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20 de maio de 2012

485-Comportamento dos agricultores balantas


Segundo a Bíblia, Deus ordenou a Adão que comesse todos os fmtos das árvores do paraíso, mas não da «árvore que está no meio: a árvore da ciência do bem e do mal. Esta árvore não pode ser senão a árvore produtora da semente. Com efeito, conforme se come ou não a semente, assim se adquire a ciência do mal ou do bem. Comendo-a, não se pode agricultar no ano seguinte e há consequentemente fome, des­graça e infortúnio; não a comendo, há a possibilidade da cultura, da reprodução: felicidade, bem-estar, bem-aventurança.
Todos os episódios da Bíblia relacionados com o paraíso e com a vida de Adão e Eva e seus filhos adaptam-se perfeitamente a esta hipó­tese. Senão, vejamos:
Comecemos pelo episódio da tentação da Eva e da queda de Adão. Eva, como mulher, como pessoa encarregada de preparar a comida, desacatando a recomendação de Deus, come o fruto proibido e dá-o a comer a Adão. Logicamente, o que resultou daí? Falta de semente para a cultura do ano imediato: o mal, a fome, a desgraça.
Quem convida a Eva a comer a semente? A serpente. Porque a ser­pente e não outro animal? Porque a serpente é a constelação que surge no firmamento, no hemisfério norte, justamente no fim da época da colheita dos frutos.
Da ciência de guardar a semente depende o bom êxito de toda a actividade agrícola. Se esta actividade trouxe noutras eras à humanidade incalculáveis benefícios e lhe facilitou a vida, ela só foi possível, con­fiando a entes sobrenaturais a conservação da semente. Não foi, sem uma razão forte, poderosa, inteligente, que Deus recomendou a Adão que não comesse os frutos da «árvore que está no meio do paraíso». Não é também sem um objectivo definido que o agricultor balanta guarda a semente e a considera «tabú», enquanto não chegar a época da sementeira.
O paraíso bíblico só foi paraíso, enquanto a Eva não cometeu o pecado - não comeu e deu a comer a Adão o fruto proibido: a semente.
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Que o paraíso bíblico não é mais que a reprodução romantizada da actividade agrícola, deduz-se da própria Bíblia, que o faz situar preci­samente nos locais onde o homem iniciou essa actividade, isto é, onde nasceram as primeiras civilizações, onde, enfim, os clãs se congregaram em tribos e as tribos se fundiram em núcleos nacionais: nos vales do Nilo, do Tigre e do Eufrates - no Egipto, na Etiópia, na Caldeia e na Assíria.
É da Bíblia o texto que se segue:
«Ora o senhor Deus tinha plantado, desde o princípio, um «paraíso ou jardim delicioso, no qual pôs o homem que tinha for­rnado. Tinha também o senhor Deus produzido da terra toda a casta «de árvores formosas à vista e cujo fruto era suave para comer e «a árvore da vida no meio do paraíso: árvore da ciência do bem e do mal. Deste lugar de delícia saía um rio que regava o paraíso, e que dali se divide em quatro canais: um se chama Fison (Nilo «superior) e este é o que torneia todo o país de Elvilath, onde nasce o oiro (nas origens do Nilo ficavam as minas de Salomão). E o oiro desta terra é excelente; ali também se acha o bedélio e a pedra cornelina. E o segundo rio chama-se Gehon (afluente do Nilo) e este é o que torneia todo o país da Etiópia. E o terceiro rio cha­ma-se Tigre, que corre para a banda dos assírios. E o quarto destes rios é o Eufrates. Tomou, pois, o senhor Deus ao homem e pô-lo «no paraíso das delícias, para ele o «HORTAR» e guardar».
