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16 de fevereiro de 2012

388-Ziguinchor e o seu passado

Este artigo foi publicado no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa Nº 109, de Janeiro de 1973, na sua forma original, isto é, em francês - nessa altura talvez já não houvesse muito tempo, ou disposição, para traduções... De notar que já se abandonou o aspecto encomioso do mérito dos portugueses. Fui eu que fiz  esta tradução que publico (desculpem qualquer coisinha...).

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6 de fevereiro de 2012

381-Báná Sirabanda - lenda dos banhuns


Há pouco mais de um século constituíam os banhuns uma das mais importantes tribos de entre as que habitavam toda a região de Sédhiou da vizinha colónia francesa, estendendo as suas povoações até ao rio Casamansa e ainda mais além, em terre­nos férteis que, nessa ocasião, pertenciam a Portugal.
Mais tarde vieram estabelecer-se também na actual área da Circunscrição Civil de São Domingos, fundando, entre outros, os aldeamentos que ainda hoje, existem, com os nomes de Géqui, Beguingue e Sonco, de população bastante numerosa naquele tempo, mas agora muito reduzida.
Pois na referida região de Sédhiou, num local denominado Coli, perto da povoação de Cudompo que ainda ali se encontra, vivia um banhum que usava o nome de Sirabanda e a quem os negociantes man­dingas que por ali passavam chamavam «báná», que o mesmo é dizer «o mais rico», em virtude das várias histórias que corriam sobre a sua grande fortuna, aliás comprovada pelo esplêndido tratamento que lhes era dispensado.
E porque achasse que o apodo lhe convinha passou a usá-lo, denominando-se daí por diante Báná Sirabanda, nome porque todos o conheciam, embora a sua pronúncia não fosse agradável aos invejosos que lhe cobiçavam as riquezas e consequente importância social.
Entre outras coisas, contava-se que, em local bem escondido no mato e só de seu dono conhecido, existiam fornos onde de dia e de noite se derretia o ouro colhido nos terrenos por ele descobertos. A atestá-lo estava o facto de serem daquele metal as cadeiras onde, em sua casa, se sentava.
A confirmá-lo havia a grande manada de gado, bovino, cujo número de rezes ninguém podia contar, pois era tão grande que diariamente e durante todo o ano nasciam vitelos nos seus currais. A sua «morança» era tão povoada, devido ao elevado número de mulheres que possuía, filhos havidos delas e serviçais, que só por si formava a povoação denominada Coli, onde habitava o potentado.
Várias vezes os ambiciosos tinham querido levá-lo a ocupar qualquer cargo de chefia, procurando captar-lhe as simpatias e o dinheiro, mas Báná Sirabanda sempre se recusara: «A administração da sua casa e os múltiplos cuidados que sobrevinham da sua numerosa família, dizia ele, já eram suficientes para trazer constantemente preocupado o seu pensamento».
Entretanto, numeroso grupo de escravos tratava dos célebres fornos onde se preparavam as barras de ouro, extraído dos areais onde residia o segredo de tão grande opulência. Para evitar, porém, que este fosse conhecido de estranhos, todos aqueles escravos - homens, mulheres e crianças - viviam como que enclausurados dentro das suas habitações, de onde saíam apenas para. trabalhar nos serviços que lhes estavam distribuídos.
Apesar de toda a vigilância, porém, a argúcia dos invejosos, que eram muitos, ultrapassou as precauções de um só, e um dia, em reunião magna, resolveram aqueles acabar com a vida do Sirabanda, para lhe roubarem as riquezas.
Fácil foi subornarem os servos, prometendo-lhes sua parte na rapina que se seguiria à morte do potentado e, durante a noite, prepararam a armadilha: na frente da palhota que, por principal, servia de moradia ao «báná», havia um terreno onde, em dias de festa, se realizavam os batuques. Aí se abriria uma cova com a altura de um homem, disfarçando-a de modo a que o capim a cobrisse.
