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30 de dezembro de 2011

340-O ano 2012

A 1ª profecia Maia, como a li, dizia que a partir de 1999 nos restavam 13 anos - é agora ou nunca! - para realizarmos as mudanças de consciência e atitude de que eles nos falaram (não te deixes enrolar e reaje): para que possamos desviar-nos do caminho da destruição, pelo qual avançamos, para um outro que abra a nossa consciência e a nossa mente. Para que o nosso mundo não acabe, para que não sejamos lançados na desgraça, que é o que querem os seus promotores. Não há-de ser o fim  do mundo.

29 de dezembro de 2011

339-Vigília na Capela do Rato em 31 de Dezembro de 1972

Os acontecimentos que se desenrolaram na Capela do Rato, nos últimos dias de 1972, enquadram-se num movimento crescente de contestação à guerra colonial que alastrava na sociedade portuguesa, sobretudo nos sectores mais politizados ou mais directamente afectados pela sua continuação, como era o caso da juventude. A vigília do Rato teve, aliás, como precursora a ocupação da Igreja de S. Domingos, em Lisboa, em 1 de Janeiro de 1969, também feita por um grupo de católicos, conhecidos então por «progressistas». A data de 1 de Janeiro de cada ano fora escolhida pelo papa Paulo VI como dia dedicado à Paz, na sequência da célebre encíclica de João XXIII Pacem in Terris. Naquela igreja, após a missa da meia-noite da passagem do ano, celebrada pelo cardeal Cerejeira, um grupo de fiéis comunicou-lhe, através de um texto que lhe foi lido, a sua decisão de permanecer no interior da igreja até ao dia seguinte, em clima de reflexão sobre a paz, na situação de guerra como era a de Portugal. Para esta vigília a poetisa Sophia de Mello Breyner tinha composto o poema que depois se celebrizou «Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar». Ouviram-se muitos testemunhos de vários dos presentes, entre eles jovens que tinham combatido nas colónias, e sustentou-se um vivo debate com o pároco da igreja, que também permaneceu, com a intenção de impedir a vigília. Na manhã seguinte, os fiéis saíram da igreja já sob a vigilância da PIDE, que todavia, para não dar alarde ao caso, não efectuou prisões.
Passados três anos sobre este acontecimento, na vigília da Capela do Rato, iniciada em finais de Dezembro de 1972, repercute-se o crescente mal-estar provocado pela continuação de uma guerra injusta e sem saída, que se verificava agora em meios muito mais alargados. A sua preparação foi mais organizada e previa-se um jejum de três dias, a observar pelos ocupantes, segundo uma declaração lida por Maria da Conceição Moita na tarde do dia 29. Ao mesmo tempo, decidia-se abrir as portas da capela a todos aqueles, crentes e não crentes, que desejassem debater o problema da guerra. A coordenação de toda a acção foi assegurada por Luís Moita, que pediu a colaboração das Brigadas Revolucionárias, organização clandestina chefiada por Carlos Antunes e Isabel do Carmo, com a missão de divulgar o acontecimento na região de Lisboa, o que foi feito através de panfletos.
A escolha da Capela do Rato, situada na Calçada Bento Cabral, para esta acção ficou a dever-se ao facto de se tratar de um local de culto dirigido pelo padre Alberto Neto, frequentado pelos meios mais inquietos da comunidade católica, e que se tomara conhecido pelas inovações litúrgicas e pelas preocupações de ordem social promovidas e proclamadas por aquele sacerdote.
Para o dia 1 de Janeiro de 1972 a palavra de ordem de Paulo VI era imperativa: «A paz é possível, a paz é obrigatória.»No decurso da sua mensagem, o Papa proclamava que era através do diálogo, e não da guerra, que se deviam procurar as soluções para os conflitos. Tal como em ocasiões anteriores, e perante a atitude da hierarquia católica portuguesa que silenciava as directivas de Roma nesta matéria, o grupo de católicos que promoveu a vigília assumia por inteiro aquela palavra de ordem e propôs-se tirar dela consequências práticas.
Nos dias 30 e 31 de Dezembro as portas da capela estiveram abertas de par em par, sem prejuízo no entanto para os oficios religiosos habituais nos fins-de-semana. Centenas de pessoas improvisaram assembleias de discussão, testemunhando o seu ódio à guerra, dissertando sobre os inconvenientes morais e materiais que ela produzia e proclamando a necessidade urgente de lhe pôr cobro, sublinhando o seu carácter injusto. Afixados nas portas, diversos cartazes transcreviam números relativos aos mortos em combate, às populações das colónias dizimadas e aos estropiados de ambos os lados.
Mas a repressão não tardou.
Ao fim do dia 31, perto da hora do jantar, fez-se uma pausa nas discussões, enquanto cerca de cinquenta pessoas permaneciam na capela. Foi nesta altura que se começaram a ouvir ruídos de carros da polícia de choque, acompanhados do latido de cães-polícias, e fez-se o cerco ao local. Os polícias penetraram no templo e, arrastando à força algumas pessoas que resistiam, levaram todos os assistentes para a vizinha esquadra do Rato, onde foi feita uma primeira triagem. A maior parte foi levada para os calabouços do Governo Civil, onde se deu a passagem do ano. Na manhã do dia seguinte, dezasseis de entre eles foram entregues à Pide que os levou para o Forte de Caxias. Foram aí submetidos a interrogatório, mas não torturados e ao fim de um máximo de quinze dias libertados sob caução. Estes processos não tiveram seguimento, talvez com o intuito de não empolar o caso.
Entretanto, e devido à importância pública que os acontecimentos tinham provocado, a Censura não os pôde calar, reproduzindo os jornais uma nota oficiosa cheia de diatribes contra os manifestantes, acusando-os de subversão, traição à Pátria, etc. 
Alguns dias depois o caso foi mesmo levantado na Assembleia Nacional, onde se assistiu a um acalorado combate verbal entre o deputado ultra Casal-Ribeiro e o da Miller Guerra. Este deputado teve a coragem de dizer que não se tratava apenas de um pequeno grupo de agitadores, mas que os ocupantes da capela traduziam um mal-estar crescente e alargado acerca da guerra, e que eram tão fiéis da Igreja como outros. No entanto, a repressão não ficou por aqui: cerca de quinze pessoas que foram identificadas pela polícia e que eram funcionários públicos, entre os quais o professor de Economia Pereira de Moura, foram alvo de processos disciplinares conducentes ao seu despedimento. 
O cardeal-patriarca publicou um comunicado criticando a ocupação e demitiu de capelão o padre Alberto Neto, não obstante este não se encontrar presente durante os acontecimentos, por motivo de doença. Por uma trágica coincidência, nestes dias da ocupação da Capela do Rato, o Exército português em Moçambique massacrava as populações civis das aldeias de Wiriyamu e Chawola, uma operação militar que havia de custar caro à sua credibilidade internacional. Estes massacres foram conhecidos apenas alguns meses mais tarde, através de denúncias feitas por missionários. O caso da Capela do Rato, como ficou conhecido, não deixou de ser referência para acções posteriores de combate à guerra em Africa e teve projecção internacional, manifestando o descontentamento de parte da população portuguesa contra o seu prosseguimento. Tratou-se de uma acção que se inscreveu na actividade dos chamados «católicos progressistas*» contra a guerra colonial, que se vinha desenvolvendo desde 1963 com a publicação do jornal clandestino «Direito à Informação» e continuada no final da década com os «Cadernos GEDOC», animados pelo padre Felicidade Alves, demitido de pároco de Belém. Por esta altura, o mesmo grupo, que se alargara a vários pontos do país, nomeadamente à cidade do Porto, onde também se desenvolviam acções de consciencialização face ao problema da guerra, criou em Lisboa um centro clandestino de informação e divulgação que deu origem, a seguir ao 25 de Abril, ao CIDAC, organização não governamental de cooperação com as antigas colónias. E de salientar neste contexto a acção do padre Mário de Oliveira, pároco de Macieira da Lixa, capelão militar que recusara a guerra, e que foi por duas vezes preso e julgado em Tribunal Plenário. Toda esta acção tinha em vista abrir uma brecha nas posições da hierarquia católica, que não ousava confrontar-se com o Governo, ignorando sistematicamente as directivas do Vaticano acerca dos problemas da paz e da guerra. 

