Lembranças da Guiné, na guerra e já fora dela. Pesquisa, comentários e factos. A memória sempre presente. Não está por ordem. É conforme me vou lembrando. Tudo o que tem a ver com a Guiné, a sua história, as etnias, a colonização e as guerras de resistência. Também a minha experiência durante a guerra colonial (está nos primeiros posts). Para quem não sabe ou viveu que veja e avalie se é realidade ou ficção. Para quem sabe ou viveu são lembranças.
19 de janeiro de 2012
361-Cabral, fidju di pobu
Publicada por
A. Marques Lopes
à(s)
13:35
0
Comentários
Enviar a mensagem por emailDê a sua opinião!Partilhar no TwitterPartilhar no FacebookPartilhar no Pinterest
Hiperligações para esta mensagem
Etiquetas:
Amílcar Cabral
| Reacções: |
360-Amílcar Cabral
View more videos from Cantacunda.
Publicada por
A. Marques Lopes
à(s)
00:03
0
Comentários
Enviar a mensagem por emailDê a sua opinião!Partilhar no TwitterPartilhar no FacebookPartilhar no Pinterest
Hiperligações para esta mensagem
Etiquetas:
Amílcar Cabral,
guerra colonial,
PAIGC
| Reacções: |
18 de janeiro de 2012
359-Partir da realidade da nossa terra
Grande poder de análise, notável inteligência, ligação ao povo guineense e capacidade de liderança.Ler este texto de Amílcar Cabral para o ver.ot
View more documents from Cantacunda.
Publicada por
A. Marques Lopes
à(s)
16:12
0
Comentários
Enviar a mensagem por emailDê a sua opinião!Partilhar no TwitterPartilhar no FacebookPartilhar no Pinterest
Hiperligações para esta mensagem
Etiquetas:
Amílcar Cabral,
guerra colonial,
PAIGC
| Reacções: |
358-Encontro de Spinola com Marcelo Caetano
26 de Maio de 1972
Encontro de Marcelo Caetano com Spínola, a quem este transmite os resultados do
seu encontro com Senghor em 18 de Maio de 1972. Sobre este encontro escreveu Marcelo Caetano:
«Passado
tempo, Senghor começava a fazer saber ao general Spínola que gostaria de falar
com ele. Ciente do facto, o Governo autorizou o general a encontrar-se com o
presidente do Senegal, o que teve lugar numa povoação senegalesa [Cap
Skiring] próxima da fronteira portuguesa em meados de 1972. O general
Spínola veio depois, num salto, a Lisboa dar conta do que se passara.
Na entrevista surgira a
hipótese de um encontro Spínola - Amílcar Cabral para se negociar um
cessar-fogo preliminar do acordo pelo qual se esperava que o PAIGC passaria a
colaborar com os portugueses no Governo do território.
Observei ao general que
por muito grande que fosse o seu prestígio na Guiné – e eu sabia que era enorme
– ao sentar-se à mesa das negociações com Amílcar Cabral ele não teria na
frente um banal chefe guerrilheiro, e sim o homem que representava todo o
movimento antiportuguês, apoiado pelas Nações Unidas, pela Organização da
Unidade Africana, pela imprensa do mundo inteiro. Assim, ia-se reconhecer
oficialmente o Partido que ele chefiava como sendo uma força beligerante e
reconhecia-se mais, que essa força possuía importante domínio territorial, uma
vez que aceitávamos negociar com ela um armistício (ou cessar-fogo) como
preliminar de um acordo. [...]
A dificuldade do
problema da Guiné estava nisto: em fazer parte de um problema global mais
amplo, que tinha de ser considerado e conduzido como um todo, mantendo a
coerência dos princípios jurídicos e da política que se adoptasse.
E foi aqui que, no
decurso da conversa, fiz a afirmação chocante para a sensibilidade do general,
dizendo mais ou menos isto:
– Para a defesa global do Ultramar é preferível sair
da Guiné por uma derrota militar com honra do que por um acordo negociado com
os terroristas, abrindo o caminho a outras negociações.