Cumprindo o plano pré-estabelecido, na manhã do dia seguinte numerosa multidão se dirigia por vários caminhos para a povoação do ricaço, e como este ao sair de casa se admirasse do que seus olhos viam, logo os servos traidores lhe explicaram tratar-se de. uma surpresa que lhe· queriam fazer, dando uma festa em sua honra, para. lhe manifestarem o seu apreço e a muita consideração em que o tinham.
Admirado do facto, mas também satisfeito na sua vaidade, não pensou o Sirabanda noutra coisa que não fosse corresponder a tão grande prova de afecto, e assim deu logo ordens para que se matassem as cabeças de gado precisas para fornecer boa comida aos seus hóspedes e se tirasse o melhor vinho das palmeiras, em quantidade que bastasse para matar a sede de tanta gente que ele via dirigindo-se para a sua casa. Assim se fez.
Entretanto, iam os homens mais importantes entrando na residência do homenageado, onde depois de juntos e segundo mandava o uso da tribo, o mais velho comunicaria o fim da reunião, tudo isto com os costumados louvores e as cortesias devidas a tão grande personagem.
Aqueles que, por sua menor importância social, não participavam desta audiência, as mulheres e as crianças, foram agrupados no terreiro, em semicírculo, tendo os seus arrumadores - os próprios servos do dono da casa - o cuidado de os pôr em posição tal que a armadilha ficasse entre eles.
Acabados os cumprimentos e recebidos pelo «báná» as nozes de cola e o gado caprino trazidos como dádiva pelas diversas povoações representadas, mandou ele chamar os seus familiares, ordenando-lhes ainda uma vez que nada deixassem faltar aos hóspedes - a comida e o vinho - não só para que a festa tivesse o desejado brilhantismo, mas porque também, dentro da sua opulência, seria vergonhosa qualquer falta.
Já nos currais se ouviam os mugidos dos bois sacrificados e começavam chegando os portadores com o néctar das palmeiras: o vinho mais doce para as mulheres e o fermentado para os homens beberem, depois de aromatizado com aquelas ervas que os tornaria alegres, estimulando ao mesmo tempo a sua sensualidade.
Ia dar-se início ao festim. Báná Sirabanda manda que os seus servos tragam os célebres bancos de ouro, que vão servir para ele se sentar e também o grupo dos mais importantes, ordenando-lhes que os ponham em lugar de destaque.
Cumpre-se a ordem; somente em vez de colocarem os bancos a par, põem aquele onde se sentará o anfitrião defronte da porta da sua resi­dência e os restantes junto da armadilha, na parte onde, no chão, já se encontra sentada toda a assistência, ansiosa por. que principie o tambor e se iniciem as danças, e ignorando que em lugar de festa vão assistir a uma tragédia. O plano foi bem urdido e melhor executado.
Sirabanda sai de casa quando os seus inimigos já se encontravam sentados nos respectivos lugares e logo censura ·os servos que indelica­damente colocaram a sua cadeira em lugar à parte. Imediatamente se dirige para onde os outros se encontram, mandando que lhe levem o seu banco, mas ao passar sobre a ratoeira sente que o chão lhe falta e cai desam­parado. Logo se ouve grande borborinho e os conjurados lançam-se, de espada na mão, para consumarem o plano.
Báná Sirabanda está prestes a ser vítima da sua riqueza. Consegue, porém, erguer-se dentro da cova e dignamente, sem mostrar receio da morte, pede para que o deixem falar antes de lhe cortarem a cabeça, o que, apesar da má vontade de muitos, lhe é concedido. Dirigindo-se então àqueles que sabe serem os seus algozes, diz-lhes em ar de maldição:
- Eu vou morrer, mas a vossa traição é um acto de tanta malvadez que há-de ser castigada. Outros virão, de outras raças, que vos hão-de vencer, roubando-vos a terra e a família, e o castigo será de tal natureza que a tribo dos banhuns, por tão vil, há-de desaparecer.
Nada mais o deixaram dizer e a sua cabeça, decepada com um só golpe, ficou com o corpo naquela mesma cova.
