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20 de dezembro de 2010

26-Ataque a Banjara


UM DIA EM BANJARA

(texto do ex-alferes António Moreira)

Banjara fica situada a cerca de 40Km de Geba e a cerca de 20Km de Mansabá, na estrada Bissau/Bafatá. Fica no coração da mata do OHIO, e teve antes da guerra colonial, uma unidade industrial de serração de madeiras. Pertencia, durante a guerra, à área de actuação da Companhia de Geba, do Batalhão de Bafatá.

Gozava da fama, e do “proveito”, de ser o 2.º pior destacamento da Guiné, a seguir a Beli, na zona de Madina do Boé. Não apenas pelos ataques mas, sobretudo, pelo perigo que representava, por estar muito isolado da Companhia, e por estar cercado por uma cintura de destacamentos IN, que vigiavam de fora do arame farpado e do alto das gigantescas árvores que o envolviam todos os movimentos da nossa tropa.

Era constituída por uma caserna, quatro abrigos subterrâneos, e um posto de comando, que era uma casa abarracada, sem portas nem janelas, por onde os sardões o as cobras vagueavam livremente, sem nenhum obstáculo que lhes barrasse a passagem, a não ser a presença humana. Tinha ainda outros abrigos à superfície.  A envolver este destacamento, que no essencial era uma clareira circular com cerca de mil metros de diâmetro, 2 fiadas de arame farpado, paralelas e em círculo. O capim era necessário cortá-lo de dois em dois meses, para evitar a aproximação camuflada do  IN. As casas de banho, como é de calcular, eram a céu aberto.

A guarnição deste destacamento, comandado por um Alferes, variava entre 60 a 80 homens, normalmente, bem armados e disciplinados, capazes de aguentar debaixo de fogo uma boas dezenas de horas.

O seu comando era rotativo e por lá passámos os mais longos meses da nossa juventude, então com 23 anos, e responsabilidades tremendas em cima dos galões de Alferes.

A paisagem envolvente era de uma beleza indescritível, com dezenas de cajueiros, mangueiras, árvores gigantes, capim e as célebres lianas. O barulho ensurdecedor dos milhares de pássaros e a vozearia nocturna da mais variada bicharada, desde macacos a hienas, tornavam aquele ambiente um mistério todos os dias renovado.

  O “dia” em Banjara, iniciava-se naqueles anos (1967/1968), por volta das 18 horas. A essa hora o Comandante mandava distribuir a 3.ª refeição, e as sentinelas avançadas ocupavam os seus postos. Toda a gente vestia então o seu camuflado, calçava as botas e recarregava as armas. Não é que de dia estivessem todos a dormir, mas durante a noite, entrava-se em alerta máximo. Durante a noite era rigorosamente proibido acender luzes, fazer fogo e fumar à vista desarmada para não denunciar a presença e a localização de ninguém.

   Tomada a 3.ª refeição e colocadas as sentinelas, que eram sempre dobradas, iniciava-se toda uma série de rondas de posto a posto, podendo os soldados que estavam de folga, e só nos abrigos subterrâneos, jogar cartas, conviver e confraternizar, pôr a correspondência em dia, etc. De vez em quando dormia-se uma hora ou duas mas sempre em sobressalto, e sem a mínima tranquilidade. Posso dizer que durante o tempo que passei neste destacamento não dormi uma única noite descansado.

   Durante a noite, de vez em quando, uma sentinela nossa dava um tiro, à aproximação do arame farpado de um macaco ou qualquer outro bicho (podia náo ser...). Logo todos corriam para as armas pesadas e, normalmente, o IN respondia com dois tiros ao longe. Então a nossa sentinela, aquela ou outra, respondia passado algum tempo com três tiros. A seguir a resposta de novo do IN, então com 4 tiros. Era um jogo macabro, que nos mantinha constantemente vivos e despertos.

