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3 de julho de 2012

513-EX-COMBATENTES EM LISBOA NO DIA 1 DE DEZEMBRO


SÃO PRECISOS 2.000 MIL HOMENS PARA MARCHAR EM LISBOA: 1º de Dezembro

-É necessária uma demonstração de patriotismo saudável e genuíno, junto ao Palácio de Belém no dia 1 de Dezembro deste ano, para entrega ao Comandante Supremo das Forças Armadas e Presidente da República, de uma lista de reivindicações dos Combatentes do Ultramar para reposição do respeito e da dignidade roubados por todos os governos e Presidentes da República, desde o 25 de Abril de 1974.

-Para que esta acção tenha visibilidade pública e aceitação política por parte de Sua Excelência o Presidente da República, é necessário reunir 2000 combatentes (de preferência muitos mais) que só assim farão ouvir a sua voz de descontentamento e indignação.

-O protesto será desenvolvido de forma ordeira e pacífica, pois só a serenidade e firmeza das nossas razões poderão ser consideradas legítimas e livres de qualquer conotação política ou partidária.

- Não serão permitidas faixas ou cartazes de teor indecoroso ou ofensivo, que retirem a legitimidade e legalidade à nossa luta.

-Pede-se a todos os combatentes participantes que usem a boina da sua farda e respectivo crachá da sua Unidade Militar.

É escolhida a data do 1º de Dezembro por ser o Dia da Restauração da Independência de Portugal, sem outras conotações político-partidárias!

NOTA:
DIGAM PRESENTE...ALGUÉM VOS GUIARÁ!

