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5 de junho de 2012

500-O rapazinho e a pomba de milagres


o rapazinho e a pomba de milagres
(Atitude ku konduta ki pui rapasseada di gossi ka ta fasi milagre;
a atitude e a conduta que fez que a rapaziada dos nossos dias não faz milagres)
Era, era ...
"[ ... ]. Era uma vez um rapazinho que foi educado num colégio qualquer de padres e que acreditava muito em milagres. Não conhecia nada da vida, porque fez a sua vida no colégio e saiu de lá homem, com vinte e um anos. Todas as injustiças que ele verifica, eram mal; não entendia que havia dum lado a miséria, gente que sofre, e do outro os ricos. Mas ele conseguiu encontrar uma pomba que fazia milagres. E então, porque o seu pensamento estava ligado ao sofrimento dos outros, resolveu fazer tudo para ajudar os outros, para não haver fome, nem frio, para todos terem casas para morar, para cada um realizar os seus desejos; ele não pensou em si mesmo, mas pedia à pomba para fazer milagres para outros. Então a pomba apareceu-lhe e sentou-se na sua mão. Ele disse: - "pomba, dá casas para aqueles pobres," - e apareceram as casas com tudo, dentro delas. "Dá comida àqueles famintos", e aparecia a comida, boa comida. Chamava mesmo as pessoas para perguntar o que é que queriam, e dava. Até o dia em que arranjou a sua namorada e sentou-se com ela. A namorada pedia­lhe uma coisa e ele dava. Outra gente dizia que também queria, mas ele não tinha tempo, agora era só para a namorada. Repentinamente a pomba voou, foi-se embora. Acabaram-se os milagres e tudo o que ele tinha feito como milagre tornou a desaparecer, mesmo ainda com a pomba na mão os milagres acabaram. Ele já não podia fazer nada pelos outros, porque só pensava na sua bojuda, na sua barriga"
(CABRAL, Amilcar, 1978: 155, "III. o nosso Partido e a luta devem ser dirigidos pelos melhores filhos do nosso povo", in: Arma da teoria: unidade e luta, obras escolhidas, Lisboa, Seara Nova, 2ª ­ed., 248 p)*
l-I = Contado por Amilcar Cabral, o pai fundador das nacionalidades bissau-guineense e cabo-verdiana aos quadros dirigentes e responsáveis do PAIGC, participantes num importante seminário decorrido em Conakry (Guiné-Conakry) entre 19 e 24 de Novembro de 1969.
I-} = Moral da história (sempre citando Amilcar Cabral): "Na medida em que somos capazes de pensar no nosso problema comum, nos problemas do nosso povo, da nossa gente, pondo no devido nível os nossos problemas pessoais e, se necessário, sacrificando os interesses pessoais, somos capazes de fazer milagres. Assim devem ser todos os dirigentes, responsáveis e militantes do nosso grande Partido, ao serviço da liberdade e do progresso do nosso povo".

21 de fevereiro de 2012

394-Livros de Amílcar Cabral


Estão aqui:Unidade e Luta, Partir da Realidade da Nossa Terra, O Nosso Partido e a Luta, Para a Melhoria do Nosso Trabalho Político, Fundamentos e Objectivos, Uma Luz Fecunda Ilumina o Caminho da Luta, Luta do Povo, Nem Toda a Gente é do Partido
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20 de janeiro de 2012

363-Amílcar Cabral foi assassinado há 39 anos

ROSA NEGRA

Rosa,
Chamam-te Rosa, minha preta formosa
E na tua negrura
Teus dentes se mostram sorrindo.
Teu corpo baloiça, caminhas dançando,
Minha preta formosa, lasciva e ridente
Vais cheia de vida, vais cheia de esperanças
Em teu corpo correndo a seiva da vida
Tuas carnes gritando
E teus lábios sorrindo...

Mas temo tua sorte na vida que vives,
Na vida que temos...
Amanhã terás filhos, minha preta formosa
E varizes nas pernas e dores no corpo;
Minha preta formosa já não serás Rosa,
Serás uma negra sem vida e sofrente
Ser’as uma negra
E eu temo a tua sorte!

Minha preta formosa não temo a tua sorte,
Que a vida que vives não tarda findar...
Minha preta formosa, amanhã terás filhos
Mas também amanhã...
... amanhã terás vida!

Amílcar Cabral




Para falar de Amílcar Cabral, os espaços (os caracteres!) vão sendo cada vez mais escassos. Pela sua dimensão humana, pela relevância das suas ideias-chave, pelo exemplo de revolucionário, de marxista [...].