Antes de serem descobertos os processos agriculturais, a vida do homem era um inferno. O seu alimento dependia unicamente da caça ou do gado domesticado. O homem deambulava peIa terra, em busca da pri­meira ou dos pastos para o segundo, num corrupio incessante, sem abri­gos onde se acoitar, sujeito a inúmeros e súbitos perigos. Atente-se no que seria a vida assim, sobretudo no Inverno, e no que se tornou depois, quando o homem entrou na fase agrícola, e ter-se-á a convicção de que realmente o paraíso bíblico é aquele que o homem alcançou, por graça de Deus, com a modificação da sua actividade.
À agricultura deve o homem o progresso e a civilização. Foi ela que lhe deu o conhecimento da marcha do tempo: a data da sementeira, a da germinação, a da frutificação e a da colheita; o conhecimento da geome­tria, pela necessidade de reconstituição das marcas delimitadoras das ter­ras, inutilizadas pelas grandes cheias que se verificavam nos vales do Nilo, do Tigre e do Eufrates; e o conhecimento da astronomia e da astrologia, pela constatação da influência de certos astros nas chuvas, nos ventos, nas cheias, no tempo em geral.
Foi a agricultura que contribuiu para a melhoria da existência dos povos. Sem agricultura a vida era um inferno; com ela passou a ser um paraíso.
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Adão e Eva são os nossos longínquos ascendentes agricultores. No período nómada, quando as sociedades humanas viviam em formações conhecidas pela designação geral de «clãs», os ascendentes eram outros: talvez um animal, talvez uma planta, talvez um feitiço. Com o advento do rnonoteismo, em plena fase agrícola, estes ascendentes tiveram natu­ralmente de ser substituídos por figuras míticas mais harmónicas com a crença incipiente. Manifestou-se assim a tendência para a sua humaniza­ção. Deus, inspirando Moisés, deu corpo à doutrina: criou Adão e Eva. Adão e Eva são, pois, os «totens» humanos da época moderna.
Adão vem do barro, porque é o barro - a terra - que lhe dá con­dições de existência.
Para melhor vincar os dois períodos - o nomadismo pastoril e o sedentarismo agrícola - a Bíblia personificou-os, dando aos filhos de Adão e Eva as profissões de pastor e lavrador: Abel, pastor de ovelhas, e Caim, agricultor.
Salientando a preferência dada pelo homem à vida agrícola e a sua correspondente aversão pela vida pastoril, refere-se a Bíblia ao desamor de Caim por Abel nestes termos:
«E Caim se irou fortemente e o seu semblante descaíu. E o Senhor lhe disse: porque descaiu a tua face? Porventura se tu obrares bem, não receberás recompensa? E se obrares mal, não estará logo o pecado (desgraça) à porta?»
Depois conta que Caim matou Abel, o que quer dizer que a vida agrícola triunfou, matando, eliminando a vida pastoril.
Porque o abandono total da vida pastoril não constitui um bem para a humanidade, visto que, em anos de crise, é ela que tem de forne­cer os elementos indispensáveis à existência, Deus assim se dirige a Caim, recriminando-o:
«Onde está o teu irmão? Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama deste a terra por mim. Agora, pois, serás tu maldito sobre a terra, que «abriu a boca e recebeu o sangue do teu irmão»
Foi abrindo a boca à terra, sulcando-a... que se alimentou Abel! A terra abriu a boca - e o sangue de Abel correu!
Em conclusão:
A semente constitui para o agricultor balanta «tabú», como «tabús» constituíram para os povos da antiguidade, simbolizados na figura de Adão, seu antepassado longínquo, os frutos da «árvore que estava no meio do paraíso: a árvore da ciência do bem e do mal».
O balanta guarda a semente como Deus disse a Adão que a guardasse.
O comportamento dos balantas é, pois, igual ao comportamento dos povos primitivos que se instalaram no paraíso: nos vales do Tigre, do Eufrates e do Nilo.