Durante a noite, quem passava a muitos quilómetros podia ver os rolos de fumo que saíam da povoação que havia sido pertença de um só homem e que os seus congéneres tinham reduzido a cinzas, depois do saque. A praga, porém, surtiu efeito.
Não passou muito tempo sem que os djolá, cobiçando os terrenos dos banhuns, lhes não movessem dura guerra, que os obrigou a estabe­tecer-se para nascente do Casamansa a fim de viver em paz, pois só pondo o rio de permeio conseguiram não serem totalmente aniquilados.
Valeu-lhes o facto de os djolá temerem as correntes de água, de tal modo que, quando imperiosa necessidade os obrigava a embarcar em canoas, faziam-no deitados no fundo destas e com o rosto tapado, tal era o medo que sentiam da água.
Mas bastantes banhuns houve que ficaram prisioneiros, e destes, enquanto os homens eram vendidos como escravos, as mulheres e crianças eram entregues aos vencedores, obrigatoriamente adoptando os seus usos e costumes.
Mais tarde, quando o famoso chefe de guerra Fodé Càbá procurava territórios para conquistar os cativos para trabalharem as terras apresadas, parte desses banhuns, agora já convertidos em djolá, foram feitos prisioneiros e totalmente perderam a ligação com os ascendentes.
Alguns ficaram, porém, integrados na tribo dos djolá, escapando com vida àquelas guerras, pois o Fodé Càbá havia sido assassinado perto do Gâmbia.
Criaram família, casando com cativas banhuns em poder dos djolá, pois embora estes casassem com mulheres banhuns não consentiram que as da sua raça o fizessem com eles e destas uniões nasceram filhos que, secretamente, eram informados pelos pais sobre a respectiva ascendência. Mas, já morto o Fodé Càbá, novo chefe de guerra apareceu.
O célebre Abdu Injai, que anos depois se devia revoltar contra o governo português, andava então por aquelas paragens fazendo a guerra. Tendo, segundo parece, tanto de guerreiro, como de comerciante, preferia, depois de provocar o terror, entrar em combinações com as populações, que por qualquer preço pretendiam evitar as razias, prometendo-lhes paz em troca de escravos em boa idade para serem vendidos. Foi assim que exigiu aos djolá, para lhes não fazer guerra, que cada uma das povoações lhe entregasse vinte mancebos entre os 18 e 25 anos.
Não é difícil concluir que aqueles, tendo aceitado a imposição, mandaram entregar os banhuns que tinham em seu poder, e também desta maneira desapareceram mais alguns dos existentes.
Reduzidos em número e escorraçados dos territórios que primeiramente povoavam, habitavam, como já se disse, a região a Sul de Ziguinchor, estendendo as suas povoações pelo território até São Domingos e cerca de oito quilómetros para Oeste desta última povoação, mas não formavam núcleos, antes procuravam fundar os seus aglomerados em regiões já habitadas por outras tribos.
Daqui, segundo parece, a sua ligação amistosa com os ihádja, mais conhecidos por cassangas, de que houve casamentos, no entanto mais numerosos de mulheres banhuns com ihádja do que o contrário e do que resulta, mesmo por direito consuetudinário, nascerem os filhos como per­tencendo à última tribo - a dos ihádja.
Esta foi outra das causas do seu desaparecimento, agravada com o uso imoderado do vinho de palma a que se entregam, ainda pelo facto de só o beberem depois de um período longo de fermentação, adicionando-lhe determinadas ervas a que atribuem poderes estimulantes, mas que são apenas motivo para uma senilidade precoce.
Assim se vai cumprindo a profecia - se não praga - do banhum Sirabanda, assassinado pelos seus irmãos de raça por ser demasiadamente rico.
É o que reza a tradição. Se a história é verdadeira ou se apenas uma lenda que chegou aos nossos dias, já hoje se não pode saber, mas foi-me narrada por um velho, mas muito velho, que se chama Seco Djatá e que durante muitos anos viveu em território francês, ainda que oriundo de Geba, da nossa Circunscrição de Bafatá.


