Lembranças da Guiné, na guerra e já fora dela. Pesquisa, comentários e factos. A memória sempre presente. Não está por ordem. É conforme me vou lembrando. Tudo o que tem a ver com a Guiné, a sua história, as etnias, a colonização e as guerras de resistência. Também a minha experiência durante a guerra colonial (está nos primeiros posts). Para quem não sabe ou viveu que veja e avalie se é realidade ou ficção. Para quem sabe ou viveu são lembranças.
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26 de junho de 2012
511-Aspectos e tipos da Guiné XXV
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13 de junho de 2012
507-Aspectos e tipos da Guiné XXIV
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A. Marques Lopes
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30 de maio de 2012
496-Aspectos e tipos da Guiné XXIV
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A. Marques Lopes
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20 de maio de 2012
485-Comportamento dos agricultores balantas
Segundo a Bíblia, Deus ordenou a Adão que comesse
todos os fmtos das árvores do paraíso, mas não da «árvore que está no meio: a árvore da ciência do bem e do mal. Esta
árvore não pode ser senão a árvore produtora da semente. Com efeito, conforme
se come ou não a semente, assim se adquire a ciência do mal ou do bem.
Comendo-a, não se pode agricultar no ano seguinte e há consequentemente fome,
desgraça e infortúnio; não a comendo,
há a possibilidade da cultura, da reprodução:
felicidade, bem-estar, bem-aventurança.
Todos os episódios da Bíblia relacionados com o
paraíso e com a vida de Adão e Eva e seus filhos adaptam-se perfeitamente a
esta hipótese. Senão, vejamos:
Comecemos pelo episódio da tentação da Eva e da
queda de Adão. Eva, como mulher, como pessoa encarregada de preparar a comida,
desacatando a recomendação de Deus, come o fruto proibido e dá-o a comer a
Adão. Logicamente, o que resultou daí? Falta de semente para a cultura do ano
imediato: o mal, a fome, a desgraça.
Quem convida a Eva a comer a semente? A serpente.
Porque a serpente e não outro animal? Porque a serpente é a constelação que
surge no firmamento, no hemisfério norte, justamente no fim da época da colheita
dos frutos.
Da ciência de guardar a semente depende o bom
êxito de toda a actividade agrícola. Se esta actividade trouxe noutras eras à
humanidade incalculáveis benefícios e lhe facilitou a vida, ela só foi
possível, confiando a entes sobrenaturais a conservação da semente. Não foi,
sem uma razão forte, poderosa, inteligente, que Deus recomendou a Adão que não
comesse os frutos da «árvore que está no meio do paraíso». Não é também sem um
objectivo definido que o agricultor balanta guarda a semente e a considera «tabú»,
enquanto não chegar a época da sementeira.
O paraíso bíblico só foi paraíso, enquanto a Eva
não cometeu o pecado - não comeu e deu a comer a Adão o fruto proibido: a
semente.
*
* *
Que o paraíso bíblico não é mais que a reprodução romantizada da actividade agrícola,
deduz-se da própria Bíblia, que o faz situar precisamente nos locais onde o
homem iniciou essa actividade, isto é, onde nasceram as primeiras
civilizações, onde, enfim, os clãs se congregaram em tribos e as tribos se
fundiram em núcleos nacionais: nos vales do Nilo, do Tigre e do Eufrates - no
Egipto, na Etiópia, na Caldeia e na Assíria.
É da
Bíblia o texto que se segue:
«Ora o senhor Deus tinha plantado, desde o
princípio, um «paraíso ou jardim delicioso, no qual pôs o homem que tinha forrnado.
Tinha também o senhor Deus produzido da terra toda a casta «de árvores formosas
à vista e cujo fruto era suave para comer e «a árvore da vida no meio do paraíso: árvore da ciência do bem e
do mal. Deste lugar de delícia saía um rio que regava o paraíso, e que dali
se divide em quatro canais: um se chama Fison (Nilo «superior) e este é o que
torneia todo o país de Elvilath, onde nasce o oiro (nas origens do Nilo ficavam
as minas de Salomão). E o oiro desta terra é excelente;
ali também se acha o bedélio e a pedra cornelina. E o segundo rio chama-se
Gehon (afluente do Nilo) e este é o que torneia todo o país da Etiópia. E o
terceiro rio chama-se Tigre, que corre para a banda dos assírios. E o quarto
destes rios é o Eufrates. Tomou, pois, o senhor Deus ao homem e pô-lo «no
paraíso das delícias, para ele o «HORTAR» e guardar».
Antes de serem descobertos os processos
agriculturais, a vida do homem era um inferno. O seu alimento dependia
unicamente da caça ou do gado domesticado. O homem deambulava peIa terra, em
busca da primeira ou dos pastos para o segundo, num corrupio incessante, sem
abrigos onde se acoitar, sujeito a inúmeros e súbitos perigos. Atente-se no
que seria a vida assim, sobretudo no Inverno, e no que se tornou depois, quando
o homem entrou na fase agrícola, e ter-se-á a convicção de que realmente o
paraíso bíblico é aquele que o homem alcançou, por graça de Deus, com a
modificação da sua actividade.
