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9 de novembro de 2011

297-A Fortaleza de Bissau e a Companhia do Grão Pará e Maranhão

 Gravura inclusa em "Ensaio de Iconografia das Cidades Portuguesas do Ultramar.2", de Luís da Silveira
José Mendes da Cunha Saraiva apresentou ao Congresso do V Centenário de Descobrimento da Guiné, em 1946, uma comunicação sobre este tema, tendo sido tiradas estas conclusões:
«1.º - Instituída a Companhia Geral do Comércio e Navegação do «Grão Pará e Maranhão», em 1755, foi concedida pelas seus estatutos à Junta de Administração a faculdade de estabelecer o comércio na Guiné C0ml determinados privilégios.
2.º - Para protecção do comércio que a Companhia ia estabelecer naquele ponto da Costa de Africa, sobretudo no porto de Bissou em relação com as capitanias do Grão Pará e do Maranhão, tomava-se necessário protecção imediata para ocorrer a qualquer eventualidade.
3.º - A fortaleza antiga de Bissau encontrava-se, à data do estabelecimento da Administração da Companhia naquela Praça, em completo estado de ruína, sem armamento, munições ou outro qualquer meio de defesa para resistir, como se vê da descrição que em Abril de 1761 o capitão da dita praça Filipe José do Souto e Matos fez em informação que remeteu à Junta, a pedido desta.
4.º - Os reparos das muralhas e baluartes não eram suficientes para se esperar deles uma boa defesa, em virtude de actos de desrespeito que os ingleses haviam tido para com os representantes da Companhia que ali exerciam o comércio, e isto dei­xava em sérias dúvidas a acção dos administradores da Feitoria estabelecida.
5.º - Em face de factos tão visíveis, e como era preciso sem demora assegurar a acção e livre exercício daquele comércio, que era principalmente o da escravatura negra, marfim, cera e outras espécies e drogas que deveriam seguir para o Maranhão, foi a Junta autorizada, depois de consulta régia, a mandar fazer uma fortaleza, e para isso, foi remetido vário material de Lisboa, pelos navios que iam em lastro, com pedra das pedreiras de Alcântara, telha, cal e tijolos dos fornos do Rio Seco.
6.º - Foi encarregado de levantar a planta e de dirigir as obras da Fortaleza o sargento-mor Engenheiro Manuel Germano da Mata, mas só em 1765 esta acção se começou a pôr em prática.
Várias instruções expediu a Junta da Companhia para os seus administradores, e solicitou ao superior dos religiosos que auxiliasse aquele intento e prestasse todos os serviços e meios para o bom desempenho daquela missão.
As instruções COIII que o Director das obras partiu para Bissau eram todas no sentido de se entender o melhor possível com os administradores e com os régtt!os naturais para que aquelas gentes não hostilizassem os interesses do comércio e a construção da Fortaleza. No entanto, parece que o engenheiro Manuel Germano da Mata não foi muito hábil no forma como se conduziu no trato com os régulos e gen­tios, porque estes certamente o hostilizaram e por isso, como represália, mandou queimar algumas mesquitas.
7.º - Na direcção da obra e forma como se conduziram os serviços, adivinhava-se através da correspondência que a Companhia dirigia ao sargento-mor, engenheiro Manuel Germano da Mata, que este não curava muito dos interesses que lhe foram confiados.
As obras da fortaleza tornavam-se morosas, e a Junta da Companhia instava com o engenheiro pela sua rápida conclusão; e por isso começava a impacientar-se pela falta de informações sobre esta questão.
Em face disto e das más informações que o Governador da Praça, Sebastião da Cunha Souto Maior, e os administradores da Feitoria do comércio da Companhia prestavam à Junta, foi mandado regressar à Corte, o já então Tenente-coronel Manuel Germano da Mata, como se vê na carta de 18 de Janeiro de 1769, em que lhe orde­nava fizesse entrega da direcção da obra ao governador.
