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31 de março de 2011

95-Crimes de guerra


Artigo de Pedro Pezarat Correia* no Jornal de Notícias de 6 de Setembro de 1997

SABE QUEM COMBATEU QUE HOUVE CRIMES DE GUERRA

A. 
Recusando-me, por uma questão de princípio e de honestidade intelectual, a analisar a problemática dos "crimes de guerra" numa perspectiva jurídica - porque não sou jurista - limitar-me-ei a situá-la nos campos militar e político, que, afinal, como a história recente nos tem demonstrado, se tem em geral sobreposto ao campo político.

1. O julgamento dos "crimes de guerra", muito mais do que a apreciação de comportamentos de indivíduos enquanto combatentes, tem-se traduzido num exercício de poder de vencedores sobre vencidos. Em todas as guerras se têm verificado actos tipificáveis como "crimes de guerra", de ambos os lados das barricadas mas, salvo raras excepções, apenas aos vencedores tem cabido o "direito" de julgarem os "crimes de guerra" praticados do lado dos vencidos. Não há memória da constituição de tribunais independentes e supranacionais que, terminado um conflito, julgassem, de forma descomprometida, os "crimes de guerra" praticados em ambos os lados.
O recente caso da Bósnia, cujos julgamentos foram cometidos ao Tribunal Penal Internacional das Nações Unidas, com sede em Haia, aquele que mais poderia aproximar-se deste posicionamento de isenção e neutralidade, não foge totalmente aos vícios atrás apontados. Porque aqui, se entre os contendores bósnios não houve claramente vencedores e vencidos, acabou por haver um vencedor militar exterior: a OTAN e a sua potência hegemónica, os EUA, e um derrotado militar preferencial: os sérvios bósnios. E os dedos acusadores dos "crimes de guerra" não deixaram de reflectir esta lógica.

2. Uma segunda questão prévia se impõe. É que as acusações de "crimes de guerra" tendem a incidir sobre os agentes imediatos de actos como tal classificáveis, isentando ou ignorando os responsáveis pela criação das condições que tornaram esses actos possíveis, por vezes mesmo inevitáveis, ou seja, a própria guerra. E não são os militares quem desencadeia as guerras. Como salienta Samuel Huntington, "é o povo e os políticos, a opinião pública e os governos, quem desencadeia as guerras. São os militares que têm de combater" (1).
E certo que nem todas as guerras podem ser classificadas de criminosas. Isto nos remete à velha questão das "guerras justas" e "guerras injustas". Erasmo considerava como justa uma guerra de "( ... ) defesa contra a agressão ( )" (2). E no mesmo sentido se pronunciou Bertrand Russell, ao considerar que "( ) justa é toda a resistência a uma agressão ou invasão ( ... )" (3).

3. Seja justa ou injusta a guerra, o combatente pode envolver-se em atitudes condenáveis, isto é, em "crimes de guerra". Mas não pode alienar-se o ambiente desumanizado em que o combatente actua. Segundo Hegel "( ... ) o estado de guerra é um estado em que reina a contingência e em que as relações não são reguladas pelo direito mas sim pela força" (4). E, judiciosamente, François de Fontette escreveu que "os massacres de populações civis pela tropa em campanha são, sem dúvida, horríveis e injustificáveis. Mas acontecem em momentos paroxísticos das guerras, que surgem, então, com o seu inevitável cortejo de abjecções, e não como consequência de actos friamente premeditados e longamente amadurecidos" (5). E, regressando a Erasmo, também este humanista reconhecia que qualquer guerra "( ... ) arrasta atrás de si um infinito cortejo de crimes e infelicidades ( ... ) que vitimam sobretudo os inocentes" (6).
Assim, admitindo que num conflito haverá uma parte que enfrenta uma "guerra justa", e outra que trava uma "guerra injusta" - se bem que não sejam poucos aqueles em que ambos estão envolvidos em guerras injustas - só terá sentido o julgamento de "crimes de guerra" dos combatentes se, prioritariamente, for julgada, como "crime de guerra", ou talvez até como "crime contra a humanidade", a responsabilidade pelo desencadeamento da "guerra injusta".

4. Por fim, nestes considerandos de ordem geral, há ainda que ter em conta que o acto último do "crime de guerra" a sua execução, envolve sempre um problema de comando e o(s) comandante(s) não pode(m) ser isentado(s) da sua responsabilidade. Um excesso desumano de um combatente, quando não é impedido ou imediatamente reprimido, tem, quase sempre, na sua origem, ou o exemplo negativo do seu comandante, ou o seu incentivo, ou a sua indiferença, ou a sua incapacidade. De qualquer forma, sempre, uma demissão ou distorção da sua acção de comando.

B. 
A experiência portuguesa na guerra colonial de 1961 a 1974 inscreve-se perfeitamente no quadro acima traçado.

1. Na guerra colonial verificaram-se "crimes de guerra" dos vários lados das barricadas. Deles acabou por não haver julgamentos porque, no campo militar, o 25 de Abril ainda veio a tempo de evitar que se definissem vencedores e vencidos. Mesmo assim, casuisticamente, nos países recém-chegados à independência, não deixaram de se verificar casos de represálias de vencedores políticos sobre os seus vencidos, compatriotas comprometidos com o antigo país colonizador, o que corresponde à lógica do julgamento dos "crimes de guerra".

2. Do lado português, sabe quem combateu que se verificaram "crimes de guerra". Mas é um dos casos paradigmáticos em que o crime nasce na própria guerra. A guerra colonial é uma "guerra injusta" por natureza. É axiomático que a guerra é um instrumento da política. E a guerra colonial era um instrumento de uma política injusta, que visava perpetuar o domínio nas colónias e a ditadura na metrópole. Injusta porque desnecessária (no pensamento de Maquiavel) face aos interesses nacionais e aos valores universais. Injusta ainda porque decidida por um poder ilegítimo (não democrático) e sem justa causa (pensamento de humanistas como S. Tomás de Aquino, Vitória ou Suárez).
Se não houve um derrotado militar, houve claramente um derrotado político. O sistema ditatorial e colonial português foi derrotado em 25 de Abril de 1974. Mas faltou aos vencedores vontade política para julgar pelos seus crimes, quer o sistema, quer os seus principais agentes, os responsáveis políticos e militares, a polícia política, a censura.

3. Perante a incapacidade de julgar a montante, o "crime da guerra", caía-se numa nova injustiça se se julgassem, a jusante, os "crimes na guerra". Houve "crimes de guerra" no seu sentido comum em acções contra o "inimigo", no tratamento de prisioneiros, nas represálias sobre populações. Mas não foi uma acção sistemática. Também houve, apesar do ambiente hostil, actos de heroísmo genuíno, de humanismo, de revolta. Como julgar comportamentos individuais, por vezes nos tais momentos paroxísticos de que fala Fontette, em situações de "stress" incontrolável, perante o dilema da vida ou da morte, em que o instinto de sobrevivência anula os valores humanos se não se julgam as hierarquias e os responsáveis pelo ambiente criado? Aqueles que, a frio, no conforto dos gabinetes, não só geraram as condições em que os crimes germinariam, como tantas vezes os fomentaram, os incentivaram, os enalteceram, chegando a transformar "crimes de guerra" em actos heróicos, para deles se aproveitarem politicamente.
O general francês Massu, lendário comandante na Indochina e na Argélia, acerca do massacre de May Lay, perpetrado por tropas norte-americanas no Vietname, afirmou em entrevista na época: "(…) os responsáveis pelas May Lais são os governantes e não os soldados ( ... ). Os chefes de governo que lançam os seus exércitos na guerra assumem, automaticamente, os riscos de provocarem May Lais (…) Os governos devem ter plena consciência destes fenómenos e assumir a sua inteira responsabilidade, não descarregando sobre o pequeno soldado (...). O que deve ser condenado é a própria guerra".