O homem
Os vários sentidos do contributo de Amílcar Cabral escoram-se na sua quase desconcertante simplicidade (1), que coexiste com a enorme complexidade dos temas sobre que reflectiu e das tarefas que assumiu por decisão pessoal e pela dinâmica colectiva em que se inseriu.
Não encontro melhor adjectivo que humanista para essa postura. Essa dimensão humana ganha toda a expressão quando o dirigente da luta da libertação de dois povos – de Cabo Verde e da Guiné-Bissau – do jugo colonial português, revela também sentir como seu o povo português.
A simples (!) destrinça entre o regime fascista e colonialista de Portugal, contra quem dirigia a luta, e o povo português que (também) o sofria, é um dos aspectos mais marcantes da sua personalidade. É uma atitude que merece o apodo de corajosa pois se faz parte da preparação para a (e da ideologia da) guerra desumanizar o inimigo, se é fácil suscitar ódios, em contrapartida, mostra uma enorme (e magoada) lucidez ver – e não o esconder! –, no aparente e próximo inimigo, a vítima do mesmo poder contra que se trava uma luta de vida ou morte (2).
E, sobre o homem, não se pode ainda esquecer, por mais sucinta que seja a anotação, a referência ao técnico, ao engenheiro agrónomo que, com grande exigência de rigor científico, fez a sua formação na universidade, em Lisboa, estudou a erosão dos solos no Alentejo e a morte súbita do cafeeiro em Angola, fez o recenseamento agrícola da Guiné-Bissau.
Ideias-chave
Pelo enunciado de ideias-chave, resume-se, telegraficamente mas procurando não se ser redutor, o mais significativo do pensamento de Amílcar Cabral.
Das referências ao homem, ao técnico e ao revolucionário, decorre a importância da ligação entre teoria e prática. O volume I das Obras escolhidas de Amílcar Cabral (3) tem o título A arma da teoria – unidade e luta e o II A prática revolucionária – unidade e luta II, e é feliz e esclarecedora a escolha desses títulos pois traduz a procura constante em fazer da teoria, do estudo, da reflexão, a arma para a prática revolucionária.
Outra ideia-chave é a unidade. Não só a unidade dialéctica – a arma da teoria indispensável para a prática revolucionária e esta indispensável para aquela – mas também a inovadora unidade na luta e orgânica entre os povos de Cabo Verde e da Guiné Bissau, conduzida por um único partido – o PAIGC – Partido Africano para a Independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde – para se conquistar a independência de dois países, levando à criação de dois Estados em espaços nacionais autónomos, com o mesmo partido saído da luta a manter a unidade entre diferentes... aliás porque apenas entre diferentes pode haver unidade. E a ideia da unidade “dos povos de Cabo Verde e Guiné-Bissau”, com base em reforço de complementaridades, inseria-se numa ideia mais larga da unidade africana – PAI... – e da unidade da luta de libertação dos povos do colonialismo e, também, da exploração capitalista.
A estas ideias-chave, junta-se uma outra, só aparentemente menor: a da relevância do factor cultural. Na chamada “Declaração da Praia” (4) pode ler-se: “Na linha do pensamento de Cabral, (...) quanto menos as bases materiais forem adequadas às relações sociais a serem criadas, mais devem ser tomados em consideração os elementos culturais nos processos de transição (...) cada povo deve poder dar a sua contribuição própria ao património mundial, graças a uma produção cultural original e dinâmica, verdadeiramente popular e livre de se exprimir criativamente (e) se o particular se chama cultura e responde deste modo às exigências da vida quotidiana e da identidade de cada povo, a solidariedade internacional é também uma exigência do pensamento e da acção”.
A relevância do factor cultural não apaga nem diminui a abordagem dialéctica e a perspectiva materialista histórica, de onde a ideia-chave da importância decisiva da libertação das forças produtivas, espartilhadas pelas relações sociais de produção coloniais e neo-coloniais. Para Cabral, a libertação das forças produtivas nos países sob o jugo colonial era determinante para a verdadeira independência dos povos.
Outra ideia-chave, esta merecedora de referência particular pelo modo como provocou e “encantou” quem, na década de 60 e começos da de 70, “pensou a revolução”, é a do suicídio da pequena burguesia. Na impossibilidade de mais fazer que resumir o essencial, cito o próprio Amílcar Cabral quando escreveu que “esta alternativa – trair a revolução ou suicidar-se como classe – constitui o dilema da pequena burguesia no quadro geral da luta de libertação nacional”, no pressuposto, na sua análise numa perspectiva de luta de classes, da inexistência de uma classe revolucionária que pudesse, nesses locais, conduzir a luta.
Não quereria isto dizer que o PAIGC fosse um partido de pequeno-burgueses mas que os seus dirigentes, na consciência da luta política que travavam, incluíam a de que contra si, como parte de uma classe, lutavam e que, por isso, a sua opção de revolucionários serem semelhava um suicídio (como classe!).
Porquê o assassinato?
O PAIGC levou, com a declaração da independência da Guiné-Bissau a 24 de Setembro de 1973, a sua tarefa até ao fim de uma etapa. Impedi-lo teria sido uma das razões do assassinato de Amílcar Cabral que, num relatório já de Janeiro de 1973, escrevia que “a nossa situação é a de um Estado independente de que uma parte do território nacional, nomeadamente os centros urbanos, está ocupada por uma potência estrangeira” e definia como se iria proclamar a independência.
Mas se o seu assassinato não impediu essa machadada no colonialismo português, já terá sido determinante para o agravar das dificuldades, e depois abrupto rompimento, na concretização do projecto de unidade Cabo Verde-Guiné-Bissau (Uma luta, um partido, dois países, título do recentíssimo livro de Aristides Pereira), que concitava alguma animosidade – e bem mais do que isso... – por parte de alguns dos que, sem o desaparecimento de Cabral, não teriam força para o combater. Além de que a capacidade de Amílcar Cabral, com o seu rigor e exigência do ponto de vista técnico-científico, seria determinante no equacionar e na resolução de dificuldades de projecto tão inovador e ambicioso.
Mas a História (e a política) não é o que poderia ter sido, é... o que é depois do que foi!
Era Cabral marxista?
O simpósio internacional, organizado pelo PAICV na capital de Cabo Verde em Janeiro de 1983, para assinalar o 10º aniversário do assassinato de Amílcar Cabral e consagrado à sua obra e pensamento, juntou um grande número de participantes (5) de várias origens, nacionais, continentais e ideológicas, que, a partir da obra e do pensamento de Cabral, reflectiram o Mundo, a sua mudança e como a fazer. Do simpósio, suas comunicações e documentos, editou-se o volume de 705 páginas já citado. Refiro esta publicação porque nela se encontra um repositório de contributos, alguns de grande importância a todos os títulos, e ainda porque nela se aborda uma outra questão que, por vezes, surge quando se fala de Amílcar Cabral: era ele marxista? Aproveito dois trechos, meros aperitivos para aprofundada fundamentação da resposta que, a meu ver, só pode ser afirmativa. [leiam a demonstração disso em http://coisasdaguine.blogspot.com/2012/01/359partir-da-realidade-da-nossa-terra.html?spref=fb]
Um, de Imre Marton, universitário húngaro, afirma que Amílcar Cabral faz parte da “reprodução alargada do pensamento marxista (que) é, em suma, o devir histórico da identidade do pensamento marxista”, e acrescenta “como toda a identidade, ela é confrontada com as mudanças que se operam no tempo e com as especificidades que encontra no curso da sua extensão no espaço (...) A grandeza de Cabral foi a de ter sabido detectar e responder às exigências de correntes do devir histórico da identidade do pensamento marxista. Se ele encontrou respostas adequadas aos imperativos da luta de libertação nacional a partir de uma situação singular, a da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, foi porque ele localizou o mundial e mundializou o local.”(6)
O outro trecho é da Declaração final do simpósio:
A época das lutas ainda de modo nenhum terminou (...) Trata-se muito claramente da gigantesca luta de classes, que entrou numa fase nova da sua dimensão mundial. Uma burguesia sem fronteiras conseguiu dotar-se de bases técnicas e jurídicas para a sua dominação (...) Essas lutas não se revestem de um carácter linear. Elas são atingidas por contradições muitas vezes dolorosas, devidas a factores internos de classes ou culturas, bem como a factores externos de dominação económica e política e, às vezes, mesmo militar. Amílcar Cabral, que foi um dos autores do despertar das consciências populares, e dos dirigentes das lutas de libertação, também deu um impulso novo à reflexão teórica. É missão dos intelectuais prosseguir essa tarefa de um pensamento ligado à prática e de práticas fecundadas pelo pensamento.”

