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29 de novembro de 2011

309-Lembranças e stress



Extractos de um artigo de Luís Quintais, inserto na revista "Etnográfica", Vol. IV(I), pp. 61-88. Diz o autor:

«Este artigo parte de uma experiência de terreno num contexto psicoterapêutico(Serviço de Psicoterapia Comportamental. Hospital Júlio de Matos. Lisboa) no qual um conjunto de ex-combatentes das guerras coloniais portuguesas diagnosticados com a desordem de stress pós-traumático redescreve as suas experiências de guerra e. neste processo. atribui sentidos e inteligibilidade ao seu percurso de vida O autor mostra como este trabalho de redescrição e de reconstituição da memória é realizado. na prática. com o apoio e a persuasão dos terapeutas. sustentando-se numa matriz vocabular e em módulos narrativos com implicações morais. históricas e politicas só parcialmente investigadas.»




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308-Mulheres de ex-combatentes


Para toda a vida 
A viver de perto com agressões físicas e psicológicas às mulheres de ex-combatentes, Ana Conde, psi­cóloga da Associação de Deficientes das Forças Armadas do Porto, fala deste mundo escondido e pouco conhecido. Todo o trabalho começa pelo apoio aos ex-combatentes. Como as mu­lheres geralmente acompanham os maridos, ficam a par das situações. Assim, "damos acompanhamento à família toda, mesmo aos filhos que têm problemas pelos padrões de família onde estão inseridos".
Levando a conversa exclusivamente para o campo feminino, que aqui os homens já tiveram muito espaço, Ana Conde "tem diagnósticos de depressões graves, esgotamentos. Acho que as mulheres estão cansadas de serem mães, amigas, amantes, pois não têm ajuda dos maridos. Têm um casamento menos fe­liz, porque eles isolam-se de tudo. Por isso, as mulheres têm um papel muito mais activo na família, têm de fazer tudo. E é en­graçado que elas, muitas vezes, os acompanhem às consultas no intuito de ajudar e tentar perceber o porquê de certos com­portamentos, o porque é que ele ficou assim se não era assim?, porque é que rasteja durante a noite?, porque me bate a so­nhar?, porque fala crioulo? Elas estão extremamente cansadas".
Refere Ana Conde que muitos casais destes dormem separa­dos. O que é normal. Eles têm um sono agitado, pesadelos. Esta separação vai criando um afastamento significativo entre o ca­sal. "A mulher vai perdendo o interesse, muitas vezes cansada de maus tratos ao longo de muitos anos, não há desejo. A medica­ção específica que eles tomam baixa a potência sexual. Há uma diminuição da auto-estima do ex-combatente e é mais fácil acu­sar as mulheres de que assumirem que precisam de tratamen­to". A contrariar tudo isto está o número reduzido de divórcios. Ana Conde vê uma explicação na "nossa cultura. Elas dizem: foi este companheiro que escolhi e venha ele como vier tenho de as­sumir o compromisso. Há um padrão cultural muito forte ligado ao catolicismo. As mulheres assumiram o compromisso e sofrem os maus tratos. É a típica frase: É meu marido, tenho de o aceitar como ele é. E mesmo: O que é que os vizinhos irão dizer?". É difícil modificar padrões. Uma esposa de um doente com stress de guerra, não sendo possí­vel generalizar, terá probabilida­des de sofrer depressões, esgota­mentos, ansiedade. "Tomam muita medicação. Tornam-se pessoas mais tristes, mas muitas delas com vontade de os ajudar e de os mudarem para voltarem a ser felizes". E os filhos? "Chegam aqui com dificuldade de aprendizagem na escola, não se inserem em grupos, são crianças que se isolam, porque ouvem o pai berrar e metem-se no quarto, revoltadas, ansiosas, apresentam muita irritabilidade. Muitas delas são crianças agressivas. São os padrões familiares que têm em casa. Têm a mãe num pedestal". Conta Ana Conde que quando pedem às crianças para fazerem o desenho da família elas colocam-se com a mãe no cantinho inferior esquerdo, e o pai no cantinho direito superior, afastadíssimo, muito sério, uma figura enorme por ser violento.
Em acompanhamento na Associação dos Deficientes das Forças Armadas do Porto têm cerca de 100 casos. Não são muitos para o número de consultas que fazem. "Eles não vêm cá. Fazemos domicílios, vamos a casa deles, e muitas vezes somos corridas, dizem que estão bem. Mas falamos com as mulheres e elas sofrem. Tenho uma senhora que me diz que não ganha para portas". Conta Ana Conde um caso, associado a abuso de álcool e drogas, "extremamente agressivo. A senhora diz que não pode deixar o marido. É agredida quase todos os dias. Tem um filho fora que quer que ela vá viver com ele e ela não vai. A maior parte destas pessoas casaram para toda a vida. Esse papel é negativo, pois sofrem toda a vida. A senhora já deu entradas no hospital e não faz queixa porque não consegue incriminar o marido de nada".
Num trabalho esgotante, porque é difícil desligar-se dos casos, do que ouve, a psicóloga tem as histórias gravadas em si. "Situações de agressão muito violentas. Uma senhora contou-me situações que acho impensável que um ser humano as faça a outro". Depois, como os ex-combatentes são pessoas isoladas, as mulheres também vivem esse isolamento "porque não é autorizada a falar com os vizinhos ou a viver com outras pessoas".
Refere Ana Conde que elas tentam levar uma vida normal, "mas não conseguem. Há sempre a angústia de saber como é que ele vai entrar em casa hoje". Há muitas histórias, com algumas diferenças, mas semelhantes. E, depois, há a agressão psicológica "que muitas vezes dói mais do que uma bofetada. Porque a mulher o quer matar, porque nunca o amou, anda com outros, não desperta o desejo no marido, nunca o ajudou. E, mesmo assim, elas não os abandonam".
Quando não se coloca a possibilidade do divórcio há, para as mulheres, "o acompanhamento psiquiátrico e psicológico". Se ao ler isto sentir que vive uma situação idêntica, não hesite em contactar qualquer associação dentro desta área, ou mesmo hospitais ou centros de saúde, pois têm o dever de aconselhar. 

