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18 de janeiro de 2012

359-Partir da realidade da nossa terra


Grande poder de análise, notável inteligência, ligação ao povo guineense e capacidade de liderança.Ler este texto de Amílcar Cabral para o ver.ot
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358-Encontro de Spinola com Marcelo Caetano


26 de Maio de 1972

Encontro de Marcelo Caetano com Spínola, a quem este transmite os resultados do seu encontro com Senghor em 18 de Maio de 1972. Sobre este encontro escreveu Marcelo Caetano: 
«Passado tempo, Senghor começava a fazer saber ao general Spínola que gostaria de falar com ele. Ciente do facto, o Governo autorizou o general a encontrar-se com o presidente do Senegal, o que teve lugar numa povoação senegalesa [Cap Skiring] próxima da fronteira portuguesa em meados de 1972. O general Spínola veio depois, num salto, a Lisboa dar conta do que se passara.
Na entrevista surgira a hipótese de um encontro Spínola - Amílcar Cabral para se negociar um cessar-fogo preliminar do acordo pelo qual se esperava que o PAIGC passaria a colaborar com os portugueses no Governo do território.
Observei ao general que por muito grande que fosse o seu prestígio na Guiné – e eu sabia que era enorme – ao sentar-se à mesa das negociações com Amílcar Cabral ele não teria na frente um banal chefe guerrilheiro, e sim o homem que representava todo o movimento antiportuguês, apoiado pelas Nações Unidas, pela Organização da Unidade Africana, pela imprensa do mundo inteiro. Assim, ia-se reconhecer oficialmente o Partido que ele chefiava como sendo uma força beligerante e reconhecia-se mais, que essa força possuía importante domínio territorial, uma vez que aceitávamos negociar com ela um armistício (ou cessar-fogo) como preliminar de um acordo. [...]
A dificuldade do problema da Guiné estava nisto: em fazer parte de um problema global mais amplo, que tinha de ser considerado e conduzido como um todo, mantendo a coerência dos princípios jurídicos e da política que se adoptasse.
E foi aqui que, no decurso da conversa, fiz a afirmação chocante para a sensibilidade do general, dizendo mais ou menos isto:
– Para a defesa global do Ultramar é preferível sair da Guiné por uma derrota militar com honra do que por um acordo negociado com os terroristas, abrindo o caminho a outras negociações.
– Pois V. Ex.a preferia uma derrota militar na Guiné? – exclamou escandalizado o general.
– Os exércitos fizeram-se para lutar e devem lutar para vencer, mas não é forçoso que vençam. Se o exército português for derrotado na Guiné depois de ter combatido dentro das suas possibilidades, essa derrota deixar-nos-ia intactas as possibilidades jurídico-políticas de continuar a defender o resto do Ultramar. E o dever do Governo é defender todo o Ultramar. É isso que eu quero dizer.» 
Marcelo Caetano, Depoimento, Rio de Janeiro, Record, 1974


