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Lembranças da Guiné, na guerra e já fora dela. Pesquisa, comentários e factos. A memória sempre presente. Não está por ordem. É conforme me vou lembrando. Tudo o que tem a ver com a Guiné, a sua história, as etnias, a colonização e as guerras de resistência. Também a minha experiência durante a guerra colonial (está nos primeiros posts). Para quem não sabe ou viveu que veja e avalie se é realidade ou ficção. Para quem sabe ou viveu são lembranças.
7 de abril de 2012
443-As potências coloniais e a partilha da África
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A. Marques Lopes
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6 de abril de 2012
442-2º Pelotão da 3ª Companhia do COM
Mas nós vamos estar lá:
-Adolfo de Jesus Rodrigues Bexiga
-Alfredo Manuel Ribeiro Parreira
-Aníbal António Dias Tapadinhas
-Augusto Jorge de Melo Felix
-António Alves Pereira
-António Manuel M. Cardoso
-António Manuel Marques Lopes
-Armando Simões Ferreira
-Carlos Alberto da Costa Fonseca de Sousa
-Eduardo Cristóvão Gil de Oliveira
-Fernando Mário Pereira Rodrigues Pais
-João Filipe Pilar Baptista
-Joaquim Benevenuto Carreiras
-Jorge Emídio G. Raposo Magalhães
-José Augusto de Azevedo e Silva
-José Francisco Rosa
-José Henrique de Carvalho Gonçalves
-José Joaquim Relvas Realinho
-José Manuel da Conceição Lopes Azevedo
-José Nuno Firmo Botelho de Andrade
-Manuel Arnaldo dos Santos Silva
-Mariano João Alves Pimenta
-Mário Ferreira Lopes Pereira
-Miguel Leitão Xavier Chagas
-Nelson Jorge Santos Godinho Parreira
-Orlando de Melo Cardoso Rodrigues
-Pedro José de Gusmão Calheiros
-Pedro Melo Santos Lima
-Rui António dos Santos Silva e Cunha
-Rui Manuel Duarte Baptista
-Alfredo Manuel Ribeiro Parreira
-Aníbal António Dias Tapadinhas
-Augusto Jorge de Melo Felix
-António Alves Pereira
-António Manuel M. Cardoso
-António Manuel Marques Lopes
-Armando Simões Ferreira
-Carlos Alberto da Costa Fonseca de Sousa
-Eduardo Cristóvão Gil de Oliveira
-Fernando Mário Pereira Rodrigues Pais
-João Filipe Pilar Baptista
-Joaquim Benevenuto Carreiras
-Jorge Emídio G. Raposo Magalhães
-José Augusto de Azevedo e Silva
-José Francisco Rosa
-José Henrique de Carvalho Gonçalves
-José Joaquim Relvas Realinho
-José Manuel da Conceição Lopes Azevedo
-José Nuno Firmo Botelho de Andrade
-Manuel Arnaldo dos Santos Silva
-Mariano João Alves Pimenta
-Mário Ferreira Lopes Pereira
-Miguel Leitão Xavier Chagas
-Nelson Jorge Santos Godinho Parreira
-Orlando de Melo Cardoso Rodrigues
-Pedro José de Gusmão Calheiros
-Pedro Melo Santos Lima
-Rui António dos Santos Silva e Cunha
-Rui Manuel Duarte Baptista
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A. Marques Lopes
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5 de abril de 2012
441-Pidjiguiti
«A situação das equipagens das lanchas e outras
embarcações das empresas coloniais era, em 1959,
bastante deplorável. Os salários variavam entre 150 e 300 escudos; o
capitão da embarcação ganhava ainda menos do que o motorista, pois este em
geral sabia ler e gozava do estatuto de «civilizado». Os restantes membros da
tripulação, sendo considerados «indígenas», tinham de contentar-se com um salário de miséria, sem quaisquer regalias.
O transporte de cabotagem era, sem dúvida, o que
garantia os maiores lucros às empresas, dado que os seus encargos por tonelada
transportada eram de longe os mais baratos. Para cada viagem, o tripulante
recebia, para a sua alimentação, uma determinada quantidade de arroz e mais 15$00 por mês para ma/é, quer dizer, $50 por dia destinados à compra dos condimentos necessários ao
molho para o arroz.