José Lemos Vale

25 de junho de 2012

510-Encontro da CCAÇ2531 em Paços de Ferreira


ENCONTRO DE EX-COMBATENTES EM PAÇOS DE FERREIRA

Por  Carlos  Morgadinho


Todos os anos, e por todos os lugares, vilas e cidades do nosso Portugal, é habitual realizarem-se encontros/convívios de ex-combatentes da guerra colonial nas três frentes das então chamadas colónias africanas da Guiné, Angola e Moçambique. Esta luta armada dos movimentos libertadores daqueles mencionados países do Continente Africano pôs um ponto final ao império português de mais de quinhentos anos como também contribuiu para a queda da ditadura que vigorava na Pátria Lusa desde 1928, pelo golpe de estado que eclodiu no dia 25 de Abril de 1974 e por muitos conhecida pela “Revolução dos Cravos”. Mais de oitocentos mil soldados foram, em treze anos, de 1961-1974, enviados para o teatro de guerra onde nove mil tombaram acrescido de um número ainda incerto mas calculado em cerca de cem mil baixas entre feridos, estropiados e trauma psiquiátrico, ou pós traumático síndroma, que vem com mais ou menos incidência afetando a qualidade de vida desses ex-combatentes.
Desta vez, e por estarmos em serviço em Portugal, fomos convidados pelo coronel reformado de Infantaria, Sebastião Goulão, a estarmos presentes num desses muitos encontros de ex-combatentes, duma unidade destacada na Guiné, a Companhia de Caçadores 2531, que se realizou no Restaurante Montanha Azul, em Erzil, em Paços de Ferreira, no passado dia 19 de Maio, com a presença de 80 convivas entre membros daquela Companhia e familiares.
Rapidamente iremos focar a origem desta referida Companhia que foi formada em Abrantes, no Quartel do Regimento de Infantaria 2 e sob o comando do capitão Sebastião Goulão embarcou para a Guiné no ano de 1969 tendo regressado a Portugal no dia 12 de Fevereiro de 1971, com menos 40 homens (2 mortos, 22 feridos, dois dos quais sucumbiram tempos depois após o evacuação e os restantes por problemas psiquiátricos e outras doenças das quais se destaca a hepatite). Foi destacada para o quartel de Bimbe de tendo sido rendida no dia 1 de Dezembro de 1970 donde para Bissau e dali, um mês depois regressa a Portugal.
Segundo o seu comandante, o coronel Sebastião Goulão, o dia mais triste
desta comissão foi a 16 de Abril de 1970 causada pelo deflagrar de 4 granadas de morteiro dentro do acampamento e lançadas pelos Guerrilheiros que causou, de imediato, 2 mortos e 22 feridos. Segundo a opinião deste ex-capitão e comandante daquela companhia o desaire ficou-se a dever ao facto a esta unidade ter sido proibida, pelo então general António Spínola naquele território, de continuidade das operações militares de reconhecimento naquela zona por esta ter sido declarada pacificada dando assim oportunidade de movimentação e de ações do inimigo contra as nossas tropas. Muitos outros ataques perpetrados pelo inimigo foram nos meses seguinte realizadas contra as nossas tropas mais destacadamente contra esta companhia tendo no dia 7 de Junho, sofrido um ataque de fogo de morteiro de 4 horas ao quartel e a um seu destacamento (um pelotão) no Encheia, na noite de S. João (23 de Junho do mesmo ano) que ininterruptamente foi bombardeado com morteirada pesada das 9 horas da noite até às 4 da madrugada.
Queremos notar a emoção deste ex-comandante no momento em que se focou os mortos e feridos daquela companhia pois parou de falar por uns segundos ficando com a vista toldada pelas lágrimas que a muito custo conseguiu conter de rolar pela face.
São momentos difíceis de se recordar. Falou-se seguidamente pelos que já partiram deste mundo e dos que se encontravam doentes e até daqueles que emigraram ou dos que não se sabe do paradeiro.
Depois foi a vez dos mais “carismáticos” como o José Marinho (o Sapateiro), o primeiro cabo Marta, o furriel Fraga, o alferes Guedes e outros mais cujos nomes olvidamos mas que também foram lembrados pelas paródias, desobediências e até de atos de abnegação e valor pois houve até quem recebesse a condecoração de Cruz de Guerra em combate.
Presente o soldado Abílio Pedrosa um dos homens feridos e evacuado por ferimentos mas que passados meses foi dado alta do Hospital Militar de Lisboa e reenviado para a Guiné com uma bala alojada nas costas pois, ao que parece, ser difícil extração e de alto risco para aquele ex-militar, pelo que é membro da Associação de Deficientes das Forcas Armadas com um grau de incapacidade que não apuramos naquele momento.
Ficou, naquele almoço, estabelecido que o próximo almoço/convívio, de 2013, será realizado em Felgueiras pela mão de José Marinho (o Sapateiro).
Finalmente procedeu-se ao corte do bolo comemorativo e acompanhado de champanhe foi saudada a “irmandade” desta gente que durante dois anos, há muitos anos atras, viveu e sofreu de mãos dadas, as agruras duma guerra que não teve razoes para existir – somente pela teimosia e insensatez do ditador Salazar.
Para o coronel Sebastião Goulão e para todos os membros presentes da
Companhia de Caçadores 2531 e seus familiares, obviamente, aqui deixamos a nossa gratidão pelas atenções e prova de amizade que nos foi dirigida durante este evento. Bem hajam.

Companhia2531 from Cantacunda on Vimeo.

15 de maio de 2012

480-A Viagem do Tangomau

«A Viagem do Tangomau»
Lançamento em 19 de Junho,18:30, no Museu da Farmácia, Rua Marechal Saldanha, 1, em Lisboa



1 de março de 2012

402-Solidariedade com o Zé da Guiné

Ver também aqui e aqui 

DVD à venda


sexta-feira, 6 de Janeiro de 2012

Está já à venda o dvd do filme.
O dvd inclui o filme, o trailer e uma colecção de fotos da noites de Lisboa dos anos 80.
Por cada dvd vendido entregaremos 5 euros ao Zé da Guiné para os seus tratamentos.
Pode comprar o dvd no seguinte endereço:

http://wwwl.josemanue deslopes.com/store.html




A seguir, um pequeno extracto do filme, com a devida vénia ao seu autor, José Manuel de Sousa Lopes. É por uma boa causa, acho que a mesma deste belo documentário.