C. 
Penso pelo que expus, que não há espaço nem tempo para julgamentos individuais, quer de "crimes da guerra", quer de "crimes na guerra".
Mas é sempre tempo e lugar para se reconhecer o "crime da guerra", como outros estados têm feito em relação a "guerras injustas" ainda mais remotas, como foi a II Guerra Mundial. E se o Estado português quiser, nobremente, sem complexos, assumir essa atitude, bom será que, em vez de cerimónias serôdias, em que ao abrigo de equívocas homenagens aos combatentes se busca, afinal, a glorificação da guerra colonial e do próprio império colonial, patrocine e tome a iniciativa de uma justa homenagem às vítimas do fascismo e da guerra colonial, com o corajoso pedido de perdão pelos crimes que, no passado recente, foram cometidos contra o povo português e contra os povos das suas antigas colónias.

(l) "The soldier and the state", Harvard University Press, Cambridge, 1957, pág. 70
(2) Jeanin, Pierre - "História das Ideias Políticas" Voi. 3. PEA Mem Martins, 1970, pág. 29
(3) "A minha concepção do Mundo", Brasília Editora, Porto, 1970, pág. 38
(4) Romão Rui Bertrand - "A concepção dialéctica da guerra em Hegel", Logos, n.O 3, Filosofia Aberta - Centro de Estudos e Divulgação, Lisboa, Jun. 1985, Nota 122, pág. 31.
(5) "O racismo", Bertrand, Amadora, 1976, pág. 102 e 103. (6) JEANIN Pierre - obra citada, pág. 29

(*) Major-general, foi membro do Conselho da Revolução, é dirigente da Associação 25 de Abril

94-Solidão

Vou-te escrever uma carta, é mais longa e não dá para aerograma. Já não ponho à cabeça "querida", ou "amor", nem outra coisa qualquer, porque já não sei como te chamar. O teu silêncio fez que me fartasse de ti, porque me fazes sentir as frustrações que já senti, porque me faz sentir o mesmo cansaço que já tive. O quão longe estou de ti, no espaço, no tempo, na vida.
Nas últimas semanas a minha tem sido uma vida com tudo o que há de pior: fome de amor, melancolia, azedume, solidão, vontade de morrer. Tive tantas vezes vontade de te pedir auxílio, mas vi que tu não estás em condições de ame ajudar. Cheguei à conclusão que de ti não posso esperar apoio. Prefiro não o pedir. Se o peço e tu não mo dás - e não dás, com certeza - é pior. É lançar-me com confiança e desembocar no desespero.
Vivi situações em que seria confortante ter alguém com quem desabafasse, alguém que me ouvisse. Não é que me resolvesse os problemas que só eu posso resolver, mas que fosse um apoio mos momentos difíceis com a sua ternura,  a esperança do amor. Nunca esperei isso de ti, o que é mau. É porque penso que és incapaz disso. Posso amar-te mas tu não me amas.
Não me serves. Até nem será por culpa tua, talvez. Eu é que fui um louco em me virar para aí. Tens demasiados factores envolventes que te distraem, ou, se calhar, nem te chegas a distrair porque nunca estiveste nessa de me amar. Comigo não. A guerra, as horas e dias no mato, até as mulheres daqui, tudo me leva a desejar-te.
Mas não dá.
Eu amo~te. Mas é preciso que tu me ames. Tens de provar que me amas. Eu não sei nada de ti. Começo a suspeitar que iludi a mim mesmo. Tens que me provar alguma coisa. É que me sinto humilhado com o teu silêncio. Estúpido, com tantas hipóteses de morrer já tenho pensado no suicídio para acabar com a humilhação. Sinto-me como cão a mexer o rabinho e olhando para o dono e nem uma festinha levar. É triste morrer sem amor.

30 de março de 2011

93-Horas de sorte e carregadores emboscados.

Tínhamos saído de Gendo após tragarmos as rações de combate. Era o primeiro dia da operação Inquietar I. As duas companhias de intervenção seguiam à frente pelo meio da mata, o meu grupo de combate ia no fim de tudo, com a recomendação do capitão Maia sobre as cautelas a ter na rectaguarda. Calor escaldante, mata difícil de transpor, a enorme bicha de pirilau às tantas parou. Nós também, estávamos a atravessar uma pequena clareira.
- "Pessoal, aproveitem para descansar um pouco", e, juntamente com o Lamine Turé, meu guarda-costas, dei o exemplo. Sentámo-nos os dois encostados a uma árvore. Desapertar da farda, alívio, duas goladas do cantil com água choca, era o que havia mas dava.
Não sei quantos minutos passaram, se dois, se três, se mais ainda, não estava nada preocupado em contar o tempo. Em relax mas alerta, ouvi os sons já familiares: o baque duma saída do outro lado da clareira e um silvo que se aproximava.
- "Chão!", gritei, deslizando com o Lamine para cima das ervas. E vi, com estes olhos que a guerra não comeu, a granada a ricochetear nas ervas e a parar, calma e serena, poucos metros à minha frente. Ao mesmo tempo rebentava grande tiroteio mais longe, na zona da cabeça da coluna.
- "Fogo para o outro lado!", disse aos meus, que já estavam no chão.
- "Tivemos sorte, meu alferes", segredava-me o Lamine entre rajadas, "o gajo viu-nos sentados e deitou-se no chão com o RPG para nos apanhar em cheio, e falhou".
Foram dez minutos de combates. Lá mais à frente havia de tudo: RPGs, morteiros metralhadoras pesadas. Mas aqui os gajos só tinham armas ligeiras e o RPG. Passados esses dez minutos verifiquei que eles não respondiam e mandei parar o fogo. Pareceu-me que já não estavam lá.
- "Marcelo, Bicho, Ribeiro (este ainda estava entre nós)", disse aos furriéis, "vamos entrar na mata, vamos apanhar de lado os gajos que estão a atacar a coluna lá à frente".
Fui à cabeça com o Lamine Turé. O tiroteio lá à frente continuava. Passados quinhentos metros diz-me o Lamine:
- " Alferes, estão ali turras", e apontou-me uma árvore perto da qual estavam três indivíduos ajoelhados.
Fiz sinal ao grupo para parar. Apontei a G3 à perna de um e disparei. Corri para eles seguido por todos. Quando chegámos ao pé deles vi que o ferido na perna gemia e os outros gritavam "ka turra, ka turra!". Verifiquei espantado que não tinham arma nenhuma.
- "Lamine, quem são estes gajos, afinal?"
Conversou com eles e disse-me depois:
- "São carregadores do capitão Raiano, fugiram para aqui quando começou a emboscada."
- "Tiveram sorte que não lhes mandei uma rajada".
Bonito, estava feito. Ia ouvir o capitão Raiano.
Mas ele não se chateou.
- "Foram burros. Quem os mandou meter-se na mata?"
Fiquei satisfeito. Era o que eu pensava também
O homem foi evacuado de heli no dia seguinte. Os outros dois passaram a olhar-me com desconfiança cada vez que nos cruzávamos.

