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30 de janeiro de 2012

374-Magda Bagi, um balanta... estranho



         Dia após dia, hora após hora, Madja Bagi esperou paciente por este momento.
Nas noites insones, olhos furando a treva densa que escorre pelos prumos da palhota e inunda o colmo sonoro. Madja Bagi construiu o plano, estudou-o nos mínimos pormenores. Nas manhãs de sol, curvado sobre a «bolanha» faiscante, mãos crispadas no  arado com que revolve o lamaçal fecundo, meditou no seu sonho e refreou ai sua ansiedade.
E agora, bem neste momento, sente que a hora chegou. Ali está, silencioso e quedo, beneficiando da sombra espessa que o cajueiro derrama. No céu nublado, sem estrela nem palor, correm nuvens em furioso galope. Longe, para os lados da «lala», qualquer ave noctívaga ensaiou um canto soturno. E, logo após, o silêncio tombou de novo, pesado e húmido. Um silêncio feito de mil diferentes rumores, imprecisos e vagos.
Na expectativa do «tornado» que não tardará em vir, o matagal acobardou-se. Dir-se-ia que a morte campeia e esmaga tudo sob o seu passo gélido. Os altivos poilões amodorraram c guardam a mudez grave dos grandes momentos. Da tabanca, que se adivinha além entre bananeiras estéreis, não vem sinal de vida.
Por momentos, em fugaz visão que logo se esvai no denso negrume que tudo submerge, Madja Bagi vê a recepção calorosa de que será alvo. Então, Xaála Bari não desatará aqueles olhares frios que o envenenam. Ensaiará talvez - quem poderá sabê-lo! - um sorriso doce, um daqueles sorrisos que só Xaála possui.
Por isso, só por isso, vale a pena esperar, paciente, o instante que lhe pareceu longínquo. Talvez até esta noite tempestuosa e negra fosse enviada pelos deuses, premiando a sua refreada ansiedade, dando razão à sua sede de grandeza e amor.
Amanhã, quando na tabanca constar o seu feito audaz e másculo, olhares de inveja e respeito cairão sobre o seu corpo possante. É impos­sivel que Xaála não acompanhasse esse louvor unânime. E então na pró­xima lua, com a «bolanha» ondulante e verde, grávida de espigas, unirão os seus corpos e as suas vidas. Ele não será jamais o trabalhador isolado, o motor de dois braços que revolvem terras alheias. Terá uma «morança» sua, bem sua, e outros braços virão emparelhar com os seus rasgando sulcos em lamas fecundas que darão espigas.
Venderá o arroz ao sírio baixote e untuoso que tem uma loja infecta ao fundo da vila ou esperará o «branco» imundo e mal-humorado que passa naquela camioneta que parece desmantelar-se a cada solavanco?
Agora, bem neste momento que finalmente chegou, apenas o seu plano, há tanto urdido, tem forma. O mais, tudo o mais, são rápidas visões, miragens que se sucedem e se esvaiem por entre o negrume opaco.
Longe, muito longe, há um rumor estranho, soturno, como que um tombar de cachoeira em ravina abrupta. Ou como se, por infindável e metálica ponte, rolasse um comboio impossível.
Madja Bagi sabe que o «tornado» se aproxima vertiginosamente. Ouve-se-lhe o tropel profundo e surdo, como batuque furioso e longínquo; pressente-o na quietude fictícia do matagal sonoro; calcula o seu caminhar galopante pelo rumor crescente da folhagem sacudida - e espera.
Madja Bagi tem os costureiros retesados e, com a mão crispada, aperta o punho do terçado.
De súbito, um estrondo caiu do alto, brotou das copas desgalhadas, subiu do solo ressequido e poeirento, ocupou tudo num ribombar que ensurdecia. O cajueiro gemeu, varrendo o chão com as ramas desgre­nhadas. Como se, qual arco impossível, disparasse folhas para o alvo que ficaria algures, para lá do negrume pesado e ruidoso.
Logo após, a chuva tombou em catadupas, morna e compacta. Na tabanca, sob a ventania raivosa, as bananeiras entrechocavam as folhas enormes, num ruído sincopado e agreste como gargalhadas dementes.
Madja Bagi correu por entre o capim ensopado. De salto, ilencioso e elástico como felino, transpôs a palissada e quedou atento.
O «tornado» abafava tudo. A chuva cantava como arroz velho caindo nas esteiras. Do matagal, vinham os gemidos de dor das árvores con­torcionistas.
Encharcado e transido, Madja Bagi enrijou os músculos, acocorou-se e ergueu-se repetidas vezes. A cada flexão, progredia no terreno lamacento e frio. Com um salto maior, de lado, alcançou as bananeiras e ficou-se agachado, junto aos caules, recebendo as bofetadas rudes das ramas rasgadas.
Lentamente, o seu corpo alongou-se até as mãos ratearem os prumos do «congó».
E agora, com o tronco bem colado ao chão pegajoso, todo ele se concentra no ouvido subtil, numa crispação nervosa. Nada. Nenhum rumor furava o colmo. Dir-se-ia que toda a tabanca havia desertado em face da tormenta que imperava ainda, ao perto e ao longe, atirando seus urros para o cabo do mundo.
Então, seus dedos longos e nodosos, habilmente, febrilmente, cavaram em torno da base do primeiro pilar. Dois golpes rudes, oscilantes, alar­garam o covato. Água lodosa esguichou em volta. Nada mais.
Depois um outro, e outro ainda, sofreram os mesmos empuchões vio­lentos. Lama líquida saltava e ia diluir-se na enxurrada que rumorejava.
Madja Bagi içou-os, um a um, até desenterrá-los e, com mil cuidados, deitou-os na valeta.
Algo de insólito rangeu ali, mesmo ali, brotando da boca daquele buraco negro, agora aberto.
Acocorado, músculos contraídos na eminência do salto, terçado firme na mão possante, Madja Bagi esperou. Os olhos, furando a treva, tinham uma fixidez dolorosa.
Cansado da espera, impaciente e audaz, aventurou um braço. Depois de chofre, todo o seu corpo hercúleo e brônzeo, penetrou no «congó».
Presa a uma estaca cravada, aquela vaca malhada e linda que todos cobiçavam, parecia esperar. O rnancanha, cioso do seu haver, dormia junto da estaca.
Incrivelmente hábil e silencioso, Madja Bagi desatou os nós da espia, as mãos rasando o rosto do mancanha - e tanto, que a expiração lhas aquecia agradavelmente.
O resto foi simples. E rápido. Patas cobertas, afagos, sábios toques, trouxeram para o matagal o bicho desejado. Rápido. E simples.
O «tornado» passava. Do céu luminoso e translúcido, caía uma quie­tude pânica. Aqui e além, asas raspavam o silêncio.