   O dia amanhecia, então, e, pelas 7 da manhã, iniciava-se a distribuição da 1.ª refeição. As horas mortas do pessoal eram gastas, durante o dia, à caça, quando isso era possível e o capim estava seco e caído no chão, a jogar cartas, pôr a correspondência em dia e jogar futebol. O jogo de futebol era normalmente diário, mas sempre a horas diferentes, para não se cair na rotina, e sempre com os abrigos guarnecidos de atiradores.

   Terminada a 1ª refeição iniciavam-se os trabalhos de rotina, para o que o efectivo estava dividido em 4 grupos, cada um deles composto por 15 ou 20 homens, comandados por um sargento.Um grupo estava de serviço à água e à lenha para as refeições. Os banhos eram tomados na bolanha a um quilómetro do arame farpado, e sempre com 10 ou 12 homens armados em vigia. Outro dos grupos era o piquete que realizava, normalmente, uma patrulha de reconhecimento nas imediações do aquartelamento. O terceiro grupo estava de prevenção rigorosa e o quarto estava de "folga".

  Este destacamento tinha apenas uma coluna de reabastecimento por mês, no máximo, mas chegava a estar mais de 2 meses sem alimentos frescos e sem correio. Não havia população civil, apenas militares.

  Mas nesta situação de extrema insegurança, com privações de toda a ordem e dificuldades sem fim, estabeleceram-se relações de amizade, de solidariedade e de união de tal modo fortes, e com exemplos de lealdade e entrega total de tal modo intensos que considero ser a parte positiva da guerra colonial, que a todos marcou de uma forma mais ou menos traumática.










Ataque a Banjara  24 de Julho de 1968.

DESENROLAR DA ACÇÃO
No passado dia 24, pelas 18H00, o destacamento de Banjara foi atacado por numeroso grupo IN, estimado em cerca de 80 elementos (Bigrupo reforçado) com o seguinte armamento:
-Morteiro 82
-Morteiro 60
-Bazooka
-Lança-Rocketes
-Metralhadoras pesadas
-Armas ligeiras
O ataque terminou às 19H15. Verificou-se que, durante o ataque, as NT sofreram 1 morto, o soldado Jaime Maria Nunes Estêvão. [O Estêvão era uma pessoa forte, trabalhador e empenhado, bom amigo e camarada. Tinha sido ajudante de camionista. Durante esse ataque estava atrás de uma árvore e veio uma granada de morteiro que nela deflagrou. Um estilhaço entrou-lhe directamente no peito e cortou-lhe a aorta. Caiu numa possa de lama a esvair-se em sangue e morreu rapidamente.] Houve também 2 feridos, tendo sido atingido por uma granada de morteiro a caserna e por uma granada do lança-rocketes o depósito de géneros.
O ataque foi efectuado no sentido Norte-Sul tendo o IN instalado alguns elementos do lado Sul. Verificou-se que mal o IN abriu fogo com os morteiros 82 e 60, alguns elementos correram imediatamente para a rede de arame farpado, cortando o arame nalguns sítios, procurando penetrar no aquartelamento. No entanto, devido à pronta reacção das NT, não o conseguiram, tendo sido obrigados a retirar, após o que continuaram a flagelar o aquartelamento sem, contudo, causarem mais baixas às NT.
Diversos: A hora a que o ataque se realizou quase que coincidiu com a hora da terceira refeição. Verificou-se que a maioria dos soldados se encontravam a tomar banho, pois tinham acabado de jogar uma partida de futebol.
O impacto inicial do ataque foi sustido principalmente pelo soldado Manuel da Costa que, mal se iniciou o ataque, correu para a metralhadora pesada Breda e, sem ser apontador da mesma, pô-la imediatamente [em acção] e manteve-se sempre nesse posto, e pelo soldado José Manuel Moreira da Silva Marques que, sozinho, em virtude dos outros dois camaradas que constituíam a esquadra do morteiro 81, terem sido feridos, funcionou com o mesmo, tendo a presença de espírito para, a certa altura, e após ter verificado que algumas das granadas estavam sujas de terra, despir os calções para limpar as mesmas e poder assim continuar a bater o IN com um fogo bastante certeiro.
A coluna de socorro, constituída por 1 PEL REC do EREC [Esquadrão de Reconhecimento]2350, 1 GR COMB da CART 1690 e pelo PEL CAÇ NAT 64, saiu de Sare Banda às 07H30 do dia 25 (e tal deveu-se a ter sido necessário recolher as forças que executavam a Operação Iluminado) e atingiu Banjara às 15H00, pois foi necessário picar toda a estrada até ao destacamento de Banjara.
Quando a coluna lá chegou ordenei que um GR COMB batesse toda a região, tendo o mesmo detectado várias manchas de sangue e pedaços de camuflado IN, e munições de armas ligeiras.
Devido às baixas, deixei uma secção a reforçar o destacamento de Banjara, tendo em seguida regressado a Geba.