À agricultura
deve o homem o progresso e a civilização. Foi ela que lhe deu o conhecimento da
marcha do tempo: a data da sementeira, a da germinação, a da frutificação e a da colheita; o conhecimento da geometria,
pela necessidade de reconstituição das marcas delimitadoras das terras,
inutilizadas pelas grandes cheias que se verificavam nos vales do Nilo, do
Tigre e do Eufrates; e o conhecimento da astronomia e da astrologia, pela
constatação da influência de certos astros nas chuvas, nos ventos, nas cheias,
no tempo em geral.
Foi a agricultura que contribuiu para a melhoria
da existência dos povos. Sem agricultura a vida era um inferno; com ela passou
a ser um paraíso.
*
* *
Adão e Eva são os nossos longínquos ascendentes
agricultores. No período nómada, quando as sociedades humanas viviam em
formações conhecidas pela designação geral de «clãs»,
os ascendentes eram outros: talvez um animal, talvez uma planta, talvez
um feitiço. Com o advento do rnonoteismo, em plena fase agrícola, estes
ascendentes tiveram naturalmente de ser substituídos por figuras míticas mais
harmónicas com a crença incipiente. Manifestou-se assim a tendência para a sua
humanização. Deus, inspirando Moisés, deu corpo à doutrina: criou Adão e Eva. Adão e Eva são, pois, os «totens»
humanos da época moderna.
Adão vem do barro, porque é o
barro - a terra - que lhe dá condições de existência.
Para melhor vincar os dois períodos - o nomadismo
pastoril e o sedentarismo agrícola - a Bíblia personificou-os, dando aos filhos
de Adão e Eva as profissões de pastor e lavrador: Abel, pastor de ovelhas, e
Caim, agricultor.
Salientando a preferência dada pelo homem à vida
agrícola e a sua correspondente aversão pela vida pastoril, refere-se a Bíblia
ao desamor de Caim por Abel nestes termos:
«E Caim se irou fortemente e o seu semblante
descaíu. E o Senhor lhe disse: porque descaiu a tua face? Porventura se tu obrares
bem, não receberás recompensa? E se obrares mal, não estará logo o pecado
(desgraça) à porta?»
Depois conta que Caim matou Abel, o que quer dizer que a vida agrícola
triunfou, matando, eliminando a vida pastoril.
Porque o abandono total da vida pastoril não
constitui um bem para a humanidade,
visto que, em anos de crise, é ela que tem de fornecer os elementos
indispensáveis à existência, Deus assim
se dirige a Caim, recriminando-o:
«Onde está o teu irmão? Que fizeste? A voz do
sangue do teu irmão clama deste a terra por mim. Agora, pois, serás tu maldito sobre
a terra, que «abriu a boca e recebeu o sangue do teu irmão»
Foi abrindo a boca à terra, sulcando-a...
que se alimentou Abel! A terra abriu a boca - e o sangue de Abel correu!
Em conclusão:
A semente constitui para o agricultor balanta
«tabú», como «tabús» constituíram para os povos da antiguidade, simbolizados na
figura de Adão, seu antepassado longínquo, os frutos da «árvore que estava no
meio do paraíso: a árvore da ciência do bem e do mal».
O balanta guarda a semente como Deus disse a Adão que a guardasse.
O comportamento dos balantas é, pois, igual ao comportamento dos povos primitivos que se instalaram no
paraíso: nos vales do Tigre, do Eufrates e do Nilo.
Bissau,
15 de Outubro de 1951.
Fernando Rogado Quintino
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3 de abril de 2012
437-O Gallóna
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9 de março de 2012
410-Ki-yang-yang: uma nova religião dos balantas?
Carlos Cardoso era Director do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas) da Guiné-Bissau quando escreveu este estudo. Actualmente, o Director do INEP é Mamadu Jao. Este texto está na "Soronda - Revista de Estudos Guineenses" de 10 de Julho de 1990, publicada pelo INEP.
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3 de março de 2012
404-Kussundé
O kussundé é uma dança tradicional de algumas etnias animistas da Guiné
Kussundé felupe
Kussundé balanta
Kussundé no Cantanhês
Kussundé felupe
Kussundé balanta
Kussundé no Cantanhês
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2 de março de 2012
403-Os Balantas
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30 de janeiro de 2012
374-Magda Bagi, um balanta... estranho
Dia após dia, hora após hora, Madja Bagi esperou paciente por
este momento.
Nas noites insones, olhos furando a treva densa que escorre pelos prumos da
palhota e inunda o colmo sonoro. Madja Bagi construiu
o plano, estudou-o nos mínimos pormenores. Nas manhãs de sol,
curvado sobre a «bolanha» faiscante, mãos crispadas no arado com que
revolve o lamaçal fecundo, meditou no seu sonho e refreou ai sua ansiedade.
E
agora, bem neste momento, sente que a hora chegou. Ali está, silencioso e quedo, beneficiando da sombra espessa que o cajueiro
derrama. No céu nublado, sem estrela nem palor, correm nuvens em furioso
galope. Longe, para os lados da «lala», qualquer ave noctívaga ensaiou um canto
soturno. E, logo após, o silêncio tombou de novo, pesado e húmido. Um silêncio
feito de mil diferentes rumores, imprecisos e vagos.
