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23 de maio de 2012

489-História da Guiné-Bissau em datas

O Mário Beja Santos enviou-me este texto com a nota, que transcrevo, de quem lho terá enviado a ele:

Meus caros, 
Mandaram-me o documento anexo que tem algum interesse, apesar de incompleto. Na parte final, verifiquei também que existiam alguns erros. De qualquer forma, fazia falta para todos os que se interessam pela história da Guiné, uma cronologia. Este escrito, supre uma lacuna importante apesar de alguns defeitos. Eu próprio estou a trabalhar numa cronologia da Guiné-Bissau contemporânea, tarefa muito trabalhosa onde luto com uma notória falta de documentação. Necessitaria de toda a possível ajuda para levar este projecto por diante, ficando-vos muito grato se me indicarem possíveis pistas, para além do Google e dos livros que tenho em casa e que já estão super-consultados. Os anos do consulado de Luís Cabral(74-80) são muito importantes e é sobre esse período que tenho uma maior carência de elementos.

Já agora a introdução é perfeitamente dispensável.

Com um abraço

Francisco Henriques da Silva

Este documento, controverso e discutível, em minha opinião, nas interpretações históricas que faz nos parágrafos iniciais, tem, como diz o Francisco Henrique da Silva, o mérito da elaboração de uma resenha cronológica da história dos povos da Guiné.



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22 de maio de 2012

488-A guerra colonial e o fim do regime

É na próxima 5ª feira, na Livraria Círculo das Letras, Rua Augusto Gil, 15B, em Lisboa (transversal da Av. João XXI)

487-Marcas da guerra colonial


«Compêndio» da Guerra
está de volta às livrarias


O livro MARCAS DA GUERRA COLONIAL voltou aos escaparates, vítima involuntária de um processo de insolvência em que a sua editora se viu envolvida durante os últimos três anos.

As “Marcas”, da autoria de Jorge Ribeiro, permaneceram – em conjunto com todos os títulos da Editora Campo das Letras – fora dos circuitos de comercialização por ordem judicial e enquanto o processo não foi concluído.

A partir de agora, os exemplares em stock podem ser adquiridos em Lisboa, na Livraria Círculo das Letras, à Rua Augusto Gil, 15 B (ao Campo Pequeno), telf: 210938753 livraria@circulodasletras.pt, e no Porto na Livraria da UNICEPE, na Praça de Carlos Alberto, 128 (esquina com a Praça dos Leões), telf: 222056606 Unicepe@net.novis.pt.

“Marcas da Guerra Colonial” (1999) foi objecto de duas edições, e revelou-se cedo uma fonte extraordinária de consulta para o estudo da guerra em África, referência em inúmeros trabalhos académicos e na Imprensa. Um antigo ministro da Educação, Marçal Grilo, chegou a considerar as “Marcas” como obra imprescindível nas bibliotecas escolares.

Segundo o escritor Jorge Ribeiro, «as Marcas abordam questões pouco discutidas, aprofunda outras com dados nunca revelados, e recolhe um vasto leque de opiniões de figuras da nossas História recente, capazes de facilitar um juízo mais claro e correcto do que foi a empresa de guerra que o colonialismo português produziu no Ultramar».

Capítulos: «Os Dias da Raça», «Os Estropiados», «As Doenças», «As Tropas Auxiliares», «As Mulheres na Guerra», «A Igreja e a Guerra», «A Guerra Química», «Os Crimes de Guerra», «O Natal do Soldado», «As Canções da Guerra», «A Camaradagem».

21 de maio de 2012

486-Buba



Eram os tempos da Guerra pela Independência para a GUINÉ Bissau, ( Guerra Colonial chamada em todo Mundo ). Foi também a primeira vez que peguei numa máquina de filmar, ( o formato ainda era 8mm). Eu tinha estado muito tempo a prestar serviço na cidade Capital, Bissau, e praticamente só conhecia a Guerra de ouvir falar. Aqui, em Buba, no Sul, soube melhor o que era a Guiné daqueles tempos, incluindo a experiência extrema, inenarrável, do que é, do que foi estar debaixo de fogo de morteiro horas a fio. Constroem-se " filmes " à velocidade da luz, e com a banda sonora mais horripilante que pode haver, comparativamente com tudo o que me é dado conhecer.
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20 de maio de 2012