Havia já muitos meses que os marinheiros vinham
pedindo uma melhoria da sua situação, sem qualquer resultado. Faziam-lhes
promessas, é certo, mas a mesma situação mantinha-se e os trabalhadores não
viam, na verdade, nenhumas perspectivas de mudança.
Encorajados com o descontentamento crescente dos trabalhadores das docas,
cuja situação também era escandalosamente má, os marinheiros fizeram saber às
empresas que estavam decididos a parar o trabalho, se as suas reivindicações
não fossem atendidas. As respostas das direcções das empresas, já concerta- das
quanto à sua acção, continuaram a ser promessas sem quaisquer garantias.
A situação política no meio dos trabalhadores
africanos já não era, no entanto, a mesma na Guiné. O trabalho clandestino do
Partido tinha avançado bastante e no meio dos marinheiros e dos homens das
docas existiam militantes já seguros da justiça da luta.
A nossa zona geográfica vivia com entusiasmo o
fenómeno novo da independência da República da Guiné e seguia os preparativos para a independência
do Senegal, tudo isso concorrendo para dar mais força às palavras de ordem do
Partido e galvanizar o interesse geral na conquista duma vida melhor e mais
digna.
Nesta nova conjuntura, os marinheiros e os
trabalhadores do porto juntaram as suas forças, concertaram-se e chegaram à
conclusão de que a única solução para os seus males só podia vir da luta
corajosa contra as empresas exploradoras.
A partir da noite do dia 2 de Agosto de 1959, as
embarcações que
chegavam ao porto de Bissau eram cuidadosamente arrumadas nas cercanias do
velho cais de Pidjiguiti. Os homens desembarcavam confiantes em si próprios e
nas cerimónias certamente feitas aqui e ali, onde as entranhas das galinhas
sacrificadas teriam futurado um bom augúrio para a luta que se aproximava. Os
capitães das lanchas dirigiam-se aos responsáveis das empresas para lhes dizer
que os. tripulantes tinham abandonado as suas embarcações.
Na manhã do dia 3 de Agosto, centenas de homens
estavam
estacionados no recinto do cais de Pidjiguiti, Nos seus espíritos decididos, a
interrogação era grande sobre a reacção das autoridades coloniais, à qual iam
opor a sua firme decisão de continuarem a greve enquanto não fossem atendidas
as suas reivindicações.
Os chefes das empresas, encabeçados pelo subgerente da Casa Gouveia,
mandaram um ultimato aos grevistas: ou regressavam às suas embarcações e aos seus postos de
trabalho em terra, ou pediam a intervenção do exército e da polícia. Homens como
os que se encontravam ali, no Pidjiguiti, juntos, unidos e conscientes dos seus direitos, não podiam ceder a
um primeiro ultimato, e mantiveram-se por isso firmes na sua decisão de continuar
a luta.
As autoridades estavam atónitas diante da maneira
como a greve fora organizada. Nenhuma fuga de informação pudera ser detectada e
ali estavam eles impotentes para quebrar o bloco homogéneo que não cedia às
ameaças, e que às promessas aliciantes que lhes foram apresentadas, poucas
palavras tinham para dizer: mais pão, mais justiça.'
No fim da manhã, as autoridades reuniram-se com os
dirigentes das empresas para decidir das medidas a tomar. A Polícia
Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), cujos tentáculos criminosos se
tinham já estendido aos nossos países, fora surpreendida como toda a gente e
teve de reconhecer que havia qualquer coisa de novo na Guiné.
A decisão fatal foi rapidamente tomada: se até à tarde os trabalhadores não retomassem o
trabalho, as forças da repressão deviam agir com a maior prontidão e dureza,
para servir de exemplo; só uma acção enérgica e pronta das autoridades poderia
convencer os grevistas e o povo em geral de que o Governo não estava disposto a
ceder à subversão.
Os homens do porto, esses, não estavam dispostos a
vergar. Os tambores que no passado tanto tocaram para chamar o povo à resistência até arrebentarem voltaram de
novo a recompor-se para apelar à luta
contra a dominação estrangeira. Tinham voltado de novo a vibrar, desta vez com
mais força e vigor, ao ritmo da nova esperança nascida com o aparecimento do
nosso Partido.