Na expectativa do «tornado» que não tardará em vir, o matagal acobardou-se.
Dir-se-ia que a morte campeia e esmaga tudo sob o seu passo gélido. Os
altivos poilões amodorraram c guardam a mudez grave dos grandes momentos. Da
tabanca, que se adivinha além entre bananeiras estéreis, não vem sinal de vida.
Por
momentos, em fugaz visão que logo se esvai no denso negrume que tudo submerge,
Madja Bagi vê a recepção calorosa de que será alvo. Então, Xaála Bari não desatará
aqueles olhares frios que o envenenam. Ensaiará talvez - quem poderá sabê-lo! -
um sorriso doce, um daqueles sorrisos que só Xaála
possui.
Por
isso, só por isso, vale a pena esperar, paciente, o instante que lhe pareceu
longínquo. Talvez até esta noite tempestuosa e negra fosse enviada
pelos deuses, premiando a sua refreada ansiedade, dando razão à sua sede de
grandeza e amor.
Amanhã,
quando na tabanca constar o seu feito audaz e másculo, olhares de inveja e
respeito cairão sobre o seu corpo possante. É impossivel
que Xaála não acompanhasse esse louvor unânime. E
então na próxima lua, com a «bolanha» ondulante e verde, grávida de espigas,
unirão os seus corpos e as suas vidas. Ele não será jamais o trabalhador
isolado, o motor de dois braços que revolvem terras alheias. Terá uma «morança» sua, bem sua, e
outros braços virão emparelhar com os seus rasgando sulcos em lamas fecundas
que darão espigas.
Venderá
o arroz ao sírio baixote e untuoso que tem uma loja infecta ao fundo da vila ou
esperará o «branco» imundo e mal-humorado que passa naquela camioneta que
parece desmantelar-se a cada solavanco?
Agora,
bem neste momento que finalmente chegou, apenas o seu plano, há tanto urdido,
tem forma. O mais, tudo o mais, são rápidas visões, miragens que se sucedem e
se esvaiem por entre o negrume opaco.
Longe,
muito longe, há um rumor estranho, soturno, como que um tombar de cachoeira em
ravina abrupta. Ou como se, por infindável e metálica ponte, rolasse um comboio impossível.
Madja Bagi sabe que o «tornado» se aproxima vertiginosamente. Ouve-se-lhe o
tropel profundo e surdo, como batuque furioso e longínquo; pressente-o na
quietude fictícia do matagal sonoro; calcula o seu caminhar galopante pelo
rumor crescente da folhagem sacudida - e espera.
Madja
Bagi tem os costureiros retesados e, com a mão crispada, aperta o punho do
terçado.
De
súbito, um estrondo caiu do alto, brotou das copas desgalhadas, subiu do solo
ressequido e poeirento, ocupou tudo num ribombar que ensurdecia. O cajueiro
gemeu, varrendo o chão com as ramas desgrenhadas. Como se, qual arco
impossível, disparasse folhas para o alvo que ficaria algures, para lá do
negrume pesado e ruidoso.
Logo após, a chuva tombou em catadupas, morna e compacta. Na tabanca, sob a
ventania raivosa, as bananeiras entrechocavam as folhas enormes, num ruído
sincopado e agreste como gargalhadas dementes.
Madja Bagi correu por entre o capim
ensopado. De salto, ilencioso e elástico como felino, transpôs a
palissada e quedou atento.
O «tornado» abafava tudo. A chuva cantava como arroz velho caindo nas
esteiras. Do matagal, vinham os gemidos de dor das árvores contorcionistas.
Encharcado e transido, Madja Bagi enrijou os músculos, acocorou-se e
ergueu-se repetidas vezes. A cada flexão, progredia no
terreno lamacento e frio. Com um salto maior, de lado, alcançou as bananeiras e
ficou-se agachado, junto aos caules, recebendo as bofetadas rudes das ramas
rasgadas.
Lentamente, o seu corpo alongou-se até as mãos ratearem os prumos do «congó».
E agora, com o tronco bem colado ao chão pegajoso, todo ele se concentra no
ouvido subtil, numa crispação nervosa. Nada. Nenhum rumor furava o colmo.
Dir-se-ia que toda a tabanca havia desertado em face da tormenta que imperava
ainda, ao perto e ao longe, atirando seus urros para o cabo do mundo.
Então, seus dedos longos e nodosos, habilmente, febrilmente, cavaram em
torno da base do primeiro pilar. Dois golpes rudes, oscilantes, alargaram o
covato. Água lodosa esguichou em volta. Nada mais.
Depois um outro, e outro ainda, sofreram os mesmos empuchões violentos.
Lama líquida saltava e ia diluir-se na enxurrada que rumorejava.
Madja Bagi içou-os, um a um, até desenterrá-los e, com mil cuidados,
deitou-os na valeta.
Algo de insólito rangeu ali, mesmo ali, brotando da boca
daquele buraco negro, agora aberto.
