Lembranças da Guiné, na guerra e já fora dela. Pesquisa, comentários e factos. A memória sempre presente. Não está por ordem. É conforme me vou lembrando. Tudo o que tem a ver com a Guiné, a sua história, as etnias, a colonização e as guerras de resistência. Também a minha experiência durante a guerra colonial (está nos primeiros posts). Para quem não sabe ou viveu que veja e avalie se é realidade ou ficção. Para quem sabe ou viveu são lembranças.
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15 de janeiro de 2012
351-Manifesto antiesclavagista dos capuchinhos espanhóis
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A. Marques Lopes
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Frei Vitoriano Portuense
14 de janeiro de 2012
350-A cristianização dos reis de Bissau
A gravura da capa representa a planta da praça de S. José de Bissau segundo José Luís de Braun, 1780
(Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa)
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No final vão vários mapas, e gravuras e fotografias incluídas na obra.
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(Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa)
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No final vão vários mapas, e gravuras e fotografias incluídas na obra.
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O próprio Avelino Teixeira da Mota, na nota introdutória que faz ao livro, dá-nos uma breve ideia do seu conteúdo:
Ao invés do que se verifica em
relação às cidades de Angola e de Moçambique, cuja história tem merecido a
atenção de numerosos estudiosos, o passado da cidade e da ilha de Bissau não
tem concitado grandes atenções, Além do contido nas monografias clássicas de
Chelmicki e Varnhagen e de Lopes de Lima, respeitantes a Cabo Verde e à Guiné,
nas histórias gerais de Sena Barcelos e de João Barreto e em alguns relatórios
de governadores, a bem pouco se reduz a bibliografia da história de Bissau. Assim, apenas nos
ocorrem, nesse domínio, certas partes do relatório do médico Damasceno Isac da
Costa, o estudo de Cunha Saraiva sobre a última fortaleza, a anotação de Damião
Peres sobre a defesa castrense da povoação e o cuidado, mas breve, estudo de
Fausto Duarte (1).
Se é esta a situação no que respeita à
história da povoação, ela é ainda bem pior no concernente ao estudo do passado
dos Papéis, o grupo étnico que vivia na ilha quando a ela chegaram os
Portugueses, pois aquele está praticamente por fazer,
O presente
livro pretende trazer uma contribuição para a melhoria dos conhecimentos nesse
duplo campo, o da história da povoação onde se fixaram os Portugueses e o da
história dos Papéis da ilha. Neste último aspecto já nada pudemos recolher nos
domínios da tradição oral; uma indagação rápida não nos permitiu saber de
informadores fidedignos na zona oriental da ilha, onde se situa a cidade
capital, e a inexistência ou raridade deles aí foi-nos confirmada por Fernando
Rogado Ouintino, que desde há bastante tempo se ocupa do estudo do povo
papel, O crescimento da
cidade e o caldeamento das populações parece terem já levado os Papéis dessa
zona ao olvido do seu passado, afigurando-se que será sobretudo com os
habitantes da zona ocidental da ilha (Tor e Biombo), ainda marcadamente rural e
muito mais tradicional, que haverá que contar para tentar salvar do total
esquecimento algo que ainda reste na memória de alguns homens velhos (2),
Em boa parte, os textos mais importantes que servem de base a este
volume foram recolhidos no decurso dos trabalhos, que se desenrolam desde 1963, para a edição das fontes antigas portuguesas (séculos XV-XVII)
relativas à Africa ocidental entre o Senegal e a Serra Leoa e com interesse
para a história da geografia e dos povos africanos, De certo modo, o presente
livro abre a série, embora os textos publicados sejam na maioria do final do
século XVII e apenas venham a lume na língua original e sem as versões
francesa e inglesa previstas para o conjunto, já que quase só dizem respeito a
territórios e povos incluídos na Guiné Portuguesa,
O período em que foram escritos, o dos dois
últimos decénios do século XVII, é certamente um dos mais interessantes
da história de Bissau, e talvez dos menos conhecidos. Devido, sobretudo, às
vantagens da sua situação geográfica, mais que às condições, sofríveis, do seu
porto, a importância da povoação escolhida pelos Portugueses para se estabelecerem
no rio Grande foi crescendo ao longo desse século, e isso não podia deixar de
acarretar conflitos com outros europeus interessados em se expandirem na área
dos «Rios da Guiné de Cabo Verde», Esse facto trouxe incidências na própria
acção missionária, já que à presença dos capuchinhos espanhóis, até então
tolerada na Guiné na maior parte dos casos, era natural que se preferisse a de
frades portugueses,
A defesa contra os concorrentes estrangeiros no
comércio - sobretudo os
Franceses - logicamente conduziu ao propósito de construir no porto de
Bissau uma fortaleza que lhes impedisse o tráfico livre, Por sua vez, tal facto
trazia alterações importantes nas relações entre os Portugueses e os Papéis,
com larga possibilidade de conflitos. A fortaleza fez-se, e passados poucos
anos, ainda inacabada, el-rei de Portugal mandou-a arrasar, desistindo por
então de impor o monopólio comercial; atitude prudente, até porque, adversários
de Portugal na guerra da sucessão de Espanha (1703-1713), os Franceses
saquearam durante ela a cidade da Ribeira Grande, na ilha de Santiago de Cabo
Verde, a cidade do Rio de Janeiro e a ilha do Príncipe, e certamente lhes teria
sido fácil tomar o forte que os Portugueses tivessem em Bissau. No povoado ficaram os missionários e os comerciantes, até que, meio
século volvido, se iniciou a construção da majestosa fortaleza de S. José, com
o poderoso amparo da Companhia do Grão-Pará e Maranhão.
Dos seis textos que agora se editam, o primeiro, de começos do
século XVII, constitui a mais antiga descrição,
com relativo desenvolvimento, da ilha e dos Papéis. Inédito até aqui, é
capítulo da Etiópia Menor, do jesuíta Manuel
Álvares, que foi devotado missionário na Serra Leoa, onde morreu em 1617.
Quatro dos restantes textos dizem
respeito à acção missionária, sendo
dois da autoria de Fr. Vitoriano Portuense, bispo de Cabo Verde, e outro
relacionado com a sua acção. Explica-se, assim, que o presente livro, como é
expresso no seu título, esteja centrado na actividade desse notável
missionário, que fez duas viagens à Guiné
e interveio activamente nos acontecimentos que por então se desenrolaram em
Bissau.
O primeiro desses textos é a carta em que o bispo dá conta a D.
Pedro II da sua primeira viagem, em 1694. Foi publicada na sua maior parte pelo P:e
António Joaquim Dias Dinis, em 1937, e edita-se agora na totalidade.
Baseia-se nela em parte um opúsculo muito raro, saído em 1695, em
que se descreve também o baptismo, em Lisboa, de um filho do rei de Bissau.
Embora o publicássemos em periódico de Bissau em 1964
e 1965, novamente se edita agora, dada a sua grande relação com
outros textos.
Pudemos localizar o relato da parte inicial da
segunda viagem de Fr. Vitoriano Portuense à Guiné, contendo a descrição do
baptismo, em vésperas de morrer, do rei de Bissau, Bacampolo Có ou D. Pedro. Publica-se também agora pela primeira vez, julgando-se ser
totalmente desconhecido antes, pois nem sequer o minucioso cronista da
Província da Soledade, Fr. Francisco de Santiago, o cita ou utiliza.