Dicionário da História do Estado Novo – Fernando Rosas, J.M Brandão de Brito 
http://www.25abril.org/images/dot.gif

26 de dezembro de 2011

338-Música indígena da Guiné

«A música é congénita ao homem. 
O homem desde que nasce é um instru¬mento musical pela voz, pelas mãos e pelos pés. A etnografia conhece tribos sem casas, sem o mais ligeiro rasto de indumentária, mas nunca sem música». HABERLANDT. 

ENTRE as manifestações artísticas dos indígenas da Guiné, que são bastantes, aquela que se nos apresenta mais perfeitamente homo¬génea, é a música. 
Vocal ou instrumental, de género monódico, é nada mais, nada menos, do que a repetição constante duma frase quase monótona, inalteravelmente acentuada na tónica, e ordinariamente seguida dum coro sempre composto sobre o canto da voz principal. 
Embora o indígena no tocante à música, como aliás, noutros aspectos da vida mental esteja ainda na sua fase primitiva, já se não limita, con¬tudo, aos elementos de percussão, pois utiliza vários instrumentos de sopro, a flauta de cana com vários orifícios.
É certo que os tocadores destes instrumentos não têm grande canseira em tocá-los, visto que dão uma só nota durante uma frase musical inteira. Cantam ao mesmo tempo que tocam e só mudam de nota quando iniciam nova frase que, geralmente, é sempre igual à primeira. Todavia, os Fulas e os Mandingas, por influência árabe, têm uma concepção artís¬tica mais elevada, fazendo-nos, por vezes, ouvir improvisações musicais já bastante aceitáveis. 
Do que não resta dúvida alguma, é de que todos os indígenas da Guiné têm a sua música: música primitiva, música negra, música da selva, mas incontestavelmente Música. 

