Controverso, e parece-me que os entrevistadores não souberam explorar algumas questões (ver aqui). Mas vamos "ouvir" o homem...
Estudos Gerais da Arrábida
A
DESCOLONIZAÇÃO PORTUGUESA
Painel dedicado à Guiné (29 de Julho de 1997)
(…)
Manuel de Lucena: Sobre a sua acção no Leste [de Angola], pode dizer-nos alguma coisa sobre
os seus acordos com Jonas Savimbi?
General Bettencourt Rodrigues: Relativamente a esse assunto, entendo que não devo falar, uma vez que a
pessoa em questão ainda está viva e politicamente activa. No entanto, esclareço
que após o 25 de Abril nunca tive nada a ver nem com a UNITA, nem com o
MPLA.
Manuel de Lucena: O brigadeiro Passos Ramos, que nos prestou dois depoimentos em 1995 e
1996, levantou um pouco a ponta do véu
sobre esses acordos. Disse-nos, nomeadamente, que houve um entendimento entre o
Exército português e a UNITA com vista à formação de um santuário, que,
naturalmente, funcionava contra o MPLA. Disse-nos também que a UNITA não era um
movimento fantoche: estava bem implantada, cobrava impostos aos madeireiros, controlava
áreas muito vastas - em suma, dava-nos trabalho.
General Bettencourt Rodrigues: A única coisa que posso dizer é que o general Costa Gomes estava dentro
desse entendimento, tal como o professor Marcelo. Caetano. O que não
equivale a atribuirlhes a paternidade da ideia.
Luís Salgado de Matos: O fim do modus vivendi com Savimbi ficou a dever-se à inabilidade do seu
sucessor?
General Bettencourt Rodrigues: Em certa
medida. A guerra subversiva é uma guerra - como direi? - suja,
pouco ortodoxa. Se sigo com demasiada intransigência os meus princípios - e
essa foi a opção meu sucessor - não estou a jogar pelas regras do jogo.
Luís Salgado de Matos: Mas essa inflexão face à UNITA terá tido o assentimento do ministro,
não?
General Bettencourt Rodrigues: Não sei.
Mas note que o Leste de Angola é um sítio remoto. Naquele
conflito gozávamos de uma grande margem de autonomia.
Manuel de Lucena: Quando estive exilado, falei uma vez com um homem do MPLA, um mestiço,
Castro Lopo, que se confessou muito impressionado com as dificuldades que o
movimento então experimentava na Frente Leste. Dificuldades sobretudo ao nível
dos abastecimentos - vinha tudo de muito longe, da Zâmbia, por exemplo,
forçando-os a longas caminhadas…
General Bettencourt Rodrigues:
Precisamente. Por outro lado, eram essas as vantagens dos terroristas
na Guiné. Mas o Governo Zâmbia não regateava apoios à subversão. À semelhança,
aliás, de alguns lobbys norte-americanos, como o American Comitte for Africa. Quem
tocava no Caminho de Ferro de Benguela era a UNITA, o que não convinha nada à
Zâmbia, um país de hinterland com acesso ao mar bloqueado. Isso
dava-nos um grande trunfo sobre o Kaunda. É por isso que chamei à
guerra subversiva uma guerra suja: cada um dos lados combatia com manhas e
artimanhas.
Manuel de Lucena: Nesse sentido, o acordo com a UNITA revestiase de um carácter
eminentemente prático; quanto muito implicaria uma integração de quadros
dirigentes daquele movimento na administração portuguesa. É
isso?
General Bettencourt Rodrigues: Sim, é
mais ou menos isso.
Luís Salgado de Matos: Passando
agora para a Guiné. O sr. general chegou a organizar algum Congresso do
Povo?
General Bettencourt Rodrigues: Sim, o
quinto. Foi até o acontecimento político-social mais marcante do
meu mandato como Governador. Para sua informação, eu descrevo isso com algum detalhe
no depoimento que o Paradela de Abreu me solicitou em tempos, Vitória Traída.
Mas houve também os congressos regionais, de onde eram cooptados os delegados
para o Congresso Provincial. Tudo isso movimentou na altura milhares de
pessoas, completamente à margem do PAIGC.
Manuel de Lucena: Mas essa não interferência do PAIGC era deliberada por parte deles…
General Bettencourt Rodrigues: Incapacidade militar, meu caro amigo!
Luís Salgado de Matos: Havia alguma reflexão no Estado Maior sobre a táctica que o general
Spínola estava a desenvolver na Guiné?