Após estes
quatro textos portugueses, editam-se mais um em francês e outro em espanhol.
Aquele é um trecho, infelizmente truncado no começo,
respeitante à ilha de Bissau e à
viagem que lá fez em 1686-1687 o senhor de La
Courbe; servimo-nos da edição de 1913 de Cultru. É um texto valioso, pela sua objectividade e pela soma de elementos que dá
relativos à influência portuguesa,
La Courbe encontrou em Bissau
três capuchinhos espanhóis, e fala-nos do manifesto contra a escravatura por
eles feito, É este um assunto que tem andado envolvido em certa
confusão, o que em parte se deve à deficiente maneira como o relato de La Courbe foi
utilizado no conhecido livro de Labat sobre a África ocidental, Sabia-se que
um exemplar do manifesto chegara a Roma, por via do núncio em Portugal, e que
dele se ocupara a Propaganda Fide, e só apenas através das actas das sessões
desta se tinha uma ideia do seu conteúdo, O texto que
agora trazemos a lume é o do exemplar enviado ao rei de Portugal, e o seu
conhecimento vem lançar muita luz na matéria, Talvez tal documento tenha contribuído
para as viagens de Fr, Vitoriano Portuense à Guiné e para certas formas da
sua actuação, nomeadamente no que se refere ao baptismo dos escravos,
Os seis textos são precedidos de
um estudo, acompanhados de notas e seguidos de um apêndice documental em que se
transcrevem várias fontes que muito contribuem para a sua melhor compreensão e para mais perfeito
esclarecimento dos factos ocorridos então em Bissau,
O nosso estudo destina-se sobretudo a apresentar tais
textos e a facilitar a sua interpretação, e de modo algum pretende ser uma
análise aprofundada dos acontecimentos da época, para o que lhe falecem muitos
elementos, nomeadamente no campo económico,
Do conjunto desses textos, dos documentos
finais e daquilo que escrevemos, ressaltam numerosos conflitos em vários
campos: entre missionários espanhóis e missionários portugueses, entre
portugueses e [ranceses, entre europeus e africanos, entre o bispo de Cabo
Verde e o capitão-mar de Bissau, etc, Cremos haver aí bastante matéria pata
reflexão e para mais aprofundado estudo,
Apraz-nos ainda salientar que
várias das fontes que transcrevemos ou utilizamos documentam o alto critério e
notória prudência de vários pareceres do Conselho Ultramarino em questões abordadas
neste livro, pelo que julgamos que este traz um modesto contributo pata a
história desse venerando órgão da administração do ultramar, Em ilustrações fora do texto apresenta-se uma
selecção de espécies cartográficas (de meados do século XVII a meados do século XVIII), que desde há muito vimos inventariando com vista
ao estudo da história da cartografia de Bissau e zonas próximas.
(1)
DAMASCENO ISAC DA COSTA, Relatório do Serviço da Delegação da [unta de
Sal/de na vil/a de Bissau respectivo ao mll!o de 1884, Lisboa, 1887, 91 pp.; JosÉ MENDO
DA CUNHA SARAIVA, «A fortaleza de Bissau e a Companhia do Grão Pará e
Maranhão», in Congresso Comemorativo do V Centenário do Descobrimento da
Guiné, Lisboa, I, 1946, pp. 157-91;
DAMIÃO PERES, Planta da Praça de Bissau e suas adjacentes por Bernardino
Amónio Alvares de Andrade, Lisboa, 1952; Auuário da Guiné Portuguesa, Bissau,
1946, pp. 207-229 (pp. 357-409 na edição de 1948).
(2)
(2) Ao
menos no que respeita a genealogias e listas de reis, De um povo afim, os Manjacos
de Caió, ainda foi possível, há um quarto de século, recolher a relação dos
reis: ARTUR MARTINS DE MEIRELES, «Baiú (Gentes
de Kaiú)», in Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, III, 11, Julho 1948, pp. 607-638.
Luanda,
Novembro de 1970.
A. TEIXEIRA DA MOTA
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13 de janeiro de 2012
349-Recenseamento Agrícola da Guiné
(Publicadas no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume IX, Nº 33, Janeiro de 1954. Texto assinado por Amílcar Cabral e sua mulher Maria Helena Cabral. São aqui avançados a obrigatoriedade da realização do Recenseamento, o método utilizado e os escassos meios facultados bem como os objectivos que deviam servir essa medida)
Não constitui objectivo destas notas provar a utilidade ou a inutilidade do empreendimento. A utilidade ou a inutilidade dum Recenseamento Agrícola depende do papel que o mesmo desempenha ou vier desempenhar, como conhecimento, na evolução económica (portanto, social) do meio a que se refere. Isso, porque o Recenseamento Agrícola é um trabalho de base. Base do fomento agrícola duma região, num dado momento da sua evolução agrária. Será tanto mais útil quanto melhor servir a agricultura do povo ou povos a que diz respeito. Um Censo, seja da população, da agricultura, ou da indústria, se não visa a melhoria das condições de vida do povo ou povos a que e refere, não é só um trabalho inútil: é um empreendimento nocivo.
1.
Porque se está executando o Recenseamento Agrícola
Pela reunião de Londres, realizada de 15 a 19 de
Dezembro de 1947, Portugal contraiu o compromisso de levar a efeito o
Recenseamento Agrícola em 1950, nas suas parcelas ultramarinas. A F. A. O. (Organização
das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação) havia já estabelecido as
linhas gerais do Recensearnento. Em Novembro de 1948, o então Encarregado do
Governo da Guiné, nomeou uma Comissão constituída por 4 membro, para estudar e
planear o Recenseamento Agrícola, em cumprimento das determinações do
Ministério do Ultramar. E a Comissão apresentou um relatório no qual apenas esquematizou
os métodos de trabalho a seguir, indicou o pessoal
disponivel e o necessário, e calculou as despesas a efectuar em 1949.
Por razões entre as quais é de se salientar a
dificuldade do empreendimento, o Censo Agrícola não foi executado. Em Dezembro de 1952 foi dotada verba para a sua
efectivação, tendo surgido, naturalmente, a necessidade de transferência dessa
verba para 1953, por não ser possível o Recenseamento naquela altura do ano. A
dotação estipulada para todo o trabalho do Censo Agrícola correspondia à calculada para a despesa a efectuar em
1949.
Em Agosto de 1953, os Serviços Agrícolas e Florestais,
em cumprimento das determinações do Ministério do Ultramar, resolverarn
executar o Recenseamento Agrícola, tendo sido encarregado de planeá-lo e de
dirigir a sua execução, o autor desta nota.
A dificultar o complexo problema do Recenseamento Agrícola
em regiões de economia atrasada, como a Guiné, patentearam-se os seguintes
factores:
a) exiguidade da verba dotada (300 contos); b) falta de pessoal adestrado para tal
trabalho; c) falta de tempo para
efectivar os estudos preliminares e a preparação do pessoal disponível; d) dificuldade de
transporte; e) ausência de
quaisquer elementos de orientação para o trabalho, na parte relativa à
agricultura indígena.