«Dentro da sua estratégia, Spínola procura estabelecer o diálogo com o opositor. O Marechal tem a plena consciência que o problema da Guiné não é possível de resolver sem o PAIGC. Mas esta tentativa não vai ser fácil de realizar.
Militarmente criou as condições que lhe permitem aceitar o diálogo numa posição cómoda; não perdeu a guerra e mantém-na, no mínimo, empatada. Conserva o controle de Leste e impediu a sublevação do «chão» manjaco. Não está pressionado.
Consegue interessar no caso o Presidente Senghor do Senegal. Este, que nunca escondeu a sua simpatia pelo povo português tendo mesmo afirmado, no Casamance, em Março de 1969, que «a guerra fora imposta de cima, pelo governo», presta-se a servir de intermediário.
O Presidente senegalês, após haver contactado, separadamente e por diversas vezes as duas partes interessadas, concebe um Plano de Paz, destinado a permitir uma descolonização da Guiné calma e amigável.
Era a solução política que Spínola procurava desde a sua chegada à colónia. O plano previa três etapas:
1.ª Consistia em decretar um cessar-fogo a que se seguiriam negociações sem qualquer preâmbulo;
2.ª Seguir-se-ia um período de autonomia interna da Guiné-Bissau cujas modalidades, limites e prazos seriam livremente discutidos durante uma conferência constitucional que reuniria, dum lado os representantes do Governo Português e do outro os de todos os movimentos políticos da Guiné-Bissau;
3.ª A independência seria concedida numa perspectiva de uma comunidade luso-africana que nada excluiria à priori.
Mas o governo central não estava realmente disposto a modificar a sua política colonial, isto apesar do pretenso apoio e incentivo que deu a Spínola nas suas diligências, de que estava, obviamente, a par. Logo que chegou à fase de concretização do Plano, Marcelo Caetano proibiu a Spínola a continuação dos contactos e negociações com o argumento de que na Guiné se aceitava um desastre militar mas nunca uma cedência política
Face a esta posição de intransigência e de cegueira política do governo português, perde-se, ingloriamente, a última oportunidade de se poder negociar uma solução política para a guerra da Guiné.
 A partir dali só restava, a ambas as partes, prosseguir com a luta, de acordo com as respectivas estratégias, adaptadas, agora, à nova situação político/militar que, entretanto se criara:
 A Spínola ficou-lhe apenas a hipótese de continuar com a guerra, uma vez que o governo não aceitava outra solução que não fosse a vitória militar.
Mas ele sabe que isso não é possível. Ele próprio o diz: «uma guerra subversiva nunca está definitivamente ganha». Portanto, a esta imposição de uma só opção, a vitória militar, só resta uma alternativa: o derrube do governo que impõe uma guerra desgastante, impossível de vencer, sem qualquer outra alternativa.
De momento, ao Marechal Spínola não resta outra solução que não seja a de continuar a guerra mas como tem a plena consciência de que esta é uma solução anti-nacional, vai começar a conspirar. A preparar a outra alternativa.
O PAIGC, pelo contrário, sem abrandar o esforço militar, vai desencadear uma grande ofensiva política.»
Carlos Fabião, in Avenida da Liberdade, Associação 25 de Abril

