CONSULTAS

Para consultas, além da "Caixa de pesquisa" em cima à esquerda podem procurar em "Etiquetas", em baixo do lado direito, ou ver em PÁGINAS, mais abaixo ainda do lado direito, o "Mapa do Blogue"

Este blogue pode ser visto também em
Mostrar mensagens com a etiqueta papéis. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta papéis. Mostrar todas as mensagens

10 de junho de 2012

504-Os panos dos papéis


OS PANOS DOS PAPÉIS E AS BALOBAS DE MARIANA

Fernando Peixeiro, da Agência Lusa
Bissau, 09 jun (Lusa) - Os tradicionais panos de pente da Guiné-Bissau voltaram a fazer-se, a cultura da etnia Papel é divulgada e Quinhamel é um polo turístico já este ano. Porque a Mariana, um dia, conheceu na Roménia um guineense.
É em Quinhamel, a poucos quilómetros de Bissau, que Mariana Ferreira dirige a Artissal, uma organização não-governamental que acolhe uma sala de tecelagem onde diariamente trabalham 22 tecelões e outros tantos aprendizes (familiares, porque o aprendiz tem de ser sempre da família).
São Papéis (uma das etnias da Guiné-Bissau) e fazem pano de pente, tradicional do país, com teares melhorados, mas de base idêntica aos que existiram até quase terem caído no esquecimento, há uma década. Mais a norte, em Calequisse, outros 22 homens, Manjacos de etnia, trabalham também em pano de pente, patrocinados pela Artissal.
A tradição quase se perdeu na Guiné-Bissau, mas foi recuperada através da organização, criada por uma romena formada em música e artes plásticas e que um dia conheceu no seu país um guineense estudante, com quem se casou, passando a viver na Guiné-Bissau a partir de 1986.
Mariana deu aulas, ensinou música, promoveu a cultura, publicou livros de recolhas de músicas tradicionais, deu a conhecer artes como cestaria e olaria. Tudo passado. O "presente" começou há oito anos: "fundei a Artissal em 2004 aqui em Quinhamel e a cooperação portuguesa financiou a construção da fábrica, o atelier. Fizemos voltar do Senegal 22 pessoas que sabiam fazer pano de pente, mas que tinham emigrado porque aqui já não se fazia".
Esse trabalho de sensibilização, e também de alfabetização e formação, durou dois anos. A Artissal começou a fazer panos tradicionais em 2006. É membro da organização africana de comércio justo e fazia cerca de cinco mil euros mensais em vendas na loja de Bissau, até ao golpe de Estado de 12 de abril. Também exporta para Portugal.
Porque a tecelagem é coisa de homens, a Artissal "começou a pensar em integrar as mulheres deles". Com mais apoios, desta vez espanhóis, formaram-se 16 costureiras.
Mas não chegava. "Temos de viver das vendas, o que é muito vulnerável", diz Mariana Ferreira. Cabelo apanhado, ar sério, português com ligeiro sotaque, acrescenta: "pensámos numa estrutura que pudesse ligar tudo, pensámos num pequeno polo turístico que pudesse englobar o pano de pente, um projeto de turismo diferente, baseado na riqueza cultural da região de Biombo" (onde se integra Quinhamel).
E foi assim que de uma organização de produção e divulgação de panos tradicionais, coloridos e com motivos recuperados nas tabancas (pequenos aglomerados do interior), a Artissal, de novo com apoio português (Instituto Marquês de Valle Flôr), se lançou no turismo cultural.
Ao lado da fábrica de tecelagem fizeram-se 'bungalows' e voltou-se a ir ao povo. "Conseguimos fazer essa gente perceber que podíamos levar pequenos grupos de pessoas, interessados no que eles têm e que tem valor para essas pessoas".
Com o aval das comunidades a Artissal criou o "circuito das Balobas", locais sagrados dos Papéis, o "circuito dos saberes", mostrando aos turistas o pequeno artesanato local, e um circuito de passeio. E deu emprego a mais 16 pessoas.
Ainda em fase experimental, o projeto turístico deve desenvolver-se este ano. Porque o da tecelagem está em pleno, com os mestres a ensinarem aos aprendizes ("não há uma escola de tecelagem, passa-se de pai para filho, para sobrinho") como se faz e o que representa o pano de pente.
"O pano é um objeto de grande significado para a etnia Papel, intervém em todas as etapas da sua vida e é um objeto sagrado. Quantos mais panos se arrecada em vida mais rico se é", conta Mariana Ferreira, ao lado de homens a tecer panos coloridos e padrões ancestrais, ajudados por outros mais jovens. Serão colchas, serão toalhas de mesa, serão roupas, serão também bolsas e carteiras.
"A Artissal surgiu no desejo de defender um pouco aquilo que era o património guineense que era o pano de pente, e conseguir gerar emprego autónomo através de uma profissão antiga mas que estava quase em vias de desaparecer, a tecelagem", resume Mariana.
Atelier mas também escola e polo turístico, a Artissal é ainda centro de conferências e de apoio a pequenas produções locais. E será o que o "engenho e arte" de Mariana Ferreira ditar.
"A ideia agora é parar seis meses para ver o que esta simbiose vai dar", diz. Mas já pensa em expandir o turismo a outras regiões da Guiné-Bissau. Assim o país estabilize e os turistas voltem. Para comprar panos de pente e fazer o "circuito das Balobas".
Fonte no net: http://paginaglobal.blogspot.ch (09.06.12)

