CONSULTAS

Para consultas, além da "Caixa de pesquisa" em cima à esquerda podem procurar em "Etiquetas", em baixo do lado direito, ou ver em PÁGINAS, mais abaixo ainda do lado direito, o "Mapa do Blogue"

Este blogue pode ser visto também em

10 de setembro de 2011

248-A ARA destrói vários helicópteros e aviões na Base Aérea de Tancos

«Uma das maiores operações da ARA foi a reali­zada na Base Aérea de Tancos, na madrugada do dia 8 de Março de 1971, pouco mais de quatro meses após a do Cunene, e que se saldou pela destruição de dezenas de aviões e helicópteros militares. O governo fascista ficou em estado de pânico e a PIDE completamente desorientada.
O pesado saldo desta operação em destruição de material e aeronaves e a facilidade com que um comando da ARA tinha penetrado nas instalações militares mais importantes do Continente, o então chamado «Polígono de Tancos», causaram um efei­to político e psicológico devastador entre o Governo e as autoridades militares fascistas.
Foi isso que Marcelo Caetano mais tarde registou nas suas memórias quando, utilizando os mesmos termos da PIDE, diz com certo desalento, o seguin­te:
«A campanha contra a DGS não tardou, porém, a recrudescer.
O governo conseguiu manter esta polícia em actividade discreta na Metrópole até ao momento em que, a seguir ao fracasso elei­toral das oposições, reapareceram as orga­nizações e acções terroristas. Do Partido Comunista nasceu então a ARA (Acção Revo­lucionária Armada) que reivindicou a autoria de vários golpes, sobretudo dados no porto de Lisboa [. . .]. O mais grave destes actos terro­ristas foi o cometido em Tancos, onde um grupo conseguiu entrar no aquartelamento da Força Aérea e montar num hangar o disposi­tivo, que pela explosão de vários engenhos, conduziu à destruição de aviões e helicópteros no valor de muitos milhares de contos e cuja falta afectou a eficiência da aeronáutica militar.»(1) (Sublinhado nosso, JS.)
De facto, além do significado político e militar da Base, nela estavam concentradas as principais unida­des aéreas estacionadas no País. Aí se processava a instrução e treino militar dos pilotos dos helicópteros, cuja acção era cada vez mais decisiva na condução da guerra nas longínquas colónias de África.
Esta foi uma das operações mais complexas, dispendiosas e de mais longa preparação, porque era necessário um êxito absoluto, que o não seria se o comando em acção sofresse baixas ou se algum mi­litar fosse atingido pelas explosões. Ambos os riscos eram altamente prováveis, sobretudo o segundo, por­que havia o hábito de roubar durante a noite gasoli­na das aeronaves e porque, do outro lado de uma das paredes do objectivo - o hangar principal da base -, dormiam muitos soldados na respectiva ca­serna.
A obtenção da chave do hangar, por parte do camarada Ângelo de Sousa [2] , foi relativamente simples.
Nesse tempo da guerra colonial, aos fins-de-semana, uma boa parte dos oficiais e sargentos mili­cianos abasteciam as suas viaturas particulares nas reservas de combustível da Base, servindo-se dos mais variados «truques». Um deles era «roubarem» a gasolina das aeronaves no hangar, com a conivên­cia do «quarteleiro», o militar responsável pela sua manutenção.
O Ângelo de Sousa, que sabia disto muito bem, num determinado fim-de-semana (uma sexta-feira de manhã), abeirou-se do «quarteleiro» do hangar, seu amigo, pedindo-lhe que lhe emprestasse a chave para esse fim-de-semana. «Para quê - perguntou-lhe o outro - se tu nem sequer tens carro?» Então o Ân­gelo contou-lhe a seguinte estória:
«É verdade que eu não tenho carro, ma este fim de semana vem cá um oficial amigo meu do Porto, sábado ou domingo, para me visitar. É uma viagem longa, já vês, como eu não estou muito abonado sempre é uma forma de compensar o meu amigo pela sua deslocação.»
Embora reticente, o amigo «quarteleiro» lá lhe emprestou a chave do hangar que o Ângelo, como o combinado, prontamente fez chegar, nesse mesmo dia, às mãos do Raimundo Narciso.
