Livro maravilhoso! Mais ainda para quem conheceu a Guiné e as suas gentes. Procurei-o, procurei-o, depois de ler a tese de Mestrado que Tatiana Sousa de Jesus fez sobre esta obra (podem ler a tese dela em http://repositorio.ul.pt/handle/10451/1897). E encontrei-o finalmente (num alfarrabista também...). A censura da época não gostou de "Auá" - podem ver no final a colecção de documentos da censura, colhidos pela mestranda Tatiana. Mas Aquilino Ribeiro gostou e fez-lhe um belo prefácio, que transcrevo com a grafia da época.
Está
dito, o primeiro que viu a Guiné foi Nuno Tristão, o segundo o autor de
Àuá. Certo é o europeu estar todos os dias a descobrir a Africa e a Africa a furtar-se, nem de
propósito, cada vez mais ao seu conhecimento e amabilidades. Vem de lá o açúcar, que encarece do pôr do sol para a manhãzinha,
certos bichos simpáticos do Jardim Zoológico, e sujeitos com a bôlsa
repleta e fígados derrancados; é ainda a terra do degrêdo. Que mais? Sabemos: os nossos navegadores foram tacteando a
costa e baptizando em nome
de Deus e do rei promontórios, golfos, enseadas que, séculos
depois, um inglês, geógrafo e flibusteiro ao mesmo tempo, repimpado sob a tolda do navio, foi crismando ao sabor da pacotilha e do respeito para com Sua
Magestsde Graciosa; Albion esbulhou-nos do melhor latifándio africano; o rei Leopoldo doutro; entaiparam-nos nos trópicos, o inferno. Sabe isso o espírito de
descontentamento que anima o português e ainda é a sua Iôrça mais apreciável; os compêndios não ensinam, rezam;
rezam os nomes dos rios, das cidades, dos distritos. Tôda a ciência oficial é nomenclatura.
De ouvido, de rápidas e recreativas narrativas, sabemos também que espécie de realeza há em África. Não reina o branco, nem o soba, nem o desacreditado
leão; reina o insecto; insectos
de nome infantil, eufónico, de sílabas dobradas, um amor
de nome: a baga-baga, formiga branca, invulnarável, génio da destruição, e a tsé-tsé, môsca da doença do sono, que vai cobrindo com noite
sepulcral o imenso continente negro.
Que nos dizem de África os
livros? Os antigos, das Crónicas até
a História Trágico-Marítima, veem cheios de azagaias,
de marfim, de avelórios, da caça ao escravo, da rumorosa e indevassada selva,
mais nada. Dos modernos, apenas conheço a obra do Dr. Brito Camacho, em que, de
verdade, nem sempre o artista é abafado pelo homem de estado que, por onde vá e espraie
o olhar, escruta, sopesa, compara, avalia. Imagino que os outros se não apartem muito do conceito clássico; negraria,
batuque, tanga, rugir da fera e coconote. Ultimamente, sim, veio
parar-me às mãos um livro
genial e ascoroso ao mesmo tempo porque
deixa as pessoas malquistadas com a vida: Voyage au bout de la nuit, de Louis-Ferdinand Céline. O protagonista apeia em plaga africana, que parece ser vizinha da Guiné, e conta o que vê e ouve. Foi alucinação aquilo, comprouve-se em traçar uma caricatura goiesca, ou chegou ao
país dos pesadelos? Ali os brancos tiritam, tiritam em despeito das doses maciças de quinino, e convertem a febre em matéria de match: qual termómetro subiu mais? Caramba, 40° aquele é campião!
O governador só pensa em enriquecer para largar embora
leve a garra da morte no flanco; seguem-no
disciplinadamente na rapina os mais funcionários. Porque se arranha com unhas furiosas, até o desespêro, até o paroxismo, a ponto de tornar-se em Lázaro, aquele comerciante? É o corocoro, cette vache, que tomou conta dêle. Tudo
ladro, obsceno, reles, famélico, esbodegado e esbodegante, o branco e o prêto, o rio e a floresta, o silêncio e o alvorôço da tabanca, a vida e a morte. Mas Céline, cuido ver no seu retrato, escreve com os
olhos de Greco: tortos.
Fausto Duarte, que se embrenhou pelo
mato, dormiu nas cubatas do interior, viu acordar as moranças, vem reconciliar-nos com a Africa e a primeira e mais grata impressão é a de alívio. Desafoga-se. O ar tem a competente impregnação
de oxigénio, pássaros das mais belas côres e mais canoros que primas-donas alegram a. Paisagem, o sol não é «metal
em fusão» e pela estrada plaina, como na
Europa, o
motor do eutomôvel vai cantando gloriosamente.
Balantas e fulas, das onze raças da Guiné os mais
activos, ocupados nos agros, erguem
a cabeça curiosa. Também aquela rapariga é perita em
lançar esquiva e langorosa mirada! Reina a santa paz, idílica paz, as mulheres pilam o arroz e o ruído
dos maços repercute ao longe como os mangoais nas eiras de Portugal. Logo, ao sol-pôr,
quando as cubatas fumegarem ao céu, falta apenas que desça dos campanários um
magoado e suavíssimo angelus.
Com simplicidade encantadora,
sem difusões, nem peripécias de cinema, o autor vai-nos pintando o que é a vida naquele trato de terra e de humanidade. E não é difícil chegar à conclusão de que os diferenciais que trouxe o progresso e
a pigmentação pouco
representam ao lado da analogia profunda e simetria notória que a vida reveste duns homens para. os outros. É facto estar a Guiné à beira do berço
da civilização semita e de lá hever recebido influxo certo.
Circuncidam-se os varões; as aldeias teern nome; a apanha da mancarra lembra a ceifa ou vindima, mercê das quais se
pagam os impostos; os marabus valem os padres católicos e os curandeiros curam tão realmente como os médicos que
saem das escolas sapientes; as raparigas amam e aborrecem pelos mesmos motivos de
ética como no restante mundo, e a lei irremissível de ganhar o pão com o suor do rosto torna o gentio
da Guiné equivalente aos labrostes bárbaros e retrógrados, sob determinados
aspectos, da província portuguesa ou da Rússia, antes do Dilúvio.
As finas qualidades de observação de Fausto Duarte
revelam-nos uma Guiné que não sonhávamos. Lá também o homem é joguete de estranhas e incoercíveis fôrças; lá também
o homem faz guerra ao seu semelhante e é trivial
que o oprimido odeie o tirano, chame-se nesta parte do mundo o cobrador de
impostos ou o duanhe,
na Europa o proprietário ou representante
da autoridade, no guinhol - e tudo no mundo se reduz a guinhol - o gendarme,
como em gendarme se cifra tudo o que no universo sensível
ou incognoscível implica mando e prepotência..
Fausto Duarte é pela civilização, mas a sua.
sensibilidade não cala a ternura que lhe merece o homem escravizado, coacto a
uma felicidade sem a qual passaria perfeitamente. Os que sonham com um Portugal de além-mar engrandecido hão de
ficar gratos à. pena
colorida, equilibrada, emotiva sem excesso que escreveu Àuá, estreia literária do maior
realce e obra de elevação lusíada.
C. Quebrada, Abril
de 1934.
AQUILINO RIBEIRO.

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