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16 de janeiro de 2012

352-O rio Corubal

    DESCENDO pelas montanhas do Fuja Djalom, na Guiné Francesa, o rio Corubal penetra na nossa província pela região fronteiriça de Cadé em percurso longo, ramificado e sinuoso, até à bifurcação com o canal que vem de Bafatá, e entra no Geba, outrora o famoso Rio Grande, onde chegaram no século xv as caravelas de Diogo Gomes e Cadamosto de que nos falam as crónicas das Descobertas.
  São numerosos os rápidos do rio Corubal. Cusse­linta e Saltinho, susceptíveis de aproveitamento hidráulico segundo algumas opiniões, são os mais importantes do nosso território. Foi neste último que se construiu, como solução provisória, a passa­gem submersível que permite durante alguns meses a ligação entre o Norte e Sul da província. Um pouco mais abaixo, onde o rio se estreita, está a construir-se com o grés como alicerce, a ponte Craveiro Lopes que beneficiará extraordinariamente a rede rodoviária da zona sul da província para permitir no futuro uma exploração compensadora das riquezas das circunscrições de Fulacunda e Catió. É de admi­tir também a sua provável utilidade para o turismo, logo que seja possível actuar a sério neste importante sector de propaganda e receita que representa uma grande preocupação de muitos países e regiões. 
  O topónimo Corubal, segundo concluiu o co­mandante Teixeira da Mota, o mais categorizado Investigador contemporâneo dos assuntos guineen­ses, é a deturpação de Colibá o qual, por sua vez, provém da região limítrofe de Coli. Outras fontes, porém, pretendem que a razão do nome se filia no facto de «corubal» ser corruptela de curbail, nome com que, nos recuados tempos, também se designava o âmbar.
Mas um autor antigo põe-nos a notícia transbor­dante de curiosidade de que o termo Corubal queria dizer «desavergonhado» numa tradicional expressão nativa. O rio galgava frequentemente o leito e o seu impetuoso caudal era useiro e vezeiro na destruição das culturas marginais. O arroz à beira do rio, o algodão, o café, o tabaco e outras culturas peque­nas de tipo experimental, na parte enxuta, por vezes alagável, quando o Corubal era irreverente, atre­vido... E daí, Corubal - o «desavergonhado»...