26 de março de 2011

91-O choro

O CHORO

Ainda o sol não tinha despontado, quando Tia Maninha, com uns sessenta e tantos anos bem contados na pontada, subia, com a ligeireza dos seus tempos de badjudessa, a avenida que ela teimosamente continuava a chamar Avenida da República. É que essa história da troca dos nomes das ruas depois da Independência só servia para lhe baralhar a cabeça. Coisa muito complicada mesmo, que não dava para entender! Então, se a vila de Teixeira Pinto se passou a chamar Cantchungo, porque razão o chofer do táxi se riu dela, no outro dia, quando lhe pediu que a levasse até à estátua de Cantchungo, ali na Mãe d'Água?
Como de costume, Tia Maninha tinha combinado com as suas mandjuas encontrarem-se em casa de Nha Arminda, para juntas seguirem para o choro de Nhu Djon, falecido na véspera. "Coitado de Nhu Djon! Chegou mesmo a sua hora. De nada lhe valeram as idas à baloba nem os mècinhos do mouro. Paz à sua alma. Amém! " dizia para consigo tia Maninha enquanto acelerava o passo e avançava no sereno da manhã. Mais um bocadinho e chegaria à casa de Nba Arminda, que ficava mesmo ali atrás dos Bombeiros.
Todas as manhãs era esse o seu primeiro trajecto, quando da sua Mansoa natal vinha passar umas semanas a Bissau. Depois seguia com a manjuandade toda animar os choros e polir as calçadas da capital, não fossem as circunstâncias, dir-se-ia até alegremente ... Por vezes iam a três num mesmo dia, porque acompanhar os mortos é coisa sagrada e, um dia, quando ela morresse, também gostaria que lhe fizessem companhia ...
Naquela manhã, a nobre missão de velar o morto tomava ares de cerimónia oficial, porque Nhu Djon, antigo varredor da Câmara antes da Independência, era pai de dois combatentes da liberdade da Pátria, sendo um deles um Membro actualmente. Certamente que a nomenclatura viria falar mantenhas de choro e as coisas teriam que ser feitas a preceito. Haveria que ajudar as parentes do falecido a preparar o cuscus, que seria servido com o café, logo cedinho. Depois viria a cena à volta do morto, durante a qual cada uma, entre gritos e lamúrias, despejava um rosário de elogios ao defunto que, só pelo facto de ter morrido, passara a ser a melhor pessoa do mundo. Havia também as mensagens a dar, que o defunto deveria levar aos falecidos, quase sempre as mesmas transmitidas a cada morto que velassem.
- Nhu Djon, diga à minha vizinha Maria Té que não se preocupe com o marido. Na vizinhança, olhamos todos por ele. Que ela peça só a Deus que lhe dê forças e saúde­recomendou Tia Maninha, enquanto enxugava os olhos com as costas da mão.
Tudo isso ela fez com a devida solenidade, não por ser um caso especial, mas por ser esse o seu carácter: o dever deve ser cumprido e bem cumprido. Tinha ganho o seu dia e mais uma graça de Deus de que Ele não se esqueceria quando chegasse a sua hora de entregar a alma ao Redentor.
Com a sensação do dever cumprido, despediu-se e pôs-se a caminho da casa do sobrinho, onde habitualmente ficava alojada quando vinha a Bissau. Naquele dia, como saíra ainda de madrugada, não vira ninguém e nem pôde avisar que não esperassem por ela para o almoço.
O sol começava a declinar e dentro de alguns minutos cairia a noite. Tia Maninha ia atravessar a rua diante da Segunda Esquadra, quando viu no passeio do outro lado uma multidão de gente à porta de uma casa.
"O que terá acontecido?", perguntou-lhe a sua curiosidade.
Para lá se dirigiu e entrou no quintal da casa. Foi até à varanda e viu umas quantas pessoas vestidas de preto e sentadas nas cadeiras colocadas ao longo das paredes. "Um choro!", concluiu rapidamente Tia Maninha e logo tomou os ares próprios à circunstância: rosto fechado, patenteando uma pena visível.
- Não posso deixar de ir falar mantenha àquela gente - disse para com os seus botões - só mesmo entrar e sair ...
Avançou-se para o grupo de mulheres grandes que estava na sala ao lado da varanda. Muito dignamente, apresentou-lhes os seus mais sentidos pêsames e desejos que Deus recolhesse aquela santa alma na Sua Graça Divina. "Amém!", responderam as mulheres em uníssono, num lamuriante sussurro. Depois, ao mesmo tempo que se benzia aproximou-se do caixão colocado no meio da sala. Parou junto aos pés do defunto e ergueu as mãos para começar a sua conversa com o falecido. Nisto, engasgou-se com a emoção e foi assaltada por um ataque de tosse que lhe arrancou a dentadura postiça da boca, atirando-a para dentro do caixão. Tia Maninha, confusa com o que lhe acontecia, apanhou precipitadamente a sua dentadura e, metendo-a no bolso do vestido, saiu apressadamente do velório, em direcção a casa, sem sequer se despedir. "Credo! Cruzes! Quem é que me quer impedir de falar? Passa de largo!", disse para consigo enquanto se persignava repetidas vezes.
Chegou à casa do sobrinho ainda muito agitada com a cena que acabara de viver. Deixou­-se cair numa cadeira e, enquanto enxugava com o lenço o calor que lhe escorria pelo rosto, contou à família a mofineza por que passara. Ninguém se atreveu a rir ao imaginar Tia Maninha naquela cena, pois a consternação dela era realmente profunda. O sobrinho, querendo mostrar que compartilhava a sua pena, perguntou-lhe curioso:
- Mas tia, quem é que morreu?
Tia Maninha arregalou os olhos e com o ar mais contrariado deste mundo respondeu: - Como é que eu sei, meu filho?! Nem sequer tive tempo de saber!

Filomena Embaló
Paris, 18 de Outubro de 2002
 ln Mealibra, nº 11, Dezembro 2002
Revista de Cultura, Centro Cultural do Alto Minho, Portugal

Glossário

Badjudessa: juventude (no caso da mulher); termo crioulo proveniente de badjuda (menina, moça).a
Baloba: local sagrado dos animistas, templo.
Choro: velório, cerimónias à volta do enterro.
Cuscus: espécie de bolo feito em geral, no caso da Guiné-Bissau, com farinha de arroz. É cozido a vapor dentro de um binde; binde: utensílio culinário feito de barro, de forma cónica, com o vértice arredondado e com três buracos, por onde passa o vapor de água.
Falar mantenha: cumprimentar (tradução literal da expressão crioula).
Falar mantenha de choro: apresentar os pêsames.
Mandjuas: pessoas da mesma geração, muitas vezes que cresceram juntas.
Mandjuandade: grupo de mandjuas.
Mantenhas: cumprimentos, saudações.
Mècinho: mezinhas (termo crioulo);
Membro: forma como se designava, nos primeiros anos da Independência, os membros dirigentes do PAIGC, partido único na época.
Mofineza: desventura, azar.
Mouro: curandeiro muçulmano.
Mulher grande: mulher idosa
Nha: senhora.
Nhu: senhor
Pontada: costas, na zona dos rins
Sereno: bruma.


Guineense de coração e por opção, Filomena Embaló nasceu em Angola, em 1956, filha de pais cabo-verdianos. Em 1975, os acasos da vida levaram-na para a Guiné-Bissau, país que adoptou e em cuja labuta dos primeiros anos de independência se forjou a faceta guineense da sua identidade.
Formou-se em Ciências Económicas em França e ocupou cargos na Função Pública bissau- guineense no país e no exterior. Actualmente trabalha em Paris, numa organização intergovernamental.
Tem publicações em revistas e jornais de artigos sobre a economia guineense e literários. As encruzilhadas do seu percurso multicultural inspiraram o seu primeiro romance, "Tiara", editado em 1999.

23 de março de 2011

90-A "ferida invisível"