Pelo trilho subtil, Madja Bagi guiou o animal, forçando a marcha mais e mais - que a impaciência é forte e o perigo muito.
O sol, quando espreitou por entre os troncos dos poilões, encontrou-o longe, muito longe já, em plena estrada, cantarolando. E quando a treva de novo tombou sobre os homens e as coisas, Madja Bagi marchava ainda, infatigável e feliz.
Uma magnífica ansiedade ocupa, no seu espírito, o lugar da histé­rica ansiedade que o dominou. Agora, Madja Bagi não pensa nem sonha - canta.
Todas as suas esperanças, todo o seu orgulho, todo o seu violento bem-querer, saltam-lhe aos lábios e desfazem-se em melodias bárbaras, guturais, ruidosas como seixos rolando.
Um outro sol, olhando a pique, avistou-o recolhido, num matagal espesso, comendo. Bem presa, a vaca malhada, exuberante de carnes, rumi­nava tranquilamente. Mas o «tornado» que vergastou as terras, ao tombar da noite, surpreende-o num atalho que mal se adivinhava no emaranhado do capim viçoso e sussurrante.
Madja Bagi não sente o ardor das soalheiras impiedosas nem vacila sob o ímpeto selvagem das tormentas. Segue embalado por um sonho grande. Tão grande que todo o mundo parece concentrar-se em si, à sua volta. Tudo o mais são coisas indefinidas, sem sentido nem forma, uma imensa e profunda inutilidade.
Tocando o animal dócil e paciente, Madja Bagi apenas sai do seu súbito egoísmo para recordar Xaála Bari. Recordar os seus olhos c o seu sorriso. O seu corpo moldado e brilhante. Toda ela. Ou para, con­fiante e feliz, idealizar a união dos seus corpos e dos seus destinos.
... Nas próximas chuvas, caminhando na lama fecunda, colhendo os caules pejados de espigas... O filho macho que nascerá... Um mundo.
De quando em quando, uns assomos de meiguice piegas levam-no a afagar a vaca robusta, luzidia e valiosa como «bajuda» intacta.
Outro sol e outro negrume encontraram ainda Madja Bagi em pleno matagal.
Só na manhã seguinte, para lá daquela mancha escura que as man­gueiras derramam pelo céu, avistou os cocurutos das palhotas. Um rumor familiar e vago, veio, envolto na brisa, esperá-lo na «lala». O animal, cansado e estranho, espetou as orelhas e mugiu baixo, numa interrogação.
A longos haustos, Madja Bagi bebia aquele ar lavado e sonoro que o acariciava.
De súbito estacou. Os tambores haviam rasgado a manhã e batiam, sincopados, cadências festivas.
Que seria?
Duas palmadas rijas deram pressa ao animal e ele alargou o passo, folgando a amarra.
O ar andava envolto em gritos hilares, gargalhadas estridentes; sons desordenados de tambores repetidos.
Às primeiras palhotas, parou. Ninguém. De quando em quando, gente corria, num desaforo, sem o ver.
Sem o ver ...
E agora, bem no centro do largo, junto ao poilão magestoso e secular, sente que tudo foi inútil. Uma dor funda, aguda e cáustica, raspa-lhe o peito. Tem a noção que os tambores estão longe, longe, lá para as bandas onde o mar parece ter fim. E aquela gente, correndo, falando, dançando, são ténues silhuetas, imprecisas e vagas como copas em manhãs de bruma.
E aquela dor, fria e funda, doendo mais e mais...
Junto de si, os «homens grandes» tecem-lhe louvores e, de quando cm quando, palpam-lhe o corpo gelado e trémulo. «Bajudas» roliças e intactas devoram-no com o olhar incendiado.  
Madja Bagi, de olhar perdido, músculos crispados sob a pele de ébano, um nó espesso na garganta ressequida, apenas tem noção daquela dor funda e surda, como que um punhal entrando, entrando ...
Agora, em plena festa do casamento de Xaála Bari, sente que tudo ruiu à sua volta. Ódio. Frio.
Quem será esse Curna Naté que a vai levar? Não conhece.
Uma voz qualquer - será a do chefe Impanda? - diz-lhe que Curna Naté veio de longe, de muito longe, para a levar. É rico.
... A dor é maior. Maior e mais funda...
Com esforço, chamando a si toda a sua força imensa, Madja Bagi correu a olhar. E vê o feliz entre risos e nuvens de fumo. Perto dali. Xaála Bari, assiste, dengosa, ao baile das moças.
A crispação que lhe percorreu o corpo, elucidou os velhos. Desde logo, prudentes, procuram assento junto das palhotas. Levavam no olhar a luz pânica dos graves momentos.
Madja Bagi, de olhos fitos no feliz rival, sente que algo de indefi­nido o submerge e sufoca. É um mal-estar estranho, uma raiva surda, o que quer que seja de doloroso que o cobre de frio e tolhe os movimentos. E quando o seu olhar duro, congestionado, faiscante, pousa em Xaála Bari, faz gelar-lhe o sorriso com que premiava os tocadores.
De súbito, um longo arrepio talvez, ou talvez até um soluço mal con­tido, faz sacudir o corpo magnífico de Madja Bagi.
A passo lento, encaminhou-se para Cuma Naté. Os seus músculos possantes, sob a dolorosa contracção, desenham-se sob a pele.
Um frémito de pavor percorreu as gentes. Crianças nuas, desorde­nadas, procuram as mães, em choros soluçados. Os tambores emudecem. Caiu do alto, sobre os homens e as coisas, um silêncio pesado e frio como uma maldição.
Do alto da sua estatura hercúlea, Madja Bagi olha as gentes. E o seu olhar, firme e cortante, esmaga-as inexoravelmente.
Contagiado, Cuma Naté ergueu-se trémulo. A sua mão, pouco firme, prendeu o terçado. Companheiros robustos fizeram-lhe guarda, enquanto os «grandes» abanavam as cabeças num fatalismo de mau agouro.
Lento, majestoso, Madja Bagi continuava. Da sua mão esquerda saía a amarra da vaca malhada. E a vaca malhada, dócil e atenta, cami­nhava ruminando.
Daqui e de além, brotaram os primeiros gritos, logo abafados pelo silêncio que imperava, Uma leve brisa ciciou na folhagem. Uma asa raspou o céu. Nada mais.
Madja Bagi deixou cair o terçado e, sem uma contracção, rígido e frio, aproximou-se.
E as gentes viram, bestas de pasmo, Cuma Naté tremer. No seu olhar baço e parado, no seu rosto coberto de suores frios, desenhou-se o medo.
Então, quando já nada restava a não ser a pública cobardia do rival, Madja Bagi sorriu. Um sorriso duro, crispado, agressivo como uma bofetada.
Sem pressas, estendeu-lhe a corda que prendia o animal.
E quando, atónito e trémulo, Cuma Naté a recebeu, afagou-lhe o ombro com duas pequenas palmadas - como o faria a um garoto...