485-Comportamento dos agricultores balantas


Segundo a Bíblia, Deus ordenou a Adão que comesse todos os fmtos das árvores do paraíso, mas não da «árvore que está no meio: a árvore da ciência do bem e do mal. Esta árvore não pode ser senão a árvore produtora da semente. Com efeito, conforme se come ou não a semente, assim se adquire a ciência do mal ou do bem. Comendo-a, não se pode agricultar no ano seguinte e há consequentemente fome, des­graça e infortúnio; não a comendo, há a possibilidade da cultura, da reprodução: felicidade, bem-estar, bem-aventurança.
Todos os episódios da Bíblia relacionados com o paraíso e com a vida de Adão e Eva e seus filhos adaptam-se perfeitamente a esta hipó­tese. Senão, vejamos:
Comecemos pelo episódio da tentação da Eva e da queda de Adão. Eva, como mulher, como pessoa encarregada de preparar a comida, desacatando a recomendação de Deus, come o fruto proibido e dá-o a comer a Adão. Logicamente, o que resultou daí? Falta de semente para a cultura do ano imediato: o mal, a fome, a desgraça.
Quem convida a Eva a comer a semente? A serpente. Porque a ser­pente e não outro animal? Porque a serpente é a constelação que surge no firmamento, no hemisfério norte, justamente no fim da época da colheita dos frutos.
Da ciência de guardar a semente depende o bom êxito de toda a actividade agrícola. Se esta actividade trouxe noutras eras à humanidade incalculáveis benefícios e lhe facilitou a vida, ela só foi possível, con­fiando a entes sobrenaturais a conservação da semente. Não foi, sem uma razão forte, poderosa, inteligente, que Deus recomendou a Adão que não comesse os frutos da «árvore que está no meio do paraíso». Não é também sem um objectivo definido que o agricultor balanta guarda a semente e a considera «tabú», enquanto não chegar a época da sementeira.
O paraíso bíblico só foi paraíso, enquanto a Eva não cometeu o pecado - não comeu e deu a comer a Adão o fruto proibido: a semente.
                                                                             *
                                                                     *                  *
Que o paraíso bíblico não é mais que a reprodução romantizada da actividade agrícola, deduz-se da própria Bíblia, que o faz situar preci­samente nos locais onde o homem iniciou essa actividade, isto é, onde nasceram as primeiras civilizações, onde, enfim, os clãs se congregaram em tribos e as tribos se fundiram em núcleos nacionais: nos vales do Nilo, do Tigre e do Eufrates - no Egipto, na Etiópia, na Caldeia e na Assíria.
É da Bíblia o texto que se segue:
«Ora o senhor Deus tinha plantado, desde o princípio, um «paraíso ou jardim delicioso, no qual pôs o homem que tinha for­rnado. Tinha também o senhor Deus produzido da terra toda a casta «de árvores formosas à vista e cujo fruto era suave para comer e «a árvore da vida no meio do paraíso: árvore da ciência do bem e do mal. Deste lugar de delícia saía um rio que regava o paraíso, e que dali se divide em quatro canais: um se chama Fison (Nilo «superior) e este é o que torneia todo o país de Elvilath, onde nasce o oiro (nas origens do Nilo ficavam as minas de Salomão). E o oiro desta terra é excelente; ali também se acha o bedélio e a pedra cornelina. E o segundo rio chama-se Gehon (afluente do Nilo) e este é o que torneia todo o país da Etiópia. E o terceiro rio cha­ma-se Tigre, que corre para a banda dos assírios. E o quarto destes rios é o Eufrates. Tomou, pois, o senhor Deus ao homem e pô-lo «no paraíso das delícias, para ele o «HORTAR» e guardar».
Antes de serem descobertos os processos agriculturais, a vida do homem era um inferno. O seu alimento dependia unicamente da caça ou do gado domesticado. O homem deambulava peIa terra, em busca da pri­meira ou dos pastos para o segundo, num corrupio incessante, sem abri­gos onde se acoitar, sujeito a inúmeros e súbitos perigos. Atente-se no que seria a vida assim, sobretudo no Inverno, e no que se tornou depois, quando o homem entrou na fase agrícola, e ter-se-á a convicção de que realmente o paraíso bíblico é aquele que o homem alcançou, por graça de Deus, com a modificação da sua actividade.
À agricultura deve o homem o progresso e a civilização. Foi ela que lhe deu o conhecimento da marcha do tempo: a data da sementeira, a da germinação, a da frutificação e a da colheita; o conhecimento da geome­tria, pela necessidade de reconstituição das marcas delimitadoras das ter­ras, inutilizadas pelas grandes cheias que se verificavam nos vales do Nilo, do Tigre e do Eufrates; e o conhecimento da astronomia e da astrologia, pela constatação da influência de certos astros nas chuvas, nos ventos, nas cheias, no tempo em geral.
Foi a agricultura que contribuiu para a melhoria da existência dos povos. Sem agricultura a vida era um inferno; com ela passou a ser um paraíso.
                                                                         *
                                                                     *        *