***
A música, é antes de tudo, um grito de coração, é o canto natural e espontâneo que o homem traz dentro de si; é como que a exteriorização da alma. Um homem que, ignorando a complicada técnica da música, mesmo os seus mais elementares rudimentos, mas que é dotado de dons criadores e espontâneos, que num descampado por exemplo, sozinho, canta para se distrair, para suavizar o trabalho ou para desabafar o seu estado de alma, pode ser mais sublime, talvez um maior músico, que o autor de sinfonias ou quartetos complicados, se este último tiver menos inspiração do que aquele. 
A inspiração não se vai buscar às Academias; a cultura sem ins¬piração é absolutamente secundária; a inspiração sem cultura, devida¬mente lapidada, pode produzir mimos de bom gosto. 
Quantas vezes o excesso de cultura atrofia a inspiração, havendo por vezes criaturas que, absorvidas ou assoberbadas - Deus o sabe! - pela sua incontestável cultura musical, só têm tendência para truncar, complicar e substituir a inspiração por um luxo técnico, no qual a maioria das vezes não se encontra mais do que uma música desprovida de seiva e de gosto melódico. 
Longe de nós a ideia de pretender contestar a grande importância da técnica na arte musical ou a sua maravilhosa história, a qual nos deu até hoje um grandioso monumento de obras de arte; e foi precisamente com a técnica musical, aliada à inspiração ou vice-versa, que os grandes Génios do século passado arquitectaram algumas das mais extraordinárias obras de que se pode orgulhar o género humano.
Contudo, necessário é reconhecer-se, que ela tomou um lugar muito exclusivo ao ponto de, em seu nome, se desprezar e condenar a impro¬visação e, de uma maneira geral, a música baseada na tradição, isto é, a mais directa e a mais natural. 
Conquanto sejamos pela música para músicos, também o somos pela música• para os que não são músicos. É uma arte tão rica, tão transcendente e tão vasta, que felizmente chega para todos os gostos. Há que ter em atenção que nos leigos está a maioria... De resto, um gosto não prejudica outro.
Os naturais da Guiné compõem-se de várias tribos, em número supe¬rior a dezasseis, que mutuamente se antipatizam, cada uma com a sua língua e costumes próprios, mais ou menos dissemelhantes, tendo somente de comum a música, exactamente como no mundo civilizado, à parte, claro está, o folclore regional de cada país. 
Entre fulas e mandingas, a música está confiada a uma classe de homens especiais dentro de cada tribo, chamados judeus (1), os quais são, de pais a filhos, músicos improvisadores e compositores de cantos religiosos, heróicos ou fúnebres, segundo as cerimónias em que tomam parte. 
Enquanto nalguns países mesmo hiper-civilizados os músicos são, por assim dizer, considerados os párias da sociedade (com excepção dos privilegiados), na Guiné, merecem todo o respeito e consideração, em virtude de antigas lendas ensinarem que a música é um prémio divino concedido ao homem. 
É aos músicos que compete tocar o tambor para as grandes reuniões, para os batuques e para anunciar o falecimento de algum parente (2), competindo-lhes também cantar durante as festas de homenagem aos homens grandes, quer se trate dos seus próprios chefes quer de homens brancos, mas neste caso só com o fim de lhes apanhar lava-remos (gorgeta). 
Se acontece que algum chefe sente o seu prestígio em declínio, logo trata de procurar maneira de fazer exaltar a sua própria glória, contratando os músicos da sua tabanca (aldeia) ou mesmo os de uma outra, os quais, rodeados de todos os seus habitantes, mulheres de um lado, homens do outro (não gostam de mistura de sexos...), se sentam no chão em frente do chefe a homenagear, de preferência à sombra dum poilão, árvore sagrada para eles. Os músicos improvisam em sua honra, vários cânticos, exaltando os seus feitos e as suas virtudes. 
Esta música compõe-se ordinariamente de cantos heróicos, marchas de guerra de um ritmo nervoso e sacudido, ares de dança e cânticos de amor, predominando nestes imitações de animais, tais como o mugir do boi o balir da cabra, etc., soltados ora pelos tocadores, ora pela assistência. 
Verdade seja que toda esta música se assemelha, especialmente na sua melodia: frase triste, longa e langorosa, interrompida aqui e ali por uma espécie de escalas mais ou menos acidentais, partindo de notas agudas para descer bruscamente até aos extremos baixos da voz humana, suspendendo-se em seguida como um queixume, durante mais dois ou três compassos marcados pelo tambor. 
O negro também tem o hábito de cantar quando trabalha, mas é sobretudo ao caír da tarde, no abandono total do esforço físico, a meia voz, que ele se põe em contacto com Apolo. As melodias, como dissemos, são tristes, muito primitivas, incompreensíveis às vezes, mas o seu ritmo é impressionante, difícil e complicado. 
Muitas vezes também as mulheres actuam nas festas de louvor aos homens qrandes, tocando um instrumento, se assim lhe podemos chamar, que consiste numa meia cabaça esférica, tendo previamente metido nas falangetas de todos os dedos (excepto nos polegares), uns anéis de metal com os quais tamborilam no flanco da cabaça, regulando o som ora encostando-a ao corpo ora afastando-a, consoante a voz se vai elevando ou abaixando, desempenhando mais ou menos o papel da nossa pandeireta.
São estes os traços característicos da arte musical indígena, inferior talvez, mas seguramente natural, impulsiva, pura e muito diferente da nossa, 
De todas as tribos da Guiné, é incontestavelmente nas tribos Fula e Mandinga que se encontram os melhores músicos da Colónia. 
Predomina na vida material e religiosa destas duas tribos a influên¬cia árabe, mas é sobretudo na sua música, que essa influência mais se acentua.
De facto, quem assistir a uma festa abrilhantada por músicos das duas tribos, e ouvir uma das suas nostálgicas ou fatalísticas improvisa¬ções, acode-lhes logo ao espírito frases de alguma composição árabe - de Albeniz ou de Granados - que nós, ibéricos que somos, facilmente com¬preendemos por termos também sofrido outrora a mesma influência.
Dito isto, vamos tentar descrever os instrumentos usados na Guiné, procurando tanto quanto possível, ser exactos na sua descrição, evi¬tando, contudo, aprofundar o assunto que, para tanto, nos falece a com¬petência. 
Os instrumentos músicos usados pelos indígenas da Guiné, pelo que temos observado, são muito Limitados; o seu total compõe-se somente de um instrumento de sopro, de instrumentos de corda friccionada e dedi¬lhada, do xilofone e de vários instrumentos de percussão, dos quais só falaremos de três, que são os padrões de todos os outros. 

Começaremos a descrevê-los pela ordem acima indicada, e dar-lhes-emos os nomes em crioulo, que é a língua comum a todos os homens cultos das várias tribos.

F L A U TA:
 - Instrumento feito de cana, semelhante ao usado pelos nossos pastores, mas muito mais rudimentar. Tem só três orifícios, um para soprar e os outros dois para tocar tudo. Não se consegue com ele dar sequer um fragmento de escala. Contudo tocam-no como por milagre, todas as tribos, e cada uma dá-lhe um nome próprio. Há-os trabalhados com desenhos rectilíneos a pirogravura de bom deito ornamental.

C A L A N D E:
 - Instrumento composto de uma meia cabaça, pequena, que forma a caixa de ressonância, coberta com uma pele na sua abertura, e com um buraco rectangular no seu flanco, ligada a um braço de tamanho variável de instrumento para instrumento, e provido de uma só corda de tripa, sendo friccionado com um arco também provido com corda de tripa. Imita de perto o nosso violino. Como a única corda que tem nunca é premida contra o braço, que está muito' afas¬tado dela, só toca nos harmónicos, em virtude de ser premida muito levemente. Provavelmente os executantes desconhecem que se premissem a corda contra o braço, o instrumento daria muito maior rendimento.É só usado pela tribo Fula que lhe dá o nome de Calande. A sua extensão está condicionada ao fenómeno harmónico. 

