Passei todas as segundas, quartas e sextas de manhã no HMP. Foi tira penso e mete penso nas feridas que tinha dos estilhaços, mas o pior era o esgravatar doloroso em que se empenhavam nos meus dois ouvidos, despejando depois para dentro deles umas porcarias que eu não via, mas que pareciam torrentes de água, umas vezes quente outras fria, a penetrar-me por toda a cabeça e pelo pescoço. Saía sempre atordoado e, quando na rua, o ruído dos carros que passavam, e até os meus próprios passos, ribombavam-me na cabeça como trovões. As gazes que enfiavam como estopa nos meus buracos laterais diminuíam os sons, mas incomodavam muito. Um dia, quando descia a Calçada da Estrela, decidi tirá-las. Fiz mal. O 28 da Carris veio por trás com o chiar arrepiante nos carris e as setas perfurantes do tilintar de campainha do guarda-freio, tive de me encostar a uma parede com as mãos nos ouvidos. Uns passantes ainda pararam a olhar, mas o 28 passou e eu pus as gazes, e fui também. Mas nunca mais as tirei.
Era viver fora do contexto. Só as lembranças e os ruídos da Guiné dominavam na minha mente, não penetravam agora nos meus ouvidos tapados, mantinham-se lá desde há muito, agora estavam sempre onde eu estava. Só os factos da minha vida presente é que me pareciam longínquos, com ténues sons que não davam para compreender o que me rodeava, nem quebravam o silêncio da bolanha em que eu estava ainda. Até as discussões lá em casa entre o meu pai e a minha mãe, ou entre a minha irmã e eles os dois, eram uma coisa que não me dizia nada. No hospital, solícitos, não duvido, que o tratamento era para recompor os tímpanos e tudo à volta, e para me proteger das agressões dos sons externos. Mas eu continuava a ouvir o matraquear da G3 que ceifara a professora Abess e a explosão da mina que matara o capitão e desfizera o Domingos Gomes. Aquele tratamento só não dava, senti necessidade de fazer planos para outro.
A Calçada da Patriarcal, a da casa dos meus pais, onde eu aboletava agora, era um sítio estratégico.
Descendo as Escadinhas da Mãe d’Água e a Rua da Alegria, havia logo ali à direita o Ritz Club, na Rua da Glória. Mais abaixo, numa esquina da Praça da Alegria, havia o Maxime, e, se quisesse, logo à esquerda, havia o Cantinho dos Artistas à entrada do Parque Mayer. Podia descer a Avenida até à Taverna Imperial, nos Restauradores, ou ir ao Comodoro, ao pé do D. Maria.
Se fosse por cima, pelo Príncipe Real, também tinha hipóteses. Depois de S. Pedro de Alcântara tinha o Lua Nova, na Travessa da Queimada, ao pé da Misericórdia. Podia também ir à Trindade, logo a seguir, mas não, esse não era sítio para este meu tratamento. O Bar D. Quixote, que ficava também por ali, perto do Largo do Carmo, esse é que sim, convinha-me, era agradável e tinha boa frequência. Idêntica à dos outros sítios, aliás.
Havia outros, mas estes eram os sítios que eu já conhecia, por eles tinha passado com os meus camaradas alferes e o capitão antes de embarcarmos na Ana Mafalda. As minhas vivências lá, os sons deles, os conhecimentos, o que gostei, tudo coabitava dentro de mim com as lembranças da Guiné. Era bom para o tratamento.
Mas um problema se levantava. Eram locais para altas horas da noite e madrugadas. Que fazer até lá? Também achei solução. Na Avenida havia logo à esquerda o cinema S. Jorge. Mais abaixo tinha o Condes, o Odeon e o Olímpia na Rua dos Condes, e o Politeama nas Portas de Santo Antão.
Estava gizado o plano de tratamento: cinemas à tarde e à noite, a seguir bares.
Cumpri-o durante meses. Segundas, quartas e sextas de manhã no hospital, tinha de ser. À tarde, sessão das 15H00 num cinema, sessão das 18H00 noutro e sessão das 21H00 noutro ainda. À noite e madrugada bares, uma vez num outra vez noutro. Foi assim quase todos os dias durante meses. O ordenado de alferes dava, nunca juntei dinheiro. Mas fez-me bem, gostei deste tratamento.
Sem comentários:
Enviar um comentário