General Bettencourt Rodrigues: Ele fazia a sua política, era lá com ele. Cada um tinha as suas
características próprias. Volto a repetir: os comandantes
militares gozaram sempre de uma larga autonomia. Quando cheguei à Guiné em 1973, habituado
como estava à largueza de Angola, o que mais me impressionou foi a pequenez
daquilo tudo. A Guiné é um país cuja área varia em função da maré!
Manuel de Lucena: Na Guiné, o sr. general chegou a pensar numa concentração do
dispositivo?
General Bettencourt Rodrigues: Sim, planeava converter as 225 guarnições em 80 e tal. A
dispersão é inimiga da eficácia. Mas já não tive tempo,
Manuel de Lucena: Por outro lado, a quadrícula dispersa é sinal de presença efectiva,
possibilita o contacto directo com as populações…
General Bettencourt Rodrigues: É uma outra forma de ver as coisas. Simplesmente, havia
que fazer uma opção.
Luís Salgado de Matos: Manteve o acordo do general Spínola com os Felupes, em que estes recebiam
100 escudos por cada cabeça de guerrilheiro abatido?
General Bettencourt Rodrigues: Não estava ao corrente desse acordo, mas se ninguém o denunciou…
Manuel de Lucena: Quando chegou à Guiné encontrou uma tropa bem preparada, motivada, com
bons quadros? Faço lhe esta pergunta porque a ideia que normalmente se tem
acerca do estado de espírito da nossa tropa na Guiné é a de uma desmoralização
generalizada.
General Bettencourt Rodrigues: Sobre isso direi o seguinte: só se morre uma vez, não há mortes
provisórias. Quando se combate com convicção e tenacidade, quando se tem a
certeza de um trabalho bem feito, a motivação é coisa que não falta.
Manuel de Lucena: Mas o MFA na Guiné, ao nível dos quadros, aparentava estar bem
organizado, tinha um número muito significativo de adesões. Qual era a
sua percepção?
General Bettencourt Rodrigues: Não tive conhecimento disso, Que as condições eram terríveis, não
contesto. Agora dizer que a tropa estava desmoralizada, de maneira nenhuma! Em
Angola podia cumprir-se uma comissão alternando sítios fáceis com difíceis. Na Guiné
não; vivia-se num sobressalto permanente. Por isso é que na Guiné as comissões
duravam 21 meses e em Angola 24. Só quando os
strellas entraram em cena é que as comissões passaram a 24 meses. O
general Spínola deixou ficar os que lá estavam e aumentou o contingente com
tropas frescas.
Manuel de Lucena: O 25 de Abril foi
então uma surpresa para si?
General Bettencourt Rodrigues: Tanto foi que me assaltaram o gabinete! Embora quase tivesse assistido ao
golpe das Caldas, quando vim a Lisboa em Março de 1974, não dei por nada.
Quando a Revolução estalou, estava perfeitamente inocente.
Luís Salgado de Matos: O sr. general tinha confiança na tropa das informações? Na Marinha, onde
fiz o meu serviço militar, corria que o Exército, na Guiné, estava infiltrado
pelo PAIGC de alto a baixo.
General Bettencourt Rodrigues: Em geral
tinha. Nas Informações trabalhava-se em estreita colaboração com
a DGS, reconhecidamente competente nesse campo. O PAIGC, de resto, não tinha
técnica para entrar um jogo desses. Diz-se
que um dos efeitos da contra-subversão é a lassidão, Mas a lassidão também os
afectava a eles. O PAIGC não estava menos exausto que nós.
Manuel de Lucena: De qualquer forma, de todos os MFA's, não restam dúvidas de que o MFA da
Guiné era o melhor estruturado. Basta atentar nos nomes proeminentes do 25 de
Abril que saíram da Guiné. Se eles fossem fracos, o sr. general, no dia 25,
ter-se-ia rido na cara deles e dado voz de prisão. Depois, o evoluir dos acontecimentos
logo após o 25 Abril veio a demonstrar que na Guiné a vontade de regresso à
Metrópole se sobrepunha praticamente a tudo.
General Bettencourt Rodrigues: Olhe, como dizem os brasileiros, quando um general passa à reserva vira
historiador. Foi
o que sucedeu comigo. Reformado aos 55 anos, dediquei-me ao estudo. Pesquisei, li,
meditei, E sabe a que conclusão cheguei? Que o país nunca teve um problema de
defesa nacional em África. A tropa podia estar farta, mas obedecia. Faz
parte da nossa natureza. A esse respeito nunca tive dificuldade - fui sempre
obedecido. Raramente tive de usar de expedientes punitivos; escolhi sempre a
via do exemplo: quando era preciso suportar dificuldades, eu fazia questão em
suportá-las. Quando estive em Lisboa em Março de 1974 - vim cá buscar 150 contos
-, achei isto uma coisa horrorosa. Tinha havido a remodelação ministerial, a
última do professor Marcelo. Senti um mal-estar generalizado, uma atmosfera
pesada. Felizmente, o episódio da «brigada do reumático» apanhou-me já a
caminho da Guiné.