«A vida é um jogo; jogam o sol, o espelho e a lua. Também no peito do céu, brilham as estrelas. Anos-luzes no caldeirão da via láctea viajam os sonhos. Mil sonhos com as suas asas de mudanças e de crenças. O sol, como sempre, brilha, ilumina os corpos e reflecte na lua. A lua cheia e lua “noba”, que os corpos em trânsito encontrem os aconchegos de uma noite bem passada no Bairro Alto de Lisboa. A narrativa até poderia levar milhares de anos a contar. Nos riscos dos espaços e tempos, milhares de almas e corpos cruzaram com o Zé da Guiné.
Não o conheço. Ouvi falar dele como um africano bem-sucedido em Portugal que desafiou o destino, marcado pela descolonização e almas conservadoras e provinciana que o Salazarismo criara para mostrar ao mundo que é possível ser diferente e ter visão do mundo. Usou a táctica e visão para transformar o território do Bairro Alto no “mimo” de todos que lá aportaram e aportam. O “passa sabi” do Bairro ajudou a criar comunidade de gostos e de afectos nunca dantes experimentados em Portugal. Zé da Guiné, não o conheço; só de ver o documentário fiquei logo interessado para saber mais e mais sobre o seu contributo na sociedade de acolhimento. Olé Zé, Olé Zé da Guiné!
As sementes já estão lançadas. Agora dou por mim a pensar nos Bulimundo, os Apolos, Black Power, e tantos outros que ajudaram no engrandecimento cultural de Cabo Verde e Portugal. Os rapazes estiveram no Bairro? Não estiveram? Claro que estiveram! Todos os que se ansiavam pelo “in” da moda da época teriam que entrar no Bairro e conviver no laboratório da experiência humana e cultural.
Zé da Guiné ajudou a construir a etnopaisagem do Bairro. Olé Zé, olé… sons e sabores juntos e dezenas de sotaques ajudaram a construir a realidade e o imaginário do Bairro.
Meus amigos, o Zé da Guiné é fixe. FIXE demais. Eu vou pesquisar mais… e cruzar sonhos e realidades.»

14 de dezembro de 2011

327-Endechas a Bárbara Escrava

Uma belíssima aguarela da amiga Leonor Machado. Mais uma vez ela teve a amabilidade de nos presentear com um belo poema (foi antes a "Lágrima de preta", do António Gedeão): desta vez do nosso Luís de Camões. E é verdade: muitas canções melancólicas,  endechas, nos lembram as presenças serenas que muitas tormentas amansaram com pretidões de amor. Mas não eram escravas: eram senhoras de quem estava cativo.

4 de dezembro de 2011

314-Stress de guerra

Stress de guerra 
"doença envergonhada"
António Melo
Os sentimentos são contraditórios. Querem protagonismo, mas hesitam no instante da afirmação. Solicitam um difuso anonimato, receando confronto com uma sociedade que sabem pouco receptiva aos fracos. Estão debilitados. querem apoio, mas recusam a piedade. São doentes, alguns inválidos, de uma guerra que lhes atordoou a memória.