Porque o Recenseamento tinha de ser feito,
efectuaram-se os estudos preliminares que foram possíveis, apresentaram-se as
informações e as propostas relativas à orientação
geral do trabalho (pessoal mínimo indispensável, distribuição das despesas,
transportes, etc.) e esquematizou-se o que se entendia poder ser feito nas
condições de trabalho facultadas. Entre estas, alientou-se a escassez dos
seguintes elementos: disponibilidades, tempo e pessoal.
Eis portanto, os motivos que levaram à execução do
Recenseamento Agrícola:
a) Porque havia que satisfazer um compromisso
contraído no campo internacional;
b) Porque o Ministério do Ultramar e o Governo da
Província determinaram a sua execução ;
c) Porque, para tal, foi dotada uma verba, ainda que
a exiguidade desta e o tempo disponivel implicassem a limitação do objectivo a
atingir.
2.
Objectivo do Recenseamenlo Agrícola
O relatório da Reunião de Londres atrás referida
indica como objectivo do Recensearnento obter, em cada território, um recenseamento
ou uma estimativa dos seguintes elementos:
a) Superfícies totais cultivadas e superfícies consagradas às diferentes culturas;
b) Número e características simples da população;
c) Importância do gado;
d) Produção das principais culturas,
Indica, além disso, que em cada território deve
procurar-se obter um método de trabalho adequado às condições do meio. Assim, sugere,
para os países de economia atrasada, o emprego de métodos de sondagem na investigação
dos elementos essenciais de agricultura indígena, bem como a necessidade de
utilizar os dados do censo populacional na generalização dos elementos colhidos
por sondagem.
Atendendo ao objectivo e sugestão referida, a Comissão
nomeada em 1948, para estudar o assunto, optou pelo método de amostragern. Considerou
como unidades as explorações agrícolas (individuais ou familiares), a quais
seriam agrupadas por tribu. Pretendia inquirir 2.200 explorações indígenas. A
generalização, a toda a área da Guiné, seria feita com base no Censo populacional
de 1950.
Tal critério implicaria uma generalização muito
lata (a toda a área da Guiné) e uma dispersão de pessoal incompatível com as
condições de trabalho facultada em 1953. Por isso, tentou-se resolver o
problema de maneira diferente, visando sempre os objectivos definidos na
Reunião de Londres de 1947, e atendendo às condições socioeconómicas do meio guineense..
Resumindo, pode afirmar-se que o objectivo do
Recenseamento é a obtenção dos elementos essenciais, qualitativos e
quantitativos, da agricultura indígena e da não indígena, na Guiné.
3.
O caso particular da Guiné.
A agricultura indígena.
Seria
descabido invocar argumentos para demonstrar a inviabilidade dum Recenseamento Agrícola
perfeito nas actuais condições socioeconómicas e culturais da Guiné. Basta
ponderar no atraso em que vivem a populações nativas, para concluir a impossibilidade
de obter directamente, do agricultor indígena, resposta aos inquéritos comuns
ao recenseamento agrícola.
Assim,
o inquérito individual só seria
aplicável ao agricultor não indígena e, mesmo neste caso, teria de limitar-se à
propriedade perfeita. O caso da agricultura indígena foi considerado
detidamente.
O aspecto qualitativo da agricultura indígena vai sendo
conhecido na sua generalidade. Conhecern-se as culturas principais. Sabe-se que
o tipo de exploração agrícola varia de povo para povo. Duma maneira geral, a
terra é um bem colectivo, sendo-o, também, os produtos das plantas e espontâneas.
A propriedade privada incide sobre os produtos obtidos pela agricultura
praticada pelos elementos constituintes da família. A extensão da área
cultivada depende estritamente do número de unidades de trabalho da família.
Todavia, o conhecimento dessas características
gerais, apesar de útil, não bastava para resolver o complexo problema do
conhecimento da agricultura indígena no seu aspecto quantitativo. Esse
conhecimento não podia ser obtido directamente. Duma maneira indirecta tudo
quanto se pudesse obter não passaria
duma estirnativa. Daí o facto de que o Recenseamento Agrícola não pode ultrapassar,
na actualidade, o limite duma estimativa.
Havia, portanto, que estruturar um método que
permitisse obter uma estimativa dos elementos essenciais da agricultura
indígena. Tal método devia gerar-se a partir da realidade da agricultura
guineense, dependendo, evidentemente, das condições de trabalho facultadas.
4.
O processo ulilizado na execução do Recenseamento
Agrícola. Crílica.
Para a agricultura praticada pelo não indígena, será seguido o processo normal de recenseamento. Os impressos correspondentes
ao questionário serão distribuídos aos agricultores não indígenas por intermédio
da autoridade adminisrativa .
A estimativa desejada, para a agricultura
indígena, teria de ser obtida pelo método chamado «de amostragern» Tal método
consiste fundamentalmente em escolher, numa dada área, um número de fracções
representativas da agricultura indígena, investigar tudo quanto seja possível sobre
e as fracções, e, por recapitulação, integração e extrapolação, generalizar o
elemento colhido a toda a área considerada. Para e a generalização é necessário
dispor- se duma ou de várias bases, entre a quais são mais importantes: I) as estatísticas
agrícolas anuais, estabelecidas pelos processos habituais; II) as estatísticas
demográficas estabelecidas pela Administração Civil (Censo da População); III) o número de contribuintes. É indispensável dispor desses elementos
tanto para a fracção estudada como para a área afectada pela generalização, e as
estatisticas têm de ser da mesma natureza.
Na Guiné a única base de que se pode dispor é o Censo
da População realizado anualmente pela autoridade administrativa
Um problema delicado é o da escolha da fracção
representativa sobre a qual incidirá o estudo que deve servir de base à generalização. – O processo comumente
aceite é o seguinte: escolhem-se, em número que permita uma base estatística
satisfatória, povoações que, pelas características da sua agricultura, se
podem considerar representativas duma dada região (povoação-tipo). Efectua-se
um estudo completo dessas povoações nos aspectos social, económico e cultural. Seguidamente
procede-se ao recensearnento agrícola. Os elementos colhidos (resultado de
medições efectuadas por agentes recenseadores adestrados) são sujeitos a uma
recapitulação e, depois de obtidos os índices referentes a cada elemento, são,
por extrapolação, generalizados ao território em estudo, com o auxílio das bases
já referidas.
As actuais condições da Guiné e o meio de trabalho
facultado não permitiram a utilização integral do processo referido.
Para que fosse possível a obtenção duma estimativa dos elementos essenciais da
agricultura indígena, houve que operar uma modificação no processo descrito, em
prejuízo do que tem de essencial. E a necessidade resultou da impossibilidade
material de estudar detalhadamente cada povoação-tipo escolhida, o que é consequência
da escassez de tempo, de verba e de pessoal adestrado.