Notas
(1) Para cuja caracterização o que Manuel Alegre conta em Continuar Cabral, Grafedito/Prelo-Estampa, 1984 dispensa grandes exposições: “...de repente ele virou-se para mim e disse: ‘Sabes o que me apetecia? Apetecia-me ser ponta esquerda do Benfica ou chefe de orquestra do Morro’”.
(2) Num livro de Miguel Urbano Rodrigues, O tempo e o espaço em que vivi - 1, Campo das Letras, 2002, há páginas dedicadas a encontros com Amílcar Cabral em que tal se reflecte de forma impressiva: “Emocionou-me ouvi-lo, numa antevisão do futuro próximo, lamentar um absurdo. (...) Antes de disparado o primeiro tiro já lhe doía a inevitabilidade da guerra. Sofria pela juventude que iria morrer nos campos de batalha. A sua gente teria de morrer para que a História avançasse; os portugueses, esses seriam triturados pela máquina do colonialismo, como carne para canhão de uma causa condenada. ‘É terrível, angustiante, sabermos que isso vai acontecer’ – não esqueço as suas palavras – ‘e não podermos deter a máquina da morte, accionada pela irracionalidade do colonialismo mais retrógrado de todos os colonialismos’”.
(3) Editadas pela Seara Nova, em 1977.
(4) Declaração final, aprovada pelos participantes no Simpósio Internacional Amílcar Cabral a 20 de Janeiro de 1983, em Continuar Cabral.
(5) Cabo-verdianos: Aristides Pereira, Pedro Pires, Olívio Pires, Dulce
 Almada Duarte e dezenas de quadros.
Convidados estrangeiros: Leopold Senghor, Lúcio Lara, Alda Espírito Santo, O. Martichine, Basil Davidson, Ario L. de Azevedo, Jean Suret-Canale, R. Chilcote, J. Medeiros Ferreira, Nzongola-Ntalaja, Manuel Alegre, François Houtart e G. Lemercinier, M. Glisenti, Mário de Andrade, Luis Moita, Bernard Magubane, Sérgio Ribeiro, M. Diawara, Babacar Sine, Solodovnikov, Yves Benoit, I. Wallerstein, P. Pierson-Mathy, L. Luzzato, Imre Marton, S. Bosgra, Jean Ziegler, Sylvia Hill, K. Roth, Álvaro Mateus, Pascoal Mocumbi, T. Ngakoutou, E. Apronti, O. Dzuverovic, Kim San Koun, A. I. Sow, N. Kamati, D. Cindi, Jorge Manfugas, G. Chaliand, S. Malley (ordem apresentada pelos organizadores de acordo com as comunicações e distribuição por temas).
(6) “L’apport d’Amilcar Cabral à une universalisation concrète de la pensée revolutionnaire, marxiste”. 
«O Militante» - N.º 262 Janeiro/Fevereiro de 2003 (http://pcp.pt/publica/militant/262/p35.htm)


Num programa gravado da Antena 2 no dia 5 de Fevereiro de 1999 (http://www1.ci.uc.pt/cd25a/wikka.php?wakka=Tc1350):........

Fernando Rosas - Acha que a morte do Amílcar Cabral prejudicou a política do Spínola para a Guiné?

Carlos Fabião - Se fosse do Spínola para a Guiné! Foi a toda a África, na minha opinião. Foi a toda a África. Era um homem, por exemplo, o Amílcar Cabral era um homem extraordinariamente culto, extraordinariamente capaz de levar as pessoas, de influenciar. Dizia-me o Zé Araújo, já falecido, que o único homem que o Agostinho Neto, era teimoso que se fartava, e o único homem que ele ouvia e aceitava era o Amílcar Cabral. Ao nível de África também o Amílcar Cabral era um indivíduo ouvido, era um líder africano. [Fernando Rosas - Uma referência, claro.] Tinha grandes ligações a nós e todo o seu discurso foi sempre um discurso de entendimento connosco e nunca de ataque a nós. Ele tem aquela frase que aliás os tipos do PAIGC me disseram que ele durante a guerra disse, durante a guerra terá dito, contou-me também o Zé Araújo e outros, terá dito, Vocês hão-de ver que quando vier a paz os portugueses são os únicos indivíduos com quem a gente se vai entender. É claro ele tem muita ligação a Portugal, não é verdade. Ele estava casado com uma portuguesa. Estudou em Lisboa. [Fernando Rosas - Fez os estudos cá, etc.] Está ligado aos outros indivíduos e movimentos pela Casa dos Estudantes do Império na altura.

...

362-Há nuvens que envolvem ainda o assassinato de Amílcar Cabral

Dalila Cabrita Mateus diz em “A PIDE/DGS na Guerra Colonial, 1961-1974” que «O assassínio de dirigentes foi um tipo de operações levado a cabo pela PIDE/DGS. No entanto, constituía um assunto delicado». E refere que o elemento dessa polícia incumbido de dar andamento ao plano para a liquidação de Amílcar Cabral escreveu à margem do processo: «Comuniquei particularmente ao chefe da Delegação que este assunto não pode ser objecto de correspondência oficial. Ou não se dizem ou não se fazem». Refere, por isso, que não é possível encontrar relatórios da PIDE sobre a liquidação de Amílcar Cabral, até porque, citando José Pedro Castanheira, in “Quem mandou Matar Amílcar Cabral”, o inspector adjunto Alberto Matos Rodrigues recomendou que «Em trabalhos desses, não se deixam provas».

