Lembranças da Guiné, na guerra e já fora dela. Pesquisa, comentários e factos. A memória sempre presente. Não está por ordem. É conforme me vou lembrando. Tudo o que tem a ver com a Guiné, a sua história, as etnias, a colonização e as guerras de resistência. Também a minha experiência durante a guerra colonial (está nos primeiros posts). Para quem não sabe ou viveu que veja e avalie se é realidade ou ficção. Para quem sabe ou viveu são lembranças.
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26 de abril de 2012
469-Stress de guerra demora a ser reconhecido
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A. Marques Lopes
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stress de guerra
4 de dezembro de 2011
314-Stress de guerra
Stress de guerra
"doença envergonhada"
António Melo
Os sentimentos são contraditórios. Querem protagonismo, mas hesitam no instante da afirmação. Solicitam um difuso anonimato, receando o confronto com uma sociedade que sabem pouco receptiva aos fracos. Estão debilitados. querem apoio, mas recusam a piedade. São doentes, alguns inválidos, de uma guerra que lhes atordoou a memória.
O nome é críptico. A "perturbação pós-traumática do stress" foi diagnosticada pelos médicos norte-americanos que acompanharam os soldados que estiveram no Vietname, mas nos países europeus há ainda uma certa relutância em compreender o diagnóstico desta afecção.
O momento agudo, crítico, do stress é facilmente identificado, mesmo por um leigo. Um choque emocional é visível Mas, à volta da vítima, todos esperam que ela possa recuperar - ou pelo menos "esquecer". Assim acontece até que um dia, 20 anos mais tarde, num momento de crise da meia-idade, por insucesso profissional ou pessoal, a "ferida encoberta" reabre-se.
A nossa memória é um armazém labiríntico onde todo o passado se guarda. o fiel desse armazém - 'ego', 'espírito' ou 'consciência' - encarrega-se de seleccionar as recordações que envia à superfície. Por hábito escolhe as imagens felizes e galhofeiras, que sabe serem as mais gratificantes no convívio social. "Tristezas não pagam dívidas", é a expressão popular desta conduta, que deixa o eficiente fiel com frequentes problemas de arrumação dos stocks. Obrigado a responder às diversas solicitações da vida social, sabe que as recordações que provocam "frisson" são as de maior sucesso na assistência e fazem do seu mestre o centro (momentâneo) das atenções. O problema é quando tem que re-arrumar a "tralha" da noite, finda a festa
Sozinho consigo, longe do vozear familiar que entontece mas também dá segurança, as imagens recusam a autocensura e impõem-se na mente que tanto fez para as esquecer. O que elas dizem é que a realidade foi dolorosa, inesquecível, que o medo foi algo de fortíssimo, que a comoção nervosa deixou marcas indeléveis no cérebro, que a fractura invisível é pior do que a mutilação física
Quantos reagem assim, a evidenciar os sintomas da "perturbação pós-traumática do stress", sintomas recorrentes de uma guerra que travaram há 20 ou 30 anos? O psiquiatra Afonso de Albuquerque sustenta que na sociedade portuguesa há entre 100 a 140 mil cidadãos nos quais a experiência das guerras travadas no então ultramar, contra os movimentos de libertação das colónias provocou um estado crónico de "perturbação pós-traumática do stress" (PTSD).
Ao interlocutor externo, o primeiro contacto revela-se banal. A troca de palavras é a usual, talvez haja uma certa crispação, que tanto pode ser devida ao PTSD como ao formalismo da apresentação, sendo o local aprazado para o encontro o Hospital Júlio de Matos, em Lisboa. Só mais tarde, num contexto de quase terapia de grupo, com o psiquiatra Afonso Albuquerque e a psicóloga Fani Lopes presentes, esta formalidade se desfaz. Citam-se, mesmo assim resvés, as experiências traumatizantes que ainda hoje são origem de pesadelos. Um tormento que pode surgir no sono ou ser desencadeado por um ruído, um ambiente que faz saltar de um canto da memória um reflexo instintivo de autodefesa
É num estado de excitação, quase de raiva, que um dos presentes solta o grito da angústia que nunca mais o deixou de há 30 anos a esta parte. Vê e revê o acto que lhe trouxe o louvor por feitos em combate. Não quer louvor que o obriga a ter que aceitar um acto de coragem que foi obrigado a praticar. Um que o fez passar por uma situação indesejada e da qual guarda recordação traumatizante: a de um fuzilado que regressa ao mundo dos vivos.
Episódios
R. Marques tinha 20 anos quando partiu para a guerra. Meses depois viu-se envolvido na emboscada que não esquece, Ia numa Unimog, sentado com o resto do pelotão na banqueta transversal. Logo que começou o tiroteio saltaram para se proteger, incluindo o motorista, que nem sequer parou a viatura. Marques quis saltar, mas um dos arreios prendeu-se na armação do assento e lá foi ele, alvo fácil, levado pela camioneta rega, atravessar a zona emboscada. Só sabe que esvaziou os carregadores nos minutos eternos que durou aquela travessia. Parece que a sua intervenção, completamente desatinada para olhares exteriores, levou a que a emboscada malograsse, com a retirada dos atacantes. Quando finalmente o Unimog embateu numa elevação e parou o tiroteio, o seu solitário estava vivo mesmo se nos primeiros momentos nem ele próprio nisso quisesse acreditar.
Não mais esta viagem alucinante lhe abandonou a memória, mesmo se à sua volta todos diziam que era “um tipo com eles no sítio”, capaz de matar a própria morte. Títulos que ele não reivindicou e não lhe vão com o corpo franzino. Mas não é o aspecto exterior que dá solidez interior. Não é o corpo, mais ou menos imponente, que faz a vítima.
A. Almeida tem dotes de líder natural, reforçados de plácida bonomia. Para ele, falar do que foi a sua guerra é um exercício doloroso. Ainda hoje está dividido pelo impulso da deserção, que o pai lhe terá chegado a sugerir, e o sentimento de um dever a cumprir. Dever não para com o regime salazarista, que detestava mais visceralmente do que por postura ideológica. Dever de homem, dever para si mesmo, para que se visse que não havia ali ponta de cobardia - "quem há-de fugir à guerra sendo homem como eu sou" dizia o "Canta Camarada, Canta", entoado pelos meios estudantis em rebelião. E certo que esta guerra que cantava a solidariedade, era precisamente contra quem o obrigava a fazer uma outra guerra, que não queria. Mas envolvido por sentimentos contraditórios sentiu que devia cumprir o dever.
Há uma reserva quase atávica em falar do assunto. E outro caso de coragem, A companhia ficou a admirá-lo - "mas ninguém podia saber corno estava por dentro quando me estendi numa cama".
