«O Chefe de Posto António Baptista Morais Trigo enviou-nos para apreciação uma curiosa lenda que acaba de recolher entre os nalús de Cacine, e que também corre entre os de Boqué, no território francês por onde passa o rio Nuno.
Essa lenda, que os indígenas
dizem vir-se transmitindo de pais para filhos através de muitas gerações, narra
a chegada de uma caravela portuguesa ao rio Nancheribá e os sucessos que aí
ocorreram e explica a razão da mudança de denominação do rio para Nuno.
O
chefe de posto Morais Trigo entende ser essa lenda motivo suficiente para
demonstrar que Nuno Tristão foi morto no Noncheribá.
Em
nosso juízo parece-nos o assunto bem mais complexo. Se algum dia o pudermos
fazer, investigaremos no local o que os indígenas dizem de modo a discernir o
grau de crédito que tal lenda merece. Podia, por exemplo, ter sucedido que ela
se formasse muito depois dos acontecimentos e em consequência da influência
dos civilizados, facto que, a dar-se, não seria único.
De qualquer maneira, a dar
inteiro crédito à narração indígena, ela não vem provar que Nuno Tristão
atingiu o Nancheribá. O próprio chefe de posto Morais Trigo
nos confessou que os nalús não falam em Nuno Tristão, mas simplesmente, em
Nuno, e que a identificação com aquele navegador é ilacção sua. Por isso, e por
serem complementarmente divergentes dos de Zurara os pormenores do que se
passo no rio, seria mais lógico deduzir que se traia de um navegador diferente,
possivelmente com o nome de Nuno também, como já aventámos no nosso trabalho
publicado no primeiro número deste «Boletim». Seria portanto esse i.gnorodo
Nuno quem teria descoberto o Noncheribâ, encarregando-se depois a lenda de
confundir a sua morte com a de Nuno Tristão.
Dado,
porém, o seu evidente interesse, publica-se seguidamente o escrito do chefe de
posto Morais Trigo.
A.
TEIXEIRA DA MOTA.
Lemos
com grande interesse no «Boletim Cultural da Guiné Portuguesa» um trabalho
largamente documentado da autoria do senhor Tenente Avelino Teixeira da Mota [ver aqui],
em que o digno investigador esclarece de modo impecável que Nuno Tristão não
podia ter terminado os seus dias no rio Nuno nem nas suas proximidades.
Nós
somos alheios às artes de navegar nem podemos consultar doutos tratadistas e
modernos compêndios. Não é portanto nossa intenção ofuscar tão exaustivo
estudo. Apresento, assim, este trabalho com singeleza e despretensão,
desejando somente que a morte do grande navegador, do herói magnífico, do
palpitante marinheiro e do audacioso português seja discutida por quem tenha
competência.
É certo que não temos documentos escritos de
peso e parece-nos também que os cronistas e escritores posteriores tiveram
carência de elementos relativos ao facto. Por isso surgiram opiniões e
controvérsias, e finalmente se pretende negar o que cinco séculos de história e
de tradição disseram ao pais e ao mundo, isto é, que Nuno Tristão foi morto
pelos nalús no rio «Nancheribá» - depois rio Nuno.
Nós, por enquanto, aderimos
espontaneamente à tradição ininterrupta de pais para filhos, fonte de história
digna de fé, com cinco séculos de existência. A tradição é a voz do povo e esta
é a voz de Deus: «voz populi, vox dei». Por ela me guio e ela me basta.
Conhecendo-a, acho-a suficiente para escrever algumas palavras incultas, a fim
de transmitir aos leitores o remexer sagaz e fecundo da acção de um povo. Este
transmite a verdade. Não vem nos livros, porque podem estar mal feitos, por
motivos vários; não vem nos mapas, porque podem também estar errados por razões
idênticas; mas encontra-se em cinco ou seis gerações, nas quais não houve
indisposições nem deturpações dos cronistas, que tantas vezes aumentavam ou
diminuíam 'os acontecimentos a seu talante por causas estranhas. A tribo nalú
não sabia escrever e ainda hoje poucos o sabem fazer; por isso não pode ter
sido influenciada por escritos de qualquer natureza ou nacionalidade. No
entanto, exige a lógica das coisas, que as suas
palavras narrativas não fiquem vibrando no ar sem se transformarem em escrita.
