Do "Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro, 1890":
Lembranças da Guiné, na guerra e já fora dela. Pesquisa, comentários e factos. A memória sempre presente. Não está por ordem. É conforme me vou lembrando. Tudo o que tem a ver com a Guiné, a sua história, as etnias, a colonização e as guerras de resistência. Também a minha experiência durante a guerra colonial (está nos primeiros posts). Para quem não sabe ou viveu que veja e avalie se é realidade ou ficção. Para quem sabe ou viveu são lembranças.
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5 de dezembro de 2011
317-Um brado em favor do homem preto
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316-Rangers
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4 de dezembro de 2011
315-Viva a República!
Só ontem, na Assembleia da Tabanca de Matosinhos, e jantar que se seguiu, é que a amiga Leonor Machado (a autora do belo quadro "Lágrima de Preta" já publicado neste blogue) me deu as fotografias da comemoração feita do 5 de Outubro no Milho Rei. Calhou a uma 4ª feira e seria normal que estivessem lá muitos tabanqueiros, como é hábito, tanto mais que para o ano que vem já não há comemorações desta data histórica, o Governo (ou a Traika?...) disse. Mas não, estiveram poucos... mas REPUBLICANAS E REPUBLICANOS FERVOROSOS!!
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314-Stress de guerra
Stress de guerra
"doença envergonhada"
António Melo
Os sentimentos são contraditórios. Querem protagonismo, mas hesitam no instante da afirmação. Solicitam um difuso anonimato, receando o confronto com uma sociedade que sabem pouco receptiva aos fracos. Estão debilitados. querem apoio, mas recusam a piedade. São doentes, alguns inválidos, de uma guerra que lhes atordoou a memória.
O nome é críptico. A "perturbação pós-traumática do stress" foi diagnosticada pelos médicos norte-americanos que acompanharam os soldados que estiveram no Vietname, mas nos países europeus há ainda uma certa relutância em compreender o diagnóstico desta afecção.
O momento agudo, crítico, do stress é facilmente identificado, mesmo por um leigo. Um choque emocional é visível Mas, à volta da vítima, todos esperam que ela possa recuperar - ou pelo menos "esquecer". Assim acontece até que um dia, 20 anos mais tarde, num momento de crise da meia-idade, por insucesso profissional ou pessoal, a "ferida encoberta" reabre-se.
A nossa memória é um armazém labiríntico onde todo o passado se guarda. o fiel desse armazém - 'ego', 'espírito' ou 'consciência' - encarrega-se de seleccionar as recordações que envia à superfície. Por hábito escolhe as imagens felizes e galhofeiras, que sabe serem as mais gratificantes no convívio social. "Tristezas não pagam dívidas", é a expressão popular desta conduta, que deixa o eficiente fiel com frequentes problemas de arrumação dos stocks. Obrigado a responder às diversas solicitações da vida social, sabe que as recordações que provocam "frisson" são as de maior sucesso na assistência e fazem do seu mestre o centro (momentâneo) das atenções. O problema é quando tem que re-arrumar a "tralha" da noite, finda a festa
Sozinho consigo, longe do vozear familiar que entontece mas também dá segurança, as imagens recusam a autocensura e impõem-se na mente que tanto fez para as esquecer. O que elas dizem é que a realidade foi dolorosa, inesquecível, que o medo foi algo de fortíssimo, que a comoção nervosa deixou marcas indeléveis no cérebro, que a fractura invisível é pior do que a mutilação física
Quantos reagem assim, a evidenciar os sintomas da "perturbação pós-traumática do stress", sintomas recorrentes de uma guerra que travaram há 20 ou 30 anos? O psiquiatra Afonso de Albuquerque sustenta que na sociedade portuguesa há entre 100 a 140 mil cidadãos nos quais a experiência das guerras travadas no então ultramar, contra os movimentos de libertação das colónias provocou um estado crónico de "perturbação pós-traumática do stress" (PTSD).
