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21 de dezembro de 2011

333-Presença Portuguesa na Senegâmbia

Mamadou Mané *
Algumas Observações Sobre a Presença
Portuguesa na Senegâmbia
até ao séc. XVII **

O tema geral do Congresso oferece-nos a oportunidade de examinarmos certos aspectos da presença portuguesa na África atlântica negra. Abordaremos o tema no seu contexto histórico o dos contactos luso-africanos. Tendo estes contactos (do séc. XV ao XVII) conduzido a uma presença portuguesa relativamente importante, para não dizer hegemónica, pode comparar-se o seu impacto a um outro que o precedeu o dos Muçulmano-árabes, na região do Sahel (Oeste Africano).
Atendendo a este facto rapidamente se proclamou a vitória da «caravela sobre a caravana», embora, mais tarde, se tivesse relativizado a afirmação. De facto, a presença portuguesa, em nome das diversas motivações que a provocaram, não foi, à partida, muito benéfica para os iniciadores a ponto de Jean Devisse não ter hesitado em falar de decepção: o ouro que se ia procurar lá era obtido em quantidade insuficiente; as tentativas de cristianização das populações costeiras, para fazer delas baluartes eficazes contra o expansionismo muçulmano, foram um malogro; as trocas comerciais, no início, eram medíocres, não obstante o carácter pacífi co das relações com os autóctones a partir de 1450.
No entanto, a decepção não levou ao desânimo, e os Portugueses, ao descobrirem as costas atlânticas de África, e ao estabelecerem-se lá, contribuíram muito para o enriquecimento dos conhecimentos daquela época sobre o Continente relativamente ao qual abundavam lendas e afi rmações contrárias à verdade, colhidas especialmente nos escritos antigos de Ptolomeu.
As novas informações fornecidas pelos navegadores portugueses do séc. XV reintegravam então a África no centro das preocupações de ordem geográfico-económica da Europa em expansão marítima. Desde então, e até aos nossos dias, têm sido publicados estudos sobre este assunto, sendo o mais recente (de que tenho conhecimento) o de António Carreira.
O tema da presença europeia, especialmente portuguesa, na África negra, é, pois, actual. Por isso, também nós o abordámos, mas na perspectiva do presente Congresso.
Limitámos o nosso estudo à Senegâmbia, e não foi por acaso que escolhemos esta zona de África. É que ela constituiu o primeiro espaço dos países negros a ser descoberto pelos Portugueses desde os meados do séc. XV.Na sua acepção histórica, a Senegâmbia engloba não só o Senegal e a Gâmbia mas também a Guiné-Bissau até à zona que circunda a Serra Leoa, ao Sul.
No aspecto comercial, os Portugueses tornaram-se progressivamente hegemónicos na Senegâmbia, ao longo do séc. XVI, conseguindo orientar novamente em direcção à Costa o essencial dos circuitos tradicionais do comércio regional inter-africano.
O pontapé de saída foi dado a partir de 1460 com o povoamento e a exploração das Ilhas de Cabo Verde, graças à mão-de-obra servil negra adquirida no Continente em frente, o que deu rapidamente origem a uma produção têxtil, e a impulsionou, com as plantações de algodão de Fogo e Santiago.
Tecidos e tangas eram trocados por escravos, uma parte dos quais começava a ser reexportada para a Europa e já para a América. De modo que, a partir de 1582, se notava em Fogo e Santiago a presença de 1608 Portugueses, 400 escravos libertos e 13 700 escravos.
Durante esse tempo, na costa africana, como pontos de apoio de penetração comercial portuguesa, fundaram-se do Norte a Sul, no séc. XVI, as localidades de Portugal (Porto dAle), São Domingos, Cacheu (fundada em 1588), São Filipe (a montante do Cacheu, em 1581), Porto da Cruz (em 1584), no Rio Grande, ao Sul, na Guiné-Bissau. Antigos centros comerciais africanos situados ao longo dos numerosos cursos de água entravam igualmente em posse dos comerciantes portugueses: Joal (na Pequena Costa do Senegal); Barra e Bintan na embocadura do Gâmbia; Kassan, Kantor, Sutuco na Alta Gâmbia; Quinquin, Sarar, Bolor na margem sul do Casamança. Anteriormente, no fi m do séc. XV (em 1488), tentou-se, sem sucesso, a construção dum forte português, na embocadura do rio Senegal.
Estes, alguns dos centros motores de intercâmbio luso-africano no comércio atlântico senegambiano. Até ao fi m do séc. XVIII e no início do XIX, estes centros continuavam a desempenhar essa função, mas com um número cada vez maior de Franceses e Ingleses.
No fi m do séc. XVI, na região do Rio Grande, que era a mais ocupada pelos Portugueses na Senegâmbia, contavam-se 50 casas de brancos e de mais de 100 Portugueses.
É o momento de evocar a acção determinante dos «Lançados-Tangomaos» no êxito dos Portugueses na Senegâmbia. Relativamente a eles, desenvolveu-se uma abundante literatura focando as suas origens, a sua formação e as importantes funções económico-culturais a eles atribuídas na zona aonde fizeram a sua aparição a partir dos primeiros anos do séc. XVI. Na maior parte, eram judeus de origem, cristianizados ou não, lançando-se, a partir das Ilhas de Cabo Verde, na aventura africana. Vivamente empenhados nas trocas com os Africanos, não tardaram, em nome dos interesses comerciais, a integrar-se firmemente no ambiente sociocultural africano, a ponto de perderem por vezes algumas das suas características europeias, casando com as autóctones, surgindo assim uma descendência mestiça que estava na origem da língua e da cultura crioulo-portuguesa bem impregnadas na parte Sul da Senegâmbia.
A maioria dos Portugueses que comerciavam em todos os recantos da região eram precisamente os «Lançados-Tangomaos», criando vínculos estreitos com os soberanos locais que eram seus protectores. O mais célebre desses lançados no séc. XVI chamava-se João Ferreira, a quem os africanos alcunharam de «Genagoga» em virtude de dominar várias línguas da região. Acabou mesmo por casar com uma princesa do reino Denianke, do Norte do Senegal, de quem teve um fi lho.
Os «Lançados-Tangomaos» eram pois Europeus dotados duma facilidade de adaptação extraordinária no meio negro-africano. Esta, uma das razões pelas quais eram espoliados e perseguidos pela administração portuguesa, convencida de que deslustravam assim a imagem de testemunho do Ocidente Cristão entre os povos «bárbaros».
Outro motivo que justificava essa acção contra os «Lançados» de Portugal residia na vontade de autonomia comercial que esses exilados da cultura portuguesa manifestaram relativamente ao monopólio real que a coroa de Lisboa tentava impor ao comércio atlântico senegambiano. Apesar da promulgação de medidas draconianas contra eles, os «Lançados-Tangomaos» persistiam nos seus empreendimentos, se bem que tais medidas tivessem feito diminuir a sua eficácia e sobretudo as fontes de aprovisionamento de produtos europeus. Mas pouco lhes importava.
Ingleses, Franceses e Holandeses começavam a chegar a partir do séc. XVI, e muitas vezes com mais mercadorias para trocar que os Portugueses. Para os «Lançados» não havia escrúpulos de ordem nacionalista ou patriótica: os negócios, acima de tudo. Tanto mais que dificilmente se lhes reconhecia a sua qualidade de Portugueses. Ei-los, pois, a servirem de intermediários aos concorrentes Ingleses e Franceses. Entre os seus descendentes mestiços sulcando o Gâmbia, o rio Cacheu e a Serra Leoa, recordam-se alguns nomes:
Bibiana (ou Viviana) Vaz, uma mulher que geria importantes negócios em Cacheu em 1682 e que tinha frequentemente rixas com a administração portuguesa do Cacheu.
José Lopes de Moura, neto dum imperador da dinastia dos Manes da Serra Leoa, durante a primeira metade do séc. XVIII
Tomba Mendes também do séc. XVIII, descendente duma mestiçagem com a família real do Niumi (na Baixa Gâmbia).
António Vaz parente e contemporâneo de Bibiana Vaz.
Os Lançados tinham, pois, contribuído para a ruptura do monopólio português no comércio da Senegâmbia, em proveito duma maior diversificação dos parceiros económicos, o que lhes era fácil de realizar, tanto mais que os soberanos africanos optaram também pela mesma política comercial. Pelos fins do séc. XVI já se tinham assinalado pela sua grande receptividade à influência portuguesa áreas como a Baixa-Gâmbia (Niumé, Bintan, Hereges); o reino de Kasa (Casamança), onde um dos seus soberanos, Masatamba, era tão favorável aos contactos com os Portugueses que desencadeou guerras contra os povos vizinhos da Baixa Casamança, que punham entraves a esses contactos (comia à mesa, utilizando louça portuguesa, segundo referências de Álvares de Almada, que o visitou em 1570); os países Papel-Brame (entre os rios Cacheu e Geba) onde, com a construção de algumas capelas, houve tentativas bem sucedidas de cristianização ao nível da classe dirigente; os países Biafad (ao redor do Rio Grande) que serviam de intermediários importantes às transacções comerciais portuguesas entre a Serra Leoa e o espaço da Gâmbia.
Tais aquisições, os Portugueses iam vê-Ias perturbadas no séc. XVII, pela concorrência cerrada de Ingleses e Franceses. Apesar da acção enérgica de Gonçalo Gamboa de Ayala, capitão-mor do Cacheu a partir de 1641, para redinamizar a antiga preponderância portuguesa, era com outras influências estrangeiras que a Senegâmbia, na sua maior parte, entrava em contacto. Já se disse que o sucesso da concorrência inglesa e francesa aos interesses portugueses não deixava de se relacionar com a colaboração dos «Lançados-Tangomaos».
 Esta nova conjuntura dera um grande impulso ao comércio atlântico e orientava-se cada vez mais para a Deportação de negros africanos (vendidos como escravos) de que a Senegâmbia era uma das plataformas giratórias. Esta tornou-se numa grande encruzilhada aonde chegavam não apenas Europeus mas também outras «populações do interior do Sudão Oriental, que se tinham introduzido (como os «Lançados») no comércio atlântico como agentes intermediários. Queremos referir-nos aos comerciantes africanos conhecidos pela designação mandinga de «Juta». Acabaram por rivalizar com os «Lançados», sulcando todos os circuitos comerciais senegambianos, desde a Gâmbia à Serra Leoa. Embora muçulmanos por oposição às populações autóctones ligadas mais à religião tradicional, por vezes ganhavam vantagem sobre os Lançados. Eram facilmente aceites no meio, graças à preponderância, na Senegâmbia, da cultura mandinga, a que pertenciam quase todos. Provenientes do reservatório de escravos em que se tinha tornado o Sudão Ocidental, os «Juta» eram, aos olhos dos negreiros, mais hábeis que os «Lançados» no aprovisionamento do tráfico de escravos.
Tal era, no séc. XVIII, a situação dos «Lançados», vítimas duma conjuntura para cuja origem eles muito tinham contribuído. Viam-se cada vez mais marginalizados em favor dos Julas mandingas, integrados no islamismo que traficavam muitas vezes directamente com os Europeus, na Costa. Acrescentando a estes factores a repressão de que eram vítimas os «Lançados» e os seus descendentes por parte da administração local portuguesa, pode facilmente compreender-se o refluxo comercial e cultural do caso português na Senegâmbia, pois todos esses factores tinham retardado, senão anulado, o processo de aculturação que se desenhava com a formação e o desenvolvimento do crioulo português. Apenas restavam à influência portuguesa as Ilhas de Cabo Verde e o espaço costeiro Guiné-Casamança, onde, até ao séc. XIV, beneficiava ainda das simpatias do reino Kasa, dos países Papel-Brame e Biafad. E não foi um acaso se este espaço acabou por constituir o conjunto das colónias portuguesas da África Ocidental.
Analisámos certos aspectos da presença portuguesa na Senegâmbia e igualmente as potencialidades de que ela dispunha e que podiam ter tomado maior amplitude, se não fosse o conjunto de circunstâncias a que se fez referência. No entanto, estas observações sobre o caso português não devem levar-nos a pôr entre parêntesis, e menos ainda a negar, a existência e o dinamismo interno das formações sociais africanas nesses locais. Os Portugueses do séc. XV encontraram-nas já bem estruturadas, controlando os seus espaços respectivos no plano administrativo, político, económico e cultural.
Apesar da sua dependência relativamente a produtos fornecidos pelo comércio europeu, era como parceiros livres e soberanos que as suas aristocracias reinantes acolhiam os europeus, aos quais exigiam o pagamento de taxas e de impostos diversos. Se bem que, a respeito do que se ia passar no séc. XIX com a penetração colonial, o tráfico negreiro, do qual elas tiravam lucro, cavasse antecipadamente o seu próprio túmulo.
A verdade é que, à sua chegada no séc. XV, os primeiros navegadores portugueses ficaram surpreendidos pelo grande número de espaços territorializados na Senegâmbia (reinos, impérios, etc...), que aí existiam desde há muito e que tinham dado à zona uma fisionomia uniforme. Do rio Senegal, ao Norte, ao Rio Grande, ao Sul, passando pelos rios Gâmbia, Casamança e Cacheu, tinham-se afirmado como entidades políticas autónomas os espaços Peul-Denianke, Wolof-Serer, Kaabunke (Kaabu), Kassanga (Kasa), Papel-Brame, Biafad, etc.Não obstante este grande desmembramento de Estados, podiam notar-se, com Álvares de Almada, três principais focos motores políticos: o conjunto Folof-Salum (entre os rios Senegal e Gâmbia); o Kaabu, controlando a Gâmbia, o Alta Casamança e o rio Geba; o Kasa, que deu o nome ao rio Casamança. Estas três entidades estavam ligadas entre si por trocas comerciais e culturais Norte-Sul-Norte, no quadro dum tráfi co inter-regional activo, também ele ligado ao comércio de longa distância na direcção Este-Oeste, que punha em comunicação a Costa e a parte interior do país sudanês. Eram estes circuitos que os Portugueses tinham integrado antes de os desviarem para o novo centro de gravidade a Costa. A Senegâmbia constituiu, pois, durante muito tempo, uma aposta importante. Mas estava longe de aparecer como um finisterra passivo onde vinham exercer-se todas as influências, visto ter a sua personalidade histórica e política que tentava fazer prevalecer nas relações com o exterior, quer fosse europeu ou africano ocidental.
Vamos observar, nas linhas seguintes, a reacção da Senegâmbia ao caso português, em paralelo com o interior do Sudão Ocidental, que vivia a influência muçulmano-árabe.