Fernando R. Barragão 

29 de janeiro de 2012

373-Planície conquistada

 Assim que rompeu o dia, alvor nado, a gente balanta desceu à planície. Os mais tardios a erguerem o corpo da esteira ou que demo­raram aconchegados ao brasedo, restos da fogueira acesa logo o galo cantou, seguiam o trilho fora na direcção da «laIa», onde outros, em reunião de ânimos, se aprestavam para iniciar a nova fase de aproveitamento da várzea. O rapariguedo, que também madrugou, sai da tabanca para a povoação comercial, ali perto. O sírio ia despachar as últimas toneladas de arroz que ficaram da farta campanha que passou, pois o «chaland» que viera no preamar da noite não devia demorar em levá-lo a Bissau, para o descasque, quando o rio entrasse em vasante. Não podia tardar a lufa, formigueiro humano em fila indiana, balaios à cabeça, cheinhos, varando a «laIa» em trote constante até à ponte de cibes, de onde o despejavam para o porão espaçoso.
Na planície já o «bindé» removia o solo que as primeiras chuvas encharcaram e tornaram fofo. Talhões divididos, postados em linha de ataque, os da lavra lançavam o arado com gana, sempre, sempre para diante. Um cantava. Melopeia enfadonha, entoação de compassos iguais, sempre a mesma música, excepto uma nota que se avivava quando da penetração do «bindé». Deixavam para trás a terra amarelada, revolvida em torrões disformes com a trama do raizedo e um ou outro fragmento arbustivo que a queimada, em cenário grandioso de labaredas e fumaça, deixou tostados na voragem com que galgou o imenso capinzal.
Agora cabia ao Sol esterilizar o raizame e aberta que estava a quadra pluviosa competia à chuva a saturação e dessalga das leivas em poisio, enquanto arrastava do mato a lixarada vegetal - o adubo para a futura e grande «bolanha». Corridos uns dois anos, na época própria, seria a lavra definitiva: valas abertas, camalhões levantados, pequenos ouriques com­postos, estes a servirem de passadiço e traçado a marcar propriedades. Era chegada a vez da transplantação da gramínea, criada em alfobres, tabuleiros verdejantes resguardados pelo arvoredo, obstáculo à ventania e ao Sol forte que cresta quando no auge. Então, em toda a interminável planura, havia de desenvolver-se o arrozal, vasto relvado a esconder a água estagnada que as purgas da barragem consentisse.
Continuava a bruma. O astro das quenturas fora eclipsado pelas nuvens enegrecidas de carga. Voltou a chover, num repente, e logo os da lavra pararam em quietude de espectativa, arados quietos, cabeças erguidas e atiradas para trás visando a atmosfera num diagnóstico meteorológico. Não tardaram em abalada para a tabanca, velozes como gazelas e em algazarra alegre de garotos em festa. Do lado do rio, nas nesgas de capim, a manada iniciou a retirada ante os toques brandos das vergastas dos miúdos, nus, apenas as «malilas» a rodear-lhes a cintura, pulsos e artelhos. Maçaricos e pernaltas que deambulavam nas margens lodosas do rio irromperam em fuga voando baixo, quase tocando a água, para os lados do tarrafe e onde o mar começa. E as garças que antes esvoaçavam de dorso para dorso dos bovinos em faina parasiticida, já tinham desaparecido a resguardar a plumagem branca e mimosa, enfiando para a outra banda do rio, mato aberto salpicado de palmeiras de cibe a destoarem das mambombas e outros arbustos rasteiros. A chuva não pára. Cresce o volume do rio que vasa em força mas já não invade a planície. O flanco da extensa barragem repele-a, rechaça-a, e a torrente caudalosa segue para o mar, talvez contrafeita...
Anos atrás, ainda quando a planície, na culminância das chuvas, tinha de consentir o jugo despótico das águas, renascia na região a antiga ideia da barragem; mas logo que o elemento intruso se escoava para as profundidades do solo e para o leito do rio, em vez de um impulso comum para levantar o dique tão necessário, de construção barata, passa­va-se o tempo a meditar, a meditar somente, até esquecer...
E, assim, de ano para ano.
Ao gentio bastava-lhe aquela fartura selvagem. Cheio o «fuul», reserva de grãos a garantir-lhe a subsistência, até à colheita seguinte, e feita a inversão do produto em moeda para satisfazer o pagamento das capitações anuais, adquirir umas jardas de tecido, uma manta, alfaias e qualquer bugiganga do seu agrado, e, ainda, amealhados uns tantos «pesos» para umas folhas de tabaco e uns goles de «cana» de quando em quando, nada mais o preocupava. É que contavam com outros recursos que fariam inveja noutros, camponeses como eles mas de outras latitudes, que empenham a vida à terra que, por pobre, esgotada, difícil, só cede ante a química e o vigor dos braços, remunerando-os avaramente. Recursos ali a dois passos, fáceis de colher e espontâneos. A «bolanha», quando alagada, criava barbos, bentanas, camarões para uma pescaria cómoda, o mato, propriedade de todos, punha à disposição uma variedade de frutos silvestres, troncaria, mezinhos... ; a «lala» era um manancial de lama e capim, materiais com que edificavam as suas palhotas; e o mar também concorria com mariscos e sal, toalha de cristal que ficava assente lá no começo da «laIa» a quando das marés mortas. Mas a volúpia pelo álcool, o vício do tabaco e o desejo de posse de qualquer novidade que o comércio lhes punha diante dos olhos, levava-os a desfalcar a reserva de cereal e lá ia o cabaço, uma, duas, infinidades de vezes, encher-se no «fuul», até que roçava no fundo do enorme pote, sacrificando a reserva. Recorriam aos empréstimos nunca negados, umas vezes dinheiro, outras o próprio produto que venderam antes, e ainda a gramínea não estava transplantada na «bolanha» já parte - grande parte - da futura colheita estava comprometida, endividada.
Uma das partes interessadas na barragem - o comércio - assober­bada com o fecho-de-contas da campanha finda e já com os preliminares da seguinte, se não se esquecia, parecia. A outra parte - o indígena - fechava-se numa apertada compreensão do restrito e não dava um passo para melhorar hábitos e nível de vida, trabalhando o indispensável para uma safra à escassa - flagrante herança dos seus avoengos, os primeiros de uma mística pagã de obediência cega a «irãs» e «totens», espantalhos habilmente animados pela «sigué» e pelo feiticeiro da tribo impingindo-os como omnipotentes. Antídoto, a dificultar a acção do civilizado, do cristão!
A sede da Circunscrição chegara o novo administrador. Novato, mas com aura de sabedor e dinâmico, de porte desportivo, de modos simples e cativantes, quando ali foi em visita de reconhecimento da região apro­veitou para, em contactos directos, auscultar opiniões quanto a possibili­dades actuais e das possíveis no futuro. Ali mesmo, em campo raso, sem qualquer aparato, depois de especificar necessidades com convencimento da verdade, numa linguagem simples mas concisa, calou-se para ouvir outros, convidados a depor: representantes do comércio, chefes de tabanca, «cabeças» de morança. Por fim, até um «blufo», cspigadotc, tufos de cabelo retorcidos e a penderem para a testa, também proclamou o seu entusiasmo pelo momento.
Quando a carrinha abalou já ficara selado um entendimento, uma decisão, aceite por todos num aplauso sem artifícios. Fora um verdadeiro empurrão que, sem magoar, sobrecarregando todos por igual, levava a um fim: o Progresso da região. Escoradas na perspectiva de óptimas cam­panhas, melhor compensação ao capital e à dura vida do mato, os comer­ciantes aceitaram de bom grado o seu quinhão de responsabilidades: custear a alimentação dos trabalhadores indígenas enquanto durassem os trabalhos para a conquista da planície e o empréstimo da semente na altura adequada, mas dessa vez em cedência de «bushel» por «bushel». O indígcna dava a mão-de-obra. Cada morança forneceria um trabalhador. De Catió, lá da administração, vinham as alfaias necessárias, gasolina, o camião para transporte de cascalho e de cibes e ainda dois cipaios, um transferido há pouco de Mansoa e com prática dessas coisas de barra­gens e o outro, o fula Bacar, caçador de fama, a quem competia abater no mato e nas «lalas» os antílopes para a «màfé» de todos os dias. E quando ali fosse a carrinha com um administrativo seguir o andamento dos trabalhos, não deixaria de levar um braçado de folhas de tabaco, presente a sair da verba orçada anualmente para premiar indígenas que se distinguissem.