A vida em Bissau parecia ter parado para seguir os
acontecimentos. Apenas se viam passar nas ruas os carros da polícia, até ao
momento em que as forças militares e paramilitares avançaram para o porto.
Os trabalhadores em greve fecharam o portão de acesso ao cais de Pidjiguiti,
apanharam tudo quanto podia servir para se defenderem e aguardaram. Mas como
defender-se com remos, com paus ou pedaços de ferro, quando o inimigo trazia
armas autornáticas modernas e estava
disposto a matar? E isso, infelizmente, os heróicos trabalhadores do porto
ainda não sabiam.
Poucos minutos depois ouviam-se os primeiros
tiros: os soldados e a polícia tinham acabado de romper a frágil barragem do
portão e penetravam no recinto do cais, atirando impiedosamente contra os
grevistas, que, a princípio, ainda tentaram defender-se. Cedo, porém, depois
de verem cair muitos companheiros, compreenderam que, diante da cruel
realidade, a única solução era procurar fugir do cais, para escapar à morte.
À medida que uns caíam mortos ou feridos, outros
procuravam por todos os meios alcançar a saída mais livre e a única que
parecia segura, tentando, enquanto ainda era tempo, atravessar a estreita
passagem que conduzia ao rio Geba, portanto às embarcações que ali estavam
ancoradas.
À medida que os homens conseguiam alcançar a ponta
do cais iam-se atirando às águas do rio e nadavam desesperadamente para
alcançar as embarcações. A horda colonialista com os monstruosos sucessos
alcançados, também avançou para a ponta do cais de Pidjiguiti. Fazendo dali
calmamente a pontaria, conseguiram ainda matar ou ferir muitos homens entre os
que se tinham atirado desesperadamente ao rio Geba. E não eram só militares,
ou só militares e agentes da polícia, os que atiravam. Também se juntaram a
eles elementos civis com as suas armas pessoais, que depois se vangloriavam da
sua participação na caça selvagem aos homens do 3 de Agosto.
Saímos cedo do trabalho. Os escritórios da Casa
Gouveia ficavam perto do cais de Pidjiguiti
e não era possível trabalhar com o barulho terrível do tiroteio, tendo às
portas tão criminoso espectáculo, sem precedentes nos nossos dias. Ficámos de pé no passeio, mesmo em frente do grande
edifício onde trabalhávamos. Além de mim, estavam Carlos Correia, Elysée
Turpin e outros colegas. Os polícias que ali passavam, mesmo à nossa frente,
estavam muito excitados e queriam mais vítimas, empurrando e provocando as
pessoas sem qualquer razão ou talvez com o objectivo premeditado de ver as
reacções que se seguiam.
Um dos polícias empurrou pelo peito o Carlos
Correia, que protestou pela incorrecção que isso representava. Foi o suficiente
para o agente o prender e mandar imediatamente para a esquadra mais próxima.
Que podíamos nós, seus companheiros, fazer naquele momento? Unicamente sair
dali, procurar abrigar-nos nas nossas casas contra a fúria criminosa
desencadeada no porto de Bissau.
Da varanda do meu apartamento, que estava situado
frente ao porto, pude presenciar a parte final do monstruoso crime da caça ao
homem no rio Geba. O sol desaparecera nessa tarde dos céus de Bissau; a
atmosfera pesada e escura parecia gritar com o povo. A tarde sangrenta de 3 de
Agosto fizera mais de cinquenta mortos e muitas dezenas de feridos entre os
marinheiros pacíficos que mais não queriam que viver um pouco melhor.
Saí. Queria andar, tinha necessidade absoluta de
me encontrar com camaradas meus. Consegui alcançar as traseiras do banco onde
encontrei alguns camaradas que me informaram de que um marinheiro ferido estava
escondido no pavilhão dos solteiros. Fui vê-lo. Tinha um ferimento superficial
numa perna e teria certamente sido apanhado pelos agentes se não o tivessem
escondido. O ferido fora cuidadosamente tratado e, a coberto da noite, pôde
voltar para a sua casa.