No Sudão Ocidental, o impacto muçulmano-árabe manifestara-se nitidamente durante os séc. 13, 14 e 15. A prosperidade económica e o prestígio intelectual de cidades como Tombouctou, Djenné e Gao deviam-lhe muito. O que se passou, portanto, no Sudão, era de longe anterior à penetração europeia na Senegâmbia. Atendendo a este facto, poderiam de repente contrapor-nos o factor-tempo que interviera amplamente a favor da influência do Maghreb no Sudão. De facto, foi daí (do Magherb) que se desencadeou, durante toda a Idade Média, a dinâmica muçulmano-árabe no início do comércio transariano, judiciosamente posto em paralelo pelos historiadores com o comércio atlântico europeu que se estabeleceu somente a partir do séc. XV.O factor tempo actuou eficazmente em todos os processos de aculturação. Tem de se reconhecer este facto. Para o conjunto da Senegâmbia, os Portugueses apenas dispuseram de século e meio (da segunda metade do séc. XV até ao fi m do séc. XVI), em comparação com os três séculos, pelo menos, de comércio transariano.
Mas o factor tempo, embora muito importante, não é sufi ciente por si só. Há que acrescentar outros parâmetros igualmente válidos: as modalidades pelas quais se estabeleceram os contractos, a sua permanência, as reacções do meio de acolhimento, a posição geográfica da influência estrangeiram, o ambiente geral do espaço de acolhimento, enfi m, as personalidades socioculturais de cada uma das entidades em contacto. E a respeito da influência muçulmano-árabe no Sudão? É preciso notar que os comerciantes do Maghreb tinham sido duplamente bem-sucedidos nos seus contactos com o Sudão medieval: no plano económico, abriram caminho ao comércio transariano que assegurava os seus aprovisionamentos em ouro e escravos, essencialmente; no domínio religioso, conseguiram a conversão pacífica ao islamismo dos grandes soberanos locais, especialmente no Mali e no Songhay, onde se instaurou, a partir do séc. XIV, o hábito da peregrinação a Meca com o que isso trazia de irradiação à civilização muçulmano-árabe.
Recorda-se ainda a célebre peregrinação a Meca do imperador do Mali, Kanku Musa, no séc. XIV. Regressou ao seu país aureolado de glória e acompanhado de letrados e sábios muçulmanos, sendo de destacar o arquitecto Es-Sahéli, que muito contribuiu para a afirmação da arquitectura tão típica de Tombouctou e de Djenné.
No entanto, a originalidade da penetração muçulmana no Sudão Ocidental da Idade Média não reside apenas no seu carácter pacífico e aristocrático. Aparece também na emergência progressiva duma camada social africana seguidora de Marabu que, muito mais que os Brancos muçulmanos, assegurou o sucesso da difusão do Islão. Foram esses especialistas do Islão (os marabutos) que realizaram ao nível popular a islamização no Sudão Ocidental e até mesmo em certos enclaves da Senegâmbia. Repartidos em famílias, esses marabutos tinham-se espalhado por quase todo o Oeste africano, sendo focos de início da sua acção a curvatura do rio Niger (Tombouctou, Gao, Djenné).
Eram essencialmente de etnia saracolé ou mandinga, exceptuando o grupo étcnico marabútico que surgiu muito cedo também no vale do rio Senegal, no Tékrour, da etnia dos Peuls. Não é pois de surpreender a predominância do impacto muçulmano-árabe no Sudão Ocidental, bom fundamento nestes factos, alguns não hesitaram em falar do Islão negro antigo. Ora, nada disto se produziu verdadeiramente nas relações luso-africanas da Senegâmbia, onde o acolhimento aos Portugueses era apenas comercial.
Apesar da existência das Ilhas de Cabo Verde em que se tinha aclimatado a cultura portuguesa, apesar do aparecimento e da afirmação do crioulo português em certas regiões, o processo de aculturação iniciado pelos Portugueses permaneceu em estado embrionário. De facto, quase não houve conversões de soberanos locais ao Cristianismo. Nas raras ocasiões em que se verificaram, foram devidas mais à táctica política para prepararem um apoio militar da parte dos Portugueses contra uma ameaça de invasão, ou para eliminarem uma tribo rival. Em todos esses casos não houve referências a africanos que tivessem manifestado a sua vontade de proselitismo religioso, como fizeram os marabutos no espaço sudanês. É que o Cristianismo, nessa época, raramente tentou adaptar-se às realidades culturais e espirituais dos povos autóctones. Foi um pouco demasiado iconoclasta, incompreensivo e intolerante relativamente às práticas religiosas do meio. Era muitas vezes uma tal atitude que guiava a acção da maior parte dos missionários na Senegâmbia. A grande preocupação dos missionários do início do séc. XVI, como Baltasar Barreira, Manuel Álvares, Vitoriano Portuense e tantos outros, era primordialmente salvar as almas dos colonos portugueses em contacto com a África, ainda que levantassem de tempos a tempos e em certos locais conversões ao nível dos autóctones.
Este balanço da parte de Portugal não estava à altura dos trunfos de que dispunha à partida. É esse um dos grandes paradoxos do caso português na Senegâmbia. Sabemos que noutros locais, nos reinos Kongo da África Central atlântica, por exemplo, não se observa este paradoxo. A admiração dos soberanos Kongo pelo modelo ocidental cristão a partir do séc. xvi, se não tivessem sido posteriormente os incidentes nefastos do desenvolvimento do tráfico de escravos, poderia ter conduzido a um exemplo extraordinariamente fecundo de cooperação entre Portugal e a África negra. Também aí a experiência se modificou repentinamente para ter tomado uma orientação demasiado mercantilista da parte dos Portugueses. Não eram, pois, as oportunidades nem os trunfos que faltavam aos Portugueses na África atlântica para lá se estabelecerem e desenvolverem acções duradouras do tipo das que se verificaram no Sudão Ocidental medieval sob a influência muçulmano-árabe.
Na Senegâmbia, apontámos as contradições do fenómeno Lançados-Tangomaos, a repressão que sofreu da parte da Metrópole e dos agentes coloniais portugueses. E, no entanto, a presença portuguesa manifestou-se lá rapidamente pela constituição dum embrião de património edificado, com os fortes, as feitorias, especialmente ao longo da Costa que vai da Gâmbia, ao Norte, até S. Jorge da Mina, ao Sul, passando pela Serra Leoa.
A história continuará a interrogar-se sobre essa presença portuguesa na Senegâmbia no decurso dos sécs. 15, 16 e 17, onde dominou o comércio, servida pela sua colónia de povoamento das Ilhas de Cabo Verde, onde forjou uma língua e uma cultura crioula relativamente popular, onde beneficiou de simpatias políticas locais, graças às suas testas-de-ponte que eram os Lançados, sem que tudo isso fosse dar a algo de notável no plano arquitectural, por exemplo. Não dizemos que não haja absolutamente nada. Temos a toponímia, em uso ainda nos nossos dias; há também, a partir dos séc. 18-19, o aparecimento da habitação rectangular africana munida de varanda, de inspiração portuguesa.
Mas julgamos que, deste ponto de vista, a Senegâmbia poderia ter sido o primeiro Brasil dos Portugueses. De facto, a explicação, em última análise, de semelhantes paradoxos, aparentes ou reais, atribui-se ao facto de a África atlântica, ao contrário do Brasil, não ser de uma maneira geral uma tábua rasa política e demográfica. Há ainda a acrescentar que, aos olhos dos Portugueses da época, o continente, durante todo o período do Tráfico dos Negros, era considerado unicamente um reservatório donde se ia extrair mão-de-obra servil para o desenvolvimento das plantações das Américas.
Foi esta concepção estritamente economista da administração e dos colonos portugueses que anunciou o fim iminente duma fase importante das relações luso-africanas na Senegâmbia.