Os balantas ganharam entusiasmo, interesse e a obra começou.
O camião agrupou montanhas de cascalho e grandes pilhas de toros de cibe destinados ao esqueleto da plataforma, enterrados a formarem cruzes sucessivas, desencontradas, a lembrar obstáculo antitanque. Ergueram-se medas de capim. A lama bastava agachar os corpos e enterrar as mãos... Feita a argamassa da lama, capim e cascalho era só atirá-Ia a cobrir O esqueleto, e o imponente paredão ia surgindo. E em três meses, apenas, aquela estrutura majestosa para o meio, já dava ares de desafio a qualquer enxurrada de intuitos invasores. Assim, contidas as águas, ia a planície selvagem e estéril tornar-se em vasta área de cultivo, terreno de sobra para os da região e ainda para outros mais, muitos que fossem, migrados de outros lados onde os terrenos baixos esfalfaram da lavoura conse­cutiva. Desse-se o êxodo, a região poderia sobrelevar-se e disputar a fama de melhor centro produtor a Cabo-Chanque, Cantone, Jabadá...
Com a obra em meio surgiu um acontecimento que os balantas inter­pretaram como dádiva do «irã» - ainda os vestígios dos avoengos -, relegando o protagonista do facto a mero instrumento do fetiche. Manhã cedinho, um dos manjacos que furava nos palmares perto da estrada larga que segue a Catió, chegou à tabanca com os cabaços de seiva fresca e a novidade: um casal de hipopótamos, com filhote, pastava na «lala», um bom bocado além da curva do rio. Bacar, o cipaio investido da função venatória, ainda na palhota do chefe de tabanca, sonolento, conseguiu entender o murmúrio e, num ápice, apareceu com a farda ainda por abotoar e a velha «Kropastschek» segura pelo cano, sobre o ombro, como cajado de cabreiro. Logo o rodeou aquela gente em alvoroço e de apetites aguçados para o possível festim. Em momentos o camião arrancou a ganhar a estrada e lá no cruzamento o cipaio desceu, deu instruções, e vai que fura no atalho que serpeia pelo mato espesso, manjaco atrás. Os que vieram da tabanca como possíveis carregadores teriam de aguardar um sinal do pisteiro, mãos em concha encostadas à boca para sonorização do grito. Penetraram na floresta. Curva ali, descida acolá, tufos de ramagem a vedar a passagem, grossas carcassas de troncos caídos ao través, vítimas da «baga-baga», tudo a camuflar o trilho e a dificultar o trânsito aos intrusos da selva. Mas o manjaco, o pisteiro, conhecia bem o piso, não andasse ele por ali um ror de vezes para se encarra­pitar na palmeira colhendo «chabéu» e extraindo vinho de palma. Adiante, nos troncos baixos, uma cáfila de macacos-cães rompeu em fragorosa rastolhada e a latir desalmadamente. O caçador continua, indiferente, mas olha-os de soslaio por entre a vegetação, contrariado, praguejando em pensamento contra os símios antipáticos e de nádegas repelentes. Bem podiam lançar o alarme aos paquidermes vistos no côn­cavo da «lala». Prestes a sair do mato, parou, repentinamente. Lança a mão livre para trás, espalmada, a indicar ao pisteiro a paragem e silêncio. Pela brecha de um tufo de arbustos lobrigou dois vultos enormes, escuros, imóveis, enquanto o filhote rebolava no charco, brincalhão e inconsciente do perigo que chegava. Bacar agacha-se e penetra na «lala» por onde  o capim era ralo, devagar, cauteloso, evitando o quebrar da palha seca e da folhagem morta atirada do mato pelo vento. Os bicharocos mos­tram-se desconfiados e giram as cabeças descomunais para o lado do inimigo. Mais uns passos, de cócoras, e a «Kropastscheb entra a detonar uma descarga e logo outra. O mais corpulento, decerto o macho, cam­baleia até afocinhar. Soa terceira descarga e o brutamontes cai para o lado, a bufar, enquanto a fêmea e os traquinas, à ilharga, se escapam em corrida precipitada, grunhindo, tomados de terror, desaparecendo sob as águas do rio. O atirador ergue-se, mostra-se, avança uns passos e, pelo seguro, visa o cérebro do animal quase à queima-roupa com um tiro escusado. Só mais um solavanco - o derradeiro - e o sangue escorre em borbotões do orifício aberto pelo projéctil. O pisteiro não tarda a despedir o sinal, som de caverna, em aviso de êxito. Os balantas, atentos às descargas, haviam de precipitar-se pelo atalho, de terçados em punho e em alarido entusiástico. Já ali, as lâminas começaram a rasgar o couro duríssimo, a separar o manto de gordura e volumosos nacos de carne. A cabeça, qual enorme cepo, seria enterrada na lama os dias bastantes para que os vermes limpassem a caveira - mais um troféu de Bacar.
O resto, vísceras, sangueira e migalhas de carne a envolver os ossos, seriam o quinhão de abutres e hienas.
Chegados à tabanca entre a apoteose do gentio, o chefe, velhote simpático de barbicha branca, destaca-se e atira os braços descarnados aos ombros do cipaio num abraço mal desenhado, agradecendo e felici­tando em nome de todos. Os dois europeus do centro comercial impelidos pela curiosidade de ver o monstro, também lá estavam e não se foram sem arrematar o couro e as presas, moeda para dois garrafões de aguar­dente de cana, tão a propósito para a bacanal em perspectiva.
Nesse dia houve interrupção nos trabalhos da barragem. A impa­ciência dominaria os trabalhadores e, por força, o rendimento teria de ser, senão nulo, quase. O caso merecia ser assinalado com uma folga, aproveitada nos preparativos da orgia. Quando a noite caiu, na sua queda brusca própria dos trópicos, já a tocha de capim ateara fogo à ramagem seca numa fogueira de grandes proporções, ali no meio do terreiro, entre as lojas comerciais. Em redor da coleira, no chão, sobre tapete de palmas de bananeira, quantidade de carne assada em churrasco, à tarde, nos bra­sedos da tabanca. Na varanda térrea de uma das lojas os três comer­ciantes estirados nas cadeiras de lona, e perto, os cipaios sentados em bancos de pau de tagarra. As tabancas fizeram-se representar em globo e não faltaram os manjacos furadores de vinho de palma, colegas do pisteiro. Homens-grandes, os balantas mais idosos, reuniram-se aparte, em frisa, sentados no chão, c os «blufos» e raparigas - a mocidade balanta - vestiram os panos mais vistosos c adornaram-se de pulseiras e colares de contaria, anilhas de latão c braceletes de alumínio. Depois, pela noite fora, o «tamboril» e o «bombolom» rufaram ininterruptamente em orquestra ruidosa, marcando ritmos, guiando coros. Os comerciantes recolheram pelo meio-de-festa, fartos do espectáculo, sujos pela poeira em suspensão, nauseados pelo cheiro da carne esturrada. A bacanal, con­tudo, continuou até ao canto do primeiro galo, já quando da fogueira restava apenas um montão de cinza. Dispersaram então, um a um, os enfartados e exaustos, e os ébrios, a cambalearem...
Refeitas as energias com mais um dia de folga, o tempo perdido foi recuperado trabalhando-se com mais ardor. Mas sempre esperançados em nova proeza de Bacar.
E tudo aquilo por causa de um hipopótamo!...
Desapareceram as nuvens negras de carregadas. Não chovia desde há horas. E de novo os balantas desceram à planície. O «chaland» ia rio abaixo, lentamente, vela murcha a pedir lufada de vento. O rapari­guedo regressava às moranças depois de receber a jorna estipulada pelo sírio. Perto da horta dos civilizados, à sombra da calabaceira, os que antes encheram os balaios de arroz no armazém, saboreavam uma litrada de «cana» com que o sírio os presenteou a modos de suplemento. E a medida negra de ferrugem passava de boca para boca em andança de alcatruz, gole a um, gole a outro, de maneira a chegar para todos. O dia pôs-se lindo, de uma luminosidade que fere a vista e que aquece demasiadamente; e a manada que também voltara ao pasto lá nas nesgas de capim à beira do rio, regressava de novo, desta vez para gozar a sombra na mala dos bissilões.
Alexandre A.  M. Barbosa