                                                                                                                 Amadeu Nogueira


5 de fevereiro de 2012

380-Criação de monopólios para o comércio de escravos


Foi nos princípios do século XVII que a presença europeia se começou a sentir mais nas costas da Guiné, com mercadores de escravos e comerciantes de várias nacionalidades. Durante décadas os  “lançados” (colonos aventureiros) e os “tangomaos” (diz-se que eram judeus oriundos de Cabo Verde), geralmente miscegenizados com os indígenas, com quem faziam todo o tipo de negócios, tiveram actividade sem lei nem controlo. Também numerosos aventureiros e piratas, ou mesmo enviados de reis europeus, espanhóis, franceses, ingleses, holandeses e suecos, deambulavam por todos os reinos da costa da Guiné à cata de ouro, marfim e escravos. Daí que os reis e os gestores dos bens da Coroa portuguesa, à qual desses territórios vinham muitas riquezas, tivessem procurado ordenar esses comércios.
Companhia de Cacheu, Rios e Comércio da Guiné foi criada em 1675, sucedendo à Companhia da Costa da Guiné (criada em 1664) no comércio de escravos naquela região da costa ocidental africana, ficando também com o comércio de tecidos e marfim. Em 1676, o príncipe regente D. Pedro deu-lhe o monopólio do tráfico de escravos na costa da Guiné e no arquipélago de Cabo Verde e a exportação destes para a Metrópole e os seus domínios ultramarinos, bem como para a América espanhola e Brasil. Só lhe foi vedado o comércio com estrangeiros.
Em 10 de Maio de 1676 o governador de Cabo Verde, João Cardoso Pissarro foi nomeado responsável da companhia e, em 20 desse mês, João Barros Bezerra foi nomeado capitão-mor de Cacheu com o objectivo de ser seu administrador. Porque era em Cacheu que estava a grande fonte do tráfico de escravos
A companhia cessou as suas atividades em 1682, vindo a ser sucedida pela Companhia do Cacheu e Cabo Verde a partir de 1690, já sob o reinado de D. Pedro II. Além da sua actividade no comércio de tecidos, marfim e, sobretudo, escravos, tinha também a responsabilidade da manutenção do forte de Cacheu e também de Bissau, garantias da protecção dos seus comércios. Em 1697 foi fundada a vila de Bissau, com uma fortaleza e um entreposto de escravos
No entanto, em 1703, o rei não lhe renovou o contrato de exploração, pelo que a sua actividade entrou em declínio, os seus prejuízos acumularam-se e acabou por ser extinta. Com ela acabou a Capitania de Bissau, sendo o forte desta vila arrasado, por não ter razão de ser na óptica colonial da época.
Esta situação provocou a estagnação económica na Guiné e Cabo Verde durante décadas.
Só em 1757, por beneplácito do Marquês de Pombal, os seus direitos foram transferidos para Companhia Geral do Comércio do Grão-Pará e Maranhão, a qual reconstruiu o forte de Bissau (ver aqui) durante a sua actividade. Esta companhia, porém, em 1777, após a saída do Marquês de Pombal, foi transformada na Companhia para o Monopólio do Comércio nas ilhas de Cabo Verde, Bissau e Cacheu, que durou até 1786, altura em que lhe sucedeu a Companhia do Comércio da Costa d’África, até 1886.

4 de fevereiro de 2012

379-História da Guiné


HISTÓRIA DA GUINÉ.
PORTUGUESES E AFRICANOS NA SENEGÂMBIA (1841-1936)
de René Pélissier

Imprensa Universitária n.º 75, Edito­rial Estampa, 2 volumes, Lisboa, 1989.
Tradução: Franco Sousa.
Tttulo original: Naissance de la Guiné. Portugais et Africains en Senégambie (1841-1936).

