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20 de maio de 2012

485-Comportamento dos agricultores balantas


Segundo a Bíblia, Deus ordenou a Adão que comesse todos os fmtos das árvores do paraíso, mas não da «árvore que está no meio: a árvore da ciência do bem e do mal. Esta árvore não pode ser senão a árvore produtora da semente. Com efeito, conforme se come ou não a semente, assim se adquire a ciência do mal ou do bem. Comendo-a, não se pode agricultar no ano seguinte e há consequentemente fome, des­graça e infortúnio; não a comendo, há a possibilidade da cultura, da reprodução: felicidade, bem-estar, bem-aventurança.
Todos os episódios da Bíblia relacionados com o paraíso e com a vida de Adão e Eva e seus filhos adaptam-se perfeitamente a esta hipó­tese. Senão, vejamos:
Comecemos pelo episódio da tentação da Eva e da queda de Adão. Eva, como mulher, como pessoa encarregada de preparar a comida, desacatando a recomendação de Deus, come o fruto proibido e dá-o a comer a Adão. Logicamente, o que resultou daí? Falta de semente para a cultura do ano imediato: o mal, a fome, a desgraça.
Quem convida a Eva a comer a semente? A serpente. Porque a ser­pente e não outro animal? Porque a serpente é a constelação que surge no firmamento, no hemisfério norte, justamente no fim da época da colheita dos frutos.
Da ciência de guardar a semente depende o bom êxito de toda a actividade agrícola. Se esta actividade trouxe noutras eras à humanidade incalculáveis benefícios e lhe facilitou a vida, ela só foi possível, con­fiando a entes sobrenaturais a conservação da semente. Não foi, sem uma razão forte, poderosa, inteligente, que Deus recomendou a Adão que não comesse os frutos da «árvore que está no meio do paraíso». Não é também sem um objectivo definido que o agricultor balanta guarda a semente e a considera «tabú», enquanto não chegar a época da sementeira.
O paraíso bíblico só foi paraíso, enquanto a Eva não cometeu o pecado - não comeu e deu a comer a Adão o fruto proibido: a semente.
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Que o paraíso bíblico não é mais que a reprodução romantizada da actividade agrícola, deduz-se da própria Bíblia, que o faz situar preci­samente nos locais onde o homem iniciou essa actividade, isto é, onde nasceram as primeiras civilizações, onde, enfim, os clãs se congregaram em tribos e as tribos se fundiram em núcleos nacionais: nos vales do Nilo, do Tigre e do Eufrates - no Egipto, na Etiópia, na Caldeia e na Assíria.
É da Bíblia o texto que se segue:
«Ora o senhor Deus tinha plantado, desde o princípio, um «paraíso ou jardim delicioso, no qual pôs o homem que tinha for­rnado. Tinha também o senhor Deus produzido da terra toda a casta «de árvores formosas à vista e cujo fruto era suave para comer e «a árvore da vida no meio do paraíso: árvore da ciência do bem e do mal. Deste lugar de delícia saía um rio que regava o paraíso, e que dali se divide em quatro canais: um se chama Fison (Nilo «superior) e este é o que torneia todo o país de Elvilath, onde nasce o oiro (nas origens do Nilo ficavam as minas de Salomão). E o oiro desta terra é excelente; ali também se acha o bedélio e a pedra cornelina. E o segundo rio chama-se Gehon (afluente do Nilo) e este é o que torneia todo o país da Etiópia. E o terceiro rio cha­ma-se Tigre, que corre para a banda dos assírios. E o quarto destes rios é o Eufrates. Tomou, pois, o senhor Deus ao homem e pô-lo «no paraíso das delícias, para ele o «HORTAR» e guardar».
Antes de serem descobertos os processos agriculturais, a vida do homem era um inferno. O seu alimento dependia unicamente da caça ou do gado domesticado. O homem deambulava peIa terra, em busca da pri­meira ou dos pastos para o segundo, num corrupio incessante, sem abri­gos onde se acoitar, sujeito a inúmeros e súbitos perigos. Atente-se no que seria a vida assim, sobretudo no Inverno, e no que se tornou depois, quando o homem entrou na fase agrícola, e ter-se-á a convicção de que realmente o paraíso bíblico é aquele que o homem alcançou, por graça de Deus, com a modificação da sua actividade.
À agricultura deve o homem o progresso e a civilização. Foi ela que lhe deu o conhecimento da marcha do tempo: a data da sementeira, a da germinação, a da frutificação e a da colheita; o conhecimento da geome­tria, pela necessidade de reconstituição das marcas delimitadoras das ter­ras, inutilizadas pelas grandes cheias que se verificavam nos vales do Nilo, do Tigre e do Eufrates; e o conhecimento da astronomia e da astrologia, pela constatação da influência de certos astros nas chuvas, nos ventos, nas cheias, no tempo em geral.
Foi a agricultura que contribuiu para a melhoria da existência dos povos. Sem agricultura a vida era um inferno; com ela passou a ser um paraíso.
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Adão e Eva são os nossos longínquos ascendentes agricultores. No período nómada, quando as sociedades humanas viviam em formações conhecidas pela designação geral de «clãs», os ascendentes eram outros: talvez um animal, talvez uma planta, talvez um feitiço. Com o advento do rnonoteismo, em plena fase agrícola, estes ascendentes tiveram natu­ralmente de ser substituídos por figuras míticas mais harmónicas com a crença incipiente. Manifestou-se assim a tendência para a sua humaniza­ção. Deus, inspirando Moisés, deu corpo à doutrina: criou Adão e Eva. Adão e Eva são, pois, os «totens» humanos da época moderna.
Adão vem do barro, porque é o barro - a terra - que lhe dá con­dições de existência.
Para melhor vincar os dois períodos - o nomadismo pastoril e o sedentarismo agrícola - a Bíblia personificou-os, dando aos filhos de Adão e Eva as profissões de pastor e lavrador: Abel, pastor de ovelhas, e Caim, agricultor.
Salientando a preferência dada pelo homem à vida agrícola e a sua correspondente aversão pela vida pastoril, refere-se a Bíblia ao desamor de Caim por Abel nestes termos:
«E Caim se irou fortemente e o seu semblante descaíu. E o Senhor lhe disse: porque descaiu a tua face? Porventura se tu obrares bem, não receberás recompensa? E se obrares mal, não estará logo o pecado (desgraça) à porta?»
Depois conta que Caim matou Abel, o que quer dizer que a vida agrícola triunfou, matando, eliminando a vida pastoril.
Porque o abandono total da vida pastoril não constitui um bem para a humanidade, visto que, em anos de crise, é ela que tem de forne­cer os elementos indispensáveis à existência, Deus assim se dirige a Caim, recriminando-o:
«Onde está o teu irmão? Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama deste a terra por mim. Agora, pois, serás tu maldito sobre a terra, que «abriu a boca e recebeu o sangue do teu irmão»
Foi abrindo a boca à terra, sulcando-a... que se alimentou Abel! A terra abriu a boca - e o sangue de Abel correu!
Em conclusão:
A semente constitui para o agricultor balanta «tabú», como «tabús» constituíram para os povos da antiguidade, simbolizados na figura de Adão, seu antepassado longínquo, os frutos da «árvore que estava no meio do paraíso: a árvore da ciência do bem e do mal».
O balanta guarda a semente como Deus disse a Adão que a guardasse.
O comportamento dos balantas é, pois, igual ao comportamento dos povos primitivos que se instalaram no paraíso: nos vales do Tigre, do Eufrates e do Nilo.

Bissau, 15 de Outubro de 1951.

Fernando Rogado Quintino
Administrador

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