28 de janeiro de 2012

372 Entrevista ao general Bettencourt Rodrigues

Controverso, e parece-me que os entrevistadores não souberam explorar algumas questões (ver aqui). Mas vamos "ouvir" o homem... 


Estudos Gerais da Arrábida
A DESCOLONIZAÇÃO PORTUGUESA
Painel dedicado à Guiné (29 de Julho de 1997)


(…)

Manuel de Lucena: Sobre a sua acção no Leste [de Angola], pode dizer-nos alguma coisa sobre os seus acordos com Jonas Savimbi? 
General Bettencourt Rodrigues: Relativamente a esse assunto, entendo que não devo falar, uma vez que a pessoa em questão ainda está viva e politicamente activa. No entanto, esclareço que após o 25 de Abril nunca tive nada a ver nem com a UNITA, nem com o MPLA. 
Manuel de Lucena: O brigadeiro Passos Ramos, que nos prestou dois depoimentos em 1995 e 1996, levantou um pouco  a ponta do véu sobre esses acordos. Disse-nos, nomeadamente, que houve um entendimento entre o Exército português e a UNITA com vista à formação de um santuário, que, naturalmente, funcionava contra o MPLA. Disse-nos também que a UNITA não era um movimento fantoche: estava bem implantada, cobrava impostos aos madeireiros, controlava áreas muito vastas - em suma, dava-nos trabalho.  
General Bettencourt Rodrigues: A única coisa que posso dizer é que o general Costa Gomes estava dentro desse entendimento, tal como o professor Marcelo. Caetano. O que não equivale a atribuirlhes a paternidade da ideia. 
Luís Salgado de Matos: O fim do modus vivendi com Savimbi ficou a dever-se à inabilidade do seu sucessor?
General Bettencourt Rodrigues: Em certa medida. A guerra subversiva é uma guerra - como direi? - suja, pouco ortodoxa. Se sigo com demasiada intransigência os meus princípios - e essa foi a opção meu sucessor - não estou a jogar pelas regras do jogo. 
Luís Salgado de Matos: Mas essa inflexão face à UNITA terá tido o assentimento do ministro, não? 
General Bettencourt Rodrigues: Não sei. Mas note que o Leste de Angola é um sítio remoto. Naquele conflito gozávamos de uma grande margem de autonomia.
Manuel de Lucena: Quando estive exilado, falei uma vez com um homem do MPLA, um mestiço, Castro Lopo, que se confessou muito impressionado com as dificuldades que o movimento então experimentava na Frente Leste. Dificuldades sobretudo ao nível dos abastecimentos - vinha tudo de muito longe, da Zâmbia, por exemplo, forçando-os a longas caminhadas… 
General Bettencourt Rodrigues: Precisamente. Por outro lado, eram essas as vantagens dos terroristas na Guiné. Mas o Governo Zâmbia não regateava apoios à subversão. À semelhança, aliás, de alguns lobbys norte-americanos, como o American Comitte for Africa. Quem tocava no Caminho de Ferro de Benguela era a UNITA, o que não convinha nada à Zâmbia, um país de hinterland com acesso ao mar bloqueado. Isso dava-nos um grande trunfo sobre o Kaunda. É por isso que chamei à guerra subversiva uma guerra suja: cada um dos lados combatia com manhas e artimanhas.
Manuel de Lucena: Nesse sentido, o acordo com a UNITA revestiase de um carácter eminentemente prático; quanto muito implicaria uma integração de quadros dirigentes daquele movimento na administração portuguesa. É isso? 
General Bettencourt Rodrigues: Sim, é mais ou menos isso. 
Luís Salgado de Matos: Passando agora para a Guiné. O sr. general chegou a organizar algum Congresso do Povo? 
General Bettencourt Rodrigues: Sim, o quinto. Foi até o acontecimento político-social mais marcante do meu mandato como Governador. Para sua informação, eu descrevo isso com algum detalhe no depoimento que o Paradela de Abreu me solicitou em tempos, Vitória Traída. Mas houve também os congressos regionais, de onde eram cooptados os delegados para o Congresso Provincial. Tudo isso movimentou na altura milhares de pessoas, completamente à margem do PAIGC.
Manuel de Lucena: Mas essa não interferência do PAIGC era deliberada por parte deles…
General Bettencourt Rodrigues: Incapacidade militar, meu caro amigo! 
Luís Salgado de Matos: Havia alguma reflexão no Estado Maior sobre a táctica que o general Spínola estava a desenvolver na Guiné? 
General Bettencourt Rodrigues: Ele fazia a sua política, era lá com ele. Cada um tinha as suas características próprias. Volto a repetir: os comandantes militares gozaram sempre de uma larga autonomia.  Quando cheguei à Guiné em 1973, habituado como estava à largueza de Angola, o que mais me impressionou foi a pequenez daquilo tudo. A Guiné é um país cuja área varia em função da maré! 
Manuel de Lucena: Na Guiné, o sr. general chegou a pensar numa concentração do dispositivo? 
General Bettencourt Rodrigues: Sim, planeava converter as 225 guarnições em 80 e tal. A dispersão é inimiga da eficácia. Mas já não tive tempo,
Manuel de Lucena: Por outro lado, a quadrícula dispersa é sinal de presença efectiva, possibilita o contacto directo com as populações…
General Bettencourt Rodrigues: É uma outra forma de ver as coisas. Simplesmente, havia que fazer uma opção.
Luís Salgado de Matos: Manteve o acordo do general Spínola com os Felupes, em que estes recebiam 100 escudos por cada cabeça de guerrilheiro abatido?
General Bettencourt Rodrigues: Não estava ao corrente desse acordo, mas se ninguém o denunciou…
Manuel de Lucena: Quando chegou à Guiné encontrou uma tropa bem preparada, motivada, com bons quadros? Faço lhe esta pergunta porque a ideia que normalmente se tem acerca do estado de espírito da nossa tropa na Guiné é a de uma desmoralização generalizada.
General Bettencourt Rodrigues: Sobre isso direi o seguinte: só se morre uma vez, não há mortes provisórias. Quando se combate com convicção e tenacidade, quando se tem a certeza de um trabalho bem feito, a motivação é coisa que não falta.
Manuel de Lucena: Mas o MFA na Guiné, ao nível dos quadros, aparentava estar bem organizado, tinha um número muito significativo de adesões. Qual era a sua percepção? 
General Bettencourt Rodrigues: Não tive conhecimento disso, Que as condições eram terríveis, não contesto. Agora dizer que a tropa estava desmoralizada, de maneira nenhuma! Em Angola podia cumprir-se uma comissão alternando sítios fáceis com difíceis. Na Guiné não; vivia-se num sobressalto permanente. Por isso é que na Guiné as comissões duravam 21 meses e em Angola 24. Só quando os  strellas entraram em cena é que as comissões passaram a 24 meses. O general Spínola deixou ficar os que lá estavam e aumentou o contingente com tropas frescas. 
Manuel de Lucena: O 25 de Abril foi então uma surpresa para si? 
General Bettencourt Rodrigues: Tanto foi que me assaltaram o gabinete! Embora quase tivesse assistido ao golpe das Caldas, quando vim a Lisboa em Março de 1974, não dei por nada. Quando a Revolução estalou, estava perfeitamente inocente. 
Luís Salgado de Matos: O sr. general tinha confiança na tropa das informações? Na Marinha, onde fiz o meu serviço militar, corria que o Exército, na Guiné, estava infiltrado pelo PAIGC de alto a baixo. 
General Bettencourt Rodrigues: Em geral tinha. Nas Informações trabalhava-se em estreita colaboração com a DGS, reconhecidamente competente nesse campo. O PAIGC, de resto, não tinha técnica para entrar um jogo desses.  Diz-se que um dos efeitos da contra-subversão é a lassidão, Mas a lassidão também os afectava a eles. O PAIGC não estava menos exausto que nós.
Manuel de Lucena: De qualquer forma, de todos os MFA's, não restam dúvidas de que o MFA da Guiné era o melhor estruturado. Basta atentar nos nomes proeminentes do 25 de Abril que saíram da Guiné. Se eles fossem fracos, o sr. general, no dia 25, ter-se-ia rido na cara deles e dado voz de prisão. Depois, o evoluir dos acontecimentos logo após o 25 Abril veio a demonstrar que na Guiné a vontade de regresso à Metrópole se sobrepunha praticamente a tudo. 
General Bettencourt Rodrigues: Olhe, como dizem os brasileiros, quando um general passa à reserva vira historiador. Foi o que sucedeu comigo. Reformado aos 55 anos, dediquei-me  ao estudo. Pesquisei, li, meditei, E sabe a que conclusão cheguei? Que o país nunca teve um problema de defesa nacional em África. A tropa podia estar farta, mas obedecia. Faz parte da nossa natureza. A esse respeito nunca tive dificuldade - fui sempre obedecido. Raramente tive de usar de expedientes punitivos; escolhi sempre a via do exemplo: quando era preciso suportar dificuldades, eu fazia questão em suportá-las. Quando estive em Lisboa em Março de 1974 - vim cá buscar 150 contos -, achei isto uma coisa horrorosa. Tinha havido a remodelação ministerial, a última do professor Marcelo. Senti um mal-estar generalizado, uma atmosfera pesada. Felizmente, o episódio da «brigada do reumático» apanhou-me já a caminho da Guiné. 
Manuel de Lucena: Como foi a reacção ao golpe das Caldas na Guiné? 
General Bettencourt Rodrigues: Irrelevante. O Ultramar ficava muito longe.
Luís Salgado de Matos: O facto do general Spínola ter saído após Guileje foi entendido como uma derrota? Não afectou as pessoas que lá estavam? 
General Bettencourt Rodrigues: Note: o general Spínola esteve lá oito anos, fora nomeado no tempo do dr. Salazar. Eu até dizia: o Spínola não deve sair da Guiné senão por limite de  idade ou de caixão. E, caramba, oito anos na Guiné é de morrer! A partir de determinada altura, admito que as coisas terão deixado de lhe correr de feição, nomeadamente porque o Governo não lhe dava todo o dinheiro que pretendia para a sua política de aliciamento das populações.  Apesar de cada um ter a sua maneira de comandar, eu não enjeitei a sua política de melhoria desenvolvimento das populações autóctones. Mas com uma diferença: eles não me metiam a mão no bolso! Quer dizer; não lhes satisfazia todos os pedidos. Recordo-me de um dia ter ido a uma sanzala e de um grupo de mulheres me ter pedido rádios. Vejam bem: rádios para falar com os maridos quando  estes iam a Bissau! Não fui para a Guiné para agradar a toda a gente. Fui lá para cumprir o que devia ser cumprido. 
Manuel de Lucena: Na conversa que teve com o professor Marcelo, antes de ir para a Guiné, não ficou com a sensação que a saída do general Spínola lhe causava a ele, Marcelo, um problema bicudo? 
Luís Salgado de Matos: E a isso eu acrescento: a implicava a admissão da derrota de Spínola na Guiné? 
General Bettencourt Rodrigues: Leiam o Depoimento do professor Marcelo Caetano. Ele narra a nomeação a reunião com os altos comandos. 
Manuel de Lucena: E quando é nomeado para a Guiné tem outra entrevista com o professor Marcelo ... 
General Bettencourt Rodrigues: Naturalmente. No entanto, o pretexto dessa conversa até foi outro assunto, designadamente, a negociação de um contrato publicitário entre a RTP e a Movierecord - eu nessa altura em administrador delegado da RTP. Só depois é que o Presidente do Conselho me assediou para a Guiné, onde a situação se deteriorara nos últimos tempos.
Luís Salgado de Matos: Mas porque é que saltaram a escala hierárquica e o escolheram a si? Não foi pela aura vitoriosa que trazia do Leste de Angola?
General Bettencourt Rodrigues: Sim, pode aceitar-se essa leitura. 
Manuel de Lucena: Mas o sr. general Bettencourt e o sr. general Spínola são comandantes de estilos e escolas diferentes, não é assim? 
General Bettencourt Rodrigues: O mais possível. 
Manuel de Lucena: De resto, a «terceiro-mundialização» que o Exército português conheceu durante o PREC - e que se traduzia em ordens por despacho, ultrapassagem das hierarquias, etc. - não procedeu da organização do general Spínola na Guiné?
General Bettencourt Rodrigues: Mas note que, ao contrário do que muita gente pensa, o general Spínola não era assim tão popular na Guiné. 
Manuel de Lucena: Quando fui subordinado do major Salles Golias, que servira sob as ordens do general Spínola na Guiné, e depois se tornou seu inimigo figadal recordo-me de ele ter dito que era capaz de tudo para evitar que o general Spínola, já depois do 25 de Abril, voltasse a pôr os pés na Guiné. O major Golias estava ciente que o general Spínola deixara uma multidão de indefectíveis, tanto cá como na Guiné.
General Bettencourt Rodrigues: Mas esses fiéis - o Monge, o Bruno, o Fabião, etc. - já haviam todos regressado quando fui para a Guiné. O sr. general Spínola, lamento dizê-lo, era  muito faccioso. Para ele, quem não tivesse andado no Colégio Militar ou não fosse de Cavalaria era menos que zero.

