Segundo a Bíblia, Deus ordenou a Adão que comesse
todos os fmtos das árvores do paraíso, mas não da «árvore que está no meio: a árvore da ciência do bem e do mal. Esta
árvore não pode ser senão a árvore produtora da semente. Com efeito, conforme
se come ou não a semente, assim se adquire a ciência do mal ou do bem.
Comendo-a, não se pode agricultar no ano seguinte e há consequentemente fome,
desgraça e infortúnio; não a comendo,
há a possibilidade da cultura, da reprodução:
felicidade, bem-estar, bem-aventurança.
Todos os episódios da Bíblia relacionados com o
paraíso e com a vida de Adão e Eva e seus filhos adaptam-se perfeitamente a
esta hipótese. Senão, vejamos:
Comecemos pelo episódio da tentação da Eva e da
queda de Adão. Eva, como mulher, como pessoa encarregada de preparar a comida,
desacatando a recomendação de Deus, come o fruto proibido e dá-o a comer a
Adão. Logicamente, o que resultou daí? Falta de semente para a cultura do ano
imediato: o mal, a fome, a desgraça.
Quem convida a Eva a comer a semente? A serpente.
Porque a serpente e não outro animal? Porque a serpente é a constelação que
surge no firmamento, no hemisfério norte, justamente no fim da época da colheita
dos frutos.
Da ciência de guardar a semente depende o bom
êxito de toda a actividade agrícola. Se esta actividade trouxe noutras eras à
humanidade incalculáveis benefícios e lhe facilitou a vida, ela só foi
possível, confiando a entes sobrenaturais a conservação da semente. Não foi,
sem uma razão forte, poderosa, inteligente, que Deus recomendou a Adão que não
comesse os frutos da «árvore que está no meio do paraíso». Não é também sem um
objectivo definido que o agricultor balanta guarda a semente e a considera «tabú»,
enquanto não chegar a época da sementeira.
O paraíso bíblico só foi paraíso, enquanto a Eva
não cometeu o pecado - não comeu e deu a comer a Adão o fruto proibido: a
semente.
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Que o paraíso bíblico não é mais que a reprodução romantizada da actividade agrícola,
deduz-se da própria Bíblia, que o faz situar precisamente nos locais onde o
homem iniciou essa actividade, isto é, onde nasceram as primeiras
civilizações, onde, enfim, os clãs se congregaram em tribos e as tribos se
fundiram em núcleos nacionais: nos vales do Nilo, do Tigre e do Eufrates - no
Egipto, na Etiópia, na Caldeia e na Assíria.
É da
Bíblia o texto que se segue:
«Ora o senhor Deus tinha plantado, desde o
princípio, um «paraíso ou jardim delicioso, no qual pôs o homem que tinha forrnado.
Tinha também o senhor Deus produzido da terra toda a casta «de árvores formosas
à vista e cujo fruto era suave para comer e «a árvore da vida no meio do paraíso: árvore da ciência do bem e
do mal. Deste lugar de delícia saía um rio que regava o paraíso, e que dali
se divide em quatro canais: um se chama Fison (Nilo «superior) e este é o que
torneia todo o país de Elvilath, onde nasce o oiro (nas origens do Nilo ficavam
as minas de Salomão). E o oiro desta terra é excelente;
ali também se acha o bedélio e a pedra cornelina. E o segundo rio chama-se
Gehon (afluente do Nilo) e este é o que torneia todo o país da Etiópia. E o
terceiro rio chama-se Tigre, que corre para a banda dos assírios. E o quarto
destes rios é o Eufrates. Tomou, pois, o senhor Deus ao homem e pô-lo «no
paraíso das delícias, para ele o «HORTAR» e guardar».