Ao interlocutor externo, o primeiro contacto revela-se banal. A troca de palavras é a usual, talvez haja uma certa crispação, que tanto pode ser devida ao PTSD como ao formalismo da apresentação, sendo o local aprazado para o encontro o Hospital Júlio de Matos, em Lisboa. Só mais tarde, num contexto de quase terapia de grupo, com o psiquiatra Afonso Albuquerque e a psicóloga Fani Lopes presentes, esta formalidade se desfaz. Citam-se, mesmo assim resvés, as experiências traumatizantes que ainda hoje são origem de pesadelos. Um tormento que pode surgir no sono ou ser desencadeado por um ruído, um ambiente que faz saltar de um canto da memória um reflexo instintivo de autodefesa
É num estado de excitação, quase de raiva, que um dos presentes solta o grito da angústia que nunca mais o deixou de há 30 anos a esta parte. Vê e revê o acto que lhe trouxe o louvor por feitos em combate. Não quer louvor que o obriga a ter que aceitar um acto de coragem que foi obrigado a praticar. Um que o fez passar por uma situação indesejada e da qual guarda recordação traumatizante: a de um fuzilado que regressa ao mundo dos vivos.
Episódios
R. Marques tinha 20 anos quando partiu para a guerra. Meses depois viu-se envolvido na emboscada que não esquece, Ia numa Unimog, sentado com o resto do pelotão na banqueta transversal. Logo que começou o tiroteio saltaram para se proteger, incluindo o motorista, que nem sequer parou a viatura. Marques quis saltar, mas um dos arreios prendeu-se na armação do assento e lá foi ele, alvo fácil, levado pela camioneta rega, atravessar a zona emboscada. Só sabe que esvaziou os carregadores nos minutos eternos que durou aquela travessia. Parece que a sua intervenção, completamente desatinada para olhares exteriores, levou a que a emboscada malograsse, com a retirada dos atacantes. Quando finalmente o Unimog embateu numa elevação e parou o tiroteio, o seu solitário estava vivo mesmo se nos primeiros momentos nem ele próprio nisso quisesse acreditar.
Não mais esta viagem alucinante lhe abandonou a memória, mesmo se à sua volta todos diziam que era “um tipo com eles no sítio”, capaz de matar a própria morte. Títulos que ele não reivindicou e não lhe vão com o corpo franzino. Mas não é o aspecto exterior que dá solidez interior. Não é o corpo, mais ou menos imponente, que faz a vítima.
A. Almeida tem dotes de líder natural, reforçados de plácida bonomia. Para ele, falar do que foi a sua guerra é um exercício doloroso. Ainda hoje está dividido pelo impulso da deserção, que o pai lhe terá chegado a sugerir, e o sentimento de um dever a cumprir. Dever não para com o regime salazarista, que detestava mais visceralmente do que por postura ideológica. Dever de homem, dever para si mesmo, para que se visse que não havia ali ponta de cobardia - "quem há-de fugir à guerra sendo homem como eu sou" dizia o "Canta Camarada, Canta", entoado pelos meios estudantis em rebelião. E certo que esta guerra que cantava a solidariedade, era precisamente contra quem o obrigava a fazer uma outra guerra, que não queria. Mas envolvido por sentimentos contraditórios sentiu que devia cumprir o dever.
Há uma reserva quase atávica em falar do assunto. E outro caso de coragem, A companhia ficou a admirá-lo - "mas ninguém podia saber corno estava por dentro quando me estendi numa cama".