357-Depoimento de Elisée Turpin


Elisée Turpin é um dos fundadores do PAIGC, no dia 19 de Setembro de 1956. Nasceu a 23 de Maio de 1930, em Bissau, onde frequentou Escolas Primária e Secundária.  
Mais tarde, vinha a concluir o curso de Contabilidade por correspondência. Foi empregado da Companhia Francesa S.C.O.A. – Sociedade Comercial Oeste Africana (de 1942 a 1956).  
De 1958 a 1964, Foi empregado da Casa António Silva Gouveia, e de 1964 a 1973, exerceu a função de Gerente da ANCAR.  
De 1973 a 1976, exerceu a função de Secretário Geral da Associação Comercial. A partir de 1976, começou a trabalhar por conta própria.  
Foi Militante do Partido Comunista Português na clandestinidade em Bissau, e é Militante do PAIGC desde a sua criação. 
O presente depoimento está ligado à fundação do PAIGC, expondo alguns factos de que se recorda e em que participou, para permitir uma maior e melhor percepção deste acontecimento histórico ocorrido em 19 de Setembro de 1956, em Bissau.
"... O espírito de revolta contra a presença colonial aumentou consideravelmente, a partir de 1942, altura em que o Governador da Província da Guiné era o Sr. Ricardo Vaz Monteiro, e o Administrador de Bissau era Pereira Cardoso.
O Governador Ricardo Vaz Monteiro, fortemente influenciado pela esposa Maria Augusta, quis introduzir o sistema de "Apartheid" na Província, ao tentar impor que nos estabelecimentos comerciais fossem criadas zonas separadas para brancos e pretos. A tentativa gorou, pois foi contestada pelos proprietários dos estabelecimentos comerciais.
Na sequência dessa tentativa, foi preso o maior comerciante guineense na altura, Sr. Benjamim Correia, alegadamente por se ter queixado junto do Governo Central de Lisboa sobre o ocorrido. Ele foi preso e transportado para Cabo Verde - Tarrafal. 
O mesmo Governador introduziu um código de postura em que era proibido andar nos passeios de Bissau a todo o indígena que não tivesse sapatos nos pés.
Estes factos e mais outros que ocorreram durante os anos 50, reforçaram o espírito nacionalista e patriótico em muitos guineenses. Foi nesse período dos anos 50 que o Amilcar Cabral regressou à Guiné e começou a fazer contactos com vista à criação duma Associação Desportiva, através da qual levávamos a cabo actividades políticas.
Alguns de nós eram militantes clandestinos do Partido Comunista Português, nomeadamente, Abílio Duarte e eu (mais tarde soube que o Rafael Barbosa o era também). Os activistas políticos não se conheciam todos, por motivos ligados à segurança.
Amilcar Cabral nos dizia que devíamos trabalhar como uma pirâmide. Isto é, o núcleo principal e de contactos permanentes seria pequeno, mas cada um devia ter a sua "Célula". Eu, por exemplo, tendo como Célula a Zona Velha da Cidade de Bissau (pois morava nessa zona), nunca tive contacto com Rafael Barbosa. Só mais tarde vim a saber dele, como sendo um dos principais activistas políticos desde anos 40 e um dos mentores da criação do Partido. 
                                                              A minha residência era no interior deste edifício.
Para além das Células, estabeleceram-se pontos focais, ou seja elos de ligação no interior do País. Por exemplo, o elo de ligação em Farim era o Dionísio Dias Monteiro; em Bolama era Carlos Domingos Gomes (Cadogo Pai); em Catio era Manuel da Silva. 
Lembro-me de algumas pessoas que se movimentavam na altura como activistas políticos e muitos deles envolvidos na criação do Partido:
  • Amilcar Cabral, Aristides Pereira, Rafael Barbosa, Luís Cabral, Abílio Duarte, Fernando Fortes, João Rosa, Inácio Semedo, Victor Robalo, Júlio Almeida, João Vaz, Domingos Cristovão Gomes Lopes.
Contudo, no dia 19 de Setembro de 1956, na fundação (criação formal do Partido, denominado PAI - Partido Africano da Independência), compareceram apenas 6 pessoas:
  • Amilcar Cabral, Aristides Pereira, Luís Cabral, Fernando Fortes, Júlio Almeida, Elisée Turpin.
Muitos não compareceram devido a constantes perseguições dos elementos da então PIDE. Nós que conseguimos participar no encontro, tivemos que ser muito prudentes e discretos: entravamos um a um e saíamos da mesma forma.
       Edifício onde foi fundado o PAI, sito no Bairro de Tchada, em Bissau.
O evento teve lugar no primeiro andar do edifício onde residiam Aristides Pereira e Fernando Fortes, no Bairro de Tchada, próximo do Hospital Nacional "Simão Mendes".
Eram volta das 5 horas de tarde desse dia. Foram aprovados os Estatutos do PAI elaborados e apresentados por Amilcar. A reunião deve ter durado cerca de 1 hora de tempo.
A partir dessa data, intensificaram-se os contactos, visando levar a mensagem junto dos guineenses e cabo-verdianos e anunciar as nossas intenções. O grosso das reuniões do PAI, a partir da sua criação, tiveram lugar na residência de João Rosa, que se situava no Chão de Papel.
Nessas movimentações participaram muitos outros activistas. Lembro-me de alguns:
  • Quintino Nosoline, Ladislau Lopes Justado, Manuel Lopes Justado, Rui Barreto, Epifanio Soto Amado, Alfredo Menezes, Carlos Correia José Ferreira de Lacerda, Gudifredo Vermão de Sousa (Tatá), Milton Sezimudo Pereira de Borja, José Opadai, Armando Lobo de Pina.
O intensificar de actividades e constantes movimentações políticas levaram a que a PIDE reforçasse as perseguições e, consequentemente, muitos activistas foram sendo aprisionados e torturados nas diferentes celas de prisões. Este facto e outros, nomeadamente os acontecimentos de Pindjiguiti em 1959, levaram à tomada de decisão do Partido de instalar a sua Direcção no país vizinho independente - Guiné Conakry...." 
  
http://www.paigc.org/  

17 de janeiro de 2012

356-Antes eram eles, agora são elas...