– Pois V. Ex.a preferia
uma derrota militar na Guiné? – exclamou escandalizado o general.
– Os exércitos
fizeram-se para lutar e devem lutar para vencer, mas não é forçoso que vençam.
Se o exército português for derrotado na Guiné depois de ter combatido dentro
das suas possibilidades, essa derrota deixar-nos-ia intactas as possibilidades
jurídico-políticas de continuar a defender o resto do Ultramar. E o dever do
Governo é defender todo o Ultramar. É isso que eu quero dizer.»
Marcelo Caetano, Depoimento, Rio de Janeiro, Record, 1974
«Dentro da sua estratégia, Spínola procura estabelecer o diálogo com o opositor. O Marechal tem a plena consciência que o problema da Guiné não é possível de resolver sem o PAIGC. Mas esta tentativa não vai ser fácil de realizar.
Militarmente criou as condições que lhe permitem aceitar o diálogo numa posição cómoda; não perdeu a guerra e mantém-na, no mínimo, empatada. Conserva o controle de Leste e impediu a sublevação do «chão» manjaco. Não está pressionado.
Consegue interessar no caso o Presidente Senghor do Senegal. Este, que nunca escondeu a sua simpatia pelo povo português tendo mesmo afirmado, no Casamance, em Março de 1969, que «a guerra fora imposta de cima, pelo governo», presta-se a servir de intermediário.
O Presidente senegalês, após haver contactado, separadamente e por diversas vezes as duas partes interessadas, concebe um Plano de Paz, destinado a permitir uma descolonização da Guiné calma e amigável.
Era a solução política que Spínola procurava desde a sua chegada à colónia. O plano previa três etapas:
1.ª Consistia em decretar um cessar-fogo a que se seguiriam negociações sem qualquer preâmbulo;
2.ª Seguir-se-ia um período de autonomia interna da Guiné-Bissau cujas modalidades, limites e prazos seriam livremente discutidos durante uma conferência constitucional que reuniria, dum lado os representantes do Governo Português e do outro os de todos os movimentos políticos da Guiné-Bissau;
3.ª A independência seria concedida numa perspectiva de uma comunidade luso-africana que nada excluiria à priori.
Mas o governo central não estava realmente disposto a modificar a sua política colonial, isto apesar do pretenso apoio e incentivo que deu a Spínola nas suas diligências, de que estava, obviamente, a par. Logo que chegou à fase de concretização do Plano, Marcelo Caetano proibiu a Spínola a continuação dos contactos e negociações com o argumento de que na Guiné se aceitava um desastre militar mas nunca uma cedência política
Face a esta posição de intransigência e de cegueira política do governo português, perde-se, ingloriamente, a última oportunidade de se poder negociar uma solução política para a guerra da Guiné.
A partir dali só restava, a ambas as partes, prosseguir com a luta, de acordo com as respectivas estratégias, adaptadas, agora, à nova situação político/militar que, entretanto se criara:
A Spínola ficou-lhe apenas a hipótese de continuar com a guerra, uma vez que o governo não aceitava outra solução que não fosse a vitória militar.
Mas ele sabe que isso não é possível. Ele próprio o diz: «uma guerra subversiva nunca está definitivamente ganha». Portanto, a esta imposição de uma só opção, a vitória militar, só resta uma alternativa: o derrube do governo que impõe uma guerra desgastante, impossível de vencer, sem qualquer outra alternativa.
De momento, ao Marechal Spínola não resta outra solução que não seja a de continuar a guerra mas como tem a plena consciência de que esta é uma solução anti-nacional, vai começar a conspirar. A preparar a outra alternativa.
O PAIGC, pelo contrário, sem abrandar o esforço militar, vai desencadear uma grande ofensiva política.»