A granada de morteiro ficara cano, desafiando quem a fosse lá tirar. Mas não havia outro processo senão ajudar o angustiado apontador de tiro, ansiando por poder fugir, mas sem poder. Para encurtar explicações, a ejecção não se dera: porque a pastilha detonadora estava deteriorada ou mal colocada? Se fosse esta segunda hipótese, bastava um deslizar mínimo, uma trepidação mais forte, para que o peso do morteiro accionasse a pastilha e explodisse no aquartelamento. Foi preciso serenar o apontador de tiro, dar-lhe confiança de que tudo ia correr pelo melhor. Era só uma questão de sangue-frio: fazer descair milímetro a milímetro o cano, de modo a que o peso do morteiro o fizesse deslizar para a boca. Nessa altura o apontador de tiro puxá-lo-ia cautelosamente, até que se pudesse retirar a pastilha detonadora. De facto tudo correu bem. Ali. O pior foi quando se "estendeu numa cama".
A perturbação
Os exemplos exteriores de coragem não são uma norma na sintomatologia do PTSD. Pode ser a visão do camarada morto, ao lado de si, quando de um lado e de outro estoiram tiros e morteiros. Pode ser a expectativa de um campo de minas que teve que se atravessar, um interrogatório de um prisioneiro que terminou em tortura e morte...
Muitas causas podem determinar um estado idêntico de perturbação. O que ressalta no contacto próximo é uma agressividade latente, sempre pronta a irromper, por motivos aparentemente menores. "Baixa afectividade, baixa comunicação e alta hostilidade" são atitudes que orientam a conduta das pessoas atingidas pelo PTSD.
No interior do indivíduo, os fenómenos que provocam este estado são mais complexos. Caracterizam-se por pesadelos frequentes, uma vez por semana ou mais, trazendo as mesmas imagens de angústia. Mesmo em estado de vigília é habitual surgirem essas imagens, em "flashback", mas revelando-se cerebralmente com tanta nitidez que o indivíduo assume comportamentos de autodefesa. Tudo isto apesar das mil e uma cautelas para evitar tudo o que faça recordar aquela situação, sejam filmes, séries televisivas ou fotos de revistas.
Em relação aos seres mais próximos, designadamente a família, assiste-se a um embotamento afectivo, a uma efectiva dificuldade de relacionamento, a um cada vez menor, senão nulo, investimento emocional nas relações com o cônjuge,
"Nunca disse o que vi e vivi" - o que se viveu realmente, não as histórias de virilidade contadas em grupo de ex-combatentes e regadas com cerveja ou whisky. J. Santos explica que só com o tratamento de terapia de grupo, sob a orientação de Afonso de Albuquerque e Fani Lopes, principiou a desfazer-se desta reserva que o impedia de contar o que "vi e vivi".
A possibilidade de falar com outros sobre o que realmente viveram abriu algumas portas de serenidade. Converteu-se até numa "necessidade" mesmo sem sessão de terapia. Multiplicar os pretextos para isso pode ser um bom sistema, criar objectivos comuns melhor ainda. […]
O tratamento da "ferida encoberta", na expressão de Afonso Albuquerque, não a vai sarar completamente. O regresso à tranquilidade, à paz de si e consigo, o regresso a um relacionamento afectivo, à actividade profissional a cem por cento, são objectivos longínquos, talvez não alcançáveis. Mas, pelo menos, recupera-se um certo autocontrolo, uma capacidade de diálogo que recentra o indivíduo no meio familiar e torna amável o seu convívio. Em resumo, traz-lhe de volta uma qualidade de vida que já esquecera, agradável para o próprio e útil para a sociedade.
Jornal "Público", 29 de Junho de 1994
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3 de dezembro de 2011
313-A educação na Guiné durante o colonialismo
Autor deste artigo publicado na revista online da Biblioteca Professor José Martins, Campinas, SP, v.1, n.4, out. 2000:
Lourenço Ocuni Cá nasceu na Guiné-Bissau em 12 de Dezembro de 1968. Fez seus estudos primários e secundários neste país. Iniciou o estudo superior na Faculdade de Direito de Bissau tendo abandonado depois de concluir o primeiro ano para continuar seus estudos no Brasil após conseguir uma Bolsa de Estudos a fim de Cursar Letras e Lingüística na Universidade de Campinas – UNICAMP em São Paulo, Brasil.