RESULTADOS OBTIDOS: 
Baixas sofridas pelo IN: dois mortos confirmados; várias baixas prováveis; material capturado: munições de armas ligeiras e uma granada de morteiro 82.

25-Ataque ao destacamento de Cantacunda



Antes de ser ferido, estive algum tempo neste destacamento. Conheci-o bem. Caracterizava-se pelas péssimas condições das instalações do pessoal e pelos deficientíssimos meios e condições de defesa. Sublinho que ficava a cerca de 50 kms. da sede da companhia. Sem luz eléctrica (como todos os destacamentos da CART 1690), nem um miserável gerador… estava, como se vê pelo relatório, pegado à floresta. O armamento era ultrapassadas metralhadoras pesadas Dreyses e Bredas, morteiro 81 e 60. Os abrigos eram uns buracos de difícil acesso e sem condições interiores. E com pouco efectivo, um pelotão normalmente. No dia deste ataque estavam lá apenas duas secções. Situava-se relativamente perto da base de Samba Culo do PAIGC (a tal que foi destruída em 1967, mas que, é claro, foi logo reconstruída de seguida…). O soldado Aguiar (João Alves Aguiar) era do meu grupo de combate, foi o único que tentou resistir com a G3 à boca do abrigo e morreu, por isso. 11 foram capturados, entre eles o furriel que comandava o destacamento, o Vaz. Foram libertados, depois, aquando da tentativa de invasão na Guiné-Conakri. Apesar das péssimas condiçõe e dos fracos efectivos, é evidente ( e sei que foi assim, porque me contaram) que houve desleixo e facilitismo em excesso. Se não tivesse havido, não tenho dúvidas que as coisas não teriam sido tão fáceis para os atacantes.