Decorria a época do extraordinário Caetano No­solini, esse homem que encheu numerosas páginas da história da Guiné na primeira metade do sé­culo XIX, quando era tudo e ainda pioneiro de feitorias e estabelecimentos agrícolas nas margens do rio caudaloso. Na época do discutido monopólio de Nicolau Macedo com o exclusivo de comércio e navegação no no. Na época em que se fazia, lá na foz, quando na baixa-mar, a colheita do âmbar, produto fossilizado das resinosas marginais que as águas do Corubal arrastaram para o acumular atra­vés dos séculos. Na época, ainda, das contínuas turbulências entre as tribos fulas, fulas-pretos, man­dingas e biafadas em permanentes escaramuças conhecidas por «Guerras do Forriá», um Forriá que no dizer dos Fulas significa «terra da liberdade» apesar de acontecer as sucessivas chacinas, os incên­dios das povoações, os roubos de gado e a captura dos vencidos, logo considerados escravos...
Uma época do Corubal remexido, dos pioneiros e dos belicosos Infali Sancó, Paté Coiada, Mamadú Paté e Bacar Guidali. Era um Corubal latejante de presença humana a ombrear com um outro período mais remoto que Francisco de Lemos Coelho nos descreveu em 1669: «Há no fim da terra de Guinalá hüa grande aldêa que chamaõ Curubale, que he como feira adonde vem mercadores de todas as partes a comprar, e vender, e nella se acha sempre o que se busca, vendesse nella principalmente muitos negros, e roupa, e tintas com que se tinge a roupa em Guiné de azul», acrescentando quinze anos depois: «he como feira de toda a terra; sendo que em todas estes reinos há feira franca de sete em sete dias... mas nessa de Curubale todos os dias de anno he feira».
A densidade populacional das regiões servidas pelo Corubal, especialmente o Forriá, é das mais baixas da província. A vida ausentou-se, cerraram-se os horizontes do comércio, da agricultura e da guerra. Desapareceram as grandes povoações onde chega­vam as caravanas para o comércio do sal, dos escra­vos, dos panos e da tinta azul. As enxadas dos pon­teiros cavando o solo humoso e alagável é uma recor­dação. O cruzar de espadas dos chefes belicosos não passa hoje dum tema histórico. O sossego é absoluto. Liberdade de expansão para a flora e fauna. Um retorno à Natureza.
Vem, daqui, o interesse turístico da região que se estende pelos vales do rio, pelas savanas, colinas e canais até à lagoa de Cufada e, mais ao sul, à mata de Cantanhez, reserva de caça. Não há hotéis, não há pousadas nem o quer que seja de artificial que proporcione comodidades ao turista. Mas pode-se lá chegar, sem odisseias, sem dificuldades, adoptando o campismo nas sedutoras margens dos rápidos de Cusselinta e Saltinho ou em viagem com retorno no mesmo dia para gozar os prazeres da pesca despor­tiva, as emoções fortes da caça ou as sensações ali­ciantes do naturalismo. No rio há variedade de peixes e os descomunais e pacíficos hipopótamos. Nos mangais a orlar o rio e no arvoredo próximo é numerosa a fauna aviária. Garças ribeirinhas, peli­canos, maçaricos e uma imensidade de passarada multicor. No mato aparecem a cabra selvagem, a gazela, o sim-sim, o javali, o porco-espinho, a onça, o búfalo e, por vezes, o portentoso elefante. São muitos os patos selvagens, as chocas (perdizes) e as galinhas do mato. Enfim um mundo diferente para os desportistas-metropolitanos que se decidam a visi­tar-nos e até para os que vivem na província que não tenham ainda contactado com o mato, com o verdadeiro mato, tão cioso a ocultar-nos o seu exo­tismo e uma vida animal que nos evita e receia.
O mato não é aquela fonte de arrepios ou o manancial de ilusões que nos impingem os livros e os filmes destinados a leitores ou a plateias que se deliciam com aventuras tipo Salgari ou Tarzan... Goza-se nele uma quietude que reconforta, um am­biente silente de oásis como entorpecente que não vicia e que é um refrigério. Os odores silvestres, a abundância do verde, a vida ao ar livre que nos liberta da rotina dos livros de ponto dos despeitos e das competições humanas. O andar perto da vida animal adivinhando existências que se ocultam e que fogem de nós. Os esquilos, os roedores, os répteis, as borboletas e a passarada polícroma. Todo um conjunto que nos arrasta a sentir interesse profundo pela Natureza. E, à noite, a musicalidade dos insec­tos, das aves nocturnas, os ouvidos cheios da orques­tra ininterrupta dos grilos, o ruído surdo das águas dos rápidos e o toque dos tambores nas povoações distantes… Estamos certos que Kipling gostaria de ter vindo ao Corubal...
O próprio fenómeno do macaréu que se regista na bifurcação do rio com o canal e o rio Geba é um aliciante motivo turístico. O fenómeno, semelhante ao «pro roca» dos brasileiros que se regista no Ama­zonas, tem constituído através dos tempos, desde que ali apareceram as caravelas de Diogo Gomes até à actualidade, forte motivo de curiosidade. Só por si, um espectáculo digno de presenciar-se. É uma en­chente a modos de blitz, uma onda avassaladora de águas em turbilhão e grande fragor. Já André Álva­res de Almada, o célebre capitão mercante do tempo do marfim, do ouro e dos escravos, a referenciou com esta saborosa descrição:
«Esta navegação é perigosa por causa da água do Macareo, que é encher este rio lá em cima com três mares somente. Estando a maré vazia, dando três mares, fica preia-mar de todo; e antes de virem estes mares se ouve roncar um grande espaço e mete medo às pessoas que nunca viram isto. E correm as embar­cações grande risco, mas já os pilotos delas sabem as conjunções, e as tomam de maneira que não pe­rigam. Algumas caravelas nossas de até sessenta moios, que algumas vezes lá vão, no passar, quando dá a água do Macareo, usam desta maneira. Têm algumas sonderiças e amarras ostadas umas nas outras, e estão prestes com elas, e o navio surto e a amarra na mão. Tanto que dão aqueles mares e vão largando e vão sobre elas aleiando muito depressa as amarras, e desta maneira passam sem perigo, por­que se estivessem com a amarra abitada não deixa­riam de sossobrarem e passarem trabalho.»


