CONSULTAS

Para consultas, além da "Caixa de pesquisa" em cima à esquerda podem procurar em "Etiquetas", em baixo do lado direito, ou ver em PÁGINAS, mais abaixo ainda do lado direito, o "Mapa do Blogue"

Este blogue pode ser visto também em

4 de maio de 2011

137-Preparação para a guerra- I

Naquela tarde fria de Janeiro entraram no grande casarão cerca de 800 "soldados cadetes" para frequentarem o COM (Curso de Oficiais Milicianos). A ala sul do Convento de Mafra recebeu essa gente toda tal como outrora recebia os candidatos à vida contemplativa e de oração, embora não em tão grande número. Só que estes "noviços" iam ser iniciados não para a contemplação mas para a acção, não para rezar pela sua salvação e pela dos outros homens mas para estarem preparados para matar outros homens e também para serem mortos. A religião ali praticada agora era a guerra, as orações foram substituídas por palavras de ordem militares, os livros sagrados chamavam-se agora RDM, Manual de Instrução, Manual do Oficial Miliciano, Manual de Educação Cívica e Militar para uso nos COM e CSM. Enfim, numa mão a cruz noutra a espada, para a defesa da civilização cristã e ocidental. Trata-se apenas de acenar e actuar umas vezes mais com uma mão, outras vezes mais com a outra. Não há, como se vê, nada de estranho ou anormal, nada que deva espantar ou chocar.

Toda aquela gente passou pela inspecção, todos nus, foi visto se eram quebrados ou se tinham o pé chato. Conforme a ordem de entrada foi-lhes dado um número e, conforme este, foram agrupados por cinco companhias que, no seu conjunto, formaram o Batalhão de Instrução. De acordo com as companhias em que ficaram integrados foram distribuídos por várias casernas, situadas nos vários pisos do convento.

- "Isto é uma tropa fandanga. Olha-me para esta cambada de nabos, a começar por ti. Vocês metidos nessa merda dessas vestimentas e a desfilarem ali no meio dos saloios de Mafra deviam pô-los a mijar de rir".
O Aiveca mirou-se e remirou-se e acabou por dar razão ao Pais. Era raro aquele cuja farda número um lhe estava mais ou menos a quadrar com o físico. Quase todas largonas , desproporcionadas. Ou nadavam dentro das acalças ou pareciam miúdos a provar o casaco do pai.
O Pais falava assim porque se recusara a vestir a farda.
- "Eu sei que vou ter de andar com esta merda vestida, mas, ao menos, só a visto depois de a mandar arranjar, quando for a casa. Não quero fazer triste figura e, ainda por cima, com uma coisa que tenho de aceitar contrariado."
- "Também me parece, pá. Vamos, agora, andar aqui feitos palhaços?", e o Norberto, dentro das calças, esticava uma cintura onde cabia outro igual a ele. "Eu também não vou aceitar vestir isto assim".
À roda, toda a gente concordou, de uma maneira ou doutra. Cada um deu mostras da sua figura ridícula com fardas distribuídas pelo cabo quarteleiro aos soldados cadetes, após fazer uma apreciação rápida das medidas do físico de cada um. 
- "Isto é a olhómetro, senhor cabo?".
O Realinho levantara logo esta observação, aquando da altura da distribuição do fardamento.
-"O nosso cadete desculpe, mas eu não posso estar aqui a fazer provas a cada um dos nossos cadetes. O melhor que têm a fazer é arranjar alguém lá em casa que faça uns ajustamentos no fardamento". 
É claro que o "senhor cabo" tinha razão, toda a gente achava que sim. Mas também todos aqueles que se sentiam ridículos dentro daqueles fardamentos achavam que não deviam passear-se com tais adornos.
Não havia granes problemas quanto à farda de trabalho, a número dois: era d caqui vaerde, calça e camisa, com um barrete com um formato bastante esquisito. O pior, de facto, era a farda número um, a farda de passeio: calças e blusão cinzentos, camisa e gravata e boné com pala dura. esta, sim, é que os fazia ridículos, parecer polícias mal geitosos, balofos. 
- "Os nossos cadetes têm azar. O próximo curso, daqui a três meses,vai ter já dos novos fardamentos, verdes, calça e blusão e boina castanha".
- "Obrigadinho, ó senhor cabo, mas isso não me serve de consolo. Os gajos não me deixam ir para casa se eu lhes disser que não gosto desta farda e que me deixem vir para o próximo":
Ninguém achou piada a esta saída de alguém do meio do grupo.




Sem comentários:

Enviar um comentário