VIOLA:
 - Instrumento muito  elegantee bastante sóbrio de linhas. Compõe-se de uma caixa-de-ressonância de madeira, coberta de pele, com cerca de 40 a 4j centímetros de comprimento e 10 de largo. A caixa tem um orifício na extremidade inferior, e é provido de um braço onde se prendem as cordas que são em número de três, quatro e cinco, sendo estes os mais usados. Tambérn é dedilhado e o mais curioso é que os bordões, ou seja, as cordas mais grossas, estão intercaladas pelas primas.As cordas são premidas contra o braço. o que não acontece com o Calande. Pode-se, por isso, com ele tocar melodias harpejadas. o que dá um efeito interessante, É usado pela tribo Fula, que lhe dá o nome de Toucron. Por vezes é tocado com uma surdina igual à do K01'á que lhe altera em parte o som, aumentando-lhe o deito musical, corno a seguir teremos ocasião de ver.
Eis as notas produzidas pelas suas cordas soltas e de baixo para cima: 
KORÁ:
 - Instrumento também composto de uma mela cabaça. maior do que a do Calando e com o mesmo dispositivo deste. Como os instrumentos são sempre construídos pelos seus próprios tocadores, cada qual adorna-os a seu gosto e fantasia. adaptando-lhes o número de cordas consoante a habilidade que tem. Há ins-trumento; com oito, doze e mais cordas, predominando os de vinte e uma. 
As cordas estão fixas ao instrumento como as dos nossos instrumentos, excepto o emprego das cravelhas, apenas com a diferença de o cavalete medir cerca de 25 centímetros de altura. Este cavalete tem nos seus flancos um sistema de encaixes intercalados, por onde passam as cordas, que por sua vez se vão prender ao braço. 
Tem ainda um acessório muito importante e ao qual poderíamos chamar surdina, que se compõe de uma folha de alumínio ou mesmo de lata, oval, e com uns orifícios em toda a sua volta, onde estão emitidos uns elos de arame. 

O efeito produzido por esta surdina é interessante, pois as vibrações das notas são acompanhadas de uma ténue trepidação dos elos da folha; semelhando guizos tocados ao longe. 
O instrumento é dedilhado com ambas as mãos como a harpa e toca-se sentado no chão. Supomos, e com visos de verdade, que a sua afinação esteja entregue ao gosto do executante; contudo, pelo que temos ouvido e observado, parece estar baseada na escala árabe, porquanto, os músicos, não concebem a escala diatónica e muito menos a cromática, tal como nós a concebemos. Isto, pelo menos, quando cantam. É só usado pela tribo Mandiga, que são, quanto a nós, os melhores músicos da Colónia. 
As suas cordas são em número de vinte e uma, sendo onze do lado esquerdo do cavalete, e dez do lado direito. Tem a seguinte extensão:
B A L A F O N:
 - É exactamente do feito do nosso xilofone ou sistro. Até mesmo o material empregue na sua construção é idêntico, pelo que se torna inútil descreve-lo. Também tocado com dois martelos, e a sua extensão varia segundo a tribo do seu construtor e do seu tocador. Usam-no os Fulas e os Balantas, estes com vinte e quatro notas e aqueles com dezassete. A sua afinação é quase perfeita; observamos um destes instrumentos tocados por um Fula, e conseguimos ouvir uma escala de Fá Maior rigorosa, como se pode ver pelo exemplo que a seguir damos. As notas imediatamente inferiores e superiores à escala de Fá Maior, embora seguidas, são um tanto ou quanto semitonadas, razão pela qual não podemos considerar o instrumento perfeito. 
Eis a extensão de um Balafon Fula - «Balangi» como lhe chamam - ou «Bálá», nome por que é conhecido entre os Balantas.
CUMURA: 
- Instrumento de percussão semelhante aos nossos timbales ou tímpanos, de vários feitios e tamanhos, apenas com a diferença de que os grandes são tocados com duas baquetas, os médios com uma baqueta e com uma mão, e os pequenos com ambas as mãos. E comum a todas as tribos.

GILÁ: 
- Instrumento de percussão de som mais seco e cavo que o do Cumura, composto de um tronco de árvore oco por dentro, de comprimento variável que vai ii mais de dois metros e meio, e com uma pele na extremidade mais larga. É tocado com ambas as mãos e posto a tiracolo, sendo comum a todas as tribos.

BOMBOLON:
 - É este o mais importante instrumento indígena de percussão. E construído de um grande tronco de árvore bastante grosso e escavado por dentro, com o comprimento variável de um a dois metros, com uma estreita abertura longitudinal (um pouco mais pequena do que o seu comprimento), sendo tocado com dois paus - que servem de baquetas - por um ou mais tocadores. Já o vimos tocar por seis homens, três de um lado e tês do outro, sendo somente utilizado para transmitir notícias importantes. ou em cerimónias de grande transcendência. 
Poderíamos chamá-lo telégrafo indígena. 
Toda a gente conhece o seu som cavo e especial. 
Tem também uma outra função muito importante, que consiste em chamar o vento. Todos os barcos à vela estão providos dele. Quando há necessidade de fazer uma viagem c o vento falta, os marinheiros tocam-no, na persuasão de que, assim, chama o vento. É comum a todas as tribos. 

+++

Aqui ficam, caro leitor, os apontamentos que nos foi possível colher através de uma rápida passagem pelo interior da Colónia. Lamentamos não ter podido fixar algumas composições indígenas para completar estas notas. Todavia, com os magros elementos colhidos, e o estudo dos instrumentos músicos usados pelos nativos, já podemos fazer um juízo mais ou menos acertado da mentalidade da população indígena da Guiné Portuguesa. 
Abílio Gomes 
(Chefe da Banda de Música 
da Guarnição Militar da Colónia)
(1) Tem este nome só entre tribos islamizadas. 
(2) Por parente deve entender-se os amigos e conhecidos da mesma tribo c não somente as pessoas de família, como geralmente se supõem
(*) A Domingos Fernandes Canhão, mestre nestes assuntos e particular Amigo. 