Adão e Eva são os nossos longínquos ascendentes agricultores. No período nómada, quando as sociedades humanas viviam em formações conhecidas pela designação geral de «clãs», os ascendentes eram outros: talvez um animal, talvez uma planta, talvez um feitiço. Com o advento do rnonoteismo, em plena fase agrícola, estes ascendentes tiveram natu­ralmente de ser substituídos por figuras míticas mais harmónicas com a crença incipiente. Manifestou-se assim a tendência para a sua humaniza­ção. Deus, inspirando Moisés, deu corpo à doutrina: criou Adão e Eva. Adão e Eva são, pois, os «totens» humanos da época moderna.
Adão vem do barro, porque é o barro - a terra - que lhe dá con­dições de existência.
Para melhor vincar os dois períodos - o nomadismo pastoril e o sedentarismo agrícola - a Bíblia personificou-os, dando aos filhos de Adão e Eva as profissões de pastor e lavrador: Abel, pastor de ovelhas, e Caim, agricultor.
Salientando a preferência dada pelo homem à vida agrícola e a sua correspondente aversão pela vida pastoril, refere-se a Bíblia ao desamor de Caim por Abel nestes termos:
«E Caim se irou fortemente e o seu semblante descaíu. E o Senhor lhe disse: porque descaiu a tua face? Porventura se tu obrares bem, não receberás recompensa? E se obrares mal, não estará logo o pecado (desgraça) à porta?»
Depois conta que Caim matou Abel, o que quer dizer que a vida agrícola triunfou, matando, eliminando a vida pastoril.
Porque o abandono total da vida pastoril não constitui um bem para a humanidade, visto que, em anos de crise, é ela que tem de forne­cer os elementos indispensáveis à existência, Deus assim se dirige a Caim, recriminando-o:
«Onde está o teu irmão? Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama deste a terra por mim. Agora, pois, serás tu maldito sobre a terra, que «abriu a boca e recebeu o sangue do teu irmão»
Foi abrindo a boca à terra, sulcando-a... que se alimentou Abel! A terra abriu a boca - e o sangue de Abel correu!
Em conclusão:
A semente constitui para o agricultor balanta «tabú», como «tabús» constituíram para os povos da antiguidade, simbolizados na figura de Adão, seu antepassado longínquo, os frutos da «árvore que estava no meio do paraíso: a árvore da ciência do bem e do mal».
O balanta guarda a semente como Deus disse a Adão que a guardasse.
O comportamento dos balantas é, pois, igual ao comportamento dos povos primitivos que se instalaram no paraíso: nos vales do Tigre, do Eufrates e do Nilo.

Bissau, 15 de Outubro de 1951.

Fernando Rogado Quintino
Administrador

19 de maio de 2012

484-As crenças dos povos da Guiné-PARTE II

Inteligente desmontagem dos preconceitos dos brancos para com as crenças dos povos da Guiné - B) O FEITICISMO DOS BRANCOS. É de 1949, tem mérito.(Ver aqui a PARTE I deste artigo) 
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17 de maio de 2012

482-As crenças dos povos da Guiné-PARTE I

Explicação das crenças dos povos da Guiné, e a sua prática. Fernando Rogado Quintino começa por nos dar uma panorâmica do aparecimento das várias crenças entre os povos da antiguidade, ligando-as, até, a muitas das crenças e simbologias do cristianismo. Homem culto, nesse aspecto, e homem interessado na compreensão dos povos que ele bem conheceu na Guiné.
(Ver aqui a PARTE II deste artigo)
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15 de maio de 2012

480-A Viagem do Tangomau

«A Viagem do Tangomau»
Lançamento em 19 de Junho,18:30, no Museu da Farmácia, Rua Marechal Saldanha, 1, em Lisboa



13 de maio de 2012

479-A escola de Samba Culo


Região do Oio>Mata do Oio> Zona de Tambicó - Samba Culo
Este Banquinho da Nova Escola de Samba Culo, trazido em 29-03-2010 por Carlos Silva – ex-combatente, representa e simboliza a Escola de outrora existente algures na zona onde se deu a batalha aqui narrada e onde morreram vários combatentes, incluindo a Professora, guerrilheira do PAIGC
Foto Carlos Silva

 Fui mandado e disseram-me antes: Que é assim, vais ter que matar e até podes morrer, pode suceder, depende de ti.
Não me convenci disso, porque nunca na minha vida tinha querido matar alguém e nunca quis morrer, sempre desejei viver.
E, já lá na guerra, fui vendo alguns morrerem sem que quisessem, só porque tinham sido enviados para aquela operação, só porque os colocaram naquele posto ou naquela viatura, não dependeu deles.
Eu, como quase todos, disparei muito a G3 em operações e emboscadas, mas nunca soube se ficou alguém morto por mim no meio daquela mata ou atrás daquelas árvores. A maior parte das vezes nem os víamos.
Mas, naquelas operações “Inquietar” para tomar a base que o PAIGC tinha em Samba Culo [o comandante era Braima Bangura, que foi fuzilado por Nino Viera depois do golpe de 1980], verifiquei, infelizmente, que era assim como me tinham dito.
Foram duas companhias de intervenção e o meu pelotão, da companhia de quadrícula, foi-lhes agregado.


Região do Oio>Mata do Oio> Zona de Tambicó - Samba Culo, 29-03-2010
A nova Escola construída com o apoio do Padre Carlo Andolfi da Missão Católica de Farim
Foto Carlos Silva

 A “Inquietar I”, de 9 a 13 de Junho de 1967, não correu bem.