A granada de morteiro ficara cano, desafiando quem a fosse lá tirar. Mas não havia outro processo senão ajudar o angustiado apontador de tiro, ansiando por poder fugir, mas sem poder. Para encurtar explicações, a ejecção não se dera: porque a pastilha detonadora estava deteriorada ou mal colocada? Se fosse esta segunda hipótese, bastava um deslizar mínimo, uma trepidação mais forte, para que o peso do morteiro accionasse a pastilha e explodisse no aquartelamento. Foi preciso serenar o apontador de tiro, dar-lhe confiança de que tudo ia correr pelo melhor. Era só uma questão de sangue-frio: fazer descair milímetro a milímetro o cano, de modo a que o peso do morteiro o fizesse deslizar para a boca. Nessa altura o apontador de tiro puxá-lo-ia cautelosamente, até que se pudesse retirar a pastilha detonadora. De facto tudo correu bem. Ali. O pior foi quando se "estendeu numa cama".
A perturbação
Os exemplos exteriores de coragem não são uma norma na sintomatologia do PTSD. Pode ser a visão do camarada morto, ao lado de si, quando de um lado e de outro estoiram tiros e morteiros. Pode ser a expectativa de um campo de minas que teve que se atravessar, um interrogatório de um prisioneiro que terminou em tortura e morte...
Muitas causas podem determinar um estado idêntico de perturbação. O que ressalta no contacto próximo é uma agressividade latente, sempre pronta a irromper, por motivos aparentemente menores. "Baixa afectividade, baixa comunicação e alta hostilidade" são atitudes que orientam a conduta das pessoas atingidas pelo PTSD.
No interior do indivíduo, os fenómenos que provocam este estado são mais complexos. Caracterizam-se por pesadelos frequentes, uma vez por semana ou mais, trazendo as mesmas imagens de angústia. Mesmo em estado de vigília é habitual surgirem essas imagens, em "flashback", mas revelando-se cerebralmente com tanta nitidez que o indivíduo assume comportamentos de autodefesa. Tudo isto apesar das mil e uma cautelas para evitar tudo o que faça recordar aquela situação, sejam filmes, séries televisivas ou fotos de revistas.
Em relação aos seres mais próximos, designadamente a família, assiste-se a um embotamento afectivo, a uma efectiva dificuldade de relacionamento, a um cada vez menor, senão nulo, investimento emocional nas relações com o cônjuge,
"Nunca disse o que vi e vivi" - o que se viveu realmente, não as histórias de virilidade contadas em grupo de ex-combatentes e regadas com cerveja ou whisky. J. Santos explica que só com o tratamento de terapia de grupo, sob a orientação de Afonso de Albuquerque e Fani Lopes, principiou a desfazer-se desta reserva que o impedia de contar o que "vi e vivi".
A possibilidade de falar com outros sobre o que realmente viveram abriu algumas portas de serenidade. Converteu-se até numa "necessidade" mesmo sem sessão de terapia. Multiplicar os pretextos para isso pode ser um bom sistema, criar objectivos comuns melhor ainda. […]
O tratamento da "ferida encoberta", na expressão de Afonso Albuquerque, não a vai sarar completamente. O regresso à tranquilidade, à paz de si e consigo, o regresso a um relacionamento afectivo, à actividade profissional a cem por cento, são objectivos longínquos, talvez não alcançáveis. Mas, pelo menos, recupera-se um certo autocontrolo, uma capacidade de diálogo que recentra o indivíduo no meio familiar e torna amável o seu convívio. Em resumo, traz-lhe de volta uma qualidade de vida que já esquecera, agradável para o próprio e útil para a sociedade.
Jornal "Público", 29 de Junho de 1994
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stress de guerra
29 de novembro de 2011
309-Lembranças e stress
Extractos de um artigo de Luís Quintais, inserto na revista "Etnográfica", Vol. IV(I), pp. 61-88. Diz o autor:
«Este artigo parte de uma experiência de terreno num contexto psicoterapêutico(Serviço de Psicoterapia Comportamental. Hospital Júlio de Matos. Lisboa) no qual um conjunto de ex-combatentes das guerras coloniais portuguesas diagnosticados com a desordem de stress pós-traumático redescreve as suas experiências de guerra e. neste processo. atribui sentidos e inteligibilidade ao seu percurso de vida O autor mostra como este trabalho de redescrição e de reconstituição da memória é realizado. na prática. com o apoio e a persuasão dos terapeutas. sustentando-se numa matriz vocabular e em módulos narrativos com implicações morais. históricas e politicas só parcialmente investigadas.»
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308-Mulheres de ex-combatentes
Para toda a vida
A viver de perto com agressões físicas e psicológicas às mulheres de ex-combatentes, Ana Conde, psicóloga da Associação de Deficientes das Forças Armadas do Porto, fala deste mundo escondido e pouco conhecido. Todo o trabalho começa pelo apoio aos ex-combatentes. Como as mulheres geralmente acompanham os maridos, ficam a par das situações. Assim, "damos acompanhamento à família toda, mesmo aos filhos que têm problemas pelos padrões de família onde estão inseridos".
Levando a conversa exclusivamente para o campo feminino, que aqui os homens já tiveram muito espaço, Ana Conde "tem diagnósticos de depressões graves, esgotamentos. Acho que as mulheres estão cansadas de serem mães, amigas, amantes, pois não têm ajuda dos maridos. Têm um casamento menos feliz, porque eles isolam-se de tudo. Por isso, as mulheres têm um papel muito mais activo na família, têm de fazer tudo. E é engraçado que elas, muitas vezes, os acompanhem às consultas no intuito de ajudar e tentar perceber o porquê de certos comportamentos, o porque é que ele ficou assim se não era assim?, porque é que rasteja durante a noite?, porque me bate a sonhar?, porque fala crioulo? Elas estão extremamente cansadas".
Refere Ana Conde que muitos casais destes dormem separados. O que é normal. Eles têm um sono agitado, pesadelos. Esta separação vai criando um afastamento significativo entre o casal. "A mulher vai perdendo o interesse, muitas vezes cansada de maus tratos ao longo de muitos anos, não há desejo. A medicação específica que eles tomam baixa a potência sexual. Há uma diminuição da auto-estima do ex-combatente e é mais fácil acusar as mulheres de que assumirem que precisam de tratamento". A contrariar tudo isto está o número reduzido de divórcios. Ana Conde vê uma explicação na "nossa cultura. Elas dizem: foi este companheiro que escolhi e venha ele como vier tenho de assumir o compromisso. Há um padrão cultural muito forte ligado ao catolicismo. As mulheres assumiram o compromisso e sofrem os maus tratos. É a típica frase: É meu marido, tenho de o aceitar como ele é. E mesmo: O que é que os vizinhos irão dizer?". É difícil modificar padrões. Uma esposa de um doente com stress de guerra, não sendo possível generalizar, terá probabilidades de sofrer depressões, esgotamentos, ansiedade. "Tomam muita medicação. Tornam-se pessoas mais tristes, mas muitas delas com vontade de os ajudar e de os mudarem para voltarem a ser felizes". E os filhos? "Chegam aqui com dificuldade de aprendizagem na escola, não se inserem em grupos, são crianças que se isolam, porque ouvem o pai berrar e metem-se no quarto, revoltadas, ansiosas, apresentam muita irritabilidade. Muitas delas são crianças agressivas. São os padrões familiares que têm em casa. Têm a mãe num pedestal". Conta Ana Conde que quando pedem às crianças para fazerem o desenho da família elas colocam-se com a mãe no cantinho inferior esquerdo, e o pai no cantinho direito superior, afastadíssimo, muito sério, uma figura enorme por ser violento.
