CONSULTAS

Para consultas, além da "Caixa de pesquisa" em cima à esquerda podem procurar em "Etiquetas", em baixo do lado direito, ou ver em PÁGINAS, mais abaixo ainda do lado direito, o "Mapa do Blogue"

Este blogue pode ser visto também em
Mostrar mensagens com a etiqueta assassinato de Amílcar Cabral. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta assassinato de Amílcar Cabral. Mostrar todas as mensagens

25 de maio de 2011

182-O poder de Nino Vieira começou com o assassinato de Amílcar Cabral

in jornal "O Ponto" de 4 de Dezembro de 1980
Este pequeno episódio, de uma noite de pesadelo, só me surgiu na memória pelo título que o ponto deu à reportagem sobre o golpe de Bissau de 14 de No­vembro: Amílcar: segunda morte ou ressurreição?
De facto, só se morre uma vez. E Amílcar Cabral morreu a 20 de Janeiro de 1973. Com ele, e na mesma acção, morreu a unidade Guiné-Cabo Verde. Com ele morreu o PAIGC.
Morte adiada. Adiada sete anos, por força de equilíbrios de poder que explodem agora.
Neste artigo não pretendo abrir polémicas, a que, aliás não responderei. Assisti à morte de Amílcar Cabral e a todo o pro­cesso que se lhe seguiu. Os acontecimentos recentes le­vam-me a tomar públicos factos que calei todos estes anos. Por motivos pessoais, só!

Os factos

No dia 19 de Janeiro de 1973, os Serviços de Segurança da Embaixada da Chescoslováquia em Conakry avisaram Amílcar d Cabral de que teriam sido detec­tados indícios de conspiração dentro do PAIGC.
Cabral avisou o então respon­sável pela sua segurança para que tomasse precauções. Ele era Manadu N'Djai, herói nacional, comandante da Frente Norte, três vezes ferido em com­bate e, de momento, em Conakry, precisamente, em conva­lescença do seu último feri­mento.
Manadu N'Djai fez saber direc­tamente aos outros conspirado­res que o golpe era conhecido. Assim, tudo foi antecipado e a acção decorreu em plena visita oficial a Conakry de Samora Ma­chel e Joaquim Chissano (este último foi, aliás, membro da Co­missão Intemacional de Inqué­rito à morte de Amílcar Cabral e da mesa que me interrogou, assim como a Manadu N´Djai[1].
Nessa noite, decorria, na Es­cola Piloto do PAIGC, em Ra­toma, arredores de Conakry, uma reunião de informações sobre o desenrolar da guerra em Moçambique, presidida por Chissano. A ela assistiam todos os residentes da escola (alunos e professores) e vários quadros superiores do Partido. Amílcar Cabral e Samora Machel esta­vam ausentes. À hora de a reu­nião acabar, cerca das 23, já Amílcar estava morto. O grupo de viaturas que voltava para Co­nakry, ou para os outros campos do PAIGC, foi interceptado pelo grupo de revoltosos, sendo pre­sos todos os elementos cabo­-verdianos ou com eles conota­dos. A «promessa» feita no acto da prisão, era: «Vai tudo ser fu­zilado». Pela meia-noite, toda a direcção política do PAIGC, de momento em Conakry, estava presa. Mas, aí, deu-se a revira­volta: o exército de Sekou Touré, intervém em força, prende todos os elementos do PAIGC (revol­tosos e vítimas) e o golpe é pa­rado.