"Elas acompanham-nos às consultas no intuito de tentar perceber o porquê de certos comportamentos, o porque é que rasteja durante a noite? Porque me bate a sonhar? Porque fala crioulo? Estão extremamente cansadas" - Dr.ª Ana Conde



NOTiclAS MAGAZINE 21.ABR.2002 

28 de novembro de 2011

307-Regressado...

Reencontrei-o à esquina da última noite. Apresentava-se. a  assobiar a parte final de uma cantata de um conhecido autor dos anos 30. Trazia as mãos en­fiadas nos bolsos e a gola do casaco arrebitada até à nuca. Pensei: sempre o mesmo. E a mesma ária de anos antiquíssi­mos e esta gola levantada para o pescoço como Se pretendesse com ela tapar o frio que nâo existia naquela noite quente.
Este homem conheci-o há muitos anos em Coimbra. Fo­mos companheiros na mesma e.escola; ambos percorremos juntos os mesmos espaços e perseguimos idênticos objecti­vos. A distância de muitos anos vem-me hoje à lembrança algu­mas das mais belas recordações que estabeleceram o primado da nossa amizade.
Recordo as circunstâncias em que nos conhecemos.
Tinha acabado o ano lectivo quando foram organizados em Coimbra uns torneios de atle­tismo. Eu tinha uma forte pai­xão pela prática do desporto, mas faltava-me de técnica e de força o que me sobejava de vontade; o meu amigo tinha a estrutura de atleta, nascera para ser campeão. E nisso eu o inve­java. Na corrida para a meta - conhecendo como conhecia a minha debilidade física - tentei fazer batota: por duas vezes ar­ranquei antes de soar o tiro de partida. Fui, naturalmente, eli­minado. Perdera, assim, a se­creta esperança de ver o meu nome nas crónicas desportivas dos jornais. Sem batoteiros a corrida logo se fez e o meu amigo ganhou a partida. Subira depois ao podium com o ar mais humilde deste mundo para receber a medalha de campeão. O seu nome passou para as páginas dos jornais definiti­vamente. 
Ѳ
Outono chegara rápido e com ele Coimbra repovoava­-se. Encontrei de novo o meu amigo junto aos portões da nossa escola, de mãos enfiadas nos bolsos a assobiar o anti­quíssimo «Jumpin'g Jack». Fa­lámos das corridas, das vitórias e das derrotas e concluímos ser para nós uma alegria imensa pertencermos à mesma turma. Iria principiar um outro cam­peonato para o qual eu partia desta vez em posição de vanta­gem: trazia do ano anterior uma nota distinta, enquanto o campeão dos estádios não dis­punha mais do que a classifica­ção que comporta o sofrível. Nada mais.
Os meses vararam os anos e a nossa posição nesta corrida escolar nunca se alterou, como nunca se alteraram em nós os sentimentos da amizade que em nós também moravam.
Um dia deixei de ver o meu amigo. Não voltara de férias. Este homem, filho de gente honrada, nascera no seio de uma família de grande abastan­ça, cujas raízes assentavam nas terras da beira interior. O insu­cesso escolar nos últimos anos atirara-o para Mafra.
Certo dia - dia de muito in­verno - recebi na minha velha casa de Coimbra um telefone­ma. Era a sua voz, uma voz que eu reconheceria nem que viesse do fim do mundo: «Estou lixa­do, pá! Vão mandar-me para a guerra».
Que poderia eu responder? Que poderia eu fazer pelo meu amigo? Decerto tinha razão para estar desencantado.