O nome é críptico. A "perturbação pós-traumática do stress" foi diagnosticada pelos médicos norte-americanos que acompanharam os soldados que estiveram no Vietname, mas nos países europeus há ainda uma certa relutância em compreender o diagnóstico desta afecção.
O momento agudo, crítico, do stress é facilmente identificado, mesmo por um leigo. Um choque emocional é visível Mas, à volta da vítima, todos esperam que ela possa recuperar - ou pelo menos "esquecer". Assim acontece até que um dia, 20 anos mais tarde, num momento de crise da meia-idade, por insucesso profissional ou pessoal, a "ferida encoberta" reabre-se.
A nossa memória é um armazém labiríntico onde todo o passado se guarda. o fiel desse armazém - 'ego', 'espírito' ou 'consciência' - encarrega-se de seleccionar as recordações que envia à superfície. Por hábito escolhe as imagens felizes e galhofeiras, que sabe serem as mais gratificantes no convívio social. "Tristezas não pagam dívidas", é a expressão popular desta conduta, que deixa o eficiente fiel com frequentes problemas de arrumação dos stocks. Obrigado a responder às diversas solicitações da vida social, sabe que as recordações que provocam "frisson" são as de maior sucesso na assistência e fazem do seu mestre o centro (momentâneo) das atenções. O problema é quando tem que re-arrumar a "tralha" da noite, finda a festa
Sozinho consigo, longe do vozear familiar que entontece mas também dá segurança, as imagens recusam a autocensura e impõem-se na mente que tanto fez para as esquecer. O que elas dizem é que a realidade foi dolorosa, inesquecível, que o medo foi algo de fortíssimo, que a comoção nervosa deixou marcas indeléveis no cérebro, que a fractura invisível é pior do que a mutilação física
Quantos reagem assim, a evidenciar os sintomas da "perturbação pós-traumática do stress", sintomas recorrentes de uma guerra que travaram há 20 ou 30 anos? O psiquiatra Afonso de Albuquerque sustenta que na sociedade portuguesa há entre 100 a 140 mil cidadãos nos quais a experiência das guerras travadas no então ultramar, contra os movimentos de libertação das colónias provocou um estado crónico de "perturbação pós-traumática do stress" (PTSD).
Ao interlocutor externo, o primeiro contacto revela-se banal. A troca de palavras é a usual, talvez haja uma certa crispação, que tanto pode ser devida ao PTSD como ao formalismo da apresentação, sendo o local aprazado para o encontro o Hospital Júlio de Matos, em Lisboa. Só mais tarde, num contexto de quase terapia de grupo, com o psiquiatra Afonso Albuquerque e a psicóloga Fani Lopes presentes, esta formalidade se desfaz. Citam-se, mesmo assim resvés, as experiências traumatizantes que ainda hoje são origem de pesadelos. Um tormento que pode surgir no sono ou ser desencadeado por um ruído, um ambiente que faz saltar de um canto da memória um reflexo instintivo de autodefesa
É num estado de excitação, quase de raiva, que um dos presentes solta o grito da angústia que nunca mais o deixou de há 30 anos a esta parte. Vê e revê o acto que lhe trouxe o louvor por feitos em combate. Não quer louvor que o obriga a ter que aceitar um acto de coragem que foi obrigado a praticar. Um que o fez passar por uma situação indesejada e da qual guarda recordação traumatizante: a de um fuzilado que regressa ao mundo dos vivos.

