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25 de maio de 2011

182-O poder de Nino Vieira começou com o assassinato de Amílcar Cabral

in jornal "O Ponto" de 4 de Dezembro de 1980
Este pequeno episódio, de uma noite de pesadelo, só me surgiu na memória pelo título que o ponto deu à reportagem sobre o golpe de Bissau de 14 de No­vembro: Amílcar: segunda morte ou ressurreição?
De facto, só se morre uma vez. E Amílcar Cabral morreu a 20 de Janeiro de 1973. Com ele, e na mesma acção, morreu a unidade Guiné-Cabo Verde. Com ele morreu o PAIGC.
Morte adiada. Adiada sete anos, por força de equilíbrios de poder que explodem agora.
Neste artigo não pretendo abrir polémicas, a que, aliás não responderei. Assisti à morte de Amílcar Cabral e a todo o pro­cesso que se lhe seguiu. Os acontecimentos recentes le­vam-me a tomar públicos factos que calei todos estes anos. Por motivos pessoais, só!

Os factos

No dia 19 de Janeiro de 1973, os Serviços de Segurança da Embaixada da Chescoslováquia em Conakry avisaram Amílcar d Cabral de que teriam sido detec­tados indícios de conspiração dentro do PAIGC.
Cabral avisou o então respon­sável pela sua segurança para que tomasse precauções. Ele era Manadu N'Djai, herói nacional, comandante da Frente Norte, três vezes ferido em com­bate e, de momento, em Conakry, precisamente, em conva­lescença do seu último feri­mento.
Manadu N'Djai fez saber direc­tamente aos outros conspirado­res que o golpe era conhecido. Assim, tudo foi antecipado e a acção decorreu em plena visita oficial a Conakry de Samora Ma­chel e Joaquim Chissano (este último foi, aliás, membro da Co­missão Intemacional de Inqué­rito à morte de Amílcar Cabral e da mesa que me interrogou, assim como a Manadu N´Djai[1].
Nessa noite, decorria, na Es­cola Piloto do PAIGC, em Ra­toma, arredores de Conakry, uma reunião de informações sobre o desenrolar da guerra em Moçambique, presidida por Chissano. A ela assistiam todos os residentes da escola (alunos e professores) e vários quadros superiores do Partido. Amílcar Cabral e Samora Machel esta­vam ausentes. À hora de a reu­nião acabar, cerca das 23, já Amílcar estava morto. O grupo de viaturas que voltava para Co­nakry, ou para os outros campos do PAIGC, foi interceptado pelo grupo de revoltosos, sendo pre­sos todos os elementos cabo­-verdianos ou com eles conota­dos. A «promessa» feita no acto da prisão, era: «Vai tudo ser fu­zilado». Pela meia-noite, toda a direcção política do PAIGC, de momento em Conakry, estava presa. Mas, aí, deu-se a revira­volta: o exército de Sekou Touré, intervém em força, prende todos os elementos do PAIGC (revol­tosos e vítimas) e o golpe é pa­rado.

O que se tinha passado entre­tanto: O grupo directamente en­carregue de prender Amílcar Cabral, comandado por Aristides Barbosa, ex-chefe de Marinha e «de castigo» em Conakry, por motivos de corrupção, assassina Cabral, contra os planos estabe­lecidos - que eram os do rapto. O outro grupo que entra em acção, comandado por Manadu N'Djai, prende e rapta, como estava previsto, Aristides Pereira, que é transportado num carro do par­tido, amarrado e levado num barco de guerra do PAIGC para o largo do porto de Conakry. Com ele é levado Buscardini (agora assassinado) e espancado quase até à morte. Este barco, ainda na noite dos acontecimen­tos é recuperado por um barco de guerra soviético e trazido de volta para Conakry.
Entretanto, o grupo que aba­tera Cabral apresentou-se no Palácio da Presidência de Co­nakry, e informa Sekou Touré que acabava de matar o secre­tário-geral do PAIGC e era a nova direcção do Partido. Sekou Touré dá-lhes ordem de prisão. O golpe tinha falhado. Sekou Touré, que se pretendia como o líder de uma África desligada dos imperialismos, não podia reco­nhecer o assassínio em Conakry mesmo, de um homem com o prestígio internacional de Amílcar Cabral.
Luís Cabral e Chico Té vêm do Senegal para Conakry mas, ainda assim, a direcção do PAIGC leva dois dias até ser li­bertada
Já em 1973 o envolvimento da Guiné-Conakry na tentativa de afastamento da direcção cabo­-verdiana do PAIGC é evidente.
• Toda a conspiração se dá em Conakry e é detectada pela se­gurança checa que, obviamente, avisou primeiro Sekou Touré.
• Os executores de Cabral, missão cumprida, dirigem-se ao Palácio da Presidência para que seja reconhecido o golpe.
• Os revoltosos atravessam toda a Conakry e saem do porto, com Aristides Pereira e Buscar­dini amarrados, apesar das rigo­rosas medidas de segurança que existiam por toda a cidade e tor­navam impossível qualquer cir­culação sem controlo militar ou das milícias em cada mil metros ou menos.
• Finalmente, numa reunião no Palácio da Presidência, convo­cada por Sekou Touré para todos os quadros do PAIGC, este in­formou dos resultados provisó­rios do inquérito à morte de Amil­car Cabral realizado pelas auto­ridades da Guiné. Os números apresentados por Sekou Touré funcionaram como um aviso e eram esmagadores (Aqui sou obrigado a abrir um parênteses) citando de memória é natural que os números não sejam exac­tamente os referidos por Sekou Touré. Mas serão muito próxi­mos. Aliás, a publicação dos in­quéritos feitos nessa altura, que certamente as autoridades da Guiné-Bissau não deixarão de fazer, virá corrigir qualquer erro da minha parte). [2]
No momento da morte de Cabral encontravam-se em Conakry, nos vários campos do PAIGC, 429 elementos deste movimento; 336 esta­vam a par da conspiração.
Não contando as crianças e os cabo-verdianos, quase todos sabiam.