 A "ferida invisível". Consequências psicológicas da guerra colonial


«Calcula-se que em Portugal haja 140 000 pessoas com distúrbios psicológicos crónicos como consequência das guerras coloniais. (Afonso de Albuquerque e outros, in Revista de Psicologia Militar, 1992)
Isso significa que cerca de 1,4% da população portuguesa poderá estar afectada, o que é um índice superior ao número de esquizofrénicos.
(...)
No DSM-Ill[1] considera-se como critério de diagnós­tico da PPTS[2] a pessoa ter experimentado um aconteci­mento fora da experiência humana normal, que provo­caria stress a qualquer indivíduo. Portanto pode contra­ir a PPTS um indivíduo que tenha estado na guerra, ou que tenha sido vítima de uma catástrofe natural, ou que tenha tido a sua vida ou integridade pessoal ameaçadas por qualquer outra forma, para dar apenas alguns exem­plos.
Mas as características da PPTS adquirem contornos especiais para as vítimas de traumas sofridos na guerra e sobretudo nas guerras não convencionais.
Pensamos que os indivíduos que sofrem deste distúr­bio por terem participado nas guerras coloniais que o Governo Português provocou em Angola, Guiné e Moçambique, de 1961 a 1974, são afectados pelas cir­cunstância especiais dessas guerras.
Em primeiro lugar, tratava-se de guerras injustas, anti-patrióticas, de agressão e domínio colonial. Por isso, a natureza da missão dos soldados portugueses era, à partida, extremamente ingrata, não mobilizadora moral e psicologicamente estranha aos interesses do indivíduo.
Este é, logo à partida, um factor de stress. O indi­víduo sofria o conflito entre a necessidade de cumprir o seu dever militar e a estranheza e alheamento dessa missão.
É certo que o salazarismo conseguiu, inicialmente, convencer muitos portugueses que estavam a defender os interesses de Portugal nessas guerras. Sabe-se que a con­denação inequívoca da guerra colonial, a oposição à guerra e a sua rejeição nos primeiros tempos foi feita apenas por um número muito reduzido de portugueses.
Só a pouco e pouco, devido principalmente à eficá­cia da luta dos povo das colónias e da acção das for­ças políticas mais consequentes em Portugal, foi fican­do claro para um número cada vez maior de pessoas que a guerra era impossível de ganhar e que a única solu­ção era a independência das colónias.
As reacções dos ex-combatentes aos resultados da guerra sofrem o impacto desta evolução. Há alguns que absorveram a ideologia racista e colonialista que lhes foi instilada no exército colonial, não se conformando com a derrota da causa em que acreditaram, havendo outros que foram adquirindo a consciência de que os seus in­teresses eram alheios àquelas guerras.
Seja como for, o soldado português que foi arranca­do ao seu lar, à sua terra, ao seu trabalho, para ir com­bater em locais longínquos, em condições geográficas e climáticas completamente inabituais • rodeado do perigo permanente de morrer pelo rebentamento de uma mina ou numa emboscada, enfrentando uma população hostil em que era difícil distinguir o amigo do inimigo mas que, à cautela, era mais realista encarar como inimiga, sente que os sacrifícios que a guerra lhe exigiu foram absolutamente vãos devido ao resultado das guerras ter sido o inverso do perseguido pela política que elas ser­viam.
Este também é um factor que condiciona a sintomatologia da PPTS de ex-combatentes das guerras de África. A completa inutilidade do sacrifício feito.
Este sentimento ainda era mais agravado pelo facto de o ex-combatente, ao chegar a Portugal, não ver re­conhecido o seu sacrifício mas, ante pelo contrário, ser visto com desconfiança pelo resto da população que ia adquirindo consciência que aquela guerra era uma guerra injusta e sem saída.
Aqui pode colocar-se uma questão. Porque é que os indivíduos que passaram pela guerra não foram todos afectados psicologicamente por ela com o mesmo grau de intensidade?
À volta deste problema muito e tem discutido ao longo dos anos. A ideia inicialmente prevalecente, en­tre as duas guerras mundiais, era que a personalidade prévia do sujeito, antes do sofrimento do trauma, predeterminava o impacto deste sobre o seu ego.
Isto é, um sujeito com um ego forte e bem estruturado suportaria melhor o impacto do stress de guerra e ficaria imune às suas consequências. Pelo con­trário, indivíduos com uma personalidade pré-mórbida, teriam mais probabilidade de contrair a doença.
Os estudos feitos durante a 2." Guerra Mundial e posteriormente, levaram a pôr em causa esta teoria e a dar mais ênfase à natureza do trauma - qualidade e in­tensidade - que explicaria as diferentes consequências nos sujeitos.
Em nossa opinião há que encarar o problema de forma complexa, considerando existir uma constelação de causas que levam a um impacto diferente do stress de guerra sobre o sujeito: a preparação psicológica para a guerra, a motivação para o combate, a natureza e inten­sidade do trauma, a existência ou não de um grupo contentor, coeso e com normas e valores que o sujeito compartilhe e, sobretudo, a fase de desenvolvimento da identidade em que o sujeito se encontrava quando foi para a guerra.
Existem fortes indícios de que a prevalência da neu­rose de guerra é muito menor em militares de carreira do que em militares do contingente. E isso, quanto a nós, porque os primeiros tem uma preparação militar e, sobretudo, psicológica para a guerra muito mais eficaz.
Com efeito, sabe-se que ao militar do quadro per­manente é incutida a ideia de que é um técnico, que não lhe compete discutir as ordens nem pôr em causa a decisões respeitantes à guerra que são tomadas pelos políticos. A ele compete-lhe fazer a guerra e ser eficaz na sua execução.
Assim, o militar profissional habitua-se a isolar os sentimentos ligados aos actos vividos ou praticados du­rante a guerra.
Quando surgem sentimentos de culpa (e veremos mais adiante que eles aparecem muito entre os veteranos de guerra ex-soldados do contingente geral), o mi­litar profissional consegue facilmente «pôr a culpa fora de si», dizendo e pensando que ele foi um mero execu­tor e se alguma coisa de errado houve a culpa é dos superiores ou dos políticos.
Ao passo que o jovem português que foi mobiliza­do para fazer o serviço militar nos anos da guerra foi arrancado muito jovem, no fim da adolescência-começo da idade adulta, do seu ambiente de paz, com as sua normas e valores de que a máxima principal é «não matar», para um ambiente de guerra em que o valores são completamente subvertido e invertidos, tornando-se a norma de «matar para não morrer» o princípio orientador básico da guerra.
Assim, há uma passagem brusca de uma identidade ainda pouco madura e estruturada, formada nas normas da sociedade civil, para um ambiente de guerra em que se adopta um papel completamente contraditório com o anterior. Há pois uma primeira inversão brusca e bru­tal de valores.
Depois, durante a guerra, o jovem era mergulhado num mundo em que, muitas vezes, era levado a pratic­ar acto absolutamente estranho e aberrantes em rela­ção àquilo a que estava habituado.
Muitos destes ex-combatentes assistiram ou partici­param em actos que contrariavam todas as normas mais elementares da convivência humana e até as normas internacionalmente aceites de condução da guerra.
Casos de barbaridades gravíssimas contra a popula­ção civil, torturas de prisioneiros, tratamento desumano da população africana, eram o dia-a-dia para muitos destes soldados.
O jovem, com uma identidade em formação, mal sabendo ainda bem quem era, via-se com espanto a pra­ticar actos que não imaginava ser capaz de fazer. Ele tomava contacto com o «lado sombrio» da natureza humana que o deixava espantado pela sua barbaridade.
E ao voltar à pátria, ao regressar à sociedade civil, tinha novamente que se adaptar a um papel a que já não estava habituado, a seguir normas de vida absolutamen­te contrárias às da guerra. Tinha, pois, que fazer uma nova inversão radical de valores.
Será, pois, de estranhar, a enorme dificuldade de adaptação destes sujeitos, a distorção da sua identidade, a dificuldade visível de integração entre a identidade anterior à guerra, a vivência de guerra e a sua vida posterior a ela?
Será de estranhar que estes indivíduos tenham recalcado a sua experiência de guerra de tal maneira que as emoções negativas associadas a esses acontecimentos se mantenham vivamente no inconsciente, provocando um enorme sofrimento?
Com efeito, pensamos que em muitos ex-soldados da guerra colonial com PPTS existe um forte sentimento de culpa pelas enormes barbaridades e crimes que foram levados a cometer.
De um pequeno número de doentes (comparado com os 800 000 homens que se calcula que tenham passado pelas colónias durante a guerra) ouvimos experiências de guerra horrorosas, que dão um retrato bastante mais realista desta guerra do que as narrações que estamos ha­bituados a ouvir ou a ler.
Assim, era comum soldados portugueses vingarem-­se na população africana mais próxima, quando sofriam baixas de companheiros a que estavam ligados por la­ços de amizade. Isto é dito como um facto trivial por ex-soldados em qualquer dos três teatros de guerra.
Dizer que a população civil era tratada com desu­manidade é uma afirmação muito pálida em relação à realidade. Um ex-soldado comando conta: «Quando che­guei a Moçambique, uma das primeiras cenas a que assisti foi ver um soldado armado mandar um preto sair da cubata e violar a mulher. Não gostei de ver aquilo e achei que era mal feito. Mas era o que todos faziam.»
Se este homem era católico, o que é provável numa população portuguesa maioritariamente crente, como se pode coadunar esta acção com a máxima «não cobiça­rás a mulher do próximo», quando se vê os companhei­ros «apoderar-se da mulher do próximo?» É difícil de calcular todos os prejuízos morais que tais práticas po­dem ter tido sobre jovens, muitas vezes idealistas e chei­os de nobres intenções.
Outro ex-soldado conta que certa vez uma negra foi presa, interrogada, e como não confessasse o que queri­am foi amarrada e levada para uma avioneta donde foi lançada em voo.
Este mesmo soldado conta que, no seu aquartelamen­to no Leste de Angola, os prisioneiros da UNITA e do MPLA eram mantidos no quartel para fazer pequenos trabalhos de faxina. Diziam que os tinham «na engorda». Depois fingiam que lhes davam fuga para os abater.
Outro ex-soldado, muito perturbado psiquicamente, relata que no começo da guerra, no Norte de Angola, queimaram muitas cubatas porque diziam que as mulhe­res que viviam nelas protegiam os guerrilheiros. «Fica­vam lá queimadinhas, coitadinhas», comenta.
Depois de participar nestes massacres a sua compa­nhia foi enviada para Malange para fazer campanha «psicossocial».
Como é possível que um jovem soldado que parti­cipou em massacres da população civil e depois foi en­viado para outro lado abrir estradas, construir escolas para essa mesma população civil, não se sinta profun­damente perturbado com a ambiguidade desta situação, não sinta o carácter absurdo e irracional desta guerra em que se dá com uma mão para se tirar com a outra?
Esta é uma situação típica de mensagem ambígua profundamente perturbadora para qualquer cidadão que não esteja dentro dos desígnios dos chefes militares, que costumam justificar este tipo de práticas com argumen­tos de guerra psicológica altamente discutíveis.
Finalmente, queremos contar o caso de um ex-com­batente que fazia parte de um grupo de reconhecimento que actuava na fronteira do Leste de Angola, com fardamento diferente da do exército português, sem do­cumentação para não ser identificado e com toda a pro­babilidade controlado pela PIDE.
As ordens que tinha eram peremptórias: «Abater tudo o que fosse vivo.))
Certa vez, este homem participou na chacina de mais de 200 habitantes civis de uma aldeia, em que aba­teu friamente a tiro um civil que lhe implorava de joe­lhos que não o matasse porque não tinha nada a ver com aquilo (cena que lhe aparece constantemente em sonhos), em que se lembra de ver uma velha a correr em chamas e depois morrer carbonizada (imagem que igualmente recorda frequentemente) e que depois rece­beu um louvor «pela forma valorosa como actuou na operação», «demonstrando possuir ao longo da referida operação e sobretudo na fase do assalto a um acampa­mento inimigo, grande determinação, coragem indestemida e vontade inquebrantável de vencer» ( ... ) «pela natureza arriscada da missão e principalmente pelos excelentes resultados obtidos sobre o inimigo» ...
Não é difícil de constatar que muitos dos «feitos militares» das tropas portuguesas nas colónias não pas­saram de simples chacinas da população civil.
Aqui levanta-se o problema das responsabilidades das autoridades militares fascistas na realização destas atrocidades. Será que não sabiam? Fechavam os olhos? Encorajavam?
Este é um problema bastante delicado e sabemos que há muitos oficiais que não caucionaram tais acções e não podem ser acusados de responsabilidade directa nestes crimes. Mas será assim para a instituição militar de en­tão no seu todo? Será possível que se dessem acções da envergadura das que citamos (ainda por cima com lou­vores oficiais) sem que se dessem conta do que se es­tava a passar?
O princípio que ouvimos enunciar a pessoas que estiveram na guerra em locais e circunstância muito diferentes de que, «quando viam um rapaz de 10 anos, negro, calculando que daí a mais 10 anos poderia ser um guerrilheiro, na dúvida o melhor era abatê-lo logo», não seria a doutrina de parte considerável das Forças Arma­das da altura?
Quando um doente conta que o hino da sua unida­de era: «Os pretos rastejam na mata como víboras, mas nós vamos esmagá-los até ao último», não implica isto a responsabilidade da própria instituição militar na men­talidade racista de que ficaram imbuídos muitos milita­res que passaram pelas fileiras durante a guerra coloni­al?
Será de estranhar, que jovens portugueses com uma identidade pessoal ainda mal consolidada depois de te­rem passado por duas mudanças de papel extremamen­te rápidas e brutais, tenham perdido o fio natural da evolução da sua personalidade?
Será de admirar a difusão da identidade, a perda de coesão do ego, a confusão de valores, as dificuldades de intimidade, o embotamento afectivo, as dificuldades de relacionamento de toda a ordem que estes ex-combaten­te experimentaram ao chegar da guerra?
Uma hipótese para o carácter diferido da manifesta­ção da PPTS é que o ex-soldado, a seguir à guerra, conseguia mais ou menos «organizar-se» psicologicamen­te por ter de planear a sua vida, criando expectativas de sucesso, o que o isolaria do trauma.
Mas a sua memória ficava lá. Existia qualquer coi­sa de não integrado na personalidade do sujeito, de «não digerido» psicologicamente, que ao ser reprimido cria uma tensão interior pela grande energia psíquica que tinha que ser mobilizada para reprimir os afectos dolorosos. E mais tarde, quando qualquer acontecimento sua vida lhe provocava um stress acrescido, as memórias de guerra podiam ser reactivadas e os mecanismos de defesa psicológicos cederem e instalar-se a PPT.
Finalmente, apenas algumas palavras sobre o processo de tratamento destes doentes.
Já vimos que o grande problema aqui existente é que o doente não consegue conciliar a sua identidade antes da guerra, a experiência traumática e a sua vivência do mundo depois da guerra.
Existe uma carga muito grande de experiência dolorosa ligada com a guerra que o ego do sujeito não consegue assimilar, integrar na sua consciência, porque essa experiência é contraditória com o conceito que sujeito tinha de si mesmo e a sua admissão consciente torna-se insuportável.
Mas a resolução deste conflito só é possível pela verbalização dessas experiências e a ab-reacção dos afectos a elas ligados, de forma a permitir transformar a atitude mental consciente e acomodar a experiência. dissonante com o ego.
A resolução completa do conflito exige a transfor­mação das estruturas cognitivas e afectivas existentes.
É claro que isto é um processo penoso, que  faz. emergir sentimentos dolorosos de culpa, de vergonha, de remorso, aquela carga insuportável de responsabilidade que o sujeito sente pelos actos que praticou. Mas a emergência desses sentimentos permite um maior acesso ao self e um aumento do autoconhecimento e cria maior espaço de liberdade para efectuar mudanças.
O sujeito tem que compreender que aqueles lhe pertencem, tanto os bons como os maus e ter a coragem de admitir o «lado negro da natureza humana».
Não se trata tanto de esperar que os outros o desculpem do que fez, mas tem que ser ele próprio  a aprender a viver com a sua culpa, a aceitar-se e desculpar-se a si próprio.
(...).»