   Conhecemos o rápido de Cusselinta há uma de­zena de anos. Um caçador mandinga acompanhou­-nos como cicerone e pisteiro. Prometera-nos mostrar os hipopótamos. Depois dum banho refrescante na água límpida retida no grés (os crocodilos não estão ali…) o nosso pisteiro quis ir mostrar-nos os bichos, um pouco mais abaixo, onde o rio se estreita. Cami­nhámos marginando o mangaI. Aproveitámos todas as veredas para espreitar as águas quietas do rio. Impaciência, curiosidade... Chegámos a um ponto onde o capim ligado ao mangal estava batido como que assinalando a passagem de coisas descomunais. As pegadas, amplas e fundas, e o excremento fresco, ainda a fumegar, eram uma indicação. Entrámos no espesso do mangaI e subimos pelos troncos mais fortes a procurar o melhor ponto de vigia. O acesso era um tanto difícil. O nosso amigo caçador man­dinga, pisteiro famoso, puxou do seu fotan (apito feito dum pedaço de bambú) e rompeu um silvo cavo, fazendo modulação de sons. Apitou, apitou. E quando já estávamos impacientes, desiludidos, como que logrados, eis que surgem das águas, lá perto da outra margem, duas cabeças de hipopótamos, como proas de submarinos que vêm à superfície... A flauta encantada do nosso pisteiro confirmara a apregoada virtude de fazer aparecer os volumosos mamíferos.
    Empoleirados como símios, notámos que a cara­bina ficara presa pela bandoleira num tronco fora do alcance da mão. Imprevidência de inexperientes. Não convinha fazer-se ruído. Os bichos já nos tinham observado. E daí a fazerem a imersão foi um mo­mento (um momento em que ficámos estáticos...). Nem, ao menos, tivemos a desenvoltura de fazer uso da «Zeiss» que trazíamos dependurada no pescoço, aberta e focada, pronta a fazer o clic...
     Fracassámos no tiro, fracassámos na foto!
    Mas conservamos ainda hoje, a sensação indefinida desses momentos tão felizes, tão belos, vividos mais perto da Natureza.

Alexandre Barbosa
Guinéus - contos, narrativas, crónicas
3ª edição,
Livraria Progresso Editora, 
Lisboa, 
1968


9 de janeiro de 2012

346-O gomil de prata

É um conto deste livro de Fausto Duarte (o de "Auá"...):
Tem este conto que eu trancrevo e mais quatro: Os degredados [dois degredados para a Guiné], Evamaria [uma polaca que quer matar um general alemão], Renúncia [dois ingleses no mar, barco torpedeado, uma história de amor...], Regresso [o regresso à Guiné +para visitar a tumba do alferes Francisco de Freitas Moniz, morto em combate], e Ressureição [uma tragédia banal].  Este parece-me o de mais interesse.
Este conto tem a forma de um conto a um amigo. Que é ele próprio, referido-se no início às críticas a "uma crónica curiosís­sima sobre a Guiné Portuguesa firmada por teu nome".
A obra foi impressa, para a Editorial Inquérito, em 22 de Maio de 1945 no Centro Tipográfico Colonial, Lg. Rafael Bordalo Pinheiro, 27 e 28, em Lisboa. Recordo que a 7 de Maio desse ano se deu a rendição do governo alemão, depois do suicídio de Hitler a 30 de Abril. A obra já estaria escrita, portanto.
O exemplar tem aquele carimbo da Biblioteca Popular de Lisboa. Esta biblioteca foi criada em 1 de Abril de 1918 e extinta, porquê não sei, em 28 de Julho de 2001. O seu espólio relativo a 1911-1950 está na Biblioteca Nacional e o relativo a 1951-2001 na Torre do Tombo.
Sobre Fausto Duarte e a sua obra podem ler o que diz Leopoldo Amado em http://coisasdaguine.blogspot.com/2011/12/311-literatura-colonial-guineense.html.



