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10 de janeiro de 2011

35-Percalços da clandestinidade

Já vínhamos no carro e disse-me ele:
- O que eu te queria dizer é que temos que nos encontrar amanhã com outra malta e era preciso uma casa para isso. Na da minha tia não dá porque há lá gente e estava a pensar na tua. Será que pode ser?
- E a que horas é?
- Às dez horas da manhã.
- A essa hora tenho estar no hospital. Só se forem vocês e depois falas comigo sobre o que decidiram. O meu pai e a minha irmã estão a trabalhar e a minha mãe vai a uma consulta ao hospital. Eu dou-te a chave de casa.
- Está bem. Falamos os dois depois.
Chegámos, entretanto, ao largo da Calçada da Patriarcal.

Este é o largo da Calçada da Patriarcal. Os meus pais moravam aqui (X), no nº 1, 2º Esqº. Já não moram porque já morreram. É verdade que também morou aqui, anos antes deles, o pide São José Lopes.
Parou o carro ao pé das árvores. E eu lembrei-me duma coisa.
- Mas espera aí, ó Norberto. Não sei se é o melhor ser em minha casa. É que, há uns dias, apareceu lá na caixa do correio uma carta para um tal Aníbal de São José Lopes. A minha mãe foi perguntar à vizinha se não seria para ela. E a vizinha disse-lhe que era um gajo da PIDE que tinha antes lá morado mas que, agora, estava em Angola.
Vi que ficou apreensivo, pensou um bocado.
- Mas há quanto tempo é que ele morou lá?
- Não sei, pá. Mas, como os meus pais já moram lá há mais de 20 anos, já foi há mais tempo.
- Então deixa estar. Dá cá a chave. Até tem piada.
Dei-lhe a minha chave.
- Mas, olha, já gora digo-te outra coisa: há quinze dias fui a uma junta médica e os gajos deram-me como inapto para a tropa. Isto da hemofilia não tem remédio.
- Porreiro! Então estás livre da guerra.
- Não é nada porreiro. Sabes muito bem que a orientação é não fugir à guerra. É lá com os outros que temos de estar, é lá que podemos influenciar, não é fugindo para França. Mas paciência, comigo já não há hipóteses. Para compensar pus-me a vendedor de materiais de construção civil, dá-me para andar por aí e desenvolver o trabalho clandestino.
- Mas deves concordar que é melhor do que estar na guerra.
- Claro. Mas lá também se pode trabalhar, e é muito importante.
Disse que estava bem e despedi-me. Fui de manhã ao hospital ao tratamento. Quando voltei a casa para almoçar vi que não tinha a chave, tinha-me esquecido, toquei à porta. Disse-me a minha mãe:
- Então e a chave?
- Devo-me ter esquecido dela num bolso qualquer.
- Olha, estiveram aqui uns amigos teus a perguntar por ti.
- Estiveram? Mas quando?
- Eram aí umas dez horas.
Merda, que bronca! Fiquei com tal cara que a minha mãe até se assustou.
- Mas houve algum problema?
- Não, não houve nada, mãe. Mas não tinha dito que hoje ia ao médico?
-Tinha, mas decidi não ir porque já vi que aquele homem não me resolve nada. Ando lá há uma data de tempo e não vejo solução, nada. É só gastar dinheiro. Tenho de arranjar outro médico.
Tinha osteoporose, andava bastante mal, coitada.
Quando acabava almoçar tocou o telefone e a minha mãe foi atender.
- É para ti.
Atendi. Era o Norberto.
- Era um dos meus amigos que estiveram aqui. Vou ter com eles ao Jardim da Estrela quando acabar de almoçar.
Fui e vi-o sentado na esplanada, estava sorumbático.


- Desculpa lá aquilo, mas não tive culpa nenhuma. A minha mãe à última da hora decidiu não ir ao médico.
- Pega lá a chave. Por acaso, por uma questão de segurança, toquei á porta primeiro. Imagina que tinha metido a chave na fechadura, a tua mãe chamava a polícia e íamos de cana por arrombamento.
- Oh, não chamava nada. Dizias que te tinha emprestado a chave para, não sei, inventavas qualquer merda.  
- É pá, mas não, isto não pode ser assim.
- Mas o que é que queres, caralho? Já te disse que não tenho culpa. Foi azar.
Também já estava a ficar chateado.
- Mas, ouve lá, reuniram ou não?
- Claro que não. Temos de marcar outro dia e outro sítio, mas um sítio seguro agora.
Gozei:
- Um bom sítio é o Comodoro.
- Vai-te foder.
Bebemos umas imperiais e perguntei-lhe mais coisas sobre a junta médica. Tinham-lhe recomendado uns medicamentos, que tivesse cuidados, que já não servia para a tropa.
Despedimo-nos e desde esse dia nunca mais o vi.

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