E houve vários planos, assevera esta investigadora dos Arquivos da PIDE existentes na Torre do Tombo.
O primeiro terá sido em 1967, o do inspector Miguel António Cardoso, então chefe da delegação da PIDE na Guiné, que mandou vir de Conacri um antigo combatente para que, conhecedor dos locais por onde Cabral costumava passar nessa cidade, o matasse a tiro ou com granadas apreendidas aos guerrilheiros. Só que, azar, esse homem foi preso pela tropa portuguesa e deixou de valer. Mandou vir de Conacri mais dois elementos para o mesmo objectivo, mas, entretanto, foi substituído. O novo chefe da delegação achou que um deles era bêbedo e que o outro não tinha estofo e a operação foi abandonada.
Em 1969 houve outra tentativa, esta planeada pela Aginter Press, uma encapotada agência de informações sedeada em Portugal mas que, efectivamente, se dedicava ao recrutamento de mercenários. Tinha ligações com a PIDE e com a Legião Portuguesa desde 1966. Teve a colaboração da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, do Ministério dos Negócios Estrangeiros e da Casa de Portugal em Paris, e participavam um diplomata senegalês, oposicionistas a Sékou Touré e elementos da FLING. O orçamento era superior a quatro mil contos, e o prémio em caso de êxito mil contos. Foi a Operação Chèvre. Se não deu ou não foi avante, a investigadora não precisa.
Veio, depois, a Operação Mar Verde, em Novembro de 1970, planeada e comandada por Alpoim Calvão, com o apoio de Spínola e de Marcelo Caetano. No livro de António Luís Marinho, “Operação Mar Verde, Um Documento para a História”, vêm as missões atribuídas a cada um dos grupos participantes na operação. Por exemplo, uma das do comandante Benjamim Lopes de Abreu era “a eliminação física do Presidente da República da Guiné Ahmed Sékou Touré” (documento 11). A ninguém foi explicitamente atribuída a missão da “eliminação física de Amílcar Cabral”. No entanto, ao 1º Ten. FZE Raul Eugénio Dias da Cunha e Silva tinha como missão: “Ataque e destruição de elementos e instalações do PAIGC em Conacry II: …41-Secretariado e habitação de Amílcar Cabral; 42-Casa de Aristides Pereira e Propaganda”. E diz ele, no seu relatório, que “decidi atacar primeiro e rapidamente os objectivos considerados de primeira importância: 41 e 42…”. Não é, pois, credível que a eliminação de Amílcar Cabral não fosse também um dos objectivos. Dalila Mateus narra que foi lançada sobre a casa de Amílcar Cabral uma chuva de obuses, tendo um deles acertado em cheio no quarto ao lado daquele onde dormia a mulher de Cabral, que teve de sair com os filhos pelas traseiras da casa. Numa casa ao lado ficaram gravemente feridos um casal jugoslavo e uma filha, uma outra filha deles morreu com um estilhaço na cabeça. E refere que Alpoim Calvão disse ao Público de 21 de Maio de 1991 que se Cabral estivesse em Conacri teria sido seguramente eliminado.
Em 1971 foi a delegação da PIDE em Cabo Verde que mobilizou mil contos para contratar um cabo-verdiano residente em Monróvia, na Libéria, e com anteriores ligações a Cabral e Agostinho Neto. Era para, com mais seis indivíduos, assassinar Amílcar Cabral e destruir um depósito de material de guerra em Conacri. Não resultou.
Mas a PIDE andava também atenta às divisões dentro do PAIGC.
Em Junho de 1967 teriam armadilhado a casa de Cabral em Koundaré e teriam sido enviadas cartas para Catió, Cabedu, Farim, Mansoa e Bula com o intuito de não serem acatadas as ordens de Amílcar Cabral. Os conjurados foram presos e fuzilados. E a PIDE afirma ter ouvido, na altura, que Nino Vieira encarou com simpatia “o movimento conspirativo do Boé”. Também em Setembro desse ano parece ter havido um atentado contra o Secretário-geral do PAIGC. Foi também o ano, constou em Dezembro, do descontentamento dos mandingas pelas baixas sofridas em combate e pelo facto de os cabo-verdeanos serem poucos a combater.
Em Janeiro de 1968 foi assinalado novo movimento de revolta e, nesse ano, as notícias das divisões no PAIGC levaram a PIDE a tomar nota e, como consta numa das pastas dos Arquivos da PIDE, “Em face desta notícia foi considerado superiormente que se devia procurar, por todos os meios, se necessário mesmo financeiros, explorar estas divergências”.
(...)
E conta Otelo Saraiva de Carvalho, em “Alvorada em Abril”, que o inspector Fragoso Allas (grande amigo de Spinola) lhe terá dito que “os tipos tinham ido longe demais, porque a missão era só raptar e conseguir trazer Amílcar Cabral para Bissau como refém”. 
É claro, então, que foi resultado de uma missão da PIDE. Não condiz o "era só raptar" com as declarações acima citadas do Ten. FZE Raul Eugénio Dias da Cunha e Silva, quando este diz que, na operação Mar Verde, decidiu a destruição do "Secretariado e habitação de Amílcar Cabral", bem como com Alpoim Calvão, que disse que Amílcar Cabral seria eliminado se estivesse em Conacri na altura da invasão.
Como se vê,  a eliminação dos líderes dos movimentos de libertação foi um objectivo desde sempre. Relativamente a Amílcar Cabral também o era em 1970. Não em 1973?...
Podem ler este texto completo que escrevi em 
http://coisasdaguine.blogspot.com/2011/01/42-amilcar-cabral-foi-assassinado-ha-38.html


E esta!!