24 de dezembro de 2011

337-Ladainha dos póstumos Natais



Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

In “OBRA POÉTICA” de David Mourão-Ferreira 

22 de dezembro de 2011

335-Morreu Eurico Corvacho, militar de Abril e combatente na Guiné

Eurico Corvacho, antigo capitão de Abril e membro do Conselho da Revolução (CR), morreu quarta-feira em Lisboa, anunciou a família. Foi comandante da Região Militar do Norte em 1975.
Sobre a sua estadia na Guiné durante a guerra colonial leiam http://blogueforanada.blogspot.com/2006/02/guin-6374-dlxxvi-o-meu-capito-o-capito.html, para ver o que diz dele o capitão José Neto

21 de dezembro de 2011

334-Mensagens de Natal da Guiné



Clicar nos dois vídeos ao mesmo tempo, para os ver em simultâneo.


Mensagens de Natal da Guiné 70/72 from Alexandre Ferreira on Vimeo.

333-Presença Portuguesa na Senegâmbia

Mamadou Mané *
Algumas Observações Sobre a Presença
Portuguesa na Senegâmbia
até ao séc. XVII **

O tema geral do Congresso oferece-nos a oportunidade de examinarmos certos aspectos da presença portuguesa na África atlântica negra. Abordaremos o tema no seu contexto histórico o dos contactos luso-africanos. Tendo estes contactos (do séc. XV ao XVII) conduzido a uma presença portuguesa relativamente importante, para não dizer hegemónica, pode comparar-se o seu impacto a um outro que o precedeu o dos Muçulmano-árabes, na região do Sahel (Oeste Africano).
Atendendo a este facto rapidamente se proclamou a vitória da «caravela sobre a caravana», embora, mais tarde, se tivesse relativizado a afirmação. De facto, a presença portuguesa, em nome das diversas motivações que a provocaram, não foi, à partida, muito benéfica para os iniciadores a ponto de Jean Devisse não ter hesitado em falar de decepção: o ouro que se ia procurar lá era obtido em quantidade insuficiente; as tentativas de cristianização das populações costeiras, para fazer delas baluartes eficazes contra o expansionismo muçulmano, foram um malogro; as trocas comerciais, no início, eram medíocres, não obstante o carácter pacífi co das relações com os autóctones a partir de 1450.
No entanto, a decepção não levou ao desânimo, e os Portugueses, ao descobrirem as costas atlânticas de África, e ao estabelecerem-se lá, contribuíram muito para o enriquecimento dos conhecimentos daquela época sobre o Continente relativamente ao qual abundavam lendas e afi rmações contrárias à verdade, colhidas especialmente nos escritos antigos de Ptolomeu.
As novas informações fornecidas pelos navegadores portugueses do séc. XV reintegravam então a África no centro das preocupações de ordem geográfico-económica da Europa em expansão marítima. Desde então, e até aos nossos dias, têm sido publicados estudos sobre este assunto, sendo o mais recente (de que tenho conhecimento) o de António Carreira.
O tema da presença europeia, especialmente portuguesa, na África negra, é, pois, actual. Por isso, também nós o abordámos, mas na perspectiva do presente Congresso.
Limitámos o nosso estudo à Senegâmbia, e não foi por acaso que escolhemos esta zona de África. É que ela constituiu o primeiro espaço dos países negros a ser descoberto pelos Portugueses desde os meados do séc. XV.Na sua acepção histórica, a Senegâmbia engloba não só o Senegal e a Gâmbia mas também a Guiné-Bissau até à zona que circunda a Serra Leoa, ao Sul.
No aspecto comercial, os Portugueses tornaram-se progressivamente hegemónicos na Senegâmbia, ao longo do séc. XVI, conseguindo orientar novamente em direcção à Costa o essencial dos circuitos tradicionais do comércio regional inter-africano.
O pontapé de saída foi dado a partir de 1460 com o povoamento e a exploração das Ilhas de Cabo Verde, graças à mão-de-obra servil negra adquirida no Continente em frente, o que deu rapidamente origem a uma produção têxtil, e a impulsionou, com as plantações de algodão de Fogo e Santiago.
Tecidos e tangas eram trocados por escravos, uma parte dos quais começava a ser reexportada para a Europa e já para a América. De modo que, a partir de 1582, se notava em Fogo e Santiago a presença de 1608 Portugueses, 400 escravos libertos e 13 700 escravos.
Durante esse tempo, na costa africana, como pontos de apoio de penetração comercial portuguesa, fundaram-se do Norte a Sul, no séc. XVI, as localidades de Portugal (Porto dAle), São Domingos, Cacheu (fundada em 1588), São Filipe (a montante do Cacheu, em 1581), Porto da Cruz (em 1584), no Rio Grande, ao Sul, na Guiné-Bissau. Antigos centros comerciais africanos situados ao longo dos numerosos cursos de água entravam igualmente em posse dos comerciantes portugueses: Joal (na Pequena Costa do Senegal); Barra e Bintan na embocadura do Gâmbia; Kassan, Kantor, Sutuco na Alta Gâmbia; Quinquin, Sarar, Bolor na margem sul do Casamança. Anteriormente, no fi m do séc. XV (em 1488), tentou-se, sem sucesso, a construção dum forte português, na embocadura do rio Senegal.
Estes, alguns dos centros motores de intercâmbio luso-africano no comércio atlântico senegambiano. Até ao fi m do séc. XVIII e no início do XIX, estes centros continuavam a desempenhar essa função, mas com um número cada vez maior de Franceses e Ingleses.
No fi m do séc. XVI, na região do Rio Grande, que era a mais ocupada pelos Portugueses na Senegâmbia, contavam-se 50 casas de brancos e de mais de 100 Portugueses.