Texto fixado por Pedro Aires Oliveira, a partir de  notas suas e de Fátima Patriarca.

24 de janeiro de 2012

367-Recordações... e saudades? Os restos estão em Cacheu.

Não sei se o Mário Lopes Garcia e o seu amigo Poates (?...) ainda estão vivos, já lá vão 50 anos... no entanto talvez, eu também ainda cá ando há mais de 50. O Mário é capaz de ter saudades, admito, daquela "terra longínqua, mas Potuguêsa". O Poates não me parece, pois desfez-se destes postais que encontrei num alfarrabista.
Mas aconselho o Mário a ir ver que, embora a História se mantenha no que foi verdade, as coisas mudaram, o que também é verdade, e História:
O "Pacificador da Guiné" Teixeira Pinto e o descobridor Diogo Gomes estão agora em Cacheu, assim:

23 de janeiro de 2012

366-A descolonização que Salazar recusou


A descolonização que Salazar recusou

O ministro dos Negócios  Estrangeiros da Ditadura, Franco Nogueira, propôs a Salazar, em Janeiro de 1962, escassos dias depois da anexação de Goa pela União Indiana, a entrega de Macau à China e de Timor à Indonésia, acompanhadas de negociações sobre a independência da Guiné e de São Tomé e Príncipe, como forma de assegurar o domínio colonial sobre Angola, Moçambique e Cabo Verde. O documento que explicita o surpreendente volta-face da estratégia política do chefe da diplomacia do Estado Novo, mantido até hoje secreto, foi encontrado no espólio do ditador, depositado na Torre do Tombo, à guarda da Biblioteca Nacional.
 

