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22 de junho de 2012

509-Lembranças do ex-alferes Alfredo Reis

O Alfredo Reis é um bom amigo e ex-camarada de armas da CART1690. Passou o tempo todo de Guiné nessa companhia. Ressalto, em especial, a sua "estadia" nos destacamentos de Banjara e Cantacunda, situados em plena mata do Oio e a cerca de 40 kms da sede da companhia, situada em Geba, nas margens do rio do mesmo nome. Sítios de isolamento, privações e grandes riscos de vida. Cantacunda ainda tinha população civil, mas Banjara era só tropa, uma agravante. São fotos dele (apenas acrescentei a "quadrícula da CART1690" ).
São lembranças para recordar aquilo que nunca mais se esquece. Como sucede com todos os ex-combatentes.



31 de outubro de 2011

290-Éramos bandos dentro do arame farpado...

...e não fazíamos nada, apenas à espera que nos viessem atacar. Na altura comentei esta infeliz (e ofensiva) opinião noutro local (aqui), mas vou repetir o que disse, porque eu, que fui um elemento desses "bandos" com várias operações, patrulhamentos e emboscadas no pelo, muitos dias e noites nas matas da Guiné, ferido em combate e com meses no hospital da Estrela, não me posso esquecer dessas palavras, continuam a magoar-me, tanto mais que não tenho conhecimento de alguma re...consideração de quem as proferiu:
O senhor General Almeida Bruno, referindo-se aos combatentes na Guiné, disse que: “…a maioria esmagadora eram bandos que estavam atrás do arame farpado à espera que o inimigo atacasse para se defenderem… havia muito pouca iniciativa”, põe como excepção os pára-quedistas e os fuzileiros (admiro-me que não fale nos comandos…). Parece-me que se trata de uma manifestação de sobranceria estilosa e de menosprezo da actividade, dos problemas e sacrifícios dos que estavam obrigados aos dispositivos táctico-estratégicos determinados não por eles mas por quem dirigia a guerra, quer para gestão de quadrículas quer para ocupação de pontos considerados importantes para manobras operacionais ou para enquadramento de populações. Esta declaração entristece-me vindo de quem vem, sabendo eu o que sei, apesar de estar longe de ser alguma sumidade na arte da guerra, o que não é o caso do senhor General. É só pelo que vi e vivi, e também tenho lido.
Segundo os dados que colhi das publicações da CECA, 1.276 é o total de elementos que constituem o “bando”, então, dos mortos em combate na Guiné, não estando neste número, é claro, nem os fuzileiros nem os pára-quedistas (aos quais manifesto o meu respeito e admiração), que também lá tiveram mortos.
Uma “limpeza” que a guerrilha fez atrás dos nossos arames farpados?… Eu “vi” que não foi assim.
A primeira companhia em que estive (CART1690) teve 10 mortos em combate, na zona do Oio: 3 soldados e 1 alferes em ataques à base do PAIGC em Sinchã Jobel; 1 soldado e 1 capitão em deslocação entre destacamentos da companhia; 2 soldados, 1 furriel e 1 alferes em ataques do PAIGC a destacamentos nossos. Foram também evacuados para o HMP de Lisboa, por ferimentos em combate, 2 alferes (1 num deslocamento entre destacamentos, 1 numa operação) e 3 soldados (em operações).
Quanto à outra por onde passei, de guineenses do recrutamento local (não era tropa especial): enquanto foi 1.ª CCAÇ, teve 7 mortos em combate, quando andou por Bissorã, Talicó, Bedanda, mata de Cudana, Sambuiá…; depois de se transformar em CCAÇ3, teve 15 mortos em combate, sendo 3 em ataques do PAIGC a Barro, 3 em ataques do PAIGC a Guidage (onde teve elementos destacados) e os restantes em operações ou emboscadas (Sano, Sambuiá, Canja...).
Quanto à “muito pouca iniciativa”:
À CART1690, quando chegou à Guiné, foi-lhe dada a responsabilidade de uma quadrícula de 1600km2, na mata do Oio. Nessa quadrícula tinha, inicialmente, quatro destacamentos: Geba (onde era a sede da companhia), Camamudo, Cantacunda e Banjara (estes dois a cerca de 40km de Geba). Depois constituiu mais um destacamento em Sare Banda. A companhia foi, pois, desmembrada desta maneira… por “iniciativa” dos altos comandos da guerra.
Mesmo assim:
- forças suas participaram em 61 operações com nome de código, 12 destas com PCV;
- forças suas realizaram 1561 patrulhamentos, 36 emboscadas e 442 outras acções
Quanto à CCAÇ3 não tenho dados numéricos, mas, da minha experiência pessoal, garanto, senhor General, que os pelotões desta companhia realizaram inúmeras emboscadas e patrulhamentos na fronteira com o Senegal, nas zonas de Sano e Canja, e participaram em várias operações em Sambuiá.
O que diz o senhor General é a “sua” verdade, com muita coisa em falta, que, pelos vistos, desconheceu (embora me custe a crer…). Vou dar outros dados que constituíram a verdade dos “bandos” que estavam atrás do arame farpado:
- da CART1690 houve 15 elementos que foram evacuados para o HMP de Lisboa por motivo de doença
- e dois exemplos de uma das razões disso: o destacamento de Banjara esteve, em certa altura, com dois meses sem abastecimentos, tendo os seus ocupantes que se desenrascar comendo macacos e cobras; quanto à água, porque só havia fora do arame farpado, estabeleceu-se tacitamente uma escala: num dia iam os do PAIGC da zona e noutro dia iam os nossos buscá-la; em Barro, quando as barcaças demoravam muito tempo a trazer-nos os abastecimentos pelo Cacheu, tínhamos de ir “caçar” as vacas que o PAIGC tentava levar do Senegal para o Oio – era uma forma de poder comer de jeito.
As condições que tínhamos no arame farpado não eram as mesmas, naturalmente, do que as que tinha quem estava em Bissau. Até das coisas mais comezinhas tínhamos, muitas vezes, que nos privar. Eu, por exemplo, que sempre fui um fanático por óculos escuros “rayban”, nunca os pude usar. É que, quando no arame farpado, eram topados ao longe e, quando em emboscadas, patrulhamentos ou operações, seria logo referenciado. É claro que não me interessava ser um alvo privilegiado.
Parece-me que, num programa com a projecção de “A Guerra” não foram nada cuidadas as declarações do senhor General, mesmo que delas esteja (mal) convencido. Os que estão a leste do que foi a guerra pensaram mal de nós, os ex-combatentes, alguns terão mesmo pensado que andámos lá a passar férias. Os que querem conhecer o que ela foi ficaram mal informados, induzidos em erro. Para nós raiou a ofensa.
E vou, agora, acrescentar mais alguns dados:
À CART1690 foi atribuída esta quadrícula (os tais 1.600km2 na mata do Oio, não por decisão do capitão do "bando" mas sim pelos altos comados, como disse)
Foi assim disperso o "bando", com uma base do PAIGC a meio (Sinchã Jobel), nunca destruída (Jigajoga, Jigajoga2, Jacaré, Imparável, Invisível) e outra a norte (Samba Culo), destruída uma vez (Inquietar I e Inquietar II) , mas, evidentemente, reconstruída (Cantacunda). O "bando" esperava ataques (quem não esperava?...) e tiveram-nos (Banjara, Cantacunda, Sare Ganá, Sare Banda). 