BRUNO OLIVEIRA SANTOS entrevista ÓSCAR CARDOSO, inspector da PIDE
B.O.SA PIDE delineou algum plano secreto para matar Amílcar Cabral?
O.C: Não. Assim como lhe disse abertamente que a PIDE colaborou na eliminação de Eduardo Mondlane, também lhe garanto que nunca existiu nenhum plano para matar Amílcar Cabral. Quam matou Cabral foram dissidentes do PAIGC, a PIDE não teve nada a ver com aquilo. Essas histórias estão todas muito mal contadas. E na altura do 25 de Abril havia já um acordo entre o Nino Vieira e o nosso governo para aquele vir para Portugal, com a mulher e a filha, cuja colocação na Universidade estava já assegurada. Ora, quem conta essa história muito bem é o coronel Vaz Antunes, que estava então na Guiné, num opúsculo chamado Uma Diligência Interrompida. Os guerrilheiros do PAIGC estavam cansados, queriam acabar com a guerra e sobretudo não admitiam a sua subordinação aos cabo-verdianos.

QUEM MANDOU MATAR AMÍLCAR CABRAL?

Amílcar Cabral foi assassinado a tiro, à porta da sua residência na Guiné-Conacri, na noite de 20 de Janeiro de 1973. Sabe-se que é líder do PAIGC e principal dirigente dos movimentos de libertação das colónias portuguesas foi morto por um companheiro de luta, fuzilado dias depois, juntamente com quase uma centena de conspiradores. O que nunca se soube foi quem verdadeiramente o mandou matar, quem, na sombra, preparou e organizou o crime e tentou um golpe de estado no interior do partido. Terá sido uma facção guineense e negra, que não aceitava a liderança dos cabo-verdianos e mestiços? Qual o papel do despótico presidente da República da Guiné, Sekou Touré, que não suportava a projecção internacional de Cabral e a sua ligação à cultura portuguesa? E da PIDE/DGS, que pusera a sua cabeça a prémio, que se infiltrara na direcção do PAIGC e que tudo fizera para eliminar o principal inimigo do regime? Enfim, será que os militares portugueses estiveram de todo alheados desta trama, eles que, anos antes, comandados por Spínola, não haviam hesitado em invadir Conacri?
O livro que constitui o desenvolvimento de uma reportagem publicada no “Expresso” em 1993 procura desvendar todos estes enigmas, a partir de uma investigação feita em Portugal, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Senegal e República da Guiné, de uma centena de entrevistas e da consulta inédita aos arquivos da PIDE/DGS e do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Um contributo para desvendar um crime que permanece misterioso. Uma homenagem a uma figura grande da História contemporânea de África, comparável a Nelson Mandela.

Autor: José Pedro Castanheira

Editor: Relógio d’Água
Ano de edição: 1999 (3ª)

Os americanos também procuram baralhar...

Segundo os Serviços de Informação dos Estados Unidos, em relatório datado de 1 de Fevereiro de 1973, o crime resultara de um conflito “entre mulatos das ilhas de Cabo Verde e africanos do continente". O conflito racial instalado no seio do PAIGC vinha “de longa data" e havia também "oposição esporádica dura dos seus comandantes militares que se irritavam com os limites por ele (Amílcar Cabral) imposto à actividade militar na Guiné portuguesa e à continua subordinação dos militares aos objectivos políticos
Washington, 26 Dezembro – Trinta e seis anos depois do assassinato de Amílcar Cabral ( a 20 de Janeiro de 1973), o Departamento de Estado norte-americano libertou os documentos oficiais nele arquivados sobre a conspiração que eliminou o líder do PAIGC. Segundo os documentos norte-americanos agora revelados, um mês após o crime a Administração norte-americana mostrava-se convencida de que Portugal não esteve directamente envolvido na morte de Amilcar Cabral, não excluindo todavia a possibilidade da "cumplicidade de Lisboa".
Segundo os Serviços de Informação dos Estados Unidos, em relatório datado de 1 de Fevereiro de 1973, o crime resultara de um conflito “entre mulatos das ilhas de Cabo Verde e africanos do continente". O conflito racial instalado no seio do PAIGC vinha “de longa data" e havia também "oposição esporádica dura dos seus comandantes militares que se irritavam com os limites por ele (Amílcar Cabral) imposto à actividade militar na Guiné portuguesa e à continua subordinação dos militares aos objectivos políticos".
Lê-se que os norte-americanos manifestaram sérias reservas às confissões tornadas publicas de elementos envolvidos na morte de Amílcar Cabral que culparam Portugal pelo assassinato, mas apontam que, "na base daquilo que sabemos, a cumplicidade portuguesa não pode ser excluída".
Ao Estados Unidos estavam ao corrente da intenção do PAIGC declarar a independência da Guiné-Bissau nas zonas libertadas do território (que aconteceu em Setembro de 1973) e da existência de contactos de Portugal com representantes do movimento de libertação havidos nesse ano, que tinham decorrido em Paris.
Os documentos mostram também que o secretário de estado Henry Kissinger estava farto e irritado com a inflexibilidade portuguesa na questão colonial. Para Kissinger, lê-se, "não hà solução excepto tirar-lhes (os territórios)". “Eu sempre assumi que o único meio que os forçará a sair de Angola e Moçambique é os africanos tornarem as coisas tão quentes que eles sairão. Antes disso não sairão. Falar com eles não os vai levar a sair", disse Henry Kissinger. E opinava que os Estados Unidos deveriam tomar uma decisão política "para tentar levar os portugueses a saírem (de África) o mais rapidamente possível, usando o argumento que esse é o melhor meio para preservar os vestígios da sua posição". "Se seguirmos isso, isso é uma posição razoável … é um ponto de vista político perfeitamente legítimo. Mas não vai avançar só através de consultas”. Para Kisinger Portugal tinha duas opções: "aguentar o máximo tempo possível ou tentar sair o mais rapidamente possível" afirmando que na sua opinião o "meio de sair é seguir a via que De Gaulle escolheu" quando decidiu abandonar a Argélia.
Ou seja: os Estados Unidos, em fins de 1973, já tinham decidido abandonar o colonialismo português à sua própria sorte. Meses depois, dava-se em Portugal o golpe de Estado que derrubou a ditadura e abriu caminho à democracia, ao fim das guerras coloniais e à independência dos países africanos sob dominação portuguesa.