Carlos Fabião, in Avenida da Liberdade, Associação 25 de Abril
«Dentro da sua estratégia, Spínola procura estabelecer o diálogo com o opositor. O Marechal tem a plena consciência que o problema da Guiné não é possível de resolver sem o PAIGC. Mas esta tentativa não vai ser fácil de realizar.
Militarmente criou as condições que lhe permitem aceitar o diálogo numa posição cómoda; não perdeu a guerra e mantém-na, no mínimo, empatada. Conserva o controle de Leste e impediu a sublevação do «chão» manjaco. Não está pressionado.
Consegue interessar no caso o Presidente Senghor do Senegal. Este, que nunca escondeu a sua simpatia pelo povo português tendo mesmo afirmado, no Casamance, em Março de 1969, que «a guerra fora imposta de cima, pelo governo», presta-se a servir de intermediário.
O Presidente senegalês, após haver contactado, separadamente e por diversas vezes as duas partes interessadas, concebe um Plano de Paz, destinado a permitir uma descolonização da Guiné calma e amigável.
Era a solução política que Spínola procurava desde a sua chegada à colónia. O plano previa três etapas:
1.ª Consistia em decretar um cessar-fogo a que se seguiriam negociações sem qualquer preâmbulo;
2.ª Seguir-se-ia um período de autonomia interna da Guiné-Bissau cujas modalidades, limites e prazos seriam livremente discutidos durante uma conferência constitucional que reuniria, dum lado os representantes do Governo Português e do outro os de todos os movimentos políticos da Guiné-Bissau;
3.ª A independência seria concedida numa perspectiva de uma comunidade luso-africana que nada excluiria à priori.
Mas o governo central não estava realmente disposto a modificar a sua política colonial, isto apesar do pretenso apoio e incentivo que deu a Spínola nas suas diligências, de que estava, obviamente, a par. Logo que chegou à fase de concretização do Plano, Marcelo Caetano proibiu a Spínola a continuação dos contactos e negociações com o argumento de que na Guiné se aceitava um desastre militar mas nunca uma cedência política
Face a esta posição de intransigência e de cegueira política do governo português, perde-se, ingloriamente, a última oportunidade de se poder negociar uma solução política para a guerra da Guiné.
A partir dali só restava, a ambas as partes, prosseguir com a luta, de acordo com as respectivas estratégias, adaptadas, agora, à nova situação político/militar que, entretanto se criara:
A Spínola ficou-lhe apenas a hipótese de continuar com a guerra, uma vez que o governo não aceitava outra solução que não fosse a vitória militar.
Mas ele sabe que isso não é possível. Ele próprio o diz: «uma guerra subversiva nunca está definitivamente ganha». Portanto, a esta imposição de uma só opção, a vitória militar, só resta uma alternativa: o derrube do governo que impõe uma guerra desgastante, impossível de vencer, sem qualquer outra alternativa.
De momento, ao Marechal Spínola não resta outra solução que não seja a de continuar a guerra mas como tem a plena consciência de que esta é uma solução anti-nacional, vai começar a conspirar. A preparar a outra alternativa.
O PAIGC, pelo contrário, sem abrandar o esforço militar, vai desencadear uma grande ofensiva política.»
Carlos Fabião, in Avenida da Liberdade, Associação 25 de Abril
Publicada por
A. Marques Lopes
à(s)
13:32
0
Comentários
Enviar a mensagem por emailDê a sua opinião!Partilhar no TwitterPartilhar no FacebookPartilhar no Pinterest
Hiperligações para esta mensagem
Etiquetas:
Carlos Fabião,
guerra colonial,
Marcelo Caetano,
Spinola
| Reacções: |
357-Depoimento de Elisée Turpin
Elisée Turpin é um dos fundadores do PAIGC, no dia 19 de Setembro de 1956. Nasceu a 23 de Maio de 1930, em Bissau, onde frequentou Escolas Primária e Secundária.
Mais tarde, vinha a concluir o curso de Contabilidade por correspondência. Foi empregado da Companhia Francesa S.C.O.A. – Sociedade Comercial Oeste Africana (de 1942 a 1956).