Mas, contrariamente ao que diz o senhor general, também saíu do arame farpado:
E dava nisto:
Não é justo dizer que este "bando" não fez nada. Os que morreram não foi de saudades. Os que foram feitos prisioneiros não foi para passar férias em Conakry.


25 de setembro de 2011

263-Ataque da aviação à "base do Gazela", em Sinchã Jobel

Do livro "De Campo em Campo, Conversas com o Comandante Bobo Keita", de Norberto Tavares de Carvalho: 

Capítulo 2. A base do 'Gazela' é flagelada por bombardeiros do exército português

Fiquei ali até 1969. Ainda em 1968 fomos fazer uma operação na zona de Cantacunda. Naquela operação fui juntamente com o Braima Bangura(18), comandante de destacamento. Apanhámos naquele dia onze Tugas. Foram todos evacuados para Conacri. [ Foi o ataque feito ao destacamento de Cantacunda da CART1690, na noite de 10/11 de Abril de 1968. Ver aqui ] Da segunda vez que fomos à mesma zona, apanhei um tiro, um estilhaço de morteiro, aqui debaixo do ventre, que saiu pelas nádegas, mas mesmo assim conse­gui andar nove quilómetros a pé, a perder sangue, naquela noite. Não podia dizer aos camaradas que tinha sido ferido para não os desanimar.
Aconteceu quando o camarada que estava à minha frente com uma bazooka nos ombros, caiu numa mina e eu fui atingido pe los estilhaços da mina. O camarada perdeu um pé e aquilo doía­-lhe muito. Pediu-me que lhe desse um tiro para poupar o seu sofri­mento.
Eu estava armado com a minha faca militar. Disse-lhe que não, que ele não podia morrer ali. Peguei no meu punhal cortei-lhe o pé ferido que enterrei na mata. Cortei a palha duma bananeira, lavei-a com a água do cantil e com uma ligadura improvisada bandei-Ihe o pé. Fiz-lhe dois torniquettes na perna para parar a hemorragia. Pusemo­-lo numa maca e levámo-lo para lugar seguro. Foi aí que um camarada percebeu que eu também sangrava. Fez-me ver que havia sangue no meu camuflado. Eu disse-lhe que era sangue do camarada ferido e que eu não tinha sofrido nada.
Só quando chegámos à base, e depois do médico ter dado os primeiros socorros ao camarada ferido, é que resolvi ir ter com ele. Disse-lhe então que estava ferido. Despi as calças e mostrei-lhe o lugar do impacto do estilhaço. O médico não acreditou. Era um cubano. Depois de me observar concluíu que eu tinha apanhado um tiro na bexiga. Eu disse-lhe que queria ter a certeza de que era de facto isso que me tinha acontecido, pois a dor que eu sentia não indicava um ferimento assim tão grave. Aquilo aconteceu no dia 9 de Junho de 1968. Foi a segunda vez que os Tugas acertaram em mim.
Fui fazer chichi e não senti nenhuma dor ou qualquer outra reacção que me impedisse de deslocar. O cubano fez-me um tratamento local e fiquei mais calmo. Afinal não era assim tão grave, disse para com os meus botões...
Naquela manhã preparámo-nos para evacuar todos os feridos para a fronteira através do rio Farim. O Gazela e o Hilário esta­vam no lado do N'Djobel (Sinchã Jobel) Fui até lá para os avisar de que deviam abandonar o local sobretudo porque, a meu ver, não tinham tomado as devidas precauções. Para se desloca­rem abriam caminhos como se fossem estradas para carros. Ven­do aquilo, pensei logo que poderia haver perigo em caso de ataque do inimigo.
Mais a mais que, o batedor, que fazia o reconhecimento do grupo, regressava sempre e dizia que tudo estava normal. Reuni-me com eles e disse-lhes que deviam abandonar o local. O Gazela, que era um dos chefes militares presentes na região, tentou convencer-me de que não havia perigo nenhum naquela zona. Por volta das quatro horas da manhã, depois de ver que não conseguia convencê-los, saí com os meus homens e arrancámos.
A meio caminho andado, perto de Inchalé, ouvimos o ruído de aviões. Eram aviões de caça, bombardeiros. Disse aos meus homens: «Dirigem-se para a base do Gazela!» Dito e feito, os jactos atravessaram os ares e as bombas caíram sobre os nossos camaradas. A primeira vítima foi o Comissário político, o Hilário.
O Hilário morreu logo aí. Enviei quatro camaradas para irem ver o que tinha acontecido na base. De regresso, disseram-me que tinha sido um ataque relâmpago dos portugueses, que haviam bombardeado a zona com aviões fazendo mortos e feridos. Resolvi mandar buscá-los para que se juntassem a nós, que também contávamos feridos que deviam seguir para a fronteira...


[ Quando estive em Sinchã Jobel em 2006 - conto aqui essa visita - , vi isto


...e isto]

Fizemos uma só caravana, os que tinham sofrido os bombardeamentos e nós. Eu tinha uma bengala na mão e deslocava-me com cuidado, visto a minha ferida. Chegámos ao rio Farim, verificámos se não havia nenhum barco nas redondezas. Às vezes os barcos portugueses rebocavam botes e as tropas que iam nos botes escondiam-se debaixo da sombra dos tarrafes e os barcos afastavam-se. Se não se prestar atenção, mal se apercebe de um movimento de homens e os Tugas escondidos nos tarrafes, saem do escondirijo e começam a fazer fogo sobre a malta.
(18) O Braima Bangura foi executado após a independência, acusado da suposta tentativa de golpe de estado alegadamente dirigida pelo Coronel Paulo Correia, conhecido como "O caso 1 7 de Outubro".