O estudo das características agrícolas das diversas
regiões e dos diversos povos da Guiné, bem como os ensaios sumários realizados
no sentido da experimentação de método de trabalho, mostraram que: I) cada povo
assenta a sua actividade agrícola numa estrutura agrária constante (regime de
propriedade, forma de exploração, cultura e práticas de cultivo); II) a
presença dum dado povo numa dada região depende, geralmente, dos imperativos da
sua estrutura agrária; III) a exploração da terra é feita em regime familiar,
e, raramente, por morança e tabancas ; IV) a extensão da terra cultivada
depende principalmente do número de unidades de trabalho da família; V) a
agricultura duma dada região é a do
povo que a habitam; VI) dentro duma dada região, o tipo de agricultura
dominante é o da do povo mais representado; VII) a agricultura duma povoação
caracteristicamente rural é, genericamente, a da região em que se encontra
integrada; VIII) considerada uma povoação, a agricultura praticada por uma
dada família dum dado povo, é idêntica à praticada pela outra família do mesmo
povo.
Os factos anunciados levaram a concluir que: I) o
método de amostragem é na realidade não só aplicável como o único aplicável nas
actuais condições da Guiné; II) em qualquer região considerada existem povoações-tipo,
isto é, cuja agricultura é representativa da dessa região; III) a área do Posto
Administrativo pode ser considerada como unidade territorial para
generalização dos elemento essenciais da agricultura indígena, obtidos na
povoações-tipo dessa área, desde que seja tomado em cada Posto um número estatisticarnente
satisfatório de povoações-tipo; IV) na
impossibilidade material de estudar detalhadamente cada povoação-tipo, bastaria
estudar, em número estatisticamente satisfatório, a agricultura de vária
famílias dos povos das povoações-tipo escolhidas; V) os índices resultantes desse
estudo, conjugados com os dados do censo da população, permitiriam obter, por
generalização, uma estimativa dos elemento essenciais da agricultura indígena,
para toda unidade territorial, isto é, para cada Posto Administrativo; VI) o
único índice de possível obtenção, face aos meios de trabalho disponíveis, seriam
as médias por família, e por família por povo, de cada elemento essencial estudado.
E eis, em traços largos, o método usado na
execução do Recenseamento Agrícola. Mediante a premente necessidade de se
levar a cabo o empreendimento, mesmo em condições deficientes (de verba, de
tempo e de pessoal) estruturou-se um Plano Geral do Recenseamento Agrícola que
foi superiormente aprovado.
Porque o método da sondagen pode ser aplicado
através de vários processos, houve que determinar qual ou quais os processos
que deviam ser utilizados no Recen eamento. O estudo das características gerais
da agricultura guineense, atrás referido, mostrou ser conveniente o sseguinte
procedimento e tatístico:
a) Divisão da população em subpopulação «ou estratos
tão homogéneos quanto possível, de forma que as sondagens separadas efectuadas
em cada estrato conduzissem a estirnativas afectadas
de pequeno erro» (ROSENFELD, 1953). Daí o ter-se considerado o Posto
Administrativo como unidade territorial de generalização, e, dentro da área de
cada Posto, ter-se feito incidir a sondagem sobre cada povo principal, em separado.
b) Escolha,
em cada Posto Administrativo, de povoações que, pelas suas caracterísricas agrícolas
,podem ser consideradas como representativas da agricultura de toda a área do
Posto (povoações-tipo).
c) Em cada povoação-tipo o número de explorações
agrícolas Iamiliares de cada povo (grupo homogéneo), a inquirir, foi calculado
proporcionalrnente à importância do mesmo povo no conjunto populacional do Posto
a que pertence a povoação-tipo.
d) As
explorações agrícolas familiares, a inquirir em cada povoação-tipo de cada Posto,
e pertencentes a um dado povo, foram escolhidas ao acaso.
Convém notar que o método usado enferma de defeitos. Além
de não estudar integralmente a região considerada, obriga a uma estimativa. Ora
uma estirnativa tem carácter
subjectivo, o que é sempre
prejudicial. Fatalmente, cometem-se erros. A propósito, ROSENFELD (1953)
numa recente publicação da F. A. O., afirma: «O método das sondagens é um processo que toda a gente pratica, desde
sempre... O seu inconveniente reside no facto de apenas fornecer um valor
aproximado das caracteristicas medidas, mas apresenta a vantagem de não medir
os caracteres observados senão sobre um pequeno número de unidades», Além de
que, nos casos como o da Guiné, o único método aplicável é o das sondagens,
infere-se que possibilita uma diminuição considerável dos gastos com o
empreendimento.
A utilização do conjunto de processos referidos,
representa uma tentativa no sentido de restringir ao máximo a possibilidade de
erro neste trabalho que, segundo parece, é o primeiro, no género, a ser
realizado no Ultramar Português.
.
Bissau. Janeiro de 1954
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agricultura,
Amílcar Cabral
12 de janeiro de 2012
348-Realidades do mato
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guerra colonial
11 de janeiro de 2012
347-A agricultura na Guiné
Bem conseguida resenha de Fernando Rogado Quintino sobre as práticas agrícolas das várias etnias guineenses e dos utensílios por elas utilizados. Diz-nos da estrutura social das suas gentes e da economia rural, do trabalho das crianças e das mulheres, das campanhas agrícolas e o seu calendário. Também da natureza dos solos e das várias culturas (arroz, sogro, milho, mancarra...), da utensilagem usada e da sua confecção. Muito esclarecedor para quem se importar em ter conhecimento de como é feita a agricultura entre os povos da Guiné. Rudimentar mas muito adaptada às condições sociais e materiais das suas gentes. Ainda hoje é assim...
Foi publicado em 1971, mas os vários dados estatísticos que apresenta foram colhidos do Recenseamento Agrícola realizado em 1953 por Amílcar Cabral e que está publicado em 214 páginas do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa nº 43, de 1956. Esse trabalho deu-lhe profundos conhecimentos da situação do povo da Guiné. Diz ele, entre outras coisas, no relatório que fez:
«O conteúdo do relatório de qualquer recenseamento limita-se, em geral, à apresentação dos quadros resultantes dos apuramentos gerais e especiais e à exposição sucinta do método que serviu de base ao trabalho e das condições em que o mesmo foi realizado. O relatório dum recenseamento deve ser um elemento-base de que se passa a dispor, enquanto tiver actualidade, para, pela análise e interpretação dos números nele contidos, estudar não só o estado momentâneo, mas também as perspectivas de evolução ou o dinamismo interno da realidade a que se refere. Este relatório contém, além do indispensável, algumas das considerações que decorrem imediatamente da análise dos números obtidos pelo recenseamento agrícola. Muitas outras poderiam ser feitas - e sê-la-ão, por certo para completa consciencialização dos conhecimentos resultantes do Censo Agrícola.
Parece ao signatário que a conclusão do recenseamento agrícola deve transcender a mera satisfação de um compromisso contraído no campo internacional. Representa a aquisição de uma série de conhecimentos que podem e devem servir de base à estruturação do fomento e do progresso agrícola da Guiné.
Os números aqui apresentados resultaram de um longo trabalho de campo durante o qual se percorreu a Guiné de lés a lés, estudando, medindo e inquirindo. Traduzem, no seu conjunto e na medida em que um trabalho como este o pode traduzir, uma realidade: a realidade agrícola da Guiné. Para que tenham utilidade, para que o Recenseamento Agrícola seja uma obra útil, o conhecimento desses números deve servir a melhoria dessa realidade.