Antes de serem descobertos os processos
agriculturais, a vida do homem era um inferno. O seu alimento dependia
unicamente da caça ou do gado domesticado. O homem deambulava peIa terra, em
busca da primeira ou dos pastos para o segundo, num corrupio incessante, sem
abrigos onde se acoitar, sujeito a inúmeros e súbitos perigos. Atente-se no
que seria a vida assim, sobretudo no Inverno, e no que se tornou depois, quando
o homem entrou na fase agrícola, e ter-se-á a convicção de que realmente o
paraíso bíblico é aquele que o homem alcançou, por graça de Deus, com a
modificação da sua actividade.
À agricultura
deve o homem o progresso e a civilização. Foi ela que lhe deu o conhecimento da
marcha do tempo: a data da sementeira, a da germinação, a da frutificação e a da colheita; o conhecimento da geometria,
pela necessidade de reconstituição das marcas delimitadoras das terras,
inutilizadas pelas grandes cheias que se verificavam nos vales do Nilo, do
Tigre e do Eufrates; e o conhecimento da astronomia e da astrologia, pela
constatação da influência de certos astros nas chuvas, nos ventos, nas cheias,
no tempo em geral.
Foi a agricultura que contribuiu para a melhoria
da existência dos povos. Sem agricultura a vida era um inferno; com ela passou
a ser um paraíso.
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Adão e Eva são os nossos longínquos ascendentes
agricultores. No período nómada, quando as sociedades humanas viviam em
formações conhecidas pela designação geral de «clãs»,
os ascendentes eram outros: talvez um animal, talvez uma planta, talvez
um feitiço. Com o advento do rnonoteismo, em plena fase agrícola, estes
ascendentes tiveram naturalmente de ser substituídos por figuras míticas mais
harmónicas com a crença incipiente. Manifestou-se assim a tendência para a sua
humanização. Deus, inspirando Moisés, deu corpo à doutrina: criou Adão e Eva. Adão e Eva são, pois, os «totens»
humanos da época moderna.
Adão vem do barro, porque é o
barro - a terra - que lhe dá condições de existência.
Para melhor vincar os dois períodos - o nomadismo
pastoril e o sedentarismo agrícola - a Bíblia personificou-os, dando aos filhos
de Adão e Eva as profissões de pastor e lavrador: Abel, pastor de ovelhas, e
Caim, agricultor.
Salientando a preferência dada pelo homem à vida
agrícola e a sua correspondente aversão pela vida pastoril, refere-se a Bíblia
ao desamor de Caim por Abel nestes termos:
«E Caim se irou fortemente e o seu semblante
descaíu. E o Senhor lhe disse: porque descaiu a tua face? Porventura se tu obrares
bem, não receberás recompensa? E se obrares mal, não estará logo o pecado
(desgraça) à porta?»
Depois conta que Caim matou Abel, o que quer dizer que a vida agrícola
triunfou, matando, eliminando a vida pastoril.
Porque o abandono total da vida pastoril não
constitui um bem para a humanidade,
visto que, em anos de crise, é ela que tem de fornecer os elementos
indispensáveis à existência, Deus assim
se dirige a Caim, recriminando-o:
«Onde está o teu irmão? Que fizeste? A voz do
sangue do teu irmão clama deste a terra por mim. Agora, pois, serás tu maldito sobre
a terra, que «abriu a boca e recebeu o sangue do teu irmão»
Foi abrindo a boca à terra, sulcando-a...
que se alimentou Abel! A terra abriu a boca - e o sangue de Abel correu!
Em conclusão:
A semente constitui para o agricultor balanta
«tabú», como «tabús» constituíram para os povos da antiguidade, simbolizados na
figura de Adão, seu antepassado longínquo, os frutos da «árvore que estava no
meio do paraíso: a árvore da ciência do bem e do mal».
O balanta guarda a semente como Deus disse a Adão que a guardasse.
O comportamento dos balantas é, pois, igual ao comportamento dos povos primitivos que se instalaram no
paraíso: nos vales do Tigre, do Eufrates e do Nilo.
Bissau,
15 de Outubro de 1951.
Fernando Rogado Quintino
Administrador