Episódios

R. Marques tinha 20 anos quando partiu para a guerra. Meses depois viu-se envolvido na emboscada que não esquece, Ia numa Unimog, sentado com o resto do pelotão na banqueta transversal. Logo que começou o tiroteio saltaram para se proteger, incluindo o motorista, que nem sequer parou a viatura. Marques quis saltar, mas um dos arreios prendeu-se na armação do assento e lá foi ele, alvo fácil, levado pela camioneta rega, atravessar a zona emboscada. Só sabe que esvaziou os carregadores nos minutos eternos que durou aquela travessia. Parece que a sua intervenção, completamente desatinada para olhares exteriores, levou a que a emboscada malograsse, com a retirada dos atacantes. Quando finalmente o Unimog embateu numa elevação e parou o tiroteio, o seu solitário estava vivo mesmo se nos primeiros momentos nem ele próprio nisso quisesse acreditar.
Não mais esta viagem alucinante lhe abandonou a memória, mesmo se à sua volta todos diziam que era “um tipo com eles no sítio”, capaz de matar a própria morte. Títulos que ele não reivindicou e não lhe vão com o corpo franzino. Mas não é o aspecto exterior que dá solidez interior. Não é o corpo, mais ou menos imponente, que faz a vítima.
A. Almeida tem dotes de líder natural, reforçados de plácida bonomia. Para ele, falar do que foi a sua guerra é um exercício doloroso. Ainda hoje está dividido pelo impulso da deserção, que o pai lhe terá chegado a sugerir, e o sentimento de um dever a cumprir. Dever não para com o regime salazarista, que detestava mais visceralmente do que por postura ideológica. Dever de homem, dever para si mesmo, para que se visse que não havia ali ponta de cobardia - "quem há-de fugir à guerra sendo homem como eu sou" dizia o "Canta Camarada, Canta", entoado pelos meios estudantis em rebelião. E certo que esta guerra que cantava a solidariedade, era precisamente contra quem o obrigava a fazer uma outra guerra, que não queria. Mas envolvido por sentimentos contraditórios sentiu que devia cumprir o dever.
Há uma reserva quase atávica em falar do assunto. E outro caso de coragem, A companhia ficou a admirá-lo - "mas ninguém podia saber corno estava por dentro quando me estendi numa cama".
A granada de morteiro ficara cano, desafiando quem a fosse lá tirar. Mas não havia outro processo senão ajudar o angustiado apontador de tiro, ansiando por poder fugir, mas sem poder. Para encurtar explicações, a ejecção não se dera: porque a pastilha detonadora estava deteriorada ou mal colocada? Se fosse esta segunda hipótese, bastava um deslizar mínimo, uma trepidação mais forte, para que o peso do morteiro accionasse a pastilha e explodisse no aquartelamento. Foi preciso serenar o apontador de tiro, dar-lhe confiança de que tudo ia correr pelo melhor. Era só uma questão de sangue-frio: fazer descair milímetro a milímetro o cano, de modo a que o peso do morteiro o fizesse deslizar para a boca. Nessa altura o apontador de tiro puxá-lo-ia cautelosamente, até que se pudesse retirar a pastilha detonadora. De facto tudo correu bem. Ali. O  pior foi quando se "estendeu numa cama".

A perturbação

Os exemplos exteriores de coragem não são uma norma na sintomatologia do PTSD. Pode ser a visão do camarada morto, ao lado de si, quando de um lado e de outro estoiram tiros e morteiros. Pode ser a expectativa de um campo de minas que teve que se atravessar, um interrogatório de um prisioneiro que terminou em tortura e morte...
Muitas causas podem determinar um estado idêntico de perturbação. O que ressalta no contacto próximo é uma agressividade latente, sempre pronta a irromper, por motivos aparentemente menores. "Baixa afectividade, baixa comunicação e alta hostilidade" são atitudes que orientam a conduta das pessoas atingidas pelo PTSD.
No interior do indivíduo, os fenómenos que provocam este estado são mais complexos. Caracterizam-se por pesadelos frequentes, uma vez por semana ou mais, trazendo as mesmas imagens de angústia. Mesmo em estado de vigília é habitual surgirem essas imagens, em "flashback", mas revelando-se cerebralmente com tanta nitidez que o indivíduo assume comportamentos de autodefesa. Tudo isto apesar das mil e uma cautelas para evitar tudo o que faça recordar aquela situação, sejam filmes, séries televisivas ou fotos de revistas.
Em relação aos seres mais próximos, designadamente a família, assiste-se a um embotamento afectivo, a uma efectiva dificuldade de relacionamento, a um cada vez menor, senão nulo, investimento emocional nas relações com o cônjuge,
"Nunca disse o que vi e vivi" - o que se viveu realmente, não as histórias de virilidade contadas em grupo de ex-combatentes e regadas com cerveja ou whisky. J. Santos explica que só com o tratamento de terapia de grupo, sob a orientação de Afonso de Albuquerque e Fani Lopes, principiou a desfazer-se desta reserva que o impedia de contar o que "vi e vivi".
A possibilidade de falar com outros sobre o que realmente viveram abriu algumas portas de serenidade. Converteu-se até numa "necessidade" mesmo sem sessão de terapia. Multiplicar os pretextos para isso pode ser um bom sistema, criar objectivos comuns melhor ainda. […]
O tratamento da "ferida encoberta", na expressão de Afonso Albuquerque, não a vai sarar completamente. O regresso à tranquilidade, à paz de si e consigo, o regresso a um relacionamento afectivo, à actividade profissional a cem por cento, são objectivos longínquos, talvez não alcançáveis. Mas, pelo menos, recupera-se um certo autocontrolo, uma capacidade de diálogo que recentra o indivíduo no meio familiar e torna amável o seu convívio. Em resumo, traz-lhe de volta uma qualidade de vida que já esquecera, agradável para o próprio e útil para a sociedade.  

