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18 de março de 2012

420-Visita de Marcelo Caetano a Londres em 16 de Julho de 1973

A 10 de Julho de 1973, o TIMES publicou um artigo na 1ª página, da autoria do Reverendo Adrian Hastings, contendo a descrição pormenorizada de um massacre praticado pela 6ª Companhia de Comandos, em 16 de Dezembro de 1972, na aldeia de Wiryamu, no então Distrito de Tete. Segundo aquele artigo que correu mundo teriam sido massacradas 400 pessoas, incluindo mulheres e crianças. Outros massacres semelhantes teriam acontecido em Mocumbura, também em Tete.  Por isso Marcelo Caetano teve esta recepção em Londres... mais um sinal da opinião pública internacional contra a guerra que Portugal levava a cabo em África.  

Ver em baixo o que dizem participantes desse massacre.

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419-Várias línguas da Guiné


Minibiografia: Incanha  Intumbo  é  Licenciado  pela  Universidade  de  Coimbra em Línguas e Literaturas Modernas,  tendo aí também tirado o Mestrado em Linguística Descritiva. Nasceu  na  Guiné-Bissau,  onde  estudou  e  ensinou  línguas  com missionários portugueses e italianos. Interessou-se pelos problemas relacionados com o ensino  e  o  tratamento  das  línguas  no  seu  país  multilingue. 


Ver mais dados biográficos, obras e participações académicas em: http://www.didinho.org/incanha_intumbonodjuntamon.htmEsta e uma Comunicação que foi apresentada no Congresso Afro-Luso-Brasileiro de Coimbra em Setembro de 2004

 Diz ele no início, na primeira página: «A Guiné-Bissau é um pequeno país de cerca de 36.125 km2 para uma população de   cerca  de  1  milhão  e  duzentos  mil  habitantes.  É neste espaço que cerca de 30 línguas e dialectos africanos e românicos se cruzam, se interinfluenciam e evoluem. Alguém já apelidou o país de “Babel Negra“ e com alguma razão. Apesar de existirem tantas línguas, apenas  o  Crioulo  se  afirma  como  única  e verdadeira língua  franca do  país. O Português, a língua oficial, do Ensino, da Cultura e da Ciência e do prestígio é usado no dia a dia por cerca de 5% da população. A questão lógica impõe-se: Que futuro para o Português na Guiné-Bissau? A resposta começou a ser dada por Amílcar Cabral, artífice da independência do país, ainda durante a guerra de libertação. Ele dizia “de entre todos os bens que os portugueses deixarem no nosso país na altura da independência, certamente a Língua Portuguesa será o mais precioso pois permitir-nos-á comunicarmo-nos com o mundo e com as ciências…” * Nem mais. Tendo Cabral a importância que tem no nosso país, estas palavras profe(tizadas)ridas  ainda  não  sabíamos  se  o  sonho  da  independência  se  iria  realizar, continuam  a  ser  actuais  ainda  hoje,  cerca  de  trinta  anos  depois.  O Português vem acumulando mais e mais adjectivos. Hoje não é apenas a língua da ciência e da cultura e dos documentos oficiais do país, é também a  língua  do  “prestígio“  a  par  das  outras línguas guineenses, a língua da irmandade internacional, a lusofonia. »

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16 de março de 2012

15 de março de 2012

416-Os Donos do Chão





Mamadu Camará é o régulo de  Cadique Nalu. Aos 39 anos, recebeu a pesada herança de suceder 
ao seu pai, Aladje Salifo Camará, falecido em Janeiro de2011. Salifo era conhecido como 'o rei dos Nalus', etnia que vive no sul da Guiné-Bissau há vários séculos. Homem de extraordinária 
sabedoria, Salifo era um dos mais respeitados régulos da região de Cantanhez.
Com a sua morte, os irmãos mais velhos de Mamadu decidiram que seria este jovem agricultor a suceder ao pai. Apanhado de surpresa pela decisão, Mamadu aceitou o cargo. O filme pretende mostrar o seu percurso antes da cerimónia de 'empossamento', e a sua nova vida como líder da comunidade
As filmagens começaram em Maio de 2011 e a equipa vai voltar à Guiné-Bissau em 2012 para continuar a rodagem do documentário.




Os Donos do Chão - teaser01 from Pedro Mesquita on Vimeo.