Fernando Myre Dores, in revista "Vértice", Janeiro/Fevereiro 1994


[1] DSM: Diagnostic and Statistical Mannual of Mental Disorders
[2] PPTS: Perturbação post-traumática de stress. 

89-O interrogatório

O Malique Baldé[1] veio dizer ao capitão Guimarães que o Aruna e o Soriba eram turras.
- “Como é que sabes?”
- “Só aparecem às vezes na tabanca, à noite. Não andam a fazer mais nada.”
Era noite.
- “E estão lá agora”.
- “Aonde?”
- “Em Aldeia”.
Aldeia era a tabanca dos mandingas quase pegada a Geba.
- “Vai lá buscá-los”.
Levou vários homens da CMil3[2] e trouxe-os. O capitão mandou pô-los no refeitório. Juntou-se logo um grupo de soldados `volta deles, com eles alguns da CMil3. Eu e o Maçarico, que tínhamos assistido à conversa com o Malique, ficámos também para ver o que ia dar.
Veio o capitão e sargento Fernandes, este com um grosso cavalo-marinho.
- “Malique, vai traduzindo”, disse o capitão. “Aruna, o Soriba diz que tu és turra”.
O  Aruna respondeu veementemente que não. O Fernandes deu-lhe com o cavalo-marinho.
- “Soriba, não é o Aruna és tu”.
O Soriba levantava as mãos a dizer que não. O Fernandes chegava-lhe porrada com o cavalo-marinho.
Fizeram isto várias vezes, sempre com porrada num e noutro. Às vezes, o Fernandes passava o cavalo-marinho para um soldado e era este que lhes dava. Chegou a altura em que o Aruna e o Soriba se mijaram pelas pernas abaixo. Eu e o Maçarico estávamos revoltados com aquilo. Ele ainda disse:
- “Isto não está certo, meu capitão”.
- “É assim, pá. Tem de ser assim”.
- “Vamos embora”, disse eu.
Saímos, incapazes de evitar o que achávamos degradante.
No dia seguinte mandaram os homens para Bafatá. Pensaram que o pide de lá tivesse mais sucesso, dado que não tinham conseguido nada. Nunca mais soubemos do Aruna e do Soriba.