Texto de Orlando Raimundo* 

Intitulado “Notas Sobre a Política Externa Portuguesa”, o documento, de 18 páginas, datado de 12 de Janeiro de 1962, não está assinado, como era costume entre os diplomatas, mas não há grandes dúvidas sobre a sua autoria. O «dossier» onde foi encontrado reúne pastas do gabinete de Franco Nogueira nas Necessidades, relativas a conversas mantidas com Salazar e com embaixadores acreditados em Lisboa, no ano de 1962 e inícios de 1963. A anotação aposta na primeira página, pelo punho do próprio ditador - «Começado a analisar com o ministro dos Negócios Estrangeiros numa das nossas conferências» - é a prova da sua autenticidade e a confirmação categórica de que o tema foi discutido com Salazar.
A iniciativa de Franco Nogueira surge num momento de grande vulnerabilidade para o regime: a 18 de Dezembro de 1961, as tropas indianas tinham invadido Goa, Damão e Diu. Os 50 mil homens armados, dos três ramos das Forças Armadas, só precisaram de 24 horas para obter a rendição total, assumindo soberania plena sobre os territórios e abalando fortemente o edifício político da Ditadura. Apesar de «avisado», desde Julho de 1954, pelo assalto aos enclaves de Dadrá e Nagar-Aveli, Salazar não acreditava que a invasão se concretizasse.
Apostado em conseguir a admissão de Portugal na ONU, o ditador ensaiara, no rescaldo da II Guerra Mundial, uma pequena operação de cosmética, na tentativa de convencer a comunidade internacional de que Portugal vivia uma «democracia orgânica» e não uma ditadura. Anunciou eleições «tão livres como na livre Inglaterra», e mudou o nome da polícia política (de PVDE para PIDE); do secretariado de propaganda (de SPN para SNI) e dos Tribunais Militares Especiais (que passam a chamar-se Tribunais Plenários). Durante os anos de 1946 e 1947, concede um espaço de breve respiração à oposição, no que apelidou de «liberdade suficiente», sempre vigiada pela polícia política, e mandou transformar o Tarrafal de campo de concentração em «prisão normal».
Apesar dos protestos da oposição, sobre a ausência de liberdades, a ONU acabou por aceitar a entrada de Portugal em Dezembro de 1955, em simultâneo com a Espanha franquista. A decisão da comunidade internacional foi determinada por dois factores associados: o receio de que o comunismo se instalasse na Península Ibérica, que obrigava a ter em atenção o papel de Franco e Salazar; e a necessidade de encontrar uma compensação, de sinal contrário, para a entrada da União Soviética na organização.
Apesar dos ataques e das condenações, a elite salazarista continua a resistir à descolonização.
A posição do ditador é determinada por razões exclusivamente políticas. Salazar, que recusara todas as tentativas dos movimento nacionalistas africanos para consigo negociar uma transição pacífica, já não está convencido de que a sobrevivência económica do país dependa das colónias. Os resultados da exploração económica são cada vez menores. E não são os interesses da CUF na Guiné, ou os investimentos em Angola, que o fazem mudar de posição. A tese de Salazar é outra: fundamenta-se na convicção de que o regime ditatorial não sobrevive sem as colónias. E não hesita, por isso, em enfrentar tudo e todos, resistindo mesmo às pressões dos países que o apoiam.
O avanço de Nehru sobre Goa, para além de pressionado pelo movimento terceiro-mundista, tinha sido discretamente encorajado pelo Presidente norte-americano John Kennedy, adepto assumido da descolonização. «A Índia, onde estava como embaixador americano John Kenneth Galbraith, era muito importante para os Estados Unidos. Kennedy, de acordo com o Governo brasileiro, tinha tomado antes uma iniciativa diplomática, oferecendo a Salazar uma solução gradual e negociada para os territórios chamados então províncias ultramarinas. Mas Salazar voltou a recusar o diálogo, pensava que podia resistir», recorda Mário Soares, na longa entrevista memorial concedida a Maria João Avillez em 1996.
Significativo é o facto, que não passou despercebido a ninguém, de o avanço das tropas indianas cobre a colónia portuguesa ter sido concretizado escassas semanas após o pacifista Nehru ter regressado de uma viagem aos Estados Unidos.
O célebre «Discurso de Goa», de 3 de Janeiro de 1962, em que Salazar desafia Nehru, dizendo que «a questão não acaba ali, antes começa» - lido de forma teatral pelo presidente da Assembleia Nacional, Mário de Figueiredo, por o ditador estar supostamente «com a voz embargada pela emoção», serve de mote à proposta. A iniciativa partiu do próprio Franco Nogueira, que faz questão de anotar, logo a abrir, que se trata de uma «contribuição não solicitada».
Dando por adquirido que as bases da política colonial «não se coadunam com o mundo ocidental em que somos obrigados a viver» e que o objectivo da pressão anticolonial «não é uma vitória militar, mas a queda do regime», o chefe da diplomacia do Estado Novo divide as colónias entre «essenciais e não essenciais». No lote das primeiras inscreve Angola, Moçambique e Cabo Verde, colocando todas as outras na posição de dispensáveis.
Desprezando por completo S. Tomé e Príncipe, onde então se não vislumbrava qualquer possibilidade de haver petróleo, lembrava que a Guiné se configurava já «como o território para o qual é mais difícil delinear uma solução aceitável». E propunha, para abrir caminho, a realização de «conversas exploratórias secretas» com o regime senegalês.
No caso de Macau, o ditador não é confrontando de chofre com a necessidade de promover a «transferência de soberania com manutenção de laços simbólicos com Portugal». Como qualquer bom negociador, Franco Nogueira descortina duas hipóteses alternativas, como forma de ganhar tempo, embora não pareça acreditar em nenhuma delas: o estatuto de «porto franco» ou a criação de um «condomínio». E sugere «negociação semelhante com a Indonésia em relação a Timor».
Para Angola, Moçambique e Cabo Verde, elevadas à condição de «jóias da coroa», Franco Nogueira prescreve várias soluções cruzadas, destinadas todas elas a assegurar o poder colonial: «pactos militares secretos de assistência mútua local» com a Rodésia e a África do Sul, obtendo empréstimos financeiros e mão-de-obra barata a troco de energia; a criação de elites locais; a fixação de «colonos espanhóis» e emigrantes de outros países, «designadamente italianos, gregos e franceses da Argélia, da Metrópole ou do norte de África»; a concessão de facilidades económicas a Espanha, na base de um novo Tratado Peninsular, e de facilidades ou preferências comerciais ao Brasil; e a «captação», no caso específico de Angola, «de certos grupos políticos estabelecidos no Congo, de feição nacionalista angolana mas moderados e ainda não lançados na luta armada». Um pedido de associação rápida ao Mercado Comum (actual União Europeia) facilitaria imenso as coisas, em sua opinião.
 Advertindo para a necessidade de se dispor de recursos financeiros para o êxito da operação, que deveria provocar um surto de desenvolvimento, o diplomata propunha-se ainda negociar com os países vizinhos o estatuto de Cabinda, que na sua opinião «nem historicamente nem em função da geografia ou da economia terá (teria) necessariamente de acompanhar Angola»; reduzir a contribuição financeira na NATO, «procurando libertar-nos da rede de obrigações impostas pela organização»; e aumentar «substancialmente» o montante do arrendamento da base das Lajes, reduzindo o prazo da durabilidade dos acordos.
A chegada de John Kennedy à Casa Branca mudara por completo o modo como os norte-americanos encaravam as ditaduras ibéricas e os impérios coloniais. Salazar foi a primeira vítima da nova política de Washington para com África. E o embate entre o Presidente democrata e o ditador de Santa Comba foi inevitável. O inquilino da Casa Branca chegou a propor ao ditador a completa independência das colónias, sob a fórmula da autodeterminação, mas Salazar recusou liminarmente a proposta. Inaugurando um novo estilo, Kennedy privilegiou sempre os contactos directos com os movimentos de libertação, que apesar da desconfiança correspondiam aos acenos de simpatia norte-americanos.
«Salazar tinha traçado a política externa portuguesa, tornando-se prisioneiro das suas opções políticas. Tendo assumido o poder quando Portugal tinha fronteiras imperiais respeitadas internacionalmente e motivo de orgulho para os portugueses, incluindo intelectuais e políticos de oposição ao regime, Salazar empenhou-se em defender essas fronteiras sem fazer concessões, consciente de que se tratava de uma política nacional, legítima e julgada exequível, e convencido de que a menor cedência teria efeitos em cadeia que seriam incontroláveis e irreparáveis», observa o embaixador João Hall Themido no seu livro de memórias.
Na lógica radical do ditador, a defesa intransigente das colónias portuguesas, «cobiçadas pela URSS através dos seus peões no terreno», os movimentos nacionalistas de libertação, deveria ser encarada pelos países capitalistas como causa sua. Estava mesmo convencido - assegura Hall Themido - que o mundo ocidental «acabaria por reconhecer as vantagens de poder contar com um espaço territorial português de incontestável valor estratégico, mesmo que discordasse do regime existente em Lisboa e da política colonial prosseguida».