As primeiras emboscadas fizeram-na à companhia da frente. Dei indicação ao meu pelotão, que estava a meio, que entrasse pela mata para fazer um envolvimento.
Fui á frente e, a certa altura, disse-me o Lamine, meu guarda-costas, “estão ali turras”. E estavam lá. Apontei, sempre fui bom atirador, mas, horror em matar, apontei baixo e acertei na perna dum deles. Corremos, mas eles fugiram arrastando o ferido.
Complicada aquela mata. Foram três dias de marchas entre árvores e várias emboscadas. No terceiro dia encostaram-nos ao rio Canjambari. Dizendo-me o capitão comandante da operação:
Ó Lopes, tenho aqui os meus homens organizados, vá você ver se fura o cerco.
Lá fui, vi um e disparei, ouvi-o gritar “o cú” [não o matei pensei], mas levei porrada e voltei para trás.
Passado tempo disse-me para ir tentar novamente. Fui e de novo levei porrada, com a agravante de um soldado meu ter levado um tiro nas costas, dos do capitão, que também começaram a disparar.
Disse-lhe não vou mais, é melhor chamar os T6.
Vieram, despejaram umas bujardas à volta e lá nos safámos. 

A seguir, a “Inquietar II”, de 4 a 7 de Julho, com os mesmos.


Região do Oio> Zona de Tambicó-Samba Culo>Uma sala da Nova Escola, cujo equipamento utilizado é o que está à vista , 29-04-2009 Foto Carlos Silva

 Não foi diferente quanto às andanças na mata e às várias emboscadas, mas houve alguns feridos nossos desta vez.
O Comandante, ao terceiro dia, optou por nova táctica: deixar uma companhia a levar porrada a sul da base e, à socapa, a mata era cerrada, foi com a dele mais o meu pelotão para oeste, virando para norte e atacando pelo lado do rio Canjambari.
Entrámos de repente, o grosso deles estava entretido com a outra Companhia, havia lá três ou quatro que tentaram reagir mas foram abatidos pela Companhia, o meu pelotão entrou por uma barraca coberta de colmo.
Estava lá uma rapariga que agarrou numa kalashnikov.
Gritei-lhe “tá quieta, firma lá!”. Mas ela apontou-me a arma. Despejei-lhe uma rajada na barriga, caiu no chão.
Fiquei primeiro estático a olhar para ela, era bonita.
Virei-me, mandei a G3 para o chão e gritei furioso “Merda!”. Os meus soldados olharam para mim espantados. Um furriel disse-me: “Olhe que ela matava-o”
Havia várias carteiras, à minha frente um quadro preto com um desenho a giz branco de um vaso de flores. Por baixo tinha escrito, também a giz branco, “Um vaso de flores”.
Dei depois com o 1º cabo P… em cima da rapariga agonizante e a levantar-lhe o vestido.
Ainda a tremer fui-me a ele, dei-lhe um murro e uns pontapés:
“Eu dou cabo de ti, grande cabrão!” [coitado, o Gazela matou-o, mais tarde, em Sinchã Jobel].
Veio o Capitão, olhou para tudo, disse que era preciso ir fazer uma revista àquilo tudo, que os gajos tinham largado a outra Companhia, tinham-se pirado.
Vi o guia ao pé dele e perguntei-lhe se sabia quem era aquela rapariga que jazia ali no chão.
É a professora, Abess, disse-me ele.
Encontrámos muita coisa. Ao sairmos pegámos fogo a um armazém de munições, que esteve a rebentar durante vários minutos enquanto nos afastámos.
Aquela morte que sei, não me tem saído da cabeça……

 
Região Oio>Mata do Oio> Zona de Tambicó - Samba Culo, 29-03-2010. Foto Carlos Silva

 [Romagem do Autor em ficção ao trágico local] 

Ali estava ela, jovem e bela como a conheci há trinta anos, mas agora com um olhar calmo e um sorriso nos lábios, vi-a na expectativa do meu abraço. E abracei-a... e chorei.
Professora, este jovem é o Cinco, que me trouxe de jeep até aqui, e este é o Blétch Intéte, filho da siguê[1] dos balantas de Barro.
O outro teu patrício, homem-grande[2], é o Cacuto Seidi, chefe da tabanca[3] de Barro. Foi ele que me disse que o Blétch Intéte tem irã[4] e que só ele podia fazer com que eu te encontrasse.
A minha chegada aqui, há trinta anos, [1967] foi muito diferente, como deves calcular, e não me refiro, evidentemente, às razões de cada uma das viagens.
Desta vez, assim que pisei o aeroporto Osvaldo Vieira[5], tive de levar as mãos ao peito para que o coração não me abandonasse.
Por mais esforços, por mais conversas apaziguadoras, durante as quatro horas que durou a viagem, não consegui acalmá-lo nem convencê-lo de que era preciso dominar a ansiedade e moderar os desejos de ti.


Região do Oio>Mata do Oio> Zona de Tambicó-Samba Culo>Escola de Samba Culo, 18-03-2009
Eram assim, ou pior ainda, as escolas e casas de mato onde os guerrilheiros se acoitavam, nos anos 60/70 – Na Foto: Carlos Silva; Prof Calabus Ferreta e o Ussumane Seik, Comando DFA

Perdido, cego de alegria e paixão, chegara a hora da realização do sonho de vários anos, depois de desvanecidos todos os fantasmas, é claro, porque, quando saí daqui a primeira vez, evacuado para o hospital, este coração estava enraivecido com vocês todos, que me tinham ferido e matado amigos meus.
Passados nove meses, aqui voltei, para continuar na guerra, é verdade, ainda confuso mas já sem ódio e desejoso de entender o que se passava.