O que se tinha passado entre­tanto: O grupo directamente en­carregue de prender Amílcar Cabral, comandado por Aristides Barbosa, ex-chefe de Marinha e «de castigo» em Conakry, por motivos de corrupção, assassina Cabral, contra os planos estabe­lecidos - que eram os do rapto. O outro grupo que entra em acção, comandado por Manadu N'Djai, prende e rapta, como estava previsto, Aristides Pereira, que é transportado num carro do par­tido, amarrado e levado num barco de guerra do PAIGC para o largo do porto de Conakry. Com ele é levado Buscardini (agora assassinado) e espancado quase até à morte. Este barco, ainda na noite dos acontecimen­tos é recuperado por um barco de guerra soviético e trazido de volta para Conakry.
Entretanto, o grupo que aba­tera Cabral apresentou-se no Palácio da Presidência de Co­nakry, e informa Sekou Touré que acabava de matar o secre­tário-geral do PAIGC e era a nova direcção do Partido. Sekou Touré dá-lhes ordem de prisão. O golpe tinha falhado. Sekou Touré, que se pretendia como o líder de uma África desligada dos imperialismos, não podia reco­nhecer o assassínio em Conakry mesmo, de um homem com o prestígio internacional de Amílcar Cabral.
Luís Cabral e Chico Té vêm do Senegal para Conakry mas, ainda assim, a direcção do PAIGC leva dois dias até ser li­bertada
Já em 1973 o envolvimento da Guiné-Conakry na tentativa de afastamento da direcção cabo­-verdiana do PAIGC é evidente.
• Toda a conspiração se dá em Conakry e é detectada pela se­gurança checa que, obviamente, avisou primeiro Sekou Touré.
• Os executores de Cabral, missão cumprida, dirigem-se ao Palácio da Presidência para que seja reconhecido o golpe.
• Os revoltosos atravessam toda a Conakry e saem do porto, com Aristides Pereira e Buscar­dini amarrados, apesar das rigo­rosas medidas de segurança que existiam por toda a cidade e tor­navam impossível qualquer cir­culação sem controlo militar ou das milícias em cada mil metros ou menos.
• Finalmente, numa reunião no Palácio da Presidência, convo­cada por Sekou Touré para todos os quadros do PAIGC, este in­formou dos resultados provisó­rios do inquérito à morte de Amil­car Cabral realizado pelas auto­ridades da Guiné. Os números apresentados por Sekou Touré funcionaram como um aviso e eram esmagadores (Aqui sou obrigado a abrir um parênteses) citando de memória é natural que os números não sejam exac­tamente os referidos por Sekou Touré. Mas serão muito próxi­mos. Aliás, a publicação dos in­quéritos feitos nessa altura, que certamente as autoridades da Guiné-Bissau não deixarão de fazer, virá corrigir qualquer erro da minha parte). [2]
No momento da morte de Cabral encontravam-se em Conakry, nos vários campos do PAIGC, 429 elementos deste movimento; 336 esta­vam a par da conspiração.
Não contando as crianças e os cabo-verdianos, quase todos sabiam.

Nos bastidores do PAIGC

Ao tempo, o órgão supremo na direcção das operações militares do PAIGC era o Conselho de Guerra (o nome, se calhar era outro), composto de quatro pes­soas: Amílcar Cabral, Aristides Pereira, Bernardino Vieira (Nino) e Osvaldo Vieira (primo direito de Nino e o segundo mais alto co­mandante militar logo a seguir a Nino).
Não era segredo no PAIGC que havia desentendimentos, por vezes violentos entre Cabral e Osvaldo Vieira, devido a pro­blemas de condução militar das operações. Os «homens do mato» eram os executores da guerra e Cabral permitia-se, por vezes depois de largas ausên­cias no estrangeiro, alterar completamente planos já estabe­lecidos. Para mais, Cabral já não entrava nas zonas libertadas da Guiné-Bissau havia cerca de três anos.
A 20 de Janeiro de 1973, Os­valdo Vieira, estava em Conakry. A tudo assistiu, todos o viram, ele viu tudo e não teve um gesto para evitar o que se passou.
Na primeira prisão em que est­ive, os guineenses comigo presos não disfarçavam a sua preocupação e falavam aberta­mente. Osvaldo era o nome mais citado. Era, no fundo, a protec­ção destes homens envolvidos num golpe que já percebiam ter falhado.
Ninguém desconhecia por­tanto, que Osvaldo Vieira estava directamente ligado ao assassí­nio de Amílcar Cabral.
Para grande surpresa, quando saiu da prisão para ir ao funeral de Cabral, Osvaldo Vieira e Luís Cabral, de braço dado, chora­vam a morte de Amílcar.
Não havia dúvidas de que Os­valdo Vieira estava escudado em forças que o protegiam.
No entanto, o seu comporta­mento na noite do golpe e as posteriores declarações de de­zenas de detidos perante as Comissões de Inquérito (a mim próprio me foi perguntado se teria ouvido algo sobre o envol­vimento do camarada Osvaldo) levaram à sua suspensão de todas as funções directivas no Partido. Essa suspensão foi apresentada aos membros do Partido como sendo «a pedido do camarada Osvaldo e até ao total esclarecimento das calúnias que os inimigos da luta lançavam sobre ele para assim criarem cli­vagem no seio do PAIGC».
Osvaldo Vieira foi para o campo de Madina do Boé sob prisão. Pouco depois: soube-se que tinha morrido de doença do estômago. Na verdade, Osvaldo Vieira foi executado. Ninguém no PAIGC o ignora.