O GOMIL [jarro para água] DE PRATA
Meu caro amigo:
Não sei quando e onde li uma crónica curiosís­sima sobre a Guiné Portuguesa firmada por teu nome, que de golpe foi descoberto pelos telescópios da crítica no apertado céu literário da nossa terra como estrela de grandeza primeira. Tão grande in­fluência exerceram em mim as cores de que te ser­viste para pintar estranhezas, que à beleza rebusca­da e artificial das paisagens europeias preferi o ver­de primitivo e desordenado de palmeiras e tamarin­dos, a vida singela do indígena enquadrado na mu­ralha alta de hábitos milenários, e o esforço - que dizes ser ignorado -- dos colonos, mancha exótica no grande formigueiro humano que é hoje a África.
Da Guiné, ou melhor das Conquistas, nunca pas­sei do que me ensinaram os compêndios escolares e o acaso de uma ou outra leitura respigada dos jornais. Tal entusiasmo puseste, porém, na pintura dos quadros africanos, tal viveza no colorido das ima­gens, que me abraçou a convicção de que só nas latitudes próximas do equador valeria a pena viver a vida. E no jeito de quem se despede do mundo, do seu «mundo», disse adeus ao Chiado e parti em guisa dos que não morrem sem ter descoberto qual­quer coisa na vida, ainda que seja um princípio fi­losófico ou uma doutrina política.
No barco ronceiro a que nada têm a invejar as primitivas máquinas de Fulton e que navegava cri­vado de luzes em ambos os bordos sinalizados com as cores nacionais - não fossem os submarinos na­zis confundi-lo com a boa preza britânica - depa­rou-se-me uma fauna humana díspar, heterogénea, confusa, dividida por classes que se ignoravam, três castas mais diferenciadas do que as que en­xameiam a Índia. Em todas elas minava, porém, esse desconsolo tão visceralmente português. Vi ali vaidades e despeitos, muita malícia ou antes malignidades mal dissimuladas, e foram-me reve­lados segredos tisnando reputações.
Quando o tédio me levou à proa e vi grupos de gente miseranda entregue ao devaneio, à fantasia de criar a umas centenas de milhas uma terra onde tudo seria extraordinariamente fácil, lembrei-me que ela afinal pouco se diferenciava dos emigrantes de há séculos, dos aventureiros das naus «que iam como carneiros, a monte, nas toldas, expostos ao sereno mortífero das noutes, sem cama para os en­fermos, respirando o ar podre das cobertas»...
Tive, contudo, a boa fortuna de partilhar a mes­ma cabina com o único indivíduo com quem se po­deria conversar a bordo: um comerciante culto, de educação primorosa, apaixonado por cousas de África, que nunca tivera assento em Conselhos de Governo, e soubera com elegância e agilidade espiritual furtar-se às solenidades palacianas. Sua mala guarda-roupa dissera-me, através de alguns rótulos coloridos, por que países viajara pela Euro­pa atacada de loucura. A linha dos ombros mostra­va que sabia vestir uma casaca. Tinha boas manei­ras, o que o distinguia do resto dos passageiros. Desbobinara durante esses longos dias de viagem perante os meus olhos extasiados toda a babelesca confusão que é a Guiné.
Faltavam poucas horas para chegarmos ao termo da nossa viagem, quando descemos pela última vez à cabina. Recolhi à pressa alguns artigos de toilete, afivelei as duas malas e o saco de viagem e, atra­vés da vigia, observei as terras baixas, marginadas de palmeiras. O meu companheiro debruçado sobre uma mala de couro da Rússia estava inteiramente absorvido na contemplação de qualquer cousa que eu não conseguia descortinar. Entre mim e o objecto de sua admiração interpunham-se seus ombros lar­gos, a sua figura esbelta que envergava então um fato branco de corte impecável. Um suspiro breve, quase imperceptível, a sua imobilidade e a atenção concentrada na parte interior da mala, despertaram-­me a curiosidade. Sabia-o céptico, desiludido por alguns anos de África. Êle adivinhou o meu interesse, sentiu o meu olhar sobre a nuca. Fechou a ma­la. Seus dedos procuraram as chaves. Hesitou um instante, e como que decidido por qualquer súbita resolução abriu-a novamente.
- Quer ver?
- ?!
Afastou-se para o lado e suas mãos apresenta­ram-me um gomi! de prata, com incrustações em ouro, cujo brilho e elegância de desenho do mais puro tipo oriental me deslumbraram. Era um objec­to raro, precioso, que o mais exigente coleccionador de antiguidades ambicionaria possuir para regalo dos olhos e da paixão por tudo quanto a beleza e o tempo marcaram de modo indelével.
Desejoso de ver de perto o objecto de sua singu­lar admiração avancei um passo e adiantei a mão direita para o segurar. Logo o seu braço se interpôs. E como eu o olhasse estupefacto, explicou aflito:
- Não lhe toque, por amor de Deus! Você pode­ria ser vítima de uma fatalidade.
- Por que razão? perguntei estranhando a cre­dulidade surpersticiosa em um homem como ele. - Tabu! confessou penalizado José de Castro - assim se chamava o meu companheiro de viagem.
