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24 de agosto de 2011

239-Sem Timor...


29 de Março de 1967

Regressei ao RAC de Oeiras depois de uma licença de 10 dias, benesse do Decreto nº 42937. Obrigadinho. Mas não fiquei nada satisfeito quando lá cheguei e o capitão disse aos alferes que, afinal, não íamos para Timor. Tinham-nos dito que talvez… Afinal, disse-nos, vamos para a Guiné. Foda-se, que merda! reacção geral.
Fiquei lixado, peguei no distintivo e mudei-lhe o lema: passou de “Sem Temor” para “Sem Timor”. Que não podia ir com isto assim no desfile que iríamos fazer antes de embarcar, mas todos vimos que o capitão também não estava nada satisfeito. Tá bem, mas agora dá-me para desopilar.
Não me apeteceu nada ficar no quartel depois do jantar, não tinha nada a fazer, e decidi ir apanhar o comboio até Lisboa. Os meus camaradas, não vi bem se a sério ou a brincar, perguntaram-me se me ia pirar. Não, disse-lhes a sério, não me vou pirar, não vos ia abandonar, vou só dar aos meus velhotes esta boa notícia… Fiz mal. E daí… não sei, talvez não, tinha de ser, tinha de lhes dizer. O meu pai ficou macambúzio e preocupado, a minha mãe e a minha irmã choraram.
Não aguentei e vim para este bar.
Dá-me licença que me sente aqui?... Obrigado.
Um gin tónico, se faz favor!
...Não é a primeira vez que cá venho mas agora não sei o nome do bar, não me vem à cabeça. Situação embaraçosa para quem pretende divagar a partir dele, da sua configuração interna, daquilo que se vê através dos seus frequentadores, do mundo que encerra em si e fora de si. Mas não interessa, os meus pensamentos vão estar longe daqui.
Olhe, mais outro gin tónico!
…Afinal, acho que sim. É importante o nome das coisas, dos seres, dos lugares... Penso que os nomes atribuídos têm muito a ver com a natureza das coisas, dos seres e do seu ambiente. Quando digo rosa, digo e sinto tudo o que a rosa é: o cheiro, as pétalas coloridas, o redondo belo. Quando se fala no Marquês todos sabem que é a praça onde está o Marquês de Pombal com o leão a tiracolo. Não, está aos pés, é verdade. Mas faz tanto parte dele que é como se o tivesse a tiracolo. E mulher… ah, mulher é amor, seios, pernas, ancas, sexo. Os nomes deixaram de ser unicamente nomes e passaram a ser, a personificar coisas concretas. Quando proferimos um nome temos em nós, automaticamente, um retrato, uma vivência e um conjunto de características que só conseguiríamos descrever por frases mais ou menos extensas, mais ou menos difíceis de explicar. O nome é a síntese em nós de tudo isso.
Mais um!
…Levantei o copo mas o homem não me viu. Tenho de bater no copo.
Mais um gin tónico!
…Dar nomes às coisas e às pessoas é bom, para economizar palavras e explicações entre quem se conhece. Tenho uma amiga linda como uma flor… os bidonvilles de Champigny são piores que o Casal Ventoso… diz tudo, sem mais explicações. E, veja lá, e se aquela flor a que chamamos rosa tivesse outro nome… por exemplo esterco ou trampa? E se à trampa chamássemos rosa? Estávamos a introduzir aberrações no nosso código de entendimento, subverteríamos esse código. A discussão generalizar-se-ia onde agora existe entendimento. Chocaríamos os nossos amigos e os contactos do dia-a-dia, passaríamos por loucos perante os nossos concidadãos, como diria Camus.
Traga mais um, se faz favor!
Sente-se bem? Já vai no quarto… Não quer comer nada?
Não. Já jantei. Mas tem razão. Traga-me antes um whisky… Traga lá, homem!
…E se a loucura se generalizasse, se cada um decidisse a sua própria subversão, seria a guerra civil. Mas neste caso, ou no caso de se dar uma única subversão de forma colectiva, a tendência será regressar a uma nova normalidade, assente em novos códigos. Mais simplesmente na segunda hipótese, com muita dificuldade na primeira. Mas lá se chegaria. Lembrei-me agora desta: é colónia ou província ultramarina que se deve dizer?... Não se assuste, isto é só conversa. E desculpe lá a linguagem, mas é que saí há pouco tempo da Faculdade de Letras. Bem, tenho de ir andando, tenho de voltar ao quartel. Sim, sou tropa.
Não quer que o ajude? Posso levá-lo…
…Não, obrigado. Estou como o aço, dentro de dias vou embarcar para a Guiné. Gosto em conhecê-lo, adeus e até ao meu regresso. Não se ria, senão choro. 

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