Os primeiros-sargentos, da anterior e da actual, já estavam a falar ao pé da secretaria. Esta tinha uma sala com duas secretárias e um cubículo anexo onde era a casa de banho. A outra casa tinha dois quartos e uma casa de banho também. Nas traseiras das duas, um pequeno descampado, separado de umas palhotas com arame farpado.
“Neste quarto aqui fico eu”, disse o capitão, “Naquele ficam vocês os dois.”
A casa não tinham janelas, só portas com uma paliçada em frente.
“É para não entrar nada pelas janelas, sabe-se lá…”, explicou o Braga, e convidou, depois de arrumadas as coisas de cada um:
“É para não entrar nada pelas janelas, sabe-se lá…”, explicou o Braga, e convidou, depois de arrumadas as coisas de cada um:
“Vamos ali ao bar beber um copo.”
Já tardava. Disto é que ele sabia muito, era perito. E aprendi muito com ele, é verdade. Aos fins-de-semana, depois da instrução da companhia, dava-me boleia até Lisboa no seu Alfa Romeo e tive grandes noitadas na Cave, no Comodoro, na Taverna Imperial, bebidas, mulheres…e eu disso sabia pouco ou nada… no seminário não dava, e depois cá fora também não deu.
O bar ficava por trás daquelas casas, era uma barraquita muito pequena coberta de chapa, com um balcãozito que só dava para três.
“Não está cá ninguém. O barista da outra companhia deve estar a preparar-se para ir embora, mas isto agora é nosso. Os primeiros-sargentos estão a tratar. Whisky simples ou com água?”
“Com água”, disseram os alferes.
“Então estão aqui as perriers, é melhor que a castelo.”
Ficaram a conhecer as garrafinhas verdes da água perrier. O capitão foi bebendo e falando.
“Quando chegarem os dos destacamentos estes gajos vão-se embora. Temos de montar guardas lá em cima no quartel e aqui em baixo. O primeiro-sargento há-de fazer as escalas. Você, Aiveca, amanhã vai comigo até à sede do batalhão, tenho de falar com o tenente-coronel.”
“Tá bem, vou avisar os furriéis”
“Não é preciso, é aqui a trinta quilómetros.”
“Sozinhos?!”
“Não há problemas, vamos só nós.”
Este sacana quando bebe passa-se dos carretos, pensei eu, mas não disse nada. Fomos, depois, para os quartos.
“Belas camas”, e assentei-me.
“ É como as mulheres, quando estamos à rasca qualquer uma serve”, e o Zé Pedro esticou-se ao comprido.
“Não é bem assim.”
“ Ai não, não é, ó filho, não percebes nada.”
“Talvez não.”
“ Mas ouve lá, vocês são malucos, irem-se meter por aí sozinhos, é arriscado.”
“O que é que queres, o gajo é que manda". Virei-me para o lado, não deu para mais conversa. O cansaço e o whisky venceram.
Parecia-me que tinha acabado de me deitar, que ainda era noite. Mas não, já era dia quando a porta se abriu e o capitão nos acordou.
“Temos de ir embora, Aiveca. Zé Pedro, você fica a mandar nisto, vá ver se está tudo bem no quartel e se o primeiro pôs a secretaria a funcionar, veja se está tudo nos conformes e a andar. Nós só voltamos depois do almoço.”
Já estava um jipe pronto, entrámos nele, cada um com a sua G3. O Braga foi a conduzir, passámos por um grupo de palhotas e metêmo-nos à estrada. Não se podia chamar tal, era uma picada muito má, a paisagem já não era novidade, árvores e erva muito alta à volta. A viatura ia aos solavancos.
“Ó capitão, ainda não percebi porque é que fui eu que fiquei na sede da companhia e não o Aprígio ou o Castro, acho que eles são mais capazes do que eu para aquilo.”
“É pá, para o que eu quero e é preciso não são, não é nenhum deles. O Castro é um bocado emproado e senhor do seu nariz, tenho receio que disparate coisas que eu não quero, o Aprígio é demasiado calmo, um bocado mosca morta, também não dá.”
“Mas eu não sou muito diferente deles, em certos aspectos.”
“É pá, mas eu já te conheço bem, deu para isso nas nossas andanças pelos bares de Lisboa… és um bocado nabo com as mulheres, mas isso para aqui não interessa nada. Eu tenho de ter alguém em que possa confiar plenamente para me dar segurança.”
“Mas eu acho que quer o Aprígio quer o Castro são seguros e não vão borrar nada.”
“Talvez, mas é em ti que eu tenho mais confiança.”
Foi uma viagem de poeira e buracos mas chegámos, sem problemas, de facto. Em ponto pequeno, mas parecia uma cidade. Fomos dar uma volta, tinha um mercado de paredes castanho avermelhado, algumas casas tipo colonial, outras normais, branco escuro do pó e da soalheira, um complexo com piscina e vista sobre o rio. Não era Lisboa, nada que se parecesse, muitíssimo longe, mas não desgostei. Bom para quem só tinha visto água e mato nos últimos dias.
“Só daqui a meia hora é que tenho que ir falar com o comandante do batalhão, agora vamos ver um amigo que tenho aqui.”