[1] Malique José Semedo Baldé, era alferes de 2ª linha da CMil3. Foi morto numa emboscada a caminho de Cantacunda, juntamente com seis elementos da 2743, em 27 de Outubro de 1971.
[2] Companhia de Milícias Nº3

22 de março de 2011

88-Casamento entre os fulas












































"Boletim Cultural da Guiné Portugesa", Nº 049 - Vol. XIII, 1958

21 de março de 2011

87-Missão na Guiné

O Estado-Maior do Exército publicou este opúsculo em 1971 (8 anos depois do começo da guerra,portanto) visando, parece, colmatar uma flagrante falha: o desconhecimento que tinham daquela terra e das suas gentes aqueles que lá chegavam para dois anos de permanência. Nesse sentido tem algumas informações úteis, mas cai em alguns aspectos meramente propagandísticos e enganosos (por exemplo a referência a uma rede de portos fluviais e de aeródromos, quando sabemos que os portos eram usados quase exclusivamente pela Marinha de Guerra e os aeródromos pela Força Aérea).


20 de março de 2011

86-A Terça de Sano

O capitão Alves foi de férias. A vivência da mulher aquando do último ataque teve consequências negativas. Não só ficou afectada psiquicamente por aquela experiência traumática, disse-me ele, como anda apavorada que eu possa morrer, tinha de ir ter com ela. Imaginei a D. Eugénia apavorada e também me apeteceu acalmá-la.
Como era o alferes mais antigo fiquei a comandar a companhia na sua ausência, Houve um dia que fui chamado a Bigene, para ir falar com o major comandante do COP3, disse-me o cabo cripto com a mensagem na mão. Apeteceu-me entrar com ele.
- “Dá cá a mensagem”, e peguei nela. “Onde é que diz aqui que é para ir falar com o comandante? Eu nunca pedi para falar com ele. O que diz é para “estar no gabinete do comandante do COP3 às 10h00 de amanhã”. Parece que ele é que quer falar comigo. Não criptes demais, pá.”
No dia seguinte peguei numas viaturas e no meu pelotão e fui até Bigene. Não picámos o itinerário porque não era costume porem minas nele. Arrisquei, como fizera várias vezes no caminho de Geba para Banjara… até dar o que deu. No gabinete do major estava também um tipo à civil, não o conhecia mas tinha um ar que dizia logo quem ele era. O major, do alto das suas botas de cavaleiro, apontou com o pingalim para um mapa que tinha cheio de sinais coloridos. Falou sem rodeios.
- “O agente Guerra” – sou bruxo, pensei, é um gajo da PIDE – “tem informações que a população aqui de Sano, no Senegal, anda a fazer plantações de arroz e outros produtos na bolanha que está do nosso lado. Eu quero que você vá lá amanhã confirmar isso.”
- “É natural que façam isso, meu major. Antes da guerra as populações de um lado e doutro viviam praticamente em conjunto e exploravam as terras em conjunto. Após começar a guerra os de cá passaram todos para o outro lado, e mais uma razão para continuarem a trabalhar aquelas terras como faziam antes. Além disso, meu major, eu acho que uns reconhecimentos aéreos podiam confirmar isso”.
Pareceu-me, e confirmei que ele não tinha gostado desta parte final. O pide sorria.
- “Ó nosso alferes, eu sei que você andou no seminário e portanto sabe o que quer dizer estar a ensinar o padre-nosso ao vigário. Você é um miliciano quase imberbe e acha que me pode estar a dar conselhos a mim, um profissional com muita tarimba? E sabe, com certeza, que o arroz que eles cultivam é para alimentar os terroristas.”
Fiquei um bocado enrascado, confesso, embora ele não tivesse falado com ar acintoso. Até gostava deste major, era um homem corajoso e sensato, já mo tinha demonstrado numa ocasião em Sambuiá. Mas era o cabrão do pide que me olhava com ar zombeteiro, noutra situação tinha-lhe ido ao focinho.
- “Meu major, peço desculpa. Não era minha intenção, de maneira nenhuma…”
- “É que há mais. Diga lá, ó Guerra”.
O pide endireitou-se na cadeira.
- “Tenho também uma informação que estará em Sano um bigrupo reforçado. Consta que prepara um ataque ou a Barro ou a Bigene. Mas não é uma informação segura, precisa de confirmação.”
- “Este é outro objectivo da sua ida a Sano. É o mais importante. Quero que confirme se está lá, de facto, um bigrupo reforçado.”
-“Mas, meu major, um bigrupo são para aí noventa homens e , se se preparam para atacar um aquartelamento, estão bem armados, com armas melhores e mais poderosas que as nossas. Só tenho três pelotões na companhia, tenho de deixar um em Barro e ir lá só com dois…”
- “Porra, Aiveca! Lá está você outra vez, homem! Eu sei isso muito bem…”
Continuou a falar e eu fui-o ouvindo. Mas ia pensando que fizera bem em levantar dúvidas desde o princípio. Palpitava-me que o major se preparara para me fazer o mesmo que o tenente-coronel do Agrupamento de Bafatá, quando me mandou para Sinchã Jobel de olhos fechados. Só não me tinha ainda dito para levar uma corda… Mas foi-me dizendo que o que queria é que eu conseguisse um prisioneiro para interrogar e que andaria lá num PCV[1] para me orientar. No essencial isto.
- “Percebeu?”
- “Percebi, meu major.”
- “Então venha aqui”. Levou-me ao pé do mapa. “Um pelotão vai até à bolanha de Sano e outro, quero que seja o seu, entra no Senegal e apanha esta picada aqui, está a ver?, a que vai de Cossé para Sano. Está a ver?”. Disse-lhe que sim, senhor. “Podem apanhar alguém na bolanha porque eles vão lá, ou podem apanhar no caminho entre Sano e Cossé, percurso usado. É assim.”
Despedimo-nos. Cumprimentei o major e não liguei ao pide.
Reuni em Barro o Salvado e o Rodolfo e expliquei-lhes  ideia do major do COP3.
- Eu tenho de ir porque o major já decidiu que sim. De vocês quem é que quer ir?
Olharam um para o outro e o Salvado decidiu-se primeiro.
- “Vou eu”.
Não me agradou muito, preferia que fosse o Rodolfo, mas este não disse nada, focou calado.
- “Então, já sabes, ó Rodolfo, tens de ficar a tomar conta disto. E tu, ó Salvado, vai falar com os teus furriéis e diz-lhes que têm de ter os homens prontos para sair amanhã às cinco horas. Eu vou fazer o mesmo com os meus. Diz-lhes o que é que vamos fazer mas recomenda-lhes que não falem disso com nenhum dos soldados nem com os outros furriéis. Quando estivermos para sair ou vou dizer a todos qual é a nossa missão. Vamos juntos até à ponta da bolanha de Sano. Separamo-nos aí, eu sigo por Saiamculolo até ao Senegal e tu vais por Saiamcôtoto até ao corpo principal da bolanha ao pé de Sano da Guiné e esperas aí por mim. Quando acabar de fazer o que há que fazer no Senegal vou aí ter contigo. Vou ter de levar o Bailo comigo para me indicar o melhor caminho para aquela picada entre Sano e Cossé. Tu chegas facilmente ao teu local, não é?”.
- “Claro, vou chegar lá nas calmas”.
Fomos falar com os furriéis, depois chamei o Bailo para lhe dizer que estivesse pronto para sair às cinco horas.

É como assistir ao nascer da vida. Os ainda ténues raios de sol que furam por entre as folhas da floresta levam-me a pensar na centelha da vida que Michelangelo representou nos tectos da Capela Sistina. Resquícios da minha formação religiosa. O pipilar ainda suave dos inúmeros pássaros que habitam as árvores maravilham-me como lembranças do despertar dolente e suspiroso da Júlia a acordar ao pé de mim. Mas os grunhidos ruidosos e agudos do macaco-cão é um despertador que me alerta para as passadas que devo dar   e o caminho a seguir, que me mantém atento apesar das divagações.