* Director do Património Histórico e Etnográfico no Ministério da Cultura, Dakar, Senegal.
* * Comunicação ao 1.º Congresso sobre o Património Construído Luso no Mundo, Março 1987.

Referência
Mané, M. — Algumas Observações Sobre a Presença Portuguesa na Senegâmbia até ao séc. XVII. Revista ICALP, vol. 18, Dezembro de 1989, 117-125.

20 de dezembro de 2011

332-Os direitos dos "indígenas" e o sindicalismo

É um opúsculo que encontrei na casa do alfarrabista João Soares, na Rua das Flores, Porto. É um vício meu andar por esses antros bafiosos... estou a brincar: são locais maravilhosos onde a memória se recupera ou vai à memória dos outros, mais além da sua. E é bom.
Foi escrito em Abril de 1957. Não sei quem foi o Fernando Seabra, a quem ele dedicou este exemplar em 1962. Quanto ao seu autor, Pio Coelho de Mendonça, só sei que é (ou foi?...) especialista em direito, com vários livros publicados, o último (Portugal e a cooperaçào com os Novos Paises de Expressào Portuguesa : Um estudo de direito internacional) em 1981, que não conheço, mas depreendo que estará já de acordo com a nova realidade decorrente das independências. Ele estava na Guiné em 1962 como se vê, mas não sei se estaria lá durante a guerra colonial. Da leitura deste opúsculo retrato-o como um homem cheio de contradições, a navegar serena e pacificamente nas águas do regime então vigente. Vão ver por alguns excertos que aqui trago (a obra tem 41 páginas...). 
Há vinte e cinco anos, o eminente Dr. René Sand escrevia: «Dans notre monde, fait de contrastes, où l'on compte encore cinq millions d'esclaves, où le péonage et le travail forcé prolongent le servage, il ne faut pas aller bien loin pour revivre toutes les périodes de l'histoire. À deux journées de Marseille, des populations paissent leurs troupeaux, tissent leurs vêtements, préparent leur nourriture frugale comme le faisaient les tribus primitives. Là, nul ne luite contre des maux accablants; l'homme impose sa loi à la femme, traitée en bête de somme; les enfants ne sont ni protégés ni instruits; l'esclavage domes­tique fournit les serviteurs. Ailleurs, nous retrouvons à peu de chose près l'existence du paysan à l'époque féo­dale; dans des cabanes de bois ou de torchis, des familles entières, entassées avec les animaux qu'elles élèvent, sont livrées sans défense aux ravages des maladies, à la supers­tition, à l'ignorance, au dénuement. Les aveugles, les infirmes, les aliénés, les débiles de corps et d'esprit errent par les routes, mendiant leur pain, et se couchent dans un fossé pour mourir. Lorsque l'industrie s'installe dans ces pays, elle soumet les hommes, les femmes, les enfants à d'impitoyables conditions de travail» (René Sand, in Le service social à travers le monde, Armand Colin, Paris, 1931, pâg. 227).
[Tradução minha : No nosso mundo de contrastes, onde há ainda cinco milhões de escravos, onde a peonagem e o trabalho forçado prolonga a servidão, não é preciso ir muito longe para reviver todos os períodos da história. A dois dias de Marselha, as pessoas pastam os seus rebanhos, tecem suas roupas, preparam sua comida frugal como fizeram as tribos primitivas. Aí ninguém luta contra o mal opressor, o homem impõe a sua lei sobre as mulheres, tratadas como burro de carga, as crianças não são nem protegidas, nem educadas ; a escravidão doméstica fornece os servos. Além disso, encontramos quase exactamente a existência do camponês da era feudal ; em cabanas de madeira ou de lama e palha, famílias inteiras, misturadas com os seus animais, estão sujeitas sem defesa à devastação das doenças, à superstição, à ignorância, à miséria. Os cegos, os enfermos, os loucos, fracos de corpo e mente vagueiam pelas estradas, mendigando comida, e deitam-se numa vala para morrer. Quando a indústria se instala nesses locais, submete os homens, mulheres e crianças a cruéis condições de trabalho]