Meu pai era um velho gene­ral do Exército, combatente da rectaguarda de uma guerra que estava de nós tão distante como a lonjura do oceano. Os pedi­dos para as cunhas eram quase sempre pessoais e intransmissí­veis. Conhecia bem meu pai, o seu feitio e o seu temperamen­to, e por isso sabia que não era fácil convencê-lo a aceitar o modesto pedido de um filho subalternizado. Ele tinha, de resto, a sua intervenção prepa­rada para me libertar do pesa­delo da guerra quando con­cluísse o meu curso - o curso que a família desejava e me impunha.
O tempo girou de novo e o meu amigo lá partiu. Sabia-o na guerra, mas não o seu paradei­ro. Em Coimbra eu prosseguia a mesma vida, mantinha a mes­ma pedalada escolar sob os aplausos da família envaideci­da, mesmo à beira de promove­rem a doutor um elemento do clã. Mas nunca mais fui aos es­tádios: perdera há muito tempo as esperanças de me tornar ve­deta, nem que fosse à custa da batota; e, já não tinha para aplaudir o verdadeiro campeão e gritar-lhe: «Força compa­nheiro! és o maior».
                                                    Ѳ
Um dia cheguei a Lisboa e na mesma noite em que a esta ci­dade arribei dei por mim a per­correr sozinho as ruas do Bair­ro Alto e de S. Bento, de mãos enfiadas nos bolsos, a assobiar o velho «[umping'[ack». Lem­brei-me do meu amigo que re­gressara há vários anos de Afri­ca, que suportara ao longo de longos meses uma guerra da qual - eu, pequeno beirão - não consegui libertá-lo. Não lhe bastou só essa afronta: per­dera nesse período, à distância de mais de 20 dias de barco, a mulher que amava, também nossa companheira de escola. Depois nunca mais subiu aos podia e até da candidatura ao título académico foi afastado.
Encontrei-o um dia, pouco antes de o reencontrar à esqui­na da última noite, sentado num bar, de copo na mão. Tal como eu, também o meu amigo começa a ter as têmporas grisa­lhas e uns finos vincos ao canto dos olhos como se fossem tra­çados por unhas ponteagudas.
A separação da mulher e dos filhos e o desaparecimento re­pentino do pai, cuja morte che­gou na hora mais trágica de uma certa noite, abalaram vio­lentamente a alma frágil deste velho companheiro. A conver­sa, entre um copo que se esva­zia e outro que se enche, fui­-lhe dizendo da minha compre­ensão sobre os seus problemas. E, com a autoridade intelectual que um "«dr» me confere, quase lhe falei do alto da cátedra - e esse o meu erro - para lhe ex­plicar a existência de outros ca­minhos longe dos atalhos que percorre.
Para mim tornava-se difícil perceber a razão pela qual o ve­lho campeão, meu companhei­ro de escola, se refugia na noite à procura da luz artificial dos bares e tem horror à solidão. Explicou-me que é por causa da crise da identidade. Não en­tendi ainda bem o que queria dizer com isso. Mas percebi que este homem, como tantos outros, tem a habitá-lo angús­tias que em mim não moram.
Tive um pai general que me ofereceu um posto na recta­guarda da guerra e não passei pelas vicissitudes porque pas­sou um milhão e meio de cida­dãos deste país. Durmo bem, escuso de recorrer a soporífe­ros para vencer insónias, tenho emprego estabilizado, possuo uma casa, virada para o mar e, quando em dias de festa vou aos bares, bebo apenas do me­lhor wishky. E o meu amigo, esse, que não teve um pai gene­ral, continua a beber, todos os dias, cerveja nacional. E todos os dias assobia a mesma ária.

