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14 de janeiro de 2011

38-Novamente para a Guiné

Passados oito meses, quando fui ao tratamento no hospital diz-me o otorrino:
- Então como está? Já não tem os tampões nos ouvidos há muito tempo. Como é que se tem sentido?
- Mais ou menos.
Dos estilhaços já só tinha as cicatrizes para me lembrar. Mas dos ouvidos era mesmo mais ou menos. Não tinha dores nem incómodos de maior, mas sentia que não era o mesmo, que tinha perdido parte da audição.
- Olhe, amanhã a esta hora, tem de vir cá para ir a uma junta médica. Vão decidir o seu futuro.
- E qual vai ser, doutor?
- Não sei. Isso é com eles.
- Mas acha que eu estou em condições?
- Não me compete a mim, nosso alferes. A junta é que vai dizer.
Mais nada.
No dia seguinte fui à junta médica. Era um coronel e um tenente-coronel. Mandaram-me sentar à frente deles. O coronel puxou duns papéis, devia ser o meu processo, Folheou-os e olharam os dois para eles.
- O ouvido esquerdo tem 10% de incapacidade, no direito tem 20%. Está apto para todo o serviço.
O tenente-coronel abanou a cabeça que sim. Levantaram-se.
- Vá apresentar-se no Depósito Geral de Adidos.
Mais nada.
Fui para o Depósito Geral de Ardidos, na Ajuda. Ao fim de dois ou três dias, não sei bem, meteram-me nas mãos uma Guia de Marcha para embarcar no Uíge, também não me lembro em que dia exacto, só sei que foi nos primeiros dias de Maio, era para me apresentar no Quartel-General do CTIG (Comando Territorial Independente da Guiné).
Fiquei mesmo a arder. Queriam que eu fosse acabar a comissão na Guiné, mas, sabendo o que já sabia, não me agradava nada. Da primeira vez ainda fui embalado na ignorância, mas agora não, já conhecia bem como que era. Ainda pensei dar o salto para França. Pensei, pensei muito. E lembrei-me do que me dissera o Norberto no Comodoro e fui falar com o seu substituto naquele grupo de conspiradores. Convenceu-me que era melhor não desertar, que havia trabalho a fazer na Guiné. Disse-me mais:
- Tens Guia de Marcha para o QG do CTIG, não é? Ali é que é porreiro, não vais para o mato e podes trabalhar muita gente no sítio ideal.
Convenceu-me. Mas concluí mais tarde que ele não percebia nada dos mecanismos de funcionamento da tropa.
E embarquei no Uíge para a Guiné. Pela segunda vez.

UÍGE

Não era nada como no Ana Mafalda. Como não ia integrado em nenhuma companhia, era só dormir, comer, jogar às cartas, apanhar sol. Ia um grupo de gajos em rendição individual. Foram bons parceiros.
Eu sou o de livro debaixo do braço. Não me lembro dos nomes dos outros. Só do Almodôvar, que me parece o do lado esquerdo do tenente-coronel.
Grandes comesainas! Sou o terceiro a contar da direita.

Foi uma viagem magnífica.

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