«Há vinte e cinco anos, em Marselha, e, infelizmente, é o ambiente actual de África, onde se faz sentir a necessidade de mais assistência médica, de mais assistência social, de mais cuidados com a penúria, para não dizer miséria do africano.
Esta miséria do africano é física, moral e espiritual, tocando todos os matizes.
E é justamente esta miséria que gera em África uma série de problemas e de situações que, se se localizam em território ultramarino, atingem seguramente fronteiras lar­gas com repercussão em todo o mundo.
São problemas de trabalho, problemas de medicina e higiene industrial, problemas 'de formação profissional, de formação de quadros, de divisão profissional e técnica de trabalho; são problemas de ordem económica, social, política, agrária, etc., um mar de problemas.
Atolado neste complexo, o africano procura, naturalmente, uma orientação, um destino na sua vida. É sabido de todos que nos últimos anos se tem vindo a acentuar a presença europeia em África. A época da ocupação militar está superada e hoje caminha-se sobre o duplo trilho da ocupação científica e da presença económica e demográfica.
A África é objecto de estudo; o continente africano é a reserva de amanhã; é o escoadouro natural de uma Europa cansada.
Aí se buscam as reservas económicas e industriais, aí se começa a formar um «clima» de coisas que, se é certo ser produto do trabalho humano europeu, não é menos certo ficar sempre com a marca do meio ambiente.
É neste ambiente que o africano, o trabalhador africano procura um apoio, um arrimo e cuida havê-lo encontrado no sindicato, na organização sindical, esteio dos fracos perante um mundo industrial acelerado no seu desenvolvimento. Será esperança fagueira ou realidade sensível?»
Estende-se depois, por várias páginas, em explanações sobre a revolução industrial, a origem dos sindicatos, os operários e os não operários, o cariz marxista da luta de classes, o corporativismo implantado em Portugal como forma de conciliar interesses do patronato e dos trabalhadores, e os direitos destes perante o sistema. Avança de seguida sobre os direitos e condições dos "indígenas" em relação aos direitos dos europeus para discordar da sindicalização daqueles.
(...) Segundo o artigo 2.º do Decreto-Lei n." 39:666, de 20 de Maio de 1954 (Estatuto dos Indígenas Portugueses das Províncias da Guiné, Angola e Moçambique), conside­ram-se indígenas os indivíduos de raça negra ou seus descendentes que, tendo nascido ou vivendo habitualmente nas referidas províncias, não possuam ainda a ilustração e os hábitos individuais e sociais pressupostos para a integrai aplicação do direito público e privado dos cidadãos portugueses; são igualmente indígenas os indivíduos nascidos de pai e mãe indígenas em local estranho àquelas províncias, para onde os pais se tenham temporariamente deslocado.
Quer dizer, pelo corpo deste artigo 2.º é indígena o indivíduo de raça negra, ou seus descendentes, que, tendo nascido ou viva habitualmente naquelas províncias, não possua ainda a ilustração e os hábitos individuais e sociais.
Por outras palavras, um indígena deixa de o ser desde que esteja identificado com o teor de vida daqueles que não são indígenas.  .