Dois Golpes separados por 7 anos

Osvaldo não foi um dos «cin­co» executados oficialmente apresentados pelo PAIGC à opinião pública internacional, como responsáveis pela morte de Amílcar Cabral.
Osvaldo foi um (de cerca de uma centena de executados) sem qualquer julgamento, por implicação na morte de Amílcar Cabral.
No primeiro dia de execuções, após o inquérito do PAIGC, foram executados nas três fren­tes de guerra (Leste, Norte e Sul) 69 homens. Às circunstâncias em que se deram estas execu­ções não vale a pena fazer refe­rência. Certamente os inquéritos anunciados agora em Bissau os irão tornar públicos. Mário Ca­bral, que anunciou os inquéritos em nome do Conselho da Revo­lução pode ser uma excelente testemunha: ele estava lá, em Madina, onde muitos se deram. Sobre este assunto, queria ainda referir que Sekou Touré não au­torizou fuzilamentos em território da República da Guiné. Por isso se deu a divisão pelas três fren­tes. Mais ainda: os condenados não sabiam ao que iam. Ao saí­rem de Conakry, foi-lhes dito que iam para o interior, sem mais explicações. Como disse, o nú­mero de fuzilamentos andou à volta de uma centena.
As valas comuns agora des­cobertas nos arredores de Bis­sau, são revoltantes e inaceitá­veis. Não sei se «Nino» as des­conhecia. Mas - isso sei - ele não desconhecia a repressão que se seguiu à morte de Cabral e as valas comuns então aber­tas.
Não me consta, no entanto, que essas estivessem incluídas nas agora mostradas ao Mundo. E quer «Nino» quer Vítor Saúde Maria, quer Paulo Correia, quer Joseph Turpin, quer Mário Ca­bral, quer Vítor Freire Correia Monteiro, as conhecem.
O golpe de 14 de Novmebro de 1980 não é mais do que a continuação do golpe de 20 de Janeiro de 1973. Quer um quer outro destinavam-se a levar ao poder um homem: NINO.
Noutro artigo explicarei porque demorou tanto.



[1] “Manadu”, é assim que ele escreve. Não consegui encontrar este nome, nem Manadu N’Djai nem Mamadu N’Djai. (nota minha)
[2] Os parêntesis estão assim no original (nota minha)

20 de janeiro de 2011

42-Amílcar Cabral foi assassinado há 38 anos





Pessoalmente não tenho dúvidas que toda a trama que levou ao assassinato de Amílcar Cabral foi montada pela PIDE, como não duvido que o General Spinola esteve sempre a par dela. Ele era unha com carne com o Fragoso Allas, responsável da PIDE na Guiné na altura (até constando que foi esta amizade que fez com que os pides fossem libertados após o 25 de Abril…).
Foto : Arquivo Mário Pinto de Andrade/Fundação Mário Soares
Dalila Cabrita Mateus mais me convenceu desta minha ideia. Mostro algumas coisas mas é fundamentalmente o que ela diz no seu livro que aqui trago.


