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3 de janeiro de 2012

343-Panfletos da guerra colonial na Guiné



342-AUÁ, Novela Negra

Livro maravilhoso! Mais ainda para quem conheceu a Guiné e as suas gentes. Procurei-o, procurei-o, depois de ler a tese de Mestrado que Tatiana Sousa de Jesus fez sobre esta obra (podem ler a tese dela em http://repositorio.ul.pt/handle/10451/1897). E encontrei-o finalmente (num alfarrabista também...). A censura da época não gostou de "Auá" - podem ver no final a colecção de documentos da censura, colhidos pela mestranda Tatiana. Mas Aquilino Ribeiro gostou e fez-lhe um belo prefácio, que transcrevo com a grafia da época.



    Está dito, o primeiro que viu a Guiné foi Nuno Tristão, o segundo o autor de Àuá. Certo é o europeu estar todos os dias a desco­brir a Africa e a Africa a furtar-se, nem de propósito, cada vez mais ao seu conhecimento e amabilidades. Vem de o açúcar, que enca­rece do pôr do sol para a manhãzinha, certos bichos simpáticos do Jardim Zoológico, e sujei­tos com a bôlsa repleta e fígados derrancados; é ainda a terra do degrêdo. Que mais? Sabemos: os nossos navegadores foram tacteando a costa e baptizando em nome de Deus e do rei promontórios, golfos, enseadas que, séculos depois, um inglês, geógrafo e flibusteiro ao mesmo tempo, repimpado sob a tolda do na­vio, foi crismando ao sabor da pacotilha e do respeito para com Sua Magestsde Graciosa; Albion esbulhou-nos do melhor lati­fándio africano; o rei Leopoldo doutro; entai­param-nos nos trópicos, o inferno. Sabe isso o espírito de descontentamento que anima o português e ainda é a sua Iôrça mais apreciável; os compêndios não ensinam, rezam; rezam os nomes dos rios, das cidades, dos dis­tritos. Tôda a ciência oficial é nomenclatura.
    De ouvido, de rápidas e recreativas narra­tivas, sabemos também que espécie de realeza há em África. Não reina o branco, nem o soba, nem o desacreditado leão; reina o insecto; insectos de nome infantil, eufónico, de sílabas dobradas, um amor de nome: a baga-baga, formiga branca, invulnarável, génio da destruição, e a tsé-tsé, môsca da doença do sono, que vai cobrindo com noite sepulcral o imenso continente negro.
Que nos dizem de África os livros? Os antigos, das Crónicas até a História Trágico­-Marítima, veem cheios de azagaias, de mar­fim, de avelórios, da caça ao escravo, da ru­morosa e indevassada selva, mais nada. Dos modernos, apenas conheço a obra do Dr. Brito Camacho, em que, de verdade, nem sempre o artista é abafado pelo homem de estado que, por onde vá e espraie o olhar, escruta, sopesa, compara, avalia. Imagino que os outros se não apartem muito do conceito clássico; negraria, batuque, tanga, rugir da fera e coconote. Ulti­mamente, sim, veio parar-me às mãos um livro genial e ascoroso ao mesmo tempo por­que deixa as pessoas malquistadas com a vida: Voyage au bout de la nuit, de Louis-Ferdi­nand Céline. O protagonista apeia em plaga africana, que parece ser vizinha da Guiné, e conta o que vê e ouve. Foi alucinação aquilo, comprouve-se em traçar uma caricatura goiesca, ou chegou ao país dos pesadelos? Ali os bran­cos tiritam, tiritam em despeito das doses maciças de quinino, e convertem a febre em matéria de match: qual termómetro subiu mais? Caramba, 40° aquele é campião!
O governador só pensa em enriquecer para largar embora leve a garra da morte no flanco; seguem-no disciplinadamente na ra­pina os mais funcionários. Porque se arranha com unhas furiosas, até o desespêro, até o paroxismo, a ponto de tornar-se em Lázaro, aquele comerciante? É o corocoro, cette vache, que tomou conta dêle. Tudo ladro, obsceno, reles, famélico, esbodegado e esbodegante, o branco e o prêto, o rio e a floresta, o silêncio e o alvorôço da tabanca, a vida e a morte. Mas Céline, cuido ver no seu retrato, escreve com os olhos de Greco: tortos.
Fausto Duarte, que se embrenhou pelo mato, dormiu nas cubatas do interior, viu acordar as moranças, vem reconciliar-nos com a Africa e a primeira e mais grata impressão é a de alívio. Desafoga-se. O ar tem a compe­tente impregnação de oxigénio, pássaros das mais belas côres e mais canoros que primas-donas alegram a. Paisagem, o sol não é «me­tal em fusão» e pela estrada plaina, como na Europa, o motor do eutomôvel vai cantando gloriosamente. Balantas e fulas, das onze raças da Guiné os mais activos, ocupados nos agros, erguem a cabeça curiosa. Também aquela rapa­riga é perita em lançar esquiva e langorosa mirada! Reina a santa paz, idílica paz, as mulheres pilam o arroz e o ruído dos maços repercute ao longe como os mangoais nas eiras de Portugal. Logo, ao sol-pôr, quando as cubatas fumegarem ao céu, falta apenas que desça dos campanários um magoado e suavís­simo angelus.
Com simplicidade encantadora, sem difu­sões, nem peripécias de cinema, o autor vai-nos pintando o que  é a vida naquele trato de terra e de humanidade. E não é difícil chegar à conclusão de que os diferenciais que trouxe o progresso e a pigmentação pouco represen­tam ao lado da analogia profunda e simetria notória que a vida reveste duns homens para. os outros. É facto estar a Guiné à beira do berço da civilização semita e de hever rece­bido influxo certo. Circuncidam-se os varões; as aldeias teern nome; a apanha da mancarra lembra a ceifa ou vindima, mercê das quais se pagam os impostos; os marabus valem os padres católicos e os curandeiros curam tão realmente como os médicos que saem das es­colas sapientes; as raparigas amam e aborre­cem pelos mesmos motivos de ética como no restante mundo, e a lei irremissível de ganhar o pão com o suor do rosto torna o gentio da Guiné equivalente aos labrostes bárbaros e retrógrados, sob determinados aspectos, da província portuguesa ou da Rússia, antes do Dilúvio.
As finas qualidades de observação de Fausto Duarte revelam-nos uma Guiné que não so­nhávamos. Lá também o homem é joguete de estranhas e incoercíveis fôrças; lá também o homem faz guerra ao seu semelhante e é tri­vial que o oprimido odeie o tirano, chame-se nesta parte do mundo o cobrador de impostos ou o duanhe, na Europa o proprietário ou representante da autoridade, no guinhol - e tudo no mundo se reduz a guinhol - o gendarme, como em gendarme se cifra tudo o que ­no universo sensível ou incognoscível implica mando e prepotência..
Fausto Duarte é pela civilização, mas a sua. sensibilidade não cala a ternura que lhe me­rece o homem escravizado, coacto a uma feli­cidade sem a qual passaria perfeitamente. Os que sonham com um Portugal de além-mar engrandecido hão de ficar gratos à. pena colo­rida, equilibrada, emotiva sem excesso que escreveu Àuá, estreia literária do maior realce e obra de elevação lusíada.