De 1958 a 1964, Foi empregado da Casa António Silva Gouveia, e de 1964 a 1973, exerceu a função de Gerente da ANCAR.
De 1973 a 1976, exerceu a função de Secretário Geral da Associação Comercial. A partir de 1976, começou a trabalhar por conta própria.
Foi Militante do Partido Comunista Português na clandestinidade em Bissau, e é Militante do PAIGC desde a sua criação.
O presente depoimento está ligado à fundação do PAIGC, expondo alguns factos de que se recorda e em que participou, para permitir uma maior e melhor percepção deste acontecimento histórico ocorrido em 19 de Setembro de 1956, em Bissau.
"... O espírito de revolta contra a presença colonial aumentou consideravelmente, a partir de 1942, altura em que o Governador da Província da Guiné era o Sr. Ricardo Vaz Monteiro, e o Administrador de Bissau era Pereira Cardoso.
O Governador Ricardo Vaz Monteiro, fortemente influenciado pela esposa Maria Augusta, quis introduzir o sistema de "Apartheid" na Província, ao tentar impor que nos estabelecimentos comerciais fossem criadas zonas separadas para brancos e pretos. A tentativa gorou, pois foi contestada pelos proprietários dos estabelecimentos comerciais.
Na sequência dessa tentativa, foi preso o maior comerciante guineense na altura, Sr. Benjamim Correia, alegadamente por se ter queixado junto do Governo Central de Lisboa sobre o ocorrido. Ele foi preso e transportado para Cabo Verde - Tarrafal.
O mesmo Governador introduziu um código de postura em que era proibido andar nos passeios de Bissau a todo o indígena que não tivesse sapatos nos pés.
Estes factos e mais outros que ocorreram durante os anos 50, reforçaram o espírito nacionalista e patriótico em muitos guineenses. Foi nesse período dos anos 50 que o Amilcar Cabral regressou à Guiné e começou a fazer contactos com vista à criação duma Associação Desportiva, através da qual levávamos a cabo actividades políticas.
Alguns de nós eram militantes clandestinos do Partido Comunista Português, nomeadamente, Abílio Duarte e eu (mais tarde soube que o Rafael Barbosa o era também). Os activistas políticos não se conheciam todos, por motivos ligados à segurança.
Amilcar Cabral nos dizia que devíamos trabalhar como uma pirâmide. Isto é, o núcleo principal e de contactos permanentes seria pequeno, mas cada um devia ter a sua "Célula". Eu, por exemplo, tendo como Célula a Zona Velha da Cidade de Bissau (pois morava nessa zona), nunca tive contacto com Rafael Barbosa. Só mais tarde vim a saber dele, como sendo um dos principais activistas políticos desde anos 40 e um dos mentores da criação do Partido.
A minha residência era no interior deste edifício.
Para além das Células, estabeleceram-se pontos focais, ou seja elos de ligação no interior do País. Por exemplo, o elo de ligação em Farim era o Dionísio Dias Monteiro; em Bolama era Carlos Domingos Gomes (Cadogo Pai); em Catio era Manuel da Silva.
Lembro-me de algumas pessoas que se movimentavam na altura como activistas políticos e muitos deles envolvidos na criação do Partido:
- Amilcar Cabral, Aristides Pereira, Rafael Barbosa, Luís Cabral, Abílio Duarte, Fernando Fortes, João Rosa, Inácio Semedo, Victor Robalo, Júlio Almeida, João Vaz, Domingos Cristovão Gomes Lopes.
Contudo, no dia 19 de Setembro de 1956, na fundação (criação formal do Partido, denominado PAI - Partido Africano da Independência), compareceram apenas 6 pessoas:
- Amilcar Cabral, Aristides Pereira, Luís Cabral, Fernando Fortes, Júlio Almeida, Elisée Turpin.