E, de resto, as suas afirmações não são intermitentes.
O que dizem os indígenas nalús, que hoje respeitam a
bandeira portuguesa e a francesa? Simplesmente o seguinte:
A caravela de Nuno Tristão, vinda do mar, entrou no rio
Nancheribá e encalhou pouco depois perto da povoação de Tassequene; o intrépido
navegador, com alguns tripulantes, entrou no batel, continuou a navegar no rio
referido, e bastante mais acima sentiu falar na margem esquerda, vendo gente
momentos depois. Como havia um riacho de cerca de duzentos ou trezentos metros
de comprido nesse local, entrou nele e foi até ao lugar, porto da povoação de
Sógóboli, termo
derivado da palavra nalú «insóbole» que significa cobra grande e muito venenosa. A gente, admirada de ver
brancos, tinha fugido para a povoação, a qual distava e dista do porto certa de
duzentos metros; o caminho estava relativamente limpo como costumavam estar
todos os que vão para os portos. Nuno Tristão, com os seus companheiros, seguiu
a pé até Sógóboli; os nalús fugiam dele por ser branco, por não o entenderem e
por desconfiarem que os brancos queriam levar pretos; apenas os velhos se
conservaram na aldeia. Nesse dia nada sucedeu; Nuno Tristão e os seus
companheiros regressaram à caravela
incólumes. No dia imediato, o audacioso marinheiro, com bastantes pessoas, foi
novamente ao porto de Sógóboli e à tabanca, enterrou uma bola de chumbo, tendo antes
metido no chumbo' não sabem ~ quê, e assentou-se no lugar aonde havia enterrado
a bola, conversando com os companheiros. Momentos depois procuravam agarrar
indígenas, estes fugiam, os navegadores teimavam em querê-los agarrar, e como
se não entendiam por palavras começou o
barulho; por último já queriam os
brancos correr para o porto, tomar o batel e recolher ao navio, mas era tarde
pois estavam feridos e alguns mortos, em consequência das azagaias, lanças,
punhais, etc., estarem envenenados com sucos herbáticos e veneno da cabeça de réptis
malignos (ex.: da cobra «insóbole», que abunda naquela região). Os nalús
continuaram a luta, quando estavam a entrar no bote e enquanto seguiam na
direcção da caravela. De entre os mortos de terra, figurava Nuno
Tristão, que foi sepultado próximo de um «poilão», onde nos revelaram que,
ocultamente, faziam a cerimónia do Machol,
Quem seria o assassino do
grande português? Foi um homem nalú de nome Samane, filho do chefe da povoação
de Sógóboli. Dias depois dessa
carnificina, o assassino foi nomeado chefe da aldeia e passou a chamar-se
Samane-Mandapilon, que significa dono do Dapilom; Dapilom é palavra nalú, cujo
significado é brilhante.
Assim
a povoação de Sógóboli passou a designar-se por Dapilom; ainda hoje existe no
mesmo lugar e continua a ser habitada por nalús descendentes dos assassinos de
Nuno Tristão e dos seus companheiros.
E
por nas proximidades do rio Nancheribá ter sido morto e sepultado esse
Português de rija têmpera, o rio em causa começou a ser designado pelos
indígenas pelo nome de Nuno.
Pelo
exposto, concluímos que, de facto, o herói em foco foi morto pelos nalús na
povoação de Sógóboli, hoje Dapilom, bem perto do rio Nancheribá e
presentemente chamado Nuno pelos indígenas e civilizados.
António
Baptista Morais Trigo, Chefe de Posto, interino
Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume II, Nº 5, 1947