C. Quebrada, Abril de 1934.

AQUILINO RIBEIRO. 
Auá
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2 de janeiro de 2012

341-Ataque a Djagali, no encalço de Amílcar Cabral

Um enorme roncar de aviões despertou-nos, Vestimo-nos rapidamente e saímos. Começaram a largar bombas e a metralhar. Minuciosamente. São 6 horas da manhã. Uma dúzia de B26 giram no céu plúmbeo [devem referir-se aos T6, pois parece-me que na Guiné nunca houve B26; além disso, é um exagero falar em uma dúzia numa só acção, além de que nunca estariam tantos disponíveis…], quatro caças volteiam, traçando círculos concêntricos à nossa volta. Desta vez vieram em força e bombardeiam-nos com estrondo. Ouvimos explosões muito perto. Saímos rapidamente da base. O bombardeio continua durante uma hora pelo menos. Afastamo-nos para longe da área de Djagali [na margem esquerda do rio Farim]. Foi certamente um informador que avisou durante a noite um dos postos portugueses na região. Os portugueses devem saber que Cabral está na área. Depois de andarmos durante algum tempo, escondemo-nos num matagal, éramos um pequeno grupo de quinze – esperámos que tudo ficasse calmo. O bombardeio tornou-se menos intenso, deitámo-nos ou sentámo-nos debaixo dos ramos, encostados aos troncos das árvores.
- “Inocêncio”, disse Amílcar.
- “Hum!”
- “Inocêncio, é a guerra”.
Enquanto isso, Titina prepara Nescafé numa pequena caixa de metal. Pelas 7h30 um avião de reconhecimento voou sobre nós. Quinze minutos depois, uns  camponeses passam levando toros de madeira à cabeça.. "Balantas”, disse Inocêncio, “há uma piada entre os Balantas: querem reconstruir a palhota antes que ela acabe por arder".
Os aviões continuam a bombardear, agora esporadicamente.
- “Antes”, disse Amílcar, “o portugueses no Norte concentraram as suas tropas no Oio. O Congresso de 1964 decidiu levar a luta a todo o lado. E isso foi feito num ano. O que é que eles podem fazer? Bombardear. Temos milhares de homens em armas. Eles destroem o que podem... Já não controlam o país "
Um pouco mais tarde, os combatentes conduzem ao nosso objectivo. Os aviões continuam a girar, já longe de nós, que esperamos; o tempo de inatividade está a ser longo.
Inocêncio canta uma canção popular em crioulo:

GALO BEDJU [Galo velho]

I

"Senhor António, o que é que você tem?
Porque está tão triste?
Ó meus amigos, não é nada,
Tenho é saudades da minha juventude.

II

Quando era galo novo
Comia o milho nas tuas mãos,
Agora que sou galo velho
Obrigas-me a estalar o bico contra a terra.