11 de setembro de 2011

252-Chegada à Guiné

      A planície de água amarelenta estendia-se até onde a neblina deixava ver e o ar quente que dela se desprendeu penetrou-me na pele e nos pulmões. 0s olhos não conseguiam ir mais além nesta paisagem fechada. Um sufoco na voz e um suor pelo corpo todo não me deixaram dizer nada quando alguém perto de mim comentou que era o rio Geba, fora atingido pelo espanto e pelo receio que vinham do incógnito, ricocheteando pela água e pelo nevoeiro. Onde é que eu vim parar!...
      Lera muitos condores, cavaleiros andantes, mundos de aventuras… mas as perspectivas juvenis que tivera de aventura e emoção diluíram-se naquele ambiente mortiço, apenas apossando-se de mim o sentimento da chegada ao inevitável. Fiquei apreensivo com o que estaria para mais além. Ao pé ninguém se riu, ninguém cantou, ninguém agitou os braços de contentamento, o futuro era aquilo para todos, amarelo e nebuloso. Quedei-me com o olhar perdido, tentando adivinhar o concreto ainda invisível, apenas com o vislumbre que me fora dado em Mafra na especialidade de atirador, e que era para vir matar ou para vir ser morto.
      Não mato nem uma mosca nem um mosquito, só os enxoto para não me incomodarem, as abelhas e vespas deixo-as voltear à vontade, esperando que não vejam nada em mim que lhes interesse e sintam que não lhes quero mal, aos gatos e cães só faço festas e atiro comida, até já fui arranhado e mordido mas nunca lhes bati, apenas bato com o pé para ver as lagartixas correrem velozes por entre as ervas, pego no rabo das osgas que vejo nas paredes da minha casa e amando-as pela janela fora. É verdade que atirei um martelo à cabeça do Jaime, o meu amigo cabo-verdiano, porque nos chateámos e ele me chamou um nome que eu não gostei, mas fiquei contente por não lhe ter acertado e continuámos amigos, e também dei um murro num colega cadete que me empurrou quando estávamos numa formatura em Mafra. Mas nunca me passou pela cabeça matar alguém, nem agora. E morrer, morrer foi um desejo quando seminarista amargurado com os recalcamentos da minha natureza e por causa da pressão da instituição que me amarrava, mas depois disso quero é viver a vida que sonhei, não quero já morrer. É mau matar, e morrer também. Que vou fazer?
     A questão do mal menor, evidência da situação imposta, o menos mau quando não há remédio, o dilema de quem não consegue matar uma mosca face aos que vêm do mato a gritar mata, mata, como me disseram? Não tive tempo de cimentar qualquer ideia, porque veio o capitão e disse que chegava uma vedeta que o ia levar a Bissau, para ir ao QG receber ordens, que os alferes podiam ir com ele, mas que tinha de ficar um em troca com o que estava de Oficial de Dia. Ofereci-me.
     “Fico eu, não estou com disposição para andar mais de barco”.
Agora não estava nada para isso, não imaginando, é claro, para o que estava destinado no dia seguinte. A vedeta levou o capitão e os outros alferes, fiquei com todos no “transatlântico” que nos trouxe durante sete dias, um navio cargueiro que largou do cais de Alcântara em direcção à Guiné.
Ao fim de sete longos e incómodos dias e noites tenebrosas em que se viu só mar, sem gaivotas nem terra à vista, o cargueiro chegou à foz do chamado rio Geba. Eram cinco da tarde e já começava a escurecer. Viam-se ao longe já algumas luzes que, foi dito a todos, era a cidade Bissau. Já nos tinham falado que iríamos parar à Guiné, mas isto do rio e da cidade eram nomes novos. Acabava por ser a visão directa do que tinha sido o vago conhecimento quando me mostravam os mapas na escola e me diziam que era o Império Colonial Português, a que começaram a chamar, mais recentemente,  Províncias Ultramarinas. Ali estava a Guiné, uma delas, ficámos todos a saber que tinha uma capital chamada Bissau no estuário do rio Geba. Eram aquelas luzes ao longe.
Fiquei esticado no meu beliche.
Já dormitava quando abriram a porta de rompante, vinham excitados.
“É pá, não sabes o que perdeste. A cidade é pequena e não vale nada, só se vêem pretos e tropa por todo o lado, mas tem uns bares porreiros, há marisco e cerveja ao preço da chuva. Não quiseste vir, agora estás feito, o Braga disse que amanhã logo de manhã vamos numa LDM pelo rio acima até ao nosso destino.”
“Feito já eu estou há muito tempo. Sei lá o que é uma LDM… E, já agora, qual vai ser o nosso destino?.”
“É pá, é uma lancha onde nos vão meter a todos, é uma lancha de desembarque, chamam-lhe menor… quanto ao sítio para onde vamos o capitão disse que é sigiloso.”
“Tá bem, caguei, tanto me faz, deve ser a mesma merda em todo o lado.”
Assim foi. Mas só depois do almoço, pois disseram que só podia ser com a maré a encher, é que a tal LDM encostou à bochecha do barco. Com ordens e reparos das tripulações de cima e de baixo, a escada de portaló foi baixada e presa na lancha, após o que todos fomos descendo, ajoujados de sacos, malas e outras bagagens, os soldados e sargentos para o convés e os oficiais no alto, perto da cabine. Largou pelo rio acima, com águas tão claras como as do mar, nada que se parecesse com as que estavam quando tínhamos chegado. Do lado direito uma ilha verdejante, à esquerda a cidade de Bissau, casas pequenas amareladas, várias embarcações no porto pequeno, montes de pretos a ver passar. Seguiu ronronando os motores.
Parecia um cruzeiro turístico, todos procurando, dum lado e doutro, encontrar pontos altos para ver a paisagem, nós, os alferes, e o capitão víamos melhor porque estávamos lá alto ao pé da cabine. Rio largo, maravilha, lembrava-me das travessias do Tejo debaixo do sol escaldante do verão. Mas não, não havia Cacilhas à vista, nem os guindastes gigantes da Lisnave ou, mais longe, as chaminés fumegantes da CUF no Barreiro. Não ia apanhar a camioneta para a Costa da Caparica nem ia atravessar o Sado para Tróia e ir ter com a Natércia. Que raio de lembrança agora, do meu primeiro amor! Juro que não vou pensar mais nela.
Mas não, eu sou o morto a cavalo de Henri Ghéon.  É melhor não jurar. Mas não tenho a certeza de nada. O homem, todo o homem deveria ser como Norberto: consciente da sua incerteza, condenado a ser um joguete das circunstâncias. Gergório, o chefe, e os que juraram, faltaram a esse juramento, por motivos que eles julgaram justos. E eram justos, humanos, dignos de consideração. Mas faltaram, e pecaram por isso. Ninguém jura falso impunemente. Bem fez Norberto que não jurou. Julgou-se como realmente era, inconstante, sujeito às circunstâncias, teve medo de não cumprir o jurado. Qualquer juramento é forçado. Força-se o homem a jurar aquilo que ele não está seguro de poder fazer. O homem é forçado a cumprir um juramento. Quando o cumpre não pratica uma boa acção. Que esta deve vir do fundo, com gosto. Quem jura vai contra a sua própria natureza inconstante, contra o seu próprio destino. Coloca o homem em situações angustiosas ou, então, faz com que ele falte levianamente. Porque será necessário ao homem jurar, às vezes? Para se enganar a si mesmo, ou, melhor, para calar aquela voz contínua que lhe diz que “todo o homem é mentiroso”, que é incerto o dia de amanhã, que tudo pode acontecer na vida.