E depois indo ao encontro do meu assombro, das ideas que me assaltavam, propôs:
- Vamos para o deck. Lá em cima lhe contarei a história. Temos tempo. Mas antes disso leia o que aqui está escrito. Cuidado. Não lhe mexa! Faça-me esse favor. Depois compreenderá o motivo. Viu? Repare nestas letras. O quê? Ah! sim ... Não com­preende a caligrafia em uso no século XVII? Eu ex­plico. Aqui em cima, na primeira linha, veja: «Ma­ria de Vilaldo». Da melhor nobreza do tempo. Era mulher de um capitão-mor de Goa. Depois, entre os dois pontos em que esta asa tão admirável pelo fino traço de suas curvas parece querer desprender-se do gornil, uma data: «1603». E em baixo um no­me: «Santa Teresa». Confesso, meu caro amigo, que não é descabida a sua admiração. Sucedeu-me o mesmo. Quando conhecer o drama que se liga a estas letras e números riscados penosamen e com um instrumento de ponta, o seu interesse aumentará.
Batido pelos raios do sol o metal lampejou. José de Castro apressou-se a embrulhá-lo com cautela e delicadezas de namorado em um pano de seda, e, cuidadosamente, fechou a mala. Subimos ao con­vés. O ar que ali se respirava já não tinha a mesma leveza. A terra estava próxima. Estranhei pela pri­meira vez o meu companheiro de viagem. Seus olhos estavam tristes. Confesso que me senti atraído por aquele mistério que suas palavras permitiam entre­ver. Passeámos na coberta durante uns minutos sem trocar palavra. Meus olhos vaguearam ao acaso pela baía. Ao fundo, pintadas de amarelo ou cin­zento, casas insignificantes, sem o mais leve traço de arquitectura tropical como eu sonhara ao ler uma revista estrangeira com fotografias da cidade java­nesa de Batávia. Alguns dongos deslocando-se sob a pressão da remada parecia aflorarem apenas à su­perficie suja do rio que lembrava, pela cor, água estagnada. Um grito lançado de um barco que ia partir trouxe-me o primeiro contacto com o nativo. Seguiu-se-lhe um coro de vozes tocadas de melan­colia. Era assim talvez que os pretos abafavam suas amarguras quando os negreiros ali aportavam e os metiam a bordo para os deixar do outro lado do grande oceano.
José de Castro todo entregue ao seu cuidar nada dizia. Depois, como se a mesma decisão nos co­lhesse de chofre, entrámos para o bar. O criado cor­reu solicito.
- Traga whisky! - ordenou ele.
Acendemos os cigarros. José de Castro ajeitou o vinco das calças, ergueu o rosto, olhou-me de fren­te, e, sorrindo, como que refeito duma penosa im­pressão, falou:
- Há cinco anos um negócio de oleaginosas obri­gou-me a ir até Uracan, uma das ilhas do Arquipé­lago dos Bijagós. Você verá que são estes os indí­genas de hábitos mais curiosos de toda a Guiné. Depois de ultimado o assunto que ali me levara per­corri a ilha a pé. A uma dúzia de quilómetros do porto fui surpreendido pelo ruído do tantã, e logo a seguir se me deparou uma aldeia acogulada de povo. O nativo que me acompanhava e conhecia o dialecto local indagou o que era e trouxe-me a novidade: o chef estava a morrer. Esperava-se a todo o instante o desenlace. Aproximei-me. Quis ver o quadro. Admira-se? Saiba que nunca me re­pugnaram os hábitos deles .
O criado voltara com os copos e a garrafa em cujo rótulo se destacava o nome do fabricante es­cocês: John Walker. Serviu-nos e retirou-se discre­tamente. Fizemos mecanicamente a saüdação habi­tual:
- Chim, chim!
- Chim, chim!
José de Castro pousou o copo. A luz punha reflexos de ouro na preciosa bebida. O aroma do tabaco loiro impregnava o ambiente de um odor agradável. Ouviam-se os passos apressados da marujada que eu distinguia através duma janela com cortinas amarelas presas por cordões de seda.
- Entrei na palhota. Os indígenas não se opuse­ram, continuou José de Castro, pousando novamen­te o copo na mesa e retirando o cigarro do cinzeiro. E vi sobre um miserável catre a figura torturada de um homem de meia idade. Tomei-lhe o pulso entre os dedos e soergui-lhe as pálpebras. Logo adivinhei a extensão do mal. Não se espante, meu caro amigo. A África é a grande rnestra da vida. Aqui, o isolamento e a necessidade dão invejável soma de experiência. Tirei do estojo uma seringa e dei-lhe uma injecção de soro antiofílico. Aquelas           ilhas são verdadeiros ninhos de cobras, Quem andar por lá tem de estar prevenido. Decidi aguardar a evolução do mal. Dois dias depois o nativo sorria, agrade­cido. Falou-me e não entendi. Chamei o criado. Entretanto o chefe Ievantara-se com grande difi­culdade, e de um pote de barro retirou o gomil de prata que você há pouco viu, enrolado em panos su­jos. É curioso ver como aquela gente bem dotada pela natureza, inteligente e sofredora, com um sen­timento claro de independência, viril e sã, não tem a menor noção de higiene. Pois bem, o chefe, como eu dizia, tomara o gomil e pôs-mo na mão. Como me visse atónito disse ao criado que mo oferecia. Era uma coisa que pertencera ao pai, ao avô e por este herdado de outros ascendentes. Sabia que um deles o encontrara enterrado; que pertencera aos brancos ali chegados num grande barco; que toda a sua gente morrera de morte violenta. E porque fora pertença de um homem da raça daquele que o salvara, devolvia-lho, na certeza de que o mal teria com isso o seu fim.