in jornal "O diário", de 12 de Setembro de 1981

26 de novembro de 2011

306-Escarificações das mulheres manjacas

«Não pode restar dúvidas de que as escaríficações tegumentares [cortes superficiais na pele] tiveram (e ainda têm) um elevado significado social e religioso, com rituais mãgicos, e corresponderam (e correspondem) a marcas come­morativas de ritos de iniciação e ou de passagem social. Lentamente, com o decorrer do tempo e influências culturais estranhas, foram perdendo, em parte, posição no conjunto de usanças. Atenuaram-se os rigorismos dos seus rituais e algumas acabaram por passar a pos­suir apenas um sentido decorativo, estético, de ronco (com a signi­ficação de bonito, garrido), ou simultâneamente um intuito para-sexual. É o que podemos concluir ao verificar que, abandonadas ou subesti­madas pelos homens, têm franca preferência e são sobrevalorizadas pela juventude feminina. Muitas outras, entretanto, conservam quase intactas as suas formas, o seu cerimonial, o seu rigor. É  o caso da circuncisão.»
António Carreira, Janeiro de 1961  


















22 de novembro de 2011

305-Os ex-combatentes não estão indignados?!

Transcrevo um artigo publicado no "Primeiro de Janeiro" de 11 de Julho de 2000, assinado por Maria José Guedes. Já lá vão 11 anos, mas parece-me que continua actual, daí interrogar-me se os ex-combatentes não estarão indignados. É uma pergunta retórica,claro, porque sei que estão e acho que têm boas razões para se juntarem ao Movimento dos Indignados no dia 24 de Novembro. As suas Associações deviam empenhar-se nisso. Já o fizeram em 20 de Outubro de 2001(ver video).
«Ex-combatentes reclamam Justiça ao Estado Português

Não escondam mais a verdade

Os ex-combatentes do Ultramar não aceitam o carimbo de "assassinos". Fazem questão de dizer que foram para a guerra obrigados, com lágri­mas, saudades e medo. Em Portugal, o regime era a ditadura. Os jovens de 20 e 21 anos estavam a cumprir o serviço militar obrigatório. Não foram convidados para a guerra, foram mandados. Deixaram a família, os amigos e os pais. O que os esperava era um mundo desconhecido. Opções?! Fugir do pais? Muitos o fizeram, outros nem sequer essa chance tiveram. A guerra colonial é, para os ex-combatentes, a chave da liberdade. Ao Estado ape­nas pedem que lhes seja contado o tempo de "mis­são" para efeitos de reforma e que haja um subsidio para os deficientes e para os doentes que sofrem de stress de guerra.

Sem a guerra colonial não teria havido a revolução de 25 de Abril". Palavras do coronel Vasco Lourenço no dia da inau inauguração do monumento de homenagem aos ex-combaten tes em Castelo de Paiva.
Uma frase que agradou es pecialmente aos militares que estiveram presentes durante a cerimónia. Antigos soldados que, sempre que podem, encontram-se para recordar ve lhos tempos e para unirem forças. Reclamam um maior apoio aos deficientes e a doentes com stress de guerra.
Querem a contagem do tempo de mobilização no Ultramar para efeitos de reforma, sem o encargo de qualquer pagamento por parte do contribuinte combatente. E reclama ainda que os custos sejam suportados pelo Estado e não por outros contribuintes da Segurança Social.
Para que estas exigências sejam ouvidas na Assembleia da República estão já reunidas mais de cinco mil assinaturas, todas elas de ex-combatentes. Esperam que por mais 2500 para, então, as poderem entregar. Uma coisa é certa: garantem que não vão desistir. Exigem justiça. 