Cortaram-me os pensamentos. Gerou-se grande agitação ao pé da cabine. O rio estreitara muito, com densa floresta nas margens, com curvas e contracurvas sempre a aparecerem, o marinheiro agarrado à metralhadora pesada dizia que na próxima curva costumavam ser atacados, provocando grande apreensão nos rostos de todos. O alferes Castro, o ranger, de olhos esbugalhados, gritava:
“Onde estão as nossas armas?”
Mas o capitão dizia:
“Quando chegarmos ao destino é que as temos”.
“Estão a gozar com os periquitos”, rosnava o Zé Pedro, de riso céptico. O Aprígio, o mais novo e sempre calado normalmente, olhava sem dizer nada. Eu, sacado abruptamente dos meus pensamentos, fiquei receoso, enquanto o Braga dizia para a tropa no convés que se baixasse.
“Já começam a foder-nos. Não sei se são eles ou são os nossos. Ou uns e outros…”, deu-me para comentar.
Mas não houve nada, seguíamos por aquele rio que parecia serpentear por entre árvores descomunais, palmeiras e outra vegetação densa e intrincada de nomes ainda desconhecidos. Após uma curva mais apertada vimos ao longe uma clareira à beira rio, parecia uma praia, estava com gente, cheia de camuflados. Chegámos. Alívio de todos. A lancha chegou-se à frente, abriu a porta da proa, o capitão foi o primeiro a saltar para a água baixa, atrás foi a tropa fandanga com os seus haveres, ordenada pelos alferes. Amontoaram-se em terra seca, sacudindo os pés molhados, enquanto o Braga conversava com outro capitão que se encontrava entre aqueles camuflados todos que olhavam risonhos para os recém-chegados. Chegou-se depois o capitão a nós:
“A lancha vai regressar a Bissau, antes que a maré comece a descer. A companhia vai dormir aqui e amanhã seguirá em coluna auto para o seu destino.”
“Então isto ainda não acabou?”, grunhiu o Zé Pedro.
“Está a começar”, e ri-me.
“Uma caminha fazia-me jeito agora”, largou o ranger enquanto se espreguiçava.
“Mas não vai haver camas”, disse o capitão. “O comandante daqui disse-me que as camas estão todas ocupadas pela companhia dele, só arranja uma para mim. Ali mais à frente há um terreno, levem os homens para lá, abanquem por pelotões, ficarão ali durante a noite”.
O Zé Pedro baixou a cabeça, apertou os dedos e exclamou:
“Que foda do caralho.”
O Aprígio disse que merda, baixinho. Eu encolhi os ombros e abri os braços de resignação, o ranger Castro desvairou-se perguntando onde estavam as G3.
    "Já disse que amanhã, só quando chegarmos onde ficaremos definitivamente é que teremos as armas da companhia que vamos render! O capitão daqui garantiu-me que não haverá problemas!"
       "Meu capitão, mas isto assim não pode ser, não é seguro", segredava-lhe o ranger, de olhos esbugalhados.
         "Ó nosso alferes, garantiram-me que estarão em segurança, vamos lá para o sítio onde ficarão esta noite!”
“Já começo a ver quem é que nos está a lixar”, disse eu baixinho.
Já passava muito das cinco horas e o sol já estava longínquo, quase adormecido, acenando rente às matas que estava para se ir deitar. Um céu de laranja suja permitiu-lhes ainda ver que era um terreno com alguns arbustos pequenos e ervas rasteiras em frente do aquartelamento.
“Instalem-se como puderem”, ordenaram os alferes, “amanhã vamos largar cedíssimo.”
O capitão já tinha basado para ir comer com o outro lá do sítio. Passado uns tempos apareceram uns soldados da companhia local com um grande caldeirão de sopa e umas malgas de lata, distribuíram também o conduto: rações de combate. Todos comeram a sopinha e, a seguir, as conservas de feijão com chouriço e de sardinhas, os biscoitos secos e adoçaram a boca com frutas cristalizadas. Vários protestaram com a ementa, mas a maior parte achou que, já que não havia outro remédio para a fome que tinham, tinha de ser. O Zé Pedro refilou:
 “Estamos feitos”, e mandou as latas por abrir para longe. 
 Eu fiz como ele mas com as latas já vazias, aconselhando que era melhor para as formigas não nos chatearem toda a noite. Depois de terem vindo os mesmos a recolher as malgas vazias, o pessoal começou a ajeitar os leitos, uns faziam dos pés martelo-pilão para alisar a terra, outros colhiam erva para fazer travesseiros, procuravam comodidades. Acabaram por se deitar naquilo, que o corpo estava cansado e pedia descanso. Ninguém esteve para conversas. Só o soldado Pauleta é que gritou:
“ Ó Fonseca, não te peides senão ainda foge tudo pensando que é um ataque.”
“Tinha que ser este gajo”, disse eu, “está calado pá e põe-te mas é a dormir.”
O que me valeu é que esta merda para mim já não era tão novidade assim. Dormi várias noites como agora quando fiz parte do pelotão do inimigo durante a semana de campo na serra do Montejunto, no final do COM em Mafra. Só numa noite estive melhor, foi quando a Teresa Tarouca nos deixou dormir num palheiro da sua quinta. Simpática, ah fadista. De resto foi em chãos como este. Mas aquela foi uma guerra gira, esta não ia ser de certeza. Andávamos de camuflado, éramos os únicos, e as populações, quando descíamos às aldeias, recebiam-nos de braços abertos, coitadinhos vão para a guerra, e davam-nos comida e levavam-nos para as adegas. Muito porreiro. Quando havia jogos lá íamos nós à tasca que tinha televisão e lançávamos very-lights quando Portugal ganhava, foi um delírio com aqueles golos do Eusébio à Coreia. Grande bebedeira apanhámos. Até era uma festa para nós. Só aquele palerma do capitão Casimiro é que ia estragando tudo quando nos apanhou um dia a comer numa adega e disse que estávamos presos. Bem protestámos, que à hora de almoço não podia haver guerra, mas ele não quis saber. Houve porrada com os dele, claro, e tiro de bala simulada, e ele, ridículo, a atirar tiros de pistola para o ar e a dizer ao zé-povinho do sítio vejam lá como são valentes os soldados portugueses. Palerma. Também o lixámos. Ainda me dá vontade de rir, na noite seguinte fomos ao acampamento deles e cortámos as espias das tendas. Grande gozo. Não gostei lá muito foi da última noite quando nos cercaram, estávamos nós a dormir nos regos de um campo de milho, deixei lá o sabre quando fugi, e o comandante da Escola Prática deu-me nove dias de detenção. Mas até foi um gajo porreiro, pois disse que não me dava dez senão eu passava a sargento. Por causa do filho da puta do tenente Galveias, que me apanhou no S. Jorge à civil e fez queixa de mim, já me tinha dado dez antes. Nunca gostei daquele sacana, mau para os nossos cadetes.
E os cabrões dos mosquitos que não me largavam, estava farto, eram aos montes. No Montejunto não havia. Que coisa do caraças… não ia poder dormir com certeza.
E assim foi. A noite foi muito agitada. Já não era só o chão duro que não deixava dormir, era a mosquitada que se banqueteava nas peles finas com o sangue fresco que provocava o desconforto daqueles corpos, com palmadas repetidas, virando-se e revirando-se. Mas chegaram as cinco da manhã, o sol também parecia estar a chegar, quando o Braga apareceu a bater palmas e a gritar:
“Toca a levantar que temos de ir embora, ó nossos alferes ponham o pessoal a mexer.”
 Estremunhados, desgrenhados e com as fardas descompostas, foram-se levantando aos poucos, devagar, uns foram mijar longe, alguns cagar, mas outros mijaram mesmo na cama improvisada.
“Vamos lá, toca a andar que as GMC estão ali à espera”, insistia o capitão.