8.º - Foi encarregado da direcção para conclusão da obra da Fortaleza de Bis­sau em substituição daquele, o sargento-mor António Feliz do Amaral, cuja nomea­ção, depois de a Junta haver conseguido licença e aprovação do Rei, lhe foi comu­nicado em carta de 10 de Março de 1770.
Partiu o novo director da obra para Bissau logo em seguida, e da sua compe­tência se houve bem e de boa conta.
As obras da fortaleza terminaram e foi dada por concluída, conforme a Junta de Administração da Companhia declara na representação de 10 de Outubro de 1774, dirigida ao Rei, em que pede autorização para mandar nomear a indispensável guarnição.
Por isso, o decreto de 28 de Novembro seguinte, nomeava os oficiais que deviam constituir a guarnição da Fortaleza de S. José de Bissau e indicava para sargento-mor o Capitão Luís da Silva Cardoso.
9.º - Na construção e municiamento da Fortaleza da Praça de S. José de Bis­sau, gastou a Junta de Administração do Grão Pará e Maranhão, avultada soma, mas os interesses da Junta ficaram assegurados para o exercício do comércio que tanto se empenhava em explorar».(1)
...E o que era a Companhia do Grão Pará e Maranhão?
A escravidão indígena, isto é, dos povos naturais do Brasil, foi proibida no Estado do Grão Pará e Maranhão em 1752. Foi feita, por isso, uma petição da Câmara Municipal de S. Luís do Maranhão ao Governador e Capitão-general Francisco Xavier   de Mendonça Furtado (meio-irmão do Marquês de Pombal) para que fosse autorizada a formação de uma sociedade para comércio de importação de escravos africanos.
O Marquês acolheu a ideia e ganhou para ela grandes comerciantes de Lisboa e Porto, tendo esta Companhia sido formada em 7 de Agosto de 1755, com o objectivo de vender escravos em grande escala para o desenvolvimento da agricultura e também fomentar o comércio. Recebeu o monopólio do tráfico de escravos durante vinte anos e o transporte de outras mercadorias para o Grão Pará e Maranhão, teve a garantia da Armada Real para escolta dos seus navios, sendo os seus funcionários considerados ao serviço do rei, e também prioridade nas alfândegas.
A Companhia de Jesus não gostou destes privilégios, pois prejudicavam os seus interesses comerciais na região, sendo acompanhada por outros comerciantes que alegavam comércio desleal. O vice-provincial dos jesuítas do Maranhão induziu o bacharel em Direito  João Tomaz de Negreiros e o padre Bento da Fonseca a peticionarem à Coroa Portuguesa expondo o descontentamento dos comerciantes locais. Pombal mandou prender o bacharel, o padre e alguns comerciantes signatários da petição, proibiu qualquer acção conta a Companhia e que deviam ser punidos os padres que usassem o púlpito para instigar ao descontentamento.
O comércio entre S. Luís do Maranhão e a metrópole floresceu. De 1755 a 1760 era um navio por ano, mas já foram setenta navios entre 1760 e 1771, com cargas de algodão, arroz, cacau, gengibre, madeira e mais.
Quanto ao comércio de escravos, até 1755 (data da criação da Companhia) apenas  3.000 havia no Estado do Grão-Pará e Maranhão. Entre 1755 e 1777 esse número subiu para 12.000, vindos de Cacheu, Bissau e Angola.
D. Maria I extinguiu a Companhia em 25 de Fevereiro de 1778, no entanto a sua liquidação só foi concluída em 1914.(2)
Era na altura, como se vê, um potentado com influência política. Decidia os seus interesses com o apoio do poder, nem que fosse preciso pôr a máscara do Mecenas (táctica velha mas ainda actualíssima...). Não é, pois, de admirar que fizesse correr com o  Tenente-coronel Manuel Germano da Mata.
(1) Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Nº 101-104, 1946
(2) Dados extraídos da Wikipedia