 A VERDADE.
 "Obrigaram-nos a pegar em armas para defendermos o que então se dizia ser o interesse da Pátria". Uma expressão que é utilizada por quase todos os que participaram na guerra colonial.
José Nunes vive em Castelo de Paiva. Esteve em Angola entre 1969 até 1971. Pertenceu à companhia 2/463, BataIhão 2860 - «Os Palancas Negros». De cabeça erguida, sem complexos, diz: "fomos cumprir o nosso dever e servir Portugal. Não temos de sentir vergonha. Devemos levantar a cabeça e contar isso aos nossos filhos."
Este ex-combatente não compreende por que é que as autoridades do pós-25 de Abril têm "tabus" .em relação à guerra Colonial. "Parece que têm medo de admiti r que estivemos lá. Nós fomos obrigados e ago­ra tentam esconder a verdade. Acho que não é justo que se tente apagar 14 anos de histó­ria", diz.
A verdade para os "Zés Nunes" da guerra - que não conseguem construir uma fra­se, que se refira ao Ultramar, sem se emocionarem - passa por dizer logo à partida: "Não somos assassinos. Estávamos a cumprir o serviço militar e fo­mos para lá obrigados. Se nos recusássemos a ir éramos con­siderados desertores. E de­pois?". Depois tinham poucas opções. Sair do País ou cadeia. A fuga significava para a gran­de maioria o largar da família e amigos por tempo indeter­minado.
"Ninguém pode acreditar que fomos para a guerra com o sorriso nos lábios, todos felizes. Nós fomos de lágrimas nos olhos. Sabíamos que íamos, mas não sabíamos se regressávamos. É preciso que se diga a verdade. É preciso que se dignifique a memória dos dez mil que lá ficaram. É preciso que se olhe para os 25 mil deficientes de guerra. Será que estão felizes por terem ficado estropea­dos?", interroga José Nunes.

EMOÇÃO.
O orgulho de ter sido combatente passa pela re­volução de Abril. 
Os militares do Ultramar es­tão perfeitamente convencidos de que a guerra levou à paz. Diz José Nunes que "a guerra deu origem à liberdade em Portugal. Todos, ou quase to­dos, os capitães de Abril estive­ram no Ultramar. Foi por causa daquela guerra tão injusta, que o 25 da Abril aconteceu".
Em Portugal existem quase 65 núcleos de combatentes e mais duas dezenas de associa­ções. Durante o ano, juntam-se em jantares ou almoços de re­cordações. Lembranças que não passam pela morte, ou exclusi­vamente pela morte. Memóri­as de pedaços de (in)felicidade.
Isto mesmo se pode constatar, por exemplo, na exposição permanente que está na sede da Comissão de Apoioaos Com­batentes do Ultramar, em Cas­telo de Paiva. Ali encontram-se desde fotografias, cartas, facas de mato e louvores, até fardas dos três ramos das Forças Ar­madas, entre tantas outras coi­sas.
Angústia, alguma nostalgia, nervosismo constante e emo­ção, detectam-se no olhar dos que pela guerra passaram e aí viram ficar amigos caídos.
José Nunes confessa que as suas orações constantes visam a paz no mundo. "Nós não somos assassinos. Em Portuqal, o regime era a ditadura, está­vamos na tropa, tínhamos de fazer o que nos mandavam. A maior parte não sabia de que . guerra se tratava. A maioria julgava que se tratava de de­fender a pátria dos Turras. Éra­mos muito novos, muitos anal­fabetos, o medo ... ", e lágri­mas.

APELOS.
No discurso de José Nunes, aquando da inaugura­ção do monumento em Castelo de Paiva, ficou a mensagem:
 "Portugueses, só é possível es­timular os jovens a servir Por­tugal, se todos, sem demago­gias e partidarismos, souber­mos homenagear aqueles que serviram a Pátria e por ela de­ram a vida. Eu estive lá para ser livre. Não tive opção. Ou ia, ou fugia. O que é que acontecia depois? Essa é a minha ban­deira, fui para lá para ser li­vre".
A conversa com militares do Ultramar é um círculo vicioso. As palavras repetem-se. Sente­se que estão feridos. Irremedi­avelnente feridos no orgulho. Ainda não conseguiram ser re­conhecidos pelo País que há quase trinta anos julgaram es­tar a defender e por ele dariam a vida. Este sentimento levou Nunes, a apelar à união: "Combatentes, temos de nos unir todos, como éramos unidos no teatro de guerra, um por  todos e todos por um para construirmos um Portugal melhor"» 






21 de novembro de 2011

304-O caminho dos escravos


Guiné-Bissau
Cacheu canta e dança junto ao rio "o caminho dos escravos" 
  