Em acompanhamento na Associação dos Deficientes das Forças Armadas do Porto têm cerca de 100 casos. Não são muitos para o número de consultas que fazem. "Eles não vêm cá. Fazemos domicílios, vamos a casa deles, e muitas vezes somos corridas, dizem que estão bem. Mas falamos com as mulheres e elas sofrem. Tenho uma senhora que me diz que não ganha para portas". Conta Ana Conde um caso, associado a abuso de álcool e drogas, "extremamente agressivo. A senhora diz que não pode deixar o marido. É agredida quase todos os dias. Tem um filho fora que quer que ela vá viver com ele e ela não vai. A maior parte destas pessoas casaram para toda a vida. Esse papel é negativo, pois sofrem toda a vida. A senhora já deu entradas no hospital e não faz queixa porque não consegue incriminar o marido de nada".
Num trabalho esgotante, porque é difícil desligar-se dos casos, do que ouve, a psicóloga tem as histórias gravadas em si. "Situações de agressão muito violentas. Uma senhora contou-me situações que acho impensável que um ser humano as faça a outro". Depois, como os ex-combatentes são pessoas isoladas, as mulheres também vivem esse isolamento "porque não é autorizada a falar com os vizinhos ou a viver com outras pessoas".
Refere Ana Conde que elas tentam levar uma vida normal, "mas não conseguem. Há sempre a angústia de saber como é que ele vai entrar em casa hoje". Há muitas histórias, com algumas diferenças, mas semelhantes. E, depois, há a agressão psicológica "que muitas vezes dói mais do que uma bofetada. Porque a mulher o quer matar, porque nunca o amou, anda com outros, não desperta o desejo no marido, nunca o ajudou. E, mesmo assim, elas não os abandonam".
Quando não se coloca a possibilidade do divórcio há, para as mulheres, "o acompanhamento psiquiátrico e psicológico". Se ao ler isto sentir que vive uma situação idêntica, não hesite em contactar qualquer associação dentro desta área, ou mesmo hospitais ou centros de saúde, pois têm o dever de aconselhar.
Levando a conversa exclusivamente para o campo feminino, que aqui os homens já tiveram muito espaço, Ana Conde "tem diagnósticos de depressões graves, esgotamentos. Acho que as mulheres estão cansadas de serem mães, amigas, amantes, pois não têm ajuda dos maridos. Têm um casamento menos feliz, porque eles isolam-se de tudo. Por isso, as mulheres têm um papel muito mais activo na família, têm de fazer tudo. E é engraçado que elas, muitas vezes, os acompanhem às consultas no intuito de ajudar e tentar perceber o porquê de certos comportamentos, o porque é que ele ficou assim se não era assim?, porque é que rasteja durante a noite?, porque me bate a sonhar?, porque fala crioulo? Elas estão extremamente cansadas".
Refere Ana Conde que muitos casais destes dormem separados. O que é normal. Eles têm um sono agitado, pesadelos. Esta separação vai criando um afastamento significativo entre o casal. "A mulher vai perdendo o interesse, muitas vezes cansada de maus tratos ao longo de muitos anos, não há desejo. A medicação específica que eles tomam baixa a potência sexual. Há uma diminuição da auto-estima do ex-combatente e é mais fácil acusar as mulheres de que assumirem que precisam de tratamento". A contrariar tudo isto está o número reduzido de divórcios. Ana Conde vê uma explicação na "nossa cultura. Elas dizem: foi este companheiro que escolhi e venha ele como vier tenho de assumir o compromisso. Há um padrão cultural muito forte ligado ao catolicismo. As mulheres assumiram o compromisso e sofrem os maus tratos. É a típica frase: É meu marido, tenho de o aceitar como ele é. E mesmo: O que é que os vizinhos irão dizer?". É difícil modificar padrões. Uma esposa de um doente com stress de guerra, não sendo possível generalizar, terá probabilidades de sofrer depressões, esgotamentos, ansiedade. "Tomam muita medicação. Tornam-se pessoas mais tristes, mas muitas delas com vontade de os ajudar e de os mudarem para voltarem a ser felizes". E os filhos? "Chegam aqui com dificuldade de aprendizagem na escola, não se inserem em grupos, são crianças que se isolam, porque ouvem o pai berrar e metem-se no quarto, revoltadas, ansiosas, apresentam muita irritabilidade. Muitas delas são crianças agressivas. São os padrões familiares que têm em casa. Têm a mãe num pedestal". Conta Ana Conde que quando pedem às crianças para fazerem o desenho da família elas colocam-se com a mãe no cantinho inferior esquerdo, e o pai no cantinho direito superior, afastadíssimo, muito sério, uma figura enorme por ser violento.
Em acompanhamento na Associação dos Deficientes das Forças Armadas do Porto têm cerca de 100 casos. Não são muitos para o número de consultas que fazem. "Eles não vêm cá. Fazemos domicílios, vamos a casa deles, e muitas vezes somos corridas, dizem que estão bem. Mas falamos com as mulheres e elas sofrem. Tenho uma senhora que me diz que não ganha para portas". Conta Ana Conde um caso, associado a abuso de álcool e drogas, "extremamente agressivo. A senhora diz que não pode deixar o marido. É agredida quase todos os dias. Tem um filho fora que quer que ela vá viver com ele e ela não vai. A maior parte destas pessoas casaram para toda a vida. Esse papel é negativo, pois sofrem toda a vida. A senhora já deu entradas no hospital e não faz queixa porque não consegue incriminar o marido de nada".
Num trabalho esgotante, porque é difícil desligar-se dos casos, do que ouve, a psicóloga tem as histórias gravadas em si. "Situações de agressão muito violentas. Uma senhora contou-me situações que acho impensável que um ser humano as faça a outro". Depois, como os ex-combatentes são pessoas isoladas, as mulheres também vivem esse isolamento "porque não é autorizada a falar com os vizinhos ou a viver com outras pessoas".
Refere Ana Conde que elas tentam levar uma vida normal, "mas não conseguem. Há sempre a angústia de saber como é que ele vai entrar em casa hoje". Há muitas histórias, com algumas diferenças, mas semelhantes. E, depois, há a agressão psicológica "que muitas vezes dói mais do que uma bofetada. Porque a mulher o quer matar, porque nunca o amou, anda com outros, não desperta o desejo no marido, nunca o ajudou. E, mesmo assim, elas não os abandonam".