   Cerca das 8h30 chegam dois combatentes. Bombardearam a tabanca de Djagali, não se sabe ainda o no número de mortos e feridos. Titina parte imediatamente para tratar dos feridos.
-“Para cá chegarem, precisam concentrar forças em Olossato”, disse Amílcar, “mas nós cortámos a estrada e a ponte está destruída "
De qualquer modo foi tomada a decisão de não partir dali para Yadur, como estava planeado para saírem da Guiné. Iria multiplicar desnecessariamente os riscos. Especialmente porque as medidas para garantir a segurança do Secretário-Geral iriam afectar a mobilidade dos combatentes e seria necessário mobilizar demasiados homens.
Um camponês passa, carregando madeira. Cumprimenta-nos.
-“Então”, diz Amílcar, “não te abrigas? "
"-Eles não nos podem matar todos num só dia", responde o homem. 
Ficámos a saber que havia 7 mortos e 5 feridos em Djagali. Era quase meio-dia quando regressámos à base de Maké. Trazido por Nino, responsável do Sul, estava lá um jornalista da Jeune Afrique, Justin Vieyra.. Cabral concede-lhe uma breve entrevista onde lhe disse que a ajuda dos Estados africanos era muito insuficiente.
Partimos nessa noite para atravessar a fronteira.
 Ao longo do caminho fomos saudados amigavelmente pelos camponeses,
Já mais longe, dois rapazes com idades entre 16-17 anos dirigem-se a Amílcar e pedem-lhe armas para lutar:
"Havemos de tê-las muito em breve, para vocês também", disse Cabral.
A marcha é rápida e silenciosa por entre a atmosfera húmida.. As camisas estão coladas à pele.
Fazemos uma breve paragem perto de uma fonte. A água está morna, mas sabe bem. Aproximam-se dois camponeses, reconhecem Cabral e abraçam-no. São dois Fula, velhos militantes do Partido.
Durante a caminhada, encontrámos mais dois rapazes que nos cumprimentam. cumprimentar.
"- Coragem”, disse Amílcar, “vamos vencê-los”
"- Claro," responderam eles .
17h. Na margem esquerda do Farim. Já nos esperava uma vintena de combatentes. Entrámos numa piroga. Ouvimos um ruído de motor do outro lado do cotovelo do rio. 
"- A canhoneira! ", diz alguém.
Aceleramos as remadas. O ruído aproxima-se. Enfiamo-nos num canal do outro lado, protegidos pelo mangais.  A canhoneira passa, o barulho vai diminuindo.
Do outro lado do rio, há uma grande planície túmida e nua. Há três quilómetros antes de alcançar a cobertura de palmeiras. Mesmo indo rápido, com as armas, a carga e o terreno lamacento, devemos demorar pelo menos 20 minutos para atravessar. É dia, há muito sol. O risco de sermos descobertos por um avião de reconhecimento é muito grande. Decidimos esperar pelo anoitecer. Meia-hora mais tarde chegauma segunda piroga com combatentes. Pouco tempo depois chega mais uma com outro grupo de combatentes. Ficamos todos sentados. Fumamos cigarros portugueses fabricados em Angola “Fábrica de Tabaco Ultramarina”, marca AC.
"- Chamamos-lhes Amílcar Cabral", diz Inocêncio.
O dia começa a declinar. Partimos. Levanta-se vento. Um grupo precede-nos e outro vai atrás de nós. Andamos de noite, sem dizer uma palavra, a passo rápido.
Para 21 horas encontramos um grupo de combatentes. "É Bobo, o responsável da área de Sambuiá", disse Cabral.  Ele chega-se e conta-nos.
Esta manhã, os portugueses tentaram um cordão de envolvimento. Seis helicópteros desembarcaram cerca de cinquenta portugueses e auxiliares africanos a 20 km da fronteira. Bobo reuniu 36 homens, procurou depois o contacto com os portugueses e conseguiu empurrá-los para uma área arborizada. A emboscada ocorreu por volta das 17 horas. Os portugueses tiveram cinco mortos e feridos. Depois retiraram-se. Há quatro feridos no grupo Bobo, incluindo três com gravidade
Comemos algumas mangas. Combatentes do grupo de Bobo deram-nos algumas rações de combate tiradas dos cadáveres portugueses. Pegámos  numa.
" - Esta era de um mercenário africano", disse um dos combatentes. 
É uma ração individual "Tipo E", pacote verde escuro. Contém alimentos em um tubo, um filtro para água, etc.
Retomamos a marcha. Estamos agora numa savana arborizada. Continuamos sempre precedidos e seguidos por um grupo de combatentes. Mas, como precaução adicional, Bobo colocou dois grupos nas asas, a uma centena de metros de nós. Andarmos rapidamente: os últimos quilómetros, os menos arborizados, onde os riscos podem ser grandes, são cobertos em um ritmo recorde.
Depressa chegámos à primeira aldeia senegalesa. A ambulância do P.A.I.G.C. estava lá com os três gravemente feridos na emboscada da tarde.. É uma hora da manhã.