Região do Oio> Zona de Tambicó-Samba Culo>Local da ex-Escola de Samba Culo, 29-04-2010

Foi nessa minha fase, Professora, que nos conhecemos, quando dei contigo na tua escola de Samba Culo, naquela manhã de 7 de Julho.
Da segunda vez que abandonei a Guiné e deixei a guerra, a minha vontade e empenho foi esquecê-la, varrer-vos a todos da minha memória, lavar as marcas do sangue dos meus amigos, do meu próprio, e também do vosso, banir o medo e o cansaço que se me entranhara na alma ao percorrer as matas deste chão que, agora, vê lá!, reguei com lágrimas de alegria e de saudade consolada.
Para aqui chegar, frequentei bares e prostitutas, acumulei sessões contínuas no Olímpia[6], fui estudante mas nunca acabei cursos, percorri a Europa, estive em Paris, no Quartier Latin das minhas leituras, Londres, vi a Royal Guard e a rainha, Roma, não vi o Papa porque estava de férias em Castelgandolfo, e vê lá que me atrevi a passar a cortina de ferro, em Praga, Moscovo, onde namorei uma soviética na Praça Vermelha, a tchetchena Aniuska, Leninegrado e Kiev, fui activista sindical e militante político, participei em primeiros de Maio, fiz trabalhos clandestinos e levei porrada da polícia, dormi em esquadras, casei-me, fiz filhos e apanhei bebedeiras, bati nos filhos e descasei-me, conheci muitas mulheres, fiz amor por todo o lado, levei muitas negas e passei noites de solidão, dormi em bancos de jardim e debaixo de árvores, mas nunca te esqueci, não houve prazer-anfetamina que cauterizasse esta memória em carne viva nem bebida que a afogasse, cansei-me da vida, como me cansara antes para não morrer, e pensei em matar-me. Mas, olha, não consegui, não por causa de Deus, pois nesse período nunca fui à missa e nunca me confessei. Não o fiz porque tinha começado a amar-te e não queria morrer sem voltar a ver-te, sem deixar de to dizer.
Está a ficar noite e tenho três horas para chegar a Bissau.
Cinc, prépare le jeep, nous en allons tout de suite.
Sabes, professora, porque é que o meu condutor se chama Cinco?
Nasceu no dia 5 de Maio e é o quinto filho de sua mãe, que decidiu dar-lhe esse nome tão significativo.
Não, não te preocupes que ele não percebeu nada da nossa conversa, além do crioulo só sabe francês, pois frequentou apenas uma escola em Dakar.
É que, professora, nasceu há 23 anos, muito depois daquele dia em que tive de te abrir o ventre com uma rajada de G3 por te ver empunhar a kalash que tinhas pendurada no quadro da escola.
Ele não estava aqui entre os teus meninos. Se tivesse estado, saberia falar e escrever português, com certeza.
Sei que foste uma boa professora.
Vi que escrevias no quadro as palavras com o desenho correspondente para os teus alunos identificarem bem em português os objectos do seu dia-a-dia.
Vi os livros por onde aprendiam a ler.
vi os cadernos de redacção e de cópias.
Está descansada, não matei nenhum deles, garanto-te. Devem estar por aí, cidadãos do teu país.
Tenho de partir, de voltar a Portugal.
Gostei muito de falar contigo, tinha mesmo necessidade de o fazer, já que, naquele dia em que nos encontrámos pela primeira vez, só eu te disse “firma lá!”[7] e tu não me disseste nada. Percebo que nem me quisesses ouvir...
E nunca mais dormi descansado até agora.
Quero pedir-te uma última coisa, que desculpes aquele meu soldado que tentou violar-te quando estavas agonizante. Conseguiste ver ainda que não o deixei fazer isso. Perdoa-lhe, era bom rapaz, um camponês minhoto que para aqui foi lançado e, sabes, é fácil perder a cabeça numa guerra de inimigos fabricados. Talvez o encontres por aí, o teu camarada Gazela matou-o em Jobel e o corpo dele por cá ficou.Deve andar, como tu, no meio desta floresta do Oio.
Fala com ele agora.



[1] Feiticeira tribal
[2] Homem idoso, respeitável, aceite como autoridade pelos mais novos da povoação.
[3] Povoação.
[4] “Irã”, entre os balantas, que são animistas, é qualquer ser da natureza, árvore ou animal, ou qualquer objecto a que é atribuído poder mágico. «Tem irã» significa ter poder sobrenatural que é preciso respeitar e temer.
[5] Aeroporto de Bissau, a que foi dado o nome de Osvaldo Vieira, herói do PAIGC, morto durante a guerra de libertação.
[6] Cinema popular na Rua dos Condes, em Lisboa.
[7] Está quieta aí!