14 de janeiro de 2012

350-A cristianização dos reis de Bissau

A gravura da capa representa a planta da praça de S. José de Bissau segundo José Luís de Braun, 1780
(Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa)
###
No final vão vários mapas, e gravuras e fotografias incluídas na obra.
###
O próprio Avelino Teixeira da Mota, na nota introdutória que faz ao livro, dá-nos uma breve ideia do seu conteúdo:
Ao invés do que se verifica em relação às cidades de Angola e de Moçambique, cuja história tem merecido a atenção de numerosos estu­diosos, o passado da cidade e da ilha de Bissau não tem concitado gran­des atenções, Além do contido nas monografias clássicas de Chelmicki e Varnhagen e de Lopes de Lima, respeitantes a Cabo Verde e à Guiné, nas histórias gerais de Sena Barcelos e de João Barreto e em alguns relatórios de governadores, a bem pouco se reduz a bibliografia da his­tória de Bissau. Assim, apenas nos ocorrem, nesse domínio, certas par­tes do relatório do médico Damasceno Isac da Costa, o estudo de Cunha Saraiva sobre a última fortaleza, a anotação de Damião Peres sobre a defesa castrense da povoação e o cuidado, mas breve, estudo de Fausto Duarte (1).
Se é esta a situação no que respeita à história da povoação, ela é ainda bem pior no concernente ao estudo do passado dos Papéis, o grupo étnico que vivia na ilha quando a ela chegaram os Portugueses, pois aquele está praticamente por fazer,
O presente livro pretende trazer uma contribuição para a melhoria dos conhecimentos nesse duplo campo, o da história da povoação onde se fixaram os Portugueses e o da história dos Papéis da ilha. Neste último aspecto já nada pudemos recolher nos domínios da tradição oral; uma indagação rápida não nos permitiu saber de informadores fidedignos na zona oriental da ilha, onde se situa a cidade capital, e a inexistência ou raridade deles aí foi-nos confirmada por Fernando Rogado Ouintino, que desde há bastante tempo se ocupa do estudo do povo papel, O crescimento da cidade e o caldeamento das populações parece terem já levado os Papéis dessa zona ao olvido do seu passado, afigurando-se que será sobretudo com os habitantes da zona ocidental da ilha (Tor e Biombo), ainda marcadamente rural e muito mais tradicional, que haverá que contar para tentar salvar do total esquecimento algo que ainda reste na memória de alguns homens velhos (2),
Em boa parte, os textos mais importantes que servem de base a este volume foram recolhidos no decurso dos trabalhos, que se desen­rolam desde 1963, para a edição das fontes antigas portuguesas (séculos XV-XVII) relativas à Africa ocidental entre o Senegal e a Serra Leoa e com interesse para a história da geografia e dos povos africanos, De certo modo, o presente livro abre a série, embora os textos publicados sejam na maioria do final do século XVII e apenas venham a lume na língua original e sem as versões francesa e inglesa previstas para o con­junto, já que quase só dizem respeito a territórios e povos incluídos na Guiné Portuguesa,
O período em que foram escritos, o dos dois últimos decénios do século XVII, é certamente um dos mais interessantes da história de Bissau, e talvez dos menos conhecidos. Devido, sobretudo, às vantagens da sua situação geográfica, mais que às condições, sofríveis, do seu porto, a importância da povoação escolhida pelos Portugueses para se estabele­cerem no rio Grande foi crescendo ao longo desse século, e isso não podia deixar de acarretar conflitos com outros europeus interessados em se expandirem na área dos «Rios da Guiné de Cabo Verde», Esse facto trouxe incidências na própria acção missionária, já que à presença dos capuchinhos espanhóis, até então tolerada na Guiné na maior parte dos casos, era natural que se preferisse a de frades portugueses,
A defesa contra os concorrentes estrangeiros no comércio - sobre­tudo os Franceses - logicamente conduziu ao propósito de construir no porto de Bissau uma fortaleza que lhes impedisse o tráfico livre, Por sua vez, tal facto trazia alterações importantes nas relações entre os Portugueses e os Papéis, com larga possibilidade de conflitos. A forta­leza fez-se, e passados poucos anos, ainda inacabada, el-rei de Portugal mandou-a arrasar, desistindo por então de impor o monopólio comercial; atitude prudente, até porque, adversários de Portugal na guerra da suces­são de Espanha (1703-1713), os Franceses saquearam durante ela a cidade da Ribeira Grande, na ilha de Santiago de Cabo Verde, a cidade do Rio de Janeiro e a ilha do Príncipe, e certamente lhes teria sido fácil tomar o forte que os Portugueses tivessem em Bissau. No povoado fica­ram os missionários e os comerciantes, até que, meio século volvido, se iniciou a construção da majestosa fortaleza de S. José, com o poderoso amparo da Companhia do Grão-Pará e Maranhão.