Chegámos ao local da separação e eu aproximei-me do Salvado.
- “Tens o mapa da zona?”
- “Tenho, claro”.
- “Depois de bateres a zona da bolanha, acho que é melhor colocares-te na borda dela do lado de Bucaur. Eu depois atravesso a bolanha um pouco mais abaixo e, se tiver problemas, podes apoiar-me com fogo desse lado. Parece-me que é melhor para eu não ser apanhado entre dois fogos. O que é que achas?”
Os meus furrriéis e os dele estavam connosco, já os tínhamos posto ao corrente dos objectivos da missão, vi que falavam entre eles e pareceu-me que concordavam com a ideia.
- “Está bem, pá, estou de acordo”, disse também o Salvado.
- “Olha, mantém o teu banana[2] sempre atento, eu vou estar com o meu também. É para nos mantermos em contacto e para nos irmos informando do que se passa dum lado e doutro. Além disso, o PCV do major do COP3 deve estar a aparecer e o gajo também vai querer conversa.”
Fomos cada um para seu lado. Meti o Bailo à frente para me indicar o caminho até à tal picada entre Cossé e Sano. A fronteira ali era uma linha recta no papel entre o marco 132 e o 133. Nem sabia se os marcos ainda existiam, mas, mesmo que existissem não adiantava nada para saber onde acabava a Guiné e começava o Senegal. Em certo momento tanto podíamos estar cá como estar lá. Por isso é que aquela gente de Sano dum lado e doutro não tinha fronteiras. Era tudo o mesmo.
Estávamos há quase uma hora no meio da mata. O Bailo, por indicação minha, não escolhia carreiros e a progressão não era fácil. Quando comecei a ouvir o ronronar da DO, diz-me o radiotelegrafista:
- “Meu alferes, está aqui o PCV”.
Peguei no banana.

- “É pá, já vi que o Salvado está no local combinado. Você ainda não chegou. Estou a ver daqui o sítio onde devia estar.”
O engraçado quer festa. Espera lá que já vais levar. Esta tarimba sei bem que não tens.
- “Aqui no meio desta mata cerrada não é tão fácil descortinar o objectivo como aí em cima. Tenho tido dificuldades na progressão. Mas o meu guia diz-me que estamos quase a chegar.”
Uns segundos de silêncio. Deve ter acusado o toque, mas não se descoseu.
- “Quando chegar avise-me que vou continuando por aqui. Terminado”. Desligou.
E acabámos por chegar. Emboscámo-nos na berma da picada, a seguir a Dianatu, que o Bailo disse ser a tabanca entre Cossé e Sano.
- “Ninguém dispara nem se mexe, só à minha ordem.”
Avisei o major da minha chegada e liguei ao Salvado para saber como estava. Disse-me que não via vivalma. O PCV deu mais umas voltas e afastou-se. Ainda bem, pensei, senão os tipos começam a desconfiar que há qualquer coisa.
A certa altura segreda-me o Bailo, que estava ao é de mim a espreitar por entre uns ramos:
- “Alfero, vem um jipe”.
Espreitei também.
- “São turras?”
O Bailo observou melhor.
- “Polisia de Senegal[3]”.
Bonito. Só me faltava isto. Tinha de tirar os gajos daqui. O Bailo não usa camuflado, vou ver o que é que dá.
- “Bailo, labanta, papia elis[4]”.
Sabia que era um tipo expedito, às vezes até demais. Levantou-se logo e foi para o meio da picada. O jipe aproximou-se e parou. Os ocupantes sorriram.
- “Bonjour, camarade”[5], disse um deles.
Pensam que é um do PAIGC. Era o que eu queria, que parassem confiantes. Fiz sinal de ordem para todos se levantarem. Fui o primeiro a saltar. Assim que me viram ficaram de olhos esbugalhados e levaram instintivamente as mãos às armas.
- “Bougez pas!”[6], gritei-lhes apontando a G3.
Foram cercados pelo grupo e ficaram quietos. Aperceberam-se que eu era o comandante e um deles virou-se para mim.
- “Banderra de Senegal ami de banderra de Portugal”, disse com voz arrastada e o outro abanava a cabeça de assentimento.
Tinham piada, os sacanas.
- “Ne merdoyez pas. Qu’est-ce que vous faites ici?”[7].
- “Nous avons des femmes amies à Sano…”[8]
Houve uma agitação e vi o Bletche e o Falcão de armas apontadas para a picada do lado de Sano.
- “Ninguém dispara, caralho! Já disse!”, gritei-lhes. Abaixaram as G3.
Um miúdo de sete ou oito anos arrastava apressadamente pela mão um velho. Vinham pela picada, deviam ter visto o nosso grupo e tentavam fugir.
- “Sousa, vá lá buscar aqueles gajos.” Disse aos outros para vigiarem os gendarmes.
A secção do Sousa agarrou-os facilmente. Antes de chegarem ao pé de mim reparei que o velho era cego. O miúdo era o guia dele.
Disse o Ocha para saber o que andavam a fazer e para onde iam. Falou algum tempo com eles. O rapazito, via eu, estava cheio de medo. O cego abria os olhos baços  e franzia a boca receosa. O mal invisível.
-“Iam para Dianatu onde têm família. O velho é avô do miúdo e é cego. Quando nos viram tentaram fugir.”
Já tinha ouvido a DO, agora já estava por cima de nós. E o radiotelegrafista trazia-me o banana.
- “O que se passa aí em baixo, alferes?”
- “É um jipe com dois gendarmes do Senegal, apareceram aqui. Parece-me que é melhor irmos embora, já não dá para o que viemos fazer.”
- “Eh, pá!... Mande os gajos embora, e sem uma beliscadura, não podemos arranjar problemas desses. Depois pode retirar.”
- “Oscar Kilo”[9].
Virei-me para os gendarmes.
- “Et allez donc. Prenez l’aveugle et le gamin avec vous. Mais pour Dianatu, non pour Sano.”[10] Ficaram encantados, nem lhes notei qualquer contrariedade por não irem ter com as “femmes amies”. Elas lá estariam à espera por outra altura, certamente. ”Agarrem nos dois e metam-nos no jipe”, disse para os que cercavam o avô e o neto.
Quando partiram dei ordem de abandono da posição. Não era bom continuar ali,pois tinha a certeza que aqueles gajos iam avisar o PAIGC. Metemos pela mata em direcção a Sano portuguesa. Estava abandonada, com alguns restos de moranças[11] ainda, muito mato rasteiro, mas havia um grupo de bananeiras ao pé da mata.
- “Está ali uma mulher!”, gritou o Ocha ao pé de mim.
Todos viraram a cara para lá. Ela ouviu e virou a cara para nós,viu-nos e desatou a correr para a mata. Levava uma criança às costas no bambaran[12]. Logo uns poucos levantaram a G3 para disparar.
- “Quietos!”, gritei saltando para a frente deles. “Mato o primeiro que disparar! Clode, Falcão, vão atrás dela!”
A morte da Abess não me saía da cabeça e não queria ter outra situação idêntica.
Vi que o bambaran se soltou e a criança caiu no chão. A mulher virou-se angustiada a ver a criança a chorar mas olhou com terror para o Clode e o Falcão que corriam para ela e continuou a fugir.
De repente o silvo de um rocket. Os homens do Fernandes atiraram-se para o chão. O rocket passou-lhes perto e rebentou atrás perto das palmeiras.
- “Clode, Falcão, tragam a criança! Saiam  da clareira! Todos para a mata!”
Começou o fogachal do lado do Senegal. O Code corria com a criança nos braços. Já abrigados na orla da clareira disse aos furriéis:
- “Fernandes, atravesse já a bolanha atrás de nós. Eu fico aqui com o Sousa e a bazuca para os reter. Lindolfo, coloque a sua secção 10 metros à minha direita, Pedro vá 10 metros à minha esquerda. É que eles podem tentar cercar-nos. Daqui a cinco minutos, vejam as horas, vamos todos atravessar a bolanha. Fernandes, quando vir que estamos a atravessar mande umas morteiradas para trás de nós. Radiotelegrafista, ficas aqui comigo. Andem.”
- “Os filhos da puta dos polícias foram avisar os gajos”, rosnava o Sousa por entre as rajadas.
- “O que é que esperavas?”
- “Devíamos ter limpado o sebo aos gajos”.
- “E arranjavas um trinta e um do caraças”.
As bazucadas do Benhanté e os dilagramas do Ocha mantinham os gajos em respeito. Disse ao radiotelegrafista para ligar o alferes Salvado.
- “Já está”, e deu-me o banana.
- “Ó Salvado, estás a ver o que está a suceder?”
- “Estou, pá, bem as oiço. Estou a ver que tens festa.”
- “Mas ouve lá: tu aí de Bukaur podes dar uma ajudinha. Tens o mapa, os gajos estão do outro lado da clareira da Sano portuguesa, faz os cálculos e manda-lhes umas morteiradas”.
- “É pá, mas eu já não estou em Bukaur, estou a caminho de Barro.”
- “O quê!? Foda-se! Tínhamos combinado que ficavas lá à minha espera!”
- “Mas vi que não estava lá a fazer nada.”
- “Vai pró caralho!”, e deliguei.
O Sousa apercebeu-se da conversa no meio do tiroreio.
- “O alferes Salvado tem fama de sacaninha”.
- “É mas é um grande filho da puta”, estava mais que furioso.
Passaram os cinco minutos. Disse ao Benhanté para mandar mais uma bazucada e ao Ocha mais um dilagrama e começámos depois a ir em direcção à bolanha. Verifiquei que do lado direito e do esquerdo também vinham.
- “Sousa, diz a três homens para não atravessarem já. O da bazuca não, é melhor ir já. Quando já estivermos lá eles que atravessem que nós vamos cobrir.”
O Fernandes já começara com as morteiradas. Chegámos. O Abna , o André Gomes e o Bidinté, que tinham ficado para trás acabaram por se juntar a nós sem problemas. Foi quando ouvi a DO. Fui eu que liguei logo.
- “Estamos aqui com um problema.”
- “Já sei. Estava na pista de Barro e ouvi. Era o tal bigrupo?.
- “Parece-me que não há lá nenhum bigrupo. Os gajos que nos atacaram não tinham esse poder de fogo, além de que não tiveram capacidade para uma manobra de envolvimento que nos lixasse.”
- “Podem não o ter querido mostrar. Mas não interessa agora. Retire-se que eu vou pedir uns T6 para despejarem aí umas bujardas.”
- “É óptimo, para ver se não vêm atrás de nós. Além disso podem dar cabo de uns diques e umas plantações de arroz que eles têm na bolanha. Mas isso o meu major já sabe, claro”.
Uns segundos para engolir, como era hábito.
- “Toca a andar, homem. Eu vou para Barro e falamos lá.” Não explodia facilmente, é verdade.
Não íamos muito longe quando os T6 apareceram. Despejaram umas tantas e foram-se embora. Mas deu para que não viessem no nosso encalço a chatear-nos. Durante o caminho cheguei-me à secção do Fernandes, onde o Clode continuava com a miúda ao colo.
- “Nome di bo?[13]”, perguntei-lhe. Mas ela não disse nada e chorou.
- “Ó Fernandes, que dia é hoje?”
- “É dia 20 de Agosto”.
- “Não. O dia da semana”.
- “É terça-feira”.
- “Então, a gaja não quer dizer o nome, vamos chamar-lhe Terça.”
O pessoal ouviu, cochicharam entre eles e acharam piada. Era normal para eles, havia muitas Sábado e Segunda, conforme o dia da semana em que tinham nascido. Não era novidade.
Quando cheguei a Barro o primeiro que vi foi o Salvado. Foi o primeiro porque era quem eu queria ver. Estava com o Rodolfo. Dirigi-me a ele de G3 em riste, apetecia-me dar-lhe um tiro.
- “Ouve lá: se me fazes aquilo outra vez fodo-te o coiro!”
O Rodolfo olhou-me espantado.
- “Tem calma. Que merda é essa, pá?”
- “Pergunta a este cabrão”, e fui para o quarto tomar banho.
Vieram dizer-me que o major estava na secretaria à minha espera. Fui. Estava com um capitão, devia ser do seu staf do COP3, e o piloto da DO.
- “Então, nosso alferes, conte lá como é que foi aquilo”.
- “Fiz tudo aquilo que estava planeado. Quando estávamos na picada de Cossé para Sano apareceu um jipe de gendarmes do Senegal. Tive de os mandar parar.”
- “Mas não os podia ter deixado seguir e continuar emboscado?”
- “Tive receio que eles dessem pela nossa presença. Gerar-se-ia uma confusão e eu tenho a certeza que os meus homens os iam matar. Gorava-se a nossa missão na mesma e denunciávamos a nossa presença”.
- “Assim sucedeu o mesmo. Andei por aí e ouvi dizer que apanharam lá um velho e um miúdo mas deixaram-nos ir embora. E na bolanha apanharam uma miúda e deixaram fugir a mãe. Fez mal porque podíamos colher deles muitas informações sobre as movimentações do PAIGC em Sano.”
Era o vale tudo. Mas não comigo.
-“Meu major, nunca pensei que a minha missão fosse apanhar cegos, o velho era cego, sabe?, e miúdos. E a mulher fugiu-nos quando eles nos começaram a atacar.”
- “Mas apanharam a criança dela…”
- “Meu major, não podia deixar a criança no meio do tiroteio ou correr o risco de lhe cair uma morteirada em cima”.