Há, neste conceito legal, três elementos que contri­buem para a definição de indígena: a raça, a cultura e o território. O segundo elemento é predominante.
No artigo 64.º está indicada a única hipótese de perda da qualidade de não indígena (Não interessa, aqui, descer a minudências sobre o conceito de indígenas. A hipótese deste artigo 64.º refere-se ao não indígena assimilado; a qualidade originária de não indígena, ou cidadão,  imutável Para desenvolvimentos sobre esta matéria veja-se o Prof. Adriano Moreira, in Administração da justiça aos indígenas, Lisboa, 1955, pág. 21.).
(...) Para efeitos de nacionalidade, ao conceito civil de domicílio acrescenta-se algo mais: basta o viver habitual em território português sujeito a indigenato. No Código Civil, fala-se em permanência; no Estatuto, fala-se em habitualidade.
Resta-nos falar dos direitos políticos dos indígenas. Para se tomar posição sobre este problema, temos de pôr um problema mais vasto: os povos colonizados devem ser encaminhados no sentido da independência politica, ou da autonomia administrativa conexada com o princípio da unidade nacional, ou da autonomia constitucional?
Eis o «punctum pruriens» [ponto incómodo do juízo, contestação – termo jurídico] da questão.
Na hipótese do primeiro caminho, reconhecia-se a um povo colonizado o direito de ser um sujeito de direito inter­nacional público. Neste caso não há que falar em direitos políticos de indígenas, a menos que por esta expressão se queira significar o indivíduo natural de um determinado território. E são, então, indígenas, num território africano, tanto os indivíduos de raça negra como os de raça branca ou epiderme não negra (Cfr. Georges Le Brun Keris, in Mar! des Colonies, Paris, Le Centurion, 195õ, pág. 9, nota 2.). É, por exemplo, o caso na África do Sul.[onde os brancos eram indígenas diferentes, é sabido...]
Nesta tal hipótese, ter ou não ter direitos políticos é pura questão de direito constitucional, direito público interno.
Todo este problema, porém, é complexo, entronca em última análise, com um problema de fundo: o fim de uma colonização («Toda a colonização coroada de êxito tende a criar condições que tornem a sua continuação supérflua e impossível. É este o seu fim e de certo modo a sua justificação moral». Assim se exprime E. F. Gautier, in Le Sehere, Payot, Paris, ~. pág. 141.).
Procuremos, antes, precisar a posição portuguesa nesta matéria dos direitos políticos dos indígenas.
«No direito português, orientado pelo princípio da unidade nacional, o problema dos direitos políticos dos indígenas define-se em função do conteúdo e validade pessoal e territorial das garantias constitucionais. A tal respeito, o artigo 25.0 do Decreto-Lei n. o 59:666, de 20 de Maio de 1954, que aprovou o Estatuto dos indígenas por­tugueses das Províncias da Guiné, Angola e Moçambique, diz expressamente o seguinte: «não são concedidos aos indígenas direitos políticos em relação a instituições não indígenas. § único: os indígenas terão representantes escolhidos pela forma legal. nos Conselhos legislativo ou de governo de cada província.
«Deste modo, atribuindo à expressão direitos políticos o sentido que antes se definiu, em face da doutrina corrente, para os Estados que se orientem pelo princípio da unidade nacional, como entre nós acontece, e reservando a pala­vra cidadania para designar o estado jurídico caracteri­zado precisamente pela detenção dos poderes jurídicos pertinentes à intervenção no exercício da soberania, os indígenas integram uma categoria de nacionais que não são cidadãos, como não o são os não indígenas que não reunam as condições fixadas por lei.»
(...) Dissemos, atrás, que, após a definição de indígena, procuraríamos determinar a sua capacidade jurídica.
Ora, pelo que respeita a direitos políticos, o artigo 23.° do Estatuto dos indígenas diz que não são concedidos aos indígenas direitos políticos em relação a instituições não indígenas (metropolitanas).
Preferentemente a direitos civis, o artigo 3.º é claro: os indígenas regem-se pelos usos e costumes próprios das respectivas sociedades, devendo contudo as autoridades procurar harmonizá-los com os princípios fundamentais do direito público e privado português ( parágrafo  2.º).
O nosso Código Civil diz que só o homem é insusceptível de direitos e obrigações, isto é, ele tem a faculdade de praticar ou deixar de praticar certos factos, e a necessidade moral de praticar ou de não praticar certos factos (arts. 1.º e 2,°); e, se se estabelecem relações entre homens, como simples particulares, ou entre os homens e o Estado, dizemos que o homem tem capacidade jurídica, está integrado na ordem jurídica fixada no Código Civil (art. 3,°).
Quer dizer, o homem da Metrópole portuguesa tem personalidade e capacidade jurídicas. E o artigo 4.º do Código Civil diz que esses direitos e obrigações, de que o homem é suporte, derivam-lhe da sua própria natureza humana.
Numa palavra. não há coincidência entre o artigo 3.º do Estatuto e os artigos 1.º, 3.° e 4.° do Código Civil.
Temos, assim, a capacidade jurídica plena para o cidadão metropolitano integrado na grande ordem jurídica portuguesa, e temos o reconhecimento de uma situação jurídica particular a certos indivíduos integrados num dado meio social. No primeiro caso, está o natural da Metró­pole; no segundo caso, está o natural do Ultramar, o indí­gena compreendido no artigo 2.° dos Estatutos.
Aquele cidadão da Metrópole tem capacidade de exercício de direitos; o indígena sofre de uma incapacidade de exercício de direitos, isto é, daqueles direitos compreendidos no Código Civil. Dizendo de outro modo, do facto da sua natureza humana não resulta para o indígena o reconhecimento quer da sua personalidade, quer da sua capacidade jurídica em pé de igualdade com o natural da Metrópole. O indígena sofre uma série de limitações à sua capacidade jurídica tal como vem nas diversas secções do Capítulo II dos Estatutos.
Os indígenas não têm personalidade jurídica, não têm capacidade jurídica à luz do Código Civil e da Constituição Política, mas estão para as ter. Isto é, o indígena e o cidadão metropolitano movem-se em esferas jurídicas que se penetram, por forma que, com o decorrer de uma evolução social e jurídica cautelosa  2.° do art. 5.º dos Estatutos), na esfera jurídica deste se dá uma consumpção da esfera jurídica daquele; uma dilui-se na outra. Esta penetração significa integração.
(...) E se, dentro de uma sociologia corporativa, vemos, além do indivíduo, a pessoa humana, a verdade é que o trabalhador africano (indígena), como homem, está ainda, no domínio social, fortemente marcado pelos seus hábitos tribais e pela sua raça.[Isto é, os hábitos tribais e a raça limitam-no como pessoa humana...]
Ora, torna-se evidente que esta estruturação, e solu­ção nela contida, não se pode ajustar a um meio africano que viveu alheio, senão indiferente à história social da Europa, um meio em que as infraestruturas se não constituíram ainda; com mais correcção, uma infraestrutura apegada ainda à natureza tribal e aqui e ali simplesmente perturbada pela presença fugaz de uma sociedade europeia flutuante.
A caracterização de uma classe média está longe de ter sido sequer iniciada.
Conclui-se, assim, não ser viável pensar-se em trans­plantação de um sistema corporativo para território afri­cano; não é viável a criação de instituições sindicalistas em terrifórios de África (Mussolini disse que o Fascismo, é "une marchandise qui ne peut pas être exportée", apud M. Manoilesco, op. cit., pág. 14. BOA CITAÇÃO!!). É que estes não possuem a sua Idade Média, esse cadinho admirável de formação das nacionalidades europeias.
Entende-se, deste modo, que a existência de sindica­tos corporativos ou socialistas, em África, além de signi­ficar obliteração do seu próprio sentido, traduz ainda o desconhecimento da realidade social e histórica do meio. Seria uma experiência antecipadamente condenada a des­crédito. Não esqueçamos, a luta sindical é fruto sobre­tudo daquela Revolução Industrial do sécúlo XVIII. A África está longe de haver atingido um tamanho grau de desen­volvimento industrial.
O sindicalismo. quer na sua forma socialista, quer na sua expressão corporativa, tem um longo tempo de elaboração.
Não se pode aplicar à África o que lhe é estranho [e a civilização europeia e cristã?!...]: seria pretendermos dar a territórios irnpreparados, em evolução, soluções definitivas de nações civilizadoras.
Vimos atrás a função dos sindicatos e ressalta, à evi­dência, que é absolutamente impossível esperar dos sindi­catos africanos, à moda europeia, o desempenho daque­las mesmas funções. Falar, nesse caso, de sindicatos ou de organização sindical é o mesmo que dizer arremedo.
Quando se quisesse dizer que o sindicalismo era uma solução social afirmávamos a sua própria condenação. Tudo requer o seu meio adequado.
Não devemos esquecer que o trabalhador africano, ao contrário do operário europeu, não tem atrás de si um passado de trabalhador: o seu antepassado é a escravidão, é a servidão, é o trabalho forçado [e na Europa não foi?...]; não tem, ao invés do europeu, um passado de formação profissional e, por isso mesmo, ele não sabe ainda desprender de seus olhos a visão de que o dono da empresa é um ser todo poderoso a quem tudo deve sacrificar [isto é que é civilização!...] - inclusive a solidariedade com o companheiro.
[Mas parece que já havia sindicatos "indígenas"...]
(...) De igual modo dizemos que o sindicalismo corpora­tivo não pode de maneira alguma mitigar sequer os sofrimentos, as necessidades e o mal-estar do trabalhador africano, porque aquele é fruto. de um labor secular num meio social evoluído, fonte da própria civilização que se dilata ensinando em África.
Rejeitamos, assim, a ideia de um Sindicato dos Empre­gados do Comércio e Indústria, um Sindicato Nacional dos Operários da Construção Civil, um Sindicato Nacional dos Motoristas (Estes Sindicatos foram criados, em Moçambique, pelas seguintes respectivas Portarias: Porrerie n.º 7:467, de 14 de Agosto de 1948, Portaria n.º 7:466, de 14 de Agosto de 1948 e Portaria Ministerial n.º 10:422, de 22 de Junho de 1943. Não havia indígenas em Moçambique?...), porque não só se fundem num mesmo sindicato trabalhadores de ramos profissionais diferentes, como ainda esses sindicatos abrangem apenas os cidadãos, deixando de fora os trabalhadores indígenas. É a própria negação do espírito corporativo português.
Se alguma coisa se quer fazer para a protecção das classes trabalhadoras, criem-se antes ASSOCIAÇÃO DOS PROFISSIONAIS DA CONSTRUÇÃO CIVIL, ASSOCIAÇÃO DOS EMPREGADOS DO COMÉRCIO, ASSOCIAÇÃO DOS EMPREGADOS DA INDÚSTRIA, etc.: aqui o espírito será cristão, mais tradicional português e os interesses de todos são protegidos.
E, no fundo, a grande solução dos problemas sociais dos trabalhadores africanos, ou em África, está na observância dos ensinamentos de Deus.
Sejam os homens servidos do espírito do Evangelho, fonte inexaurível, e aí poderão aprender a amar-se reciprocamente, como filhos de Deus.»