Muitos não compareceram devido a constantes perseguições dos elementos da então PIDE. Nós que conseguimos participar no encontro, tivemos que ser muito prudentes e discretos: entravamos um a um e saíamos da mesma forma.
Edifício onde foi fundado o PAI, sito no Bairro de Tchada, em Bissau.
O evento teve lugar no primeiro andar do edifício onde residiam Aristides Pereira e Fernando Fortes, no Bairro de Tchada, próximo do Hospital Nacional "Simão Mendes".
Eram volta das 5 horas de tarde desse dia. Foram aprovados os Estatutos do PAI elaborados e apresentados por Amilcar. A reunião deve ter durado cerca de 1 hora de tempo.
A partir dessa data, intensificaram-se os contactos, visando levar a mensagem junto dos guineenses e cabo-verdianos e anunciar as nossas intenções. O grosso das reuniões do PAI, a partir da sua criação, tiveram lugar na residência de João Rosa, que se situava no Chão de Papel.
Nessas movimentações participaram muitos outros activistas. Lembro-me de alguns:
- Quintino Nosoline, Ladislau Lopes Justado, Manuel Lopes Justado, Rui Barreto, Epifanio Soto Amado, Alfredo Menezes, Carlos Correia José Ferreira de Lacerda, Gudifredo Vermão de Sousa (Tatá), Milton Sezimudo Pereira de Borja, José Opadai, Armando Lobo de Pina.
O intensificar de actividades e constantes movimentações políticas levaram a que a PIDE reforçasse as perseguições e, consequentemente, muitos activistas foram sendo aprisionados e torturados nas diferentes celas de prisões. Este facto e outros, nomeadamente os acontecimentos de Pindjiguiti em 1959, levaram à tomada de decisão do Partido de instalar a sua Direcção no país vizinho independente - Guiné Conakry...."
http://www.paigc.org/
http://www.paigc.org/
Publicada por
A. Marques Lopes
à(s)
00:02
0
Comentários
Enviar a mensagem por emailDê a sua opinião!Partilhar no TwitterPartilhar no FacebookPartilhar no Pinterest
Hiperligações para esta mensagem
Etiquetas:
guerra colonial,
PAIGC
| Reacções: |
17 de janeiro de 2012
356-Antes eram eles, agora são elas...
Publicada por
A. Marques Lopes
à(s)
23:15
0
Comentários
Enviar a mensagem por emailDê a sua opinião!Partilhar no TwitterPartilhar no FacebookPartilhar no Pinterest
Hiperligações para esta mensagem
| Reacções: |
355-Lançamento de livro de Leopoldo Amado
Trata-se de uma adaptação para o grande público da tese de doutoramento que, em 2007, Leopoldo Amado apresentou à Universidade de Lisboa.
Nota biográfica
Leopoldo Amado licenciou-se em História pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, concluiu o curso de Pós-graduação em Relações Internacionais (Estudos Islâmicos) pela extinta Universidade Internacional de Lisboa, e frequentou o curso de Mestrado em Estudos Africanos no Instituto de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa. Concluiu em 2007 o Doutoramento em História Contemporânea pela Universidade de Lisboa e atualmente, além da atividade de docência na Uni-CV, em Cabo Verde, conduz um projeto de pós-doutoramento no CES.
Publicada por
A. Marques Lopes
à(s)
17:02
0
Comentários
Enviar a mensagem por emailDê a sua opinião!Partilhar no TwitterPartilhar no FacebookPartilhar no Pinterest
Hiperligações para esta mensagem
Etiquetas:
guerra colonial
| Reacções: |
354-Simbologia de Pindjiguiti na óptica libertária da Guiné
View more documents from Cantacunda.
