Lembranças da Guiné, na guerra e já fora dela. Pesquisa, comentários e factos. A memória sempre presente. Não está por ordem. É conforme me vou lembrando. Tudo o que tem a ver com a Guiné, a sua história, as etnias, a colonização e as guerras de resistência. Também a minha experiência durante a guerra colonial (está nos primeiros posts). Para quem não sabe ou viveu que veja e avalie se é realidade ou ficção. Para quem sabe ou viveu são lembranças.
18 de maio de 2012
483-Guerra colonial-Praia de lágrimas
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17 de maio de 2012
482-As crenças dos povos da Guiné-PARTE I
Explicação das crenças dos povos da Guiné, e a sua prática. Fernando Rogado Quintino começa por nos dar uma panorâmica do aparecimento das várias crenças entre os povos da antiguidade, ligando-as, até, a muitas das crenças e simbologias do cristianismo. Homem culto, nesse aspecto, e homem interessado na compreensão dos povos que ele bem conheceu na Guiné.
(Ver aqui a PARTE II deste artigo)
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16 de maio de 2012
481-Resistência nos quartéis contra a guerra colonial
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15 de maio de 2012
480-A Viagem do Tangomau
«A Viagem do Tangomau»
Lançamento em 19 de Junho,18:30, no Museu da Farmácia, Rua Marechal Saldanha, 1, em Lisboa
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13 de maio de 2012
479-A escola de Samba Culo

Região do Oio>Mata do Oio> Zona
de Tambicó - Samba Culo
Este Banquinho da Nova Escola de Samba
Culo, trazido em 29-03-2010 por Carlos Silva – ex-combatente, representa e
simboliza a Escola de outrora existente algures na zona onde se deu a batalha
aqui narrada e onde morreram vários combatentes, incluindo a Professora,
guerrilheira do PAIGC
Foto Carlos Silva
Não
me convenci disso, porque nunca na minha vida tinha querido matar alguém e
nunca quis morrer, sempre desejei viver.
E,
já lá na guerra, fui vendo alguns morrerem sem que quisessem, só porque tinham
sido enviados para aquela operação, só porque os colocaram naquele posto ou
naquela viatura, não dependeu deles.
Eu,
como quase todos, disparei muito a G3 em operações e emboscadas, mas nunca
soube se ficou alguém morto por mim no meio daquela mata ou atrás daquelas
árvores. A maior parte das vezes nem os víamos.
Mas,
naquelas operações “Inquietar” para tomar a base que o PAIGC tinha em Samba Culo [o comandante era Braima Bangura, que foi fuzilado por Nino
Viera depois do golpe de 1980], verifiquei, infelizmente, que era assim como me
tinham dito.
Foram
duas companhias de intervenção e o meu pelotão, da companhia de quadrícula,
foi-lhes agregado.
A nova Escola construída com o apoio do
Padre Carlo Andolfi da Missão Católica de Farim
Foto Carlos Silva
As
primeiras emboscadas fizeram-na à companhia da frente. Dei
indicação ao meu pelotão, que estava a meio, que entrasse pela mata para fazer
um envolvimento.
Fui
á frente e, a certa altura, disse-me o Lamine, meu guarda-costas, “estão ali
turras”. E estavam lá. Apontei,
sempre fui bom atirador, mas, horror em matar, apontei baixo e acertei na perna
dum deles. Corremos, mas eles fugiram arrastando o ferido.
Complicada
aquela mata. Foram três dias de marchas entre árvores e várias emboscadas. No
terceiro dia encostaram-nos ao rio Canjambari. Dizendo-me
o capitão comandante da operação:
Ó
Lopes, tenho aqui os meus homens organizados, vá você ver se fura o cerco.
Lá
fui, vi um e disparei, ouvi-o gritar “o cú” [não o matei pensei], mas levei
porrada e voltei para trás.
Passado
tempo disse-me para ir tentar novamente. Fui e de novo levei porrada, com a
agravante de um soldado meu ter levado um tiro nas costas, dos do capitão, que
também começaram a disparar.
Disse-lhe
não vou mais, é melhor chamar os T6.
Vieram,
despejaram umas bujardas à volta e lá nos safámos.
A seguir, a “Inquietar
II”, de 4 a 7 de Julho,
com os mesmos.