Dos seis textos que agora se editam, o primeiro, de começos do século XVII, constitui a mais antiga descrição, com relativo desenvolvi­mento, da ilha e dos Papéis. Inédito até aqui, é capítulo da Etiópia Me­nor, do jesuíta Manuel Álvares, que foi devotado missionário na Serra Leoa, onde morreu em 1617.
Quatro dos restantes textos dizem respeito à acção missionária, sendo dois da autoria de Fr. Vitoriano Portuense, bispo de Cabo Verde, e outro relacionado com a sua acção. Explica-se, assim, que o presente livro, como é expresso no seu título, esteja centrado na actividade desse notável missionário, que fez duas viagens à Guiné e interveio activa­mente nos acontecimentos que por então se desenrolaram em Bissau.
O primeiro desses textos é a carta em que o bispo dá conta a D. Pedro II da sua primeira viagem, em 1694. Foi publicada na sua maior parte pelo P:e António Joaquim Dias Dinis, em 1937, e edita-se agora na totalidade.
Baseia-se nela em parte um opúsculo muito raro, saído em 1695, em que se descreve também o baptismo, em Lisboa, de um filho do rei de Bissau. Embora o publicássemos em periódico de Bissau em 1964 e 1965, novamente se edita agora, dada a sua grande relação com outros textos.
Pudemos localizar o relato da parte inicial da segunda viagem de Fr. Vitoriano Portuense à Guiné, contendo a descrição do baptismo, em vésperas de morrer, do rei de Bissau, Bacampolo Có ou D. Pedro. Publica-se também agora pela primeira vez, julgando-se ser totalmente desconhecido antes, pois nem sequer o minucioso cronista da Província da Soledade, Fr. Francisco de Santiago, o cita ou utiliza.
Após estes quatro textos portugueses, editam-se mais um em fran­cês e outro em espanhol. Aquele é um trecho, infelizmente truncado no começo, respeitante à ilha de Bissau e à viagem que lá fez em 1686-1687 o senhor de La Courbe; servimo-nos da edição de 1913 de Cultru. É um texto valioso, pela sua objectividade e pela soma de elementos que dá relativos à influência portuguesa,
La Courbe encontrou em Bissau três capuchinhos espanhóis, e fala­-nos do manifesto contra a escravatura por eles feito, É este um assunto que tem andado envolvido em certa confusão, o que em parte se deve à deficiente maneira como o relato de La Courbe foi utilizado no conhe­cido livro de Labat sobre a África ocidental, Sabia-se que um exemplar do manifesto chegara a Roma, por via do núncio em Portugal, e que dele se ocupara a Propaganda Fide, e só apenas através das actas das sessões desta se tinha uma ideia do seu conteúdo, O texto que agora trazemos a lume é o do exemplar enviado ao rei de Portugal, e o seu conhecimento vem lançar muita luz na matéria, Talvez tal documento tenha contri­buído para as viagens de Fr, Vitoriano Portuense à Guiné e para certas formas da sua actuação, nomeadamente no que se refere ao baptismo dos escravos,
Os seis textos são precedidos de um estudo, acompanhados de notas e seguidos de um apêndice documental em que se transcrevem várias fontes que muito contribuem para a sua melhor compreensão e para mais perfeito esclarecimento dos factos ocorridos então em Bissau,
O nosso estudo destina-se sobretudo a apresentar tais textos e a facilitar a sua interpretação, e de modo algum pretende ser uma análise aprofundada dos acontecimentos da época, para o que lhe falecem muitos elementos, nomeadamente no campo económico,
Do conjunto desses textos, dos documentos finais e daquilo que escrevemos, ressaltam numerosos conflitos em vários campos: entre mis­sionários espanhóis e missionários portugueses, entre portugueses e [ran­ceses, entre europeus e africanos, entre o bispo de Cabo Verde e o capi­tão-mar de Bissau, etc, Cremos haver aí bastante matéria pata reflexão e para mais aprofundado estudo,
Apraz-nos ainda salientar que várias das fontes que transcrevemos ou utilizamos documentam o alto critério e notória prudência de vários pareceres do Conselho Ultramarino em questões abordadas neste livro, pelo que julgamos que este traz um modesto contributo pata a história desse venerando órgão da administração do ultramar, Em ilustrações fora do texto apresenta-se uma selecção de espécies cartográficas (de meados do século XVII a meados do século XVIII), que desde há muito vimos inventariando com vista ao estudo da história da cartografia de Bissau e zonas próximas.