Tradução minha de extracto de "Lutte Armée en Afrique", de Gérard Challiand, Cahiers Libres 101, François Maspéro

30 de dezembro de 2011

340-O ano 2012

A 1ª profecia Maia, como a li, dizia que a partir de 1999 nos restavam 13 anos - é agora ou nunca! - para realizarmos as mudanças de consciência e atitude de que eles nos falaram (não te deixes enrolar e reaje): para que possamos desviar-nos do caminho da destruição, pelo qual avançamos, para um outro que abra a nossa consciência e a nossa mente. Para que o nosso mundo não acabe, para que não sejamos lançados na desgraça, que é o que querem os seus promotores. Não há-de ser o fim  do mundo.

29 de dezembro de 2011

339-Vigília na Capela do Rato em 31 de Dezembro de 1972

Os acontecimentos que se desenrolaram na Capela do Rato, nos últimos dias de 1972, enquadram-se num movimento crescente de contestação à guerra colonial que alastrava na sociedade portuguesa, sobretudo nos sectores mais politizados ou mais directamente afectados pela sua continuação, como era o caso da juventude. A vigília do Rato teve, aliás, como precursora a ocupação da Igreja de S. Domingos, em Lisboa, em 1 de Janeiro de 1969, também feita por um grupo de católicos, conhecidos então por «progressistas». A data de 1 de Janeiro de cada ano fora escolhida pelo papa Paulo VI como dia dedicado à Paz, na sequência da célebre encíclica de João XXIII Pacem in Terris. Naquela igreja, após a missa da meia-noite da passagem do ano, celebrada pelo cardeal Cerejeira, um grupo de fiéis comunicou-lhe, através de um texto que lhe foi lido, a sua decisão de permanecer no interior da igreja até ao dia seguinte, em clima de reflexão sobre a paz, na situação de guerra como era a de Portugal. Para esta vigília a poetisa Sophia de Mello Breyner tinha composto o poema que depois se celebrizou «Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar». Ouviram-se muitos testemunhos de vários dos presentes, entre eles jovens que tinham combatido nas colónias, e sustentou-se um vivo debate com o pároco da igreja, que também permaneceu, com a intenção de impedir a vigília. Na manhã seguinte, os fiéis saíram da igreja já sob a vigilância da PIDE, que todavia, para não dar alarde ao caso, não efectuou prisões.
Passados três anos sobre este acontecimento, na vigília da Capela do Rato, iniciada em finais de Dezembro de 1972, repercute-se o crescente mal-estar provocado pela continuação de uma guerra injusta e sem saída, que se verificava agora em meios muito mais alargados. A sua preparação foi mais organizada e previa-se um jejum de três dias, a observar pelos ocupantes, segundo uma declaração lida por Maria da Conceição Moita na tarde do dia 29. Ao mesmo tempo, decidia-se abrir as portas da capela a todos aqueles, crentes e não crentes, que desejassem debater o problema da guerra. A coordenação de toda a acção foi assegurada por Luís Moita, que pediu a colaboração das Brigadas Revolucionárias, organização clandestina chefiada por Carlos Antunes e Isabel do Carmo, com a missão de divulgar o acontecimento na região de Lisboa, o que foi feito através de panfletos.
A escolha da Capela do Rato, situada na Calçada Bento Cabral, para esta acção ficou a dever-se ao facto de se tratar de um local de culto dirigido pelo padre Alberto Neto, frequentado pelos meios mais inquietos da comunidade católica, e que se tomara conhecido pelas inovações litúrgicas e pelas preocupações de ordem social promovidas e proclamadas por aquele sacerdote.
Para o dia 1 de Janeiro de 1972 a palavra de ordem de Paulo VI era imperativa: «A paz é possível, a paz é obrigatória.»No decurso da sua mensagem, o Papa proclamava que era através do diálogo, e não da guerra, que se deviam procurar as soluções para os conflitos. Tal como em ocasiões anteriores, e perante a atitude da hierarquia católica portuguesa que silenciava as directivas de Roma nesta matéria, o grupo de católicos que promoveu a vigília assumia por inteiro aquela palavra de ordem e propôs-se tirar dela consequências práticas.
Nos dias 30 e 31 de Dezembro as portas da capela estiveram abertas de par em par, sem prejuízo no entanto para os oficios religiosos habituais nos fins-de-semana. Centenas de pessoas improvisaram assembleias de discussão, testemunhando o seu ódio à guerra, dissertando sobre os inconvenientes morais e materiais que ela produzia e proclamando a necessidade urgente de lhe pôr cobro, sublinhando o seu carácter injusto. Afixados nas portas, diversos cartazes transcreviam números relativos aos mortos em combate, às populações das colónias dizimadas e aos estropiados de ambos os lados.
Mas a repressão não tardou.
Ao fim do dia 31, perto da hora do jantar, fez-se uma pausa nas discussões, enquanto cerca de cinquenta pessoas permaneciam na capela. Foi nesta altura que se começaram a ouvir ruídos de carros da polícia de choque, acompanhados do latido de cães-polícias, e fez-se o cerco ao local. Os polícias penetraram no templo e, arrastando à força algumas pessoas que resistiam, levaram todos os assistentes para a vizinha esquadra do Rato, onde foi feita uma primeira triagem. A maior parte foi levada para os calabouços do Governo Civil, onde se deu a passagem do ano. Na manhã do dia seguinte, dezasseis de entre eles foram entregues à Pide que os levou para o Forte de Caxias. Foram aí submetidos a interrogatório, mas não torturados e ao fim de um máximo de quinze dias libertados sob caução. Estes processos não tiveram seguimento, talvez com o intuito de não empolar o caso.
Entretanto, e devido à importância pública que os acontecimentos tinham provocado, a Censura não os pôde calar, reproduzindo os jornais uma nota oficiosa cheia de diatribes contra os manifestantes, acusando-os de subversão, traição à Pátria, etc. 
Alguns dias depois o caso foi mesmo levantado na Assembleia Nacional, onde se assistiu a um acalorado combate verbal entre o deputado ultra Casal-Ribeiro e o da Miller Guerra. Este deputado teve a coragem de dizer que não se tratava apenas de um pequeno grupo de agitadores, mas que os ocupantes da capela traduziam um mal-estar crescente e alargado acerca da guerra, e que eram tão fiéis da Igreja como outros. No entanto, a repressão não ficou por aqui: cerca de quinze pessoas que foram identificadas pela polícia e que eram funcionários públicos, entre os quais o professor de Economia Pereira de Moura, foram alvo de processos disciplinares conducentes ao seu despedimento. 
O cardeal-patriarca publicou um comunicado criticando a ocupação e demitiu de capelão o padre Alberto Neto, não obstante este não se encontrar presente durante os acontecimentos, por motivo de doença. Por uma trágica coincidência, nestes dias da ocupação da Capela do Rato, o Exército português em Moçambique massacrava as populações civis das aldeias de Wiriyamu e Chawola, uma operação militar que havia de custar caro à sua credibilidade internacional. Estes massacres foram conhecidos apenas alguns meses mais tarde, através de denúncias feitas por missionários. O caso da Capela do Rato, como ficou conhecido, não deixou de ser referência para acções posteriores de combate à guerra em Africa e teve projecção internacional, manifestando o descontentamento de parte da população portuguesa contra o seu prosseguimento. Tratou-se de uma acção que se inscreveu na actividade dos chamados «católicos progressistas*» contra a guerra colonial, que se vinha desenvolvendo desde 1963 com a publicação do jornal clandestino «Direito à Informação» e continuada no final da década com os «Cadernos GEDOC», animados pelo padre Felicidade Alves, demitido de pároco de Belém. Por esta altura, o mesmo grupo, que se alargara a vários pontos do país, nomeadamente à cidade do Porto, onde também se desenvolviam acções de consciencialização face ao problema da guerra, criou em Lisboa um centro clandestino de informação e divulgação que deu origem, a seguir ao 25 de Abril, ao CIDAC, organização não governamental de cooperação com as antigas colónias. E de salientar neste contexto a acção do padre Mário de Oliveira, pároco de Macieira da Lixa, capelão militar que recusara a guerra, e que foi por duas vezes preso e julgado em Tribunal Plenário. Toda esta acção tinha em vista abrir uma brecha nas posições da hierarquia católica, que não ousava confrontar-se com o Governo, ignorando sistematicamente as directivas do Vaticano acerca dos problemas da paz e da guerra. 