Cacheu, Guiné-Bissau- A cidade guineense de Cacheu, a norte de Bissau, começou este fim de semana oito dias de danças nas ruas, música e filmes, para lembrar que a primeira feitoria portuguesa na Guiné-Bissau também já foi "Caminho de Escravos".   
Cacheu é a cidade mais antiga da Guiné-Bissau e fica junto do rio com o mesmo nome, tendo crescido muito graças ao tráfico negreiro. Portugal aboliu a escravatura em 1869 e meio século depois nasceu Caetano José da Costa. Hoje, 90 anos mais tarde, à sombra de um cajueiro, conta à Lusa:
"Naqueles tempos ficou este nome, caminho de escravos, porque os escravos comprados nos arredores eram embarcados aqui, para fora".   
Por isso, pelo segundo ano consecutivo, Cacheu lembra durante uma semana "o caminho dos escravos" com exposições e filmes mas principalmente música e dança tradicional, com o palco principal junto ao rio e ao baluarte construído pelos portugueses.   
[este é do Brasil, mas devia ser idêntico no Cacheu...]
É no forte que está em exposição o último caldeirão para fazer comida para os escravos, agora já meio destruído. "Cá em Cacheu havia recordações de outros tachos, quando eu era pequeno, em algumas casas. Usavam-se nas casas familiares, onde se podia conservar água. Havia até maiores mas quando nos lembrámos de conservar já era tarde, já estava tudo destruído", lembra Caetano José da Costa.   
De resto, diz, não há grandes vestígios desses tempos, talvez umas correntes numa vila vizinha, do outro lado do Cacheu. Nem da importância que a cidade já teve, quando o comércio era fomentado por tanto tráfico humano que Cacheu pode ser comparado à ilha de Gorée (Senegal), garante.  
A escassa centena de metros, junto do rio, um palco abandonado à hora do calor anima-se todas as tardes com atuações de grupos de mandjuandade, que antes se espraiam pela principal rua de Cacheu. José Lopes está lá, é rei de um dos grupos, a rainha uma mulher alta, forte, cabelo liso escorrido e sorriso tímido.   
"Mandjuandade é uma cultura" diz à Lusa José Lopes. Depois busca as raízes da manjuandade, que terá tido origem no casamento. Quando a mulher tinha queixas do marido procurava uma amiga ou amigas, a quem contava os seus desgostos, e criavam uma música sobre isso. Depois, quando a aldeia se reunisse, as amigas cantariam a música, ao mesmo tempo recados para o marido e lamentos da mulher.   
"Basicamente mandjuandade é uma forma de as mulheres transmitirem os seus sentimentos, e uma fonte de conselhos, porque o marido quando ouve a musica já sabe que a mulher está a dizer o que se passa em casa", diz José Lopes.   
No interior da Guiné-Bissau há muitos grupos de mandjuandade e muitos estão esta semana em Cacheu. Hoje já não é sobre a relação entre casais e já não se usam metades de barris mas sim tambores e tabuinhas para acompanhar os cânticos. Hoje são grupos de bairro que se juntam, que organizam festas, que animam cerimónias alegres (casamentos) ou tristes (funerais), ou mesmo cerimónias tradicionais como a do fanado (circuncisão e excisão).   
Assemelham-se a um rancho folclórico, com roupas típicas também, e no sábado ao fim do dia receberam o músico Manecas Costa a dançar na principal rua de Cacheu, sua cidade natal.    
Cacheu, com o seu forte construído pelos portugueses, o caldeirão dos escravos e grandes e estátuas como as de Diogo Cão e Nuno Tristão. Cacheu dos símbolos de Portugal um pouco por toda a cidade. Cacheu cidade histórica, olha esta semana o rio e canta e dança "o caminho dos escravos". 


Angop.20-11-2011 19:10 


20 de novembro de 2011

303-Tratado breve dos rios de Guiné

(Ver também "A descoberta da Guiné")Depois da "Introducção" do "Publicador", o livro do André Álvares de Almada começa na página 18.