(1)    DAMASCENO ISAC DA COSTA, Relatório do Serviço da Delegação da [unta de Sal/de na vil/a de Bissau respectivo ao mll!o de 1884, Lisboa, 1887, 91 pp.; JosÉ MENDO DA CUNHA SARAIVA, «A fortaleza de Bissau e a Companhia do Grão Pará e Maranhão», in Congresso Comemorativo do V Centenário do Descobrimento da Guiné, Lisboa, I, 1946, pp. 157-91; DAMIÃO PERES, Planta da Praça de Bissau e suas adjacentes por Bernardino Amónio Alvares de Andrade, Lisboa, 1952; Auuário da Guiné Portuguesa, Bissau, 1946, pp. 207-229 (pp. 357-409 na edição de 1948).
(2)    (2) Ao menos no que respeita a genealogias e listas de reis, De um povo afim, os Man­jacos de Caió, ainda foi possível, há um quarto de século, recolher a relação dos reis: ARTUR MARTINS DE MEIRELES, «Baiú (Gentes de Kaiú)», in Boletim Cultural da Guiné Por­tuguesa, III, 11, Julho 1948, pp. 607-638.


Luanda, Novembro de 1970.

A. TEIXEIRA DA MOTA
Papeis e Bissau
View more documents from Cantacunda.

1 de setembro de 2011

11 de agosto de 2011

233-Coluna de operações contra os papéis em 1915

Trata-se de uma das operações realizadas durante "As batalhas de Bissau". Começou a 5 de Junho, com a tomada de Intim. A 10 ocupou Antula e a 12 chegou a Jaal, onde Teixeira Pinto, que comandava a coluna, foi ferido e regressou a Bissau. Passou o comando ao tenente Sousa Guerra. Este é o relatório que ele fez a Teixeira Pinto, quando este reassumiu o comando. 
Tem uma segunda parte em que faz o elogio de alguns dos homens intervenientes na operação, o que julgo não ter interesse para aqui.
Ao ler isto lembro-me de alguns dos nossos relatórios...

«Exmo Senhor Comandante da Coluna de Operações contra os Papéis

Em 12 de Junho, pelas 15 horas, entregava-me V. Exa. o comando da coluna, por ter de retirar-se para Bissau, onde, por opinião médica, devia tratar-se dos ferimentos recebidos, em Jaal, nesse mesmo dia.
De como decorreram as operações desde essa data até 1 de Julho e da forma como o pessoal da coluna desempenhou os serviços, que lhe foram cometidos, dirão as singelas e mal ataviadas linhas que seguem.