8 de novembro de 2011

296-A descoberta da Guiné

Notável e bem fundamentado trabalho de Avelino Teixeira da Mota.
O Almirante Teixeira da Mota foi figura prestigiada no campo da investigação histórica. Vai já abaixo uma pequena biografia sua e uma resenha das suas obras, algumas publicadas postumamente. Poderão ser vistas também no livro
(Ver também "Tatado breve dos rios de Guiné")(Para ver em ponto grande carregar em X, em baixo à direita)
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6 de novembro de 2011

295-Preocupações com a educação e a exploração da mão-de-obra na Guiné

Algumas intervenções e conclusões muito significativas sobre quais eram as preocupações sobre a educação e a exploração da mão-de-obra na Guiné em 1946. Foram produzidas na sessão da manhã do dia 25 de Maio desse ano, durante a Conferência sobre o V Centenário do Descobrimento da Guiné.
 Da intervenção do Padre Dias Dinis:
«Sob este aspecto [o ensino], a nossa Guiné, encravada em territórios estrangeiros e isolada de outras colónias portuguesas, tem necessidade de dedicar especial cuidado ao assunto - criando um ensino adaptado às suas necessidades e características de colónia agrícola; publicando e usando compêndios próprios, como se faz na vizinha Guiné Francesa; procurando que não seja o ensino meio para o indígena abandonar a sua terra e vadiar pelas cidades e vilas, a deseducar-se e a deseducar os mais; curando que, por esse motivo, não perca a agricultura os braços de que precisa; montando escolas rudimentares de ler, escrever e contar, no mato, para penetração da nossa língua e da civilização portuguesa, sem maiores formalidades e pretensões de exames e diplomas, por não interessarem à Pátria papéis, mas portugueses; limitando, enfim, às cidades e vilas as escolas primárias propriamente ditas, reservadas a filhos de civilizados principalmente, criando-se ainda nas povoações comerciais de maior vulto, escolas idênticas e para os mesmos efeitos se as circunstâncias o aconselharem. Disse ter visto e ouvido combater as escolas para os indígenas. Elas são porém veículos indispensáveis da nossa língua e civilização. O que falta é regulamentá-las e adaptá-las às necessidades da colónia. 
Disse ainda que não devemos exagerar o ensino, como fizeram os vizinhos franceses, que hoje estão em face de diplomados e inconformados para os quais não têm colocação nem solução depois de os desabituarem da agricultura. Devemos evitar a inclinação para os cargos públicos, pois é sabido que, tanto como os europeus, os indígenas africanos têm grande tendência para burocracia. Convirá sobretudo combater a convicção de que o simples exame de instrução primária é porta aberta para todos os referidos cargos, como sucedia na nossa Guiné ainda há anos, podendo citar-se, por exemplo, o caso de um indígena que apenas com o 2º grau, atingiu as elevadas funções de director interino dos Serviços de Fazenda da Colónia.»
Em resumo era: 
- ensinem-se a falar o português para que os entendamos e eles nos entendam para aquilo a que estão destinados - o trabalho agrícola; nada de irem mais além.
Seguidamente, também com preocupações no mesmo sentido, mas de outra índole, o Dr. Carlos Barral Moniz Tavares apresentou uma comunicação intitulada «Breves considerações sobre a protecção dos indígenas da colónia da Guiné», com estas conclusões: 
«As colónias não podem prescindir da mão-de-obra indígena. 
Para que dela se possa usufruir o maior proveito é necessário que as populações indígenas possuam boa capacidade para o trabalho e, portanto, se lhe proporcionem boas condições de higiene individual e geral. 
E indispensável, também, que encontre nos colonizadores um tratamento que lhes capte a confiança, bons exemplos morais e sociais, que se traduzirão incutindo-lhes respeito e obediência.»
Isto é:
- tratem-nos bem e ganhem-lhes a confiança para que eles tenham respeitinho pelo branco e sejam obedientes no trabalho.
E houve uma conclusão geral na mesma linha:
«A Guiné é uma colónia essencialmente de natureza agrícola, e, como tal, necessita de uma população nativa numerosa, pois é nela que se recrutará a indispensável mão-de-obra. 
Para que haja uma população indígena suficiente tem de se procurar atingir dois fins primordiais: diminuir a mortalidade e alimentar a natalidade.»
Queria-se dizer:
- tratem-lhes da saúde e ponham-nos a fazer filhos, senão não há quem trabalhe.

5 de novembro de 2011

294-Outros tempos...