Bissau, 15 de Outubro de 1951.

Fernando Rogado Quintino
Administrador

3 de abril de 2012

437-O Gallóna

Hábitos guerreiros... e técnica de guerrilha já antiga.


9 de março de 2012

410-Ki-yang-yang: uma nova religião dos balantas?

Carlos Cardoso era Director do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas) da Guiné-Bissau quando escreveu este estudo. Actualmente, o Director do INEP é Mamadu Jao. Este texto está na "Soronda - Revista de Estudos Guineenses" de 10 de Julho de 1990, publicada pelo INEP.
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3 de março de 2012

404-Kussundé

O kussundé é uma dança tradicional de algumas etnias animistas da Guiné


Kussundé felupe
 
Kussundé balanta
Kussundé no Cantanhês

30 de janeiro de 2012

374-Magda Bagi, um balanta... estranho



         Dia após dia, hora após hora, Madja Bagi esperou paciente por este momento.
Nas noites insones, olhos furando a treva densa que escorre pelos prumos da palhota e inunda o colmo sonoro. Madja Bagi construiu o plano, estudou-o nos mínimos pormenores. Nas manhãs de sol, curvado sobre a «bolanha» faiscante, mãos crispadas no  arado com que revolve o lamaçal fecundo, meditou no seu sonho e refreou ai sua ansiedade.
E agora, bem neste momento, sente que a hora chegou. Ali está, silencioso e quedo, beneficiando da sombra espessa que o cajueiro derrama. No céu nublado, sem estrela nem palor, correm nuvens em furioso galope. Longe, para os lados da «lala», qualquer ave noctívaga ensaiou um canto soturno. E, logo após, o silêncio tombou de novo, pesado e húmido. Um silêncio feito de mil diferentes rumores, imprecisos e vagos.
Na expectativa do «tornado» que não tardará em vir, o matagal acobardou-se. Dir-se-ia que a morte campeia e esmaga tudo sob o seu passo gélido. Os altivos poilões amodorraram c guardam a mudez grave dos grandes momentos. Da tabanca, que se adivinha além entre bananeiras estéreis, não vem sinal de vida.
Por momentos, em fugaz visão que logo se esvai no denso negrume que tudo submerge, Madja Bagi vê a recepção calorosa de que será alvo. Então, Xaála Bari não desatará aqueles olhares frios que o envenenam. Ensaiará talvez - quem poderá sabê-lo! - um sorriso doce, um daqueles sorrisos que só Xaála possui.
Por isso, só por isso, vale a pena esperar, paciente, o instante que lhe pareceu longínquo. Talvez até esta noite tempestuosa e negra fosse enviada pelos deuses, premiando a sua refreada ansiedade, dando razão à sua sede de grandeza e amor.
Amanhã, quando na tabanca constar o seu feito audaz e másculo, olhares de inveja e respeito cairão sobre o seu corpo possante. É impos­sivel que Xaála não acompanhasse esse louvor unânime. E então na pró­xima lua, com a «bolanha» ondulante e verde, grávida de espigas, unirão os seus corpos e as suas vidas. Ele não será jamais o trabalhador isolado, o motor de dois braços que revolvem terras alheias. Terá uma «morança» sua, bem sua, e outros braços virão emparelhar com os seus rasgando sulcos em lamas fecundas que darão espigas.
Venderá o arroz ao sírio baixote e untuoso que tem uma loja infecta ao fundo da vila ou esperará o «branco» imundo e mal-humorado que passa naquela camioneta que parece desmantelar-se a cada solavanco?
Agora, bem neste momento que finalmente chegou, apenas o seu plano, há tanto urdido, tem forma. O mais, tudo o mais, são rápidas visões, miragens que se sucedem e se esvaiem por entre o negrume opaco.
Longe, muito longe, há um rumor estranho, soturno, como que um tombar de cachoeira em ravina abrupta. Ou como se, por infindável e metálica ponte, rolasse um comboio impossível.
Madja Bagi sabe que o «tornado» se aproxima vertiginosamente. Ouve-se-lhe o tropel profundo e surdo, como batuque furioso e longínquo; pressente-o na quietude fictícia do matagal sonoro; calcula o seu caminhar galopante pelo rumor crescente da folhagem sacudida - e espera.
Madja Bagi tem os costureiros retesados e, com a mão crispada, aperta o punho do terçado.
De súbito, um estrondo caiu do alto, brotou das copas desgalhadas, subiu do solo ressequido e poeirento, ocupou tudo num ribombar que ensurdecia. O cajueiro gemeu, varrendo o chão com as ramas desgre­nhadas. Como se, qual arco impossível, disparasse folhas para o alvo que ficaria algures, para lá do negrume pesado e ruidoso.