Nota de intenções
Mamadu Camará é um jovem régulo, num país em que as lideranças tradicionais estão a perder o seu lugar, tanto em termos simbólico como de efectivo exercício dopoder. A sua história é um exemplo do tempo de mudança que se vive no país. Após a independência, em 1973/74, o novo Estado reprimiu a acção dos regulados, por serem vistos como um legado do colonialismo português, mas houve depois um movimento de reabilitação dos poderes tradicionais. O poder central decidiu apoiar os regulados como forma de governação de populações habituadas a viver com escassos apoios de Bissau, mas hoje a influência dos régulos tem vindo a perder força.
Mamadu Camará vive em Cadique Nalu, uma tabanca do sul da Guiné-Bissau integrada no Parque Natural de Cantanhez. É uma zona de terras férteis, em que a agricultura e a pesca são as actividades primordiais. As várias espécies de animais quevivem no Parque atraem investigadores de todas as partes, sobretudo pela presença de populações de chimpanzés.
Tal como a generalidade da Guiná-Bissau, a região de Tombali, onde se situa o parque natural e a tabanca de Cadique Nalu, é um mosaico de etnias e religiões diversas. Os Nalu, oriundos da actual Guiné-Conacri, foram dos primeiros a instalar-se. A família de Mamadu estabeleceu uma longa linhagem de líderes carismáticos, que permitiu que diferentes povos se instalassem e prosperassem antes e depois da colonização europeia. Hoje, passada a guerra colonial e o conturbado período da construção de um novo estado independente, as autoridades tradicionais lutam por manter a sua importância. Importa realçar também o papel dos 'homens grandes' – os velhos que são a memória viva das comunidades. Pilares da coesão social e da cultura ancestral do seu povo, estes homens guardam os segredos dos irans, os misteriosos espíritos da floresta. Os Nalu conciliam a religião muçulmana com cultos animistas, feitos de cerimónias misteriosas e muitas vezes secretas.
O filme a que nos propomos pretende mostrar o caminho de Mamadu Camará antes e depois de assumir o cargo de régulo de Cadique. Traçamos ainda os retratos de outros líderes tradicionais da região, dos 'homens grandes' e das populações do sul da Guiné. Acompanhamos o dia-a-dia de agricultores e pescadores, numa terra muito rica em produtos agrícolas, mas em que o isolamento ditado pela falta de vias de comunicação impede um desenvolvimento económico que melhore as condições de vida das populações

Agradecimentos ao Mário Beja Santos e ao Carlos Vinhal por darem a conhecer isto, e também aos autores do sítio de onde extraí, com a devida vénia, os textos e o video (http://donos-do-chao.info/).

14 de março de 2012

415-Memória de cão


(...) Bebia-se, como se em cada cerveja um dia passasse, uma hora ao menos. E amava­-se muito, sexo contra sexo, a alegria breve de consumir o tempo. Falavam da guerra como de um deus distante, a alma mergulhada num copo imensurável de bagaço lírico. Na mornaça dos dias, chegavam a desejá-Ia toda mulher, possuí-Ia com o cio cantado dos animais, a mesma ferocidade, o mesmo orgasmo selvagem, ine­xaurível. Corre o Cacheu, as águas lodosas, todo ele aborrecido, variando o sentido da corrente, jogador paciente sem parceiro, baralhando e dando as cartas como se rezasse o terço. Para lá do rio, a imensa mata do Ohio, assumida em tumor de fogo e de quem espe­ravam viesse a morteirada, a granada. Apesar do ranço lúdico em que viviam, eles sabiam que a mata poderia vomitar, a qualquer momento, toneladas e toneladas de destruição logo que o paroxismo da digestão parada ebulisse em metralha. Olhavam para a mata do Ohio como para a bruxa má da infância. Se ela vomitasse fogo, poderiam, enfim demonstrar a si próprios que ainda estavam vivos. Era isto pecado de presunção, necessidade biológica de perigos, de sentir a morte para espicaçar a vida. Porém, vadiava-se. O cansaço horizontalizava-os, a satisfeita lassidão duma masturba­ção colectiva.
 (...)
Sacudido daquele estupor pelo grito da mãe, João começa a regressar da Guiné do seu caderno-diário. Limpou as lágrimas com as costas da mão e, menino apanhado a roubar a maçã, sorriu com o receio da des­culpa. Ela correu-lhe para os braços, apertou-o muito, a voz apagada e aflita, "O que foi que te fizeram, meu filho?!" João desprendeu-a devagar, fechou o caderno ­diário com solenidade soberba, disse, "Nada, mãe!" Empurrado mansamente pela sua última força, foi à cozinha, olhou para o fogo que cozia a ceia e atirou com o caderno-diário. As chamas, lânguidas e sensuais, lamberam gulosamente a capa. De súbito, animaram-se de impulsivo apetite e devoraram todas as folhas. Entre as brasas de cedro, as suas cinzas confundiram-se para sempre. João assistiu a este ritual de fogo com o mesmo gozo sádico de quem se permite acompanhar o seu próprio funeral, a alma condenada à errância perpé­tua ou ao sossego dos desaparecidos definitivos. Os fios que o atavam ao passado estavam quebrados. Tudo se lhe afastou da memória, avião que descola e vai céu acima, pássaro, insecto, nada. No ponto zero, ficavam os nomes, os lugares, os factos. O presente tacteia sobre as patas breves do futuro. Fechou os olhos. "Pronto!" Atrás de si, restava um cemitério de silêncio, invisível e incontável, deserto, vazio, sumiço.