«Inventaram-se pretextos para a morte de Amílcar Cabral», diz Pedro Pires

      O Presidente de Cabo Verde, Pedro Pires, destacado líder da luta de libertação na Guiné-Bissau e em Cabo Verde, considera que muito "foi inventado" para não se encontrarem os responsáveis pela morte de Amílcar Cabral.
"Há causas e há pretextos e há gente que inventou pretextos para não se responsabilizar pela sua morte", afirmou Pedro Pires em entrevista à Agência Lusa sobre o assassínio de Amílcar Cabral, a 20 de Janeiro de 1973, na Guiné-Conacri.
    "O crime beneficiou a quem?", questiona-se Pedro Pires sobre a morte do principal impulsionador da guerra de libertação na então Guiné portuguesa.
      "Não foram contradições internas no seio do PAIGC que estiveram na génese da morte de Cabral, como alguns pretendem fazer crer", acrescenta, contrariando algumas teses sobre a matéria que ainda hoje desperta acesa discussão tanto na Guiné como em Cabo Verde.
Segundo o Presidente, "houve muitas tentativas de matar Cabral e todas falharam até 20 de Janeiro de 1973", na capital da Guiné- Conacri.
     "Depois de falhar no assalto a Conacri (a Operação Mar Verde, protagonizada pelo exército português), depois de falhar a tentativa de dividir o PAIGC dentro da Guiné, havia que atacar o lado mais fraco, que era a República da Guiné. E a razão está exactamente aí", entende Pedro Pires.
     Numa guerra "não há bons inimigos e maus inimigos", há apenas "o" inimigo "e ponto final", prosseguiu, adiantando que "o inimigo está sempre interessado em ganhar" e, na época, "o inimigo" era o exército colonial português.
       No PAIGC, insiste, "houve sempre o respeito pela dignidade do homem, logo também do inimigo, e muitos, no PAIGC não entendem até hoje essa linha de conduta. É neste contexto que se deve analisar a morte de Cabral, sempre no contexto de uma guerra".
     "A Guiné era o palco da luta mais avançada nas ex-colónias portuguesas, era preciso travá-la, e apareceu como método para isso, para travar esse avanço na luta, cortar a cabeça ao seu pilar mais forte", o líder histórico do PAIGC, Amílcar Cabral.
     Profundo conhecedor do processo histórico da independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde, Pedro Pires, fala ainda sobre a importância do pensamento de Amílcar Cabral para a resolução dos principais problemas nos dois países.
    "Na abordagem que Cabral faz da luta de libertação nacional, há muito de útil para Cabo Verde e para a Guiné-Bissau, mas também para a África no seu todo", adianta, lembrando, no entanto, que, como o próprio dizia, "era preciso ter em conta a forma de aplicar as ideias, porque a realidade varia na geografia e no tempo".
    "Nenhum pensamento pode abarcar toda a realidade e não há ideias puras, as ideias são sempre enriquecidas com a prática e a experiência individual e colectiva", insiste.
    Sobre os processos de evolução em Cabo Verde e Guiné-Bissau - o primeiro com índices de desenvolvimento considerados exemplares e uma democracia sólida, ao contrário do segundo, marcado por sucessivos golpes de Estado - Pedro Pires mostra-se prudente, indicando que não quer "correr o risco de ser mal interpretado".
    Mas, admite: "é uma matéria que deve ser discutida para se encontrarem as causas", nomeadamente nos escritos de Cabral, "onde existem várias referências para as razões que levaram a que os processos fossem tão díspares nos dois países".
   É "um desafio estimulante procurar trabalhar por essa via, encontrar as causas e as razões que levaram a que os dois países, que têm Cabral como grande referência, tivessem e tenham realidades tão distintas".
    E deixa a promessa: "Antes da minha morte, gostaria que muitas coisas ficassem clarificadas e vou fazê-lo". 
Fonte: www.noticiaslusofonas

18 de janeiro de 2012

359-Partir da realidade da nossa terra


Grande poder de análise, notável inteligência, ligação ao povo guineense e capacidade de liderança.Ler este texto de Amílcar Cabral para o ver.ot
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13 de janeiro de 2012

349-Recenseamento Agrícola da Guiné

(Publicadas no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume IX, Nº 33, Janeiro de 1954. Texto assinado por Amílcar Cabral e sua mulher Maria Helena Cabral. São aqui avançados a obrigatoriedade da realização do Recenseamento, o método utilizado e os escassos meios facultados bem como os objectivos que deviam servir essa medida)

       Visam estas notas objectivos simples. Pretendem, se possível responder a estas questões:: Porque se está fazendo o Recensea­mento Agrícola? Quais os seus objectivos? Qual o processo usado na sua execução?
       Não constitui objectivo destas notas provar a utilidade ou a inutilidade do empreendimento. A utilidade ou a inutilidade dum Recenseamento Agrícola depende do papel que o mesmo desempenha ou vier desempenhar, como conhecimento, na evolução económica (portanto, social) do meio a que se refere. Isso, porque o Recenseamento Agrícola é um trabalho de base. Base do fomento agrícola duma região, num dado momento da sua evolução agrária. Será tanto mais útil quanto melhor servir a agricultura do povo ou povos a que diz respeito. Um Censo, seja da população, da agricultura, ou da indústria, se não visa a melhoria das condições de vida do povo ou povos a que e refere, não é só um trabalho inútil: é um empreendimento nocivo.