José de Castro sacudiu a cinza do cigarro. Uma ruga ensombrara-lhe a testa.
- Abandonei a palhota e prossegui no meu cami­nho. Andei pela ilha durante uns dias, encontrei restos de uma bombarda, de dois berços – peças curtas que se usavam ao tempo - e com informações imprecisas, detidas pelos anos, procurei descobrir, como um sábio que na posse de um simples osso reconstitui o esqueleto de um animal antediluviano, o fio inicial do enredo. Sim, meu caro. Eu pressen­tia, ou melhor tinha a certeza de que essas letras e números me conduziriam à verdade, rematou ele indicando ao criado os copos vazios.
- E soube alguma coisa? - preguntei interessado enquanto o criado nos servia.
- Estou hoje de posse da verdade. Para isso tive de ir a Lisboa.
Ante o meu cenho franzido, a minha expressão interrogativa senão duvidosa, de espanto perante a inesperada informação que dava novo rumo ao caso, êle persistiu:
- Regresso de Lisboa, como vê. Freqüentei bibliotecas, analisei, comparei textos, narrativas de nossos feitos no Oriente, e depois de muito meditar achei a solução do problema. Lembra-se da data e dos nomes? Ainda bem. Estes foram os .principais elementos, o começo do enredo. A leitura casual de ignorados documentos forneceu-me o resto. Quer ouvir?
Fora aumentara a azáfama da chegada. Os pas­sageiros ocupados com a bagagem, com as preo­cupações do desembarque, tinham esquecido o bar. Era o único recanto sossegado a bordo. Tínhamos sorte. Se o «barman» não estivesse ali a agitar o «shaker» o silêncio seria quase absoluto.
- Em 1603, a nau «Santa Teresa», de regresso da Índia, naufragou perto da ilha de Uracan, atraí­da de noite por uma fogueira feita com falsidade por indígenas, à maneira de que praticavam os povos do litoral mediterrânico, mestres na arte do embuste. Julgavam os marinheiros ter na frente gente amiga. Como necessitassem talvez de fazer aguada, aproa­ram na direcção da luz. Não é difícil imaginar o caso. Gente com meses de viagem longa e tormen­tosa, em um barco pequeno, sem o menor conforto. Uma luz no meio da desesperança da rota sem fim. Céu e água. Vários tons de azul. Sol, noites estre­ladas e depois sol novamente. E o mar imenso sem­pre em frente das pupilas ardentes, dos olhos ensaü­dados, a encher a alma de angústia. Aquela luz devia ter representado um alto no sofrimento das pessoas que viajavam na nau.
José de Castro levou o copo aos lábios, mas não bebeu. Estava sob a impressão da evocação do drama cujas cenas lhe afloravam aos lábios com facilidade como se ele o tivesse vivido.
- A bordo devia estar pela certa algum sacer­dote. Era hábito. Ele devia ter abençoado o luzeiro. O capitão da nau e os fidalgos deviam ter interro­gado os mapas para determinarem a posição, saber que porto era aquele. Mas você sabe como eram ao tempo insuficientes as cartas. Um engano nos rumos. Nada mais fácil. Obedecia-se aos ventos e às correntes. Caídos na cilada foram vítimas da abor­dagem e do massacre. Os fidalgos, os soldados da Índia, defenderam as suas vidas, os seus haveres de espada na mão, prontos a matar e a morrer. Apenas se salvou uma mulher. Chamava-se ela: «Maria de Vilaldo». A nau era a «Santa Teresa», e o naufrágio deu-se em uma noite sombria do ano de «1603». Trouxeram-na os indígenas para a terra e ela foi logo cobiçada pelos olhos sensuais do rei. Não é difícil reconstituir a cena. Deslumbrado pela formosura da branca, adorando-a como se se tra­tasse de um ídolo, um dos filhos do régulo matou o pai e fugiu com Maria de Vilaldo numa canoa. Andaram perdidos. O nativo respeitou-a. Sofreram privações, e antes dele aportar à feitoria mais pró­xima onde viviam alguns brancos, Maria de Vilaldo morria. Levou-lhes o cadáver. Os colonos, sem o ouvir, justiçaram-no. Na fuga precipitada a branca deixara cair na praia o gomil de prata que trouxera consigo do Oriente. Inscrevera nele durante as horas de angústia numa palhota indígena, como recordação, os nomes e os números que você leu, concluíu José de Castro bebendo o resto do whisky.
O vapor apitou. Três gemidos longos saudando a terra mordida de sol.
Despedi-me de José de Castro. Quatro meses de­pois soube que um torado, espécie de tufão que varre a Guiné na época pluviosa, o surpreendera próximo da Ilha de Uracan. O barco desaparecera e com ele o exportador de oleaginosas, figura insi­nuante de verdadeiro colono, vítima do mal impor­tado da Ásia através desse objecto de arte oriental que fizera naufragar a «Santa Teresa» e perseguira uma tribo inteira naquela ignorada ilha.
Crê, meu amigo, que desde então os fetiches nunca mais deixaram de me impressionar.