Na noite de 3 de Agosto, reuni-me com o Aristides
e o Fortes. Este, na sua qualidade de chefe da Estação Postal, tinha podido
meter no correio que devia partir na manhã seguinte, cópias de um comunicado
elaborado rapidamente sobre os acontecimentos, endereçadas às principais
emissoras escutadas em Bissau. Lembro-me bem que Rádio Brazzaville, BBC, Rádio
Conakry e Rádio Dakar, estavam entre aquelas que receberam e difundiram a
noticia que os colonialistas não queriam que saísse da Guiné. Simultaneamente,
foi também enviado um primeiro relatório ao Amílcar que se encontrava nesse
momento em Angola.
No dia seguinte de manhã, logo depois da minha chegada aos escritórios da
Casa Gouveia, fui ver o subgerente António Carreira e expliquei-lhe como se
tinha dado a prisão do camarada Carlos Correia. Telefonou imediatamente à
polícia e o Carlos foi posto em liberdade.
Entretanto, o Aristides tinha sido requisitado
pela polícia política para estar em permanência ao seu serviço. As conversações
telefónicas do governador ou do director da PIDE, com Lisboa, revestiam-se de
um carácter altamente secreto e só podiam, por isso, ser controladas
pessoalmente por ele, chefe da Estação, como pessoa de toda a confiança.
Naquela mesma tarde, o director da PIDE em Bissau,
falou com o seu director-geral em Lisboa. Este queria as últimas notícias; não
acreditavam que a greve tivesse sido organizada pelos próprios marinheiros,
quase todos analfabetos. Havia certamente alguém com mais conhecimentos e
experiência por trás, a dirigir e a orientar a acção; era absolutamente
indispensável encontrar essa pessoa. Não se teria distinguido, por acaso, no
meio da confusão, nenhum filho da Guiné com habilitações a que se pudesse
atribuir tal responsabilidade?
O director-geral da PIDE insistiu para que o seu
representante pensasse bem e se informasse junto da Polícia de Segurança
Pública; que também pusesse os seus agentes em campo para recolherem todas as.
informações que conduzissem à identificação dos promotores da greve de 3 de
Agosto. O director de Bissau lembrou-se então da prisão de Carlos Correia. no
próprio momento da confrontação das autoridades com os grevistas: era africano,
filho da Guiné, tinha o Curso Geral dos Liceus e ainda por cima trabalhava na
Casa Gouveia, onde havia o maior número de marinheiros. «Prenda-o de novo
-disse o director-geral- e mande-o para cá, para ser interrogado por nós.»
Toda a gente sabia o que eram os interrogatórios
da PIDE, em Lisboa. Quantos não foram os patriotas portugueses e africanos que
sucumbiram às torturas e maus tratos da polícia fascista!
O Aristides mandou imediatamente avisar o Carlos,
que me devia contactar e fazer tudo para sair do país, antes de ser de novo
apanhado pela polícia.
Carlos saiu nesse mesmo instante à minha procura. Foi primeiro à minha
casa, embora isso tivesse sido imprudente, pois se alguém o visse a entrar no
fim da tarde no prédio de três andares onde eu era o único africano residente,
saberia logo que ele só podia dirigir-se à minha
casa; procurou-me em seguida em casa da dr.s Sofia Pomba Guerra.
A noite acabava de cair bruscamente quando
finalmente me encontrou na Sede do Benfica. Chuviscava um pouco, mas mesmo
assim saí à rua para falarmos longe de
possíveis ouvidos curiosos. Carlos estava acompanhado de um amigo, quando me
pôs ao corrente da situação. Disse-lhe que fosse imediatamente esconder-se e
que só se mostrasse quando eu mandasse chamálo. Pedi-lhe o seu impermeável, e
confirmei que tudo seria tratado de forma que ele pudesse sair do país ainda
naquela noite.
Tornava-se indispensável encontrar o Elysée
Turpin, o homem do nosso grupo capaz de conseguir um meio de transporte. Com a
ajuda do meu irmão T oi, que tinha uma motorizada, saímos à procura do Elysée que sempre considerámos o
homem mais difícil de encontrar em Bissau, depois das horas de trabalho.