1.      Porque se está executando o Recenseamento Agrícola

Pela reunião de Londres, realizada de 15 a 19 de Dezembro de 1947, Portugal contraiu o compromisso de levar a efeito o Recenseamento Agrícola em 1950, nas suas parcelas ultramarinas. A F. A. O. (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação) havia já estabelecido as linhas gerais do Recensearnento. Em Novembro de 1948, o então Encarregado do Governo da Guiné, nomeou uma Comissão consti­tuída por 4 membro, para estudar e planear o Recenseamento Agrícola, em cumprimento das determinações do Ministério do Ultramar. E a Comissão apresentou um relatório no qual apenas esquematizou os métodos de trabalho a seguir, indicou o pessoal disponivel e o necessário, e calculou as despesas a efectuar em 1949.
Por razões entre as quais é de se salientar a dificuldade do empreen­dimento, o Censo Agrícola não foi executado. Em Dezembro de 1952 foi dotada verba para a sua efectivação, tendo surgido, naturalmente, a necessidade de transferência dessa verba para 1953, por não ser possível o Recenseamento naquela altura do ano. A dotação estipulada para todo o trabalho do Censo Agrícola correspondia à calculada para a despesa a efectuar em 1949.
Em Agosto de 1953, os Serviços Agrícolas e Florestais, em cumprimento das determinações do Ministério do Ultramar, resolverarn executar o Recenseamento Agrícola, tendo sido encarregado de planeá-lo e de dirigir a sua execução, o autor desta nota.
A dificultar o complexo problema do Recenseamento Agrícola em regiões de economia atrasada, como a Guiné, patentearam-se os seguintes factores:  a) exiguidade da verba dotada (300 contos); b) falta de pessoal adestrado para tal trabalho; c) falta de tempo para efectivar os estudos preliminares e a preparação do pessoal disponível; d) dificuldade de transporte; e) ausência de quaisquer elementos de orientação para o trabalho, na parte relativa à agricultura indígena.
Porque o Recenseamento tinha de ser feito, efectuaram-se os estudos preliminares que foram possíveis, apresentaram-se as informações e as propostas relativas à orientação geral do trabalho (pessoal mínimo indispensável, distribuição das despesas, transportes, etc.) e esquematizou-se o que se entendia poder ser feito nas condições de trabalho facultadas. Entre estas, alientou-se a escassez dos seguintes elementos: disponibili­dades, tempo e pessoal.
Eis portanto, os motivos que levaram à execução do Recenseamento Agrícola:
a) Porque havia que satisfazer um compromisso contraído no campo internacional;
b) Porque o Ministério do Ultramar e o Governo da Província determinaram a sua execução ;
c) Porque, para tal, foi dotada uma verba, ainda que a exiguidade desta e o tempo disponivel implicassem a limitação do objectivo a atingir.

2.    Objectivo do Recenseamenlo Agrícola

O relatório da Reunião de Londres atrás referida indica como objec­tivo do Recensearnento obter, em cada território, um recenseamento ou uma estimativa dos seguintes elementos:
a) Superfícies totais cultivadas e superfícies consagradas às diferentes culturas;
b) Número e características simples da população;
c) Importância do gado;
d) Produção das principais culturas,
Indica, além disso, que em cada território deve procurar-se obter um método de trabalho adequado às condições do meio. Assim, sugere, para os países de economia atrasada, o emprego de métodos de sondagem na investigação dos elementos essenciais de agricultura indígena, bem como a necessidade de utilizar os dados do censo populacional na generalização dos elementos colhidos por sondagem.
Atendendo ao objectivo e sugestão referida, a Comissão nomeada em 1948, para estudar o assunto, optou pelo método de amostragern. Consi­derou como unidades as explorações agrícolas (individuais ou familiares), a quais seriam agrupadas por tribu. Pretendia inquirir 2.200 explorações indígenas. A generalização, a toda a área da Guiné, seria feita com base no Censo  populacional de 1950.
Tal critério implicaria uma generalização muito lata (a toda a área da Guiné) e uma dispersão de pessoal incompatível com as condições de trabalho facultada em 1953. Por isso, tentou-se resolver o problema de maneira diferente, visando sempre os objectivos definidos na Reunião de Londres de 1947, e atendendo às condições socioeconómicas do meio guineense..
Resumindo, pode afirmar-se que o objectivo do Recenseamento é a obtenção dos elementos essenciais, qualitativos e quantitativos, da agricultura indígena e da não indígena, na Guiné.

3.      O caso particular da Guiné. A agricultura indígena.

      Seria descabido invocar argumentos para demonstrar a inviabilidade dum Recenseamento Agrícola perfeito nas actuais condições socioeconómicas e culturais da Guiné. Basta ponderar no atraso em que vivem a populações nativas, para concluir a impossibilidade de obter directamente, do agricultor indígena, resposta aos inquéritos comuns ao recenseamento agrícola.
      Assim, o inquérito individual só seria aplicável ao agricultor não indígena e, mesmo neste caso, teria de limitar-se à propriedade perfeita. O caso da agricultura indígena foi considerado detidamente.
O aspecto qualitativo da agricultura indígena vai sendo conhecido na sua generalidade. Conhecern-se as culturas principais. Sabe-se que o tipo de exploração agrícola varia de povo para povo. Duma maneira geral, a terra é um bem colectivo, sendo-o, também, os produtos das plantas e espontâneas. A propriedade privada incide sobre os produtos obtidos pela agricultura praticada pelos elementos constituintes da família. A extensão da área cultivada depende estritamente do número de unidades de trabalho da família.
Todavia, o conhecimento dessas características gerais, apesar de útil, não bastava para resolver o complexo problema do conhecimento da agricultura indígena no seu aspecto quantitativo. Esse conhecimento não podia ser obtido directamente. Duma maneira indirecta tudo quanto se pudesse obter não passaria duma estirnativa. Daí o facto de que o Recenseamento Agrícola não pode ultrapassar, na actualidade, o limite duma estimativa.
Havia, portanto, que estruturar um método que permitisse obter uma estimativa dos elementos essenciais da agricultura indígena. Tal método devia gerar-se a partir da realidade da agricultura guineense, dependendo, evidentemente, das condições de trabalho facultadas.