Na esperança e na certeza de que estavam realizando obra útil, os que tiveram de estudar, planear e efectuar o Recenseamento não se pouparam a esforços e alicerçaram o seu trabalho na honestidade e no consciente desejo de cumprir.
Bissau, Dezembro de 1954. - O Encarregado do Recenseamento Agrícola, Amílcar Lopes Cabral, Engenheiro Agrónomo.»
Logo abaixo podem ser vistos alguns desenhos, fotografias e estatísticas contidas neste livro e que reflectem bem o conteúdo do trabalho, além de servirem como recordação para quem conheceu a Guiné e o seu povo, nomeadamente os ex-combatentes da guerra colonial lá travada.
«O conteúdo do relatório de qualquer recenseamento limita-se, em geral, à apresentação dos quadros resultantes dos apuramentos gerais e especiais e à exposição sucinta do método que serviu de base ao trabalho e das condições em que o mesmo foi realizado. O relatório dum recenseamento deve ser um elemento-base de que se passa a dispor, enquanto tiver actualidade, para, pela análise e interpretação dos números nele contidos, estudar não só o estado momentâneo, mas também as perspectivas de evolução ou o dinamismo interno da realidade a que se refere. Este relatório contém, além do indispensável, algumas das considerações que decorrem imediatamente da análise dos números obtidos pelo recenseamento agrícola. Muitas outras poderiam ser feitas - e sê-la-ão, por certo para completa consciencialização dos conhecimentos resultantes do Censo Agrícola.
Parece ao signatário que a conclusão do recenseamento agrícola deve transcender a mera satisfação de um compromisso contraído no campo internacional. Representa a aquisição de uma série de conhecimentos que podem e devem servir de base à estruturação do fomento e do progresso agrícola da Guiné.
Os números aqui apresentados resultaram de um longo trabalho de campo durante o qual se percorreu a Guiné de lés a lés, estudando, medindo e inquirindo. Traduzem, no seu conjunto e na medida em que um trabalho como este o pode traduzir, uma realidade: a realidade agrícola da Guiné. Para que tenham utilidade, para que o Recenseamento Agrícola seja uma obra útil, o conhecimento desses números deve servir a melhoria dessa realidade.
Na esperança e na certeza de que estavam realizando obra útil, os que tiveram de estudar, planear e efectuar o Recenseamento não se pouparam a esforços e alicerçaram o seu trabalho na honestidade e no consciente desejo de cumprir.
Bissau, Dezembro de 1954. - O Encarregado do Recenseamento Agrícola, Amílcar Lopes Cabral, Engenheiro Agrónomo.»
Logo abaixo podem ser vistos alguns desenhos, fotografias e estatísticas contidas neste livro e que reflectem bem o conteúdo do trabalho, além de servirem como recordação para quem conheceu a Guiné e o seu povo, nomeadamente os ex-combatentes da guerra colonial lá travada.
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A. Marques Lopes
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9 de janeiro de 2012
346-O gomil de prata
É um conto deste livro de Fausto Duarte (o de "Auá"...):
Tem este conto que eu trancrevo e mais quatro: Os degredados [dois degredados para a Guiné], Evamaria [uma polaca que quer matar um general alemão], Renúncia [dois ingleses no mar, barco torpedeado, uma história de amor...], Regresso [o regresso à Guiné +para visitar a tumba do alferes Francisco de Freitas Moniz, morto em combate], e Ressureição [uma tragédia banal]. Este parece-me o de mais interesse.
Este conto tem a forma de um conto a um amigo. Que é ele próprio, referido-se no início às críticas a "uma crónica curiosíssima sobre a Guiné Portuguesa firmada por teu nome".
A obra foi impressa, para a Editorial Inquérito, em 22 de Maio de 1945 no Centro Tipográfico Colonial, Lg. Rafael Bordalo Pinheiro, 27 e 28, em Lisboa. Recordo que a 7 de Maio desse ano se deu a rendição do governo alemão, depois do suicídio de Hitler a 30 de Abril. A obra já estaria escrita, portanto.
Este conto tem a forma de um conto a um amigo. Que é ele próprio, referido-se no início às críticas a "uma crónica curiosíssima sobre a Guiné Portuguesa firmada por teu nome".
A obra foi impressa, para a Editorial Inquérito, em 22 de Maio de 1945 no Centro Tipográfico Colonial, Lg. Rafael Bordalo Pinheiro, 27 e 28, em Lisboa. Recordo que a 7 de Maio desse ano se deu a rendição do governo alemão, depois do suicídio de Hitler a 30 de Abril. A obra já estaria escrita, portanto.
O exemplar tem aquele carimbo da Biblioteca Popular de Lisboa. Esta biblioteca foi criada em 1 de Abril de 1918 e extinta, porquê não sei, em 28 de Julho de 2001. O seu espólio relativo a 1911-1950 está na Biblioteca Nacional e o relativo a 1951-2001 na Torre do Tombo.
Sobre Fausto Duarte e a sua obra podem ler o que diz Leopoldo Amado em http://coisasdaguine.blogspot.com/2011/12/311-literatura-colonial-guineense.html.
Sobre Fausto Duarte e a sua obra podem ler o que diz Leopoldo Amado em http://coisasdaguine.blogspot.com/2011/12/311-literatura-colonial-guineense.html.
O GOMIL [jarro para água] DE PRATA
Meu caro amigo:
Não sei quando e onde li uma crónica curiosíssima sobre a Guiné Portuguesa
firmada por teu nome, que de golpe foi descoberto pelos telescópios da crítica
no apertado céu literário da nossa terra como estrela de grandeza primeira. Tão
grande influência exerceram em mim as cores de que te serviste para pintar
estranhezas, que à beleza rebuscada e artificial das paisagens europeias preferi
o verde primitivo e desordenado de palmeiras e tamarindos, a vida singela do
indígena enquadrado na muralha alta
de hábitos milenários, e o esforço - que dizes ser ignorado -- dos colonos,
mancha exótica no grande formigueiro
humano que é hoje a África.
Da Guiné, ou melhor das Conquistas, nunca
passei do que me ensinaram os compêndios escolares e o acaso de uma ou outra
leitura respigada dos jornais. Tal entusiasmo puseste, porém, na pintura dos quadros africanos, tal viveza no
colorido das imagens, que me abraçou a convicção de que só nas latitudes
próximas do equador valeria a pena viver a vida. E no jeito de quem se despede
do mundo, do seu «mundo», disse adeus ao Chiado e parti em guisa dos que não
morrem sem ter descoberto qualquer coisa na vida, ainda que seja um princípio
filosófico ou uma doutrina política.
No barco ronceiro a que nada têm a invejar as
primitivas máquinas de Fulton e que navegava crivado de luzes em ambos os
bordos sinalizados com as cores nacionais - não fossem os submarinos nazis
confundi-lo com a boa preza britânica - deparou-se-me uma fauna humana díspar,
heterogénea, confusa, dividida por classes que se ignoravam, três castas mais
diferenciadas do que as que enxameiam a Índia. Em todas elas minava, porém, esse
desconsolo tão visceralmente português. Vi ali vaidades e despeitos, muita
malícia ou antes malignidades mal dissimuladas, e foram-me revelados segredos
tisnando reputações.