Região do Oio> Zona de Tambicó-Samba
Culo>Uma sala da Nova Escola, cujo equipamento utilizado é o que está à
vista , 29-04-2009 Foto Carlos Silva
O
Comandante, ao terceiro dia, optou por nova táctica: deixar uma companhia a
levar porrada a sul da base e, à socapa, a mata era cerrada, foi com a dele
mais o meu pelotão para oeste, virando para norte e atacando pelo lado do rio
Canjambari.
Entrámos
de repente, o grosso deles estava entretido com a outra Companhia, havia lá
três ou quatro que tentaram reagir mas foram abatidos pela Companhia, o meu
pelotão entrou por uma barraca coberta de colmo.
Estava lá uma rapariga
que agarrou numa kalashnikov.
Gritei-lhe
“tá quieta, firma lá!”. Mas
ela apontou-me a arma. Despejei-lhe
uma rajada na barriga, caiu no chão.
Fiquei
primeiro estático a olhar para ela, era bonita.
Virei-me,
mandei a G3 para o chão e gritei furioso “Merda!”. Os meus soldados olharam
para mim espantados. Um
furriel disse-me: “Olhe que ela matava-o”
Havia
várias carteiras, à minha frente um quadro preto com um desenho a giz branco de
um vaso de flores. Por
baixo tinha escrito, também a giz branco, “Um vaso de flores”.
Dei
depois com o 1º cabo P… em cima da rapariga agonizante e a levantar-lhe o
vestido.
Ainda
a tremer fui-me a ele, dei-lhe um murro e uns pontapés:
“Eu
dou cabo de ti, grande cabrão!” [coitado, o Gazela matou-o, mais tarde, em
Sinchã Jobel].
Veio
o Capitão, olhou para tudo, disse que era preciso ir fazer uma revista àquilo
tudo, que os gajos tinham largado a outra Companhia, tinham-se pirado.
Vi
o guia ao pé dele e perguntei-lhe se sabia quem era aquela rapariga que jazia
ali no chão.
É
a professora, Abess, disse-me ele.
Encontrámos
muita coisa. Ao sairmos pegámos fogo a um armazém de munições, que esteve a
rebentar durante vários minutos enquanto nos afastámos.
Aquela
morte que sei, não me tem saído da cabeça……
Região Oio>Mata do Oio> Zona de
Tambicó - Samba Culo, 29-03-2010. Foto Carlos Silva
Ali estava ela, jovem e bela como a
conheci há trinta anos, mas agora com um olhar calmo e um sorriso nos lábios,
vi-a na expectativa do meu abraço. E abracei-a... e chorei.
Professora, este jovem é o Cinco, que me trouxe
de jeep até aqui, e este é o Blétch Intéte, filho da siguê[1]
dos balantas de Barro.
O outro teu patrício, homem-grande[2],
é o Cacuto Seidi, chefe da tabanca[3]
de Barro. Foi ele que me disse que o Blétch Intéte tem irã[4]
e que só ele podia fazer com que eu te encontrasse.
A minha chegada aqui, há trinta anos, [1967]
foi muito diferente, como deves calcular, e não me refiro, evidentemente, às razões
de cada uma das viagens.
Desta vez, assim que pisei o aeroporto
Osvaldo Vieira[5],
tive de levar as mãos ao peito para que o coração não me abandonasse.
Por mais esforços, por mais conversas
apaziguadoras, durante as quatro horas que durou a viagem, não consegui
acalmá-lo nem convencê-lo de que era preciso dominar a ansiedade e moderar os
desejos de ti.
Região do Oio>Mata do Oio> Zona
de Tambicó-Samba Culo>Escola de Samba Culo, 18-03-2009
Eram assim, ou pior ainda, as escolas e
casas de mato onde os guerrilheiros se acoitavam, nos anos 60/70 – Na Foto:
Carlos Silva; Prof Calabus Ferreta e o Ussumane Seik, Comando DFA
Perdido, cego de alegria e paixão,
chegara a hora da realização do sonho de vários anos, depois de desvanecidos
todos os fantasmas, é claro, porque, quando saí daqui a primeira vez, evacuado
para o hospital, este coração estava enraivecido com vocês todos, que me tinham
ferido e matado amigos meus.
Passados nove meses, aqui voltei, para
continuar na guerra, é verdade, ainda confuso mas já sem ódio e desejoso de
entender o que se passava.