Possui graduação em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (1996), Graduação em Lingüística pela Universidade Estadual de Campinas (2001). Mestrado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (1999) e Doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (2004). Atualmente é Professor Visitante da Universidade Federal de Mato Grosso. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Educação, atuando principalmente nos seguintes temas: história da educação, educação, política educacional da Guiné-Bissau, negritude e educação popular. Entre outras qualidades que Professor Ocuni Cá possui ele recebeu Moção de Aplausos pela Câmara Municipal de Cuiabá em 2008.
Professor Ocuni Cá é Consultor da UNESCO, publicou vários artigos e livros, entre os quais, respectivamente: A Democracia na África pela Consciência/SBPC/2005; A Contribuição de Paulo Freire na Organização do Sistema Educacional da Guiné-Bissau, EdUFMT/CAPES, 2007; A Constituição da Política do Currículo na Guiné-Bissau e o mundo Globalizado: EdUFMT/CAPES,2008.
Professor Ocuni Cá foi alfabetizado pelo Método Paulo Freire em Biombo e hoje é um dos difusores deste método nas Universidades Brasileiras, nomeadamente no Instituto de Educação da Universidade Federal de Mato Grosso - UFMT.
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2 de dezembro de 2011
312-Pedido de independência para as colónias
Carta ao Senhor Presidente do Conselho de Ministros da República de Portugal1
Dakar, a 10 de Junho de 1960
Excelência,
Os filhos dos territórios da Guiné dita portuguesa e das Ilhas de Cabo Verde, agrupados no seio do M.L.G.C.2.- movimento nascido na República do Senegal, país livre, pleno de esperança e democracia - apresentam a Vossa Excelência, por intermédio do Cônsul de Portugal em Dakar, os seus objectivos.
Considerando que o ano de 1960 é o ano histórico da libertação e da independência da África Negra;
Considerando que os territórios de expressão francesa, inglesa ou belga, bem como os territórios sob tutela da O.N.U., entram no concerto das nações livres;
Considerando que a liberdade é nula na Guiné dita portuguesa e no arquipélago de Cabo Verde;
Considerando que os trabalhadores desses territórios não se podem associar em sindicatos verdadeiramente independentes porque as ditas associações de trabalhadores dependem exclusivamente do governo e da classe patronal;
Considerando que a escravatura, abolida no mundo inteiro, ainda perdura em larga escala nas colónias portuguesas (trabalho forçado, contrato de trabalho indígena, etc., etc.) ; Considerando que o regime que Vossa Excelência preside desde há trinta e dois anos tem sempre combatido a evolução do homem africano;
Considerando que a escravatura, abolida no mundo inteiro, ainda perdura em larga escala nas colónias portuguesas (trabalho forçado, contrato de trabalho indígena, etc., etc.) ; Considerando que o regime que Vossa Excelência preside desde há trinta e dois anos tem sempre combatido a evolução do homem africano;
Considerando que a discriminação racial é uma realidade cruel e flagrante nas possessões portuguesas da África e da Ásia (brancos, mestiços, indígenas civilizados, indígenas não civilizados, etc. ,etc. ) ;
Considerando que os povos da Guiné e de Cabo Verde rejeitam sem condições as fórmulas de integração, de assimilação ou de províncias ultramarinas, por traduzirem todas elas a mesma finalidade de esconder o colonialismo e exploração do homem africano, impedindo a sua evolução no caminho do progresso e da democracia,
Pedem a Vossa Excelência,
Em nome do preâmbulo da Declaração Universal dos Direitos do Homem - "os homens nascem, vivem e morrem iguais" -, em nome da convenção de Filadélfia - "a trabalho igual, salário igual" - que Vossa Excelência dê a independência aos territórios africanos sob dominação portuguesa3.