Encontrámo-lo finalmente e, informando-o da situação, disse-lhe que tinha de
conseguir um carro para pôr o Carlos na fronteira naquela mesma noite. O único
indivíduo das suas relações que tinha uma camioneta era conhecido notoriamente
pelas relações com a polícia, mas não tínhamos outra escolha e não havia tempo
para hesitações. Ficou combinado que o Elysée pediria o carro explicando
abertamente qual o objectivo da missão. Confiámos assim nas boas relações
existentes entre os dois, e também porque o Carlos era um jovem com muita
simpatia e respeito, em Bissau, para o que concorria, além da sua idoneidade
moral, o facto de ser um excelente praticante do futebol.
Enquanto o Elysée devia garantir o transporte para
a fronteira, eu fui por outro lado à procura dos meios para a viagem.
Terminados os preparativos para a sua saída imediata, precisava
encontrar-me com o Carlos e comunicar-lhe os planos estabelecidos. Estava
muito escuro e continuava a chuviscar. Aproximava-me da casa da sua mãe, no
Chão de Papel. Ia todo envolvido no seu impermeável, quando senti que um carro
se aproximava muito devagar atrás de mim. Não parei. Os faróis chegaram tão
perto que pareciam queimar-me. O pára-choques do carro quase bateu nas minhas
pernas, quando parou.
Voltei-me então e vi que se tratava de um jipe
militar cheio de homens fardados; pensei logo que a sua chegada estava relacionada
com a prisão do Carlos.
Os militares riam quando arrancaram de novo, continuando a sua ronda em-direcção à Central Eléctrica. Confesso
que, apesar do fresco da chuva, estava a transpirar dentro do impermeável de
borracha. Felizmente, os homens só quiseram divertir-se à minha custa.
Voltei para trás e aproximei-me da casa do Carlos. Tive de pedir ao irmão
que o fosse procurar. É que eu tinha-lhe dito que se escondesse' bem, mas não
ficou estabelecido onde.
O Elysée apareceu confirmando que tinha conseguido
o carro. Ele seguiria pela estrada do Aeroporto e o Carlos, na sua motorizada,
iria juntar-se-lhe. logo que o víssemos. Ficou ainda assente que o Elysée faria
tudo para estar de regresso antes das sete da manhã, para não faltar ao
trabalho, não fosse a policia ligar a sua ausência com a fuga do seu colega de
serviço.
Chegou finalmente o Carlos. Via-se que estava
preocupado, apesar da sua calma aparente. Dei-lhe o dinheiro e o impermeável,
abraçámo-nos, tomou a motorizada e partiu. Eram mais ou menos dez horas da
noite. O seu irmão mais novo devia passar pela Gouveia à hora da abertura dos escritórios para dizer que o Carlos estava
doente.
Foi só depois da partida do Carlos, quando
regressava a casa na pequena motorizada conduzida pelo meu irmão, que me
apercebi dos erros e imprudências que foram cometidos: ele andou à minha procura em minha casa e noutros
lugares e era muito natural que nos tivessem visto juntos conversando à porta do Benfica; entretanto, na manhã
seguinte, nada se sabia do Carlos em Bissau. Convenci-me de que a PIDE, a
famigerada PIDE que acabava sempre por saber tudo, facilmente me identificaria
como sendo uma das pessoas que intervieram directamente na fuga do Carlos.
O meu estado de excitação era, pois, bastante grande
no dia seguinte. Tentava imaginar como seria interrogado pela polícia e ia
formando mentalmente as respostas que daria às suas perguntas. Recorri à dr.s
Sofia e ela aconselhou-me a tomar um calmante que me ajudaria a controlar.
Arranjou-me um medicamento a que chamou a «pastilha da felicidade». Eu
precisava de facto de muita calma, no caso de ser interpelado pela PIDE ...
À nossa chegada ao trabalho, no dia seguinte, às
7.30 h, o Elysée informou-me que conduzira o Carlos até à jangada de Barro,
continuando ele, a partir dali, na sua motorizada a caminho da fronteira
senegalesa. Via-se bem que não tinha dormido a noite toda.
Antes das oito horas, já o irmão do Carlos
aparecia para dizer que ele estava doente e não podia apresentar-se na
Gouveia. Alguns minutos depois, chegavam os homens da PIDE. Contactaram a
direcção e perguntaram pelo Carlos. Saíram imediatamente e foram à casa da sua
mãe, mas o Carlos tinha desaparecido sem deixar rastos.