Daniel A. PEREIRA

Com prefácio de Léopold Sédar Senghor, a leitura na horizontal desta obra em 2 volumes de René Pélissier não me cativou de forma muito particular. Apesar de uma grande expectativa criada em mim desde o anúncio da publicação da versão portuguesa em 1989 e que foi financia­da pelo Programa Nacional de Edições Comemorativas dos Descobri­mentos Portugueses.
Desde logo. uma primeira contrariedade de que o autor não é certa­mente culpado: o título português traiu, em meu entender, o original e não corresponde, ainda a meu ver, ao conteúdo. Aliás, diga-se de passagem que o título original francês também não corresponde cabalmente à temática desenvolvida e talvez fosse mais consequente se referenciasse expressamente o sucedâneo de conflitos que pontuou, ao longo dos séculos, o processo da colonização da Guiné, dita portuguesa. Ademais, até o título parece inspirar-se na obra de António Carreira «Os Portugue­ses nos Rios de Guiné (1500-1900)», Lisboa, 1984.
Em segundo lugar, o trabalho de Pélissier padece de uma excessiva compartimentação esquemática quando, na maioria dos casos, tal opção a não justificava pela absoluta insuficiência de desenvotvimento dos  subtítulos apresentados. Se a intenção era tomar a leitura mais agradável e atractiva, o grande prejudicado acabou por ser o conjunto de os resultados obtidos não satisfizeram um dos objectivos preconizados pelo autor, que consistia «em tentar preencher um vazio no conhecimento da África Ocidental pelos francófonos»  (Vol. I, p. 24). Se tal pode não ter sucedido em relação aos leitores francófonos, mormente terá conseguido «trazer aos Portugueses, aos cidadãos destas três nações lusófonas (pelo menos no que concerne à Guiné-Bissau) e, eventualmente, a alguns leitores periféricos,  elementos para que compreendam de onde vêm ...» (Vol.I, p. 26). Iria mais longe e diria até que terá sido a pressa em ocupar este espaço que contribuiu para desvirtuar esse fim de grande mérito, se fosse efectivamente atingido.
Seja como for, a obra enveredou por um caminho que hoje quase não se usa na historiografia contemporânea: a petite histoire, com manifes­to prejuízo para a intelegibilidade do todo, além de cair em algumas contradições e incompreensões, de que o autor não se dá conta, panicu­lannente no que toca a certos maus entendidos no que se refere ao relacionamento histórico caboverdiano-guineense, que abordaremos com algum pormenor mais adiante.
Com efeito, num espaço de tempo de praticamente um sécuto (1841-1936), penado relativamente longo, não discernimos os grandes mo­mentos da história desta zona geográfica, eleita por Pélissier como campo da sua actividade pesquisadora, pese embora a realidade de se tratar de um mosaico ou de um puzzle cujas peças são de difícil colocação. Sem embargo, as grandes oscilações económicas não aparecem e as movimen­tações sociais não surgem. Quedou-se pela história politica e, mesmo essa, restringiu-a às lutas intestinas inter-tribais ou às reacções, por parte da diversa população, às tentativas, esporádicas ou não, de ocupação levadas a cabo pelos portugueses ou seus agentes. E se Pélissier tivesse analisado mais detidamente todo o período anterior, a partir dos meados do século XV, ter-se-ia dado conta, facilmente, que a soberania portugue­sa nos «Rios de Guiné» sempre foi um mito, porque periclitante e instável, dependendo essencialmente do jogo de interesses económicos em presença, no qual os autóctones detinham a supremacia e ditavam as regras. Assim, o período compreendido entre 1841 e 1936 não constitui copiosos extractos dos arquivos publicados entre 1899 e 1913 nos Subsídios para a História de Cabo Verde e Guiné pelo pertinaz oficial de marinha caboverdiano Christiano José de Senna Barcelos, e utiliza igualmente uma compilação de documentos do AHU já publicada. No entanto, não nada que substitua a pesquisa directa no AHU. Muita informação importante sobre as relações comerciais e as ligações familiares dos portugueses e particularmente dos luso-africanos com grupos africanos pode ser extraída das petições, testamentos, declarações e listas de habitantes das comunidades comerciais. Estes e outros documentos teriam contribuído significativamente para uma compreensão das causas dos conflitos e das suas soluções, muitas das quais Pélissier reconhece serem inexplicáveis a partir das fontes por ele consultadas.
Infelizmente Pélissier não fez pesquisa na Guiné. Nos últimos anos o pessoal do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa tem recolhido documentos coloniais de todas as regiões do país. Os arquivos paroquiais contêm informação sobre nascimentos, mortes e casamentos, do mesmo modo que as inscrições tumulares dos cemitérios.