1
DAS OPERAÇÕES REALIZADAS
Até ao dia 14, nada ocorreu digno de menção. Neste dia, levantámos o acampamento para Safim de Cima, que fica a um quarto de hora de Safim de Baixo e onde já tínhamos resolvido estabelecer uma tabanca de guerra.
Depois de acampados, mandei fazer a exploração dos terrenos circun­jacentes, onde se travaram algumas escaramuças, sendo o gentio repelido. Tivemos 9 homens feridos e 2 mortos. Os dias 15 e 16 decorreram tranqui­lamente, tendo ficado resolvido que às 7 horas de 17 sairia uma força de 200 irregulares para bater Entoche.
Em 17, a força, a que me acabei de referir, logo depois de ter per­corrido uns mil metros na direcção S.O., é atacada fortemente pelo gentio que desenvolve até ao acampamento, atacando este por O. e N.O.
Abdu Injai, com 400 irregulares, vai juntar-se à força, que tinha saído do acampamento, e consegue levar de vencida até Jaal uma parte do gentio atacante; a outra é repelida pelas forças de defesa do acampa­mento (regulares e irregulares de Alfha Seilu).
O combate terminou às 14 horas, tendo nós 10 homens feridos e 5 mortos e 1 cavalo ferido. Da parte do gentio, a avaliar pela quantidade de mortos abandonados, contra o seu costume, no campo, devia haver um considerável número de baixas.
Até 20 nada ocorreu digno de registo. Neste dia, marchàmos para Contumo, tendo deixado, na tabanca de guerra de Safim, o segundo sar­gento Faria com 6 soldados da 2.ª companhia indígena de infantaria da Guiné e 100 irregulares e tendo comunicado ao Comando Militar de Nhacra a existência desta tabanca. Partimos de Safim às 8 1/2 horas da manhã, indo a coluna organizada de forma a atender a um provável ataque do flanco esquerdo ou da retaguarda em Jaal.
A marcha fez-se sem novidade, passando a coluna em Jaal ás 11 e meia horas e chegando às 12 a Bessaca, onde parámos o tempo indispensável para se reforçar a guarda-avançada, atendendo a que daqui em diante era certo o encontro com o gentio.
A marcha continuou sem um tiro até ás 13 e meia horas, quando começou o ataque da guarda avançada à povoação de Contumo, que ás 14 estava em nosso poder, retirando o gentio para uma linha natural de defesa, que há entre Contumo e Bor, linha constituída por uma série de palmeiras tendo do lado desta povoação um riacho, isto é, um verdadeiro fosso aquático. Daí começou fazendo fogo sobre a guarda avançada, que operava uma demonstração sobre essa linha.
Eu e o Abdul, com todas as outras forças contornámos o riacho na sua origem, que era próxima, e caímos resolutamente sobre o gentio, batendo-o sobre Bór para onde retirou e onde continuou a sua defesa.
Reunida a guarda-avançada, todas as forças atacaram Bór, sendo o gentio repelido com inúmeras perdas, retirando para o mato próximo donde continuou fazendo fogo, que em breve tinha de cessar pela perse­guição que lhe foi feita.
Ás 15 e meia horas podíamo-nos considerar possuidores de Bór. Tivemos 4 homens feridos.
Foi grande o número de armas e munições encontradas.
Ás 16 horas, o gentio tornou a vir atacar-nos, sendo repelido com êxito.
No dia 21, saíram forças que exploraram os terrenos circunjacentes. No dia 22, o gentio atacou o acampamento pelas 13 e meia horas, sendo repelido depois de meia hora de tiroteio.
Nos dias 23, 24 e 25, nada de anormal.
Fez-se uma tabanca de guerra em Bór, onde ficou o chefe Sori Jólo com a sua gente.
As 6 horas do dia 26, iniciamos a marcha para Bejamita.
Como tínhamos de passar em Bissalanca, onde, segundo informações de diversas procedências, grumetes e papeis se tinham organizado defen­sivamente, o efectivo dos diferentes escalões da coluna teve por base aque­las informações, estabelecendo-se o efectivo o máximo para a guarda, avançada.
Às 8 e meia horas, começava o tiroteio na testa da coluna. Tinha a guarda-avançada atingido Bissalanca, que estava defendida pelo gentio.
Iniciou-se o combate, desenvolvendo a guarda avançada e ficando de reserva as restantes forças.