É o momento de evocar a acção determinante dos «Lançados-Tangomaos» no êxito dos Portugueses na Senegâmbia. Relativamente a eles, desenvolveu-se uma abundante literatura focando as suas origens, a sua formação e as importantes funções económico-culturais a eles atribuídas na zona aonde fizeram a sua aparição a partir dos primeiros anos do séc. XVI. Na maior parte, eram judeus de origem, cristianizados ou não, lançando-se, a partir das Ilhas de Cabo Verde, na aventura africana. Vivamente empenhados nas trocas com os Africanos, não tardaram, em nome dos interesses comerciais, a integrar-se firmemente no ambiente sociocultural africano, a ponto de perderem por vezes algumas das suas características europeias, casando com as autóctones, surgindo assim uma descendência mestiça que estava na origem da língua e da cultura crioulo-portuguesa bem impregnadas na parte Sul da Senegâmbia.
A maioria dos Portugueses que comerciavam em todos os recantos da região eram precisamente os «Lançados-Tangomaos», criando vínculos estreitos com os soberanos locais que eram seus protectores. O mais célebre desses lançados no séc. XVI chamava-se João Ferreira, a quem os africanos alcunharam de «Genagoga» em virtude de dominar várias línguas da região. Acabou mesmo por casar com uma princesa do reino Denianke, do Norte do Senegal, de quem teve um fi lho.
Os «Lançados-Tangomaos» eram pois Europeus dotados duma facilidade de adaptação extraordinária no meio negro-africano. Esta, uma das razões pelas quais eram espoliados e perseguidos pela administração portuguesa, convencida de que deslustravam assim a imagem de testemunho do Ocidente Cristão entre os povos «bárbaros».
Outro motivo que justificava essa acção contra os «Lançados» de Portugal residia na vontade de autonomia comercial que esses exilados da cultura portuguesa manifestaram relativamente ao monopólio real que a coroa de Lisboa tentava impor ao comércio atlântico senegambiano. Apesar da promulgação de medidas draconianas contra eles, os «Lançados-Tangomaos» persistiam nos seus empreendimentos, se bem que tais medidas tivessem feito diminuir a sua eficácia e sobretudo as fontes de aprovisionamento de produtos europeus. Mas pouco lhes importava.
Ingleses, Franceses e Holandeses começavam a chegar a partir do séc. XVI, e muitas vezes com mais mercadorias para trocar que os Portugueses. Para os «Lançados» não havia escrúpulos de ordem nacionalista ou patriótica: os negócios, acima de tudo. Tanto mais que dificilmente se lhes reconhecia a sua qualidade de Portugueses. Ei-los, pois, a servirem de intermediários aos concorrentes Ingleses e Franceses. Entre os seus descendentes mestiços sulcando o Gâmbia, o rio Cacheu e a Serra Leoa, recordam-se alguns nomes:
Bibiana (ou Viviana) Vaz, uma mulher que geria importantes negócios em Cacheu em 1682 e que tinha frequentemente rixas com a administração portuguesa do Cacheu.
José Lopes de Moura, neto dum imperador da dinastia dos Manes da Serra Leoa, durante a primeira metade do séc. XVIII
Tomba Mendes também do séc. XVIII, descendente duma mestiçagem com a família real do Niumi (na Baixa Gâmbia).
António Vaz parente e contemporâneo de Bibiana Vaz.
Os Lançados tinham, pois, contribuído para a ruptura do monopólio português no comércio da Senegâmbia, em proveito duma maior diversificação dos parceiros económicos, o que lhes era fácil de realizar, tanto mais que os soberanos africanos optaram também pela mesma política comercial. Pelos fins do séc. XVI já se tinham assinalado pela sua grande receptividade à influência portuguesa áreas como a Baixa-Gâmbia (Niumé, Bintan, Hereges); o reino de Kasa (Casamança), onde um dos seus soberanos, Masatamba, era tão favorável aos contactos com os Portugueses que desencadeou guerras contra os povos vizinhos da Baixa Casamança, que punham entraves a esses contactos (comia à mesa, utilizando louça portuguesa, segundo referências de Álvares de Almada, que o visitou em 1570); os países Papel-Brame (entre os rios Cacheu e Geba) onde, com a construção de algumas capelas, houve tentativas bem sucedidas de cristianização ao nível da classe dirigente; os países Biafad (ao redor do Rio Grande) que serviam de intermediários importantes às transacções comerciais portuguesas entre a Serra Leoa e o espaço da Gâmbia.
Tais aquisições, os Portugueses iam vê-Ias perturbadas no séc. XVII, pela concorrência cerrada de Ingleses e Franceses. Apesar da acção enérgica de Gonçalo Gamboa de Ayala, capitão-mor do Cacheu a partir de 1641, para redinamizar a antiga preponderância portuguesa, era com outras influências estrangeiras que a Senegâmbia, na sua maior parte, entrava em contacto. Já se disse que o sucesso da concorrência inglesa e francesa aos interesses portugueses não deixava de se relacionar com a colaboração dos «Lançados-Tangomaos».
 Esta nova conjuntura dera um grande impulso ao comércio atlântico e orientava-se cada vez mais para a Deportação de negros africanos (vendidos como escravos) de que a Senegâmbia era uma das plataformas giratórias. Esta tornou-se numa grande encruzilhada aonde chegavam não apenas Europeus mas também outras «populações do interior do Sudão Oriental, que se tinham introduzido (como os «Lançados») no comércio atlântico como agentes intermediários. Queremos referir-nos aos comerciantes africanos conhecidos pela designação mandinga de «Juta». Acabaram por rivalizar com os «Lançados», sulcando todos os circuitos comerciais senegambianos, desde a Gâmbia à Serra Leoa. Embora muçulmanos por oposição às populações autóctones ligadas mais à religião tradicional, por vezes ganhavam vantagem sobre os Lançados. Eram facilmente aceites no meio, graças à preponderância, na Senegâmbia, da cultura mandinga, a que pertenciam quase todos. Provenientes do reservatório de escravos em que se tinha tornado o Sudão Ocidental, os «Juta» eram, aos olhos dos negreiros, mais hábeis que os «Lançados» no aprovisionamento do tráfico de escravos.