Já com alguma experiência na matéria, rapida­mente se fez uma cópia da dita chave na nossa pró­pria «oficina» com base num molde impresso num pedaço de sabão. Depois de e ter assegurado da boa execução da cópia, o Ângelo, ainda nesse me mo dia, devolveu ao «quarteleiro» a chave original, alegando que, afinal, o seu amigo do Porto lhe havia telefo­nado a anular a visita ...
Como laboratório improvisado foi alugado um apartamento na Praça do Estados Unidos da Amé­rica, em Lisboa, onde o dispositivo técnico e os seus testes (verificação de detonadores, ligações eléctrica e cálculos da potência da fonte de energia neces á­ria) foram realizados, ao longo de dois meses, en­quanto noutros locais decorriam outras diligências preparatórias, como fazer explodir em praias de di­fícil aces o - as da costa do Cabo da Roca, por exemplo - detonadores e amostras de certos explo­sivos artesanais previamente preparados no laborató­rio central.
Ao começo da noite de 7 de Março de 1971, par­tiram de Lisboa dois carros com destino à estação da CP de Santarém, um alugado e conduzido por Rai­mundo Narciso que coordenou directamente todos os movimentos preparatórios da operação, e outro con­duzido por Carlos Coutinho que, além de transpor­tar o comando envolvido na acção, levava também o volumoso dispositivo técnico, como se de transporte de fruta se tratasse.
As dezasseis cargas explosivas e quatro incendiá­rias, a rede de cabos eléctricos e detonadores, bem como as demais componentes do dispositivo, estavam devidamente acondicionadas na grande mala do car­ro e sobre elas alguns sacos de fruta, tendo mesmo havido o cuidado de espalhar bastantes maçãs.
Paga a portagem na Portela de Sacavém, as duas viaturas tiveram de parar alguns metros à frente, numa aparatosa «operação stop» montada pelas for­ças policiais que, ao contrário do que era habitual, exibiam espingardas automáticas G-3.
Após a verificação de documentos, três polícias procederam à revista da viatura conduzida por Carlos Coutinho que, ao abrir a mala, lhes ofereceu maçãs. Só um aceitou, «para provar», e todos desejaram boa viagem. O autocolante, que um deles colocou no pára-brisas da viatura, desejava o mesmo, em nome do Comando Geral da PSP, e tinha uma função não declarada: avisar os outros postos da «operação stop» de que aquela viatura já tinha sido controlada. De facto, tanto nas imediações de Santarém como da Barquinha, o carro foi mandado parar e encostar à berma, porém em nenhum dos casos chegou mesmo a parar, porque a pequena força da GNR, ao identi­ficar o autocolante, imediatamente mandou seguir.
No parque de estacionamento da CP em Santa­rém, onde chegaram cerca das 23 horas, os camara­das vestiram uniformes da Força Aérea e trocaram de viatura com Raimundo Narciso, mudando para ela o material da operação. Recordados pela última vez os principais cuidados a ter durante a operação, o comando da ARA partiu para o objectivo e, tal como estava planificado, entrou com toda a natura­lidade - e até com as «devidas» honras militares - pela porta de armas da Base, cerca da meia-noite, en­tre a movimentação normal da última entrada geral.
Encabeçado por Carlos Coutinho, que «era» um oficial da Base de São Jacinto devidamente unifor­mizado e documentado, o comando dirigiu-se imedia­tamente para o hangar principal, cuja segurança exterior ficou cometida ao António Eusébio.
É de salientar o papel determinante desempenha­do pelo Ângelo de Sousa nesta operação, da qual foi o inspirador, pois prestava então serviço militar na­quela Base e conhecia todos os seus meandros. No dia seguinte, aliás, deveria receber o seu breve! de piloto de helicópteros, numa cerimónia de grande pompa e circunstância que outras «circunstâncias» iriam abortar.
◊◊◊
Entrando no hangar com chave «normal», o comando da ARA encontrou ainda mais aviões e he­licópteros que os esperados, o que levou a uma reconsideração dos planos. Mesmo assim, levou ape­nas 1 hora e 20 minutos a instalar dezenas de me­tros de cabos eléctricos, cordão detonante, cargas explosivas e incendiárias, além do complicado siste­ma eléctrico necessário para provocar as explosões e incêndios que haveriam de destruir as aeronaves e o próprio hangar em poucos minutos.