Dalila Cabrita Mateus diz em “A PIDE/DGS na Guerra Colonial, 1961-1974” que «O assassínio de dirigentes foi um tipo de operações levado a cabo pela PIDE/DGS. No entanto, constituía um assunto delicado». E refere que o elemento dessa polícia incumbido de dar andamento ao plano para a liquidação de Amílcar Cabral escreveu à margem do processo: «Comuniquei particularmente ao chefe da Delegação que este assunto não pode ser objecto de correspondência oficial. Ou não se dizem ou não se fazem». Refere, por isso, que não é possível encontrar relatórios da PIDE sobre a liquidação de Amílcar Cabral, até porque, citando José Pedro Castanheira, in “Quem mandou Matar Amílcar Cabral”, o inspector adjunto Alberto Matos Rodrigues recomendou que «Em trabalhos desses, não se deixam provas».
E houve vários planos, assevera esta investigadora dos Arquivos da PIDE existentes na Torre do Tombo.
O primeiro terá sido em 1967, o do inspector Miguel António Cardoso, então chefe da delegação da PIDE na Guiné, que mandou vir de Conacri um antigo combatente para que, conhecedor dos locais por onde Cabral costumava passar nessa cidade, o matasse a tiro ou com granadas apreendidas aos guerrilheiros. Só que, azar, esse homem foi preso pela tropa portuguesa e deixou de valer. Mandou vir de Conacri mais dois elementos para o mesmo objectivo, mas, entretanto, foi substituído. O novo chefe da delegação achou que um deles era bêbedo e que o outro não tinha estofo e a operação foi abandonada.
Em 1969 houve outra tentativa, esta planeada pela Aginter Press, uma encapotada agência de informações sedeada em Portugal mas que, efectivamente, se dedicava ao recrutamento de mercenários. Tinha ligações com a PIDE e com a Legião Portuguesa desde 1966. Teve a colaboração da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, do Ministério dos Negócios Estrangeiros e da Casa de Portugal em Paris, e participavam um diplomata senegalês, oposicionistas a Sékou Touré e elementos da FLING. O orçamento era superior a quatro mil contos, e o prémio em caso de êxito mil contos. Foi a Operação Chèvre. Se não deu ou não foi avante, a investigadora não precisa.
Veio, depois, a Operação Mar Verde, em Novembro de 1970, planeada e comandada por Alpoim Calvão, com o apoio de Spínola e de Marcelo Caetano. No livro de António Luís Marinho, “Operação Mar Verde, Um Documento para a História”, vêm as missões atribuídas a cada um dos grupos participantes na operação. Por exemplo, uma das do comandante Benjamim Lopes de Abreu era “a eliminação física do Presidente da República da Guiné Ahmed Sékou Touré” (documento 11). A ninguém foi explicitamente atribuída a missão da “eliminação física de Amílcar Cabral”. No entanto, ao 1º Ten. FZE Raul Eugénio Dias da Cunha e Silva tinha como missão: “Ataque e destruição de elementos e instalações do PAIGC em Conacry II: …41-Secretariado e habitação de Amílcar Cabral; 42-Casa de Aristides Pereira e Propaganda”. E diz ele, no seu relatório, que “decidi atacar primeiro e rapidamente os objectivos considerados de primeira importância: 41 e 42…”. Não é, pois, credível que a eliminação de Amílcar Cabral não fosse também um dos objectivos. Dalila Mateus narra que foi lançada sobre a casa de Amílcar Cabral uma chuva de obuses, tendo um deles acertado em cheio no quarto ao lado daquele onde dormia a mulher de Cabral, que teve de sair com os filhos pelas traseiras da casa. Numa casa ao lado ficaram gravemente feridos um casal jugoslavo e uma filha, uma outra filha deles morreu com um estilhaço na cabeça. E refere que Alpoim Calvão disse ao Público de 21 de Maio de 1991 que se Cabral estivesse em Conacri teria sido seguramente eliminado.
Em 1971 foi a delegação da PIDE em Cabo Verde que mobilizou mil contos para contratar um cabo-verdiano residente em Monróvia, na Libéria, e com anteriores ligações a Cabral e Agostinho Neto. Era para, com mais seis indivíduos, assassinar Amílcar Cabral e destruir um depósito de material de guerra em Conacri. Não resultou.
Mas a PIDE andava também atenta às divisões dentro do PAIGC.
Em Junho de 1967 teriam armadilhado a casa de Cabral em Koundaré e teriam sido enviadas cartas para Catió, Cabedu, Farim, Mansoa e Bula com o intuito de não serem acatadas as ordens de Amílcar Cabral. Os conjurados foram presos e fuzilados. E a PIDE afirma ter ouvido, na altura, que Nino Vieira encarou com simpatia “o movimento conspirativo do Boé”. Também em Setembro desse ano parece ter havido um atentado contra o Secretário-geral do PAIGC. Foi também o ano, constou em Dezembro, do descontentamento dos mandingas pelas baixas sofridas em combate e pelo facto de os cabo-verdeanos serem poucos a combater.
Em Janeiro de 1968 foi assinalado novo movimento de revolta e, nesse ano, as notícias das divisões no PAIGC levaram a PIDE a tomar nota e, como consta numa das pastas dos Arquivos da PIDE, “Em face desta notícia foi considerado superiormente que se devia procurar, por todos os meios, se necessário mesmo financeiros, explorar estas divergências”.