Tal era, no séc. XVIII, a situação dos «Lançados», vítimas duma conjuntura para cuja origem eles muito tinham contribuído. Viam-se cada vez mais marginalizados em favor dos Julas mandingas, integrados no islamismo que traficavam muitas vezes directamente com os Europeus, na Costa. Acrescentando a estes factores a repressão de que eram vítimas os «Lançados» e os seus descendentes por parte da administração local portuguesa, pode facilmente compreender-se o refluxo comercial e cultural do caso português na Senegâmbia, pois todos esses factores tinham retardado, senão anulado, o processo de aculturação que se desenhava com a formação e o desenvolvimento do crioulo português. Apenas restavam à influência portuguesa as Ilhas de Cabo Verde e o espaço costeiro Guiné-Casamança, onde, até ao séc. XIV, beneficiava ainda das simpatias do reino Kasa, dos países Papel-Brame e Biafad. E não foi um acaso se este espaço acabou por constituir o conjunto das colónias portuguesas da África Ocidental.
Analisámos certos aspectos da presença portuguesa na Senegâmbia e igualmente as potencialidades de que ela dispunha e que podiam ter tomado maior amplitude, se não fosse o conjunto de circunstâncias a que se fez referência. No entanto, estas observações sobre o caso português não devem levar-nos a pôr entre parêntesis, e menos ainda a negar, a existência e o dinamismo interno das formações sociais africanas nesses locais. Os Portugueses do séc. XV encontraram-nas já bem estruturadas, controlando os seus espaços respectivos no plano administrativo, político, económico e cultural.
Apesar da sua dependência relativamente a produtos fornecidos pelo comércio europeu, era como parceiros livres e soberanos que as suas aristocracias reinantes acolhiam os europeus, aos quais exigiam o pagamento de taxas e de impostos diversos. Se bem que, a respeito do que se ia passar no séc. XIX com a penetração colonial, o tráfico negreiro, do qual elas tiravam lucro, cavasse antecipadamente o seu próprio túmulo.
A verdade é que, à sua chegada no séc. XV, os primeiros navegadores portugueses ficaram surpreendidos pelo grande número de espaços territorializados na Senegâmbia (reinos, impérios, etc...), que aí existiam desde há muito e que tinham dado à zona uma fisionomia uniforme. Do rio Senegal, ao Norte, ao Rio Grande, ao Sul, passando pelos rios Gâmbia, Casamança e Cacheu, tinham-se afirmado como entidades políticas autónomas os espaços Peul-Denianke, Wolof-Serer, Kaabunke (Kaabu), Kassanga (Kasa), Papel-Brame, Biafad, etc.Não obstante este grande desmembramento de Estados, podiam notar-se, com Álvares de Almada, três principais focos motores políticos: o conjunto Folof-Salum (entre os rios Senegal e Gâmbia); o Kaabu, controlando a Gâmbia, o Alta Casamança e o rio Geba; o Kasa, que deu o nome ao rio Casamança. Estas três entidades estavam ligadas entre si por trocas comerciais e culturais Norte-Sul-Norte, no quadro dum tráfi co inter-regional activo, também ele ligado ao comércio de longa distância na direcção Este-Oeste, que punha em comunicação a Costa e a parte interior do país sudanês. Eram estes circuitos que os Portugueses tinham integrado antes de os desviarem para o novo centro de gravidade a Costa. A Senegâmbia constituiu, pois, durante muito tempo, uma aposta importante. Mas estava longe de aparecer como um finisterra passivo onde vinham exercer-se todas as influências, visto ter a sua personalidade histórica e política que tentava fazer prevalecer nas relações com o exterior, quer fosse europeu ou africano ocidental.
Vamos observar, nas linhas seguintes, a reacção da Senegâmbia ao caso português, em paralelo com o interior do Sudão Ocidental, que vivia a influência muçulmano-árabe.
No Sudão Ocidental, o impacto muçulmano-árabe manifestara-se nitidamente durante os séc. 13, 14 e 15. A prosperidade económica e o prestígio intelectual de cidades como Tombouctou, Djenné e Gao deviam-lhe muito. O que se passou, portanto, no Sudão, era de longe anterior à penetração europeia na Senegâmbia. Atendendo a este facto, poderiam de repente contrapor-nos o factor-tempo que interviera amplamente a favor da influência do Maghreb no Sudão. De facto, foi daí (do Magherb) que se desencadeou, durante toda a Idade Média, a dinâmica muçulmano-árabe no início do comércio transariano, judiciosamente posto em paralelo pelos historiadores com o comércio atlântico europeu que se estabeleceu somente a partir do séc. XV.O factor tempo actuou eficazmente em todos os processos de aculturação. Tem de se reconhecer este facto. Para o conjunto da Senegâmbia, os Portugueses apenas dispuseram de século e meio (da segunda metade do séc. XV até ao fi m do séc. XVI), em comparação com os três séculos, pelo menos, de comércio transariano.
Mas o factor tempo, embora muito importante, não é sufi ciente por si só. Há que acrescentar outros parâmetros igualmente válidos: as modalidades pelas quais se estabeleceram os contractos, a sua permanência, as reacções do meio de acolhimento, a posição geográfica da influência estrangeiram, o ambiente geral do espaço de acolhimento, enfi m, as personalidades socioculturais de cada uma das entidades em contacto. E a respeito da influência muçulmano-árabe no Sudão? É preciso notar que os comerciantes do Maghreb tinham sido duplamente bem-sucedidos nos seus contactos com o Sudão medieval: no plano económico, abriram caminho ao comércio transariano que assegurava os seus aprovisionamentos em ouro e escravos, essencialmente; no domínio religioso, conseguiram a conversão pacífica ao islamismo dos grandes soberanos locais, especialmente no Mali e no Songhay, onde se instaurou, a partir do séc. XIV, o hábito da peregrinação a Meca com o que isso trazia de irradiação à civilização muçulmano-árabe.
Recorda-se ainda a célebre peregrinação a Meca do imperador do Mali, Kanku Musa, no séc. XIV. Regressou ao seu país aureolado de glória e acompanhado de letrados e sábios muçulmanos, sendo de destacar o arquitecto Es-Sahéli, que muito contribuiu para a afirmação da arquitectura tão típica de Tombouctou e de Djenné.