Dicionário da História do Estado Novo – Fernando Rosas, J.M Brandão de Brito 
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26 de dezembro de 2011

338-Música indígena da Guiné

«A música é congénita ao homem. 
O homem desde que nasce é um instru¬mento musical pela voz, pelas mãos e pelos pés. A etnografia conhece tribos sem casas, sem o mais ligeiro rasto de indumentária, mas nunca sem música». HABERLANDT. 

ENTRE as manifestações artísticas dos indígenas da Guiné, que são bastantes, aquela que se nos apresenta mais perfeitamente homo¬génea, é a música. 
Vocal ou instrumental, de género monódico, é nada mais, nada menos, do que a repetição constante duma frase quase monótona, inalteravelmente acentuada na tónica, e ordinariamente seguida dum coro sempre composto sobre o canto da voz principal. 
Embora o indígena no tocante à música, como aliás, noutros aspectos da vida mental esteja ainda na sua fase primitiva, já se não limita, con¬tudo, aos elementos de percussão, pois utiliza vários instrumentos de sopro, a flauta de cana com vários orifícios.
É certo que os tocadores destes instrumentos não têm grande canseira em tocá-los, visto que dão uma só nota durante uma frase musical inteira. Cantam ao mesmo tempo que tocam e só mudam de nota quando iniciam nova frase que, geralmente, é sempre igual à primeira. Todavia, os Fulas e os Mandingas, por influência árabe, têm uma concepção artís¬tica mais elevada, fazendo-nos, por vezes, ouvir improvisações musicais já bastante aceitáveis. 
Do que não resta dúvida alguma, é de que todos os indígenas da Guiné têm a sua música: música primitiva, música negra, música da selva, mas incontestavelmente Música. 