Jornal "Público", 29 de Junho de 1994    

22 de novembro de 2011

305-Os ex-combatentes não estão indignados?!

Transcrevo um artigo publicado no "Primeiro de Janeiro" de 11 de Julho de 2000, assinado por Maria José Guedes. Já lá vão 11 anos, mas parece-me que continua actual, daí interrogar-me se os ex-combatentes não estarão indignados. É uma pergunta retórica,claro, porque sei que estão e acho que têm boas razões para se juntarem ao Movimento dos Indignados no dia 24 de Novembro. As suas Associações deviam empenhar-se nisso. Já o fizeram em 20 de Outubro de 2001(ver video).
«Ex-combatentes reclamam Justiça ao Estado Português

Não escondam mais a verdade

Os ex-combatentes do Ultramar não aceitam o carimbo de "assassinos". Fazem questão de dizer que foram para a guerra obrigados, com lágri­mas, saudades e medo. Em Portugal, o regime era a ditadura. Os jovens de 20 e 21 anos estavam a cumprir o serviço militar obrigatório. Não foram convidados para a guerra, foram mandados. Deixaram a família, os amigos e os pais. O que os esperava era um mundo desconhecido. Opções?! Fugir do pais? Muitos o fizeram, outros nem sequer essa chance tiveram. A guerra colonial é, para os ex-combatentes, a chave da liberdade. Ao Estado ape­nas pedem que lhes seja contado o tempo de "mis­são" para efeitos de reforma e que haja um subsidio para os deficientes e para os doentes que sofrem de stress de guerra.

Sem a guerra colonial não teria havido a revolução de 25 de Abril". Palavras do coronel Vasco Lourenço no dia da inau inauguração do monumento de homenagem aos ex-combaten tes em Castelo de Paiva.
Uma frase que agradou es pecialmente aos militares que estiveram presentes durante a cerimónia. Antigos soldados que, sempre que podem, encontram-se para recordar ve lhos tempos e para unirem forças. Reclamam um maior apoio aos deficientes e a doentes com stress de guerra.
Querem a contagem do tempo de mobilização no Ultramar para efeitos de reforma, sem o encargo de qualquer pagamento por parte do contribuinte combatente. E reclama ainda que os custos sejam suportados pelo Estado e não por outros contribuintes da Segurança Social.
Para que estas exigências sejam ouvidas na Assembleia da República estão já reunidas mais de cinco mil assinaturas, todas elas de ex-combatentes. Esperam que por mais 2500 para, então, as poderem entregar. Uma coisa é certa: garantem que não vão desistir. Exigem justiça. 