Região do Oio> Zona de Tambicó-Samba
Culo>Local da ex-Escola de Samba Culo, 29-04-2010
Foi nessa minha fase, Professora, que nos conhecemos, quando
dei contigo na tua escola de Samba Culo, naquela manhã de 7 de Julho.
Da segunda vez que abandonei a Guiné e
deixei a guerra, a minha vontade e empenho foi esquecê-la, varrer-vos a todos
da minha memória, lavar as marcas do sangue dos meus amigos, do meu próprio, e
também do vosso, banir o medo e o cansaço que se me entranhara na alma ao
percorrer as matas deste chão que, agora, vê lá!, reguei com lágrimas de alegria
e de saudade consolada.
Para aqui chegar, frequentei bares e
prostitutas, acumulei sessões contínuas no Olímpia[6],
fui estudante mas nunca acabei cursos, percorri a Europa, estive em Paris, no
Quartier Latin das minhas leituras, Londres, vi a Royal Guard e a rainha, Roma,
não vi o Papa porque estava de férias em Castelgandolfo, e vê lá que me atrevi
a passar a cortina de ferro, em Praga, Moscovo, onde namorei uma soviética na
Praça Vermelha, a tchetchena Aniuska, Leninegrado e Kiev, fui activista
sindical e militante político, participei em primeiros de Maio, fiz trabalhos
clandestinos e levei porrada da polícia, dormi em esquadras, casei-me, fiz
filhos e apanhei bebedeiras, bati nos filhos e descasei-me, conheci muitas
mulheres, fiz amor por todo o lado, levei muitas negas e passei noites de
solidão, dormi em bancos de jardim e debaixo de árvores, mas nunca te esqueci,
não houve prazer-anfetamina que cauterizasse esta memória em carne viva nem
bebida que a afogasse, cansei-me da vida, como me cansara antes para não
morrer, e pensei em matar-me. Mas, olha, não consegui, não por causa de Deus,
pois nesse período nunca fui à missa e nunca me confessei. Não o fiz porque
tinha começado a amar-te e não queria morrer sem voltar a ver-te, sem deixar de
to dizer.
Está
a ficar noite e tenho três horas para chegar a Bissau.
Cinc, prépare le
jeep, nous en allons tout de suite.
Sabes,
professora, porque é que o meu
condutor se chama Cinco?
Nasceu
no dia 5 de Maio e é o quinto filho de sua mãe, que decidiu dar-lhe esse nome
tão significativo.
Não,
não te preocupes que ele não percebeu nada da nossa conversa, além do crioulo
só sabe francês, pois frequentou apenas uma escola em Dakar.
É
que, professora, nasceu há 23 anos,
muito depois daquele dia em que tive de te abrir o ventre com uma rajada de G3
por te ver empunhar a kalash que tinhas pendurada no quadro da escola.
Ele
não estava aqui entre os teus meninos. Se tivesse estado, saberia falar e escrever
português, com certeza.
Sei
que foste uma boa professora.
Vi
que escrevias no quadro as palavras com o desenho correspondente para os teus
alunos identificarem bem em português os objectos do seu dia-a-dia.
Vi
os livros por onde aprendiam a ler.
vi
os cadernos de redacção e de cópias.
Está descansada, não matei nenhum
deles, garanto-te. Devem estar por aí, cidadãos do teu país.
Tenho
de partir, de voltar a Portugal.
Gostei
muito de falar contigo, tinha mesmo necessidade de o fazer, já que, naquele dia
em que nos encontrámos pela primeira vez, só eu te disse “firma lá!”[7]
e tu não me disseste nada. Percebo
que nem me quisesses ouvir...
E
nunca mais dormi descansado até agora.
Quero
pedir-te uma última coisa, que desculpes aquele meu soldado que tentou violar-te
quando estavas agonizante. Conseguiste
ver ainda que não o deixei fazer isso. Perdoa-lhe, era bom rapaz, um camponês
minhoto que para aqui foi lançado e, sabes, é fácil perder a cabeça numa guerra
de inimigos fabricados. Talvez o encontres por aí, o teu camarada Gazela
matou-o em Jobel e o corpo dele por cá ficou.Deve
andar, como tu, no meio desta floresta
do Oio.
Fala
com ele agora.
[1] Feiticeira tribal
[2] Homem idoso, respeitável, aceite como autoridade
pelos mais novos da povoação.
[3] Povoação.