Acocorado, músculos contraídos na eminência do salto, terçado firme na mão
possante, Madja Bagi esperou. Os olhos, furando a treva, tinham uma fixidez
dolorosa.
Cansado da espera, impaciente e audaz, aventurou um braço. Depois de
chofre, todo o seu corpo hercúleo e brônzeo, penetrou no «congó».
Presa a uma estaca cravada, aquela vaca malhada e linda que todos
cobiçavam, parecia esperar. O rnancanha, cioso do seu haver, dormia junto da
estaca.
Incrivelmente hábil e silencioso, Madja Bagi desatou os nós da espia, as
mãos rasando o rosto do mancanha - e tanto, que a expiração lhas aquecia agradavelmente.
O resto foi simples. E rápido. Patas cobertas, afagos, sábios toques,
trouxeram para o matagal o bicho desejado. Rápido. E simples.
O «tornado» passava. Do céu luminoso e translúcido, caía uma quietude
pânica. Aqui
e além, asas raspavam o silêncio.
Pelo trilho subtil, Madja Bagi guiou o animal, forçando a
marcha mais e mais - que a impaciência é forte e o perigo muito.
O sol, quando espreitou por entre os troncos dos poilões, encontrou-o
longe, muito longe já, em plena estrada, cantarolando. E quando a treva de novo
tombou sobre os homens e as coisas, Madja Bagi marchava ainda, infatigável e
feliz.
Uma magnífica ansiedade ocupa, no seu espírito, o lugar da histérica
ansiedade que o dominou. Agora, Madja Bagi não pensa nem sonha - canta.
Todas as suas esperanças, todo o seu orgulho, todo o seu violento
bem-querer, saltam-lhe aos lábios e desfazem-se em melodias bárbaras, guturais,
ruidosas como seixos rolando.
Um outro sol, olhando a pique, avistou-o recolhido, num matagal espesso,
comendo. Bem presa, a vaca malhada, exuberante de carnes, ruminava
tranquilamente. Mas o «tornado» que vergastou as terras, ao tombar da noite,
surpreende-o num atalho que mal se adivinhava no emaranhado do capim viçoso e
sussurrante.
Madja Bagi não sente o ardor das soalheiras impiedosas nem vacila sob o
ímpeto selvagem das tormentas. Segue embalado por um sonho grande. Tão grande
que todo o mundo parece concentrar-se em si, à sua volta. Tudo o mais são coisas indefinidas, sem sentido nem forma, uma
imensa e profunda inutilidade.
Tocando o animal dócil e paciente, Madja Bagi apenas sai do seu súbito
egoísmo para recordar Xaála Bari. Recordar os seus olhos c o seu sorriso. O seu corpo moldado e
brilhante. Toda ela. Ou para, confiante e feliz, idealizar a união dos seus
corpos e dos seus destinos.
... Nas próximas chuvas, caminhando na lama fecunda, colhendo os caules
pejados de espigas... O filho macho que nascerá... Um mundo.
De quando em quando, uns assomos de meiguice piegas
levam-no a afagar a vaca robusta, luzidia e valiosa como «bajuda» intacta.
Outro sol e outro negrume encontraram ainda Madja Bagi em pleno matagal.
Só na manhã seguinte, para lá daquela mancha escura que as mangueiras
derramam pelo céu, avistou os cocurutos das palhotas. Um rumor familiar e vago,
veio, envolto na brisa, esperá-lo na «lala». O animal, cansado e estranho,
espetou as orelhas e mugiu baixo, numa interrogação.
A longos haustos, Madja Bagi bebia aquele ar lavado e
sonoro que o acariciava.
De súbito estacou. Os tambores haviam rasgado a manhã e batiam, sincopados,
cadências festivas.
Que seria?
Duas palmadas rijas deram pressa ao animal e ele alargou o passo, folgando
a amarra.
O ar andava envolto em gritos hilares, gargalhadas estridentes; sons
desordenados de tambores repetidos.
Às primeiras palhotas, parou. Ninguém. De quando
em quando, gente corria, num desaforo, sem o ver.
Sem o ver ...
E agora, bem no centro do largo, junto ao poilão magestoso e secular, sente
que tudo foi inútil. Uma dor funda, aguda e cáustica, raspa-lhe o peito. Tem a noção que os tambores estão longe, longe, lá
para as bandas onde o mar parece ter fim. E aquela gente, correndo, falando,
dançando, são ténues silhuetas, imprecisas e vagas como copas em manhãs de
bruma.
E aquela dor, fria e funda, doendo mais e mais...
Junto de si, os «homens grandes» tecem-lhe louvores e, de quando cm quando,
palpam-lhe o corpo gelado e trémulo. «Bajudas» roliças e intactas devoram-no
com o olhar incendiado.
Madja Bagi, de olhar perdido, músculos crispados sob a pele de ébano, um nó espesso na garganta ressequida,
apenas tem noção daquela dor funda e surda, como que um punhal entrando,
entrando ...
Agora, em plena festa do casamento de Xaála Bari, sente que tudo ruiu à sua volta. Ódio. Frio.
Quem será esse Curna Naté que a vai levar? Não conhece.