Manuel de Lucena: Como foi a reacção ao golpe das Caldas na Guiné?
General Bettencourt Rodrigues:
Irrelevante. O Ultramar ficava muito longe.
Luís Salgado de Matos: O facto do general Spínola ter saído após Guileje foi entendido como uma
derrota? Não afectou as pessoas que lá estavam?
General Bettencourt Rodrigues: Note: o general Spínola esteve lá oito anos, fora nomeado no tempo do dr.
Salazar. Eu até dizia: o Spínola não deve sair da Guiné senão por limite
de idade ou de caixão. E, caramba, oito
anos na Guiné
é de morrer! A partir de determinada altura, admito que as coisas
terão deixado de lhe correr de feição, nomeadamente porque o Governo não lhe
dava todo o dinheiro que pretendia para a sua política de aliciamento das populações. Apesar de cada um ter a sua maneira de
comandar, eu não enjeitei a sua política de melhoria desenvolvimento das
populações autóctones. Mas com uma diferença: eles não me metiam a mão no
bolso! Quer dizer; não lhes satisfazia todos os pedidos. Recordo-me de um dia
ter ido a uma sanzala e de um grupo de mulheres me ter pedido rádios. Vejam
bem: rádios para falar com os maridos quando
estes iam a Bissau! Não fui para a Guiné para agradar a toda a
gente. Fui lá para cumprir o que devia ser cumprido.
Manuel de Lucena: Na conversa que teve com o professor Marcelo, antes de ir para a Guiné,
não ficou com a sensação que a saída do general Spínola lhe causava a ele,
Marcelo, um problema bicudo?
Luís Salgado de Matos: E a isso eu acrescento: a implicava a admissão da derrota de Spínola na
Guiné?
General Bettencourt Rodrigues: Leiam o Depoimento do professor Marcelo Caetano. Ele narra a nomeação a
reunião com os altos comandos.
Manuel de Lucena: E quando é nomeado para a Guiné tem outra entrevista com o professor
Marcelo ...
General Bettencourt Rodrigues:
Naturalmente. No entanto, o pretexto dessa conversa até foi outro
assunto, designadamente, a negociação de um contrato publicitário entre a RTP e
a Movierecord - eu nessa altura em administrador delegado da RTP. Só depois é
que o Presidente do Conselho me assediou para a Guiné, onde a situação se deteriorara
nos últimos tempos.
Luís Salgado de Matos: Mas porque é que saltaram a escala hierárquica e o escolheram a si? Não
foi pela aura vitoriosa que trazia do Leste de Angola?
General
Bettencourt Rodrigues: Sim, pode aceitar-se essa leitura.
Manuel de Lucena: Mas o sr. general Bettencourt e o sr. general Spínola são comandantes de
estilos e escolas diferentes, não é assim?
General
Bettencourt Rodrigues: O mais possível.
Manuel de Lucena: De resto, a «terceiro-mundialização» que o Exército português conheceu
durante o PREC - e que se traduzia em ordens por despacho, ultrapassagem das
hierarquias, etc. - não procedeu da organização do general Spínola na Guiné?
General Bettencourt Rodrigues: Mas note que, ao contrário do que muita gente pensa, o general Spínola
não era assim tão popular na Guiné.
Manuel de Lucena: Quando fui subordinado do major Salles Golias, que servira sob as ordens
do general Spínola na Guiné, e depois se tornou seu inimigo figadal recordo-me
de ele ter dito que era capaz de tudo para evitar que o general Spínola, já
depois do 25 de Abril, voltasse a pôr os pés na Guiné. O major Golias estava
ciente que o general Spínola deixara uma multidão de indefectíveis, tanto cá
como na Guiné.
General Bettencourt Rodrigues: Mas esses fiéis - o Monge, o Bruno, o Fabião, etc. - já haviam todos
regressado quando fui para a Guiné. O sr. general Spínola, lamento
dizê-lo, era muito faccioso. Para ele, quem não tivesse andado no Colégio Militar ou não fosse de Cavalaria
era menos que zero.
Texto fixado por Pedro Aires Oliveira, a partir de notas suas e de Fátima
Patriarca.



