17 de dezembro de 2011

329-Anizio Indami - Uma história bonita

Este é, agora, o Anizio Indami.Conheci-o através de uma história bonita, que começou assim, se bem me lembro (que saudades do Vitorino Nemésio...): em Novembro de 2005 ele contactou o "blogueforanadaevaotres" interessado em que algum dos ex-combatentes que tivesse passado por Farim, a sua terra,  lhe falasse dela. Tinha 22 anos e era estudante da Faculdade de Economia, Administração e contabilidade da Universidade de S. Paulo, Brasil. Tinha saudades da sua terra e da sua gente, naturalmente, tanto mais que a bolsa que tinha não lhe dava para os visitar. Enviei-lhe um mail, dizendo-lhe que nunca tinha estado em Farim durante a guerra colonial, mas que tinha passado por lá em 1998, embora de fugida, e enviei-lhe umas fotografias que tirara a umas crianças de lá (foram as únicas que pude tirar).
Respondeu-me, encantado, que aquele miúdo de calções com riscas vermelhas era o seu afilhado Alen que já não via há muitos anos.





Disse-lhe que estava integrado num grupo que em Abril de 2006 iria à Guiné e prometi-lhe que nessa altura iria com mais tempo a Farim.  Ele deu-me o contacto do seu pai e fomos, eu e o meu companheiro de andanças Francisco Allen, até Farim nesse mês de Abril. E lá estivemos em convívio com o senhor Agostinho Indami, pai do Anizio, e com a sua família. Foi um momento muito agradável, sinal da simpatia dos amigos guineenses. Enviei-lhe depois as fotografias que com eles tirei:
Ficou muito contente, claro. Houve mais algumas trocas de mails, mas, passados tempos, perdemos o contacto.
Há dias, deitei fora os meus receios de principiante nestas áreas e mandei-me de cabeça para o facebook. Maravilha! Encontrei aqui o Anizio:

Foi no passado dia 13. Fui ao mural dele no facebook e vi uma mensagem dele para o seu pai, senhor Agostinho Indami, que fazia anos nesse dia: 
"... HEROI...AGOSTINHO INDAMI...
PARABENS PAPAI...POR MAIS ESTE ANIVERSARIO..E PECO AO NOSSO CRIADOR QUE TE DE MUITO..E MUITOS ANOS DE VIDA..
OBRIGADO POR TODO AMOR, EDUCACAO..E CARINHO QUE SEMPRE ME DESTE...E ESPERO UM DIA TRANSMITI-LO AOS TEUS NETOS...E QUE ELES PODERAO SENTIR O MESMO ORGULHO QUE EU TENHO DE VOCE..!
ESTAS DE PARABENS PAPI...MUITA PAZ, SAUDE E FELICIDADES PARA VOCE!"
Pedi-lhe que lhe desse por mim os parabéns e lembranças do nosso encontro em 2006. Ele fê-lo e o senhor Indami enviou-me um abraço por ele.
Fiquei a saber que o Anizio, depois de terminar o curso de Administração de Empresas na área financeira na Universidade de S. Paulo, está agora a frequentar o Rhode Island College, em Providence, nos EUA. É fundador e Administrador Geral da REDE BANTABA DI DJUMBAI (com uma rádio http://www.bantabadidjumbai.com/ e uma televisão), sediada nos EUA, mas elemento congregador de todos os guineenses da diásporaEstá a dar seguimento às preocupações que me tinha manifestado com a sua terra e as suas gentes. 
Bonita forma de reatar contactos.

16 de dezembro de 2011

328-Terra Ardente

Encontrei este livro num alfarrabista:
Não sei quem foi o Dr. José Afonso Guimarães, a quem ele fez a dedicatória neste exemplar, mas ainda me lembro de Norberto Lopes como director do "Diário de Lisboa". Adolfo Norberto Lopes nasceu em Vimioso em Setembro de 1900 e morreu em Linda-a-Velha em Agosto de 1989. Iniciou a sua actividade jornalística no jornal "O Século" em 1919, passando, poucos anos depois, para a redacção do "Diário de Lisboa", tendo sido seu director desde 1956 a 1967, cargo que abandonou para fundar o diário "A Capital", que dirigiu até 1970. Foi um dos fundadores do Sindicato dos Jornalistas. Foi agraciado com a Ordem da Liberdade em 1981. Tem mais de uma dezena de livros publicados e elaborou reportagens de muitas viagens que fez por várias partes do mundo. Uma delas está expressa neste livro, que contém também várias fotografias. Eis algumas:
E um dos textos:

Um régulo prolífero

No dia seguinte, regressámos a Bissau por Bula e Mansôa. No caminho, parámos na povoa­ção de Có, onde está em construção um posto sanitário. O régulo Joaquim Sanca acompanhou­-nos numa visita demorada à tabanca onde vive, ele e as suas 40 mulheres, que já lhe deram 120 filhos - uma riqueza excepcional, pois todos tra­balham para o chefe. Quando lhe perguntámos - entre indígenas da Guiné esta pergunta pode fazer-se sem ferir a honra de ninguém - se eram todos filhos dele, estacou junto de uma palhota onde brincavam crianças e respondeu-nos com um largo sorriso de bonomia:
- Pelo menos nascidos no meu cercado. 
Com que filosofia amável e cómoda encara a vida este velho patriarca brame, que tem perto de 70 anos e ainda há pouco fez o seu último casamento com uma rapariga de 20. Será o último, Joaquim?
Perto da aldeia, do outro lado da estrada, entre as árvores de alto porte que lhe fazem um resguardo natural, fica o cemitério, aonde o régulo não nos acompanha - porque um régulo só pode entrar no cemitério para não voltar e ele não está resolvido a prescindir, por enquanto, de certos momentos agradáveis que a vida lhe proporciona, principalmente nesta altura, em que está em plena lua de mel com a sua última mulher.
Os pelicanos que fizeram o ninho nos ramos altos dos poilões e do pau-bicho encarregaram-se de caiar de branco os potes de barro que assina­lam as sepulturas. A um canto, fica o local das oferendas, onde os sacerdotes vêm fazer os seus sacrifícios e invocar os espíritos dos antepassados. Não falta o pote com vinho de palma e há pulseiras, cabaças, colares de contas e outras bugigan­gas com que as famílias querem honrar a memória dos seus mortos.
Saímos. Na estrada vemos passar por entre nuvens de poeira dois camiões que vão para Bula. É domingo. São jogadores de futebol que se deslocam à sede do posto. Bula joga contra Canchungo para disputa do Campeonato da Guiné.
Os rapazes que logo vão chutar às redes, no meio da algazarra infernal do gentio, que se apaixona por todos os jogos de competição, são filhos dos Papéis, dos Brames e dos Manjacos que Teixeira Pinto submeteu há trinta anos ao domínio português.
Esta simples observação, que à primeira vista parece de pouca importância, depõe por forma eloquente a favor dos nossos métodos de colonização e da nossa acção civilizadora em Africa. 