Uma voz qualquer - será a do chefe Impanda? - diz-lhe que
Curna Naté veio de longe, de muito longe, para a levar. É rico.
... A dor é maior. Maior e mais funda...
Com esforço, chamando a si toda a sua força imensa, Madja Bagi correu a
olhar. E vê o feliz entre risos e nuvens de fumo. Perto dali. Xaála Bari, assiste, dengosa, ao
baile das moças.
A crispação que lhe percorreu o corpo, elucidou os velhos. Desde logo,
prudentes, procuram assento junto das palhotas. Levavam no olhar a luz pânica dos
graves momentos.
Madja Bagi, de olhos fitos no feliz rival, sente que algo de indefinido o
submerge e sufoca. É um mal-estar estranho, uma raiva surda, o que quer que
seja de doloroso que o cobre de frio e tolhe os movimentos. E quando o seu
olhar duro, congestionado, faiscante, pousa em Xaála Bari, faz gelar-lhe o
sorriso com que premiava os tocadores.
De súbito, um longo arrepio talvez, ou talvez até um soluço mal contido,
faz sacudir o corpo magnífico de Madja Bagi.
A passo lento, encaminhou-se para Cuma Naté. Os seus músculos possantes, sob a dolorosa contracção,
desenham-se sob a pele.
Um frémito de pavor percorreu as gentes. Crianças nuas, desordenadas,
procuram as mães, em choros soluçados. Os tambores emudecem. Caiu do alto,
sobre os homens e as coisas, um silêncio pesado e frio como uma maldição.
Do alto da sua estatura hercúlea, Madja Bagi olha as gentes. E o seu olhar, firme e cortante,
esmaga-as inexoravelmente.
Contagiado, Cuma Naté ergueu-se trémulo.
A sua mão, pouco firme, prendeu o terçado. Companheiros robustos fizeram-lhe
guarda, enquanto os «grandes» abanavam as cabeças num fatalismo de mau agouro.
Lento, majestoso, Madja Bagi continuava. Da sua mão esquerda saía a amarra
da vaca malhada. E a vaca malhada, dócil e atenta, caminhava ruminando.
Daqui e de além, brotaram os primeiros gritos, logo
abafados pelo silêncio que imperava, Uma leve brisa ciciou na folhagem. Uma asa raspou o céu. Nada mais.
Madja Bagi deixou cair o terçado e, sem uma contracção, rígido e frio,
aproximou-se.
E as gentes viram, bestas de pasmo, Cuma Naté tremer. No
seu olhar baço e parado, no seu rosto coberto de suores frios, desenhou-se o
medo.
Então, quando já nada restava a não ser a pública cobardia
do rival, Madja Bagi sorriu. Um sorriso duro, crispado, agressivo como uma
bofetada.
Sem pressas, estendeu-lhe a corda que prendia o animal.
E quando, atónito e trémulo, Cuma Naté a recebeu, afagou-lhe o ombro com
duas pequenas palmadas - como o faria a um garoto...
Fernando
R. Barragão
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29 de janeiro de 2012
373-Planície conquistada
Assim
que rompeu o dia, alvor nado, a gente balanta desceu à planície. Os mais
tardios a erguerem o corpo da esteira ou que demoraram aconchegados ao
brasedo, restos da fogueira acesa logo o galo cantou, seguiam o trilho fora na
direcção da «laIa», onde outros, em reunião de ânimos, se aprestavam para
iniciar a nova fase de aproveitamento da várzea.
O rapariguedo, que também madrugou, sai da
tabanca para a povoação comercial, ali perto. O sírio ia despachar as últimas
toneladas de arroz que ficaram da farta campanha que passou, pois o «chaland»
que viera no preamar da noite não devia demorar em levá-lo a Bissau, para o
descasque, quando o rio entrasse em vasante. Não
podia tardar a lufa, formigueiro humano em fila indiana, balaios à
cabeça, cheinhos, varando a «laIa» em trote constante até à ponte de cibes, de onde o despejavam para o
porão espaçoso.
Na planície já o «bindé» removia o solo que as
primeiras chuvas encharcaram e tornaram fofo. Talhões
divididos, postados em linha de ataque, os da lavra lançavam o arado com gana,
sempre, sempre para diante. Um cantava. Melopeia enfadonha, entoação de compassos iguais, sempre a mesma música,
excepto uma nota que se avivava quando da penetração do «bindé». Deixavam para trás a terra amarelada, revolvida em torrões disformes
com a trama do raizedo e um ou outro fragmento arbustivo que a queimada, em
cenário grandioso de labaredas e fumaça, deixou tostados na voragem com que
galgou o imenso capinzal.
Agora cabia ao Sol esterilizar o raizame e aberta que estava a quadra
pluviosa competia à chuva a saturação e dessalga das leivas em poisio, enquanto
arrastava do mato a lixarada vegetal - o adubo para a futura e grande «bolanha».