De grande utilidade potencial para a investigação do período que Pélissier abrange no seu estudo é o crescente corpo de tradições orais re­colhidas pelos historiadores guineenses desde a independência. Esta pesquisa está agora a ser publicada, nomeadamente na revista Soronda, fundada pelo lNEP em 1986.
O livro de Pélissier estimulará novas contribuições e promoverá a pesquisa de terreno ao longo de linhas de investigação novas ou inade­quadamente exploradas. Seguramente muita mais informação sobre a perspectiva dos africanos pode ser recolhida junto dos filhos e netos daqueles que participaram nas últimas campanhas militares que Pélissier descreve.
Os materiais auxiliares do livro são assinaláveis. Existem seis mapas bem concebidos, e Pélissier vê-se aflito para explicar na sua nota introdutória que, apesar dos seus esforços, a localização de alguns lugares é problemática. Numerosos quadros organizam os dados disponíveis. Existe um útil glossário de 4 páginas, e a lista de fontes publicadas e documentos de arquivos (24 páginas) contém breves anotações. Também o indíce (18 pp.) se encontra elaborado com profissionalismo, incluindo símbolos-chave que fomecem informações sobre indivíduos. Para os estudiosos da Guiné-Bissau e das áreas vizinhas, Naissance de la Guinée constitui uma obra de referência indispensável para os investigadores especializados noutras áreas de África que possam eventualmente ficar desmobilizados pelo tamanho do livro de Pélissier.
Finalmente, debrucemo-nos sobre certas contradições, incompreen­sões e maus entendidos àcerca do relacionamento histórico caboverdia­no-guineense a que, no meu entendimento, o autor não soube ou não quis dar o devido tratamento.
Antes de mais, a utilização da terminologia «colónia» ou «coloniza­ção» (Vol. I, pp. 41 e seguintes), com tudo o que isso implica «no plano da gestão administrativa, das prioridades nos investimentos, do próprio povoamento ... », ocupação efectiva, etc., antes de se operar a partilha colonial ém 1886, é conceptualmente incorrecta. Quanto muito, poder­-se-ía falar de feitorias (Bissau, Cacheu, etc., etc.). Mas isso não é relevante para as minhas apreciações. Portante adiante.
Em primeito lugar, «a sufocante hegemonia de Cabo Verde sobre os seus confett! guineenses ... " (Vol. I, p. 104), que Pélissier pretende provar, ao longo de largas páginas da sua obra, ao ponto de falar da «colónia de uma colónia» (Vol. I, p. 41), não me parece corresponder inteiramente à verdade dos factos. Na realidade, se bem que houvesse desde sempre relações de dependência institucionais das autoridades de Cacheu face ao governador e capitão-geral de Cabo Verde, diz Carreira que tal situação não tinha efeitos práticos, tanto mais que «eram os próprios Regimentos que contrariavam a subordinação. Desde o ano de 1615 até 1664 (e outros), todos estabeleciam sucessivamente: "porém o dito governador vos não poderá, nem suspender de nenhum dos cargos de que vos encarrego". Proclamava-se a subordinação, e ao mesmo tempo concedia-se um princípio de independência ou não sujeição (Documentos para a História das Ilhas de Cabo Verde e "Rios de Guiné" (Séculos XVII e XVIll, p. 15).
Por outro lado, as condições de permanência dos portugueses (leia-se cabo-verdíanos) eram determinadas em função do pagamento de tributos aos «reis» locais e, no dizer de A. Carreira, «quem paga tributo não é soberano, é dependente» (idem, p. 28).
Além disso, Pélissier pretende assacar responsabilidades a Cabo Verde, às autoridades cabo-verdianas e aos maiorais do arquipélago pelo estado das coisas na Guiné, face à sua dependência administrativa, política e militar.
No entanto, é ele mesmo quem se contradiz quando afirma que «em treze anos. a metrópole e os seus militares demonstraram que, com efectivos duplos, quase mesmo triplos, em relação a 1878, (data a partir da qual se consuma a autonomia da Guiné relativamente a Cabo Verde) eram tão impotentes quanto Cabo Verde em se tornarem senhores da Guiné». Mais adiante: «neste ponto, não há, portanto, grande coisa de diferente em relação ao período "cabo-verdiano" tão criticado» (Vol. I, p.277).
lndependentemente disso, René Pélissier parece não considerar as razões históricas que estão no cerne do facto de as ilhas de Cabo Verde se terem tornado na cabeça da administração dos «rios de Guiné».
Efectivamente, a resistência demonstrada por parte dos africanos do continente desde os primórdios, levou a que o tipo de relações estabelecidas tivesse por base, ao longo do tempo, uma certa desconfiança e muita insegurança dos mercadores portugueses, sediados em algumas poucas localidades da costa ou fluviais, o que mostra o grau de instabilidade em que viviam e a precariedade da sua permanência.