14 de dezembro de 2011

327-Endechas a Bárbara Escrava

Uma belíssima aguarela da amiga Leonor Machado. Mais uma vez ela teve a amabilidade de nos presentear com um belo poema (foi antes a "Lágrima de preta", do António Gedeão): desta vez do nosso Luís de Camões. E é verdade: muitas canções melancólicas,  endechas, nos lembram as presenças serenas que muitas tormentas amansaram com pretidões de amor. Mas não eram escravas: eram senhoras de quem estava cativo.

13 de dezembro de 2011

326-Texto da autoria do Tenente-Coronel da Força Aérea José Lucas acerca do resgate dos pescadores das Caxinas

O Torcato Mendonça achou que este texto devia ser publicado num blogue, para ser mais amplamente conhecido. Eu tinha-lho enviado por mail. Ainda me pus a pensar que isto não tinha a ver com a Guiné, nem com a guerra que lá passámos. Mas acabei por pensar que sim, que tinha também a ver com a forma com são encarados os ex-combatentes, que arriscaram e deram, muitos, a sua vida. Vi há dias na televisão que o piloto do helicóptero teve uma recepção honrosa (não me lembro aonde...), e não é que não mereça, mas este sargento-ajudante  também. Vejam porquê.~



HERÓI POR 300 €


A notícia já correu o Mundo inteiro.

Seis tripulantes de um barco de pesca, o 'Virgem do Sameiro', de Caxinas, foram encontrados por um helicóptero EH-101 da Força Aérea e foram salvos pela tripulação do mesmo, nomeadamente por um Sargento-Ajudante (o recuperador - salvador), que pendurado num guincho, arriscou a sua vida em 6 subidas e descidas.
O panorama é inimaginável.
Um helicóptero no meio da imensidão do mar, com mar agitado, os pilotos tentando colocar o helicóptero na melhor posição (o que é dificílimo, tratando-se de um navio grande, quanto mais de uma simples balsa salva-vidas, a turbulência provocada pelas pás do aparelho, o recuperador - salvador a descer e a subir, a ter de recuperar um a um, estejam feridos ou não.
Parece algo de outro mundo, mas não é,... aliás, afinal é!
É algo do outro mundo, pelo menos do meu mundo, pois não tinha condições para o fazer.

É algo deste mundo, porque estes heróis da Força Aérea fazem-no diariamente, arriscando a sua vida para salvar outras vidas.

Muitas vezes fazem-no mas muito mais longe, a cerca de 150 km da costa. Se houver uma falha humana, uma avaria e o helicóptero cair, provavelmente morrerão (pois é preciso que outro meio aéreo que está em alerta descole, voe, os encontre com vida e consiga recuperá-los).

Mesmo assim, este militares cumprem o seu dever: têm família, filhos, que têm como dado adquirido que o pai volta mais logo e, nem imaginam que tal pode não acontecer.

Poucas pessoas sabem o seguinte:

a) O Sargento-Ajudante recuperador-salvador está neste trabalho voluntariamente;

b) O Sargento-Ajudante recuperador-salvador está neste trabalho porque passou por testes e provas dificílimas, apenas acessíveis aos melhores física e psicologicamente;
c) O Sargento-Ajudante recuperador-salvador ganha cerca de 1300 € limpos (um profissional com muitos anos de carreira, que arrisca a vida muito mais do que ninguém, voluntariamente, por amor ao serviço, ao próximo);
d) O Sargento-Ajudante recuperador-salvador tem de estar disponível 24 horas por dia, deixando a família para trás a qualquer momento, sempre que for chamado ao serviço inopinado;
e) O Sargento-Ajudante recuperador-salvador recebe cerca de 300 € líquidos de risco de voo (menos do que os pilotos, que também arriscam a vida, mas arriscam menos pois não estão pendurados num guincho);
f) O Sargento-Ajudante recuperador-salvador, tal como os demais militares dos 3 Ramos das Forças Armadas, continua a salvar vidas, com ânimo, profissionalismo e competência, apesar de lhe terem cortado o vencimento desde o ano passado, apesar de lhe terem tirado o subsídio de férias e de Natal, apesar de não ter perspectiva de evolução na carreira nem aumento de ordenado;
g) O Sargento-Ajudante recuperador-salvador não tem mordomias, carros de luxo, condutor, sala própria, secretária, telemóvel de serviço, despesas de representação chorudas, outros emolumentos mais ou menos disfarçados.
h) Para mim, estes são os verdadeiros heróis, aqueles que apesar de fortemente penalizados, fortemente incompreendidos, apenas lembrados aquando de actos heróicos mediáticos como este, continuam dia após dia a cumprir além do dever.
O Sargento-Ajudante recuperador-salvador, como todos os militares merecem o respeito por parte de quem governa, para que entendam que não se trata de um funcionário público (aliás muitos respeitáveis), mas sim de um cidadão especial, que jurou publicamente dar a vida pela Pátria, dar a vida para que outros vivam.
À atenção de quem de direito !!!

José Lucas


PS - Num exercício de imaginação, tentei considerar a hipótese dos respeitados e digníssimos representantes do povo, na Assembleia da República (AR) receberem 1300 € de vencimento mais 300 € de risco. Provavelmente a AR ficaria vazia.

Dir-me-ão: mas não é a mesma coisa, são responsabilidades diferentes.
Pois são: o Sargento-Ajudante recuperador-salvador arrisca a vida diariamente para que outros vivam!

325-Manifestação Nacional da Associação dos Deficientes das Forças Armadas, Lisboa em 18 de Maio de 2008.