Quando não se coloca a possibilidade do divórcio há, para as mulheres, "o acompanhamento psiquiátrico e psicológico". Se ao ler isto sentir que vive uma situação idêntica, não hesite em contactar qualquer associação dentro desta área, ou mesmo hospitais ou centros de saúde, pois têm o dever de aconselhar.
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28 de novembro de 2011
307-Regressado...
Reencontrei-o à esquina da última noite. Apresentava-se. a assobiar a parte final de uma cantata de um conhecido autor dos anos 30. Trazia as mãos enfiadas nos bolsos e a gola do casaco arrebitada até à nuca. Pensei: sempre o mesmo. E a mesma ária de anos antiquíssimos e esta gola levantada para o pescoço como Se pretendesse com ela tapar o frio que nâo existia naquela noite quente.
Este homem conheci-o há muitos anos em Coimbra. Fomos companheiros na mesma e.escola; ambos percorremos juntos os mesmos espaços e perseguimos idênticos objectivos. A distância de muitos anos vem-me hoje à lembrança algumas das mais belas recordações que estabeleceram o primado da nossa amizade.
Recordo as circunstâncias em que nos conhecemos.
Tinha acabado o ano lectivo quando foram organizados em Coimbra uns torneios de atletismo. Eu tinha uma forte paixão pela prática do desporto, mas faltava-me de técnica e de força o que me sobejava de vontade; o meu amigo tinha a estrutura de atleta, nascera para ser campeão. E nisso eu o invejava. Na corrida para a meta - conhecendo como conhecia a minha debilidade física - tentei fazer batota: por duas vezes arranquei antes de soar o tiro de partida. Fui, naturalmente, eliminado. Perdera, assim, a secreta esperança de ver o meu nome nas crónicas desportivas dos jornais. Sem batoteiros a corrida logo se fez e o meu amigo ganhou a partida. Subira depois ao podium com o ar mais humilde deste mundo para receber a medalha de campeão. O seu nome passou para as páginas dos jornais definitivamente.
Ѳ
Outono chegara rápido e com ele Coimbra repovoava-se. Encontrei de novo o meu amigo junto aos portões da nossa escola, de mãos enfiadas nos bolsos a assobiar o antiquíssimo «Jumpin'g Jack». Falámos das corridas, das vitórias e das derrotas e concluímos ser para nós uma alegria imensa pertencermos à mesma turma. Iria principiar um outro campeonato para o qual eu partia desta vez em posição de vantagem: trazia do ano anterior uma nota distinta, enquanto o campeão dos estádios não dispunha mais do que a classificação que comporta o sofrível. Nada mais.
Os meses vararam os anos e a nossa posição nesta corrida escolar nunca se alterou, como nunca se alteraram em nós os sentimentos da amizade que em nós também moravam.
Um dia deixei de ver o meu amigo. Não voltara de férias. Este homem, filho de gente honrada, nascera no seio de uma família de grande abastança, cujas raízes assentavam nas terras da beira interior. O insucesso escolar nos últimos anos atirara-o para Mafra.
Certo dia - dia de muito inverno - recebi na minha velha casa de Coimbra um telefonema. Era a sua voz, uma voz que eu reconheceria nem que viesse do fim do mundo: «Estou lixado, pá! Vão mandar-me para a guerra».
Que poderia eu responder? Que poderia eu fazer pelo meu amigo? Decerto tinha razão para estar desencantado.
Meu pai era um velho general do Exército, combatente da rectaguarda de uma guerra que estava de nós tão distante como a lonjura do oceano. Os pedidos para as cunhas eram quase sempre pessoais e intransmissíveis. Conhecia bem meu pai, o seu feitio e o seu temperamento, e por isso sabia que não era fácil convencê-lo a aceitar o modesto pedido de um filho subalternizado. Ele tinha, de resto, a sua intervenção preparada para me libertar do pesadelo da guerra quando concluísse o meu curso - o curso que a família desejava e me impunha.
O tempo girou de novo e o meu amigo lá partiu. Sabia-o na guerra, mas não o seu paradeiro. Em Coimbra eu prosseguia a mesma vida, mantinha a mesma pedalada escolar sob os aplausos da família envaidecida, mesmo à beira de promoverem a doutor um elemento do clã. Mas nunca mais fui aos estádios: perdera há muito tempo as esperanças de me tornar vedeta, nem que fosse à custa da batota; e, já não tinha para aplaudir o verdadeiro campeão e gritar-lhe: «Força companheiro! és o maior».
Ѳ
Um dia cheguei a Lisboa e na mesma noite em que a esta cidade arribei dei por mim a percorrer sozinho as ruas do Bairro Alto e de S. Bento, de mãos enfiadas nos bolsos, a assobiar o velho «[umping'[ack». Lembrei-me do meu amigo que regressara há vários anos de Africa, que suportara ao longo de longos meses uma guerra da qual - eu, pequeno beirão - não consegui libertá-lo. Não lhe bastou só essa afronta: perdera nesse período, à distância de mais de 20 dias de barco, a mulher que amava, também nossa companheira de escola. Depois nunca mais subiu aos podia e até da candidatura ao título académico foi afastado.
Encontrei-o um dia, pouco antes de o reencontrar à esquina da última noite, sentado num bar, de copo na mão. Tal como eu, também o meu amigo começa a ter as têmporas grisalhas e uns finos vincos ao canto dos olhos como se fossem traçados por unhas ponteagudas.
A separação da mulher e dos filhos e o desaparecimento repentino do pai, cuja morte chegou na hora mais trágica de uma certa noite, abalaram violentamente a alma frágil deste velho companheiro. A conversa, entre um copo que se esvazia e outro que se enche, fui-lhe dizendo da minha compreensão sobre os seus problemas. E, com a autoridade intelectual que um "«dr» me confere, quase lhe falei do alto da cátedra - e esse o meu erro - para lhe explicar a existência de outros caminhos longe dos atalhos que percorre.
Para mim tornava-se difícil perceber a razão pela qual o velho campeão, meu companheiro de escola, se refugia na noite à procura da luz artificial dos bares e tem horror à solidão. Explicou-me que é por causa da crise da identidade. Não entendi ainda bem o que queria dizer com isso. Mas percebi que este homem, como tantos outros, tem a habitá-lo angústias que em mim não moram.
Tive um pai general que me ofereceu um posto na rectaguarda da guerra e não passei pelas vicissitudes porque passou um milhão e meio de cidadãos deste país. Durmo bem, escuso de recorrer a soporíferos para vencer insónias, tenho emprego estabilizado, possuo uma casa, virada para o mar e, quando em dias de festa vou aos bares, bebo apenas do melhor wishky. E o meu amigo, esse, que não teve um pai general, continua a beber, todos os dias, cerveja nacional. E todos os dias assobia a mesma ária.
in jornal "O diário", de 12 de Setembro de 1981
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29 de abril de 2011
128-Estava tudo louco
Foi na passagem de ano de 1968/1969. Eu estava em Bissau e disseram-me que tinha de ir montar uma emboscada perto do aeroporto, pois suspeitavam de um ataque lá. Deram-me um pelotão de uma companhia que tinha acabado de chegar.