1 A carta tem por remetente: « Mouvement de Libération de la Guinée et du Cap Vert (M.L.G.C.), Ecole Corona Diallo, Rebeuse, Dakar ». Segundo fontes autorizadas, atribui-se a carta a Amílcar Cabral, mas não há certeza quanto à sua autoria
2 O M.L.C.G.. é o movimento que deu origem ao P.A.I.G.C.(Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) fundado por Amílcar Cabral.
3 Escrito em vermelho como no documento original.
Mas Salazar já tinha, há muito, "argumentos" para recusar a descolonização:
«As terras coloniais, ricas, extensas e de fraquíssima densidade populacional são o natural complemento da agricultura metropolitana, nos géneros pobres sobretudo, e das matérias-primas para a indústria, além de fixadores de uma população em excesso daquilo que a metrópole ainda comporte e o Brasil não deseje receber. ( ... )
Quanto a nós, o caminho seguido define-se por uma linha de integração num Estado unitário, formado de províncias dispersas e constituído de raças diferentes. Trata-se, se bem interpreto a nossa história, de uma tendência secular, alimentada por uma forma peculiar de convivência com os povos de outras raças e cores que descobrimos e a que levamos, com a nossa organização administrativa, a cultura e a religião comuns aos portugueses, os mesmos meios de acesso à civilização.
Nós cremos que há raças decadentes ou atrasadas, como se queira, em relação às quais perfilhamos o dever de chamá-las à civilização. Que assim o entendemos e praticamos, comprova-se pelo facto de não existir qualquer teia de rancores ou de organizações subversivas que neguem ou que pretendam substituir a soberania portuguesa. ( ... )
Tem-se apresentado contra o conceito português das províncias ultramarinas a objecção da separação geográfica, da falta de continuidade territorial. O argumento não pode ser decisivo já que, no Atlântico, os Açores são ilhas adjacentes, Cabo Verde aspira ao mesmo regime e também porque há numerosos Estados constituídos por parcelas distanciadas mais do que Lisboa está de algumas das províncias do Ultramar. Trata-se de factos ou criações históricas para as quais se procuram, debalde, ajustamentos a teorias lineares.»
Quanto a nós, o caminho seguido define-se por uma linha de integração num Estado unitário, formado de províncias dispersas e constituído de raças diferentes. Trata-se, se bem interpreto a nossa história, de uma tendência secular, alimentada por uma forma peculiar de convivência com os povos de outras raças e cores que descobrimos e a que levamos, com a nossa organização administrativa, a cultura e a religião comuns aos portugueses, os mesmos meios de acesso à civilização.
Nós cremos que há raças decadentes ou atrasadas, como se queira, em relação às quais perfilhamos o dever de chamá-las à civilização. Que assim o entendemos e praticamos, comprova-se pelo facto de não existir qualquer teia de rancores ou de organizações subversivas que neguem ou que pretendam substituir a soberania portuguesa. ( ... )
Tem-se apresentado contra o conceito português das províncias ultramarinas a objecção da separação geográfica, da falta de continuidade territorial. O argumento não pode ser decisivo já que, no Atlântico, os Açores são ilhas adjacentes, Cabo Verde aspira ao mesmo regime e também porque há numerosos Estados constituídos por parcelas distanciadas mais do que Lisboa está de algumas das províncias do Ultramar. Trata-se de factos ou criações históricas para as quais se procuram, debalde, ajustamentos a teorias lineares.»
António Oliveira Salazar. Discursos e Notas Politicas, vols. III e V (1943 e 1957).
Coimbra, Coimbra Editora, sem data.