Corridos uns dois anos, na época própria, seria a lavra definitiva: valas
abertas, camalhões levantados, pequenos ouriques compostos, estes a servirem
de passadiço e traçado a marcar propriedades. Era chegada a vez da transplantação
da gramínea, criada em alfobres, tabuleiros verdejantes resguardados pelo
arvoredo, obstáculo à ventania e ao Sol
forte que cresta quando no auge. Então, em toda a interminável planura, havia
de desenvolver-se o arrozal, vasto relvado a esconder a água estagnada que as
purgas da barragem consentisse.
Continuava a bruma. O astro das quenturas fora
eclipsado pelas nuvens enegrecidas de carga. Voltou a chover, num repente, e
logo os da lavra pararam em quietude de espectativa, arados quietos, cabeças
erguidas e atiradas para trás visando a atmosfera num diagnóstico
meteorológico. Não tardaram em abalada para a tabanca, velozes como gazelas e
em algazarra alegre de garotos em festa. Do lado do rio, nas nesgas de capim, a
manada iniciou a retirada ante os toques brandos das vergastas dos miúdos, nus,
apenas as «malilas» a rodear-lhes a cintura, pulsos e artelhos. Maçaricos e
pernaltas que deambulavam nas margens lodosas do rio irromperam em fuga voando
baixo, quase tocando a água, para os lados do tarrafe e onde o mar começa. E as
garças que antes esvoaçavam de dorso para dorso dos bovinos em faina
parasiticida, já tinham desaparecido a resguardar a plumagem branca e mimosa,
enfiando para a outra banda do rio, mato aberto salpicado de palmeiras de cibe
a destoarem das mambombas e outros arbustos rasteiros. A chuva não pára. Cresce
o volume do rio que vasa em força mas já não invade a planície. O flanco da
extensa barragem repele-a, rechaça-a, e a torrente caudalosa segue para o mar,
talvez contrafeita...
Anos atrás, ainda quando a planície, na
culminância das chuvas, tinha de consentir o jugo despótico das águas, renascia
na região a antiga ideia da barragem; mas logo que o elemento intruso se
escoava para as profundidades do solo e para o leito do rio, em vez de um
impulso comum para levantar o dique tão necessário, de construção barata, passava-se
o tempo a meditar, a meditar somente, até esquecer...
E, assim, de ano para ano.
Ao gentio bastava-lhe aquela fartura selvagem.
Cheio o «fuul», reserva de grãos a garantir-lhe a subsistência, até à colheita seguinte, e feita a inversão do
produto em moeda para satisfazer o pagamento das capitações anuais, adquirir
umas jardas de tecido, uma manta, alfaias e qualquer bugiganga do seu agrado,
e, ainda, amealhados uns tantos «pesos» para umas folhas de tabaco e uns goles
de «cana» de quando em quando, nada mais o preocupava. É que contavam com outros recursos que fariam inveja noutros,
camponeses como eles mas de outras latitudes, que empenham a vida à terra que,
por pobre, esgotada, difícil, só cede ante a química e o vigor dos braços,
remunerando-os avaramente. Recursos ali a dois passos, fáceis de colher e
espontâneos. A «bolanha», quando alagada, criava barbos, bentanas, camarões
para uma pescaria cómoda, o mato, propriedade de todos, punha à disposição uma variedade de frutos
silvestres, troncaria, mezinhos... ; a «lala» era um manancial de lama e capim,
materiais com que edificavam as suas palhotas; e o mar também concorria com
mariscos e sal, toalha de cristal que ficava assente lá no começo da «laIa» a
quando das marés mortas. Mas a volúpia pelo álcool, o vício do tabaco e o
desejo de posse de qualquer novidade que o comércio lhes punha diante dos
olhos, levava-os a desfalcar a reserva de cereal e lá ia o cabaço, uma, duas,
infinidades de vezes, encher-se no «fuul», até que roçava no fundo do enorme
pote, sacrificando a reserva. Recorriam aos empréstimos nunca negados, umas
vezes dinheiro, outras o próprio produto que venderam antes, e ainda a gramínea
não estava transplantada na «bolanha» já parte - grande parte - da futura
colheita estava comprometida, endividada.
Uma das partes interessadas na barragem - o
comércio - assoberbada com o fecho-de-contas da campanha finda e já com os preliminares
da seguinte, se não se esquecia, parecia. A outra parte - o indígena - fechava-se
numa apertada compreensão do restrito e não dava um passo para melhorar hábitos
e nível de vida, trabalhando o indispensável para uma safra à escassa - flagrante herança dos seus
avoengos, os primeiros de uma mística pagã de obediência cega a «irãs» e
«totens», espantalhos habilmente animados pela «sigué» e pelo feiticeiro da
tribo impingindo-os como omnipotentes. Antídoto, a dificultar a acção do
civilizado, do cristão!
A sede da Circunscrição chegara o novo administrador. Novato, mas com aura
de sabedor e dinâmico, de porte desportivo, de modos simples e cativantes,
quando ali foi em visita de reconhecimento da região aproveitou para, em
contactos directos, auscultar opiniões quanto a possibilidades actuais e das
possíveis no futuro. Ali mesmo, em campo raso, sem qualquer aparato, depois de
especificar necessidades com convencimento da verdade, numa linguagem simples
mas concisa, calou-se para ouvir
outros, convidados a depor: representantes do comércio, chefes de tabanca,
«cabeças» de morança. Por fim, até um «blufo», cspigadotc, tufos de cabelo
retorcidos e a penderem para a testa, também
proclamou o seu entusiasmo pelo momento.