Logo após, a chuva tombou em catadupas, morna e compacta. Na tabanca, sob a ventania raivosa, as bananeiras entrechocavam as folhas enormes, num ruído sincopado e agreste como gargalhadas dementes.
Madja Bagi correu por entre o capim ensopado. De salto, ilencioso e elástico como felino, transpôs a palissada e quedou atento.
O «tornado» abafava tudo. A chuva cantava como arroz velho caindo nas esteiras. Do matagal, vinham os gemidos de dor das árvores con­torcionistas.
Encharcado e transido, Madja Bagi enrijou os músculos, acocorou-se e ergueu-se repetidas vezes. A cada flexão, progredia no terreno lamacento e frio. Com um salto maior, de lado, alcançou as bananeiras e ficou-se agachado, junto aos caules, recebendo as bofetadas rudes das ramas rasgadas.
Lentamente, o seu corpo alongou-se até as mãos ratearem os prumos do «congó».
E agora, com o tronco bem colado ao chão pegajoso, todo ele se concentra no ouvido subtil, numa crispação nervosa. Nada. Nenhum rumor furava o colmo. Dir-se-ia que toda a tabanca havia desertado em face da tormenta que imperava ainda, ao perto e ao longe, atirando seus urros para o cabo do mundo.
Então, seus dedos longos e nodosos, habilmente, febrilmente, cavaram em torno da base do primeiro pilar. Dois golpes rudes, oscilantes, alar­garam o covato. Água lodosa esguichou em volta. Nada mais.
Depois um outro, e outro ainda, sofreram os mesmos empuchões vio­lentos. Lama líquida saltava e ia diluir-se na enxurrada que rumorejava.
Madja Bagi içou-os, um a um, até desenterrá-los e, com mil cuidados, deitou-os na valeta.
Algo de insólito rangeu ali, mesmo ali, brotando da boca daquele buraco negro, agora aberto.
Acocorado, músculos contraídos na eminência do salto, terçado firme na mão possante, Madja Bagi esperou. Os olhos, furando a treva, tinham uma fixidez dolorosa.
Cansado da espera, impaciente e audaz, aventurou um braço. Depois de chofre, todo o seu corpo hercúleo e brônzeo, penetrou no «congó».
Presa a uma estaca cravada, aquela vaca malhada e linda que todos cobiçavam, parecia esperar. O rnancanha, cioso do seu haver, dormia junto da estaca.
Incrivelmente hábil e silencioso, Madja Bagi desatou os nós da espia, as mãos rasando o rosto do mancanha - e tanto, que a expiração lhas aquecia agradavelmente.
O resto foi simples. E rápido. Patas cobertas, afagos, sábios toques, trouxeram para o matagal o bicho desejado. Rápido. E simples.
O «tornado» passava. Do céu luminoso e translúcido, caía uma quie­tude pânica. Aqui e além, asas raspavam o silêncio.
Pelo trilho subtil, Madja Bagi guiou o animal, forçando a marcha mais e mais - que a impaciência é forte e o perigo muito.
O sol, quando espreitou por entre os troncos dos poilões, encontrou-o longe, muito longe já, em plena estrada, cantarolando. E quando a treva de novo tombou sobre os homens e as coisas, Madja Bagi marchava ainda, infatigável e feliz.
Uma magnífica ansiedade ocupa, no seu espírito, o lugar da histé­rica ansiedade que o dominou. Agora, Madja Bagi não pensa nem sonha - canta.
Todas as suas esperanças, todo o seu orgulho, todo o seu violento bem-querer, saltam-lhe aos lábios e desfazem-se em melodias bárbaras, guturais, ruidosas como seixos rolando.
Um outro sol, olhando a pique, avistou-o recolhido, num matagal espesso, comendo. Bem presa, a vaca malhada, exuberante de carnes, rumi­nava tranquilamente. Mas o «tornado» que vergastou as terras, ao tombar da noite, surpreende-o num atalho que mal se adivinhava no emaranhado do capim viçoso e sussurrante.
Madja Bagi não sente o ardor das soalheiras impiedosas nem vacila sob o ímpeto selvagem das tormentas. Segue embalado por um sonho grande. Tão grande que todo o mundo parece concentrar-se em si, à sua volta. Tudo o mais são coisas indefinidas, sem sentido nem forma, uma imensa e profunda inutilidade.
Tocando o animal dócil e paciente, Madja Bagi apenas sai do seu súbito egoísmo para recordar Xaála Bari. Recordar os seus olhos c o seu sorriso. O seu corpo moldado e brilhante. Toda ela. Ou para, con­fiante e feliz, idealizar a união dos seus corpos e dos seus destinos.
... Nas próximas chuvas, caminhando na lama fecunda, colhendo os caules pejados de espigas... O filho macho que nascerá... Um mundo.
De quando em quando, uns assomos de meiguice piegas levam-no a afagar a vaca robusta, luzidia e valiosa como «bajuda» intacta.