Nos bastidores do PAIGC

Ao tempo, o órgão supremo na direcção das operações militares do PAIGC era o Conselho de Guerra (o nome, se calhar era outro), composto de quatro pes­soas: Amílcar Cabral, Aristides Pereira, Bernardino Vieira (Nino) e Osvaldo Vieira (primo direito de Nino e o segundo mais alto co­mandante militar logo a seguir a Nino).
Não era segredo no PAIGC que havia desentendimentos, por vezes violentos entre Cabral e Osvaldo Vieira, devido a pro­blemas de condução militar das operações. Os «homens do mato» eram os executores da guerra e Cabral permitia-se, por vezes depois de largas ausên­cias no estrangeiro, alterar completamente planos já estabe­lecidos. Para mais, Cabral já não entrava nas zonas libertadas da Guiné-Bissau havia cerca de três anos.
A 20 de Janeiro de 1973, Os­valdo Vieira, estava em Conakry. A tudo assistiu, todos o viram, ele viu tudo e não teve um gesto para evitar o que se passou.
Na primeira prisão em que est­ive, os guineenses comigo presos não disfarçavam a sua preocupação e falavam aberta­mente. Osvaldo era o nome mais citado. Era, no fundo, a protec­ção destes homens envolvidos num golpe que já percebiam ter falhado.
Ninguém desconhecia por­tanto, que Osvaldo Vieira estava directamente ligado ao assassí­nio de Amílcar Cabral.
Para grande surpresa, quando saiu da prisão para ir ao funeral de Cabral, Osvaldo Vieira e Luís Cabral, de braço dado, chora­vam a morte de Amílcar.
Não havia dúvidas de que Os­valdo Vieira estava escudado em forças que o protegiam.
No entanto, o seu comporta­mento na noite do golpe e as posteriores declarações de de­zenas de detidos perante as Comissões de Inquérito (a mim próprio me foi perguntado se teria ouvido algo sobre o envol­vimento do camarada Osvaldo) levaram à sua suspensão de todas as funções directivas no Partido. Essa suspensão foi apresentada aos membros do Partido como sendo «a pedido do camarada Osvaldo e até ao total esclarecimento das calúnias que os inimigos da luta lançavam sobre ele para assim criarem cli­vagem no seio do PAIGC».
Osvaldo Vieira foi para o campo de Madina do Boé sob prisão. Pouco depois: soube-se que tinha morrido de doença do estômago. Na verdade, Osvaldo Vieira foi executado. Ninguém no PAIGC o ignora.