Em Março de 1972 é o próprio Cabral que apresenta um plano, segundo ele de Spínola e dos colonialistas portugueses, com o objectivo de decapitar a direcção do PAIGC. Primeiramente com a infiltração de antigos e novos membros do Partido para gerarem a divisão na base do racismo, tribalismo, diferenças de religião e virando guineenses contra cabo-verdianos. Após isso seria a criação de uma direcção paralela para entrar em contacto com os dirigentes dos países vizinhos tentando obter o seu apoio contra a verdadeira direcção, particularmente contra o Secretário-geral. A fase seguinte seria: o assassinato do Secretário-geral e todos os dirigentes fiéis à linha do partido; mudança da designação do partido e paragem da luta; e, finalmente, entrar em contacto com o governo português para obterem a autonomia interna e a criação do “Estado da Guiné” fazendo parte da comunidade portuguesa. Spínola teria prometido postos importantes aos executantes deste plano. E não há dúvidas que eram os princípios defendidos por António de Spínola.
E foi no dia 20 de Janeiro de 1973, às 23 horas que um grupo chefiado por Inocêncio Cani prendeu Cabral e a mulher. Face à resistência deste Cani atingiu-o com um tiro no fígado, tendo depois ordenado a um seu acompanhante que lhe desse uma rajada, que o atingiu na cabeça e o matou. Um grupo chefiado por Mamadu N’Djai prendeu Aristides Pereira, meteu-o numa vedeta do PAIGC e rumou para Bissau. Um outro grupo, chefiado por João Tomás Cabral, assalta a prisão do PAIGC e liberta Mário Mamadou Touré e Aristides Barbosa, que eram os cabecilhas do golpe.
Foram cerca de uma centena os golpistas. Depois de tomarem conta das instalações do partido e terem prendido cabo-verdianos e mestiços guineenses, foram recebidos por Sékou Touré na madrugada seguinte, mas o presidente da Guiné não lhes deu cobertura mandou-os prender, deu ordens ao exército que submetesse o PAIGC e pediu a navios soviéticos que estavam nas suas águas que recuperassem a vedeta onde ia Aristides Pereira, o que aconteceu.
A maioria não tinha ligações à PIDE, nem o Inocêncio Cani, tendo sido arrastados pelo descontentamento contra a direcção do partido e contra os cabo-verdianos. Mas alguns dos principais conjurados tinham:
- Mário Mamadou Touré (conhecido por Momu) era um antigo preso do Tarrafal; o chefe da delegação da PIDE na Guiné Alberto Matos Rodrigues arranjou-lhe emprego e protegeu-o, afirmando mesmo que esta “Foi uma operação planeada e meteram-no lá” (diz José Pedro Castanheira, na obra atrás referida);
- Aristides Barbosa confessou que, após sair do Tarrafal, foi contactado por um agente da polícia de nome Gonçalves (na altura, havia na Guiné vários agentes de apelido Gonçalves) para trabalhar para a PIDE e que aceitou, pedindo “uma licença para táxi”; disse também que foi recebido por Spínola antes de sair de Bissau;
- João Tomás Cabral, que tinha sido comissário político, tinha correspondência com um informador de Pirada e com o elemento da PIDE em Buruntuma, o agente de 1ª classe Orlindo Martins Jorge Vicente; a sua acção era mentalizar os combatentes para que entregassem as armas porque o PAIGC não conseguiria ganhar a guerra;
- Valentino Cabral Mangana, comandante de Marinha (como Inocêncio Cani), propagandeava que Portugal daria a independência aos negros da Guiné desde que o PAIGC fosse extinto e os cabo-verdianos afastados, pois queria conservar Cabo Verde como uma base de grande importância estratégica para si e os seus aliados.
Claro que houve uma conspiração no interior do PAIGC para pôr termo à hegemonia dos cabo-verdianos. Mas é também evidente que a PIDE teve um papel importante na instigação do golpe. E não actuava à rédea solta. Não me parece que Alpoim Calvão tenha razão quando diz, no seu livro “De Conakry ao M.D.L.P.”, “…a verdade é que não havia a mínima lógica para que as autoridades portuguesas desejassem, em 1973, o assassinato de Amílcar Cabral”. E traz em defesa desta ideia as negociações segundo ele planeadas entre Spínola e Amílcar Cabral para a resolução política da situação na Guiné. Mas esquece-se de dizer que Marcelo Caetano já dissera a Spínola – é o próprio Marcelo que o refere nas suas Memórias – que negociar na Guiné nem pensar, antes a derrota militar. E conta Otelo Saraiva de Carvalho, em “Alvorada em Abril”, que o inspector Fragoso Allas lhe terá dito que “os tipos tinham ido longe demais, porque a missão era só raptar e conseguir trazer Amílcar Cabral para Bissau como refém”. 
É claro, então, que foi resultado de uma missão da PIDE. Não condiz o "era só raptar" com as declarações acima citadas do Ten. FZE Raul Eugénio Dias da Cunha e Silva, quando este diz que, na operação Mar Verde, decidiu a destruição do "Secretariado e habitação de Amílcar Cabral", bem como com Alpoim Calvão, que disse que Amílcar Cabral seria eliminado se estivesse em Conacri na altura da invasão.
Como se vê,  a eliminação dos líderes dos movimentos de libertação foi um objectivo desde sempre. Relativamente a Amílcar Cabral também o era em 1970. 
Já não era em Janeiro de 1973, como disse o Allas a Otelo? Tenho dúvidas.

