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4 de maio de 2011

138-Não saí nem houve ataque do IN - Mas "A Peste" atacou

Deparei-me com duas frases de Albert Camus que me dão muito que pensar. Todo o romance está cheio de simbolismo, mas essas frases, só essas, têm muito a ver com a minha vida presente, com os meus problemas actuais. Mas não só. Elas têm a ver com toda esta fase que atravessam os meus "concidadãos".
Procuro sempre, com as minhas leituras nocturnas, quando posso e tenho condições para me apetecer, sem pretensões de aprofundar mas apenas criar condições, relax, para um bom sono. Mas não, esta noite não me é possível.
"A Peste" apossou-se de mim, como reagente contra outra peste que de algum modo simboliza o nosso estado, e que creio se vem apossando de todos nós de uma forma já perceptível porque demasiado continuada.
Tarrou, o cronista, deixa-me perplexo e confuso: "O que é natural é o micróbio. O resto - a saúde, a integridade, a pureza, se quiser -  é o efeito da vontade, de uma vontade que não deve jamais vergar". Tomei-o, inicialmente, como um existencialista fatalista. Confundi-o com um vulgar existencialista, pessimista  idealista.
Depois, porém, penso ter descoberto nele, através desta mesma frase, um profundo defensor do papel fundamental que o indivíduo tem na evolução da sua própria história. Não já um idealista, mas um materialista; não já um fatalista, mas um defensor da dialéctica.
O micróbio do desânimo propaga-se entre nós. Sinto em mim próprio sintomas  dessa peste, sinto que os meus camaradas são igualmente atacados por ele e que alguns não conseguem reagir. Criam uma habituação à peste, conformam-se com a sua condição  e aguardam melhores dias.
Outros há que, mais gravemente, optam pela via do oportunismo. Não estou a ser exacto quando afirmo que "optam agora", pois a sua opção oportunista fizera-se necessariamente desde o início. Em termos correntes, pode dizer-se que o oportunismo se encontra na massa do sangue dos oportunistas e só em situções de crise vem ao de cima, à luz do dia.
O oportunista "distrai-se" com muita facilidade.
Manter a vigilância e a firmeza, não deixar "vergar a vontade" custa muito, é deveras penoso. Aqui, nesta altura, a segunda frase de Tarrou a Rieux: "...é bem fatigante ser um pestiferado. Mas é ainda mais fatigante não querer sê-lo".
Pensei, inicialmente, que Tarrou não tinha razão em afirmar que o micróbio era um fenómeno natural. Mas o facto é que não podemos fugir a ele, em determinadas circunstâncias. Ele nasce do cruzamento entre as nossas ilusões e os factos adversos que as desvanecem, são fruto da interacção de um facto subjectivo com um dado objectivo, contraditórios entre si. Por este motivo é que eu duvido de Tarrou: será, então, natural o micróbio? Será possível afirmá-lo, quando ele nasce das nossas próprias ilusões contrariadas pelos factos?
Tenho necessidade de aprofundar a natureza das ilusões e o seu desabar. Tenho de ver se as ilusões, dos sentidos ou da inteligência, fazem parte da natureza humana, se são naturais.
Agora vou dormir e espero que o gajos não ataquem.