Quando a carrinha abalou já ficara selado um
entendimento, uma decisão, aceite por todos num aplauso sem artifícios. Fora um
verdadeiro empurrão que, sem magoar, sobrecarregando todos por igual, levava a
um fim: o Progresso da região.
Escoradas na perspectiva de óptimas campanhas, melhor compensação ao capital e
à dura vida do mato, os comerciantes aceitaram de bom grado o seu quinhão de
responsabilidades: custear a alimentação dos trabalhadores indígenas enquanto
durassem os trabalhos para a conquista da planície e o empréstimo da semente na
altura adequada, mas dessa vez em cedência de «bushel» por «bushel». O indígcna
dava a mão-de-obra. Cada morança forneceria um trabalhador. De Catió, lá da
administração, vinham as alfaias necessárias, gasolina, o camião para
transporte de cascalho e de cibes e ainda dois cipaios, um transferido há pouco
de Mansoa e com prática dessas coisas de barragens e o outro, o fula Bacar,
caçador de fama, a quem competia abater no mato e nas «lalas» os antílopes para
a «màfé» de todos os dias. E quando ali fosse a carrinha com um administrativo
seguir o andamento dos trabalhos, não deixaria de levar um braçado de folhas de
tabaco, presente a sair da verba orçada anualmente para premiar indígenas que
se distinguissem.
Os balantas ganharam entusiasmo, interesse e a
obra começou.
O camião agrupou montanhas de cascalho e grandes
pilhas de toros de cibe destinados ao esqueleto da plataforma, enterrados a
formarem cruzes sucessivas,
desencontradas, a lembrar obstáculo antitanque. Ergueram-se medas de capim. A
lama bastava agachar os corpos e enterrar as mãos... Feita a argamassa da lama,
capim e cascalho era só atirá-Ia a cobrir O esqueleto,
e o imponente paredão ia surgindo. E em três meses, apenas, aquela estrutura
majestosa para o meio, já dava ares de desafio a qualquer enxurrada de intuitos
invasores. Assim, contidas as águas, ia a planície selvagem e estéril tornar-se
em vasta área de cultivo, terreno de sobra para os da região e ainda para
outros mais, muitos que fossem, migrados de outros lados onde os terrenos
baixos esfalfaram da lavoura consecutiva. Desse-se o êxodo, a região poderia
sobrelevar-se e disputar a fama de melhor centro produtor a Cabo-Chanque,
Cantone, Jabadá...
Com a obra em meio surgiu um acontecimento que os
balantas interpretaram como dádiva do «irã» - ainda os vestígios dos avoengos -,
relegando o protagonista do facto a mero instrumento do fetiche. Manhã cedinho,
um dos manjacos que furava nos palmares perto da estrada larga que segue a Catió,
chegou à tabanca com os cabaços de
seiva fresca e a novidade: um casal de hipopótamos, com filhote, pastava na «lala»,
um bom bocado além da curva do rio. Bacar, o cipaio investido da função
venatória, ainda na palhota do chefe de tabanca, sonolento, conseguiu entender
o murmúrio e, num ápice, apareceu com a farda ainda por abotoar e a velha
«Kropastschek» segura pelo cano, sobre o ombro, como cajado de cabreiro. Logo o
rodeou aquela gente em alvoroço e de apetites aguçados para o possível festim.
Em momentos o camião arrancou a ganhar a estrada e lá no cruzamento o cipaio
desceu, deu instruções, e vai que fura no atalho que serpeia pelo mato espesso,
manjaco atrás. Os que vieram da tabanca como possíveis carregadores teriam de
aguardar um sinal do pisteiro, mãos em concha encostadas à boca para sonorização do grito. Penetraram
na floresta. Curva ali, descida acolá, tufos de ramagem a vedar a passagem,
grossas carcassas de troncos caídos ao través, vítimas da «baga-baga», tudo a
camuflar o trilho e a dificultar o trânsito aos intrusos da selva. Mas o
manjaco, o pisteiro, conhecia bem o piso, não andasse ele por ali um ror de
vezes para se encarrapitar na palmeira colhendo «chabéu» e extraindo vinho de
palma. Adiante, nos troncos baixos, uma cáfila de macacos-cães rompeu em
fragorosa rastolhada e a latir desalmadamente. O caçador continua, indiferente,
mas olha-os de soslaio por entre a vegetação, contrariado, praguejando em
pensamento contra os símios antipáticos e de nádegas repelentes. Bem podiam
lançar o alarme aos paquidermes vistos no côncavo da «lala». Prestes a sair do
mato, parou, repentinamente. Lança a mão livre para trás, espalmada, a indicar
ao pisteiro a paragem e silêncio. Pela brecha de um tufo de arbustos lobrigou
dois vultos enormes, escuros, imóveis, enquanto o filhote rebolava no charco,
brincalhão e inconsciente do perigo que chegava. Bacar agacha-se e penetra na «lala»
por onde o capim era ralo, devagar,
cauteloso, evitando o quebrar da palha seca e da folhagem morta atirada do mato
pelo vento. Os bicharocos mostram-se desconfiados e giram as cabeças
descomunais para o lado do inimigo. Mais uns passos, de cócoras, e a
«Kropastscheb entra a detonar uma descarga e logo outra. O mais corpulento,
decerto o macho, cambaleia até afocinhar. Soa terceira descarga e o
brutamontes cai para o lado, a bufar, enquanto a fêmea e os traquinas, à ilharga, se escapam em corrida precipitada,
grunhindo, tomados de terror, desaparecendo sob as águas do rio. O atirador ergue-se, mostra-se, avança uns passos e, pelo
seguro, visa o cérebro do animal quase à
queima-roupa com um tiro escusado. Só
mais um solavanco - o derradeiro - e o sangue escorre em borbotões do orifício
aberto pelo projéctil. O pisteiro não tarda a despedir o sinal, som de caverna,
em aviso de êxito. Os balantas, atentos às descargas, haviam de precipitar-se
pelo atalho, de terçados em punho e em alarido entusiástico. Já ali, as
lâminas começaram a rasgar o couro duríssimo, a separar o manto de gordura e
volumosos nacos de carne. A cabeça, qual enorme cepo, seria enterrada na lama os dias
bastantes para que os vermes limpassem a caveira - mais um troféu de Bacar.