[4] “Irã”, entre os balantas, que são animistas, é
qualquer ser da natureza, árvore ou animal, ou qualquer objecto a que é
atribuído poder mágico. «Tem irã» significa ter poder sobrenatural que é
preciso respeitar e temer.
[5] Aeroporto de Bissau, a que foi dado o nome de Osvaldo Vieira, herói do PAIGC,
morto durante a guerra de libertação.
[6] Cinema popular na Rua dos Condes, em Lisboa.
[7] Está quieta aí!
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6 de maio de 2012
478-O último "Boletim Cultural da Guiné Portuguesa8
Foi este. Era uma publicação trimestral e, por isso, tem a data de "Abril de 1973". No entanto, um dos articulistas, o padre franciscano Henrique Pinto Rema, aponta no final da sua resenha: "Prefeitura Apostólica, em Bissau, 8 de Outubro de 1973". É evidente, pois, que, embora com data de Abril, só terá saído depois desta data. Saíra um (109) em Janeiro, deveria sair um outro em Julho. Com a situação militar difícil vivida na Guiné compreendem-se as dificuldades, bem visíveis na feitura deste boletim, o que já era evidente também nos boletins anteriores.
O primeiro articulista relata-nos como era feito o controlo do paludismo em várias localidades perto de Bissau (Prábis, Safim e Quinhamel), porque, naturalmente, não seria possível ir fazê-lo mais longe. Inicia o seu trabalho com uma exposição técnica sobre o paludismo e a caracterização climática e social da Ilha de Bissau (4 páginas). Relata, depois, os trabalhos realizados por outros em 1948 e 1953, e um seu em 1966 e aquele a que se refere o artigo, iniciado em 1971, virado especialmente para a captura de mosquitos e sua análise. Tem alguma fotografias sem indicação dos locais onde foram tiradas e sem indicação de datas. Era um especialista, é verdade, era o chefe dessa missão. Mas era também um político afecto ao regime, natural que se empenhasse por ele (pesquisei na internet):
Vem depois um artigo sobre a técnica de como engendrar uma ficção literária. Genérico, sem nada a ver com a Guiné nem com a literatura colonial (22 páginas). O seu autor é Manuel Lopes, escritor e ensaísta natural de S. Vicente, Cabo Verde.
Há também um artigo do padre António Ambrósio, missionário em S. Tomé e Príncipe, sobre Costa Alegre, um poeta africano dessas ilhas.
Quer o texto deste quer o de Manuel Lopes foram extraídos de outras publicações, não eram especialmente feitos para o boletim.
Fala da Guiné o padre franciscano Henrique Pinto Rema, que penso ser, nesta altura, o único dinamizador do boletim, porque se mantinha lá como disse acima. Estava lá há muitos anos e era, também há muito tempo, da Direcção do BCGP. O seu é um extenso texto (118 páginas), como outros publicados em edições anteriores, sobre as missões franciscanas na Guiné. Tem uma parte interessante sobre "As missões da Guiné na conjuntura da guerrilha" (ver aqui). Também sinal das dificuldades da altura são as fotografias que apresenta: da visita a uma missão perto de Bissau feita por Américo Tomás em 1968, de uma visita do Governador Arnaldo Schultz a outra, com o Prefeito Apostólico e o Secretário-Geral da Província, em 1967. Não dava, se calhar, para os governantes dos últimos anos andarem em vistas destas...
Vêm no final os habituais: Cónica da Província, Economia e Estatística, Publicações Diversas, Movimento da Biblioteca Nacional.
Quanto à "Crónica da Província" há coisas interessantes:
Isto é, foi um padre porque, parece, nenhum "civil" havia ou se atreveu a vir para a Guiné ocupar aquele cargo. De facto, este aguentava-se lá. Ele próprio o disse na sua intervenção:
Uma outra notícia da "Crónica":
Fui ver quem seriam estas raparigas.
Não encontrei nada da Sacardandó. Palpitou-me que seria libanesa, ou coisa do género.