***
A música, é antes de tudo, um grito de coração, é o canto natural e espontâneo que o homem traz dentro de si; é como que a exteriorização da alma. Um homem que, ignorando a complicada técnica da música, mesmo os seus mais elementares rudimentos, mas que é dotado de dons criadores e espontâneos, que num descampado por exemplo, sozinho, canta para se distrair, para suavizar o trabalho ou para desabafar o seu estado de alma, pode ser mais sublime, talvez um maior músico, que o autor de sinfonias ou quartetos complicados, se este último tiver menos inspiração do que aquele. 
A inspiração não se vai buscar às Academias; a cultura sem ins¬piração é absolutamente secundária; a inspiração sem cultura, devida¬mente lapidada, pode produzir mimos de bom gosto. 
Quantas vezes o excesso de cultura atrofia a inspiração, havendo por vezes criaturas que, absorvidas ou assoberbadas - Deus o sabe! - pela sua incontestável cultura musical, só têm tendência para truncar, complicar e substituir a inspiração por um luxo técnico, no qual a maioria das vezes não se encontra mais do que uma música desprovida de seiva e de gosto melódico. 
Longe de nós a ideia de pretender contestar a grande importância da técnica na arte musical ou a sua maravilhosa história, a qual nos deu até hoje um grandioso monumento de obras de arte; e foi precisamente com a técnica musical, aliada à inspiração ou vice-versa, que os grandes Génios do século passado arquitectaram algumas das mais extraordinárias obras de que se pode orgulhar o género humano.
Contudo, necessário é reconhecer-se, que ela tomou um lugar muito exclusivo ao ponto de, em seu nome, se desprezar e condenar a impro¬visação e, de uma maneira geral, a música baseada na tradição, isto é, a mais directa e a mais natural. 
Conquanto sejamos pela música para músicos, também o somos pela música• para os que não são músicos. É uma arte tão rica, tão transcendente e tão vasta, que felizmente chega para todos os gostos. Há que ter em atenção que nos leigos está a maioria... De resto, um gosto não prejudica outro.
Os naturais da Guiné compõem-se de várias tribos, em número supe¬rior a dezasseis, que mutuamente se antipatizam, cada uma com a sua língua e costumes próprios, mais ou menos dissemelhantes, tendo somente de comum a música, exactamente como no mundo civilizado, à parte, claro está, o folclore regional de cada país. 
Entre fulas e mandingas, a música está confiada a uma classe de homens especiais dentro de cada tribo, chamados judeus (1), os quais são, de pais a filhos, músicos improvisadores e compositores de cantos religiosos, heróicos ou fúnebres, segundo as cerimónias em que tomam parte. 
Enquanto nalguns países mesmo hiper-civilizados os músicos são, por assim dizer, considerados os párias da sociedade (com excepção dos privilegiados), na Guiné, merecem todo o respeito e consideração, em virtude de antigas lendas ensinarem que a música é um prémio divino concedido ao homem. 
É aos músicos que compete tocar o tambor para as grandes reuniões, para os batuques e para anunciar o falecimento de algum parente (2), competindo-lhes também cantar durante as festas de homenagem aos homens grandes, quer se trate dos seus próprios chefes quer de homens brancos, mas neste caso só com o fim de lhes apanhar lava-remos (gorgeta). 
Se acontece que algum chefe sente o seu prestígio em declínio, logo trata de procurar maneira de fazer exaltar a sua própria glória, contratando os músicos da sua tabanca (aldeia) ou mesmo os de uma outra, os quais, rodeados de todos os seus habitantes, mulheres de um lado, homens do outro (não gostam de mistura de sexos...), se sentam no chão em frente do chefe a homenagear, de preferência à sombra dum poilão, árvore sagrada para eles. Os músicos improvisam em sua honra, vários cânticos, exaltando os seus feitos e as suas virtudes. 
Esta música compõe-se ordinariamente de cantos heróicos, marchas de guerra de um ritmo nervoso e sacudido, ares de dança e cânticos de amor, predominando nestes imitações de animais, tais como o mugir do boi o balir da cabra, etc., soltados ora pelos tocadores, ora pela assistência. 
Verdade seja que toda esta música se assemelha, especialmente na sua melodia: frase triste, longa e langorosa, interrompida aqui e ali por uma espécie de escalas mais ou menos acidentais, partindo de notas agudas para descer bruscamente até aos extremos baixos da voz humana, suspendendo-se em seguida como um queixume, durante mais dois ou três compassos marcados pelo tambor. 
O negro também tem o hábito de cantar quando trabalha, mas é sobretudo ao caír da tarde, no abandono total do esforço físico, a meia voz, que ele se põe em contacto com Apolo. As melodias, como dissemos, são tristes, muito primitivas, incompreensíveis às vezes, mas o seu ritmo é impressionante, difícil e complicado. 
Muitas vezes também as mulheres actuam nas festas de louvor aos homens qrandes, tocando um instrumento, se assim lhe podemos chamar, que consiste numa meia cabaça esférica, tendo previamente metido nas falangetas de todos os dedos (excepto nos polegares), uns anéis de metal com os quais tamborilam no flanco da cabaça, regulando o som ora encostando-a ao corpo ora afastando-a, consoante a voz se vai elevando ou abaixando, desempenhando mais ou menos o papel da nossa pandeireta.
São estes os traços característicos da arte musical indígena, inferior talvez, mas seguramente natural, impulsiva, pura e muito diferente da nossa, 
De todas as tribos da Guiné, é incontestavelmente nas tribos Fula e Mandinga que se encontram os melhores músicos da Colónia. 
Predomina na vida material e religiosa destas duas tribos a influên¬cia árabe, mas é sobretudo na sua música, que essa influência mais se acentua.
De facto, quem assistir a uma festa abrilhantada por músicos das duas tribos, e ouvir uma das suas nostálgicas ou fatalísticas improvisa¬ções, acode-lhes logo ao espírito frases de alguma composição árabe - de Albeniz ou de Granados - que nós, ibéricos que somos, facilmente com¬preendemos por termos também sofrido outrora a mesma influência.
Dito isto, vamos tentar descrever os instrumentos usados na Guiné, procurando tanto quanto possível, ser exactos na sua descrição, evi¬tando, contudo, aprofundar o assunto que, para tanto, nos falece a com¬petência. 
Os instrumentos músicos usados pelos indígenas da Guiné, pelo que temos observado, são muito Limitados; o seu total compõe-se somente de um instrumento de sopro, de instrumentos de corda friccionada e dedi¬lhada, do xilofone e de vários instrumentos de percussão, dos quais só falaremos de três, que são os padrões de todos os outros. 