6 de maio de 2012

478-O último "Boletim Cultural da Guiné Portuguesa8

Foi este. Era uma publicação trimestral e, por isso, tem a data de "Abril de 1973". No entanto, um dos articulistas, o padre franciscano Henrique Pinto Rema, aponta no final da sua resenha: "Prefeitura Apostólica, em Bissau, 8 de Outubro de 1973". É evidente, pois, que, embora com  data de Abril, só terá saído depois desta data. Saíra um (109) em Janeiro, deveria sair um outro em Julho. Com a situação militar difícil vivida na Guiné compreendem-se as dificuldades, bem visíveis na feitura deste boletim, o que já era evidente também nos boletins anteriores.

O primeiro articulista relata-nos como era feito o controlo do paludismo em várias localidades perto de Bissau (Prábis, Safim e Quinhamel), porque, naturalmente, não seria possível ir fazê-lo mais longe. Inicia o seu trabalho com uma exposição técnica sobre o paludismo e a caracterização climática e social da Ilha de Bissau (4 páginas). Relata, depois, os trabalhos realizados por outros em 1948 e 1953, e um seu em 1966 e aquele a que se refere o artigo, iniciado em 1971, virado especialmente para a captura de mosquitos e sua análise. Tem alguma fotografias sem indicação dos locais onde foram tiradas e sem indicação de datas. Era um especialista, é verdade, era o chefe dessa missão. Mas era também um político afecto ao regime, natural que se empenhasse por ele (pesquisei na internet):
Vem depois um artigo sobre a técnica de como engendrar uma ficção literária. Genérico, sem nada a ver com a Guiné nem com a literatura colonial (22 páginas). O seu autor é Manuel Lopes, escritor e ensaísta natural de S. Vicente, Cabo Verde.
Há também um artigo do padre António Ambrósio, missionário em S. Tomé e Príncipe, sobre Costa Alegre, um poeta africano dessas ilhas.
Quer o texto deste quer o de Manuel Lopes foram extraídos de outras publicações, não eram especialmente feitos para o boletim.
Fala da Guiné o padre franciscano Henrique Pinto Rema, que penso ser, nesta altura, o único dinamizador do boletim, porque se mantinha lá como disse acima. Estava lá há muitos anos e era, também há muito tempo, da Direcção do BCGP. O seu é um extenso texto (118 páginas), como outros publicados em edições anteriores, sobre as missões franciscanas na Guiné. Tem uma parte interessante sobre "As missões da Guiné na conjuntura da guerrilha" (ver aqui). Também sinal das dificuldades da altura são as fotografias que apresenta: da visita a uma missão perto de Bissau feita por Américo Tomás em 1968, de uma visita do Governador Arnaldo Schultz a outra, com o Prefeito Apostólico e o Secretário-Geral da Província, em 1967. Não dava, se calhar, para os governantes dos últimos anos andarem em vistas destas...
Vêm no final os habituais: Cónica da Província,  Economia e Estatística,  Publicações Diversas, Movimento da Biblioteca Nacional.
Quanto à "Crónica da Província" há coisas interessantes:

Isto é, foi um padre porque, parece, nenhum "civil" havia ou se atreveu a vir para a Guiné ocupar aquele cargo. De facto, este aguentava-se lá. Ele próprio o disse na sua intervenção:


Uma outra notícia da "Crónica":
Fui ver quem seriam estas raparigas. 
Não encontrei nada da Sacardandó. Palpitou-me que seria libanesa, ou coisa do género. 
Quanto à eleita "Rapariga Ideal da Guiné", Maria José Matamouros Resende Costa, descobri que era médica no Brasil. Porquê não sei. Mas fui ver mais. E vi, no trabalho do Leopoldo Amado "Da Embriologia Nacionalista" que, quando Cabral iniciou o movimento de erradicação do sistema colonialista, foi assinalado "o facto de no grupo de Benjamim Correia haver um branco de nome Luís Mata-Mouros Resende Costa, de 36 anos de idade, natural de Bissau,  que era encarregado de tratar de vários assuntos relativos ao grupo Benjamim Correia, disfarçados em um grupo associativo com uma comissão directiva, tendo justamente como Secretário o Luís Mata-Mouros Resende Costa." Não consegui saber se essa Maria José era filha desse Luís, do qual não consegui saber mais nada, mas penso que deveria ser da família dele, uma vez que também era natural da Guiné. Quem seriam os elementos do júri, que não tiveram em conta que essa rapariga era de família oposicionista? Na situação, seria normal (ou não?) que tivessem isso em conta. Mas não sei quem eram.
Vi no blogue do Didinho que a Isabel Maria Garcia de Almeida (Bélita) é nutricionista, com acção na Guiné-Bissau, mas com muitas queixas:
«Não pude evitar olhar para o meu próprio umbigo e recuar 34 anos. Lembrei-me em particular do meu pai, da desagregação da minha família nuclear original e “da minha solidão” no chão da Guiné. Foi devido à intolerância, mesquinhez e barbárie que o meu pai foi arbitrariamente preso em 1975, durante quase 3 anos, sem culpa formada e libertado sem nunca se ter provado as acusações de que fora alvo...
Para fugir à perseguição após a soltura,  viu-se obrigado a emigrar para Portugal com toda a família... menos as 2 filhas. Tinha eu 19 anos na altura e a minha irmã 17. Acreditávamos que tudo não passava de equívocos, de custos às vezes inevitáveis de um pós-guerra.
Tivemos o atrevimento e a ousadia de sonhar com a possibilidade de assumir a nossa quota-parte de responsabilidade e participar de corpo e alma, na construção de um futuro de justiça e desenvolvimento para as gerações vindouras, com o risco de ruptura com a restante família, o meu pai em particular, que nos rotulava de “aliadas dos seus inimigos”. Com o tempo, mesmo sem nunca ter compreendido as nossas motivações, acabou por se resignar, aceitar e respeitar a nossa escolha…
A morte ceifou a vida à minha irmã muito cedo, aos 27 anos de idade e eu continuei a dar o meu máximo para a paz e a prosperidade deste chão querido, assim como o gozo de cidadania plena, transmitindo esse mesmo espírito aos meus filhos e a todos os jovens com que cruzo na minha vida, e não só…
Se por um lado construí a minha própria família,  por outro, continuei a sentir-me sempre só,  órfã de pai, de mãe, de irmãos...
Apesar de longe, o meu pai “foi perseguido até à morte pelo percurso político da Guiné-Bissau”. Aos 40 anos de idade os traumas da prisão impediram-lhe de continuar a levar uma vida familiar, social e economicamente activas.
Sem que se lhe conhecessem antecedentes cardíacos, 30 (trinta) anos depois de ter saído da Guiné, 20 (vinte) dias após a eclosão da guerra de 98, sucumbe, relativamente novo, aos 62 anos de idade,  a um ataque cardíaco, quiçá fruto das recordações e emoções provocadas pelas imagens dos horrores da guerra apresentados a todo o mundo através da televisão.» ? Penso, pelo que ela diz, que o seu pai não seria do agrado dos "combatentes da liberdade da pátria".
Quanto à Maria Munira Jauad, tem uma empresa familiar na Guiné-Bissau, a RUMU, «criada em 1996 e que chegou a ter um volume de negócios superior a 1 milhão de dólares entre o período 1996-1998 graças á exportação de grandes quantidades de castanha de cajú.
Com início da guerra civil, coube aos empresários guineenses de financiar o conflito armado, sendo que como consequência da instabilidade política acabaram por ver as suas produções saqueadas. A partir do fim da guerra a Rumu começou a retomar o seu negócio maioritariamente com empresários indianos e a partir de 2003 voltou a poder financiar-se em consequência do regresso do sector bancário ao país. 
Após uma pausa na minha actividade empresarial entre 2006 e 2011 – durante a qual desempenhei funções de Embaixadora da Guiné-Bissau na Gâmbia – voltei a reabrir actividade, direcionando-me para a exportação de manga e de castanha de cajú, áreas de negócio que têm vindo a ser apoiadas por alguns programas de desenvolvimento. Queremos posicionar a nossa exportação para os mercados Europeu e Americano.»
Quanto à família desta, de ascendência indiana, parece, estaria nas boas graças dos que ganharam a independência.
Não consegui saber nada sobre a última classificada, Antónia de Pádua Gomes Semedo. No entanto, como as famílias Gomes (como o actual Primeiro-Ministro golpeado) e Semedo (o engenheiro Júlio Semedo, por exemplo) estão ligadas à luta de libertação, talvez ela pertencesse a essas famílias, não sei.
O que quero dizer é que me parece que o júri, para escolher a "Rapariga Ideal da Guiné", não se terá preocupado, nem procurado ter em conta, sobre os eventuais ventos políticos pairantes sobre essas famílias. O que não era normal. Sinais da situação e das perspectivas futuras? Talvez. Mas teve em conta outra coisa, e isso é evidente: nenhuma rapariga do Pilão nem nenhuma bajuda do mato. Mas percebe-se: estas só terão brilhado nas provas práticas, nas teóricas não.

E uma surpresa: circo na Guiné:
Em Bissau acredito. Mas "no interior da Província"  em "digressão por terras da Guiné" tenho dúvidas. Para não dizer que não acredito. Se alguém tiver visto esse circo que diga, agradeço.

E o desporto:

É evidente que todas estas provas se realizaram em Bissau.
No tiro aos pratos palpita-me que não esteve lá nenhum habituado ao "tiro aos turras". Ainda por cima era de iniciados...
Nas corridas e saltos, no Torneio de Atletismo, devia ser a "camada estudantil" de Bissau, especialmente do Liceu Honório Barreto.
Quanto à "deslocação do Boavista à Província", limitou-se a estes jogos "em terras da Guiné": selecção da Guiné e Sporting Clube de Bissau. Nem é referido que jogou com o UDIB e o Benfica de Bissau. Mas talvez, admito. Já não acredito que fossem a Mansoa defrontar o Clube de Futebol Os Balantas.
Campeonato "Provincial" de Futebol - Havia o Benfica de Bissau, o Sporting Clube de Bissau, a União Desportiva Internacional de Bissau, o Ténis Clube de Bissau e o Clube de Futebol Os Balantas. Era capaz de haver outros mas não sei. Não sou bom a fazer contas em futebol, mas parece-me que, tendo sido feitos 14 jogos, Os Balantas não entraram neste campeonato. Seria difícil estes deslocarem-se a Bissau e muito mais os outros irem a Mansoa. Se alguém souber mais destas contas que me diga.