 A VERDADE.
 "Obrigaram-nos a pegar em armas para defendermos o que então se dizia ser o interesse da Pátria". Uma expressão que é utilizada por quase todos os que participaram na guerra colonial.
José Nunes vive em Castelo de Paiva. Esteve em Angola entre 1969 até 1971. Pertenceu à companhia 2/463, BataIhão 2860 - «Os Palancas Negros». De cabeça erguida, sem complexos, diz: "fomos cumprir o nosso dever e servir Portugal. Não temos de sentir vergonha. Devemos levantar a cabeça e contar isso aos nossos filhos."
Este ex-combatente não compreende por que é que as autoridades do pós-25 de Abril têm "tabus" .em relação à guerra Colonial. "Parece que têm medo de admiti r que estivemos lá. Nós fomos obrigados e ago­ra tentam esconder a verdade. Acho que não é justo que se tente apagar 14 anos de histó­ria", diz.
A verdade para os "Zés Nunes" da guerra - que não conseguem construir uma fra­se, que se refira ao Ultramar, sem se emocionarem - passa por dizer logo à partida: "Não somos assassinos. Estávamos a cumprir o serviço militar e fo­mos para lá obrigados. Se nos recusássemos a ir éramos con­siderados desertores. E de­pois?". Depois tinham poucas opções. Sair do País ou cadeia. A fuga significava para a gran­de maioria o largar da família e amigos por tempo indeter­minado.
"Ninguém pode acreditar que fomos para a guerra com o sorriso nos lábios, todos felizes. Nós fomos de lágrimas nos olhos. Sabíamos que íamos, mas não sabíamos se regressávamos. É preciso que se diga a verdade. É preciso que se dignifique a memória dos dez mil que lá ficaram. É preciso que se olhe para os 25 mil deficientes de guerra. Será que estão felizes por terem ficado estropea­dos?", interroga José Nunes.

EMOÇÃO.
O orgulho de ter sido combatente passa pela re­volução de Abril. 
Os militares do Ultramar es­tão perfeitamente convencidos de que a guerra levou à paz. Diz José Nunes que "a guerra deu origem à liberdade em Portugal. Todos, ou quase to­dos, os capitães de Abril estive­ram no Ultramar. Foi por causa daquela guerra tão injusta, que o 25 da Abril aconteceu".
Em Portugal existem quase 65 núcleos de combatentes e mais duas dezenas de associa­ções. Durante o ano, juntam-se em jantares ou almoços de re­cordações. Lembranças que não passam pela morte, ou exclusi­vamente pela morte. Memóri­as de pedaços de (in)felicidade.
Isto mesmo se pode constatar, por exemplo, na exposição permanente que está na sede da Comissão de Apoioaos Com­batentes do Ultramar, em Cas­telo de Paiva. Ali encontram-se desde fotografias, cartas, facas de mato e louvores, até fardas dos três ramos das Forças Ar­madas, entre tantas outras coi­sas.
Angústia, alguma nostalgia, nervosismo constante e emo­ção, detectam-se no olhar dos que pela guerra passaram e aí viram ficar amigos caídos.
José Nunes confessa que as suas orações constantes visam a paz no mundo. "Nós não somos assassinos. Em Portuqal, o regime era a ditadura, está­vamos na tropa, tínhamos de fazer o que nos mandavam. A maior parte não sabia de que . guerra se tratava. A maioria julgava que se tratava de de­fender a pátria dos Turras. Éra­mos muito novos, muitos anal­fabetos, o medo ... ", e lágri­mas.

APELOS.
No discurso de José Nunes, aquando da inaugura­ção do monumento em Castelo de Paiva, ficou a mensagem:
 "Portugueses, só é possível es­timular os jovens a servir Por­tugal, se todos, sem demago­gias e partidarismos, souber­mos homenagear aqueles que serviram a Pátria e por ela de­ram a vida. Eu estive lá para ser livre. Não tive opção. Ou ia, ou fugia. O que é que acontecia depois? Essa é a minha ban­deira, fui para lá para ser li­vre".
A conversa com militares do Ultramar é um círculo vicioso. As palavras repetem-se. Sente­se que estão feridos. Irremedi­avelnente feridos no orgulho. Ainda não conseguiram ser re­conhecidos pelo País que há quase trinta anos julgaram es­tar a defender e por ele dariam a vida. Este sentimento levou Nunes, a apelar à união: "Combatentes, temos de nos unir todos, como éramos unidos no teatro de guerra, um por  todos e todos por um para construirmos um Portugal melhor"» 