Para fazer chegar a corrente eléctrica da fonte de energia a todas as cargas foram necessários 350 me­tros de fio eléctrico duplo, distribuído por um fio central de 100 metros de comprimento, por uma extensão de 50 metros ligando as pilhas à armadilha preventiva e 20 extensões de 10 metros cada que es­tabeleciam a ligação entre cada carga e o fio central.
As cargas explosivas estavam todas ligadas a um sistema eléctrico único, tendo por esse facto as explo­sões das cargas sido simultâneas. Cada helicóptero continha uma carga colocada em cima do depósito de gasolina ou dentro do próprio motor. Os helicópteros maiores receberam duas cargas e se houve dois ou três aviões mais pequenos que as não receberam, as explo­sões e a propagação do grande incêndio que durou horas não deixou coisa alguma por arder. Segundo testemunhas oculares só ficaram ferros calcinados den­tro do hangar. De todas as aeronaves da base só es­caparam três aviões que se encontravam nas pistas.
O fio eléctrico utilizado foi o vulgar fio eléctri­co que se encontra no mercado, como, aliás, todo o restante material eléctrico.
A armadilha preventiva colocada na porta no acto da retirada teve em vista impedir que um eventual acesso ao hangar, por alguém estranho à operação, a fizesse abortar ou causar um desastre pessoal. Com a armadilha preventiva, se a porta fosse aberta antes da hora marcada, todo o mecanismo seria accionado antecipadamente com um mínimo de consequências para o intruso.



Como o sistema de armadilha felizmente não foi accionado, aproximadamente à hora marcada, 4 da manhã, a operação registou um êxito absoluto. Foram completamente destruídas pelas explosões e pelo fogo cerca de três dezenas de helicópteros e aviões militares, isto é, a principal reserva de material mi­litar desta natureza então existente no Continente em estado operacional.
Quanto ao pessoal da Base, não houve qualquer vítima. Mesmo os soldados que dormiam na caser­na contígua, o único incómodo que tiveram foi se­rem acordados por um enorme estrondo que fez estremecer tudo e que nem foi imediatamente loca­lizado por eles, já que a própria parede da caserna não sofreu o mínimo beliscão. Mas acordada foi toda a Base, tal como as restantes unidades militares do Polígono e as povoações da zona.
No regresso do comando da ARA a Lisboa, o primeiro relatório oral foi feito a Raimundo Narciso em Santarém, enquanto os camaradas mudavam de vestuário e identidade, ainda antes da deflagração do dispositivo, e o segundo, já certamente com todos os alarmes no ar, foi feito, pouco depois das 4 da ma­nhã, a Francisco Miguel, junto à portagem da Portela de Sacavém, onde já não havia qualquer vestígio da frustrada «operação stop», muito provavelmente re­lacionada com a passagem do quinquagésimo aniver­sário da fundação do PCP (6-3-1921).
Na tarde do domingo seguinte, o camarada Carlos Coutinho teve acidentalmente um relatório quase exaustivo dos resultados da operação. Foi ao cinema Berna, em Lisboa, ver O Soldado Azul e no intervalo saiu para o foyer para fumar. O mesmo fizeram dois indivíduos que aí conversavam emocionadamente e sem quaisquer cuidados. Ambos eram oficiais da Força Aérea e o mais falador pertencia à Base de Tancos. Descreveu com pormenores impressionantes o material destruído, bem como as perturbações re­sultantes, e aludiu a especulações e suspeitas que circulavam no meio militar e que apontavam para movimentações dos altos comandos, talvez porque Marcelo Caetano estava longe de gozar da simpatia de muitos militares.
Poucos dias depois, um oficial superior da Base de Tancos faleceu num acidente de helicóptero e as especulações adensaram-se ainda mais, chegando mesmo às redacções dos jornais. Os rumores e espe­culações apenas terão amainado quando a autoria da operação se tomou do conhecimento geral.