24 de agosto de 2011

239-Sem Timor...


29 de Março de 1967

Regressei ao RAC de Oeiras depois de uma licença de 10 dias, benesse do Decreto nº 42937. Obrigadinho. Mas não fiquei nada satisfeito quando lá cheguei e o capitão disse aos alferes que, afinal, não íamos para Timor. Tinham-nos dito que talvez… Afinal, disse-nos, vamos para a Guiné. Foda-se, que merda! reacção geral.
Fiquei lixado, peguei no distintivo e mudei-lhe o lema: passou de “Sem Temor” para “Sem Timor”. Que não podia ir com isto assim no desfile que iríamos fazer antes de embarcar, mas todos vimos que o capitão também não estava nada satisfeito. Tá bem, mas agora dá-me para desopilar.
Não me apeteceu nada ficar no quartel depois do jantar, não tinha nada a fazer, e decidi ir apanhar o comboio até Lisboa. Os meus camaradas, não vi bem se a sério ou a brincar, perguntaram-me se me ia pirar. Não, disse-lhes a sério, não me vou pirar, não vos ia abandonar, vou só dar aos meus velhotes esta boa notícia… Fiz mal. E daí… não sei, talvez não, tinha de ser, tinha de lhes dizer. O meu pai ficou macambúzio e preocupado, a minha mãe e a minha irmã choraram.
Não aguentei e vim para este bar.
Dá-me licença que me sente aqui?... Obrigado.
Um gin tónico, se faz favor!
...Não é a primeira vez que cá venho mas agora não sei o nome do bar, não me vem à cabeça. Situação embaraçosa para quem pretende divagar a partir dele, da sua configuração interna, daquilo que se vê através dos seus frequentadores, do mundo que encerra em si e fora de si. Mas não interessa, os meus pensamentos vão estar longe daqui.
Olhe, mais outro gin tónico!
…Afinal, acho que sim. É importante o nome das coisas, dos seres, dos lugares... Penso que os nomes atribuídos têm muito a ver com a natureza das coisas, dos seres e do seu ambiente. Quando digo rosa, digo e sinto tudo o que a rosa é: o cheiro, as pétalas coloridas, o redondo belo. Quando se fala no Marquês todos sabem que é a praça onde está o Marquês de Pombal com o leão a tiracolo. Não, está aos pés, é verdade. Mas faz tanto parte dele que é como se o tivesse a tiracolo. E mulher… ah, mulher é amor, seios, pernas, ancas, sexo. Os nomes deixaram de ser unicamente nomes e passaram a ser, a personificar coisas concretas. Quando proferimos um nome temos em nós, automaticamente, um retrato, uma vivência e um conjunto de características que só conseguiríamos descrever por frases mais ou menos extensas, mais ou menos difíceis de explicar. O nome é a síntese em nós de tudo isso.
Mais um!
…Levantei o copo mas o homem não me viu. Tenho de bater no copo.
Mais um gin tónico!
…Dar nomes às coisas e às pessoas é bom, para economizar palavras e explicações entre quem se conhece. Tenho uma amiga linda como uma flor… os bidonvilles de Champigny são piores que o Casal Ventoso… diz tudo, sem mais explicações. E, veja lá, e se aquela flor a que chamamos rosa tivesse outro nome… por exemplo esterco ou trampa? E se à trampa chamássemos rosa? Estávamos a introduzir aberrações no nosso código de entendimento, subverteríamos esse código. A discussão generalizar-se-ia onde agora existe entendimento. Chocaríamos os nossos amigos e os contactos do dia-a-dia, passaríamos por loucos perante os nossos concidadãos, como diria Camus.
Traga mais um, se faz favor!
Sente-se bem? Já vai no quarto… Não quer comer nada?
Não. Já jantei. Mas tem razão. Traga-me antes um whisky… Traga lá, homem!
…E se a loucura se generalizasse, se cada um decidisse a sua própria subversão, seria a guerra civil. Mas neste caso, ou no caso de se dar uma única subversão de forma colectiva, a tendência será regressar a uma nova normalidade, assente em novos códigos. Mais simplesmente na segunda hipótese, com muita dificuldade na primeira. Mas lá se chegaria. Lembrei-me agora desta: é colónia ou província ultramarina que se deve dizer?... Não se assuste, isto é só conversa. E desculpe lá a linguagem, mas é que saí há pouco tempo da Faculdade de Letras. Bem, tenho de ir andando, tenho de voltar ao quartel. Sim, sou tropa.
Não quer que o ajude? Posso levá-lo…
…Não, obrigado. Estou como o aço, dentro de dias vou embarcar para a Guiné. Gosto em conhecê-lo, adeus e até ao meu regresso. Não se ria, senão choro. 