19 de janeiro de 2011

40-Reunião do Conselho Superior de Luta do PAIGC

Inocêncio Cani, na Academia da Marinha da ex-URSS
A reunião do Conselho Superior da Luta do PAIGC estava no auge. Na sua ordem de dia figurava uma única questão, mas bastante desagradável a abordar. Trarava-se de apreciar o não cumprimento de ordens e a indisciplina de alguns membros do Partido, três dos quais pertenciam ao Conselho Superior da Luta (CSL). Amílcar Cabral fazia uma intervenção em que dizia : “ Quero informá-los de factos lamentáveis que aconteceram no nosso trabalho. Alguns camaradas, enviados para cumprir  o seu serviço na marinha, ignoram na realidade as resoluções do Partido e não cumpriram a missão que lhes fora confiada. Um deles, Inácio Soares da Gama era membro do CSL, o outro, Inocêncio Cani, está aqui presente. (...).” Ao terminar, Amílcar Cabral sentou-se e debruçou-se sobre os papéis que tinha na sua frente, depois levantando a cabeça notou o olhar de José Pereira.
- “ O camarada Pereira quer dizer alguma coisa? Fala Zé!”
José Pereira levantou-se, arranjou o cinto e veio para o meio da sala. José Pereira gagueja sempre um bocadinho, mas neste momento, por estar excitado gaguejava mais que habitualmente.
- “O camarada Secretário-Geral (...) disse a verdade sobre as relações entre as pessoas, sobre a necessidade de criticar e auxiliar todos aqueles que cometem erros. Mas não estou de acordo de proceder desta maneira quando se trata de pessoas como Inácio Soares da Gama e Inocêncio Cani. Não é a primeira vez que ambos são criticados numa reunião da direcção do Partido. Lembrem-se que em 1968 a direcção retirou o  Inácio da região de Quitáfine por ele não querer ouvir os conselhos do Comissário Político. O Comissário era na altura o camarada Pascoal Alves aqui presnte. O que aconteceu então ao Inácio Soares da Gama? Enviaram-no para o estrangeiro tirar um curso de marinha. Achámos que era necessário e conveniente enviá-lo por dois anos. Tornou-se especialista. E qual foi o benefício que o Partido recebeu com isso, se como disse o camarada Secretário-Geral, praticamente ele desertou da nossa armada? E Inocêncio Cani? Recebeu um posto importante depois de terminar o curso. Comandou os nossos barcos de guerra, devia ensinar e educar os nossos marinheiros, mas não justificou a nossa confiança. Tivemos de lhe retirar o cargo o ano passado. Bem, talvez ele nessa altura se tivesse enganado. Mas agora, passado ano e meio, foi necessário mais uma vez debruçar-nos sobre a conduta de Inocêncio Cani. Que comandante é este, que se comporta grosseiramente com os seus subalternos? Como pode ele ser membro do Comité Executivo da Luta? Também não podemos esquecer o motivo pelo qual Cani foi afastado em 1968, do seu lugar de comandante duma das regiões do norte do país. O Presidente dos Comités partidários das tabancas dessa região queixou-se então da sua conduta grosseira. Inocêncio é uma nódoa no nosso Partido, no nosso Exército e a meu ver ele continua na mesma linha. Se não tomarmos medidas severas isto pode acabar muito mal. Eu sou pela expulsão do camarada Inocêncio Cani do CSL.” Zé terminou e sentou-se na cadeira agarrando-se aos joelhos. Sentado ao lado, Constantino dos Santos Teixeira bateu-lhe no ombro, dizendo : “Bravo Zé, é assim mesmo.”
Ignatiev, Oleg , Três Tiros da Pide, Prelo Editora, Lisboa, 1975.