14 de outubro de 2011

277-Revolta

Este é o José António Almeida Rodrigues. 
Esteve na quarta-feira passada num almoço no Milho Rei, em Matosinhos, com outros ex-combatentes, levado pelo seu conterrâneo José Manuel Lopes. Uma altura, como outras, em que é difícil não deixar transparecer o desejo de revolta contra aqueles que, sem um mínimo de vergonha, têm ignorado os problemas dos ex-combatentes. Em especial os daqueles como o José António. Vejam o que diz o Zé Manel sobre este caso:

«O José António é natural do Peso da Régua, em Junho de 1971 assentou praça no RI 13 Vila Real, três meses depois foi colocado em Abrantes integrado na 2ª. Companhia do Batalhão 4518 e em 24 de Dezembro partiu para a Guiné.
A sua Companhia foi destacada para Cancolim dela faziam parte um Alferes natural de Lamego, que me disseram ser actualmente professor, e que não consegui ainda contactar, o Alferes João Pacheco Miranda, actualmente correspondente da RTP no Brasil.
Em Junho de 1971 foi feito prisioneiro pelo PAIGC, foi levado para Conacry donde em 1973 após o assasinato de Amilcar Cabral foi enviado para uma zona libertada na Guiné Bissau, Madina do Boé. Eram seus companheiros de cativeiro o nosso "morto/vivo" António Silva Batista de Gaia, Manuel Vidal de Castelo de Neiva, Duarte Dias Fortunato do Pombal, António Teixeira da Lixa, Mauel Fernando Magalhães Vieira Coelho do Porto, Virgilio Silva Vilar de Vila da Feira e Jacinto Gomes de Viseu.

Durante quase um ano a sua casa foi em Madina do Boé de onde em 7 de Março de 1974, aproveitando um momento em que a vigilânçia abrandou, se dirigiu na direcção do Rio Corubal para tentar a fuga. Andou 9 dias ao longo Rio, até encontrar dois nativos que andavam numa plantação junto ao rio. Um deles de motorizada levou o José António até ao Saltinho. Depois foi transportado para Aldeia Formosa, para ser levado para Bissau. Como naquele tempos díficeis a via aerea já não reunia muias condições de segurança devido aos Stellas, foi transportado em coluna até Buba e dai de LDG para Bissau. Apesar de ser meu conterraneo, na altura não o reconheci, e tal me foi comunicado pelo Cabo do SPM de Aldeia Formosa Camilo também natural da Régua.
Após o regresso em Agosto de 1974, procurei saber da sua situação. Levava uma vida muito complicada, pois se tornou pouco sociável (como muitos de nós), mas não teve uma rectaguarda ou seja um suporte familar que o protegesse e os conflitos eram frequentes. Internado várias vezes, de onde fugia sempre que podia (tornou-se um hábito), foi mais tarde colocado numa casa de acolhimento onde agora vive melhor e é bem tratado. Porém sobrevive com uma pensão de incapacidade de apenas 246 €, o que de facto é insuficiente, para o seu sustento e agora aproveito para agradecer publicamente à familia que o recolheu especialmente à D. Juvelinda que com tanto carinho o trata.
Mas por incrível que pareça, até do miserável suplemento especial de pensão que anualmente é atribuido a antigos combatentes (150 € ano) apenas recebe 75 €, pois como foi capturado com apenas 7 meses de Guiné, o tempo que passou quase 3 anos como prisioneiro não foi considerado!!!
A propósito deste SEP p/Antigos Combatentes, eu propunha que tal verba fosse prescindida por todos aqueles que tem uma reforma acima de determinada importância em favor daqueles ex-combtentes com reformas inferiores ao salário mínimo. Isto para fazer sentir a quem nos governa, que tal esmola nos envergonha e que temos um sentido de solidariedade muito diferente dos políticos que nos têm governado.
Um abraço a todos.
»
José Manuel Lopes