18 de novembro de 2011

302-A islamização na Guiné

O Capitão de Fragata M.M.Sarmento Rodrigues, à época Governador da Guiné, proferiu uma conferência na Escola Superior Colonial, em 20 de Novembro de 1947, tendo como tema "Os Maometanos no futuro da Guiné Portuguesa". Entre várias considerações na defesa da colonização portuguesa, referiu-se também como via, na altura, o avanço do islamismo na Guiné:
«...Metade da população da Colónia, ocupando metade do território, está hoje islamizada. A parte restante é feiticista. Cristãos, muito poucos.
Dos moiros, que todos se dizem árabes, são as tribos Fulas (Futa­-fulas, Fula-forros e Fula-pretos), os Mandingas, os Sossos e moderna­mente os Beafadas, os principais representantes, Ocupam a parte interior da Colónia, deixando no litoral os «bárbaros». Apenas no Sul, em Cacine, os Sossos avançam como um braço ao longo da beira-mar; e em Fula­cunda os Beafadas, habitantes de grande parte da região até ao mar, sucumbiram à pressão muçulmana e abriram-lhe, portanto, as portas até ao oceano.
De resto, os feiticistas ainda estão entrincheirados desde Varela e Suzana até ao rio, com os Felupes e Baiotes a fazerem resistente barreira; pelas terras de Cacheu e Canchungo, baluarte dos paganíssimos Manjacos, e através de Bissau e Mansoa, com os seus Papéis e Balantas, pouco dados à contemplação religiosa; e lá estão também os Bijagós impe­netráveis, isolados nas suas ilhas encantadoras, defendidos pelo mar das invasões dos maometanos, tradicionalmente pouco dados às navegações oceânicas.
Ao Sul os Balantas assenhoriam-se, progressivamentc, das novas terras de Catió; e os doces Nalus vacilam e vão caindo sob a pressão impetuosa dos Sossos catequistas.
É esta a posição.
Verifica-se, pois, em toda a Colónia, uma nítida linha de demarcação religiosa. Vem da fronteira do Norte, do Sedengal até Barro, separando os Mandingas dos Baiotes : segue dali, por Bissorã, para Bambadinca até ao Corubal, dividindo os Balantas primeiro dos Oincas e depois dos Fulas de Bafatá; sobe pelo dorso do Quinara até morrer em S. João, deixando os Balantas, pagãos, de um lado, junto ao estuário do Geba e os Beafadas, moiros, do outro; finalmente, os Balantas feiticistas reali­zam a ocupação dos litorais de Catió.
Ao longo e em volta dessa linha de combate - ou melhor, de avanço para os moiros e de resistência para os outros - notam-se os mais eviden­tes sinais de luta.
Um pequeno exemplo.
A tabanca de Sansanto está entre Mansoa e Bissorã. Um pouco antes, para o lado de Mansoa, as aldeias são de Balantas, alegres, bebe­dores, meio-nús, trabalhadores, feiticistas, amantes das saborosas aventuras.
Para o lado oposto, para Bissorã, já nos poentes doirados se recortam as silhuetas dos albornozes brancos em adoração a Allah! São os Mandingas, cada qual um catequista, há pouco tempo ainda cate­quisados pelos seus escravos Fulas, a golpes de espada, porque de outra forma não se resolviam a deixar de ser bebedores.
Sansanto fica entre as duas linhas. Mas o drama já penetrou as moranças da plácida tabanca. Em umas os homens ainda não largaram as deliciosas liberdades primitivas. Noutras, as brancas gilabas já lhes revestem os corpos, num primeiro sinal de muçulmanização. Aquele balanta «vai virar mandinga»! Ainda não reza, não está iniciado, mas já lhe entrou nos sentidos a admiração pelos maometanos, pelos mantos alvos, pelas cerimónias que ele não compreende, pelo porte mais digno.
Esse alegre balanta, folião, irrequieto, amante da boa pinga, vai deixar de roubar, de se divertir sem peias, de se embriagar ruidosamente. Dentro de dias, de semanas, Mahomet será o seu profeta e os seus músculos de aço, que vigorosamente lavravam a terra, hão-de enlan­guescer, pois à dura luta com a natureza vai preferir a contemplação dos paraísos de Allah, sentado numa esteira orando ao sol poente, talvez trabalhando o coiro à sombra do beiral, enquanto as suas mulheres, as suas escravas, de enxada em punho e filhos às costas, ao sol e à chuva. hão-de cavar e semear a terra para servir humildemente o arroz branco ao seu ocioso senhor!...