Outro sol e outro negrume encontraram ainda Madja Bagi em pleno matagal.
Só na manhã seguinte, para lá daquela mancha escura que as man­gueiras derramam pelo céu, avistou os cocurutos das palhotas. Um rumor familiar e vago, veio, envolto na brisa, esperá-lo na «lala». O animal, cansado e estranho, espetou as orelhas e mugiu baixo, numa interrogação.
A longos haustos, Madja Bagi bebia aquele ar lavado e sonoro que o acariciava.
De súbito estacou. Os tambores haviam rasgado a manhã e batiam, sincopados, cadências festivas.
Que seria?
Duas palmadas rijas deram pressa ao animal e ele alargou o passo, folgando a amarra.
O ar andava envolto em gritos hilares, gargalhadas estridentes; sons desordenados de tambores repetidos.
Às primeiras palhotas, parou. Ninguém. De quando em quando, gente corria, num desaforo, sem o ver.
Sem o ver ...
E agora, bem no centro do largo, junto ao poilão magestoso e secular, sente que tudo foi inútil. Uma dor funda, aguda e cáustica, raspa-lhe o peito. Tem a noção que os tambores estão longe, longe, lá para as bandas onde o mar parece ter fim. E aquela gente, correndo, falando, dançando, são ténues silhuetas, imprecisas e vagas como copas em manhãs de bruma.
E aquela dor, fria e funda, doendo mais e mais...
Junto de si, os «homens grandes» tecem-lhe louvores e, de quando cm quando, palpam-lhe o corpo gelado e trémulo. «Bajudas» roliças e intactas devoram-no com o olhar incendiado.  
Madja Bagi, de olhar perdido, músculos crispados sob a pele de ébano, um nó espesso na garganta ressequida, apenas tem noção daquela dor funda e surda, como que um punhal entrando, entrando ...
Agora, em plena festa do casamento de Xaála Bari, sente que tudo ruiu à sua volta. Ódio. Frio.
Quem será esse Curna Naté que a vai levar? Não conhece.
Uma voz qualquer - será a do chefe Impanda? - diz-lhe que Curna Naté veio de longe, de muito longe, para a levar. É rico.
... A dor é maior. Maior e mais funda...
Com esforço, chamando a si toda a sua força imensa, Madja Bagi correu a olhar. E vê o feliz entre risos e nuvens de fumo. Perto dali. Xaála Bari, assiste, dengosa, ao baile das moças.
A crispação que lhe percorreu o corpo, elucidou os velhos. Desde logo, prudentes, procuram assento junto das palhotas. Levavam no olhar a luz pânica dos graves momentos.
Madja Bagi, de olhos fitos no feliz rival, sente que algo de indefi­nido o submerge e sufoca. É um mal-estar estranho, uma raiva surda, o que quer que seja de doloroso que o cobre de frio e tolhe os movimentos. E quando o seu olhar duro, congestionado, faiscante, pousa em Xaála Bari, faz gelar-lhe o sorriso com que premiava os tocadores.
De súbito, um longo arrepio talvez, ou talvez até um soluço mal con­tido, faz sacudir o corpo magnífico de Madja Bagi.
A passo lento, encaminhou-se para Cuma Naté. Os seus músculos possantes, sob a dolorosa contracção, desenham-se sob a pele.
Um frémito de pavor percorreu as gentes. Crianças nuas, desorde­nadas, procuram as mães, em choros soluçados. Os tambores emudecem. Caiu do alto, sobre os homens e as coisas, um silêncio pesado e frio como uma maldição.
Do alto da sua estatura hercúlea, Madja Bagi olha as gentes. E o seu olhar, firme e cortante, esmaga-as inexoravelmente.
Contagiado, Cuma Naté ergueu-se trémulo. A sua mão, pouco firme, prendeu o terçado. Companheiros robustos fizeram-lhe guarda, enquanto os «grandes» abanavam as cabeças num fatalismo de mau agouro.
Lento, majestoso, Madja Bagi continuava. Da sua mão esquerda saía a amarra da vaca malhada. E a vaca malhada, dócil e atenta, cami­nhava ruminando.
Daqui e de além, brotaram os primeiros gritos, logo abafados pelo silêncio que imperava, Uma leve brisa ciciou na folhagem. Uma asa raspou o céu. Nada mais.
Madja Bagi deixou cair o terçado e, sem uma contracção, rígido e frio, aproximou-se.
E as gentes viram, bestas de pasmo, Cuma Naté tremer. No seu olhar baço e parado, no seu rosto coberto de suores frios, desenhou-se o medo.
Então, quando já nada restava a não ser a pública cobardia do rival, Madja Bagi sorriu. Um sorriso duro, crispado, agressivo como uma bofetada.
Sem pressas, estendeu-lhe a corda que prendia o animal.
E quando, atónito e trémulo, Cuma Naté a recebeu, afagou-lhe o ombro com duas pequenas palmadas - como o faria a um garoto...