Antes de ir, decidi ir ao Bar de Oficiais do QG beber uma cerveja. Fui ao balcão, pedi uma e fui sentar-me com ela num dos sofás que lá havia. Tentava acalmar-me, pois não me agradara nada ter de ir para o aeroporto armar uma emboscada. Estava em Bissau para curtir, não para isso, já me chegava no mato. No meio destas reflexões chega-se à minha frente um tenente-coronel. Já me tinham dito que ele era o gerente da Messe de Oficiais, chamavam-lhe “O Lavrador”, porque gostava muito de tratar de uma horta que havia na zona da Messe.
- “Não pode estar aí, nosso alferes”, lança-me ele.
Fiquei mesmo espantado. Não estava a ver porquê.
- “Não posso porquê, meu tenente-coronel?”, perguntei-lhe, sem me levantar.
- “Porque o seu camuflado está a sujar o sofá”.
De facto, era tudo gente fina que estava ali naquele bar. Camisas de manga curta e calças nº 2 limpinhas e passadinhas a ferro, impecáveis, sapatos pretos brilhantes. E eu, com o meu querido camuflado, pele da minha carne em muitos dias e noites de mato, com as minhas botas calcurreadoras de zonas de capim e de bolanhas. Ele estava já muito amarelado e debotado pelo uso, tinha até um buraco ou outro, destoava um bocado, é verdade, mas estava limpo, tinha sido lavado, as botas estavam limpas da lama do tarrafe. Levantei-me e vi que o grupo que estava ao balcão nos observava.
- “Não vejo nada sujo”, olhei para as pernas, levantei os braços e olhei para cada um, dei meia volta à esquerda e à direita e observei-me os flancos.
- “Não interessa, assim fardado não pode estar aí”.
Tinham-me mandado para uma emboscada e vinha agora este gajo com estas merdas. Fiquei com vontade de lhe ir ao focinho. Todo eu estava para isso. Um major que estava ao balcão topou isso e chegou-se a nós.
- “Tenha calma, nosso alferes. Meu tenente-coronel, deixe o homem beber a cerveja. Ele vai-se já embora, não é?”.
Não disse nada, bebi o resto da cerveja, pus a garrafa em cima da mesa com força e saí. Disseram-me depois que o major se chamava Carlos Fabião.
Atrás de mim veio um alferes que eu já conhecia, trabalhava no Gabinete de Justiça do QG. Tenho pena de me ter esquecido do nome dele, só sei que era magro, moreno, e tinha uma barbicha à passa-piolho.
- “É pá, se quiseres fazer queixa do gajo o Spinola dá-lhe uma porrada com certeza”.
- “Não faço nada. Quero que o tipo se foda e o Spínola também”, e fui-me embora.
Já com o pelotão em viaturas, a caminho do aeroporto, chegámos ao pé do palácio do Governador. Ao lado estava o edifício da Associação Comercial. Havia lá grande festa, janelas iluminadas, ouvia-se música de dança. Mandei parar.
- “Porque é que paramos, meu alferes?”, pergunta-me o furriel ao pé de mim.
- “Estou com vontade de ir ali e dar cabo daquela merda toda. A gente aqui e os gajos a gozar.”
O furriel abriu os olhos.
- “Mas isso não pode ser. Levávamos um porrada das grandes. Sobretudo para o meu alferes que está prestes a ir embora…”.
- “Está bem, tens razão. Mas daqui a uns meses vais perceber este sentimento. Vamos embora.”
E fomos para o aeroporto. Não houve nada e lá para as cinco da madrugada regressámos.
Fui para os anexos à Messe de Oficiais onde eu dormia e onde dormiam também vários alferes que estavam de passagem ou à espera de embarque de regresso. Apeteceu-me fazer qualquer coisa para acalmar a fúria. Olhei e vi um bidão que estava ali com garrafas de cerveja. É isto.
Agarrei em várias garrafas e comecei a atirá-las para cima dos telhados do anexo. Que gozo! Bum, bum! Em cima dos telhados de zinco, bum, bum! Ri-me á brava a vê-los sair das portas todos alarmados e em cuecas. Que merda é esta?, gritavam.
Viram que era eu e ficaram mais descansados, chamaram-me todos os nomes e voltaram para as camas. Fui também. Estava mais satisfeito, tinha desopilado.
De manhã, o Almeida Campos convidou-me para ir com ele à 5ª REP, ao Bento. Era onde se sabia de tudo, porque por lá passavam quase todos os que vinham ou ainda estavam no mato e contavam coisas, tudo, operações, ataques, mortos. Era o sítio das informações, por isso a 5ª REP, que era a Repartição de Informações do QG. Todos ficavam a saber coisas, todos e também os miúdos e miúdas que entre nós andavam a vender camarão, caju e mancarra ou a engraxar as botas dos mais aprumados. Muita coisa o PAIGC deve ter sabido através deles.
Comemos uns camarões e bebemos umas canecas. O Almeida Campos tinha sido apontador de obus lá para o sul, já não me lembro onde, e estava à espera de embarque para ir embora.
- “É pá, e se a gente fosse dar uma volta?”, pergunta-me ele.
- “Uma volta aonde?”
- “Para fora de Bissau.”
Não me desagradava. Mas como?
- “Mas precisamos de um jipe para isso”.
- “Eu requisito um jipe ao QG.”
- “E os gajos vão dar-to?”, duvidei.
- “Está descansado que eu conheço lá um sargento”.
E conseguiu-o. Largámos de Bissau, não sem antes metermos uns whiskys no bar da Messe de Oficiais. Chegámos a Nhacra eram horas de almoçar. Parámos numa tasca á beira da estrada para comer. Foi frango de chabéu regado a muito vinho fresquinho.
- “A gente podia ir mais longe”, estávamos bem aviados e eu já estava por tudo.
- “Claro”, disse-me ele, “metemos pela estrada sempre em frente e logo se vê”.
Grande homem, era dos meus!
Fomos pela estrada uma hora, duas horas, não sei, não deu para contar. Nada, não vimos nada pelo caminho, só mato dum lado e doutro, até que chegámos a uma povoação. Muita gente nos olhou admirada quando entrámos.
- “Eu acho que isto é Mansoa”, pareceu-me.
Era. Um grupo de militares veio ter connosco. Cumprimentos, interrogações. Que vieram cá fazer? Nada. Só passear.
Havia um jogo de futebol e fomos até lá para ver. No fim do jogo houve festa com muita cerveja e nós entrámos. Estivemos muito tempo, pensei.
- “Ó Almeida Santos, é melhor irmos embora que se está a fazer tarde.”