Olhou-me zombeteiro.
- “Você, nosso alferes, está muito mole para esta guerra.”
- “Estou com certeza, meu major, mas não sei se conseguirei estar mais duro”
- “Vai ter que estar, com o tempo vai ter que estar, vai ver. Mas diga lá: acha que eles não têm em Sano um bigrupo?”
- “Já disse ao meu major que achava que não. O poder de fogo dos que nos atacaram não era nada semelhante ao de um bigrupo. Além de que estiveram muito fixos no terreno, nada da actuação duma unidade desse género, nem sequer nos perseguiram quando fomos para a bolanha. Parece-me mais que seria o conjunto de indivíduos que estariam esporadicamente na tabanca.”
- “Pode ser isso, é uma ideia. Vamos ver. Bem, vou-me embora. Quando é que o capitão Alves regressa?”
- “Vem para a semana. Já agora queria pedir-lhe um favor, meu major. Se estivesse de acordo, pedia-lhe mandasse vir uma DO para levar a miúda que trouxemos para Bissau. Há-de haver lá instituições para cuidar dela. Aqui não temos condições.”
- “Tá bem. É verdade.” Virou-se para o capitão. “Ó Silva, tome nota disto para falarmos para Bissau.”
A avioneta foi-se e, já depois do jantar, apareceu-me o Quecuta.
- “Alfero tem badjudasinhu di matu?”.[14]
- “Io[15]”.
- “Quecuta pudi toma konta”[16].
Malandro. Tomava conta dela para mais tarde ganhar dinheiro com o casamento dela. Estive para lhe escarrapachar isso na cara. Mas pensando melhor, e na Uace e na Signi, despachei-o-
- “Impusivel. Major COP3 misti badjudasinhu em Bissau[17].”
- “io de[18]”.
E foi-se embora.

[1] Posto de Controlo Volante.
[2] Nome que dávamos ao rádio emissor-receptor AVP, por ter esse formato.
[3] Polícia do Senegal (crioulo)
[4] Baulo, levanta-te e fala com eles” (crioulo).
[5] Bom dia, camarada” (francês)
[6] Não se mexam! (francês)
[7] Deixem-se de tretas. O que é que fazem aqui? (francês)
[8] Temos uma amigas em Sano… (francês)
[9] OK
[10] Vão-se lá embora. Levem o cego e o miúdo convosco. Mas para Dianatu e não para Sano (francês).
[11] Habitações (crioulo)
[12] Peça de pano utilizado pela mãe para trazer a criancinha às
costas. 
[13] Qual é o teu nome (crioulo).
[14] O alferes tem um bajuda bebé que veio do mato? (crioulo)
[15] Sim (crioulo)
[16] O Quecuta pode tomar conta dela (crioulo)
[17] Não pode ser. O major do COP3 quer a bajuda bebé em Bissau (crioulo)
[18] Está bem (crioulo)