Ia acesa a guerra entre ·os pretos de Antula e do Intim, ­ambos por. «balantas» das regiões vizinhas que tinham no emprego das armas a sua ocupação favorita. Bastava um motivo aparentemente fútil para os precipitar numa luta feroz e desapiedada que só conhecia tréguas quando os adversários já exaustos, apagada a sede de sangue, satisfeito o prazer mórbido da carnagem e do choque corpo­-a-corpo a revelar singulares atitudes de força e destreza, voltavam a pendurar as armas e se abandonavam novamente à preguiça duma vida descuidosa, Só desta maneira os «papéis» do Intim e de Antula sabiam retaliar agravos. Desta vez, porém, ninguém soubera ao certo como aquilo começara. Diziam os rumores chegados à Praça pela boca de um ou de outro indígena desembarcado das canoas varadas no lodo, empregadas na venda de água à população, que uma mulher fôra morta na presença do companheiro por rapazes ainda incircuncisos. Os brancos que habi­tavam a vila defendida pela muralha, reconstituindo a cena, imaginavam o preto que perdera a mulher, atónito e desvairado, varar os matos, o passo acelerado, tendo aos calcanhares os criminosos e nos ouvidos a algazarra da perseguição. Nem a fera traquejada por caçador se deslo­caria pela terra ardida do sol, semeada de obstáculos, com tamanha leveza e facilidade. Vencida a distância que o separava dos limites do território ocupado por gente do seu clan, o homem sentira novas energias a refres­car-lhe os músculos e, apressando o passo, lançara-se em louca correria como zagaia despedida das mãos robustas de um guerreiro. Não dera pelas aldeias nem pelos rostos curiosos que o interrogavam à sua passa­gem. Chegara esgotado à cubata do chefe e com voz sem timbre, a respiração anelante dominada pelas pulsações irregulares do coração, os lábios secos, joelhos dobrados a lembrar o corredor da Maratona, dera a notícia do crime em meia dúzia de palavras tão debilmente pronun­ciadas que só ouvidos habituados aos longos silêncios do mato as pode­riam compreender.
Do baluarte da «Balança» ao fortim Nosolini cabeças de curiosos contemplavam as cenas de sangue desenroladas em baixo. Eram espec­tadores mudos da tragédia algumas dezenas de homens de côr citrina. palúdica, que ocupavam o velho presídio fortificado batido pelo ar maIigno dos pântanps, e ali tinham por missão fazer respeitar a soberania portuguesa. Para além do paredão os pretos eram, porém, senhores abso­lutos dos matos e não conheciam outro rival que lhes disputasse com vantagem a posse da terra. Decidiam eles livremente as suas contendas e, na apetecida glória de terçar armas com os intrusos, no. orgulho da força, levados pelo desvario de suas paixões ocasionais, iam muitas ve­zes no destemor da morte reptar os brancos entrincheirados nos para­peitos de pedra gretada, altos de muitos palmos, velhos de duas centúrias.
O comandante da praça, homem enérgico e decidido, resolvera pôr fim às hostilidades que prometiam prolongar-se e eram causa de pertur­bações na vida de brancos e mestiços obrigados a consumir água corrom­pida desde que os nativos arrebatados pela vertigem dos ódios impediam às mulheres de descerem ao mercado estabelecido fora da cintura de pedra que estrangulava a vila. Um destacamento saíra da praça pelo portão do Pigiguiti. Compunham-no veteranos de guerras de África, gente disciplinada diferente da outra, da que em anos remotos havia sido re­tirada dos cárceres do reino ou colhida entre os vadios, em Cabo Verde. Eram portadores de um ideal elevado; iam levar a mensagem de paz àquela gente desavinda. Contudo, ambos os adversários receberam os portugueses como a inimigos. Uma surriada de espingardas de peder­neira deixou no terreno dois homens mortos e meia dúzia de feridos. Os soldados, refeitos da surpresa, galgaram ràpidamente em passo de carga a distância que os separava dos rebeldes. Segundo a ciência da guerra no sertão os nativos haviam entretanto desaparecido, tão ligeiros na re­tirada, tão subtis na fuga, que ao ouvido mais esperto não chegara o ruído da debandada para os recessos acolhedores do mato.
Foi quando Biagà fôra feito prisioneiro. Distanciava-se dos outros para visar melhor o inimigo comum. Uma dôr aguda obrigara-o a apoiar­-se numa árvore. Procurou andar e cambaleou. Tentou rastejar mas a ferida a sangrar enviscou-o à terra. Como ele odiava na virilidade do seu corpo moço aquela perna varada por uma bala! Ignorado dos com­panheiros ficara ali trabalhado de mil angústias como uma coisa inútil, farrapo humano que se esquece entre cadáveres, carnes retalhadas, troncos desfeitos, após a refrega. Conduzido à praça de guerra. curado como se fora um dos seus, havia sido julgado e deportado para urna ilha de onde habitualmente se não voltava.