3 de janeiro de 2012

342-AUÁ, Novela Negra

Livro maravilhoso! Mais ainda para quem conheceu a Guiné e as suas gentes. Procurei-o, procurei-o, depois de ler a tese de Mestrado que Tatiana Sousa de Jesus fez sobre esta obra (podem ler a tese dela em http://repositorio.ul.pt/handle/10451/1897). E encontrei-o finalmente (num alfarrabista também...). A censura da época não gostou de "Auá" - podem ver no final a colecção de documentos da censura, colhidos pela mestranda Tatiana. Mas Aquilino Ribeiro gostou e fez-lhe um belo prefácio, que transcrevo com a grafia da época.



    Está dito, o primeiro que viu a Guiné foi Nuno Tristão, o segundo o autor de Àuá. Certo é o europeu estar todos os dias a desco­brir a Africa e a Africa a furtar-se, nem de propósito, cada vez mais ao seu conhecimento e amabilidades. Vem de o açúcar, que enca­rece do pôr do sol para a manhãzinha, certos bichos simpáticos do Jardim Zoológico, e sujei­tos com a bôlsa repleta e fígados derrancados; é ainda a terra do degrêdo. Que mais? Sabemos: os nossos navegadores foram tacteando a costa e baptizando em nome de Deus e do rei promontórios, golfos, enseadas que, séculos depois, um inglês, geógrafo e flibusteiro ao mesmo tempo, repimpado sob a tolda do na­vio, foi crismando ao sabor da pacotilha e do respeito para com Sua Magestsde Graciosa; Albion esbulhou-nos do melhor lati­fándio africano; o rei Leopoldo doutro; entai­param-nos nos trópicos, o inferno. Sabe isso o espírito de descontentamento que anima o português e ainda é a sua Iôrça mais apreciável; os compêndios não ensinam, rezam; rezam os nomes dos rios, das cidades, dos dis­tritos. Tôda a ciência oficial é nomenclatura.
    De ouvido, de rápidas e recreativas narra­tivas, sabemos também que espécie de realeza há em África. Não reina o branco, nem o soba, nem o desacreditado leão; reina o insecto; insectos de nome infantil, eufónico, de sílabas dobradas, um amor de nome: a baga-baga, formiga branca, invulnarável, génio da destruição, e a tsé-tsé, môsca da doença do sono, que vai cobrindo com noite sepulcral o imenso continente negro.
Que nos dizem de África os livros? Os antigos, das Crónicas até a História Trágico­-Marítima, veem cheios de azagaias, de mar­fim, de avelórios, da caça ao escravo, da ru­morosa e indevassada selva, mais nada. Dos modernos, apenas conheço a obra do Dr. Brito Camacho, em que, de verdade, nem sempre o artista é abafado pelo homem de estado que, por onde vá e espraie o olhar, escruta, sopesa, compara, avalia. Imagino que os outros se não apartem muito do conceito clássico; negraria, batuque, tanga, rugir da fera e coconote. Ulti­mamente, sim, veio parar-me às mãos um livro genial e ascoroso ao mesmo tempo por­que deixa as pessoas malquistadas com a vida: Voyage au bout de la nuit, de Louis-Ferdi­nand Céline. O protagonista apeia em plaga africana, que parece ser vizinha da Guiné, e conta o que vê e ouve. Foi alucinação aquilo, comprouve-se em traçar uma caricatura goiesca, ou chegou ao país dos pesadelos? Ali os bran­cos tiritam, tiritam em despeito das doses maciças de quinino, e convertem a febre em matéria de match: qual termómetro subiu mais? Caramba, 40° aquele é campião!
O governador só pensa em enriquecer para largar embora leve a garra da morte no flanco; seguem-no disciplinadamente na ra­pina os mais funcionários. Porque se arranha com unhas furiosas, até o desespêro, até o paroxismo, a ponto de tornar-se em Lázaro, aquele comerciante? É o corocoro, cette vache, que tomou conta dêle. Tudo ladro, obsceno, reles, famélico, esbodegado e esbodegante, o branco e o prêto, o rio e a floresta, o silêncio e o alvorôço da tabanca, a vida e a morte. Mas Céline, cuido ver no seu retrato, escreve com os olhos de Greco: tortos.