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1 de dezembro de 2011
311-Literatura colonial guineense
Leopoldo Amado, doutorado em História pela Universidade Clássica de Lisboa, e guineense. A sua tese de Doutoramento, que teve a amabilidade de me dar a ler, “Guerra Colonial versus Guerra de Libertação (1963-1974): O Caso da Guiné-Bissau”, é um excelente trabalho sobre os meandros, dum lado e doutro, da guerra colonial na Guiné. Infelizmente não está publicada, apesar dos esforços do autor para o conseguir. Uma grande perda para o conhecimento deste tema, especialmente para os que têm particular interesse por ele.
Este texto abaixo apresentado foi publicado na revista ICALP (do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa), Vol. 20 e 21, Julho de 1990, pp. 160-178:
Este texto abaixo apresentado foi publicado na revista ICALP (do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa), Vol. 20 e 21, Julho de 1990, pp. 160-178:
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30 de novembro de 2011
310-Pára-quedistas
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29 de novembro de 2011
309-Lembranças e stress
Extractos de um artigo de Luís Quintais, inserto na revista "Etnográfica", Vol. IV(I), pp. 61-88. Diz o autor:
«Este artigo parte de uma experiência de terreno num contexto psicoterapêutico(Serviço de Psicoterapia Comportamental. Hospital Júlio de Matos. Lisboa) no qual um conjunto de ex-combatentes das guerras coloniais portuguesas diagnosticados com a desordem de stress pós-traumático redescreve as suas experiências de guerra e. neste processo. atribui sentidos e inteligibilidade ao seu percurso de vida O autor mostra como este trabalho de redescrição e de reconstituição da memória é realizado. na prática. com o apoio e a persuasão dos terapeutas. sustentando-se numa matriz vocabular e em módulos narrativos com implicações morais. históricas e politicas só parcialmente investigadas.»
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308-Mulheres de ex-combatentes
Para toda a vida
A viver de perto com agressões físicas e psicológicas às mulheres de ex-combatentes, Ana Conde, psicóloga da Associação de Deficientes das Forças Armadas do Porto, fala deste mundo escondido e pouco conhecido. Todo o trabalho começa pelo apoio aos ex-combatentes. Como as mulheres geralmente acompanham os maridos, ficam a par das situações. Assim, "damos acompanhamento à família toda, mesmo aos filhos que têm problemas pelos padrões de família onde estão inseridos".
Levando a conversa exclusivamente para o campo feminino, que aqui os homens já tiveram muito espaço, Ana Conde "tem diagnósticos de depressões graves, esgotamentos. Acho que as mulheres estão cansadas de serem mães, amigas, amantes, pois não têm ajuda dos maridos. Têm um casamento menos feliz, porque eles isolam-se de tudo. Por isso, as mulheres têm um papel muito mais activo na família, têm de fazer tudo. E é engraçado que elas, muitas vezes, os acompanhem às consultas no intuito de ajudar e tentar perceber o porquê de certos comportamentos, o porque é que ele ficou assim se não era assim?, porque é que rasteja durante a noite?, porque me bate a sonhar?, porque fala crioulo? Elas estão extremamente cansadas".
Refere Ana Conde que muitos casais destes dormem separados. O que é normal. Eles têm um sono agitado, pesadelos. Esta separação vai criando um afastamento significativo entre o casal. "A mulher vai perdendo o interesse, muitas vezes cansada de maus tratos ao longo de muitos anos, não há desejo. A medicação específica que eles tomam baixa a potência sexual. Há uma diminuição da auto-estima do ex-combatente e é mais fácil acusar as mulheres de que assumirem que precisam de tratamento". A contrariar tudo isto está o número reduzido de divórcios. Ana Conde vê uma explicação na "nossa cultura. Elas dizem: foi este companheiro que escolhi e venha ele como vier tenho de assumir o compromisso. Há um padrão cultural muito forte ligado ao catolicismo. As mulheres assumiram o compromisso e sofrem os maus tratos. É a típica frase: É meu marido, tenho de o aceitar como ele é. E mesmo: O que é que os vizinhos irão dizer?". É difícil modificar padrões. Uma esposa de um doente com stress de guerra, não sendo possível generalizar, terá probabilidades de sofrer depressões, esgotamentos, ansiedade. "Tomam muita medicação. Tornam-se pessoas mais tristes, mas muitas delas com vontade de os ajudar e de os mudarem para voltarem a ser felizes". E os filhos? "Chegam aqui com dificuldade de aprendizagem na escola, não se inserem em grupos, são crianças que se isolam, porque ouvem o pai berrar e metem-se no quarto, revoltadas, ansiosas, apresentam muita irritabilidade. Muitas delas são crianças agressivas. São os padrões familiares que têm em casa. Têm a mãe num pedestal". Conta Ana Conde que quando pedem às crianças para fazerem o desenho da família elas colocam-se com a mãe no cantinho inferior esquerdo, e o pai no cantinho direito superior, afastadíssimo, muito sério, uma figura enorme por ser violento.
