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3 de janeiro de 2012

342-AUÁ, Novela Negra

Livro maravilhoso! Mais ainda para quem conheceu a Guiné e as suas gentes. Procurei-o, procurei-o, depois de ler a tese de Mestrado que Tatiana Sousa de Jesus fez sobre esta obra (podem ler a tese dela em http://repositorio.ul.pt/handle/10451/1897). E encontrei-o finalmente (num alfarrabista também...). A censura da época não gostou de "Auá" - podem ver no final a colecção de documentos da censura, colhidos pela mestranda Tatiana. Mas Aquilino Ribeiro gostou e fez-lhe um belo prefácio, que transcrevo com a grafia da época.



    Está dito, o primeiro que viu a Guiné foi Nuno Tristão, o segundo o autor de Àuá. Certo é o europeu estar todos os dias a desco­brir a Africa e a Africa a furtar-se, nem de propósito, cada vez mais ao seu conhecimento e amabilidades. Vem de o açúcar, que enca­rece do pôr do sol para a manhãzinha, certos bichos simpáticos do Jardim Zoológico, e sujei­tos com a bôlsa repleta e fígados derrancados; é ainda a terra do degrêdo. Que mais? Sabemos: os nossos navegadores foram tacteando a costa e baptizando em nome de Deus e do rei promontórios, golfos, enseadas que, séculos depois, um inglês, geógrafo e flibusteiro ao mesmo tempo, repimpado sob a tolda do na­vio, foi crismando ao sabor da pacotilha e do respeito para com Sua Magestsde Graciosa; Albion esbulhou-nos do melhor lati­fándio africano; o rei Leopoldo doutro; entai­param-nos nos trópicos, o inferno. Sabe isso o espírito de descontentamento que anima o português e ainda é a sua Iôrça mais apreciável; os compêndios não ensinam, rezam; rezam os nomes dos rios, das cidades, dos dis­tritos. Tôda a ciência oficial é nomenclatura.
    De ouvido, de rápidas e recreativas narra­tivas, sabemos também que espécie de realeza há em África. Não reina o branco, nem o soba, nem o desacreditado leão; reina o insecto; insectos de nome infantil, eufónico, de sílabas dobradas, um amor de nome: a baga-baga, formiga branca, invulnarável, génio da destruição, e a tsé-tsé, môsca da doença do sono, que vai cobrindo com noite sepulcral o imenso continente negro.
Que nos dizem de África os livros? Os antigos, das Crónicas até a História Trágico­-Marítima, veem cheios de azagaias, de mar­fim, de avelórios, da caça ao escravo, da ru­morosa e indevassada selva, mais nada. Dos modernos, apenas conheço a obra do Dr. Brito Camacho, em que, de verdade, nem sempre o artista é abafado pelo homem de estado que, por onde vá e espraie o olhar, escruta, sopesa, compara, avalia. Imagino que os outros se não apartem muito do conceito clássico; negraria, batuque, tanga, rugir da fera e coconote. Ulti­mamente, sim, veio parar-me às mãos um livro genial e ascoroso ao mesmo tempo por­que deixa as pessoas malquistadas com a vida: Voyage au bout de la nuit, de Louis-Ferdi­nand Céline. O protagonista apeia em plaga africana, que parece ser vizinha da Guiné, e conta o que vê e ouve. Foi alucinação aquilo, comprouve-se em traçar uma caricatura goiesca, ou chegou ao país dos pesadelos? Ali os bran­cos tiritam, tiritam em despeito das doses maciças de quinino, e convertem a febre em matéria de match: qual termómetro subiu mais? Caramba, 40° aquele é campião!
O governador só pensa em enriquecer para largar embora leve a garra da morte no flanco; seguem-no disciplinadamente na ra­pina os mais funcionários. Porque se arranha com unhas furiosas, até o desespêro, até o paroxismo, a ponto de tornar-se em Lázaro, aquele comerciante? É o corocoro, cette vache, que tomou conta dêle. Tudo ladro, obsceno, reles, famélico, esbodegado e esbodegante, o branco e o prêto, o rio e a floresta, o silêncio e o alvorôço da tabanca, a vida e a morte. Mas Céline, cuido ver no seu retrato, escreve com os olhos de Greco: tortos.
Fausto Duarte, que se embrenhou pelo mato, dormiu nas cubatas do interior, viu acordar as moranças, vem reconciliar-nos com a Africa e a primeira e mais grata impressão é a de alívio. Desafoga-se. O ar tem a compe­tente impregnação de oxigénio, pássaros das mais belas côres e mais canoros que primas-donas alegram a. Paisagem, o sol não é «me­tal em fusão» e pela estrada plaina, como na Europa, o motor do eutomôvel vai cantando gloriosamente. Balantas e fulas, das onze raças da Guiné os mais activos, ocupados nos agros, erguem a cabeça curiosa. Também aquela rapa­riga é perita em lançar esquiva e langorosa mirada! Reina a santa paz, idílica paz, as mulheres pilam o arroz e o ruído dos maços repercute ao longe como os mangoais nas eiras de Portugal. Logo, ao sol-pôr, quando as cubatas fumegarem ao céu, falta apenas que desça dos campanários um magoado e suavís­simo angelus.
Com simplicidade encantadora, sem difu­sões, nem peripécias de cinema, o autor vai-nos pintando o que  é a vida naquele trato de terra e de humanidade. E não é difícil chegar à conclusão de que os diferenciais que trouxe o progresso e a pigmentação pouco represen­tam ao lado da analogia profunda e simetria notória que a vida reveste duns homens para. os outros. É facto estar a Guiné à beira do berço da civilização semita e de hever rece­bido influxo certo. Circuncidam-se os varões; as aldeias teern nome; a apanha da mancarra lembra a ceifa ou vindima, mercê das quais se pagam os impostos; os marabus valem os padres católicos e os curandeiros curam tão realmente como os médicos que saem das es­colas sapientes; as raparigas amam e aborre­cem pelos mesmos motivos de ética como no restante mundo, e a lei irremissível de ganhar o pão com o suor do rosto torna o gentio da Guiné equivalente aos labrostes bárbaros e retrógrados, sob determinados aspectos, da província portuguesa ou da Rússia, antes do Dilúvio.
As finas qualidades de observação de Fausto Duarte revelam-nos uma Guiné que não so­nhávamos. Lá também o homem é joguete de estranhas e incoercíveis fôrças; lá também o homem faz guerra ao seu semelhante e é tri­vial que o oprimido odeie o tirano, chame-se nesta parte do mundo o cobrador de impostos ou o duanhe, na Europa o proprietário ou representante da autoridade, no guinhol - e tudo no mundo se reduz a guinhol - o gendarme, como em gendarme se cifra tudo o que ­no universo sensível ou incognoscível implica mando e prepotência..
Fausto Duarte é pela civilização, mas a sua. sensibilidade não cala a ternura que lhe me­rece o homem escravizado, coacto a uma feli­cidade sem a qual passaria perfeitamente. Os que sonham com um Portugal de além-mar engrandecido hão de ficar gratos à. pena colo­rida, equilibrada, emotiva sem excesso que escreveu Àuá, estreia literária do maior realce e obra de elevação lusíada.

C. Quebrada, Abril de 1934.

AQUILINO RIBEIRO. 
Auá
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