Depois de vivo tiroteio, o gentio retirou para o mato, que fica ao N. da povoação, onde se defendeu valentemente, sendo por fim repelido, dei­xando muitos mortos abandonados no campo e sendo-lhe feitos 129 pri­sioneiros. Da nossa parte, baixa nenhuma. O combate terminou às 12 horas.
Às 12 e meia horas, continuámos a marcha para Bejamita, tendo sido reforçada a guarda da rectaguarda por ser provável um ataque do gentio por esse lado.
Após uns minutos de marcha, foi a guarda avançada atacada por muitos papeis e grumetes contra os quais abriu fogo, pondo-os em deban­dada e atingindo, nesta perseguição, uma tabanca, cujo nome soubemos, depois, ser Pelonde. Aqui chegámos ás 13 horas e tivemos de acampar por todos se encontrarem fatigados, das correrias feitas ao gentio.
Em 27, ainda tivemos de permanecer em Pelonde pelo motivo que acima referi.
Às 6 horas de 28, quando se organizava a coluna para seguir para Bejarnita, cai de surpresa sobre nós o gentio.
Desenvolvendo, imediatamente, as forças para o combate, tomámos a ofensiva com extraordinário vigor, o que fez com que ele retirasse, sendo perseguido com tenacidade pelas nossas forças.
O combate estava terminado às 7 horas, tendo nós 2 homens feridos e um cavalo morto.
Soubemos posteriormente, que ele foi dos mais terríveis para o gentio, pelo grande numero de baixas que teve, especialmente gente de Biombo e Bejamita.
Tive ocasião de observar o grande número de camas, feitas com folhas de palmeira, que estavam colocadas do lado do caminho para Beja­mita e a uns 5OO metros, se tanto, de Pelonde, do que deduzo que o gentio, tendo passado a noite ali, se preparava para cair sobre nós de madrugada.
Valeu-nos, certamente, o termos começado os preparativos de mar­cha às 4 horas.
Chegámos a Bejarnita ás 10 e meia horas, tendo havido apenas durante a marcha uns tiros isolados em Bissauzinho.
Pelas 13 e meia horas do dia 29, o voluntário Carlos Cabral Avelino entrega-me duas comunicações do comandante da Lancha-Canhoneira Flecha. Uma escrita às 4 horas e outra às 10 do mesmo dia.
Na primeira, dizia o referido comandante que o gentio sitiava a tabanca de guerra de Bor, desde a madrugada de 28; que os sitiados esta­vam com falta de cartuchos (tinham apenas 20 a 30 cartuchos por homem); que o gentio (grumetes e papeis) estivera à fala com os sitiados a quem tinha dito que de manhã (na de 29) havia de estar na posse daquela provação.
A segunda comunicação, em que o comandante da «Flecha» se mostra arreliadíssimo por só conseguir àquela hora ter contacto com as forças de terra, accrescentava: «que não sabia se chegariamos a tempo de salvar a gente de Bór, pois estava informado de que estavam quasi sem cartuchos».
Em face destas comunicações, resolvi marchar imediatamente em socorro de Bór, mandando, acto contínuo, levantar o acampamento.
A marcha iniciava-se ás 14 horas, isto é, três quartos de hora depois da ordem de levantar o acampamento.
Chegámos a Pelonde ás 17 horas sem ter havido um único tiro. Às 20 e meia horas, a guarda-avançada atacava os sitiantes de Bór, sendo logo reforçada pelos regulares e irregulares de Alpha Seilu, tra­vando-se encarniçado combate, que terminou às 22 horas, Tivemos 6 homens feridos e 1 mortosendo o gentio posto em debandada..
A marcha deste dia, já pela escuridão, já pela irregularidade do caminho e emaranhado de arbustos e árvores, que seguindo-o se cruzam por cima dele, detendo-nos de minuto a minuto para nos desenvencilharmos, constituiu um verdadeiro suplicio!
Valha-nos ao menos termos conseguido o que tanto desejávamos: a salvação dos irregulares de Bor, que, apenas tiveram um homem morto e dois feridos, durante o cerco feito pelo gentio.
Nos dias 30 de Junho e 1 de Julho saíram forças em exploração, tra­vando-se pequenas escaramuças com o gentio, que sempre foi vencido.
No dia 2 de Julho, assumia V. Ex.ª o comando da Coluna, consti­tuindo este facto para todos nós motivo de extraordinário jubilo, que V. Ex.ª viu exteriorizado na espontânea e calorosa manifestação que lhe foi feita quando da sua chegada ao acampamento de Bor.» 


Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume IV, Nº 14, Abril de 1949