Começaremos a descrevê-los pela ordem acima indicada, e dar-lhes-emos os nomes em crioulo, que é a língua comum a todos os homens cultos das várias tribos.

F L A U TA:
 - Instrumento feito de cana, semelhante ao usado pelos nossos pastores, mas muito mais rudimentar. Tem só três orifícios, um para soprar e os outros dois para tocar tudo. Não se consegue com ele dar sequer um fragmento de escala. Contudo tocam-no como por milagre, todas as tribos, e cada uma dá-lhe um nome próprio. Há-os trabalhados com desenhos rectilíneos a pirogravura de bom deito ornamental.

C A L A N D E:
 - Instrumento composto de uma meia cabaça, pequena, que forma a caixa de ressonância, coberta com uma pele na sua abertura, e com um buraco rectangular no seu flanco, ligada a um braço de tamanho variável de instrumento para instrumento, e provido de uma só corda de tripa, sendo friccionado com um arco também provido com corda de tripa. Imita de perto o nosso violino. Como a única corda que tem nunca é premida contra o braço, que está muito' afas¬tado dela, só toca nos harmónicos, em virtude de ser premida muito levemente. Provavelmente os executantes desconhecem que se premissem a corda contra o braço, o instrumento daria muito maior rendimento.É só usado pela tribo Fula que lhe dá o nome de Calande. A sua extensão está condicionada ao fenómeno harmónico. 

VIOLA:
 - Instrumento muito  elegantee bastante sóbrio de linhas. Compõe-se de uma caixa-de-ressonância de madeira, coberta de pele, com cerca de 40 a 4j centímetros de comprimento e 10 de largo. A caixa tem um orifício na extremidade inferior, e é provido de um braço onde se prendem as cordas que são em número de três, quatro e cinco, sendo estes os mais usados. Tambérn é dedilhado e o mais curioso é que os bordões, ou seja, as cordas mais grossas, estão intercaladas pelas primas.As cordas são premidas contra o braço. o que não acontece com o Calande. Pode-se, por isso, com ele tocar melodias harpejadas. o que dá um efeito interessante, É usado pela tribo Fula, que lhe dá o nome de Toucron. Por vezes é tocado com uma surdina igual à do K01'á que lhe altera em parte o som, aumentando-lhe o deito musical, corno a seguir teremos ocasião de ver.
Eis as notas produzidas pelas suas cordas soltas e de baixo para cima: 
KORÁ:
 - Instrumento também composto de uma mela cabaça. maior do que a do Calando e com o mesmo dispositivo deste. Como os instrumentos são sempre construídos pelos seus próprios tocadores, cada qual adorna-os a seu gosto e fantasia. adaptando-lhes o número de cordas consoante a habilidade que tem. Há ins-trumento; com oito, doze e mais cordas, predominando os de vinte e uma. 
As cordas estão fixas ao instrumento como as dos nossos instrumentos, excepto o emprego das cravelhas, apenas com a diferença de o cavalete medir cerca de 25 centímetros de altura. Este cavalete tem nos seus flancos um sistema de encaixes intercalados, por onde passam as cordas, que por sua vez se vão prender ao braço. 
Tem ainda um acessório muito importante e ao qual poderíamos chamar surdina, que se compõe de uma folha de alumínio ou mesmo de lata, oval, e com uns orifícios em toda a sua volta, onde estão emitidos uns elos de arame. 