Antes eram eles, agora são elas que se despedem...

355-Lançamento de livro de Leopoldo Amado


Trata-se de uma adaptação para o grande público da tese de doutoramento que, em 2007, Leopoldo Amado apresentou à Universidade de Lisboa.

Nota biográfica

Leopoldo Amado licenciou-se em História pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, concluiu o curso de Pós-graduação em Relações Internacionais (Estudos Islâmicos) pela extinta Universidade Internacional de Lisboa, e frequentou o curso de Mestrado em Estudos Africanos no Instituto de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa. Concluiu em 2007 o Doutoramento em História Contemporânea pela Universidade de Lisboa e atualmente, além da atividade de docência na Uni-CV, em Cabo Verde, conduz um projeto de pós-doutoramento no CES.

354-Simbologia de Pindjiguiti na óptica libertária da Guiné


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16 de janeiro de 2012

353-Funeral de Malam Bacai Sanhá

352-O rio Corubal

    DESCENDO pelas montanhas do Fuja Djalom, na Guiné Francesa, o rio Corubal penetra na nossa província pela região fronteiriça de Cadé em percurso longo, ramificado e sinuoso, até à bifurcação com o canal que vem de Bafatá, e entra no Geba, outrora o famoso Rio Grande, onde chegaram no século xv as caravelas de Diogo Gomes e Cadamosto de que nos falam as crónicas das Descobertas.
  São numerosos os rápidos do rio Corubal. Cusse­linta e Saltinho, susceptíveis de aproveitamento hidráulico segundo algumas opiniões, são os mais importantes do nosso território. Foi neste último que se construiu, como solução provisória, a passa­gem submersível que permite durante alguns meses a ligação entre o Norte e Sul da província. Um pouco mais abaixo, onde o rio se estreita, está a construir-se com o grés como alicerce, a ponte Craveiro Lopes que beneficiará extraordinariamente a rede rodoviária da zona sul da província para permitir no futuro uma exploração compensadora das riquezas das circunscrições de Fulacunda e Catió. É de admi­tir também a sua provável utilidade para o turismo, logo que seja possível actuar a sério neste importante sector de propaganda e receita que representa uma grande preocupação de muitos países e regiões. 
  O topónimo Corubal, segundo concluiu o co­mandante Teixeira da Mota, o mais categorizado Investigador contemporâneo dos assuntos guineen­ses, é a deturpação de Colibá o qual, por sua vez, provém da região limítrofe de Coli. Outras fontes, porém, pretendem que a razão do nome se filia no facto de «corubal» ser corruptela de curbail, nome com que, nos recuados tempos, também se designava o âmbar.
Mas um autor antigo põe-nos a notícia transbor­dante de curiosidade de que o termo Corubal queria dizer «desavergonhado» numa tradicional expressão nativa. O rio galgava frequentemente o leito e o seu impetuoso caudal era useiro e vezeiro na destruição das culturas marginais. O arroz à beira do rio, o algodão, o café, o tabaco e outras culturas peque­nas de tipo experimental, na parte enxuta, por vezes alagável, quando o Corubal era irreverente, atre­vido... E daí, Corubal - o «desavergonhado»...