Publicada por
A. Marques Lopes
à(s)
00:06
0
Comentários
Enviar a mensagem por emailDê a sua opinião!Partilhar no TwitterPartilhar no FacebookPartilhar no Pinterest
Hiperligações para esta mensagem
| Reacções: |
16 de janeiro de 2012
353-Funeral de Malam Bacai Sanhá
Publicada por
A. Marques Lopes
à(s)
16:57
0
Comentários
Enviar a mensagem por emailDê a sua opinião!Partilhar no TwitterPartilhar no FacebookPartilhar no Pinterest
Hiperligações para esta mensagem
| Reacções: |
352-O rio Corubal
DESCENDO pelas montanhas do Fuja Djalom, na Guiné Francesa, o rio Corubal
penetra na nossa província pela região fronteiriça de Cadé em percurso longo,
ramificado e sinuoso, até à bifurcação com o canal que vem de Bafatá, e entra
no Geba, outrora o famoso Rio Grande, onde chegaram no século xv as caravelas de Diogo Gomes e Cadamosto de que nos falam
as crónicas das Descobertas.
São
numerosos os rápidos do rio Corubal. Cusselinta e Saltinho, susceptíveis de
aproveitamento hidráulico segundo algumas opiniões, são os mais importantes do
nosso território. Foi neste último que se construiu, como solução provisória, a
passagem submersível que permite durante alguns meses a ligação entre o Norte
e Sul da província. Um pouco mais
abaixo, onde o rio se estreita, está a construir-se com o grés como alicerce, a
ponte Craveiro Lopes que beneficiará extraordinariamente a rede rodoviária da
zona sul da província para permitir no futuro uma exploração compensadora das
riquezas das circunscrições de Fulacunda e Catió. É de admitir também a sua
provável utilidade para o turismo, logo que seja possível actuar a sério neste
importante sector de propaganda e receita que representa uma grande preocupação
de muitos países e regiões.
O topónimo Corubal, segundo concluiu o comandante Teixeira da Mota,
o mais categorizado Investigador contemporâneo dos assuntos guineenses, é a
deturpação de Colibá o qual, por sua vez, provém da região limítrofe de Coli.
Outras fontes, porém, pretendem que a razão do nome se filia no facto de
«corubal» ser corruptela de curbail, nome com que, nos recuados tempos,
também se designava o âmbar.
Mas um autor antigo põe-nos a notícia transbordante de curiosidade
de que o termo Corubal queria dizer «desavergonhado» numa tradicional expressão
nativa. O rio galgava frequentemente o leito e o seu impetuoso caudal era
useiro e vezeiro na destruição das culturas marginais. O arroz à beira do rio, o algodão, o café, o
tabaco e outras culturas pequenas de tipo experimental, na parte enxuta, por
vezes alagável, quando o Corubal era irreverente, atrevido... E daí, Corubal -
o «desavergonhado»...
ᴥ
Decorria a época do extraordinário Caetano Nosolini,
esse homem que encheu numerosas páginas da história da Guiné na primeira metade
do século XIX, quando era tudo e ainda pioneiro de feitorias e
estabelecimentos agrícolas nas margens do rio caudaloso. Na época do discutido monopólio de Nicolau Macedo com o exclusivo de
comércio e navegação no no. Na época
em que se fazia, lá na foz, quando na baixa-mar, a colheita do âmbar, produto
fossilizado das resinosas marginais que as águas do Corubal arrastaram para o
acumular através dos séculos. Na época, ainda, das contínuas turbulências
entre as tribos fulas, fulas-pretos, mandingas e biafadas em permanentes
escaramuças conhecidas por «Guerras do Forriá», um Forriá que no dizer dos Fulas significa «terra da liberdade»
apesar de acontecer as sucessivas chacinas, os incêndios das povoações, os
roubos de gado e a captura dos vencidos, logo considerados escravos...
Uma época do
Corubal remexido, dos pioneiros e dos belicosos Infali Sancó, Paté Coiada,
Mamadú Paté e Bacar Guidali. Era um
Corubal latejante de presença humana a ombrear com um outro período mais remoto
que Francisco de Lemos Coelho nos descreveu em 1669: «Há no fim da
terra de Guinalá hüa grande aldêa que chamaõ Curubale, que he como feira adonde
vem mercadores de todas as partes a comprar, e vender, e nella se acha sempre o
que se busca, vendesse nella principalmente muitos negros, e roupa, e tintas
com que se tinge a roupa em Guiné de azul», acrescentando quinze anos
depois: «he como feira de toda a terra; sendo que em todas estes reinos há
feira franca de sete em sete dias... mas nessa de Curubale todos os dias de
anno he feira».