Fernando R. Barragão 

29 de janeiro de 2012

373-Planície conquistada

 Assim que rompeu o dia, alvor nado, a gente balanta desceu à planície. Os mais tardios a erguerem o corpo da esteira ou que demo­raram aconchegados ao brasedo, restos da fogueira acesa logo o galo cantou, seguiam o trilho fora na direcção da «laIa», onde outros, em reunião de ânimos, se aprestavam para iniciar a nova fase de aproveitamento da várzea. O rapariguedo, que também madrugou, sai da tabanca para a povoação comercial, ali perto. O sírio ia despachar as últimas toneladas de arroz que ficaram da farta campanha que passou, pois o «chaland» que viera no preamar da noite não devia demorar em levá-lo a Bissau, para o descasque, quando o rio entrasse em vasante. Não podia tardar a lufa, formigueiro humano em fila indiana, balaios à cabeça, cheinhos, varando a «laIa» em trote constante até à ponte de cibes, de onde o despejavam para o porão espaçoso.
Na planície já o «bindé» removia o solo que as primeiras chuvas encharcaram e tornaram fofo. Talhões divididos, postados em linha de ataque, os da lavra lançavam o arado com gana, sempre, sempre para diante. Um cantava. Melopeia enfadonha, entoação de compassos iguais, sempre a mesma música, excepto uma nota que se avivava quando da penetração do «bindé». Deixavam para trás a terra amarelada, revolvida em torrões disformes com a trama do raizedo e um ou outro fragmento arbustivo que a queimada, em cenário grandioso de labaredas e fumaça, deixou tostados na voragem com que galgou o imenso capinzal.
Agora cabia ao Sol esterilizar o raizame e aberta que estava a quadra pluviosa competia à chuva a saturação e dessalga das leivas em poisio, enquanto arrastava do mato a lixarada vegetal - o adubo para a futura e grande «bolanha». Corridos uns dois anos, na época própria, seria a lavra definitiva: valas abertas, camalhões levantados, pequenos ouriques com­postos, estes a servirem de passadiço e traçado a marcar propriedades. Era chegada a vez da transplantação da gramínea, criada em alfobres, tabuleiros verdejantes resguardados pelo arvoredo, obstáculo à ventania e ao Sol forte que cresta quando no auge. Então, em toda a interminável planura, havia de desenvolver-se o arrozal, vasto relvado a esconder a água estagnada que as purgas da barragem consentisse.
Continuava a bruma. O astro das quenturas fora eclipsado pelas nuvens enegrecidas de carga. Voltou a chover, num repente, e logo os da lavra pararam em quietude de espectativa, arados quietos, cabeças erguidas e atiradas para trás visando a atmosfera num diagnóstico meteorológico. Não tardaram em abalada para a tabanca, velozes como gazelas e em algazarra alegre de garotos em festa. Do lado do rio, nas nesgas de capim, a manada iniciou a retirada ante os toques brandos das vergastas dos miúdos, nus, apenas as «malilas» a rodear-lhes a cintura, pulsos e artelhos. Maçaricos e pernaltas que deambulavam nas margens lodosas do rio irromperam em fuga voando baixo, quase tocando a água, para os lados do tarrafe e onde o mar começa. E as garças que antes esvoaçavam de dorso para dorso dos bovinos em faina parasiticida, já tinham desaparecido a resguardar a plumagem branca e mimosa, enfiando para a outra banda do rio, mato aberto salpicado de palmeiras de cibe a destoarem das mambombas e outros arbustos rasteiros. A chuva não pára. Cresce o volume do rio que vasa em força mas já não invade a planície. O flanco da extensa barragem repele-a, rechaça-a, e a torrente caudalosa segue para o mar, talvez contrafeita...
Anos atrás, ainda quando a planície, na culminância das chuvas, tinha de consentir o jugo despótico das águas, renascia na região a antiga ideia da barragem; mas logo que o elemento intruso se escoava para as profundidades do solo e para o leito do rio, em vez de um impulso comum para levantar o dique tão necessário, de construção barata, passa­va-se o tempo a meditar, a meditar somente, até esquecer...
E, assim, de ano para ano.
Ao gentio bastava-lhe aquela fartura selvagem. Cheio o «fuul», reserva de grãos a garantir-lhe a subsistência, até à colheita seguinte, e feita a inversão do produto em moeda para satisfazer o pagamento das capitações anuais, adquirir umas jardas de tecido, uma manta, alfaias e qualquer bugiganga do seu agrado, e, ainda, amealhados uns tantos «pesos» para umas folhas de tabaco e uns goles de «cana» de quando em quando, nada mais o preocupava. É que contavam com outros recursos que fariam inveja noutros, camponeses como eles mas de outras latitudes, que empenham a vida à terra que, por pobre, esgotada, difícil, só cede ante a química e o vigor dos braços, remunerando-os avaramente. Recursos ali a dois passos, fáceis de colher e espontâneos. A «bolanha», quando alagada, criava barbos, bentanas, camarões para uma pescaria cómoda, o mato, propriedade de todos, punha à disposição uma variedade de frutos silvestres, troncaria, mezinhos... ; a «lala» era um manancial de lama e capim, materiais com que edificavam as suas palhotas; e o mar também concorria com mariscos e sal, toalha de cristal que ficava assente lá no começo da «laIa» a quando das marés mortas. Mas a volúpia pelo álcool, o vício do tabaco e o desejo de posse de qualquer novidade que o comércio lhes punha diante dos olhos, levava-os a desfalcar a reserva de cereal e lá ia o cabaço, uma, duas, infinidades de vezes, encher-se no «fuul», até que roçava no fundo do enorme pote, sacrificando a reserva. Recorriam aos empréstimos nunca negados, umas vezes dinheiro, outras o próprio produto que venderam antes, e ainda a gramínea não estava transplantada na «bolanha» já parte - grande parte - da futura colheita estava comprometida, endividada.