Em acompanhamento na Associação dos Deficientes das Forças Armadas do Porto têm cerca de 100 casos. Não são muitos para o número de consultas que fazem. "Eles não vêm cá. Fazemos domicílios, vamos a casa deles, e muitas vezes somos corridas, dizem que estão bem. Mas falamos com as mulheres e elas sofrem. Tenho uma senhora que me diz que não ganha para portas". Conta Ana Conde um caso, associado a abuso de álcool e drogas, "extremamente agressivo. A senhora diz que não pode deixar o marido. É agredida quase todos os dias. Tem um filho fora que quer que ela vá viver com ele e ela não vai. A maior parte destas pessoas casaram para toda a vida. Esse papel é negativo, pois sofrem toda a vida. A senhora já deu entradas no hospital e não faz queixa porque não consegue incriminar o marido de nada".
Num trabalho esgotante, porque é difícil desligar-se dos casos, do que ouve, a psicóloga tem as histórias gravadas em si. "Situações de agressão muito violentas. Uma senhora contou-me situações que acho impensável que um ser humano as faça a outro". Depois, como os ex-combatentes são pessoas isoladas, as mulheres também vivem esse isolamento "porque não é autorizada a falar com os vizinhos ou a viver com outras pessoas".
Refere Ana Conde que elas tentam levar uma vida normal, "mas não conseguem. Há sempre a angústia de saber como é que ele vai entrar em casa hoje". Há muitas histórias, com algumas diferenças, mas semelhantes. E, depois, há a agressão psicológica "que muitas vezes dói mais do que uma bofetada. Porque a mulher o quer matar, porque nunca o amou, anda com outros, não desperta o desejo no marido, nunca o ajudou. E, mesmo assim, elas não os abandonam".
Quando não se coloca a possibilidade do divórcio há, para as mulheres, "o acompanhamento psiquiátrico e psicológico". Se ao ler isto sentir que vive uma situação idêntica, não hesite em contactar qualquer associação dentro desta área, ou mesmo hospitais ou centros de saúde, pois têm o dever de aconselhar.
Levando a conversa exclusivamente para o campo feminino, que aqui os homens já tiveram muito espaço, Ana Conde "tem diagnósticos de depressões graves, esgotamentos. Acho que as mulheres estão cansadas de serem mães, amigas, amantes, pois não têm ajuda dos maridos. Têm um casamento menos feliz, porque eles isolam-se de tudo. Por isso, as mulheres têm um papel muito mais activo na família, têm de fazer tudo. E é engraçado que elas, muitas vezes, os acompanhem às consultas no intuito de ajudar e tentar perceber o porquê de certos comportamentos, o porque é que ele ficou assim se não era assim?, porque é que rasteja durante a noite?, porque me bate a sonhar?, porque fala crioulo? Elas estão extremamente cansadas".