Enquanto Franco Nogueira, encarregue de aplicar no terreno as suas orientações pessoais e directas, procurava construir um argumentário coerente - manipulando como podia a memória histórica e os documentos oficiais das próprias Nações Unidas -, Salazar apostava forte no agravamento da Guerra Fria. Era a fobia do comunismo, encarado como ameaça séria não apenas pelo regime do Estado Novo mas também pelas potências ocidentais. Na esperança de que fosse tudo uma questão de tempo, o ditador enfrentava com grande convicção e com muita firmeza as adversidades, tanto a nível interno como no plano internacional.
A 4 de Fevereiro de 1961 rebentara a rebelião em Angola, com o assalto às prisões de Luanda onde se encontravam presos activistas e dirigentes da resistência nacionalista. A Argélia tornara-se já independente e 17 outros Estados do continente africano também. Mas a questão colonial continuava a ser o mito e a obsessão do salazarismo.
O ano começou da pior maneira para Salazar, com o assalto ao paquete «Santa Maria», logo em Janeiro, numa operação comandada por Henrique Galvão, que contribui fortemente para desacreditar o regime a nível internacional. A 15 de Março, o Norte de Angola é sacudido por ataques terroristas e dias depois os Estados Unidos, seguindo uma orientação de John Kennedy, eleito dois meses antes, votam no Conselho de Segurança das Nações Unidas uma resolução contra Portugal. Segue-se a decisão do Congresso norte-americano de decretar um embargo à venda de armas a Portugal. O ditador sente-se traído pelo «amigo americano» mas assume directamente o comando das operações. «Se é precisa uma explicação para o facto de assumir a pasta da Defesa Nacional, mesmo antes da remodelação do Governo que se verificará a seguir, a explicação pode concretizar-se numa palavra, e essa é Angola», diz, num célebre discurso, difundido por todos os meios de informação .
Internamente, a situação complica-se também bastante: a 13 de Abril, o general Botelho Moniz, ministro do Exército, lidera uma tentativa de golpe de Estado, que fracassou; em Novembro um avião da TAP é desviado, em pleno voo, por um grupo de opositores liderado por Hermínio da Palma Inácio, que depois lança «panfletos subversivos» sobre Lisboa; e a 31 de Dezembro dá-se o «Golpe de Beja», uma nova tentativa (também falhada) de derrubar Salazar, durante a qual o general Humberto Delgado entra e sai clandestinamente de Portugal.
O golpe de Botelho Moniz, um homem de direita, visava precisamente a procura de uma solução negociada para o problema colonial, no pressuposto de que a guerra era uma opção sem saída. O conspirador contava com o apoio dos comandos militares e o discreto incentivo dos americanos, com quem contactava directamente nas reunião da NATO. Mas cometeu uma ingenuidade de última hora, ao pressionar Américo Thomaz para demitir Salazar, acabando por ser por ele denunciado e colocado em prisão domiciliária. É no rescaldo desse processo que Salazar, em jeito de resposta, profere a célebre frase: «Para Angola, rapidamente e em força».
O «Golpe de Beja», que não passou afinal de um assalto mal sucedido ao quartel daquela cidade alentejana, durante o qual foi morto o secretário de Estado do Exército, foi liderado por um grupo de militares e civis que incluía os capitães Varela Gomes e Eugénio Oliveira, que foram presos, e Manuel Serra, Fernando Piteira Santos e Ramos da Costa, que tiveram que fugir clandestinamente do país.
O documento encontrado no Arquivo Salazar contraria em toda a linha tudo quanto Franco Nogueira disse e escreveu sobre o assunto, antes e depois do 25 de Abril, alterando profundamente a imagem de total intransigência que dele retém a História. Esse facto constitui, por si só, um elemento de grande perturbação para os homens do regime que com ele partilharam missões. Adriano Moreira, o ministro do Ultramar - que reconhece de imediato a caligrafia de Salazar e a «maldita caneta com o aparo já gasto», que dificultava a decifração -, diz que o documento nunca lhe foi mostrado.
O ex-presidente do CDS sublinha, sem arriscar qualquer comentário, o facto de não figurar na obra supostamente minuciosa de Franco Nogueira, «nem referência ao documento nem apontamento de que esta política tenha sido por ele sugerida ou assumida». Mas evoca uma recordação capaz de ajudar a decifrar o mistério: «O dr. Salazar, que raras vezes reunia o Conselho de Ministros, mantinha uma relação bilateral com cada um dos ministros, a quem fazia muitas vezes notar que saber secreto é poder, não partilhando com outros as reflexões feitas a dois». Poderá estar aí a explicação para o secretismo.
 O general Silvino Silvério Marques, na altura governado de Cabo Verde, contactado também pelo Expresso, confessa-se igualmente estupefacto. «Falei muitas vezes com ele e custa-me muito a acreditar que tenha feito uma proposta dessas. A ser verdade, é uma viragem completa na sua actuação política.»
De Angola - onde o MPLA, a FNLA e a UNITA contam com a cumplicidade dos países vizinhos (Congo-Brazzavile, Zaire e Zâmbia, onde possuíam bases) e o apoio mais ou menos discreto da URSS e da China (a que se juntam mais tarde os EUA, confiantes em Holden Roberto) -, o rastilho independentista estende-se à Guine. É a fase em que Kennedy manda oferecer a Salazar apoio ao desenvolvimento económico e social das colónias, a troco de abertura à negociação. Paralelamente, Amílcar Cabral, o fundador do PAIGC e seu primeiro presidente, (que em Dezembro de 1960 participara com outros líderes nacionalistas numa conferência de Imprensa em Londres contra o colonialismo português), escreve em Outubro de 1961 uma «Carta Aberta» a Salazar. O ditador despreza uma iniciativa e outra. E /CW>Chega depois a vez de Moçambique, onde os combates começam a 25 de Setembro de 1964. Kennedy tinha sido assassinado há quase um ano, a 22 de Novembro de 1963, e na Casa Branca estava agora Lyndon B. Johnson. Mas «Lisboa estava informada da ajuda secreta americana à Frelimo de Eduardo Mondlane e à FNLA de Holden Roberto, além de conhecer o apoio dispensado pela CIA aos missionários que em Angola desenvolviam actividade hostil à política portuguesa. Salazar pensaria ainda que uma reforma profunda da vida do país podia levar à queda do regime político que construíra», recorda o embaixador Hall Themudo. O ditador avalia como imprevisíveis, nos planos nacional e externo, as consequências de uma cedência. E resiste uma vez mais.
Com as três frentes de guerra em crescendo, o ano de 1965 surge também particularmente difícil para o regime. Num momento em que Ian Smith declara a independência unilateral da Rodésia, a PIDE assassina perto de Badajoz o general Humberto Delgado, e «Luanda», de Luandino Vieira (então a cumprir no Tarrafal uma pena de 14 anos de prisão por «actividades subversivas contra a segurança do Estado»), ganha o Grande Prémio da Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores.
O regime abre uma grande brecha, mas não entra ainda em agonia. A guerra, em vez de isolar o ditador dá-lhe novo alento, com a exploração manipulada da teoria da vitimização. O grande problema decorria da posição hostil dos Estados Unidos, que perturbava a política externa portuguesa, toda ela centrada no problema colonial. Numa entrevista concedida em Abril de 1966 ao «Chicago Tribune», Salazar manda um recado directo ao Presidente Johnson: «As dificuldades com o Governo (americano) vêm apenas deste, ante o facto de a Nação portuguesa ser constituída por parcelas dispersas em vários continentes, julgar ser-lhe lícito aplicar-nos o estatuto de aliados numa parte do território e o de inimigos noutra.»
Enquanto se mantém no poder, Salazar não dá o mínimo sinal de cedência em relação à questão colonial, que irá deixar como herança fatal ao seu sucessor, Marcello Caetano. Nem Franco Nogueira, que só abandona a pasta após a morte política do ditador, em 1968, fará qualquer referência à «solução» recusada. Falecido em Março de 1993, com 75 anos, o diplomata manteve-se fiel até ao fim ao pacto de silêncio.

* Investigação de Luísa Amaral
Publicado no Expresso, em 31.08.2002