2 de junho de 2011

191-A PIDE andava por lá

Os primeiros-sargentos, da anterior e da actual, já estavam a falar ao pé da secretaria. Esta tinha uma sala com duas secretárias e um cubículo anexo onde era a casa de banho. A outra casa tinha dois quartos e uma casa de banho também. Nas traseiras das duas, um pequeno descampado, separado de umas palhotas com arame farpado.
“Neste quarto aqui fico eu”, disse o capitão, “Naquele ficam vocês os dois.”
 A casa não tinham janelas, só portas com uma paliçada em frente.
“É para não entrar nada pelas janelas, sabe-se lá…”, explicou o Braga, e convidou, depois de arrumadas as coisas de cada um:
“Vamos ali ao bar beber um copo.”
Já tardava. Disto é que ele sabia muito, era perito. E aprendi muito com ele, é verdade. Aos fins-de-semana, depois da instrução da companhia, dava-me boleia até Lisboa no seu Alfa Romeo e tive grandes noitadas na Cave, no Comodoro, na Taverna Imperial, bebidas, mulheres…e eu disso sabia pouco ou nada… no seminário não dava, e depois cá fora também não deu.
O bar ficava por trás daquelas casas, era uma barraquita muito pequena coberta de chapa, com um balcãozito que só dava para três.
“Não está cá ninguém. O barista da outra companhia deve estar a preparar-se para ir embora, mas isto agora é nosso. Os primeiros-sargentos estão a tratar. Whisky simples ou com água?”
“Com água”, disseram os alferes.
“Então estão aqui as perriers, é melhor que a castelo.”
Ficaram a conhecer as garrafinhas verdes da  água perrier. O capitão foi bebendo e falando.
“Quando chegarem os dos destacamentos estes gajos vão-se embora. Temos de montar guardas lá em cima no quartel e aqui em baixo. O primeiro-sargento há-de fazer as escalas. Você, Aiveca, amanhã vai comigo até à sede do batalhão, tenho de falar com o tenente-coronel.”
“Tá bem, vou avisar os furriéis”
“Não é preciso, é aqui a trinta quilómetros.”
“Sozinhos?!”
“Não há problemas, vamos só nós.”
Este sacana quando bebe passa-se dos carretos, pensei eu, mas não disse nada. Fomos, depois, para os quartos.
“Belas camas”, e assentei-me.
“ É como as mulheres, quando estamos à rasca qualquer uma serve”, e o Zé Pedro esticou-se ao comprido.
“Não é bem assim.”
“ Ai não, não é, ó filho, não percebes nada.”
“Talvez não.”
“ Mas ouve lá, vocês são malucos, irem-se meter por aí sozinhos, é arriscado.”
“O que é que queres, o gajo é que manda". Virei-me para o lado, não deu para mais conversa. O cansaço e o whisky venceram.
Parecia-me que tinha acabado de me deitar, que ainda era noite. Mas não, já era dia quando a porta se abriu e o capitão nos acordou.
“Temos de ir embora, Aiveca. Zé Pedro, você fica a mandar nisto, vá ver se está tudo bem no quartel e se o primeiro pôs a secretaria a funcionar, veja se está tudo nos conformes e a andar. Nós só voltamos depois do almoço.”
Já estava um jipe pronto, entrámos nele, cada um com a sua G3. O Braga foi a conduzir, passámos por um grupo de palhotas e metêmo-nos à estrada. Não se podia chamar tal, era uma picada muito má, a paisagem já não era novidade, árvores e erva muito alta à volta. A viatura ia aos solavancos.
“Ó capitão, ainda não percebi porque é que fui eu que fiquei na sede da companhia e não o Aprígio ou o Castro, acho que eles são mais capazes do que eu para aquilo.”
“É pá, para o que eu quero e é preciso não são, não é nenhum deles. O Castro é um bocado emproado e senhor do seu nariz, tenho receio que disparate coisas que eu não quero, o Aprígio é demasiado calmo, um bocado mosca morta, também não dá.”
“Mas eu não sou muito diferente deles, em certos aspectos.”
“É pá, mas eu já te conheço bem, deu para isso nas nossas andanças pelos bares de Lisboa… és um bocado nabo com as mulheres, mas isso para aqui não interessa nada. Eu tenho de ter alguém em que possa confiar plenamente para me dar segurança.”
“Mas eu acho que quer o Aprígio quer o Castro são seguros e não vão borrar nada.”
“Talvez, mas é em ti que eu tenho mais confiança.”
Foi uma viagem de poeira e buracos mas chegámos, sem problemas, de facto. Em ponto pequeno, mas parecia uma cidade. Fomos dar uma volta, tinha um mercado de paredes castanho avermelhado, algumas casas tipo colonial, outras normais, branco escuro do pó e da soalheira, um complexo com piscina e vista sobre o rio. Não era Lisboa, nada que se parecesse, muitíssimo longe, mas não desgostei. Bom para quem só tinha visto água e mato nos últimos dias.
“Só daqui a meia hora é que tenho que ir falar com o comandante do batalhão, agora vamos ver um amigo que tenho aqui.”
Entrámos num restaurante pequeno.
“Olha o Braga”, exclamou um sujeito pro-gordo e careca que estava atrás do balcão.
“Cá estou de novo, grande Coelho”, e o capitão abraçou-se a ele.
“Outra vez?”
“É, mas agora é diferente, venho comandar uma companhia, este aqui é um dos alferes.”
“Ah, tá bem. Vão uns camarõezitos?”
“Venham eles. O Alberto anda por aí? Queria falar com ele”
“Tá aí, tá. Ó Mamadu”, virou-se para um preto que estava lá,” vai dizer ao senhor Alberto que está aqui o capitão Braga e quer falar com ele”.
“Sim, patrão”.
Apareceu depois um tipo baixo, de bigode e cabelo preto, cara de poucos amigos. Ar um bocado soturno, pareceu-me. Sorriu para o capitão e cumprimentaram-se.
“De novo?”
“Mas não é a mesma coisa”, repetiu o Braga.
“Eu sei”, disse o Alberto e juntou-se nos camarões e na cerveja.
Depois de um copo, lançou, com ar sacaninha:
“O Coelho só tem um tomate, tiveram que lhe cortar um”.
“Tive uma merda qualquer, teve de ser. Mas o meu nome diz tudo, pá, continuo em acção. Nenhuma se queixa, nem a minha mulher”.
Virou a cabeça para trás, um bocado atrapalhado, para ver se estava a mulher ao balcão. E estava, tinha vindo para ver os visitantes. Era baixa, um pouco cheia, de cabelos alourados, cara bonita. Viu-se que pensou alguma coisa, mas não disse nada.
“Olá D. Ester”, cumprimentou o Braga.
“Olá, por cá?”
“É verdade, tem de ser”.
Passou algum tempo e estava quase na meia hora.
“Tenho de ir, depois volto cá para almoçar. O alferes Aiveca fica aqui à minha espera, a não ser que queira ir dar uma volta”.
“Não, já vi o que era de ver”.
“Eu não me vou demorar, com certeza”.
“Eu vou também. O tenente-coronel disse-me que vinhas e pediu-me para ir contigo”.
“Bora, então, Alberto”.
E eu fiquei, agarrado ainda aos camarões e a uma imperial. Estava intrigado sobre quem seria aquele gajo. Não estava fardado… não compreendia por que é que ia também à reunião com o Braga. O Coelho tinha ido para o pé da D. Ester, conversavam baixo. Parecia explicar qualquer coisa, mas ela dava ar de não compreender, cara cerrada, acabou por se ir embora. Ele voltou para a mesa.
“Os camarões estão bons?”
“Muito bons”.
Agarrou-se também a um bicho e deu-lhe para falar.
“Aquele Alberto é um brincalhão, mas tem sido um elemento muito importante contra os turras”.
“De que companhia é ele?”
“Ele não é militar, é o homem da Pide aqui na zona”.
De camarão em riste, olhei para o Coelho.
“O gajo espreme-lhes os tomates, salvo seja, até eles bufarem tudo cá para fora. Limpou o sebo a muitos que não disseram nada”.
Consegui tragar o bicho mas tive de beber meio copo para não me engasgar.
“Tem de ser, senão estes gajos fodiam-nos a todos. Você até tem sorte porque esta zona está mais ou menos bem, noutros sítios é que está mau, além de que aqui é zona dos fulas. Estão connosco, e o seu capitão já conhece isto, já esteve cá antes”.
“Já?”, manifestei-me surpreso, embora já tivesse percebido isso pelas conversas anteriores
“Esteve aqui na polícia há uns anos”.
Uns pretos assomaram à porta.
“Senhor Coelho, patrão, dá licença?”
“Tenho que ir ver o que é que estes nharros[1] querem. O que é, ó pá?”
Mergulhei na cerveja. Este sacana só me disse que tinha estado na polícia em Lisboa, quando era tenente. Que foi mobilizado depois de ser promovido a capitão. Que lhe tinham dito primeiro que ia para Timor, mas que o tinham fodido quando lhe disseram que, afinal, ia para a Guiné. Nunca me disse que já tinha cá estado. Devia estar mesmo fodido, acredito. A situação não é a mesma quando era polícia… e está explicado este à vontade com os pides.
O Braga e o Alberto acabaram por regressar. Era hora de almoço, e a D. Ester já tinha preparado um belo frango de chabéu, uma delícia que, regado com vinho branco fresquinho, eu nunca tinha provado.
“Muito bom!”, exclamei.
“Aqui há pratos bestiais”, disse o capitão, “e a mulher do Coelho é boa cozinheira, havemos de vir cá mais vezes”.
A conversa foi trivial, entre risos e piadas, mulheres, caju, mancarra, bebidas. A D. Ester, ocupada no balcão, não ouvia nada, ou fazia que. Só o Coelho é que derivou, a certa altura.
“Então como estão as coisas?”
O pide e o capitão trocaram olhares e este disse que estava tudo sob controlo.
Novamente no jipe de regresso à companhia, o capitão abriu-se.
“Temos que nos pôr a pau. Os gajos andam lá na nossa zona.”
Até me admirava se não andassem. Estava nas minhas previsões.