Quanto à eleita "Rapariga Ideal da Guiné", Maria José Matamouros Resende Costa, descobri que era médica no Brasil. Porquê não sei. Mas fui ver mais. E vi, no trabalho do Leopoldo Amado "Da Embriologia Nacionalista" que, quando Cabral iniciou o movimento de erradicação do sistema colonialista, foi assinalado "o facto de no grupo de Benjamim Correia haver um branco de nome Luís Mata-Mouros Resende Costa, de 36 anos de idade, natural de Bissau, que era encarregado de tratar de vários assuntos relativos ao grupo Benjamim Correia, disfarçados em um grupo associativo com uma comissão directiva, tendo justamente como Secretário o Luís Mata-Mouros Resende Costa." Não consegui saber se essa Maria José era filha desse Luís, do qual não consegui saber mais nada, mas penso que deveria ser da família dele, uma vez que também era natural da Guiné. Quem seriam os elementos do júri, que não tiveram em conta que essa rapariga era de família oposicionista? Na situação, seria normal (ou não?) que tivessem isso em conta. Mas não sei quem eram.
Vi no blogue do Didinho que a Isabel Maria Garcia de Almeida (Bélita) é nutricionista, com acção na Guiné-Bissau, mas com muitas queixas:
«Não pude evitar olhar para o meu próprio umbigo e recuar 34 anos. Lembrei-me em particular do meu pai, da desagregação da minha família nuclear original e “da minha solidão” no chão da Guiné. Foi devido à intolerância, mesquinhez e barbárie que o meu pai foi arbitrariamente preso em 1975, durante quase 3 anos, sem culpa formada e libertado sem nunca se ter provado as acusações de que fora alvo...
Para fugir à perseguição após a soltura, viu-se obrigado a emigrar para Portugal com toda a família... menos as 2 filhas. Tinha eu 19 anos na altura e a minha irmã 17. Acreditávamos que tudo não passava de equívocos, de custos às vezes inevitáveis de um pós-guerra.
Tivemos o atrevimento e a ousadia de sonhar com a possibilidade de assumir a nossa quota-parte de responsabilidade e participar de corpo e alma, na construção de um futuro de justiça e desenvolvimento para as gerações vindouras, com o risco de ruptura com a restante família, o meu pai em particular, que nos rotulava de “aliadas dos seus inimigos”. Com o tempo, mesmo sem nunca ter compreendido as nossas motivações, acabou por se resignar, aceitar e respeitar a nossa escolha…
A morte ceifou a vida à minha irmã muito cedo, aos 27 anos de idade e eu continuei a dar o meu máximo para a paz e a prosperidade deste chão querido, assim como o gozo de cidadania plena, transmitindo esse mesmo espírito aos meus filhos e a todos os jovens com que cruzo na minha vida, e não só…
Se por um lado construí a minha própria família, por outro, continuei a sentir-me sempre só, órfã de pai, de mãe, de irmãos...
Apesar de longe, o meu pai “foi perseguido até à morte pelo percurso político da Guiné-Bissau”. Aos 40 anos de idade os traumas da prisão impediram-lhe de continuar a levar uma vida familiar, social e economicamente activas.
Sem que se lhe conhecessem antecedentes cardíacos, 30 (trinta) anos depois de ter saído da Guiné, 20 (vinte) dias após a eclosão da guerra de 98, sucumbe, relativamente novo, aos 62 anos de idade, a um ataque cardíaco, quiçá fruto das recordações e emoções provocadas pelas imagens dos horrores da guerra apresentados a todo o mundo através da televisão.» ? Penso, pelo que ela diz, que o seu pai não seria do agrado dos "combatentes da liberdade da pátria".
Quanto à Maria Munira Jauad, tem uma empresa familiar na Guiné-Bissau, a RUMU, «criada em 1996 e que chegou a ter um volume de negócios superior a 1 milhão de dólares entre o período 1996-1998 graças á exportação de grandes quantidades de castanha de cajú.
Com início da guerra civil, coube aos empresários guineenses de financiar o conflito armado, sendo que como consequência da instabilidade política acabaram por ver as suas produções saqueadas. A partir do fim da guerra a Rumu começou a retomar o seu negócio maioritariamente com empresários indianos e a partir de 2003 voltou a poder financiar-se em consequência do regresso do sector bancário ao país.
Após uma pausa na minha actividade empresarial entre 2006 e 2011 – durante a qual desempenhei funções de Embaixadora da Guiné-Bissau na Gâmbia – voltei a reabrir actividade, direcionando-me para a exportação de manga e de castanha de cajú, áreas de negócio que têm vindo a ser apoiadas por alguns programas de desenvolvimento. Queremos posicionar a nossa exportação para os mercados Europeu e Americano.»
Quanto à família desta, de ascendência indiana, parece, estaria nas boas graças dos que ganharam a independência.