Quando o tédio me levou à proa e vi grupos de
gente miseranda entregue ao devaneio, à fantasia
de criar a umas centenas de milhas uma terra onde tudo seria extraordinariamente
fácil, lembrei-me que ela afinal pouco se diferenciava dos emigrantes de há
séculos, dos aventureiros das naus «que iam como carneiros, a monte, nas
toldas, expostos ao sereno mortífero das noutes, sem cama para os enfermos,
respirando o ar podre das cobertas»...
Tive, contudo, a boa fortuna de partilhar a mesma cabina com o único
indivíduo com quem se poderia conversar a bordo: um comerciante culto, de
educação primorosa, apaixonado por cousas de África, que nunca tivera assento
em Conselhos de Governo, e soubera com elegância e agilidade espiritual furtar-se às solenidades palacianas. Sua mala
guarda-roupa dissera-me, através de alguns rótulos coloridos, por que países
viajara pela Europa atacada de loucura. A linha dos ombros mostrava que sabia
vestir uma casaca. Tinha boas maneiras, o que o distinguia do resto dos
passageiros. Desbobinara durante esses longos dias de viagem perante os meus
olhos extasiados toda a babelesca confusão que é a Guiné.
Faltavam poucas horas para
chegarmos ao termo da nossa viagem, quando descemos pela última vez à cabina. Recolhi à pressa alguns artigos de
toilete, afivelei as duas malas e o saco de viagem e, através da vigia,
observei as terras baixas, marginadas de palmeiras. O meu companheiro debruçado
sobre uma mala de couro da Rússia estava inteiramente absorvido na contemplação
de qualquer cousa que eu não conseguia descortinar. Entre mim e o objecto de
sua admiração interpunham-se seus ombros largos, a sua figura esbelta que
envergava então um fato branco de corte impecável. Um suspiro breve, quase
imperceptível, a sua imobilidade e a atenção concentrada na parte interior da
mala, despertaram-me a curiosidade. Sabia-o céptico, desiludido por alguns
anos de África. Êle adivinhou o meu interesse, sentiu o meu olhar sobre a nuca. Fechou a mala.
Seus dedos procuraram as chaves. Hesitou um instante, e como que decidido por
qualquer súbita resolução abriu-a novamente.
- Quer ver?
- ?!
Afastou-se para o lado e suas mãos apresentaram-me
um gomi! de prata, com incrustações em ouro, cujo brilho e elegância de desenho
do mais puro tipo oriental me deslumbraram. Era um objecto raro, precioso, que
o mais exigente coleccionador de antiguidades ambicionaria possuir para regalo
dos olhos e da paixão por tudo quanto a beleza e o tempo marcaram de modo
indelével.
Desejoso de ver de perto o objecto de sua singular
admiração avancei um passo e adiantei a mão direita para o segurar. Logo o seu
braço se interpôs. E como eu o olhasse estupefacto, explicou aflito:
- Não lhe toque, por amor de Deus! Você poderia
ser vítima de uma fatalidade.
- Por que razão? perguntei estranhando a credulidade surpersticiosa em um
homem como ele. - Tabu! confessou penalizado José de Castro - assim se chamava
o meu companheiro de viagem.
E depois indo ao encontro do meu assombro, das ideas
que me assaltavam, propôs:
- Vamos para o deck. Lá em cima lhe contarei a história. Temos tempo. Mas
antes disso leia o que aqui está escrito. Cuidado. Não lhe mexa! Faça-me esse
favor. Depois compreenderá o motivo. Viu? Repare nestas letras. O quê? Ah! sim
... Não compreende a caligrafia em uso no século XVII? Eu explico. Aqui em
cima, na primeira linha, veja: «Maria
de Vilaldo». Da melhor nobreza do tempo. Era mulher de um capitão-mor de Goa. Depois,
entre os dois pontos em que esta asa tão admirável pelo fino traço de suas
curvas parece querer desprender-se do gornil, uma data: «1603». E em baixo um
nome: «Santa Teresa». Confesso, meu caro amigo, que não é descabida a sua
admiração. Sucedeu-me o mesmo. Quando conhecer o drama que se liga a estas
letras e números riscados penosamen e com um instrumento de ponta, o seu interesse
aumentará.
Batido pelos raios do sol o metal lampejou. José de Castro apressou-se a embrulhá-lo com
cautela e delicadezas de namorado em um pano de seda, e, cuidadosamente, fechou
a mala. Subimos ao convés. O ar que ali se respirava já não tinha a mesma
leveza. A terra estava próxima. Estranhei pela primeira vez o meu companheiro
de viagem. Seus olhos estavam tristes. Confesso que me senti atraído por aquele
mistério que suas palavras permitiam entrever. Passeámos na coberta durante
uns minutos sem trocar palavra. Meus olhos vaguearam ao acaso pela baía. Ao
fundo, pintadas de amarelo ou cinzento, casas insignificantes, sem o mais leve
traço de arquitectura tropical como eu sonhara ao ler uma revista estrangeira
com fotografias da cidade javanesa de Batávia. Alguns dongos deslocando-se sob
a pressão da remada parecia aflorarem apenas à
superficie suja do rio que lembrava, pela cor, água estagnada. Um grito
lançado de um barco que ia partir trouxe-me o primeiro contacto com o nativo. Seguiu-se-lhe
um coro de vozes tocadas de melancolia. Era assim talvez que os pretos
abafavam suas amarguras quando os negreiros ali aportavam e os metiam a bordo
para os deixar do outro lado do grande oceano.
José de Castro todo entregue
ao seu cuidar nada dizia. Depois, como se a mesma decisão nos colhesse de
chofre, entrámos para o bar. O criado correu solicito.
- Traga whisky! - ordenou ele.
Acendemos os cigarros. José de
Castro ajeitou o vinco das calças, ergueu o rosto, olhou-me de frente, e,
sorrindo, como que refeito duma penosa impressão, falou:
- Há cinco anos um negócio de
oleaginosas obrigou-me a ir até Uracan, uma das ilhas do Arquipélago dos Bijagós. Você
verá que são estes os indígenas de hábitos mais curiosos de toda a Guiné. Depois
de ultimado o assunto que ali me levara percorri a ilha a pé. A uma dúzia de
quilómetros do porto fui surpreendido
pelo ruído do tantã, e logo a seguir se me deparou uma aldeia acogulada de
povo. O nativo que me acompanhava e conhecia o dialecto local indagou o que era
e trouxe-me a novidade: o chef estava a morrer. Esperava-se a todo o instante o
desenlace. Aproximei-me. Quis ver o quadro. Admira-se? Saiba que nunca me repugnaram
os hábitos deles .
O criado voltara com os copos
e a garrafa em cujo rótulo se destacava o nome do fabricante escocês: John
Walker. Serviu-nos e retirou-se discretamente. Fizemos mecanicamente a
saüdação habitual:
- Chim, chim!
- Chim, chim!