Tal situação levou a que se privilegiasse a ocupação das ilhas donde, com certa dose de segurança para as populações brancas ou mestiças, se pudesse «administrar» económica, política e militarmente determinadas zonas do continente. Foi a estratégia montada para tentar controlar a actividade mercantil dessas mesmas zonas, procurando, simultaneamente, subtraí-Ias à concorrência de outras potências marítimas europeias, com o mfnimo de gastos económico-fínanceíros e pequeno dispêndio dio humano que uma colocação permanente no terreno contrariava, face às constantes investidas das populações autóctones.
Não esquecer, também, que uma das características fundamentais do relacionamento de Portugal com as suas possessões foi o abandono e o ostracismo a que as votou, o que se explica, em parte, pela fraqueza económica e militar portuguesa e a inexistência de uma marinha suficientemente forte para defender os seus interesses. Como dizia Oliveira Martins, «sem marinha, não colónias».
Também não é negligenciável o factor humano, ou seja, o tipo de pessoas que eram enviadas, tanto para a Guiné como para Cabo Verde. Como dirá Pélissier, «nunca se insistiria demasiado quanto ao papel nefasto destes militares recrutados entre os "malfeitores de Portugal e soldados incorregíveis, vadios e ratoneíros da ilha de S. Thiago" porque, por um lado, dão às populações que os rodeiam uma imagem desvalorizada de Portugal e, por outro, dão confirmação, aos governantes de Cabo Verde e da metrópole, à sua convicção de que, decididamente, esta terra de deportação está reservada à escória do Exército e de que só a título excepcional deve acolher soldados europeus normais» (Vol. I, p. 56).
O mesmo ou pior acontecia igualmente em Cabo Verde. A análise lúcida e implacável do governador Joaquim Pereira Marinho, por volta de 1838, não nos pode levar a outra conclusão senão essa. Vejamos: «Cabo Verde tem hoje quarenta e cinco, ou cinquenta e cinco oficiais militares de todos os graus ou espécies. ( ... ) Em geral, esses oficiais, com mui poucas excepções, não são de facto oficiais militares, são dezenas de tratantes, ineptos, intriguistas, bêbados, debochados, rechincheiros, tira­dos de Lisboa de oficiais e aprendizes de sapateiro. alfaiates. que por desmoralizados e, ineptos, não puderam aprender os ofícios a que os seus pais os destinaram. Outros são tirados desta classe de rapazes de Lisboa, e mesmo províncias, que as famílias não podem sofrer pelo seu deboche, e desmoralização, e por não puderem servir para coisa alguma. Em cinco mos de experiência contínua que tive, vi que não eram mais que súcias de tratantes que todas as noites se constituíam réus de polícia, que davam sempre ao Governo muito incómodo, e muita desonra. Nenhum Governo do mundo é capaz de sofrer tal canalha, também não no mundo Governo algum, que seja tão mau, que seja capaz de gastar somas imensas que o Governo Português gasta inutilmente, e para escandaloso e para desonra com tal gente.» (Memória sobre Cabo Verde do governador Joaquim Pereira Marinho. A.H.U .Sala 12. Cx. SS (1831-1838) - Inédíto).
Por tudo o que explanámos se deduz, naturalmente, que Cabo Verde era uma peça da engrenagem do sistema, esse sim, responsável pelos males que sofreram tanto um como outro território, males extensivos a Angola, Moçambique, etc.
Seja como for, ninguém pode negar que, historicamente falando, mal ou bem. a actual Guiné-Bissau, tal qual ela existe, dificilmente seria o que é se não fosse a acção, a persistência e o sacrifício de muitos cabo­-verdíanos anónimos que, no decurso de muitos séculos, se ligaram indelevelmente a este território. Mutis mutandis, o mesmo se aplica a Cabo Verde. E talvez fosse mais próprio falar-se em interdependência e complementaridade, quando se se refere a estas duas entidades tão intimamente ligadas por fortes laços histórico-culturais, do que procurar ver a dependência de um em benefício de outro.
Por fim e muito rapidamente para terminar, podemos dizer que a obra que nos foi dado ensejo de recensear, apesar dos seus aspectos positivos e das suas incursões em terreno tão árido quão difícil, não dispensa, de modo algum, os clássicos como Teixeira da Mota, António Carreira, Fausto Duarte, João Barreto, Cristiano José de Sena Barcelos, entre outros. Tem, por outro lado. uma grande virtude, na medida em que sistematizou um conjunto de informações sobre este período conturbado da Guiné. informações essas que, por esparsas, teriam o seu acesso muito mais dificultado. Nesse aspecto, o esforço do autor valeu bem a pena. Além disso, abre novas pistas de investigação que devem ser aproveita­das pelos potenciais interessados na matéria, particularmente os historia­dores do jovem Estado da Guiné-Bissau. Exige. simultaneamente, um maior aprofundamento do lema em si, alargando a área de actuação, tentando perceber o todo no conjunto social, económico, cultural...