[1] Nome depreciativo dado aos pretos

2 de maio de 2011

132-Antropologia visual

A minha amiga Maria Carolina, em 1998/2000, fez o Mestrado em Relações Interculturais na Universidade Aberta. Mostrei-lhe umas fotografias minhas da Guiné (estas abaixo) e ela inspirou-se nelas para um dos seus trabalhos, a que chamou "Antropologia visual":




"Não se pode possuir a realidade, mas pode possuir-se (e ser-se possuído por) imagens". Susan Sontag

Fotografar é o acto pelo qual o fotógrafo capta um momento. Neste caso, o fotógrafo que faz a fotografia (porque não a tira, não é roubada, ela é antes um acto de colaboração) foi-o a pedido dos fotografados. O seu objectivo era obter um registo duma vivência única e ao mesmo tempo diversa para cada um dos elementos do grupo. A vivência de uma presença na guerra, numa terra distante, na Guiné, com aquele grupo unido por secretos laços de camaradagem.
E porque se trata de uma relação única, aquela fotografia é um marco e também uma marca. Ela está ali a consubstanciar todos os pormenores do momento: o número de pessoas, aqueles mesmos, não outros quaisquer, aquele lugar, as sensações, os sentimentos, as emoções, o silêncio. Ela está ali há 30 anos, testemunho vivo, porque todos os testemunhos são vivos apesar daquelas imagens petrificadas pelo tempo, mas reveladoras, prenhes de uma vivência, uma voz que se agiganta quando se folheia o álbum.

"Este era um grupo muito especial. Éramos um alferes, dois furriéis, um cabo e seis soldados. Costumávamos fazer incursões no Senegal, para, nas aldeias, roubar vacas para comer. "