José de Castro pousou o copo. A luz punha reflexos de ouro na preciosa bebida. O aroma do tabaco
loiro impregnava o ambiente de um odor agradável. Ouviam-se os passos
apressados da marujada que eu distinguia através duma janela com cortinas
amarelas presas por cordões de seda.
- Entrei na palhota. Os indígenas não se opuseram, continuou José de
Castro, pousando novamente o copo na mesa e retirando o cigarro do cinzeiro. E
vi sobre um miserável catre a figura torturada de um homem de meia idade. Tomei-lhe o pulso entre os dedos e
soergui-lhe as pálpebras. Logo adivinhei a extensão do mal. Não se espante, meu
caro amigo. A África é a grande rnestra
da vida. Aqui, o isolamento e a necessidade dão invejável soma de experiência. Tirei do estojo uma seringa e dei-lhe uma injecção de soro
antiofílico. Aquelas ilhas são verdadeiros ninhos de cobras, Quem
andar por lá tem de estar prevenido. Decidi aguardar a evolução do mal. Dois
dias depois o nativo sorria, agradecido.
Falou-me e não entendi. Chamei o
criado. Entretanto o chefe Ievantara-se com grande dificuldade, e de um pote de
barro retirou o gomil de prata que você há pouco viu, enrolado em panos sujos.
É curioso ver como aquela gente bem
dotada pela natureza, inteligente e sofredora, com um sentimento claro de
independência, viril e sã, não tem a menor noção de higiene. Pois bem, o chefe,
como eu dizia, tomara o gomil e pôs-mo na mão. Como me visse atónito disse ao
criado que mo oferecia. Era uma coisa que pertencera ao pai, ao avô e por este
herdado de outros ascendentes. Sabia que um deles o encontrara enterrado; que
pertencera aos brancos ali chegados num grande barco; que toda a sua gente
morrera de morte violenta. E porque fora pertença de um homem da raça daquele
que o salvara, devolvia-lho, na certeza de que o mal teria com isso o seu fim.
José de Castro sacudiu a cinza do cigarro. Uma
ruga ensombrara-lhe a testa.
- Abandonei a palhota e prossegui no meu caminho.
Andei pela ilha durante uns dias, encontrei restos de uma bombarda, de dois
berços – peças curtas que se usavam ao tempo - e com informações imprecisas, detidas
pelos anos, procurei descobrir, como um sábio que na posse de um simples osso
reconstitui o esqueleto de um animal antediluviano, o fio inicial do enredo. Sim,
meu caro. Eu pressentia, ou melhor tinha a certeza de que essas letras e
números me conduziriam à verdade, rematou ele indicando
ao criado os copos vazios.
- E soube alguma coisa? - preguntei interessado enquanto o criado nos
servia.
- Estou hoje de posse da verdade. Para isso tive de ir a Lisboa.
Ante o meu cenho franzido, a minha expressão interrogativa senão duvidosa,
de espanto perante a inesperada informação que dava novo rumo ao caso, êle
persistiu:
- Regresso de Lisboa, como vê. Freqüentei bibliotecas, analisei, comparei
textos, narrativas de nossos feitos no Oriente, e depois de muito meditar achei
a solução do problema. Lembra-se da data e dos nomes? Ainda bem. Estes foram os
.principais elementos, o começo do enredo. A leitura casual de ignorados
documentos forneceu-me o resto. Quer ouvir?
Fora aumentara a azáfama da chegada. Os passageiros
ocupados com a bagagem, com as preocupações do desembarque, tinham esquecido o
bar. Era o único recanto sossegado a bordo. Tínhamos sorte. Se o «barman» não
estivesse ali a agitar o «shaker» o silêncio seria quase absoluto.
- Em 1603, a nau «Santa Teresa», de regresso da Índia, naufragou perto da
ilha de Uracan, atraída de noite por uma fogueira feita com falsidade por
indígenas, à maneira de que praticavam os povos do litoral mediterrânico,
mestres na arte do embuste. Julgavam os marinheiros ter na frente gente amiga.
Como necessitassem talvez de fazer aguada, aproaram na direcção da luz. Não é difícil imaginar o caso. Gente com meses
de viagem longa e tormentosa, em um barco pequeno, sem o menor conforto. Uma
luz no meio da desesperança da rota sem fim. Céu e água. Vários tons de azul.
Sol, noites estreladas e depois sol novamente. E o mar imenso sempre em
frente das pupilas ardentes, dos olhos ensaüdados, a encher a alma de
angústia. Aquela luz devia ter representado um alto no sofrimento das pessoas
que viajavam na nau.
José de Castro levou o copo aos lábios, mas não
bebeu. Estava sob a impressão da evocação do drama cujas cenas lhe afloravam aos
lábios com facilidade como se ele o tivesse vivido.
- A bordo devia estar pela certa algum sacerdote. Era
hábito. Ele devia ter abençoado o luzeiro. O capitão da nau e os fidalgos
deviam ter interrogado os mapas para determinarem a posição, saber que porto
era aquele. Mas você sabe como eram ao tempo insuficientes as cartas. Um engano
nos rumos. Nada mais fácil. Obedecia-se aos ventos e às correntes. Caídos na
cilada foram vítimas da abordagem e do massacre. Os fidalgos, os soldados da Índia,
defenderam as suas vidas, os seus haveres de espada na mão, prontos a matar e a
morrer. Apenas se salvou uma mulher. Chamava-se ela: «Maria de Vilaldo». A nau
era a «Santa Teresa», e o naufrágio deu-se em uma noite sombria do ano de «1603». Trouxeram-na os indígenas para
a terra e ela foi logo cobiçada pelos olhos sensuais do rei. Não é difícil
reconstituir a cena. Deslumbrado pela formosura da branca, adorando-a como se
se tratasse de um ídolo, um dos filhos do régulo matou o pai e fugiu com Maria
de Vilaldo numa canoa. Andaram perdidos. O nativo respeitou-a. Sofreram
privações, e antes dele aportar à feitoria mais próxima onde viviam alguns
brancos, Maria de Vilaldo morria. Levou-lhes o cadáver. Os colonos, sem o
ouvir, justiçaram-no. Na fuga precipitada a branca deixara cair na praia o
gomil de prata que trouxera consigo do Oriente. Inscrevera nele durante as
horas de angústia numa palhota indígena, como recordação, os nomes e os números
que você leu, concluíu José de Castro bebendo o resto do whisky.
O vapor apitou.
Três gemidos longos saudando a terra mordida de sol.
Despedi-me de José de Castro.
Quatro meses depois soube que um torado, espécie de tufão que varre a Guiné na
época pluviosa, o surpreendera próximo da Ilha de Uracan. O barco desaparecera
e com ele o exportador de oleaginosas,
figura insinuante de verdadeiro colono, vítima do mal importado da Ásia através
desse objecto de arte oriental que fizera naufragar a «Santa Teresa» e
perseguira uma tribo inteira naquela ignorada ilha.
Crê, meu amigo, que desde
então os fetiches nunca mais deixaram de me impressionar.
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8 de janeiro de 2012
4 de janeiro de 2012
344-Operação Safira Solitária
Com a devida vénia e agradecimento ao Carlos Fortunato dos Leões Negros.