Não consegui saber nada sobre a última classificada, Antónia de Pádua Gomes Semedo. No entanto, como as famílias Gomes (como o actual Primeiro-Ministro golpeado) e Semedo (o engenheiro Júlio Semedo, por exemplo) estão ligadas à luta de libertação, talvez ela pertencesse a essas famílias, não sei.
O que quero dizer é que me parece que o júri, para escolher a "Rapariga Ideal da Guiné", não se terá preocupado, nem procurado ter em conta, sobre os eventuais ventos políticos pairantes sobre essas famílias. O que não era normal. Sinais da situação e das perspectivas futuras? Talvez. Mas teve em conta outra coisa, e isso é evidente: nenhuma rapariga do Pilão nem nenhuma bajuda do mato. Mas percebe-se: estas só terão brilhado nas provas práticas, nas teóricas não.
E uma surpresa: circo na Guiné:
Em Bissau acredito. Mas "no interior da Província" em "digressão por terras da Guiné" tenho dúvidas. Para não dizer que não acredito. Se alguém tiver visto esse circo que diga, agradeço.
E o desporto:
É evidente que todas estas provas se realizaram em Bissau.
No tiro aos pratos palpita-me que não esteve lá nenhum habituado ao "tiro aos turras". Ainda por cima era de iniciados...
Nas corridas e saltos, no Torneio de Atletismo, devia ser a "camada estudantil" de Bissau, especialmente do Liceu Honório Barreto.
Quanto à "deslocação do Boavista à Província", limitou-se a estes jogos "em terras da Guiné": selecção da Guiné e Sporting Clube de Bissau. Nem é referido que jogou com o UDIB e o Benfica de Bissau. Mas talvez, admito. Já não acredito que fossem a Mansoa defrontar o Clube de Futebol Os Balantas.
Campeonato "Provincial" de Futebol - Havia o Benfica de Bissau, o Sporting Clube de Bissau, a União Desportiva Internacional de Bissau, o Ténis Clube de Bissau e o Clube de Futebol Os Balantas. Era capaz de haver outros mas não sei. Não sou bom a fazer contas em futebol, mas parece-me que, tendo sido feitos 14 jogos, Os Balantas não entraram neste campeonato. Seria difícil estes deslocarem-se a Bissau e muito mais os outros irem a Mansoa. Se alguém souber mais destas contas que me diga.
Quem assina a "Crónica da Província" é Alfredo Garrido Ferreira, que assina também a tabela das leituras feitas na "Biblioteca Nacional" como seu Director, e que diz ser Professor do Ensino Secundário, no Liceu Honório Barreto naturalmente. Mais um sinal das dificuldades de gente para estas tarefas.
Dificuldades que já vinham de antes:
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Boletim Cultural da Guiné Portuguesa
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5 de maio de 2012
477-Missão cumprida em "resort"
Guiné-Bissau: Militares portugueses cumprem missão em resort de Cabo Verde
Cenário de férias das tropas portuguesas no Sal deixa turistas perplexos
Emília Monteiro e Rafael Barbosa – Jornal de Notícias, com foto
Parte do contingente militar destacado para a eventual missão de resgate de portugueses na Guiné-Bissau está alojado, há três semanas, num resort turístico de quatro estrelas em Cabo Verde.
A situação deixou perplexos turistas em férias na ilha do Sal, mas as Forças Armadas garantem que a situação é normal, quando não existem instalações militares adequadas para alojar as tropas. "Foi uma surpresa estar no mesmo hotel do contingente de militares", testemunha um turista, hospedado no Belorizonte, o melhor resort da ilha do Sal, segundo informação veiculada por agências de viagem.
Os militares integram a Força de Reação Rápida (FRI) que partiu para a região na sequência do golpe de Estado na ex-colónia. A FRI, que ontem recebeu ordem - depois dos contactos do JN - para começar a regressar (ler texto em baixo) é composta pelas fragatas Corte Real e Bartolomeu Dias, a corveta António Enes (com as respetivas guarnições e fuzileiros a bordo) e o avião de reconhecimento P-3 Orion.
São 36 os militares afetos à aeronave que estão alojados no resort, situado na primeira linha de mar, perto de Santa Maria. Em sites de marcação de viagens e estadias, o preço diário por pessoa apontava, ontem, para 82 euros (bungalow) ou 113 (quarto).