- “Tá bem. Mas antes vamos pedir aqui umas cervejas para o caminho.”
Eles deram-nos uma cervejas, e um fuzileiro, ainda agora não sei porque é que ele lá estava, pediu-nos boleia. Foi connosco.
Foi uma viagem de regresso muito alegre. O Almeida Campos foi a conduzir e eu ao pé dele, de pé, sempre a cantar. O fuzileiro ia no banco de trás. Íamos bebendo as cervejas ofertadas.
Já tinha começado a escurecer quando vimos ao longe as luzes do aeroporto. Eu de pé, agarrado ao para brisas e sempre a cantar. Às tantas o Almeida Campos sai da estrada. O jipe andou uns metros e espeta-se contra uma árvore.
Foi uma sensação já vivida, quando fui projectado pelo rebentamento da mina. Foram uns segundos, ou minutos? Não dá para saber, porque é um tempo de nada. Há o choque, ou o rebentamento, e a seguir é o vazio completo, sem pensamento, sem ah! nem oh!, só nos sentimos quando estamos no chão. Foi o que sucedeu. Dei por mim no chão, no meio do capim. Levantei a cabeça e vi o jipe a arder, ao meu lado o fuzileiro gemia, olhei melhor e vi o Almeida Campos sem dizer nada, estendido. Cheguei-me ao pé dele e peguei-lhe na cabeça. Fiquei alarmado pois a mão ficou-me cheia de sangue. O fuzileiro ainda mexe mas este não. Vi umas casas não muito longe. Levantei-me, bati às portas mas ninguém me respondeu. Estava preocupado com o Almeida Santos. Vi umas luzes que se aproximavam vindo do lado do aeroporto.
Era uma patrulha que viu as luzes feitas pelo jipe a arder e vinha ver. Foram eles que nos levaram para o hospital.
O Almeida Campos e o fuzileiro ficaram lá. Este tinha uma costela partida, vinha atrás e batera no banco da frente. O alferes tinha um lanho na cabeça e uma ferida profunda na perna direita. Eu não tinha nada, só a farda chamuscada, e regressei ao anexo da Messe de Oficiais.
No dia seguinte fui ao hospital. O fuzileiro tinha sido transferido para a enfermaria da Marinha. O Almeida Campos estava na cama com uma perna engessada, a cabeça ligada e… uma cerveja na boca. Riu-se para mim.
- “Estás bom, pá?”, perguntou-me.
- “Eu estou, mas tu não pareces.”
- “Estou, sim senhor. Cervejas não faltam”.
Um major, encarregado da peritagem, chamou-me para ir com ele reconstituir o acidente.
- “Ó meu major, nós íamos devagar. Houve qualquer problema com a direcção do jipe.”
Riu-se e mostrou-me o sulco dos pneus fora da estrada, eram uns vinte metros na berma capinada, antes da árvore em que batêramos.
Eu fui apenas testemunha. O meu amigo, que requisitou o jipe e ia a conduzir, que era mais antigo do que eu, levou uma porrada de prisão disciplinar, teve de pagar o jipe e ficou mais uns tempos na Guiné.
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stress de guerra
24 de abril de 2011
123-Ninguém me liga
A minha actual mulher, tinha 5 anos quando eu já estava na Guiné, diz-me sempre: "Não te repitas, já ouvi isso. Tens de compreender que são coisas tuas que já não dizem nada a ninguém." O meu filho mais velho, do primeiro casamento, chama-se Vasco (tinha de ser, nasceu em 1975) preocupa-se com a família (tenho dois netos) e uns sogros que moram perto, lá longe, na Amadora, não me liga muito, ou nada, eu é que procuro ligar-lhe. O mais novo, tem 16 e vai fazer 17 já em Maio, é o que compreendo melhor na sua incompreensão. Está comigo, mas percebo que as sua vivências estão a leste de 1974.
Tenho três cunhados, dois que estiveram em Angola mas nunca ouviram um tiro, outro que não foi para a guerra porque veio o 25 de Abril. Mandei-lhes o meu blogue mas calaram-se bem calados e não dizem nada.
Fui almoçar a um restaurante hoje. A minha mulher e o meu filho foram para a terra e eu fiquei sozinho. Um casal ao pé de mim. Liguei, como sempre ligo. Ele tinha estado no Hospital Militar de Lisboa. Falámos. Disse-lhe que tinha lá estado nove meses, Nada. Nâo deu nada, não quis conversa.
Destino. Andamos perdidos, sozinhos, valemo-nos a nós. Mas, no mato, tínhamos amigos que valiam por nós. Saudades.
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A. Marques Lopes
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23 de março de 2011
90-A "ferida invisível"
«Calcula-se que em Portugal haja 140 000 pessoas com distúrbios psicológicos crónicos como consequência das guerras coloniais. (Afonso de Albuquerque e outros, in Revista de Psicologia Militar, 1992)
(...)
No DSM-Ill[1] considera-se como critério de diagnóstico da PPTS[2] a pessoa ter experimentado um acontecimento fora da experiência humana normal, que provocaria stress a qualquer indivíduo. Portanto pode contrair a PPTS um indivíduo que tenha estado na guerra, ou que tenha sido vítima de uma catástrofe natural, ou que tenha tido a sua vida ou integridade pessoal ameaçadas por qualquer outra forma, para dar apenas alguns exemplos.
Mas as características da PPTS adquirem contornos especiais para as vítimas de traumas sofridos na guerra e sobretudo nas guerras não convencionais.
Pensamos que os indivíduos que sofrem deste distúrbio por terem participado nas guerras coloniais que o Governo Português provocou em Angola, Guiné e Moçambique, de 1961 a 1974, são afectados pelas circunstância especiais dessas guerras.
Em primeiro lugar, tratava-se de guerras injustas, anti-patrióticas, de agressão e domínio colonial. Por isso, a natureza da missão dos soldados portugueses era, à partida, extremamente ingrata, não mobilizadora moral e psicologicamente estranha aos interesses do indivíduo.
Este é, logo à partida, um factor de stress. O indivíduo sofria o conflito entre a necessidade de cumprir o seu dever militar e a estranheza e alheamento dessa missão.
É certo que o salazarismo conseguiu, inicialmente, convencer muitos portugueses que estavam a defender os interesses de Portugal nessas guerras. Sabe-se que a condenação inequívoca da guerra colonial, a oposição à guerra e a sua rejeição nos primeiros tempos foi feita apenas por um número muito reduzido de portugueses.
Só a pouco e pouco, devido principalmente à eficácia da luta dos povo das colónias e da acção das forças políticas mais consequentes em Portugal, foi ficando claro para um número cada vez maior de pessoas que a guerra era impossível de ganhar e que a única solução era a independência das colónias.