O Elysée, entretanto, pedira licença para sair. Ia dormir ... Logo que recebeu a comunicação sobre o massacre de Pijiguiti, o Amílcar fez-nos saber que passaria por Bissau o mais breve possível, para fazermos o balanço dos acontecimentos e definir o caminho a seguir.»
O Elysée, entretanto, pedira licença para sair. Ia dormir ... Logo que recebeu a comunicação sobre o massacre de Pijiguiti, o Amílcar fez-nos saber que passaria por Bissau o mais breve possível, para fazermos o balanço dos acontecimentos e definir o caminho a seguir.»
"Crónica da Libertação", Luís Cabral
De notar que François Mendy, lider da FLING, apoiado pelo Senegal, fala francês e não crioulo ou português.
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4 de abril de 2012
439-Fabulário dos Biafadas
FABULÁRIO
Não
possuem os biafadas grandes colecções de histórias para contar às crianças ou
para, entre si, os homens contarem para matar o tempo.
Das
poucas que possuem, figuram nelas quase sempre animais e por vezes, de cada
conto transparece um conceito moral. Nos contos figura quase sempre a lebre e é
a ela que cabe o papel que nas fábulas que se contam às crianças europeias cabe
à astuta raposa. É a
lebre que sempre intruja ou vence os animais mais fortes e nos papéis de tolo é
a hiena que figura.
Apresentam-se
a seguir algumas histórias.
A lebre e
a hiena
A lebre e hiena jornadeavam. Depois de caminhar durante algum tempo
avistaram uma povoação. A lebre parou e disse à hiena: «Quando chegarmos ao povoado, se nos perguntarem
os nossos nomes não os dizemos e daremos nomes falsos. Desde já podemos assentar quais os nomes que usaremos: tu serás «Só-trabalho»
e eu «Só-como».
Caminharam
mais um pouco e chegaram à povoação. O chefe desta
ordenou que eles se apresentassem em sua casa e, quando chegaram, a primeira
pergunta que lhes fez foi para saber os seus nomes. A lebre respondeu que se
chamava «Só-como» e a hiena «Só-trabalho».
O chefe disse à hiena que, visto que só trabalhava, fosse para o mato
cortar lenha e mandou trazer comida para a lebre, uma vez que só comia.
A hiena passou o dia todo a cortar lenha e, quando caiu a noite, foi pedir
comida ao chefe da povoação, este recusou-se a dar-lha. Na
manhã seguinte o chefe ordenou novamente à hiena que voltasse ao mato cortar
lenha. Vendo a hiena que estava metida em trabalhos por via da lebre, pensou em vingar-se dela. Partiu o machado au meio e foi à procura do
chefe a quem disse que não podia continuar a trabalhar por o machado se ter partido e acrescentou; «Isso, porém, não tem importância
porque conheço alguém que é capaz de coser O machado e ele fica
como novo». O
chefe perguntou-lhe quem
era capaz de fazer tal e ela respondeu que era o «Só-como». O chefe mandou chamar a lebre à sua presença e comunicou-lhe o que a hiena tinha dito. A
lebre escutou serenamente o chefe e quando este acabou de falar respondeu: «Na verdade posso coser o machado
mas não com linha. Posso cosê-lo, sim, com os tendões do «Só-trabalho».
O chefe ordenou que a hiena fosse morta e que se lhe
tirassem os tendões. Para se livrar da morte certa, a hiena
fugiu e jurou a si mesma nunca mais associar-se com a lebre.
Como a rapariga experimentou o seu namorado
Uma rapariga tinha
um namorado que passava os dias pelos campos a apascentar o gado. Certa tarde começou a
chover torrencialmente e relampejar continuamente e o rapaz, não podendo
regressar a casa, meteu-se no seu abrigo. A mãe deste
pediu a toda a gente do povoado para ir levar comida ao filho mas ninguém quis.
Então a noiva do seu filho foi ter com ela e disse-lhe que
iria à floresta levar comida ao seu noivo. Assim fez.
Depois do seu namorado ter comido, a rapariga voltou para a casa.