Os militares garantem, contudo, que foram negociadas tarifas favoráveis, que reduzem o preço para metade. Contactado pelo JN, o Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA), do qual depende a FRI, alega que a opção pelo Belorizonte se justifica por ser o único capaz de preencher requisitos de "proximidade, segurança e qualidade". Foi preciso garantir o fornecimento de "food packs" para os voos, que duram 12 horas, e a disponibilização de reforços alimentares para períodos noturnos e de refeições "fora das horas convencionais".
"São muitos, passam o dia na praia, na piscina ou a fazer passeios de jipe e a pé", testemunha uma turista que entretanto regressou a Portugal. "Fazem tudo o que os outros turistas fazem. Mas nós fomos a Cabo Verde com viagens pagas com o nosso dinheiro e estes militares estão a receber o salário pago pelo Estado e ainda têm todas as despesas.
O EMGFA desvaloriza a perplexidade dos turistas e garante que existe uma intensa atividade operacional de que poderão não se aperceber. A operação inclui, além de prolongados voos de reconhecimento noturnos, rotinas como "preparação das missões, tratamento dos dados recolhidos e manutenção da aeronave".
Relativamente ao uso da piscina, às idas à praia ou as festas no hotel, admite o EMGFA, em resposta escrita ao JN, que os militares "podem ocupar o seu tempo livre nas atividades que entenderem, desde que garantam a disponibilidade adequada à missão e adotem comportamentos de acordo com a condição de militar".
Confrontado com imagens de festa a que o JN teve acesso, o esclarecimento nota que é uma "situação comum no hotel; o grupo de dança, após os espetáculos diários, disponibiliza-se para que, a título de recordação, os presentes tirem fotografias de grupo". A imagem em causa terá sido feita, aliás, no final da festa de aniversário de um dos elementos da missão.
Segundo os relatos que chegaram ao JN, o contingente português não se limita à participação nas festas promovidas pelo Hotel Oásis Atlântico Belorizonte. São frequentes as deslocações a bares e discotecas muito procurados pelos turistas da ilha do Sal - seja o Salinas, seja o Pirata, por exemplo. E muitos dos militares exibem, além de pulseiras vermelhas, que sinalizam o facto de serem clientes em regime de pensão completa no resort, outras pulseiras que lhes dão acesso livre aos bares e discotecas da "movida" da ilha.
- Ler ainda hoje em Página Global, a publicar dentro de horas, opinião de António Verissimo:
OS RAPAZES CURTEM NO RESORT EM CABO VERDE, QUAL É O MAL?
Publicada por PÁGINA GLOBAL em 12:45
Hei-de ler. Qual é o mal? Nenhum, claro. Eu também estive em "resorts", mas mesmo na Guiné. Neste em Geba:
E neste, em Barro:
Guiné-Bissau: GOVERNO PORTUGUÊS MANDA REGRESSAR OS MILITARES
Publicada por
A. Marques Lopes
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4 de maio de 2012
476-Reunião do Comando-Chefe da Guiné em Maio de 1973
Obrigado ao António Moreira por me ter reenviado este documento. Disse ele:
"Reenvio para os meus Amigos certo de que terão interesse em ficar a conhecer o importante documento em apreço, o qual passados todos estes anos perdeu a elevada classificação de segurança que lhe foi à época atribuída.
Vai na íntegra inclusive com a "recomendação" de quem me enviou.
*********************************************************************************
Esta reunião do ComChefe/Guiné em Maio de 1973 é de leitura obrigatória particularmente para os que emprenham de ouvido frases feitas por ignorantes atrevidos."
Lembro que ainda foi no tempo do General Spínola, que só deixou a Guiné em Novembro de 1973.
"Reenvio para os meus Amigos certo de que terão interesse em ficar a conhecer o importante documento em apreço, o qual passados todos estes anos perdeu a elevada classificação de segurança que lhe foi à época atribuída.
Vai na íntegra inclusive com a "recomendação" de quem me enviou.
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Esta reunião do ComChefe/Guiné em Maio de 1973 é de leitura obrigatória particularmente para os que emprenham de ouvido frases feitas por ignorantes atrevidos."
Lembro que ainda foi no tempo do General Spínola, que só deixou a Guiné em Novembro de 1973.
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A. Marques Lopes
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3 de maio de 2012
475-Aspectos e tipos da Guiné XXII
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2 de maio de 2012
474-Guerra colonial
Com agradecimento ao Carlos Vinhal por enviar este documento
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