Decorria a época do extraordinário Caetano No­solini, esse homem que encheu numerosas páginas da história da Guiné na primeira metade do sé­culo XIX, quando era tudo e ainda pioneiro de feitorias e estabelecimentos agrícolas nas margens do rio caudaloso. Na época do discutido monopólio de Nicolau Macedo com o exclusivo de comércio e navegação no no. Na época em que se fazia, lá na foz, quando na baixa-mar, a colheita do âmbar, produto fossilizado das resinosas marginais que as águas do Corubal arrastaram para o acumular atra­vés dos séculos. Na época, ainda, das contínuas turbulências entre as tribos fulas, fulas-pretos, man­dingas e biafadas em permanentes escaramuças conhecidas por «Guerras do Forriá», um Forriá que no dizer dos Fulas significa «terra da liberdade» apesar de acontecer as sucessivas chacinas, os incên­dios das povoações, os roubos de gado e a captura dos vencidos, logo considerados escravos...
Uma época do Corubal remexido, dos pioneiros e dos belicosos Infali Sancó, Paté Coiada, Mamadú Paté e Bacar Guidali. Era um Corubal latejante de presença humana a ombrear com um outro período mais remoto que Francisco de Lemos Coelho nos descreveu em 1669: «Há no fim da terra de Guinalá hüa grande aldêa que chamaõ Curubale, que he como feira adonde vem mercadores de todas as partes a comprar, e vender, e nella se acha sempre o que se busca, vendesse nella principalmente muitos negros, e roupa, e tintas com que se tinge a roupa em Guiné de azul», acrescentando quinze anos depois: «he como feira de toda a terra; sendo que em todas estes reinos há feira franca de sete em sete dias... mas nessa de Curubale todos os dias de anno he feira».
A densidade populacional das regiões servidas pelo Corubal, especialmente o Forriá, é das mais baixas da província. A vida ausentou-se, cerraram-se os horizontes do comércio, da agricultura e da guerra. Desapareceram as grandes povoações onde chega­vam as caravanas para o comércio do sal, dos escra­vos, dos panos e da tinta azul. As enxadas dos pon­teiros cavando o solo humoso e alagável é uma recor­dação. O cruzar de espadas dos chefes belicosos não passa hoje dum tema histórico. O sossego é absoluto. Liberdade de expansão para a flora e fauna. Um retorno à Natureza.
Vem, daqui, o interesse turístico da região que se estende pelos vales do rio, pelas savanas, colinas e canais até à lagoa de Cufada e, mais ao sul, à mata de Cantanhez, reserva de caça. Não há hotéis, não há pousadas nem o quer que seja de artificial que proporcione comodidades ao turista. Mas pode-se lá chegar, sem odisseias, sem dificuldades, adoptando o campismo nas sedutoras margens dos rápidos de Cusselinta e Saltinho ou em viagem com retorno no mesmo dia para gozar os prazeres da pesca despor­tiva, as emoções fortes da caça ou as sensações ali­ciantes do naturalismo. No rio há variedade de peixes e os descomunais e pacíficos hipopótamos. Nos mangais a orlar o rio e no arvoredo próximo é numerosa a fauna aviária. Garças ribeirinhas, peli­canos, maçaricos e uma imensidade de passarada multicor. No mato aparecem a cabra selvagem, a gazela, o sim-sim, o javali, o porco-espinho, a onça, o búfalo e, por vezes, o portentoso elefante. São muitos os patos selvagens, as chocas (perdizes) e as galinhas do mato. Enfim um mundo diferente para os desportistas-metropolitanos que se decidam a visi­tar-nos e até para os que vivem na província que não tenham ainda contactado com o mato, com o verdadeiro mato, tão cioso a ocultar-nos o seu exo­tismo e uma vida animal que nos evita e receia.
O mato não é aquela fonte de arrepios ou o manancial de ilusões que nos impingem os livros e os filmes destinados a leitores ou a plateias que se deliciam com aventuras tipo Salgari ou Tarzan... Goza-se nele uma quietude que reconforta, um am­biente silente de oásis como entorpecente que não vicia e que é um refrigério. Os odores silvestres, a abundância do verde, a vida ao ar livre que nos liberta da rotina dos livros de ponto dos despeitos e das competições humanas. O andar perto da vida animal adivinhando existências que se ocultam e que fogem de nós. Os esquilos, os roedores, os répteis, as borboletas e a passarada polícroma. Todo um conjunto que nos arrasta a sentir interesse profundo pela Natureza. E, à noite, a musicalidade dos insec­tos, das aves nocturnas, os ouvidos cheios da orques­tra ininterrupta dos grilos, o ruído surdo das águas dos rápidos e o toque dos tambores nas povoações distantes… Estamos certos que Kipling gostaria de ter vindo ao Corubal...
O próprio fenómeno do macaréu que se regista na bifurcação do rio com o canal e o rio Geba é um aliciante motivo turístico. O fenómeno, semelhante ao «pro roca» dos brasileiros que se regista no Ama­zonas, tem constituído através dos tempos, desde que ali apareceram as caravelas de Diogo Gomes até à actualidade, forte motivo de curiosidade. Só por si, um espectáculo digno de presenciar-se. É uma en­chente a modos de blitz, uma onda avassaladora de águas em turbilhão e grande fragor. Já André Álva­res de Almada, o célebre capitão mercante do tempo do marfim, do ouro e dos escravos, a referenciou com esta saborosa descrição:
«Esta navegação é perigosa por causa da água do Macareo, que é encher este rio lá em cima com três mares somente. Estando a maré vazia, dando três mares, fica preia-mar de todo; e antes de virem estes mares se ouve roncar um grande espaço e mete medo às pessoas que nunca viram isto. E correm as embar­cações grande risco, mas já os pilotos delas sabem as conjunções, e as tomam de maneira que não pe­rigam. Algumas caravelas nossas de até sessenta moios, que algumas vezes lá vão, no passar, quando dá a água do Macareo, usam desta maneira. Têm algumas sonderiças e amarras ostadas umas nas outras, e estão prestes com elas, e o navio surto e a amarra na mão. Tanto que dão aqueles mares e vão largando e vão sobre elas aleiando muito depressa as amarras, e desta maneira passam sem perigo, por­que se estivessem com a amarra abitada não deixa­riam de sossobrarem e passarem trabalho.»