As reacções dos ex-combatentes aos resultados da guerra sofrem o impacto desta evolução. Há alguns que absorveram a ideologia racista e colonialista que lhes foi instilada no exército colonial, não se conformando com a derrota da causa em que acreditaram, havendo outros que foram adquirindo a consciência de que os seus interesses eram alheios àquelas guerras.
Seja como for, o soldado português que foi arrancado ao seu lar, à sua terra, ao seu trabalho, para ir combater em locais longínquos, em condições geográficas e climáticas completamente inabituais • rodeado do perigo permanente de morrer pelo rebentamento de uma mina ou numa emboscada, enfrentando uma população hostil em que era difícil distinguir o amigo do inimigo mas que, à cautela, era mais realista encarar como inimiga, sente que os sacrifícios que a guerra lhe exigiu foram absolutamente vãos devido ao resultado das guerras ter sido o inverso do perseguido pela política que elas serviam.
Este também é um factor que condiciona a sintomatologia da PPTS de ex-combatentes das guerras de África. A completa inutilidade do sacrifício feito.
Este sentimento ainda era mais agravado pelo facto de o ex-combatente, ao chegar a Portugal, não ver reconhecido o seu sacrifício mas, ante pelo contrário, ser visto com desconfiança pelo resto da população que ia adquirindo consciência que aquela guerra era uma guerra injusta e sem saída.
Aqui pode colocar-se uma questão. Porque é que os indivíduos que passaram pela guerra não foram todos afectados psicologicamente por ela com o mesmo grau de intensidade?
À volta deste problema muito e tem discutido ao longo dos anos. A ideia inicialmente prevalecente, entre as duas guerras mundiais, era que a personalidade prévia do sujeito, antes do sofrimento do trauma, predeterminava o impacto deste sobre o seu ego.
Isto é, um sujeito com um ego forte e bem estruturado suportaria melhor o impacto do stress de guerra e ficaria imune às suas consequências. Pelo contrário, indivíduos com uma personalidade pré-mórbida, teriam mais probabilidade de contrair a doença.
Os estudos feitos durante a 2." Guerra Mundial e posteriormente, levaram a pôr em causa esta teoria e a dar mais ênfase à natureza do trauma - qualidade e intensidade - que explicaria as diferentes consequências nos sujeitos.
Em nossa opinião há que encarar o problema de forma complexa, considerando existir uma constelação de causas que levam a um impacto diferente do stress de guerra sobre o sujeito: a preparação psicológica para a guerra, a motivação para o combate, a natureza e intensidade do trauma, a existência ou não de um grupo contentor, coeso e com normas e valores que o sujeito compartilhe e, sobretudo, a fase de desenvolvimento da identidade em que o sujeito se encontrava quando foi para a guerra.
Existem fortes indícios de que a prevalência da neurose de guerra é muito menor em militares de carreira do que em militares do contingente. E isso, quanto a nós, porque os primeiros tem uma preparação militar e, sobretudo, psicológica para a guerra muito mais eficaz.
Com efeito, sabe-se que ao militar do quadro permanente é incutida a ideia de que é um técnico, que não lhe compete discutir as ordens nem pôr em causa a decisões respeitantes à guerra que são tomadas pelos políticos. A ele compete-lhe fazer a guerra e ser eficaz na sua execução.
Assim, o militar profissional habitua-se a isolar os sentimentos ligados aos actos vividos ou praticados durante a guerra.
Quando surgem sentimentos de culpa (e veremos mais adiante que eles aparecem muito entre os veteranos de guerra ex-soldados do contingente geral), o militar profissional consegue facilmente «pôr a culpa fora de si», dizendo e pensando que ele foi um mero executor e se alguma coisa de errado houve a culpa é dos superiores ou dos políticos.
Ao passo que o jovem português que foi mobilizado para fazer o serviço militar nos anos da guerra foi arrancado muito jovem, no fim da adolescência-começo da idade adulta, do seu ambiente de paz, com as sua normas e valores de que a máxima principal é «não matar», para um ambiente de guerra em que o valores são completamente subvertido e invertidos, tornando-se a norma de «matar para não morrer» o princípio orientador básico da guerra.
Assim, há uma passagem brusca de uma identidade ainda pouco madura e estruturada, formada nas normas da sociedade civil, para um ambiente de guerra em que se adopta um papel completamente contraditório com o anterior. Há pois uma primeira inversão brusca e brutal de valores.
Depois, durante a guerra, o jovem era mergulhado num mundo em que, muitas vezes, era levado a praticar acto absolutamente estranho e aberrantes em relação àquilo a que estava habituado.
Muitos destes ex-combatentes assistiram ou participaram em actos que contrariavam todas as normas mais elementares da convivência humana e até as normas internacionalmente aceites de condução da guerra.
Casos de barbaridades gravíssimas contra a população civil, torturas de prisioneiros, tratamento desumano da população africana, eram o dia-a-dia para muitos destes soldados.
O jovem, com uma identidade em formação, mal sabendo ainda bem quem era, via-se com espanto a praticar actos que não imaginava ser capaz de fazer. Ele tomava contacto com o «lado sombrio» da natureza humana que o deixava espantado pela sua barbaridade.
E ao voltar à pátria, ao regressar à sociedade civil, tinha novamente que se adaptar a um papel a que já não estava habituado, a seguir normas de vida absolutamente contrárias às da guerra. Tinha, pois, que fazer uma nova inversão radical de valores.
Será, pois, de estranhar, a enorme dificuldade de adaptação destes sujeitos, a distorção da sua identidade, a dificuldade visível de integração entre a identidade anterior à guerra, a vivência de guerra e a sua vida posterior a ela?
Será de estranhar que estes indivíduos tenham recalcado a sua experiência de guerra de tal maneira que as emoções negativas associadas a esses acontecimentos se mantenham vivamente no inconsciente, provocando um enorme sofrimento?
Com efeito, pensamos que em muitos ex-soldados da guerra colonial com PPTS existe um forte sentimento de culpa pelas enormes barbaridades e crimes que foram levados a cometer.
De um pequeno número de doentes (comparado com os 800 000 homens que se calcula que tenham passado pelas colónias durante a guerra) ouvimos experiências de guerra horrorosas, que dão um retrato bastante mais realista desta guerra do que as narrações que estamos habituados a ouvir ou a ler.
Assim, era comum soldados portugueses vingarem-se na população africana mais próxima, quando sofriam baixas de companheiros a que estavam ligados por laços de amizade. Isto é dito como um facto trivial por ex-soldados em qualquer dos três teatros de guerra.
Dizer que a população civil era tratada com desumanidade é uma afirmação muito pálida em relação à realidade. Um ex-soldado comando conta: «Quando cheguei a Moçambique, uma das primeiras cenas a que assisti foi ver um soldado armado mandar um preto sair da cubata e violar a mulher. Não gostei de ver aquilo e achei que era mal feito. Mas era o que todos faziam.»