No caminho
encontrou alguns lobos e pediu-lhes que fingissem que a comiam e que começaria
a gritar para ver se o seu noivo a iria socorrer. Os lobos
entraram para a sua toca levando a rapariga que se pôs a gritar com quanta
força tinha. Aos gritos da rapariga, o rapaz foi ao local, onde,
juntamente com os gritos da sua namorada, ouviu vozes falando assim: «eu fico
com a perna», «eu fico com a cabeça», «eu fico com os braços». «Não
vale a pena discutir - disse um dos lobos - esperemos por aquele que está à entrada
da nossa toca». Ouvindo assim falar, o rapaz fugiu a bom fugir. A rapariga saiu
e agradeceu aos lobos o serviço que lhe tinham prestado e nunca mais quis
saber do seu namorado.
De como a lebre se viu livre do elefante e do hipopótamo
A lebre não se entendia muito bem com o elefante e o
hipopótamo e esse desentendimento vinha, ao que parece, de questões de comida -
a lebre, mais fraca, ficava sempre mal.
Depois de magicar
durante alguns dias, a lebre foi junto do elefante e disse-lhe: «Vou fazer-te
uma proposta: amarras uma ponta desta corda que aqui trago a uma perna e eu
faço o mesmo com a outra ponta e cada um puxa para o seu lado. Aquele que
arrastar o adversário ganhará um monte de milho que aqui está perto». O
elefante aceitou a proposta. A lebre amarrou o elefante com a corda por uma
perna e seguiu com a outra em direcção ao rio. Ali encontrou o hipopótamo a
quem fez a mesma proposta que tinha feito ao elefante. O hipopótamo aceitou.
Pôs a corda ao hipopótamo e disse-lhe que iria amarrar-se com a outra ponta
depois do que começaria a competição. A lebre desapareceu e o elefante e o
hipopótamo começaram a puxar, cada um para seu lado. Depois de puxar durante
algum tempo, ficaram admirados que a lebre tivesse tanta força - qualquer deles
estava convencido que tinha a lebre por adversário. Tiveram o mesmo pensamento
ao mesmo tempo: ir verificar se de facto era a lebre que estava a bater-se com
eles. Quando se encontraram e compreenderam que tinham sido enganados pela
lebre, combinaram ir em sua perseguição para a castigar A lebre que andava
perto ouviu tudo e tratou logo de se esconder. Vendo perto uma pele de gazela a
apodrecer, meteu-se dentro dela e aí deixou-se ficar. Pouco tempo depois o
elefante passou por ali e ao ver a pele, disse: «Pobre gazela, certamente foi
alguma hiena que a matou». Mas a lebre, escondida lá dentro, respondeu imitando
a voz da gazela: «Nada disso foi; tive uma desavença com a lebre e ela
rogou-me uma praga e eu fiquei neste estado». «Se ela é dessa força, exclamou o
elefante, não quero nada com ela, apesar de termos umas contas a ajustar».
Algum tempo depois
o hipopótamo encontrou a pele da gazela e o mesmo aconteceu com ele.
A partir daquele
dia a lebre andou à vontade e nunca foi incomodada pelo elefante ou pelo
hipopótamo.
De como a mulher se livrou
das pancadas do seu marido
Havia certo homem
que tinha por hábito discutir com a sua mulher acabando sempre por lhe dar uma
tosa. No final de
cada tareia, espetava a sua espada no chão, subia para cima dela e gritava: «Não há homem como eu». A mulher acrescentava:
«Nesta povoação».
Mas ele continuava
convencido que não havia homem tão forte como ele.
O tempo foi
correndo e um dia a mulher pediu-lhe que a acompanhasse a casa de seu pai ao
que de aquiesceu.
Partiram de
madrugada e, depois de muito caminhar, encontraram um grande rio no qual
navegavam grandes canoas. O homem admirado por encontrar um rio num local por onde já
havia passado anteriormente sem ver água, manifestou a sua admiração à mulher.
Ela respondeu que o
pai, quando dormia, babava muito e que o rio que via não era mais que a baba do
pai que, naquele momento, estava a dormir.
Andaram mais um
pouco e começaram a ouvir um barulho ensurdecedor. O homem, assustado,
perguntou à mulher o que era aquilo ao que ela respondeu: «Estão a
acordar o meu pai. Só com este barulho c com fortes marteladas no corpo se
consegue acordá-lo porque ele é muito
forte.
Passados alguns
dias voltaram a sua casa e, pelo caminho, o homem disse à mulher:
«De facto há homens
mais fortes do que eu». A partir daquele dia não mais bateu na mulher.