Havia essa necessidade, vital como a de comer, de, no futuro, disso fazer prova à memória, por vezes traiçoeira. Mas também de possuir, em substância, aqueles momentos fugazes, de secretos laços de camaradagem. É como olhar-se no espelho e observar-se ali com os outros. "Ali estou eu". Ali, naquele lugar concreto, aquela figura. Eu que não me posso ver, que só me construo por e na relação com os outros, que só me observo de dentro para fora. A fotografia é o espelho, dá-me a minha imagem com os outros, reflecte-me, constrói-me uma figura. E ao vê-la, por alastramento, eu acrescento-lhe o conteúdo, impregno-a dos sentimentos, e emoções que são o lastro da minha memória. Esta relação dialéctica entre a fotografia e o fotografado, mais tarde observador também, que dá significado à fotografia, que a faz pulsar, mesmo que aparentemente morta, num vai-vem entre um passado que foi presente e um presente que foi futuro, numa atmosfera irreal.
E ali estão todos, na pose que idealizaram para ficarem "fixados" naquele presente e serem "transportados" ao futuro. De acordo com a hierarquia, o alferes no eixo vertical central, em posição de destaque, em pé. Em volta, descendo na hierarquia, os furriéis e, alargando-se para o eixo horizontal, mais igualitário, os soldados, formando uma pirâmide de base alargada. O grupo ocupa toda a fotografia. É um grande plano. O que importa para a memória do futuro, lá longe, no continente, é o grupo, a sua ligação, as suas recordações. A fotografia é assim a reificação duma relação "estatificada", com aquelas pessoas, num determinado tempo (1968/69) num determinado local, em Barro, quase esquecida no mato, na guerra colonial, na Guiné. Ao fixar aquele momento, o fotografado, por acção do fotógrafo, quis "construir um monumento" que vencesse o esquecimento. Na sociedade de consumo, as fotografias consubstanciam a "massificação" dos heróis: do herói individual, de cada momento, de cada vivência única, das vivências únicas que se multiplicam e que, por serem únicas, necessitam de registo. A sua multiplicação permanente toma-as fugidias e por isso urgentes de memória. Todo o acto na vida do indivíduo se "inflaccionou" em rito de passagem. É o nascimento, a saída da maternidade, a 1ª mamada, o 1°banho, a 1ª papa, o 1° mês o 2°mês, do 1°dente, o 1°passeio, o 1°brinquedo, o brinquedo preferido. São tantos os momentos a registar, são tantos os marcos a assinalar! Tudo se esvai a uma velocidade impossível de estancar. A falta de tempo para agarrar o momento erige um único em monumento. Agarra-se pela fotografia. Pretende arrumar-se a memória. Quando dele necessitarmos, está à nossa disposição, arquivado no álbum para nos aclarar a memória.
A linha de montagem da produção não o é só para a mercadoria, é também para a memória. Por todo o lado, em qualquer ocasião, por mais banal que nos pareça, a câmara lá está, pronta a produzir memória. É só carregar no botão.
Também aquele foi único. Único para cada um dos protagonistas. A câmara imortalizou-o. O futuro seria de ausência. É a nostalgia dessa ausência o que reune aquele grupo de homens, com ar sério, solene, numa postura de alguma descontracção fisica, mas de preocupação interior. Nas suas mentes perpassam imagens de separação. Os olhares estão distantes, evitam o confronto com a câmara, como que a recusar um certo mergulhar no seu interior, o desvendar do que lhes vai na alma. Ou evitam o confronto com o futuro, consigo próprios, quando observadores da fotografia. A recusa é esquiva, fugidia. No entanto, ali ficou, consubstanciada. Só dois olhares enfrentam, com frontalidade, essa incógnita.
No limite esquerdo, uma cabeça, quase invisível, espreita. O seu corpo, bem visível, parece nem lhe pertencer, tal é a preocupação de evitar o confronto com a câmara. Aliás, toda aquela área quase parece tentar escapar-se da fotografia. Os tronco que constituem a paliçada como que se sobrepõem aos soldados, tornando-os ainda mais reduzidos. No limite direito, pelo contrário, o alferes em pé, isolado, quase que constitui uma outra unidade significante. Há uma distância física que o separa dos restantes. Não é muita. Possivelmente a câmara não lhe deu tempo de ajustar a pose. Por outro lado sente-se um certo desprendimento, algum desinteresse. Este espaço visível poderá ser o reflexo duma demarcação territorial psíquica, de um menor envolvimento.
Um outro elemento que nos salta à vista é o facto de os únicos três brancos do grupo, o alferes e os dois furriéis, se encontrarem todos em posição de destaque, o que corresponde à realidade hierárquica.
A incorporação no exército traduzia-se num rendimento muito acima da média. Os autóctones, dada a situação de guerra, tinham poucas oportunidades de trabalho, ainda por cima bem remunerado, ali tão longe da capital, nas aldeias praticamente perdidas na mata. Barro fica junto da Mata do Oio, mata praticamente impenetrável, salpicada de pântanos com capim de muito mais de 1 metro de altura, onde os guerrilheiros eram "reis". Terreno de muito difícil acesso em termos físicos e também de difícil penetração em termos militares, necessitava o exército de autóctones, quer como guias, quer como militares que se sentissem à vontade no terreno. As operações no mato necessitavam, para serem bem sucedidas, destes elementos, que, com alguma frequência, estavam do lado dos guerrilheiros. A guerrilha, bem armada, e também com o apoio da população e até de alguns militares incorporados, conseguia um equilíbrio de forças, muitas vezes instável, que levou ao reconhecimento, por parte das chefias portuguesas, de que aquela guerra era um beco sem saída.
Quando, em Janeiro de 1998, "o nosso fotógrafo" volta à Guiné para agarrar um pouco dessa vida perdida no mato, aos 20 anos, e também para arrumar as ideias sobre o livro que iniciou sobre a sua experiência na guerra, lá estava o mesmo chefe de Tabanca (fotografia C), agora com 90 anos, forte como um baluarte na sua coerência, outrora apoiante da guerrilha e do PAIGC, gerindo diplomaticamente a amizade com o militar para mais facilmente "jogar" o xadrez da revolução, agora o ancião, o conselheiro, o sábio, de alguma forma amargurado com os trilhos perdidos após a independência.
E este encontro foi o reviver duma relação de amizade urdida em muitos meses de comunhão de um espaço, sedimentada por uma identidade de valores que, afinal, estavam dos dois lados naquela guerra, sem sentido também para muitos daqueles que a faziam.
Guerra que está presente em ambas as fotografias (A e B). Pressentimo-la pelas fardas, a paliçada, as armas (fotografia B). Mas neste caso a exibição da metralhadora e do morteiro é como que uma espécie de encenação, Ela não me puxa pelo fio das minhas lembranças. O ar despreocupado dos fotografados dá-nos a ideia de que tudo é uma brincadeira e possivelmente em muitos dos momentos assim teve que ser encarada aquela situação de pressão psicológica extrema. A brincadeira com a função de descomprimir, fazer esquecer, para se aguentar a tensão dos momentos de violentação que eram os ataques, e as mortes daí decorrentes. Como observadora, foi a fotografia A que me espoletou a recordação de guerra, a real, não a da História ou das histórias, a guerra dos homens concretos, aquela que nós sentimos, que conhecemos, quando para isso estamos maduros. Até lá, há todo um caminho a percorrer, de muita surdez, ou falta de vista, incompreensão. Porque compreender é ligar, envolver, tomar para nós. E só quando somos capazes de pegar nessa realidade do outro, "amassá-la" com a nossa, deixar levedar como o pão, é que então estamos capazes de entendimento, de compreensão. Processo difícil, longo, que necessita de um grande esforço de deslocação, de descentração, sem no entanto se perder o Norte, "a nossa bússola, a nossa identidade", os princípios, os valores, corporizados fundamentalmente no respeito pelo Outro.
A conjugação do olhar directo com a fuga do olhar, as fisionomias sérias, o olhar carregado, os traços bem marcados do soldado negro, sentado, são sinais de dúvida, de incerteza. As imagens da minha infância agigantam-se. Aos meus ouvidos, o ressoar de "Angola é nossa" ao som abafado de botas a marchar em sintonia. Guerra era aquele som, misturado com mensagens de Natal na rádio e na televisão, e os navios apinhados de homens a largar o cais, e muitas mãos no ar a acenar, e o filho daquela vizinha da minha avó que veio fechado num caixão, tinha eu 10 anos. Ele que nunca tinha saído da aldeia, aos 20 anos atravessou o mar, cruzou os continentes, em busca da morte, lá tão longe. Veio fechado num caixão e nunca mais ninguém o pôde ver. Essa, a ideia que me ficou da morte. Um caixão fechado, misterioso, e a repetição até ao infinito daquele marchar de botas, acompanhado de "Angola é nossa". Na minha cabeça as ideias misturavam-se e assentavam todas naquele bocadinho de mapa, com palmeiras, umas bolas maiores e outras mais pequenas a assinalar as cidades, com mulheres negras com os filhos às costas. E o meu receio era que a guerra saltasse daquele mapa para este outro mapa onde eu estava.
Guerra era ainda aquela voz que mais tarde aprendi que era do Salazar. E era só a voz a encher a rádio, que as palavras não tinham para mim sentido.
A guerra preencheu o imaginário da minha infância.
Mas a guerra só a vi, alguns anos mais tarde. Já não era a guerra da minha infância, quase invisível, de palavras sem sentido. Era a guerra de corpos calcinados, ou feitos em pedaços, de olhos secos raiados de revolta, de silêncios perfurantes como lanças. Era mais uma guerra, absurda, devastadora, única, pelos meios cada vez mais refinados, sempre igual, repetida, pelos efeitos de aniquilação. A geografia desta guerra era outra, as razões sempre as mesmas: impedir que o Outro fosse Outro, cada um conjugando as suas razões.
E a nossa guerra, aquela onde os mortos eram invisíveis, mostrou o seu rosto, pelas mãos da Liberdade. Nessa altura, as fotografias dos horrores deste povo de brandos costumes. invadiram-me a retina: corpos despedaçados, cabeças penduradas em paus. Aquela guerra­ queria dar testemunho de que a morte se pode fazer com as próprias mãos, com prazer ou com raiva, ou com tudo à mistura. Porque a guerra é uma fábrica de morte. A sua essência é o paradoxo. EU-VIDA, OUTRO-MORTE.
Foi esse paradoxo que acompanhou "o nosso herói" nesta guerra. As recordações escorrem-lhe destas fotografias e à mente vêm as visões malditas, enterradas, bem fundo:
O silêncio pesou.
A morte concreta, uma vontade que conjuga a morte porque quer conjugar a vida, a própria.
No teatro de guerra, as cenas sucediam-se. A morte, sempre presente como ideia pairando, era uma realidade, mas aquela morte era um produto do seu disparo.
E muitos mortos aconteceram, fruto de conjugações absurdas.
Perdidos no mato, estão os espíritos dos que não queriam morrer, aos 20 anos, ou até mais novos, se pensarmos nos guerrilheiros, ou mais velhos, que importa. Fundo, nas consciências de cada um, continuam a fazer a guerra, a guerra mais difícil de vencer.
É preciso não calar os espíritos, dar-lhes voz, ouvir as suas razões. É urgente pôr tudo no seu lugar. Fazer regressar os mortos à sua terra, num caixão selado, não dá aos mortos o seu lugar. O seu lugar é nas palavras. Escritas, sulcando o papel. É a catarse. Reproduzidas. Lidas. Regressando à consciência. É a renúncia. Derramada num livro que está em construção para que os mortos ocupem o seu devido lugar.