E este drama que hoje persiste, eficazmente, embora sem violência, já vem de longos tempos, sem descanso e com seus períodos de exacer­bação e massacre. Vinda do Senegal, dos almorávidas, ou de mais longe ainda, nos impérios ou nas idades, a bandeira do crescente tem vindo sistemática e incansavelmente a submeter os pagãos ou a empurrá-los para o mar. A nossa Guiné coube, sobretudo, ser alvo das atenções dos fanáticos que do Futa Jalom, no último século desceram pelas encostas e se espraiaram pelas planícies, alfange alçado, impondo o seu crê ou morres aos boçais agricultores serni-nús. E aonde não chegou a força da guerra, foi o artifício. Os Fulas introduziram-se primeiro como criados e servidores, foram-se alargando em número e em importância; impuse­ram-se no princípio pela superioridade de espírito e, no momento preciso, de armas na mão, transformaram os seus senhores em seus escravos. É esta, em rápida impressão, a história dos Mandingas da Guiné, outrora prestigiados, hoje postos em segundo plano pelos Fulas.
Assim os Fulas avassalaram toda a faixa do interior, catequizando os nossos Mandingas - que por sua vez já tinham fugido a um ataque semelhante feito na sua própria pátria de origem, - e outras raças, «virando» os Beafadas, seduzindo os Nalus e empurrando para o mar os mais impenitentes.
Ser fula era ser alguém. Era o poder das armas e o poder da fé. Apenas a tradição não os ajudava e por isso ainda hoje alguns fulas não são árabes e ainda muitos mandingas se não decidiram a deixar de ser «Soninqués», bebedores.
Mas o que podemos dizer é que se num dado momento não tivesse surgido a ameaça do nosso poderio e o dos franceses, povos como o felupe e outros teriam desaparecido ou adorariam Mahomet. A fúria catequista de um Fodé Cabá e outros arrasava tudo, cortava todas as cabeças que se não curvassem perante AlIah. Fomos nós que evitámos essa heca­tombe e assim, indirectamente, preparámos o campo para a nova semente ira cristã.
Ora a invasão maometana, visou o nosso território de há longos séculos. Já no século XV havia propagandistas entre o povo mandinga - no tempo em que o rei de Portugal se dizia senhor da Guiné e pre­tendia fazer muita cristandade.
Esta nossa permanente e generosa intenção foi, de início, efectuada pelo envio de missionários, verdadeiros homens de fé - não isenta de audácia - que trabalharam com espantoso desembaraço, desvendando as terras, investigando os costumes e baptizando. Não se poderá dizer que tivessem efectuado um perfeito apostolado e conseguido insuflar puras luzes de religião cristã nos escurecidos cérebros da selva: mas a verdade é que, com a simples água baptismal lançaram a primeira, e porventura a mais sólida, semente de uma nova vida espiritual. O baptismo assim dado ficou amarrando as consciências primitivas a um novo e alto dever. Não foi ele ministrado sob o cutelo ameaçador; mas mesmo que o fosse, como O fizeram os ferozes sequazes de Mahomet; um homem baptizado fica preso a essa religião e não raro se torna um entusiasta do credo que lhe foi imposto.
Foi, então, com os primeiros missionários que nasceram os primi­tivos núcleos de cristãos da nossa Guiné. Desde o início, as caravelas da Guiné traziam os padres, embora poucos, espalhavam-nos pela costa e eles internavam-se, com inacreditável êxito, pelo interior. Os Bijagós, Farim, Geba e outros pontos foram percorridos com extraordinário pro­veito para a dilatação da fé.
Os chefes indígenas abriam-se sem receios, e muitos entregaram-se às novas ideias redentoras. Sobre o mapa nebuloso desse tempo brilham autênticos focos de luz: Cacheu, Geba, Guínala...
Perdeu-se, porém, a continuidade. As naus pouco se detinham na Guiné, passavam à Mina, iam já para a índia. A Guiné era uma terra entregue à exploração directa, delegada um pouco aos colonos de Cabo Verde. Não se pensou mais em evangelização.
Entretanto vieram os moiros, pregando por um lado e dizimando os mais rebeldes. E nós assistimos, quase indiferentes, à instalação em nossa casa, da maior barreira à nossa expansão.

Julgo evidente que a cristianização de gentios significa civilização.
E tenho como certo que ela quer dizer também nacionalização. Trata-se portanto de um problema nacional, de resto baseado nas tradicionais direc­trizes da nossa expansão, as quais temos mantido, com extraordinária intuição, através dos séculos. ...»

16 de novembro de 2011

301-Lágrima de preta

Belo enquadramento da artista e professora Leonor Machado (é casada com o camarada tabanqueiro de Matosinhos Jorge Cruz) do também belo poema do pai do meu amigo Frederico de Carvalho. Não fiz estas análises mas conheci muitas pretas assim, e com as mesmas conclusões.