Quem assina a "Crónica da Província" é Alfredo Garrido Ferreira, que assina também a tabela das leituras feitas na "Biblioteca Nacional" como seu Director, e que diz ser Professor do Ensino Secundário, no Liceu Honório Barreto naturalmente. Mais um sinal das dificuldades de gente para estas tarefas.


Dificuldades que já vinham de antes:

5 de maio de 2012

477-Missão cumprida em "resort"


Guiné-Bissau: Militares portugueses cumprem missão em resort de Cabo Verde





Cenário de férias das tropas portuguesas no Sal deixa turistas perplexos

Emília Monteiro e Rafael Barbosa – Jornal de Notícias, com foto

Parte do contingente militar destacado para a eventual missão de resgate de portugueses na Guiné-Bissau está alojado, há três semanas, num resort turístico de quatro estrelas em Cabo Verde.

A situação deixou perplexos turistas em férias na ilha do Sal, mas as Forças Armadas garantem que a situação é normal, quando não existem instalações militares adequadas para alojar as tropas. "Foi uma surpresa estar no mesmo hotel do contingente de militares", testemunha um turista, hospedado no Belorizonte, o melhor resort da ilha do Sal, segundo informação veiculada por agências de viagem.

Os militares integram a Força de Reação Rápida (FRI) que partiu para a região na sequência do golpe de Estado na ex-colónia. A FRI, que ontem recebeu ordem - depois dos contactos do JN - para começar a regressar (ler texto em baixo) é composta pelas fragatas Corte Real e Bartolomeu Dias, a corveta António Enes (com as respetivas guarnições e fuzileiros a bordo) e o avião de reconhecimento P-3 Orion.

São 36 os militares afetos à aeronave que estão alojados no resort, situado na primeira linha de mar, perto de Santa Maria. Em sites de marcação de viagens e estadias, o preço diário por pessoa apontava, ontem, para 82 euros (bungalow) ou 113 (quarto).

Os militares garantem, contudo, que foram negociadas tarifas favoráveis, que reduzem o preço para metade. Contactado pelo JN, o Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA), do qual depende a FRI, alega que a opção pelo Belorizonte se justifica por ser o único capaz de preencher requisitos de "proximidade, segurança e qualidade". Foi preciso garantir o fornecimento de "food packs" para os voos, que duram 12 horas, e a disponibilização de reforços alimentares para períodos noturnos e de refeições "fora das horas convencionais".

"São muitos, passam o dia na praia, na piscina ou a fazer passeios de jipe e a pé", testemunha uma turista que entretanto regressou a Portugal. "Fazem tudo o que os outros turistas fazem. Mas nós fomos a Cabo Verde com viagens pagas com o nosso dinheiro e estes militares estão a receber o salário pago pelo Estado e ainda têm todas as despesas.

O EMGFA desvaloriza a perplexidade dos turistas e garante que existe uma intensa atividade operacional de que poderão não se aperceber. A operação inclui, além de prolongados voos de reconhecimento noturnos, rotinas como "preparação das missões, tratamento dos dados recolhidos e manutenção da aeronave".

Relativamente ao uso da piscina, às idas à praia ou as festas no hotel, admite o EMGFA, em resposta escrita ao JN, que os militares "podem ocupar o seu tempo livre nas atividades que entenderem, desde que garantam a disponibilidade adequada à missão e adotem comportamentos de acordo com a condição de militar".

Confrontado com imagens de festa a que o JN teve acesso, o esclarecimento nota que é uma "situação comum no hotel; o grupo de dança, após os espetáculos diários, disponibiliza-se para que, a título de recordação, os presentes tirem fotografias de grupo". A imagem em causa terá sido feita, aliás, no final da festa de aniversário de um dos elementos da missão.

Segundo os relatos que chegaram ao JN, o contingente português não se limita à participação nas festas promovidas pelo Hotel Oásis Atlântico Belorizonte. São frequentes as deslocações a bares e discotecas muito procurados pelos turistas da ilha do Sal - seja o Salinas, seja o Pirata, por exemplo. E muitos dos militares exibem, além de pulseiras vermelhas, que sinalizam o facto de serem clientes em regime de pensão completa no resort, outras pulseiras que lhes dão acesso livre aos bares e discotecas da "movida" da ilha.

Ler ainda hoje em Página Global,  a publicar dentro de horas, opinião de António Verissimo:
OS RAPAZES CURTEM NO RESORT EM CABO VERDE, QUAL É O MAL?