Uma das partes interessadas na barragem - o comércio - assober­bada com o fecho-de-contas da campanha finda e já com os preliminares da seguinte, se não se esquecia, parecia. A outra parte - o indígena - fechava-se numa apertada compreensão do restrito e não dava um passo para melhorar hábitos e nível de vida, trabalhando o indispensável para uma safra à escassa - flagrante herança dos seus avoengos, os primeiros de uma mística pagã de obediência cega a «irãs» e «totens», espantalhos habilmente animados pela «sigué» e pelo feiticeiro da tribo impingindo-os como omnipotentes. Antídoto, a dificultar a acção do civilizado, do cristão!
A sede da Circunscrição chegara o novo administrador. Novato, mas com aura de sabedor e dinâmico, de porte desportivo, de modos simples e cativantes, quando ali foi em visita de reconhecimento da região apro­veitou para, em contactos directos, auscultar opiniões quanto a possibili­dades actuais e das possíveis no futuro. Ali mesmo, em campo raso, sem qualquer aparato, depois de especificar necessidades com convencimento da verdade, numa linguagem simples mas concisa, calou-se para ouvir outros, convidados a depor: representantes do comércio, chefes de tabanca, «cabeças» de morança. Por fim, até um «blufo», cspigadotc, tufos de cabelo retorcidos e a penderem para a testa, também proclamou o seu entusiasmo pelo momento.
Quando a carrinha abalou já ficara selado um entendimento, uma decisão, aceite por todos num aplauso sem artifícios. Fora um verdadeiro empurrão que, sem magoar, sobrecarregando todos por igual, levava a um fim: o Progresso da região. Escoradas na perspectiva de óptimas cam­panhas, melhor compensação ao capital e à dura vida do mato, os comer­ciantes aceitaram de bom grado o seu quinhão de responsabilidades: custear a alimentação dos trabalhadores indígenas enquanto durassem os trabalhos para a conquista da planície e o empréstimo da semente na altura adequada, mas dessa vez em cedência de «bushel» por «bushel». O indígcna dava a mão-de-obra. Cada morança forneceria um trabalhador. De Catió, lá da administração, vinham as alfaias necessárias, gasolina, o camião para transporte de cascalho e de cibes e ainda dois cipaios, um transferido há pouco de Mansoa e com prática dessas coisas de barra­gens e o outro, o fula Bacar, caçador de fama, a quem competia abater no mato e nas «lalas» os antílopes para a «màfé» de todos os dias. E quando ali fosse a carrinha com um administrativo seguir o andamento dos trabalhos, não deixaria de levar um braçado de folhas de tabaco, presente a sair da verba orçada anualmente para premiar indígenas que se distinguissem.
Os balantas ganharam entusiasmo, interesse e a obra começou.
O camião agrupou montanhas de cascalho e grandes pilhas de toros de cibe destinados ao esqueleto da plataforma, enterrados a formarem cruzes sucessivas, desencontradas, a lembrar obstáculo antitanque. Ergueram-se medas de capim. A lama bastava agachar os corpos e enterrar as mãos... Feita a argamassa da lama, capim e cascalho era só atirá-Ia a cobrir O esqueleto, e o imponente paredão ia surgindo. E em três meses, apenas, aquela estrutura majestosa para o meio, já dava ares de desafio a qualquer enxurrada de intuitos invasores. Assim, contidas as águas, ia a planície selvagem e estéril tornar-se em vasta área de cultivo, terreno de sobra para os da região e ainda para outros mais, muitos que fossem, migrados de outros lados onde os terrenos baixos esfalfaram da lavoura conse­cutiva. Desse-se o êxodo, a região poderia sobrelevar-se e disputar a fama de melhor centro produtor a Cabo-Chanque, Cantone, Jabadá...
Com a obra em meio surgiu um acontecimento que os balantas inter­pretaram como dádiva do «irã» - ainda os vestígios dos avoengos -, relegando o protagonista do facto a mero instrumento do fetiche. Manhã cedinho, um dos manjacos que furava nos palmares perto da estrada larga que segue a Catió, chegou à tabanca com os cabaços de seiva fresca e a novidade: um casal de hipopótamos, com filhote, pastava na «lala», um bom bocado além da curva do rio. Bacar, o cipaio investido da função venatória, ainda na palhota do chefe de tabanca, sonolento, conseguiu entender o murmúrio e, num ápice, apareceu com a farda ainda por abotoar e a velha «Kropastschek» segura pelo cano, sobre o ombro, como cajado de cabreiro. Logo o rodeou aquela gente em alvoroço e de apetites aguçados para o possível festim. Em momentos o camião arrancou a ganhar a estrada e lá no cruzamento o cipaio desceu, deu instruções, e vai que fura no atalho que serpeia pelo mato espesso, manjaco atrás. Os que vieram da tabanca como possíveis carregadores teriam de aguardar um sinal do pisteiro, mãos em concha encostadas à boca para sonorização do grito. Penetraram na floresta. Curva ali, descida acolá, tufos de ramagem a vedar a passagem, grossas carcassas de troncos caídos ao través, vítimas da «baga-baga», tudo a camuflar o trilho e a dificultar o trânsito aos intrusos da selva. Mas o manjaco, o pisteiro, conhecia