Se este homem era católico, o que é provável numa população portuguesa maioritariamente crente, como se pode coadunar esta acção com a máxima «não cobiçarás a mulher do próximo», quando se vê os companheiros «apoderar-se da mulher do próximo?» É difícil de calcular todos os prejuízos morais que tais práticas podem ter tido sobre jovens, muitas vezes idealistas e cheios de nobres intenções.
Outro ex-soldado conta que certa vez uma negra foi presa, interrogada, e como não confessasse o que queriam foi amarrada e levada para uma avioneta donde foi lançada em voo.
Este mesmo soldado conta que, no seu aquartelamento no Leste de Angola, os prisioneiros da UNITA e do MPLA eram mantidos no quartel para fazer pequenos trabalhos de faxina. Diziam que os tinham «na engorda». Depois fingiam que lhes davam fuga para os abater.
Outro ex-soldado, muito perturbado psiquicamente, relata que no começo da guerra, no Norte de Angola, queimaram muitas cubatas porque diziam que as mulheres que viviam nelas protegiam os guerrilheiros. «Ficavam lá queimadinhas, coitadinhas», comenta.
Depois de participar nestes massacres a sua companhia foi enviada para Malange para fazer campanha «psicossocial».
Como é possível que um jovem soldado que participou em massacres da população civil e depois foi enviado para outro lado abrir estradas, construir escolas para essa mesma população civil, não se sinta profundamente perturbado com a ambiguidade desta situação, não sinta o carácter absurdo e irracional desta guerra em que se dá com uma mão para se tirar com a outra?
Esta é uma situação típica de mensagem ambígua profundamente perturbadora para qualquer cidadão que não esteja dentro dos desígnios dos chefes militares, que costumam justificar este tipo de práticas com argumentos de guerra psicológica altamente discutíveis.
Finalmente, queremos contar o caso de um ex-combatente que fazia parte de um grupo de reconhecimento que actuava na fronteira do Leste de Angola, com fardamento diferente da do exército português, sem documentação para não ser identificado e com toda a probabilidade controlado pela PIDE.
As ordens que tinha eram peremptórias: «Abater tudo o que fosse vivo.))
Certa vez, este homem participou na chacina de mais de 200 habitantes civis de uma aldeia, em que abateu friamente a tiro um civil que lhe implorava de joelhos que não o matasse porque não tinha nada a ver com aquilo (cena que lhe aparece constantemente em sonhos), em que se lembra de ver uma velha a correr em chamas e depois morrer carbonizada (imagem que igualmente recorda frequentemente) e que depois recebeu um louvor «pela forma valorosa como actuou na operação», «demonstrando possuir ao longo da referida operação e sobretudo na fase do assalto a um acampamento inimigo, grande determinação, coragem indestemida e vontade inquebrantável de vencer» ( ... ) «pela natureza arriscada da missão e principalmente pelos excelentes resultados obtidos sobre o inimigo» ...
Não é difícil de constatar que muitos dos «feitos militares» das tropas portuguesas nas colónias não passaram de simples chacinas da população civil.
Aqui levanta-se o problema das responsabilidades das autoridades militares fascistas na realização destas atrocidades. Será que não sabiam? Fechavam os olhos? Encorajavam?
Este é um problema bastante delicado e sabemos que há muitos oficiais que não caucionaram tais acções e não podem ser acusados de responsabilidade directa nestes crimes. Mas será assim para a instituição militar de então no seu todo? Será possível que se dessem acções da envergadura das que citamos (ainda por cima com louvores oficiais) sem que se dessem conta do que se estava a passar?
O princípio que ouvimos enunciar a pessoas que estiveram na guerra em locais e circunstância muito diferentes de que, «quando viam um rapaz de 10 anos, negro, calculando que daí a mais 10 anos poderia ser um guerrilheiro, na dúvida o melhor era abatê-lo logo», não seria a doutrina de parte considerável das Forças Armadas da altura?
Quando um doente conta que o hino da sua unidade era: «Os pretos rastejam na mata como víboras, mas nós vamos esmagá-los até ao último», não implica isto a responsabilidade da própria instituição militar na mentalidade racista de que ficaram imbuídos muitos militares que passaram pelas fileiras durante a guerra colonial?
Será de estranhar, que jovens portugueses com uma identidade pessoal ainda mal consolidada depois de terem passado por duas mudanças de papel extremamente rápidas e brutais, tenham perdido o fio natural da evolução da sua personalidade?
Será de admirar a difusão da identidade, a perda de coesão do ego, a confusão de valores, as dificuldades de intimidade, o embotamento afectivo, as dificuldades de relacionamento de toda a ordem que estes ex-combatente experimentaram ao chegar da guerra?
Uma hipótese para o carácter diferido da manifestação da PPTS é que o ex-soldado, a seguir à guerra, conseguia mais ou menos «organizar-se» psicologicamente por ter de planear a sua vida, criando expectativas de sucesso, o que o isolaria do trauma.
Mas a sua memória ficava lá. Existia qualquer coisa de não integrado na personalidade do sujeito, de «não digerido» psicologicamente, que ao ser reprimido cria uma tensão interior pela grande energia psíquica que tinha que ser mobilizada para reprimir os afectos dolorosos. E mais tarde, quando qualquer acontecimento sua vida lhe provocava um stress acrescido, as memórias de guerra podiam ser reactivadas e os mecanismos de defesa psicológicos cederem e instalar-se a PPT.
Finalmente, apenas algumas palavras sobre o processo de tratamento destes doentes.
Já vimos que o grande problema aqui existente é que o doente não consegue conciliar a sua identidade antes da guerra, a experiência traumática e a sua vivência do mundo depois da guerra.
Existe uma carga muito grande de experiência dolorosa ligada com a guerra que o ego do sujeito não consegue assimilar, integrar na sua consciência, porque essa experiência é contraditória com o conceito que sujeito tinha de si mesmo e a sua admissão consciente torna-se insuportável.
Mas a resolução deste conflito só é possível pela verbalização dessas experiências e a ab-reacção dos afectos a elas ligados, de forma a permitir transformar a atitude mental consciente e acomodar a experiência. dissonante com o ego.
A resolução completa do conflito exige a transformação das estruturas cognitivas e afectivas existentes.
É claro que isto é um processo penoso, que faz. emergir sentimentos dolorosos de culpa, de vergonha, de remorso, aquela carga insuportável de responsabilidade que o sujeito sente pelos actos que praticou. Mas a emergência desses sentimentos permite um maior acesso ao self e um aumento do autoconhecimento e cria maior espaço de liberdade para efectuar mudanças.
O sujeito tem que compreender que aqueles lhe pertencem, tanto os bons como os maus e ter a coragem de admitir o «lado negro da natureza humana».
Não se trata tanto de esperar que os outros o desculpem do que fez, mas tem que ser ele próprio a aprender a viver com a sua culpa, a aceitar-se e desculpar-se a si próprio.
(...).»
Fernando Myre Dores, in revista "Vértice", Janeiro/Fevereiro 1994
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