   Conhecemos o rápido de Cusselinta há uma de­zena de anos. Um caçador mandinga acompanhou­-nos como cicerone e pisteiro. Prometera-nos mostrar os hipopótamos. Depois dum banho refrescante na água límpida retida no grés (os crocodilos não estão ali…) o nosso pisteiro quis ir mostrar-nos os bichos, um pouco mais abaixo, onde o rio se estreita. Cami­nhámos marginando o mangaI. Aproveitámos todas as veredas para espreitar as águas quietas do rio. Impaciência, curiosidade... Chegámos a um ponto onde o capim ligado ao mangal estava batido como que assinalando a passagem de coisas descomunais. As pegadas, amplas e fundas, e o excremento fresco, ainda a fumegar, eram uma indicação. Entrámos no espesso do mangaI e subimos pelos troncos mais fortes a procurar o melhor ponto de vigia. O acesso era um tanto difícil. O nosso amigo caçador man­dinga, pisteiro famoso, puxou do seu fotan (apito feito dum pedaço de bambú) e rompeu um silvo cavo, fazendo modulação de sons. Apitou, apitou. E quando já estávamos impacientes, desiludidos, como que logrados, eis que surgem das águas, lá perto da outra margem, duas cabeças de hipopótamos, como proas de submarinos que vêm à superfície... A flauta encantada do nosso pisteiro confirmara a apregoada virtude de fazer aparecer os volumosos mamíferos.
    Empoleirados como símios, notámos que a cara­bina ficara presa pela bandoleira num tronco fora do alcance da mão. Imprevidência de inexperientes. Não convinha fazer-se ruído. Os bichos já nos tinham observado. E daí a fazerem a imersão foi um mo­mento (um momento em que ficámos estáticos...). Nem, ao menos, tivemos a desenvoltura de fazer uso da «Zeiss» que trazíamos dependurada no pescoço, aberta e focada, pronta a fazer o clic...
     Fracassámos no tiro, fracassámos na foto!
    Mas conservamos ainda hoje, a sensação indefinida desses momentos tão felizes, tão belos, vividos mais perto da Natureza.

Alexandre Barbosa
Guinéus - contos, narrativas, crónicas
3ª edição,
Livraria Progresso Editora, 
Lisboa, 
1968