4.      O processo ulilizado na execução do Recenseamento Agrí­cola. Crílica.

Para a agricultura praticada pelo não indígena, será seguido o processo normal de recenseamento. Os impressos correspondentes ao questionário serão distribuídos aos agricultores não indígenas por inter­médio da autoridade adminisrativa .
A estimativa desejada, para a agricultura indígena, teria de ser obtida pelo método chamado «de amostragern» Tal método consiste fundamen­talmente em escolher, numa dada área, um número de fracções represen­tativas da agricultura indígena, investigar tudo quanto seja possível sobre e as fracções, e, por recapitulação, integração e extrapolação, generali­zar o elemento colhido a toda a área considerada. Para e a generali­zação é necessário dispor- se duma ou de várias bases, entre a quais são mais importantes: I) as estatísticas agrícolas anuais, estabelecidas pelos processos habituais; II) as estatísticas demográficas estabelecidas pela Administração Civil (Censo da População);  III) o número de contri­buintes. É indispensável dispor desses elementos tanto para a fracção estudada como para a área afectada pela generalização, e as estatisticas têm de ser da mesma natureza.
Na Guiné a única base de que se pode dispor é o Censo da População realizado anualmente pela autoridade administrativa
Um problema delicado é o da escolha da fracção representativa sobre a qual incidirá o estudo que deve servir de base à generalização. – O pro­cesso comumente aceite é o seguinte: escolhem-se, em número que permita uma base estatística satisfatória, povoações que,  pelas características da sua agricultura, se podem considerar representativas duma dada região (povoação-tipo). Efectua-se um estudo completo dessas povoações nos aspectos social, económico e cultural. Seguidamente procede-se ao recensearnento agrícola. Os elementos colhidos (resultado de medições efectua­das por agentes recenseadores adestrados) são sujeitos a uma recapitula­ção e, depois de obtidos os índices referentes a cada elemento, são, por extrapolação, generalizados ao território em estudo, com o auxílio das bases já referidas.
As actuais condições da Guiné e o meio de trabalho facultado não permitiram a utilização integral do processo referido.
Para que fosse possível a obtenção duma estimativa dos elementos essenciais da agricultura indígena, houve que operar uma modificação no processo descrito, em prejuízo do que tem de essencial. E a necessidade resultou da impossibilidade material de estudar detalhadamente cada povoação-tipo escolhida, o que é consequência da escassez de tempo, de verba e de pessoal adestrado.
O estudo das características agrícolas das diversas regiões e dos diversos povos da Guiné, bem como os ensaios sumários realizados no sentido da experimentação de método de trabalho, mostraram que: I) cada povo assenta a sua actividade agrícola numa estrutura agrária constante (regime de propriedade, forma de exploração, cultura e prá­ticas de cultivo); II) a presença dum dado povo numa dada região depende, geralmente, dos imperativos da sua estrutura agrária; III) a exploração da terra é feita em regime familiar, e, raramente, por morança e tabancas ; IV) a extensão da terra cultivada depende principalmente do número de unidades de trabalho da família; V) a agricultura duma dada região é a do povo que a habitam; VI) dentro duma dada região, o tipo de agricultura dominante é o da do povo mais representado; VII) a agricultura duma povoação caracteristicamente rural é, genericamente, a da região em que se encontra integrada; VIII) considerada uma povoa­ção, a agricultura praticada por uma dada família dum dado povo, é idêntica à praticada pela outra família do mesmo povo.
Os factos anunciados levaram a concluir que: I) o método de amostragem é na realidade não só aplicável como o único aplicável nas actuais condições da Guiné; II) em qualquer região considerada existem povoa­ções-tipo, isto é, cuja agricultura é representativa da dessa região; III) a área do Posto Administrativo pode ser considerada como unidade territo­rial para generalização dos elemento essenciais da agricultura indígena, obtidos na povoações-tipo dessa área, desde que seja tomado em cada Posto um número estatisticarnente satisfatório de povoações-tipo; IV) na impossibilidade material de estudar detalhadamente cada povoação-tipo, bastaria estudar, em número estatisticamente satisfatório, a agricultura de vária famílias dos povos das povoações-tipo escolhidas; V) os índices resultantes desse estudo, conjugados com os dados do censo da população, permitiriam obter, por generalização, uma estimativa dos elemento essen­ciais da agricultura indígena, para toda unidade territorial, isto é, para cada Posto Administrativo; VI) o único índice de possível obtenção, face aos meios de trabalho disponíveis, seriam as médias por família, e por família por povo, de cada elemento essencial estudado.
E eis, em traços largos, o método usado na execução do Recensea­mento Agrícola. Mediante a premente necessidade de se levar a cabo o empreendimento, mesmo em condições deficientes (de verba, de tempo e de pessoal) estruturou-se um Plano Geral do Recenseamento Agrícola que foi superiormente aprovado.
Porque o método da sondagen pode ser aplicado através de vários processos, houve que determinar qual ou quais os processos que deviam ser utilizados no Recen eamento. O estudo das características gerais da agricultura guineense, atrás referido, mostrou ser conveniente o sseguinte procedimento e tatístico:
a) Divisão da população em subpopulação «ou estratos tão homo­géneos quanto possível, de forma que as sondagens separadas efectuadas em cada estrato conduzissem a estirnativas afectadas de pequeno erro» (ROSENFELD, 1953). Daí o ter-se considerado o Posto Administrativo como unidade territorial de generalização, e, dentro da área de cada Posto, ter-se feito incidir a sondagem sobre cada povo principal, em separado.
b) Escolha, em cada Posto Administrativo, de povoações que, pelas suas caracterísricas agrícolas ,podem ser consideradas como representa­tivas da agricultura de toda a área do Posto (povoações-tipo).
c) Em cada povoação-tipo o número de explorações agrícolas Iami­liares de cada povo (grupo homogéneo), a inquirir, foi calculado propor­cionalrnente à importância do mesmo povo no conjunto populacional do Posto a que pertence a povoação-tipo.
d) As explorações agrícolas familiares, a inquirir em cada povoa­ção-tipo de cada Posto, e pertencentes a um dado povo, foram escolhidas ao acaso.
Convém notar que o método usado enferma de defeitos. Além de não estudar integralmente a região considerada, obriga a uma estimativa. Ora uma estirnativa tem carácter subjectivo, o que é sempre prejudicial. Fatalmente, cometem-se erros. A propósito, ROSENFELD (1953) numa recente publicação da F. A. O., afirma: «O método das sondagens é um processo que toda a gente pratica, desde sempre... O seu inconveniente reside no facto de apenas fornecer um valor aproximado das caracteris­ticas medidas, mas apresenta a vantagem de não medir os caracteres observados senão sobre um pequeno número de unidades», Além de que, nos casos como o da Guiné, o único método aplicável é o das sondagens, infere-se que possibilita uma diminuição considerável dos gastos com o empreendimento.
A utilização do conjunto de processos referidos, representa uma tentativa no sentido de restringir ao máximo a possibilidade de erro neste trabalho que, segundo parece, é o primeiro, no género, a ser realizado no Ultramar Português.
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Bissau. Janeiro de 1954

Maria Helena Cabral e Amílcar Lopes Cabral