bem o piso, não andasse ele por ali um ror de vezes para se encarra­pitar na palmeira colhendo «chabéu» e extraindo vinho de palma. Adiante, nos troncos baixos, uma cáfila de macacos-cães rompeu em fragorosa rastolhada e a latir desalmadamente. O caçador continua, indiferente, mas olha-os de soslaio por entre a vegetação, contrariado, praguejando em pensamento contra os símios antipáticos e de nádegas repelentes. Bem podiam lançar o alarme aos paquidermes vistos no côn­cavo da «lala». Prestes a sair do mato, parou, repentinamente. Lança a mão livre para trás, espalmada, a indicar ao pisteiro a paragem e silêncio. Pela brecha de um tufo de arbustos lobrigou dois vultos enormes, escuros, imóveis, enquanto o filhote rebolava no charco, brincalhão e inconsciente do perigo que chegava. Bacar agacha-se e penetra na «lala» por onde  o capim era ralo, devagar, cauteloso, evitando o quebrar da palha seca e da folhagem morta atirada do mato pelo vento. Os bicharocos mos­tram-se desconfiados e giram as cabeças descomunais para o lado do inimigo. Mais uns passos, de cócoras, e a «Kropastscheb entra a detonar uma descarga e logo outra. O mais corpulento, decerto o macho, cam­baleia até afocinhar. Soa terceira descarga e o brutamontes cai para o lado, a bufar, enquanto a fêmea e os traquinas, à ilharga, se escapam em corrida precipitada, grunhindo, tomados de terror, desaparecendo sob as águas do rio. O atirador ergue-se, mostra-se, avança uns passos e, pelo seguro, visa o cérebro do animal quase à queima-roupa com um tiro escusado. Só mais um solavanco - o derradeiro - e o sangue escorre em borbotões do orifício aberto pelo projéctil. O pisteiro não tarda a despedir o sinal, som de caverna, em aviso de êxito. Os balantas, atentos às descargas, haviam de precipitar-se pelo atalho, de terçados em punho e em alarido entusiástico. Já ali, as lâminas começaram a rasgar o couro duríssimo, a separar o manto de gordura e volumosos nacos de carne. A cabeça, qual enorme cepo, seria enterrada na lama os dias bastantes para que os vermes limpassem a caveira - mais um troféu de Bacar.
O resto, vísceras, sangueira e migalhas de carne a envolver os ossos, seriam o quinhão de abutres e hienas.
Chegados à tabanca entre a apoteose do gentio, o chefe, velhote simpático de barbicha branca, destaca-se e atira os braços descarnados aos ombros do cipaio num abraço mal desenhado, agradecendo e felici­tando em nome de todos. Os dois europeus do centro comercial impelidos pela curiosidade de ver o monstro, também lá estavam e não se foram sem arrematar o couro e as presas, moeda para dois garrafões de aguar­dente de cana, tão a propósito para a bacanal em perspectiva.
Nesse dia houve interrupção nos trabalhos da barragem. A impa­ciência dominaria os trabalhadores e, por força, o rendimento teria de ser, senão nulo, quase. O caso merecia ser assinalado com uma folga, aproveitada nos preparativos da orgia. Quando a noite caiu, na sua queda brusca própria dos trópicos, já a tocha de capim ateara fogo à ramagem seca numa fogueira de grandes proporções, ali no meio do terreiro, entre as lojas comerciais. Em redor da coleira, no chão, sobre tapete de palmas de bananeira, quantidade de carne assada em churrasco, à tarde, nos bra­sedos da tabanca. Na varanda térrea de uma das lojas os três comer­ciantes estirados nas cadeiras de lona, e perto, os cipaios sentados em bancos de pau de tagarra. As tabancas fizeram-se representar em globo e não faltaram os manjacos furadores de vinho de palma, colegas do pisteiro. Homens-grandes, os balantas mais idosos, reuniram-se aparte, em frisa, sentados no chão, c os «blufos» e raparigas - a mocidade balanta - vestiram os panos mais vistosos c adornaram-se de pulseiras e colares de contaria, anilhas de latão c braceletes de alumínio. Depois, pela noite fora, o «tamboril» e o «bombolom» rufaram ininterruptamente em orquestra ruidosa, marcando ritmos, guiando coros. Os comerciantes recolheram pelo meio-de-festa, fartos do espectáculo, sujos pela poeira em suspensão, nauseados pelo cheiro da carne esturrada. A bacanal, con­tudo, continuou até ao canto do primeiro galo, já quando da fogueira restava apenas um montão de cinza. Dispersaram então, um a um, os enfartados e exaustos, e os ébrios, a cambalearem...
Refeitas as energias com mais um dia de folga, o tempo perdido foi recuperado trabalhando-se com mais ardor. Mas sempre esperançados em nova proeza de Bacar.
E tudo aquilo por causa de um hipopótamo!...
Desapareceram as nuvens negras de carregadas. Não chovia desde há horas. E de novo os balantas desceram à planície. O «chaland» ia rio abaixo, lentamente, vela murcha a pedir lufada de vento. O rapari­guedo regressava às moranças depois de receber a jorna estipulada pelo sírio. Perto da horta dos civilizados, à sombra da calabaceira, os que antes encheram os balaios de arroz no armazém, saboreavam uma litrada de «cana» com que o sírio os presenteou a modos de suplemento. E a medida negra de ferrugem passava de boca para boca em andança de alcatruz, gole a um, gole a outro, de maneira a chegar para todos. O dia pôs-se lindo, de uma luminosidade que fere a vista e que aquece demasiadamente; e a manada que também voltara ao pasto lá nas nesgas de capim à beira do rio, regressava de novo, desta vez para gozar a sombra na mala dos bissilões.
Alexandre A.  M. Barbosa