Fausto Duarte, que se embrenhou pelo mato, dormiu nas cubatas do interior, viu acordar as moranças, vem reconciliar-nos com a Africa e a primeira e mais grata impressão é a de alívio. Desafoga-se. O ar tem a compe­tente impregnação de oxigénio, pássaros das mais belas côres e mais canoros que primas-donas alegram a. Paisagem, o sol não é «me­tal em fusão» e pela estrada plaina, como na Europa, o motor do eutomôvel vai cantando gloriosamente. Balantas e fulas, das onze raças da Guiné os mais activos, ocupados nos agros, erguem a cabeça curiosa. Também aquela rapa­riga é perita em lançar esquiva e langorosa mirada! Reina a santa paz, idílica paz, as mulheres pilam o arroz e o ruído dos maços repercute ao longe como os mangoais nas eiras de Portugal. Logo, ao sol-pôr, quando as cubatas fumegarem ao céu, falta apenas que desça dos campanários um magoado e suavís­simo angelus.
Com simplicidade encantadora, sem difu­sões, nem peripécias de cinema, o autor vai-nos pintando o que  é a vida naquele trato de terra e de humanidade. E não é difícil chegar à conclusão de que os diferenciais que trouxe o progresso e a pigmentação pouco represen­tam ao lado da analogia profunda e simetria notória que a vida reveste duns homens para. os outros. É facto estar a Guiné à beira do berço da civilização semita e de hever rece­bido influxo certo. Circuncidam-se os varões; as aldeias teern nome; a apanha da mancarra lembra a ceifa ou vindima, mercê das quais se pagam os impostos; os marabus valem os padres católicos e os curandeiros curam tão realmente como os médicos que saem das es­colas sapientes; as raparigas amam e aborre­cem pelos mesmos motivos de ética como no restante mundo, e a lei irremissível de ganhar o pão com o suor do rosto torna o gentio da Guiné equivalente aos labrostes bárbaros e retrógrados, sob determinados aspectos, da província portuguesa ou da Rússia, antes do Dilúvio.
As finas qualidades de observação de Fausto Duarte revelam-nos uma Guiné que não so­nhávamos. Lá também o homem é joguete de estranhas e incoercíveis fôrças; lá também o homem faz guerra ao seu semelhante e é tri­vial que o oprimido odeie o tirano, chame-se nesta parte do mundo o cobrador de impostos ou o duanhe, na Europa o proprietário ou representante da autoridade, no guinhol - e tudo no mundo se reduz a guinhol - o gendarme, como em gendarme se cifra tudo o que ­no universo sensível ou incognoscível implica mando e prepotência..
Fausto Duarte é pela civilização, mas a sua. sensibilidade não cala a ternura que lhe me­rece o homem escravizado, coacto a uma feli­cidade sem a qual passaria perfeitamente. Os que sonham com um Portugal de além-mar engrandecido hão de ficar gratos à. pena colo­rida, equilibrada, emotiva sem excesso que escreveu Àuá, estreia literária do maior realce e obra de elevação lusíada.

C. Quebrada, Abril de 1934.

AQUILINO RIBEIRO. 
Auá
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1 de dezembro de 2011

311-Literatura colonial guineense

Leopoldo Amado, doutorado em História pela Universidade Clássica de Lisboa, e guineense. A sua tese de Doutoramento, que teve a amabilidade de me dar a ler, “Guerra Colonial versus Guerra de Libertação (1963-1974): O Caso da Guiné-Bissau”, é um excelente trabalho sobre os meandros, dum lado e doutro, da guerra colonial na Guiné. Infelizmente não está publicada, apesar dos esforços do autor para o conseguir. Uma grande perda para o conhecimento deste tema, especialmente para os que têm particular interesse por ele.   
Este texto abaixo apresentado foi publicado na revista ICALP (do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa), Vol. 20 e 21, Julho de 1990, pp. 160-178:

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