O efeito produzido por esta surdina é interessante, pois as vibrações das notas são acompanhadas de uma ténue trepidação dos elos da folha; semelhando guizos tocados ao longe. 
O instrumento é dedilhado com ambas as mãos como a harpa e toca-se sentado no chão. Supomos, e com visos de verdade, que a sua afinação esteja entregue ao gosto do executante; contudo, pelo que temos ouvido e observado, parece estar baseada na escala árabe, porquanto, os músicos, não concebem a escala diatónica e muito menos a cromática, tal como nós a concebemos. Isto, pelo menos, quando cantam. É só usado pela tribo Mandiga, que são, quanto a nós, os melhores músicos da Colónia. 
As suas cordas são em número de vinte e uma, sendo onze do lado esquerdo do cavalete, e dez do lado direito. Tem a seguinte extensão:
B A L A F O N:
 - É exactamente do feito do nosso xilofone ou sistro. Até mesmo o material empregue na sua construção é idêntico, pelo que se torna inútil descreve-lo. Também tocado com dois martelos, e a sua extensão varia segundo a tribo do seu construtor e do seu tocador. Usam-no os Fulas e os Balantas, estes com vinte e quatro notas e aqueles com dezassete. A sua afinação é quase perfeita; observamos um destes instrumentos tocados por um Fula, e conseguimos ouvir uma escala de Fá Maior rigorosa, como se pode ver pelo exemplo que a seguir damos. As notas imediatamente inferiores e superiores à escala de Fá Maior, embora seguidas, são um tanto ou quanto semitonadas, razão pela qual não podemos considerar o instrumento perfeito. 
Eis a extensão de um Balafon Fula - «Balangi» como lhe chamam - ou «Bálá», nome por que é conhecido entre os Balantas.
CUMURA: 
- Instrumento de percussão semelhante aos nossos timbales ou tímpanos, de vários feitios e tamanhos, apenas com a diferença de que os grandes são tocados com duas baquetas, os médios com uma baqueta e com uma mão, e os pequenos com ambas as mãos. E comum a todas as tribos.

GILÁ: 
- Instrumento de percussão de som mais seco e cavo que o do Cumura, composto de um tronco de árvore oco por dentro, de comprimento variável que vai ii mais de dois metros e meio, e com uma pele na extremidade mais larga. É tocado com ambas as mãos e posto a tiracolo, sendo comum a todas as tribos.

BOMBOLON:
 - É este o mais importante instrumento indígena de percussão. E construído de um grande tronco de árvore bastante grosso e escavado por dentro, com o comprimento variável de um a dois metros, com uma estreita abertura longitudinal (um pouco mais pequena do que o seu comprimento), sendo tocado com dois paus - que servem de baquetas - por um ou mais tocadores. Já o vimos tocar por seis homens, três de um lado e tês do outro, sendo somente utilizado para transmitir notícias importantes. ou em cerimónias de grande transcendência. 
Poderíamos chamá-lo telégrafo indígena. 
Toda a gente conhece o seu som cavo e especial. 
Tem também uma outra função muito importante, que consiste em chamar o vento. Todos os barcos à vela estão providos dele. Quando há necessidade de fazer uma viagem c o vento falta, os marinheiros tocam-no, na persuasão de que, assim, chama o vento. É comum a todas as tribos. 

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Aqui ficam, caro leitor, os apontamentos que nos foi possível colher através de uma rápida passagem pelo interior da Colónia. Lamentamos não ter podido fixar algumas composições indígenas para completar estas notas. Todavia, com os magros elementos colhidos, e o estudo dos instrumentos músicos usados pelos nativos, já podemos fazer um juízo mais ou menos acertado da mentalidade da população indígena da Guiné Portuguesa. 
Abílio Gomes 
(Chefe da Banda de Música 
da Guarnição Militar da Colónia)
(1) Tem este nome só entre tribos islamizadas. 
(2) Por parente deve entender-se os amigos e conhecidos da mesma tribo c não somente as pessoas de família, como geralmente se supõem
(*) A Domingos Fernandes Canhão, mestre nestes assuntos e particular Amigo. 

24 de dezembro de 2011

337-Ladainha dos póstumos Natais



Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

In “OBRA POÉTICA” de David Mourão-Ferreira 

22 de dezembro de 2011

335-Morreu Eurico Corvacho, militar de Abril e combatente na Guiné

Eurico Corvacho, antigo capitão de Abril e membro do Conselho da Revolução (CR), morreu quarta-feira em Lisboa, anunciou a família. Foi comandante da Região Militar do Norte em 1975.
Sobre a sua estadia na Guiné durante a guerra colonial leiam http://blogueforanada.blogspot.com/2006/02/guin-6374-dlxxvi-o-meu-capito-o-capito.html, para ver o que diz dele o capitão José Neto

21 de dezembro de 2011