiné Francesa; procurando que não seja o ensino meio para o indígena abandonar a sua terra e vadiar pelas cidades e vilas, a deseducar-se e a deseducar os mais; curando que, por esse motivo, não perca a agricultura os braços de que precisa; montando escolas rudimentares de ler, escrever e contar, no mato, para penetração da nossa língua e da civilização portuguesa, sem maiores formalidades e pretensões de exames e diplomas, por não interessarem à Pátria papéis, mas portugueses; limitando, enfim, às cidades e vilas as escolas primárias propriamente ditas, reservadas a filhos de civilizados principalmente, criando-se ainda nas povoações comerciais de maior vulto, escolas idênticas e para os mesmos efeitos se as circunstâncias o aconselharem. Disse ter visto e ouvido combater as escolas para os indígenas. Elas são porém veículos indispensáveis da nossa língua e civilização. O que falta é regulamentá-las e adaptá-las às necessidades da colónia. 
Disse ainda que não devemos exagerar o ensino, como fizeram os vizinhos franceses, que hoje estão em face de diplomados e inconformados para os quais não têm colocação nem solução depois de os desabituarem da agricultura. Devemos evitar a inclinação para os cargos públicos, pois é sabido que, tanto como os europeus, os indígenas africanos têm grande tendência para burocracia. Convirá sobretudo combater a convicção de que o simples exame de instrução primária é porta aberta para todos os referidos cargos, como sucedia na nossa Guiné ainda há anos, podendo citar-se, por exemplo, o caso de um indígena que apenas com o 2º grau, atingiu as elevadas funções de director interino dos Serviços de Fazenda da Colónia.»
Em resumo era: 
- ensinem-se a falar o português para que os entendamos e eles nos entendam para aquilo a que estão destinados - o trabalho agrícola; nada de irem mais além.
Seguidamente, também com preocupações no mesmo sentido, mas de outra índole, o Dr. Carlos Barral Moniz Tavares apresentou uma comunicação intitulada «Breves considerações sobre a protecção dos indígenas da colónia da Guiné», com estas conclusões: 
«As colónias não podem prescindir da mão-de-obra indígena. 
Para que dela se possa usufruir o maior proveito é necessário que as populações indígenas possuam boa capacidade para o trabalho e, portanto, se lhe proporcionem boas condições de higiene individual e geral. 
E indispensável, também, que encontre nos colonizadores um tratamento que lhes capte a confiança, bons exemplos morais e sociais, que se traduzirão incutindo-lhes respeito e obediência.»
Isto é:
- tratem-nos bem e ganhem-lhes a confiança para que eles tenham respeitinho pelo branco e sejam obedientes no trabalho.
E houve uma conclusão geral na mesma linha:
«A Guiné é uma colónia essencialmente de natureza agrícola, e, como tal, necessita de uma população nativa numerosa, pois é nela que se recrutará a indispensável mão-de-obra. 
Para que haja uma população indígena suficiente tem de se procurar atingir dois fins primordiais: diminuir a mortalidade e alimentar a natalidade.»
Queria-se dizer:
- tratem-lhes da saúde e ponham-nos a fazer filhos, senão não há quem trabalhe.