Entrámos num restaurante pequeno.
“Olha o Braga”, exclamou um sujeito pro-gordo e careca que estava atrás do balcão.
“Cá estou de novo, grande Coelho”, e o capitão abraçou-se a ele.
“Outra vez?”
“É, mas agora é diferente, venho comandar uma companhia, este aqui é um dos alferes.”
“Ah, tá bem. Vão uns camarõezitos?”
“Venham eles. O Alberto anda por aí? Queria falar com ele”
“Tá aí, tá. Ó Mamadu”, virou-se para um preto que estava lá,” vai dizer ao senhor Alberto que está aqui o capitão Braga e quer falar com ele”.
“Sim, patrão”.
Apareceu depois um tipo baixo, de bigode e cabelo preto, cara de poucos amigos. Ar um bocado soturno, pareceu-me. Sorriu para o capitão e cumprimentaram-se.
“De novo?”
“Mas não é a mesma coisa”, repetiu o Braga.
“Eu sei”, disse o Alberto e juntou-se nos camarões e na cerveja.
Depois de um copo, lançou, com ar sacaninha:
“O Coelho só tem um tomate, tiveram que lhe cortar um”.
“Tive uma merda qualquer, teve de ser. Mas o meu nome diz tudo, pá, continuo em acção. Nenhuma se queixa, nem a minha mulher”.
Virou a cabeça para trás, um bocado atrapalhado, para ver se estava a mulher ao balcão. E estava, tinha vindo para ver os visitantes. Era baixa, um pouco cheia, de cabelos alourados, cara bonita. Viu-se que pensou alguma coisa, mas não disse nada.
“Olá D. Ester”, cumprimentou o Braga.
“Olá, por cá?”
“É verdade, tem de ser”.
Passou algum tempo e estava quase na meia hora.
“Tenho de ir, depois volto cá para almoçar. O alferes Aiveca fica aqui à minha espera, a não ser que queira ir dar uma volta”.
“Não, já vi o que era de ver”.
“Eu não me vou demorar, com certeza”.
“Eu vou também. O tenente-coronel disse-me que vinhas e pediu-me para ir contigo”.
“Bora, então, Alberto”.
E eu fiquei, agarrado ainda aos camarões e a uma imperial. Estava intrigado sobre quem seria aquele gajo. Não estava fardado… não compreendia por que é que ia também à reunião com o Braga. O Coelho tinha ido para o pé da D. Ester, conversavam baixo. Parecia explicar qualquer coisa, mas ela dava ar de não compreender, cara cerrada, acabou por se ir embora. Ele voltou para a mesa.
“Os camarões estão bons?”
“Muito bons”.
Agarrou-se também a um bicho e deu-lhe para falar.
“Aquele Alberto é um brincalhão, mas tem sido um elemento muito importante contra os turras”.
“De que companhia é ele?”
“Ele não é militar, é o homem da Pide aqui na zona”.
De camarão em riste, olhei para o Coelho.
“O gajo espreme-lhes os tomates, salvo seja, até eles bufarem tudo cá para fora. Limpou o sebo a muitos que não disseram nada”.
Consegui tragar o bicho mas tive de beber meio copo para não me engasgar.
“Tem de ser, senão estes gajos fodiam-nos a todos. Você até tem sorte porque esta zona está mais ou menos bem, noutros sítios é que está mau, além de que aqui é zona dos fulas. Estão connosco, e o seu capitão já conhece isto, já esteve cá antes”.
“Já?”, manifestei-me surpreso, embora já tivesse percebido isso pelas conversas anteriores
“Esteve aqui na polícia há uns anos”.
Uns pretos assomaram à porta.
“Senhor Coelho, patrão, dá licença?”
“Tenho que ir ver o que é que estes nharros[1] querem. O que é, ó pá?”
Mergulhei na cerveja. Este sacana só me disse que tinha estado na polícia em Lisboa, quando era tenente. Que foi mobilizado depois de ser promovido a capitão. Que lhe tinham dito primeiro que ia para Timor, mas que o tinham fodido quando lhe disseram que, afinal, ia para a Guiné. Nunca me disse que já tinha cá estado. Devia estar mesmo fodido, acredito. A situação não é a mesma quando era polícia… e está explicado este à vontade com os pides.
O Braga e o Alberto acabaram por regressar. Era hora de almoço, e a D. Ester já tinha preparado um belo frango de chabéu, uma delícia que, regado com vinho branco fresquinho, eu nunca tinha provado.
“Muito bom!”, exclamei.
“Aqui há pratos bestiais”, disse o capitão, “e a mulher do Coelho é boa cozinheira, havemos de vir cá mais vezes”.
A conversa foi trivial, entre risos e piadas, mulheres, caju, mancarra, bebidas. A D. Ester, ocupada no balcão, não ouvia nada, ou fazia que. Só o Coelho é que derivou, a certa altura.
“Então como estão as coisas?”
O pide e o capitão trocaram olhares e este disse que estava tudo sob controlo.
Novamente no jipe de regresso à companhia, o capitão abriu-se.
“Temos que nos pôr a pau. Os gajos andam lá na nossa zona.”
Até me admirava se não andassem. Estava nas minhas previsões.