No entanto, a originalidade da penetração muçulmana no Sudão Ocidental da Idade Média não reside apenas no seu carácter pacífico e aristocrático. Aparece também na emergência progressiva duma camada social africana seguidora de Marabu que, muito mais que os Brancos muçulmanos, assegurou o sucesso da difusão do Islão. Foram esses especialistas do Islão (os marabutos) que realizaram ao nível popular a islamização no Sudão Ocidental e até mesmo em certos enclaves da Senegâmbia. Repartidos em famílias, esses marabutos tinham-se espalhado por quase todo o Oeste africano, sendo focos de início da sua acção a curvatura do rio Niger (Tombouctou, Gao, Djenné).
Eram essencialmente de etnia saracolé ou mandinga, exceptuando o grupo étcnico marabútico que surgiu muito cedo também no vale do rio Senegal, no Tékrour, da etnia dos Peuls. Não é pois de surpreender a predominância do impacto muçulmano-árabe no Sudão Ocidental, bom fundamento nestes factos, alguns não hesitaram em falar do Islão negro antigo. Ora, nada disto se produziu verdadeiramente nas relações luso-africanas da Senegâmbia, onde o acolhimento aos Portugueses era apenas comercial.
Apesar da existência das Ilhas de Cabo Verde em que se tinha aclimatado a cultura portuguesa, apesar do aparecimento e da afirmação do crioulo português em certas regiões, o processo de aculturação iniciado pelos Portugueses permaneceu em estado embrionário. De facto, quase não houve conversões de soberanos locais ao Cristianismo. Nas raras ocasiões em que se verificaram, foram devidas mais à táctica política para prepararem um apoio militar da parte dos Portugueses contra uma ameaça de invasão, ou para eliminarem uma tribo rival. Em todos esses casos não houve referências a africanos que tivessem manifestado a sua vontade de proselitismo religioso, como fizeram os marabutos no espaço sudanês. É que o Cristianismo, nessa época, raramente tentou adaptar-se às realidades culturais e espirituais dos povos autóctones. Foi um pouco demasiado iconoclasta, incompreensivo e intolerante relativamente às práticas religiosas do meio. Era muitas vezes uma tal atitude que guiava a acção da maior parte dos missionários na Senegâmbia. A grande preocupação dos missionários do início do séc. XVI, como Baltasar Barreira, Manuel Álvares, Vitoriano Portuense e tantos outros, era primordialmente salvar as almas dos colonos portugueses em contacto com a África, ainda que levantassem de tempos a tempos e em certos locais conversões ao nível dos autóctones.
Este balanço da parte de Portugal não estava à altura dos trunfos de que dispunha à partida. É esse um dos grandes paradoxos do caso português na Senegâmbia. Sabemos que noutros locais, nos reinos Kongo da África Central atlântica, por exemplo, não se observa este paradoxo. A admiração dos soberanos Kongo pelo modelo ocidental cristão a partir do séc. xvi, se não tivessem sido posteriormente os incidentes nefastos do desenvolvimento do tráfico de escravos, poderia ter conduzido a um exemplo extraordinariamente fecundo de cooperação entre Portugal e a África negra. Também aí a experiência se modificou repentinamente para ter tomado uma orientação demasiado mercantilista da parte dos Portugueses. Não eram, pois, as oportunidades nem os trunfos que faltavam aos Portugueses na África atlântica para lá se estabelecerem e desenvolverem acções duradouras do tipo das que se verificaram no Sudão Ocidental medieval sob a influência muçulmano-árabe.
Na Senegâmbia, apontámos as contradições do fenómeno Lançados-Tangomaos, a repressão que sofreu da parte da Metrópole e dos agentes coloniais portugueses. E, no entanto, a presença portuguesa manifestou-se lá rapidamente pela constituição dum embrião de património edificado, com os fortes, as feitorias, especialmente ao longo da Costa que vai da Gâmbia, ao Norte, até S. Jorge da Mina, ao Sul, passando pela Serra Leoa.
A história continuará a interrogar-se sobre essa presença portuguesa na Senegâmbia no decurso dos sécs. 15, 16 e 17, onde dominou o comércio, servida pela sua colónia de povoamento das Ilhas de Cabo Verde, onde forjou uma língua e uma cultura crioula relativamente popular, onde beneficiou de simpatias políticas locais, graças às suas testas-de-ponte que eram os Lançados, sem que tudo isso fosse dar a algo de notável no plano arquitectural, por exemplo. Não dizemos que não haja absolutamente nada. Temos a toponímia, em uso ainda nos nossos dias; há também, a partir dos séc. 18-19, o aparecimento da habitação rectangular africana munida de varanda, de inspiração portuguesa.
Mas julgamos que, deste ponto de vista, a Senegâmbia poderia ter sido o primeiro Brasil dos Portugueses. De facto, a explicação, em última análise, de semelhantes paradoxos, aparentes ou reais, atribui-se ao facto de a África atlântica, ao contrário do Brasil, não ser de uma maneira geral uma tábua rasa política e demográfica. Há ainda a acrescentar que, aos olhos dos Portugueses da época, o continente, durante todo o período do Tráfico dos Negros, era considerado unicamente um reservatório donde se ia extrair mão-de-obra servil para o desenvolvimento das plantações das Américas.
Foi esta concepção estritamente economista da administração e dos colonos portugueses que anunciou o fim iminente duma fase importante das relações luso-africanas na Senegâmbia.

* Director do Património Histórico e Etnográfico no Ministério da Cultura, Dakar, Senegal.
* * Comunicação ao 1.º Congresso sobre o Património Construído Luso no Mundo, Março 1987.

Referência
Mané, M. — Algumas Observações Sobre a Presença Portuguesa na Senegâmbia até ao séc. XVII. Revista ICALP, vol. 18, Dezembro de 1989, 117-125.