20 de Dezembro 1971 - Operação Safira Solitária realizada por duas companhias de comandos africanos na
zona de Morés, Oeste da Guiné, com vários contactos com forças do PAIGC. Disse
o Comunicado Especial do Comando-Chefe:
“...Montada a operação, denominada "Safira
Solitária", foi esta levada a efeito por unidades da força africana e teve
início ao alvorecer do dia 20 prolongando-se até à tarde do dia 26 tendo as
nossas forças sido guiadas na floresta por elementos das populações da área
pertencentes à nossa rede de informações que conhecia a localização precisa das
posições inimigas. Apesar de colhido de surpresa o inimigo estimado em 6 bigrupos, 2
grupos armados de armas pesadas instalados em posições fortificadas e cerca de
333 elementos armados da milícia popular, opôs durante os três primeiros dias
tenaz resistência acabando todavia por ser desarticulado e aniquilado, tendo
sofrido 215 mortos confirmados, entre os quais três cubanos, e alguns
mercenários estrangeiros africanos, 28 capturados, além de apreciável número de
feridos. Segundo declarações dos capturados, encontravam-se na área pelo menos
mais 4 elementos cubanos. Verificou-se que o inimigo estava implantando
no Morés um sistema de fortificação de campanha do qual se destacavam espaldões
para armas pesadas e abrigos subterrâneos para pessoal. Os grupos de
guerrilha, pela resistência que ofereceram revelaram uma sensível melhoria de
enquadramento e uma técnica mais avançada de guerra de posição. No
decurso da operação foi capturado o seguinte material: 1 canhão sem recúo B-10,
2 morteiros de 82 mm, 2 morteiros de 60mm, 3 metralhadoras pesadas Goryonov, 7
lança-granadas RPG-7, 14 espingardas automáticas Kalashnikov, 38 espingardas
semi-automáticas Simonov, 8 espingardas Mosin Nagant, 14 pistolas metralhadoras
PPSH, além de avultado número de armas de repetição, de cunhetes de munições,
fitas e carregadores, destruídos no local por desnecessários. As nossas forças
sofreram 8 mortos, 12 feridos graves e 41 feridos ligeiros."
Amadu Bailó Djaló alferes da 1ªCompanhia de Comandos
Africanos, conta que o seu grupo não participou no inicio da operação, e quando se juntou aos
restantes comandos, estes estavam concentrados na zona dos cajueiros do Morés,
que era perto da barraca central. Quando lá chegou começava a anoitecer, e
apercebeu-se que já estavam ali desde o meio-dia, pelo que alertou para o
perigo que isso representava, mas responderam-lhe, que se atacassem era bom,
era maneira como lhe apanhava-mos todas as armas, pois estavam ali 200
comandos.
Quando a noite caiu, o PAIGC atacou, um violento e
certeiro bombardeamento de morteiros, provocou de imediato muitos feridos, e
uma fuga precipitada para outra posição, lançando a confusão.
"Tivemos que fugir rapidamente para outra posição,
pois as granadas caíram mesmo em cima de nós. mas depois regressei novamente ao
local onde tinha estado, dado ter deixado lá a minha arma."
Quando procurava a arma, uma voz chamou-o, era um soldado
ferido, disse-lhe que estava ferido nos pés, como estava muito escuro,
apalpou-lhe os pés para ver como estavam, eram uma massa de sangue, foi chamar
o enfermeiro. O enfermeiro chamou-o à parte e disse-lhe que não havia
nada a fazer, ele iria morrer durante a noite, pois iria esvaziar-se em sangue
até de manhã, altura em que poderia ser evacuado.
“Amadu voltou para me juntar ao meu grupo, mas no caminho
chamaram-no novamente, era outro soldado ferido”.
Estava ferido numa perna, parecia que tinha um tendão
cortado, mas não teve tempo para o ajudar, a resposta dos comandos africanos ao
poder de fogo do PAIGC revelava-se insuficiente para deter, e este avançava
rapidamente no terreno, ao assalto às posições dos comandos, pelo que lhe disse
voltaria para o vir buscar (quando lá voltou tinha sido morto pelo PAIGC com um
tiro na cabeça).
Amadu juntou-se ao seu grupo, e recuaram novamente,
inicialmente queriam recuar para a zona das bananeiras, que era um local escuro
e que dava alguma protecção, mas a Amadu pareceu-lhe demasiado óbvio, e disse
para recuarem para o meio do capim, local com pouca protecção.
"O PAIGC bombardeou com morteiros a zona das
bananeiras, suspeitando que nós estávamos lá, e passou perto de nós da zona do
capim, gritavam: "Cú, Cú", "Comando", "Aparece
se és homem", mas ficamos calados." - comenta Amadu.
Os confrontos pararam, pois conseguiram não ser
detectados, e ao amanhecer deslocaram-se para uma zona, onde pudessem evacuar
os feridos, mas ai receberam ordem para regressar, e o assalto à barraca
central nunca se efectuou.
Quebá Sedi combateu desde 1963 até 1974, foi chefe de um
bigrupo no Morés, e lembra-se bem da operação ocorrida em Dezembro de 1971, em
que a tropa veio passar o natal com os combatentes pela liberdade da
pátria. Segundo as suas palavras, o que se passou foi o seguinte:
“Primeiro veio uma avioneta que andou a sobrevoar a mata,
depois durante 13 dias, bombardeiros, helicópteros, e os canhões do Olossato,
Bissorã, Cutia e Mansabá, bombardearam de dia e de noite o Morés. No fim dos
bombardeamentos, devem ter pensado que estava tudo morto, e helicópteros
trouxeram as tropas, que largaram em várias zonas, à volta do Morés. Os
combatentes fizeram-lhes duas emboscadas, mas depois perderam-lhes o rasto,
muita gente pensou que se tivessem ido embora, pois não de ouvia nada. As
tropas tinham-se reunido no Morés, na zona dos cajueiros, muito perto da
barraca grande do Morés, era véspera de Natal, e era sua intenção atacar a
barraca grande do Morés, no dia seguinte, pelo que passaram aqui a noite.
Um homem grande detectou o brilho de um cigarro, de um soldado que estava de pé
a fumar, com a arma ao lado, e foi avisar os combatentes da barraca
grande. O comandante da barraca grande era Abu Ladja, mas existiam ali
outros comandantes como Lamam Sisse, Dique Daringue, e outros. Gerou-se
alguma discussão se era mesmo tropa que estava ali, pois não queriam ir
bombardear a população, uns diziam "É tuga", outros "É cá
tuga". Dique Daringue foi encarregado de investigar, e os combatentes
levaram 2 morteiros 60 e 2 morteiros 82. Dique Daringue para ter a certeza
de que era tropa mandou disparar uma rajada, em resposta ouviu-se falar
português, eram "tugas", e abriu-se fogo. As tropas tiveram
muitos mortos e feridos, foram apanhadas muitas armas e um rádio. As tropas
também conseguiram apanhar algumas armas, pois dias antes tinham encontrado em
Bongontom uma arrecadação com armas velhas, e outra com armas novas no Morés".
(Publicado em 21/05/2006, e revisto em 1/08/2007 por
Carlos Fortunato, http://leoesnegros.com.sapo.pt/ )
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A. Marques Lopes
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