A densidade populacional das regiões servidas pelo Corubal,
especialmente o Forriá, é das mais baixas da província. A vida ausentou-se,
cerraram-se os horizontes do comércio, da agricultura e da guerra.
Desapareceram as grandes povoações onde chegavam as caravanas para o comércio
do sal, dos escravos, dos panos e da tinta azul. As enxadas dos ponteiros cavando
o solo humoso e alagável é uma recordação. O cruzar de espadas dos chefes belicosos
não passa hoje dum tema histórico. O sossego é absoluto. Liberdade de expansão
para a flora e fauna. Um retorno à Natureza.
Vem, daqui,
o interesse turístico da região que se estende pelos vales do rio, pelas
savanas, colinas e canais até à lagoa de Cufada e, mais ao sul, à mata de
Cantanhez, reserva de caça. Não há hotéis, não há pousadas nem o quer que seja
de artificial que proporcione comodidades ao turista. Mas pode-se lá chegar,
sem odisseias, sem dificuldades, adoptando o campismo nas sedutoras margens dos
rápidos de Cusselinta e Saltinho ou em viagem com retorno no mesmo dia para
gozar os prazeres da pesca desportiva, as emoções fortes da caça ou as
sensações aliciantes do naturalismo. No rio há variedade de peixes e os
descomunais e pacíficos hipopótamos. Nos mangais a orlar o rio e no arvoredo
próximo é numerosa a fauna aviária. Garças ribeirinhas, pelicanos, maçaricos e
uma imensidade de passarada multicor. No mato aparecem a cabra selvagem, a gazela, o sim-sim, o javali, o
porco-espinho, a onça, o búfalo e, por vezes, o portentoso elefante. São
muitos os patos selvagens, as chocas (perdizes) e as galinhas do mato. Enfim um mundo diferente para os desportistas-metropolitanos que se
decidam a visitar-nos e até para os que vivem na província que não tenham
ainda contactado com o mato, com o verdadeiro mato, tão cioso a ocultar-nos o
seu exotismo e uma vida animal que nos evita e receia.
O mato não é aquela fonte de arrepios ou o manancial de ilusões que nos
impingem os livros e os filmes destinados a leitores ou a plateias que se
deliciam com aventuras tipo Salgari ou Tarzan... Goza-se
nele uma quietude que reconforta, um ambiente silente de oásis como
entorpecente que não vicia e que é um refrigério. Os odores silvestres, a
abundância do verde, a vida ao ar livre que nos liberta da rotina dos livros de
ponto dos despeitos e das competições humanas. O andar perto da vida animal
adivinhando existências que se ocultam e que fogem de nós. Os esquilos, os roedores, os répteis, as
borboletas e a passarada polícroma. Todo um conjunto
que nos arrasta a sentir interesse profundo pela Natureza. E, à noite, a musicalidade dos insectos, das aves
nocturnas, os ouvidos cheios da orquestra ininterrupta dos grilos, o ruído
surdo das águas dos rápidos e o toque dos tambores nas povoações distantes… Estamos
certos que Kipling gostaria de ter vindo ao Corubal...