O resto, vísceras, sangueira e migalhas de carne a
envolver os ossos, seriam o quinhão de abutres e hienas.
Chegados à tabanca entre a apoteose
do gentio, o chefe, velhote simpático de barbicha branca, destaca-se e atira os
braços descarnados aos ombros do cipaio num abraço mal desenhado, agradecendo e
felicitando em nome de todos. Os dois europeus do centro comercial impelidos
pela curiosidade de ver o monstro, também lá estavam e não se foram sem arrematar
o couro e as presas, moeda para dois garrafões de aguardente de cana, tão a
propósito para a bacanal em perspectiva.
Nesse dia houve interrupção nos trabalhos da barragem. A impaciência
dominaria os trabalhadores e, por força, o rendimento teria de ser, senão nulo,
quase. O caso merecia ser assinalado com uma folga, aproveitada nos
preparativos da orgia. Quando a noite caiu, na sua queda brusca própria dos
trópicos, já a tocha de capim ateara fogo à ramagem
seca numa fogueira de grandes proporções, ali no meio do terreiro, entre as
lojas comerciais. Em redor da coleira, no chão, sobre tapete de palmas de
bananeira, quantidade de carne assada em churrasco, à tarde, nos brasedos da
tabanca. Na varanda térrea de uma das lojas os três comerciantes estirados nas
cadeiras de lona, e perto, os cipaios sentados em bancos de pau de tagarra. As
tabancas fizeram-se representar em globo e não faltaram os manjacos furadores
de vinho de palma, colegas do pisteiro. Homens-grandes, os balantas mais
idosos, reuniram-se aparte, em frisa, sentados no chão, c os «blufos» e
raparigas - a mocidade balanta - vestiram os panos mais vistosos c adornaram-se
de pulseiras e colares de contaria, anilhas de latão c braceletes de alumínio.
Depois, pela noite fora, o «tamboril» e o «bombolom» rufaram ininterruptamente em
orquestra ruidosa, marcando ritmos, guiando coros. Os comerciantes recolheram
pelo meio-de-festa, fartos do espectáculo, sujos pela poeira em suspensão,
nauseados pelo cheiro da carne esturrada. A bacanal, contudo, continuou até ao
canto do primeiro galo, já quando da
fogueira restava apenas um montão de cinza. Dispersaram então, um a um, os enfartados e exaustos, e os ébrios, a
cambalearem...
Refeitas as energias com mais um dia de folga, o
tempo perdido foi recuperado trabalhando-se com mais ardor. Mas sempre
esperançados em nova proeza de Bacar.
E tudo aquilo por causa de um hipopótamo!...
Desapareceram as nuvens negras de carregadas. Não
chovia desde há horas. E de novo os balantas desceram à planície. O «chaland»
ia rio abaixo, lentamente, vela murcha
a pedir lufada de vento. O rapariguedo regressava às moranças depois de
receber a jorna estipulada pelo sírio. Perto da horta dos civilizados, à sombra
da calabaceira, os que antes encheram os balaios de arroz no armazém,
saboreavam uma litrada de «cana» com que o sírio os presenteou a modos de
suplemento. E a medida negra de ferrugem passava de boca para boca em andança
de alcatruz, gole a um, gole a outro, de maneira a chegar para todos. O dia
pôs-se lindo, de uma luminosidade que fere a vista e que aquece demasiadamente;
e a manada que também voltara ao pasto lá nas nesgas de capim à beira do rio, regressava de novo, desta vez
para gozar a sombra na mala dos bissilões.
Alexandre A. M. Barbosa
Alexandre A. M. Barbosa
Publicada por
A. Marques Lopes
à(s)
00:02
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