A seguir apresentam-se pequenas histórias, charadas afinal, escutadas com
grandes risadas e no fim das quais cada um tenta apresentar melhores respostas
às perguntas que se formulam.
Perante uma grande multidão, dois cavaleiros discutiam as suas habilidades,
cada um se considerando superior ao outro. Como a discussão parecia
eternizar-se sem chegarem a Um acordo, decidiram que cada um
faria uma proeza e os presentes avaliariam as suas habilidades.
Um deles espetou uma agulha no tronco de um poilão e, afastando-se um pouco, meteu o seu cavalo a galope e
passou pelo buraco. O segundo cavaleiro arrancou a agulha que estava espetada
no tronco e, recuando alguns metros, partiu em direcção ao poilão em cujo
tronco fez um orifício com a agulha que empunhava como se fora uma lança,
passando através do orifício.
Qual deles o mais habilidoso?
o homem teimava ser mais ligeiro que a mulher que não lhe
reconhecia essa superioridade.
Uma manhã saíram de casa para fazer uma viagem. A mulher levava à cabeça um balaio com farinha.
Ao chegarem junto de uma lagoa, a mulher escorregou e caiu e a farinha que
levava derramou-se pelo chão. Antes dela se levantar já o homem tinha recolhido
toda a farinha no balaio. A mulher ficou despeitada mas não disse nada. Mais
adiante encontraram uma lala - terreno alagadiço.
O homem escorregou e caiu. Levantou-se e perguntou à mulher se a sua roupa tinha ficado enlameada. Mas ela,
apresentando-lhe a roupa, disse-lhe que não estava suja porque lha tinha
despido antes dele tocar o chão.
Qual deles o mais ligeiro?
Iufu e Iafá conduziam uma vaca, indo o primeiro à frente com a corda e o
segundo, atrás, a enxotá-la.
No meio do caminho a vaca fugiu. Quando chegaram notaram com espanto que o
animal tinha fugido. Puseram-se a perguntar pela vaca.
- Então tu levas a corda e não
sentes a vaca fugir, diz Iafá.
- E tu vais atrás dela e não a vez
fugir? - replica Iufu.
Qual deles o mais tolo?
Cabucu
dunia (1)
Um velho saiu com o seu filho a correr o mundo a fim de o
pôr em contacto com a vida porque o rapaz era novo e inexperiente.
Andaram algumas horas e encontraram três fontes: duas com
água e no meio delas, uma seca.
De uma das fontes que tinha água, esta corria para a
outra e vice-versa. Para a que estava seca não ia uma gota.
O rapaz admirou-se
e perguntou ao pai por que as fontes que tinham água trocavam-na entre si e não
mandavam uma gota para aquela que estava seca. O pai respondeu-lhe: «Os ricos
associam-se entre si mas nunca verás os ricos associarem-se aos pobres».
Mais adiante
encontraram um homem a colher lenha, tendo já feito um grande feixe com o qual
não podia. De vez em quando experimentava o feixe e, apesar de não o poder
fazer, ia-o sempre aumentando. O filho manifestou a sua estranheza ao pai,
tendo-lhe este respondido: «Há homens que mal podendo sustentar uma mulher, nem
por isso deixam de tomar todas as que lhe aparecem. Homens assim nunca
conseguem ir para diante».
Finalmente
encontraram duas vacas a pastar num campo. Uma, coberta de moscas, comia
pachorrentamente ao passo que a outra sacudia-se e fugia de um lado para outro
para se livrar de uma só mosca que tinha pousado nela. Perante o espanto do
filho, o velho explicou: «Há homens que têm muita família e trabalham sempre
para a sustentar mas hás-de encontrar quem só tenha um parente para sustentar e
que empregará todos os meios para se livrar dele».
(1) Cabucu dunia significa: coisas de pasmar.
(1) Cabucu dunia significa: coisas de pasmar.
OCTÁVIO C. GOMES BARBOSA
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3 de abril de 2012
438-Pelotão de Caçadores Nativos 55
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437-O Gallóna
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436-O Régulo de Antim
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2 de abril de 2012
435-Crianças da Guiné
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1 de abril de 2012
434-Paisagens da Guiné
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