O próprio
fenómeno do macaréu que se regista na bifurcação do rio com o canal e o rio
Geba é um aliciante motivo turístico. O fenómeno, semelhante ao «pro roca» dos
brasileiros que se regista no Amazonas, tem constituído através dos tempos,
desde que ali apareceram as caravelas de Diogo Gomes até à actualidade, forte
motivo de curiosidade. Só por si, um espectáculo digno de presenciar-se. É uma enchente a modos de blitz, uma
onda avassaladora de águas em turbilhão e grande fragor. Já André Álvares de
Almada, o célebre capitão mercante do tempo do marfim, do ouro e dos
escravos, a referenciou com esta saborosa descrição:
«Esta
navegação é perigosa por causa da água do Macareo, que é encher este rio lá em
cima com três mares somente. Estando
a maré vazia, dando três mares, fica preia-mar de todo; e antes de virem estes mares
se ouve roncar um grande espaço e mete medo às pessoas que nunca viram isto. E correm as embarcações grande risco, mas já os pilotos delas sabem
as conjunções, e as tomam de maneira que não perigam. Algumas caravelas nossas
de até sessenta moios, que algumas vezes lá vão, no passar, quando dá a água do
Macareo, usam desta maneira. Têm algumas sonderiças e amarras ostadas umas nas
outras, e estão prestes com elas, e o navio surto e a amarra na mão. Tanto que
dão aqueles mares e vão largando e vão sobre elas aleiando muito depressa as
amarras, e desta maneira passam sem perigo, porque se estivessem com a amarra
abitada não deixariam de sossobrarem e passarem trabalho.»
ᴥ
Conhecemos o rápido de Cusselinta há uma dezena de anos. Um caçador mandinga acompanhou-nos como cicerone e pisteiro.
Prometera-nos mostrar os hipopótamos. Depois dum banho refrescante na água límpida retida no grés (os crocodilos
não estão ali…) o nosso pisteiro quis ir mostrar-nos os bichos, um pouco mais
abaixo, onde o rio se estreita. Caminhámos marginando
o mangaI. Aproveitámos todas as veredas para espreitar as águas quietas do rio.
Impaciência, curiosidade... Chegámos a um ponto onde o capim ligado ao mangal
estava batido como que assinalando a passagem de coisas descomunais. As
pegadas, amplas e fundas, e o excremento fresco, ainda a fumegar, eram uma
indicação. Entrámos no espesso do mangaI e subimos pelos troncos mais fortes a
procurar o melhor ponto de vigia. O acesso era um tanto difícil. O nosso amigo
caçador mandinga, pisteiro famoso, puxou do seu fotan (apito feito dum pedaço de bambú) e rompeu um silvo
cavo, fazendo modulação de sons. Apitou, apitou. E quando já estávamos impacientes, desiludidos, como que logrados, eis que
surgem das águas, lá perto da outra margem, duas cabeças de hipopótamos, como
proas de submarinos que vêm à superfície...
A flauta encantada do nosso pisteiro confirmara a
apregoada virtude de fazer aparecer os volumosos mamíferos.
Empoleirados
como símios, notámos que a carabina ficara presa pela bandoleira num tronco fora
do alcance da mão. Imprevidência de inexperientes. Não convinha fazer-se ruído.
Os bichos já nos tinham observado. E
daí a fazerem a imersão foi um momento (um momento em que ficámos estáticos...).
Nem, ao menos, tivemos a desenvoltura de fazer uso da «Zeiss» que trazíamos
dependurada no pescoço, aberta e focada, pronta a fazer o clic...
Fracassámos no tiro, fracassámos na foto!
Mas conservamos ainda hoje, a sensação indefinida desses momentos tão felizes, tão belos, vividos mais perto da Natureza.
Alexandre Barbosa,
Guinéus - contos, narrativas, crónicas,
3ª edição,
Livraria Progresso Editora,
Lisboa,
1968
Guinéus - contos, narrativas, crónicas,
3ª edição,
Livraria Progresso Editora,
Lisboa,
1968
Publicada por
A. Marques Lopes
à(s)
00:03
1 Comentários
Enviar a mensagem por emailDê a sua opinião!Partilhar no TwitterPartilhar no FacebookPartilhar no Pinterest
Hiperligações para esta mensagem
Etiquetas:
Corubal,
literatura colonial
| Reacções: |
Subscrever:
Mensagens (Atom)