ATAQUE A CANTACUNDA
10/11ABR68
DESENROLAR DA ACÇÃO
  No dia 10 do corrente cerca das 00H00, o destacamento de CANTACUNDA foi  atacado por numeroso grupo IN.
  Devido à hora a que o ataque foi realizado a guarnição do destacamento encontrava-se quase toda a dormir na caserna; Devido à configuração do terreno ( do lado NORTE do destacamento existe uma floresta que dista, no máximo de 5 metros do arame farpado; do lado POENTE essa floresta prolonga-se  e verifica-se que havia 2 aberturas no arame farpado; Uma que durante a  noite era fechada com um cavalo de frisa outra que devido às obras e construção da pista de aterragem se encontrava aberta; Do lado SUL existia a tabanca cujas moranças confinavam com o arame farpado; do lado NASCENTE  existe uma bolanha), devido também à falta de iluminação exterior o IN  pôde aproximar-se do arame farpado sem ser detectado pelas sentinelas e abrir fogo com bazookas e lança rocketes sobre a caserna, tendo em seguida atacado pelos lados NORTE, POENTE e SUL: pelo lado NORTE o IN atirou com  troncos do árvores para cima do arame farpado tendo em seguida ultrapassado o mesmo; Do lado POENTE afastou o cavalo de frisa e penetrou por essa  abertura, e pelo lado da pista; Pelo lado SUL infiltrou-se pelas tabancas  que queimou e em seguida penetrou no aquartelamento.
  Devido à simultaneidade com que os movimentos foram efectuados (Os mesmos  foram comandados do exterior por apitos) verificou-se que as NT não poderam  atingir os abrigos e foram surpreendidos no meio da parada. Note-se, contudo, que alguns elementos das NT ainda conseguiram atingir os abrigos (por exemplo os 1°s. Cabos ESTEVES E GOUTINHO e os Soldados AREIA e AGUIAR  tendo este último sido morto no local e os restantes conseguido escapar).
  Devido ao numeroso grupo IN não foi possível contudo organizar uma defesa  eficaz pelo que as NT foram obrigadas a abandonar o destacamento; No entan to só 9 elementos é que conseguiram escapar, tendo 11 desaparecido ( provavelmente feitos prisioneiros) e 1 morto.
POSSÍVEIS CAUSAS DO INSUCESSO DAS NT:
 -O poder de fogo do IN
 -O grande numero de elementos que constituíam  o grupo IN
 -A violência com que o ataque foi desencadeado
 -A pontaria certeira do grupo IN, que acertou os primeiros disparos na caserna das NT.
 -O Comando eficaz do grupo IN.
 -A falta de iluminação existente no destacamento
 -Possível insuficiência de abrigos
 -As proximidades da mata do arame farpado
 -As proximidades da tabanca do arame farpado
 -O reduzido efectivo das NT
 -Possível abrandamento das condições de segurança
 -Longa distância deste destacamento à Sede da Companhia (cerca de 50 kms)
COMENTÁRIOS
  Posteriormente veio a saber-se, por declarações de alguns milícias e elementos da população civil detidos para averiguações, que o ataque teve a conivência do próprio Comandante da milícia e de elementos da população. Todos os elementos que precisavam, tais como distâncias para colocar as armas pesadas, local da entrada no destacamento e vias de acesso ao mesmo,  foram fornecidos por esses indivíduos que traíram as NT.
Os que foram capturados em Cantacunda foram libertados aquando da operação Mar Verde. Menos os soldado Luís dos Santos Marques, que morreu no cativeiro. Há quem diga que foi por doença. Sobre o Armindo Correia Paulino há um erro que começou logo na companhia, que o deu como "retido pelo IN": ele "não compareceu" porque não foi feito prisioneiro, morreu na operação Imparável e o corpo não foi recuperado. Os outros dois, o João da Costa Sousa e o Francisco Gomes da Silva, consta que foram para Argel. Nunca mais se soube deles.
De referir que, a CART2743, a segunda a substituir a CART1690 em Geba, tinha um pelotão em Cantacunda que foi atacado em na noite de 26.10.71. De dados que eu tenho, os guerrilheiros chegaram a ultrapassar a primeira linha de arame farpado (estavam melhor que na altura da CArt1690...), mas as NT aguentaram-se. Unidades de Geba e de Bafatá (elementos do Bart2920 e ERFox 2640) foram em seu auxílio logo nessa madrugada, tendo sido emboscados no caminho entre Camamudo e Cantacunda, morrendo nessa emboscada seis elementos da CArt 2743: o 1º Cabo Atirador António João Ferreira dos Santos, os Soldados Atiradores Avelino da Costa Gomes, Diamantino da Encarnação Cunha, Jorge da Encarnação Lourenço e Luciano Augusto Paula. O Soldado Condutor José Henriques Teixeira Silva foi ferido e acabou por morrer no HM241 a 31.10.71. Foi também morto nesta emboscada o Alferes de 2ª Linha Malique José Semedo Baldé, da CMil3.