Refere Ana Conde que muitos casais destes dormem separados. O que é normal. Eles têm um sono agitado, pesadelos. Esta separação vai criando um afastamento significativo entre o casal. "A mulher vai perdendo o interesse, muitas vezes cansada de maus tratos ao longo de muitos anos, não há desejo. A medicação específica que eles tomam baixa a potência sexual. Há uma diminuição da auto-estima do ex-combatente e é mais fácil acusar as mulheres de que assumirem que precisam de tratamento". A contrariar tudo isto está o número reduzido de divórcios. Ana Conde vê uma explicação na "nossa cultura. Elas dizem: foi este companheiro que escolhi e venha ele como vier tenho de assumir o compromisso. Há um padrão cultural muito forte ligado ao catolicismo. As mulheres assumiram o compromisso e sofrem os maus tratos. É a típica frase: É meu marido, tenho de o aceitar como ele é. E mesmo: O que é que os vizinhos irão dizer?". É difícil modificar padrões. Uma esposa de um doente com stress de guerra, não sendo possível generalizar, terá probabilidades de sofrer depressões, esgotamentos, ansiedade. "Tomam muita medicação. Tornam-se pessoas mais tristes, mas muitas delas com vontade de os ajudar e de os mudarem para voltarem a ser felizes". E os filhos? "Chegam aqui com dificuldade de aprendizagem na escola, não se inserem em grupos, são crianças que se isolam, porque ouvem o pai berrar e metem-se no quarto, revoltadas, ansiosas, apresentam muita irritabilidade. Muitas delas são crianças agressivas. São os padrões familiares que têm em casa. Têm a mãe num pedestal". Conta Ana Conde que quando pedem às crianças para fazerem o desenho da família elas colocam-se com a mãe no cantinho inferior esquerdo, e o pai no cantinho direito superior, afastadíssimo, muito sério, uma figura enorme por ser violento.
Em acompanhamento na Associação dos Deficientes das Forças Armadas do Porto têm cerca de 100 casos. Não são muitos para o número de consultas que fazem. "Eles não vêm cá. Fazemos domicílios, vamos a casa deles, e muitas vezes somos corridas, dizem que estão bem. Mas falamos com as mulheres e elas sofrem. Tenho uma senhora que me diz que não ganha para portas". Conta Ana Conde um caso, associado a abuso de álcool e drogas, "extremamente agressivo. A senhora diz que não pode deixar o marido. É agredida quase todos os dias. Tem um filho fora que quer que ela vá viver com ele e ela não vai. A maior parte destas pessoas casaram para toda a vida. Esse papel é negativo, pois sofrem toda a vida. A senhora já deu entradas no hospital e não faz queixa porque não consegue incriminar o marido de nada".
Num trabalho esgotante, porque é difícil desligar-se dos casos, do que ouve, a psicóloga tem as histórias gravadas em si. "Situações de agressão muito violentas. Uma senhora contou-me situações que acho impensável que um ser humano as faça a outro". Depois, como os ex-combatentes são pessoas isoladas, as mulheres também vivem esse isolamento "porque não é autorizada a falar com os vizinhos ou a viver com outras pessoas".
Refere Ana Conde que elas tentam levar uma vida normal, "mas não conseguem. Há sempre a angústia de saber como é que ele vai entrar em casa hoje". Há muitas histórias, com algumas diferenças, mas semelhantes. E, depois, há a agressão psicológica "que muitas vezes dói mais do que uma bofetada. Porque a mulher o quer matar, porque nunca o amou, anda com outros, não desperta o desejo no marido, nunca o ajudou. E, mesmo assim, elas não os abandonam".
Quando não se coloca a possibilidade do divórcio há, para as mulheres, "o acompanhamento psiquiátrico e psicológico". Se ao ler isto sentir que vive uma situação idêntica, não hesite em contactar qualquer associação dentro desta área, ou mesmo hospitais ou centros de saúde, pois têm o dever de aconselhar.
Publicada por
A. Marques Lopes
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13:49
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Etiquetas:
mulheres dos ex-combatentes,
stress de guerra
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