Dois Golpes separados por 7 anos

Osvaldo não foi um dos «cin­co» executados oficialmente apresentados pelo PAIGC à opinião pública internacional, como responsáveis pela morte de Amílcar Cabral.
Osvaldo foi um (de cerca de uma centena de executados) sem qualquer julgamento, por implicação na morte de Amílcar Cabral.
No primeiro dia de execuções, após o inquérito do PAIGC, foram executados nas três fren­tes de guerra (Leste, Norte e Sul) 69 homens. Às circunstâncias em que se deram estas execu­ções não vale a pena fazer refe­rência. Certamente os inquéritos anunciados agora em Bissau os irão tornar públicos. Mário Ca­bral, que anunciou os inquéritos em nome do Conselho da Revo­lução pode ser uma excelente testemunha: ele estava lá, em Madina, onde muitos se deram. Sobre este assunto, queria ainda referir que Sekou Touré não au­torizou fuzilamentos em território da República da Guiné. Por isso se deu a divisão pelas três fren­tes. Mais ainda: os condenados não sabiam ao que iam. Ao saí­rem de Conakry, foi-lhes dito que iam para o interior, sem mais explicações. Como disse, o nú­mero de fuzilamentos andou à volta de uma centena.
As valas comuns agora des­cobertas nos arredores de Bis­sau, são revoltantes e inaceitá­veis. Não sei se «Nino» as des­conhecia. Mas - isso sei - ele não desconhecia a repressão que se seguiu à morte de Cabral e as valas comuns então aber­tas.
Não me consta, no entanto, que essas estivessem incluídas nas agora mostradas ao Mundo. E quer «Nino» quer Vítor Saúde Maria, quer Paulo Correia, quer Joseph Turpin, quer Mário Ca­bral, quer Vítor Freire Correia Monteiro, as conhecem.
O golpe de 14 de Novmebro de 1980 não é mais do que a continuação do golpe de 20 de Janeiro de 1973. Quer um quer outro destinavam-se a levar ao poder um homem: NINO.
Noutro artigo explicarei porque demorou tanto.



[1] “Manadu”, é assim que ele escreve. Não consegui encontrar este nome, nem Manadu N’Djai nem Mamadu N’Djai. (nota minha)
[2] Os parêntesis estão assim no original (nota minha)

16 de maio de 2011

173-O golpe de Nino Vieira em 14 de Novembro de 1980 foi urdido em Portugal?

O "Diário de Lisboa" de 17 de Novembro de 1980 suspeitou que sim:

Há fortes indícios de o golpe que destruiu – para já – o PAIGC na Guiné-Bissau  ter sido urdido em Portugal ou pelo menos terem aqui sido apurados os esquemas finais e os apoios com que por­ventura contam os golpistas para sobreviver no futuro.
Não é só o facto de Nino Vieira ter estado aqui durante mais de uma semana, com per­manência no Porto em casa de uma individualidade dos negó­cios e da finança que há tempos falara da abertura de um banco privado em Bissau a que estaria associado [era Valentim Loureiro]. Aqui se encontrou nessa altura com Vítor Monteiro[1] e Vítor Saúde Maria[2]. Sombrio é também, e até se aprofundar esta questão, o comportamento da rádio oficial portuguesa no Canal 1 ao repetir diversas vezes, ao longo da tarde de sábado, quando do golpe apenas se sabia ter sido chefiado por Nino, um texto muito suspeito.
Esse longo texto, de que transcrevemos passagens, foi introduzido nos noticiários da tarde de sábado e ele fala por si, em termos tais que no mínimo, exigem uma explicação do Go­verno de Sá Carneiro.
Trata-se de um editorial disfar­çado de notícia e abre com a in­formação de que tinha sido for­mado em Bissau um Conselho da Revolução, presidido por Nino Vieira, para acrescentar logo, ter sido esse Conselho formado para sugerir o vazio do poder até «à decisão da entrega dos destinos políticos do Pais nas mãos dos filhos originários da Guiné».
O tom opinativo entra depois, descaradamente, nesta música tocada pela Radiodifusão Portu­guesa, canal 1, ao longo de toda a tarde de sábado:
«Mas não foi só Nino o homem que transportou sobre os seus ombros a revolução guineense. Há os que ficaram pelo caminho e os que em Bissau e fora do Pais vêm acompanhando silenciosa­mente o processo de unidade orgânica e politica que alguns diri­gentes do PAIGC, partido no poder na Guiné e Cabo Verde, pretenderam fazer vincar entre os dois Estados e povos baseados nos laços históricos e sanguíneos e o próprio pensamento político de Amílcar Cabral».
Em tom editorial acentua-se depois, o facto de o processo que conduziu à independência, e as negociações com Portugal, tal como a ratificação da indepen­dência entregue por Spínola a Pedro Pires, em 9 de Setembro de 1974, ter sido dirigido pelo hoje Primeiro-Ministro cabo-verdiano e «então contestado por al­gumas individualidades guineen­ses», (sic), enquanto Vítor Saúde Maria, Umarú Djaló e Luís Sanca foram «apenas testemunhas». «Este dia - disse a RDP, referindo-se á Guiné - nunca mais se apagará na memória da sua gente devido ao facto de ele ter sido realizado por um natural de Cabo Verde».
Malan Sanhá foi igualmente evocado, com o acrescento de dizer-se que a sua tentativa de golpe «demonstra claramente a determinação dos guineenses que viam e vêem em Nino Vieira a única possibilidade de transfor­mar o decurso politico do Pais, pela sua condição de filho da Guiné originário».
Não se esqueceu o articulista de referir a distanciação de Sekou Touré em relação ao regime da Guiné-Bissau devido ao facto de «os cabo-verdianos no Poder po­derem interferir no seu projecto de unidade que pretenderia para as duas Guinés, uma unidade ba­seada nas afinidades históricas, continentais, culturais comuns aos povos da Guiné-Bissau e da Guiné-Conakcy. O grupo islami­zado - continua o texto - integra a maioria da população dos dois países e de maneira nenhuma Nino Vieira pretenderia entrar em polémica, militar ou política, com Sekou Touré, seu irmão continental africano».
O comunicado – pois é disso que verdadeiramente se trata, embora tenha sido lido aos micro­fones da RDP, a rádio oficial por­tuguesa, como se de noticiário se tratasse - conclui com a seguinte e fantasiosa boutade, pois jamais se ouviu falar de tal gente:
«Cá fora, no entanto, com lon­gas e dolorosos anos de espera encontram-se milhares de guine­enses. Foram seis anos que po­derão ter terminado na sexta-feira. Os emigrantes da Guiné-­Bissau aguardam ansiosamente o desenrolar dos acontecimen­tos. Sabe-se que um forte partido de oposição à facção cabo-verdiana do PAIGC, com sede em Paris e delegações em Lisboa e Dakar, está a promover reuniões sectoriais. Prepara-se, mesmo, quanto se sabe, o envio de uma mensagem a Nino Vieira para manifestar o apoio total dos filhos da Guiné ausentes do seu Pais ao Conselho da Revolução instau­rado agora no poder».
Fora isto, importa para já perguntar quem terá sido o autor de tal prosa e qual o papel da própria emissora oficial portu­guesa no golpe.
Com efei1o, quem conhece a composição da Redacção da RDP 1 e a qualidade dos «espe­cialistas» em assuntos africanos, mormente das questões guine­enses, confere facilmente a im­possibilidade de ter sido ela a fonte donde brotou tal papel. Mais ainda: a linguagem utilizada e a terminologia não é mais que a contida nas prosas escassas ­divulgadas pela meia dúzia de indivíduos que, por cá andavam comendo as migalhas de colonia­lismo, ou por cá preferiram mais tarde esbanjar o nacionalismo que na sua própria terra não se lhes conhecia.
Mais grave que tudo isto, é a antecipação de certos factos só posteriormente conhecidos e que só um individuo ou organização metida no golpe até à raiz dos cabelos poderia adiantar. E a RDP ao assumir isso como prosa sua, comentário seu, e ao impingi-lo aos ouvintes como se de simples matéria informativa se tratasse está no mínimo, coni­vente no golpe. Isto para não irmos mais longe.
Veja-se só o que diz a RDP, antes de chegarem as noticias a Lisboa e ao falar da detenção de vários dirigentes:
«Nessa situação poderão estar José Araújo, considerado o prin­cipal mentor do regime e conside­rado o ideólogo número um do PAIGC (e autor da nova Consti­tuição da Guiné que retira os po­deres a Nino Vieira e ao coman­dante chefe das Forças Armadas) Vasco Cabral, Fernando Fortes, Manuel dos Santos, Lima Gomes, todos eles naturais de Cabo Verde, para além de individuali­dades da Segurança Nacional que vêm julgando os casos de contestação por parte dos filhos da Guiné». E todos, ou quase todos eles, viriam de facto a ser presos, excepto Vasco Cabral (natural de Farim, filho de guine­enses, que nenhum laço familiar tem com o Presidente) que não é cabo-verdiano mas sim um dos principais alvos políticos a abater por todo aquele que pretendesse inflectir o regime.
Finalmente, a RDP deixou per­ceber aos seus ouvintes, como não fora surpreendida com a conspiração ao recordar que Nino Vieira se encontrara em Lisboa (numa viagem a caminho de Pa­ris) com «o seu companheiro de armas Umarú Djaló e Vítor Saúde Maria todos eles naturais da Guiné e pertencentes a chamada linha Nino Vieira, individualida­des influentes da facção guine­ense do PAIGC».
Mais claro que isto é difícil ser­-se.



[1] Vítor Freire Monteiro, era Governador do Banco Nacional da Guiné-Bissau; foi depois Ministro das Finanças do primeiro governo de Nino Vieira. (nota minha)
[2] Vitor Saúde Maria, era Ministro dos Negócios Estrangeiros do governo de Luís Cabral, continuou como tal até Maio de 1982, já com Nino Vieira; foi primeiro ministro de Maio de 1982 até Março de 1984, altura em que se exilou em Portugal; regressou em 1990 e fundou o Partido Unido Social Democrata (PUSD) em 1992; concorreu às eleições presidenciais em 1994; foi assassinado em 1999, durante a guerra civil. (Nota minha)