A Comunicação Social, mesmo amordaçada, reage às mentiras oficiais sobre Tancos

Como era de esperar, o governo fascista, não podendo ocultar o acontecimento, fez tudo para lhe retirar importância e diminuir o impacte polí­tico.
No dia 9 de Março, numa brevíssima «Nota» da Secretaria de Estado da Aeronáutica para a Comuni­cação Social, diz-se que:

«Cerca das 3 e 30 da madrugada de hoje, sabotadores, iludindo a vigilância do pessoal de guarda da Base Aérea de Tancos, consegui­ram introduzir-se num "hangar" daquela uni­dade e colocar cargas explosivas comandadas por um sistema de relojoaria, que, ao explodi­rem, originaram a destruição de algumas ae­ronaves e danos em outras.
Não houve desastres pessoais. Foi imedia­tamente iniciado um inquérito pelas autorida­des militares que solicitaram a colaboração dos serviços civis de segurança.»

Reagindo a esta falsa informação e traduzindo de algum modo a insatisfação da Comunicação Social de então, dias depois deste lacónico comunicado, o "Observador" de 19-3-71, publicava o seguinte:

«A BOMBA DE TANCOS

Até ao momento em que escrevemos este comentário, tudo o que o País sabe a respei­to da explosão provocada em Tancos é o que consta de uma lacónica nota oficiosa, trans­mitida por intermédio da Secretaria de Estado da Informação e Turismo. Laconismo que tem certamente ponderosas razões de segurança atrás de si, mas que deixa em campo, infru­tuosamente quando não gravemente nocivo, um clima de inquietação propício ao boato. E este, como se sabe, é um dos grandes trun­fos da guerra psicológica. Que foram 2 ou 20 helicópteros, que morreu (ou não) muita gen­te, que foi este ou foi aquele, que na noite da explosão se encontravam em jantarada cheia de expectativa muitos correspondentes da im­prensa estrangeira em Lisboa, tudo isto corre de boca em boca, agreste e dissolvente como ácido. [. . .]
Repetimos que é natural virem a saber-se pormenores mais concretos dentro de horas ou dentro de dias; mas o tempo que passou já não o recuperará o nosso "moral", e ele é ex­tremamente importante.[. .. ]»


Mais mentiras tardias sobre Tancos


Passado quase um mês sobre as destruições de Tancos o Governo, através da Secretaria de Estado de Informação e Turismo (SEIT), convoca para o dia 1 de Abril (talvez por ser o dia das mentiras) uma con­ferência de imprensa com a presença do Dr. Geraldes Cardoso, director-geral da Informação, onde, perante a curiosidade dos numerosos jornalistas centrada na questão de Tancos, este repete as mesmas mentiras, chegando a afirmar que «as aeronaves são na sua maioria recuperáveis» e, com modos de grande gene­rosidade, ainda acrescentou que, «como em Portugal não existe a pena de morte, os responsáveis incorrem em penas que não podem exceder 24 anos [ ... ].»»


(1) Marcello Caetano, "Depoimento", Distribuidora Reconi, Rio de Janeiro-S. Paulo, 1974, p. 77.
[2][bom amigo, falecido prematuramente poucos anos após o 25 de Abril - nota minha] 

Sem comentários:

Enviar um comentário