Vinte anos tinham decorrido sobre estes tristes sucessos. Tristes para Biagà caído na luta e apartado por uma sentença de tudo quanto em moço enternecera sua alma de guerreiro. O vapor lançara ferro no porto de águas sujas, pontilhadas de dongos dóceis à remada, e de barcos à vela que se aprestavam para a largada fariscando ventos que não vinham. Os olhos ensaudados de Biagà saltitavam com volubilidade de um por­menor para outro da paisagem, alongavam-se até à cortina de árvores que barravam os horizontes, para regressarem ao amontoado de casas onde giro-girava o formigueiro humano. Quando desceu em terra cres­ceu nele, de rebate, desejos de abaixar-se para lhe tocar com a fronte, senti-la com volúpia na mão, acariciá-Ia entre a palma àspera e os dedos rudes do trabalho ingrato e duro das roças como coisa há longo tempo cobiçada. Não sabia exprimir de outro modo esse desejo torturante que o acompanhara no degredo, desejo invencível de regressar.
Biagà saltou, alongou o passo pelas ruas ruidosas e trepidantes da cidade e viu, pasmado, homens de sua raça com fardos à cabeça, em­purrando carros, executando trabalhos vis. Mas onde crescera o seu assombro fôra ali, a cem passos da antiga fonte, no sítio em que nascia a antiga vila. A muralha já lá não estava, nem tampouco o fortim que outrora lhes barrava o passo com o uivar mortífero de suas bocas de fogo. Tinha sido ali Bissau-a-paludosa, boa estação que fora para o res­gate de escravos, covil de negreiros mestres na arte de quartejar.
Em vez de soldados via gente pacífica, um estranho carnaval de tipos e cores entregues a duros misteres; em vez de árvores gigantes, do céle­bre «Poilão de guerra» em cuja base os homens de armas antes da luta iam depor oferendas votivas, havia prédios altos, sobradados, lojas de vitrinas aliciantes, cheias de tudo quanto um bom preto pode cobiçar; e ali adiante em lugar do carreiro abafado pela erva alta, embaraçado pelo arvoredo, seguia a estrada de bom piso por matos antes inacessíveis. O antigo guerreiro, pungido de curiosidade, confessou para consigo o es­panto que o deixara boquiaberto e lhe dera o ar infeliz e acanhado de quem se sente despaísado.
Meteu pés a caminho, cruzou com gente da mesma tribo que fazia reparo no seu trajo, e ao longe distinguiu novos aldeamentos desconhe­cidos de seus olhos. Depois de se orientar afoitou-se por um atalho, cobriu alguns quilómetros e foi sair numa clareira em que vinte anos atrás erguera a palhota. Dali tinham desertado a mulher e o filho. Para onde? Acercou-se de uma «tagarra», observou-lhe os ramos cimeiros, e em seguida tocou-lhe o tronco com os dedos trémulos, afagou-lhe a casca rugosa com uma espécie de carícia, foi como se tivesse encontrado uma velha amizade, porque Biagà reconhecera pela árvore o local por ele es­colhido para construir a palhota quando recebera a primeira mulher. Cansado, sentou-se. De olhos no vago, prazido nas relembranças, as imagens que lhe eram queridas perpassaram-lhe pela retina. Estava sa­ciada a sede de regresso e extinta a dúvida que lhe trouxera a alma doente, pois sempre temera morrer longe, ser seputado em terra estranha sem o ritual fúnebre devido a um homem de sua condição.
A noite caíra há muito quando o ex-degredado se levantou. Vendo uma luz ao longe endireitou para lá o passo.
-Quem és tu?
Ouvida a resposta dada na mesma língua as feições do outro distenderam-se, e foi com uma palavra amigável que lhe ofereceu de comer.
         - Lembras-te de Biagá?
Os olhos do interpelado cresceram com pasmo visível.
        - Sou eu. Como vês, estou de volta.
O outro não respondeu todo entregue ao sabor da inesperada reve­lação.
- Dize-me para onde foram minha mulher e o filho. Sim, a Nhin­timo  Recordas-te dela? Não havia por aí corpo mais bem feito nem seios mais rijos ...
- Se me lembro! exclamou ele fazendo que sim com os lábios re­puxados para diante e com a cabeça de cabelos já grisalhos.
Ficou um momento ensimesmado. Depois acendeu o cachimbo, deu algumas fumaças e passou-o ao hóspede.
- Depois da guerra com os de Antcla em que perdemos muitos ho­mens, as aldeias deste lado do rio foram atacadas e muita gente levada como refém. Entre ela ia a Nhintimo e o teu filho. Nunca mais se soube o que deles fizeram os outros.
Tomou novamente o cachimbo da mão do recém-chegado e depois de espertar o lume, segredou-lhe como um desabafo:
        - Era a lei da guerra, Biagá!
O homem qce trabalhara nas roças ouviu-o e ficou calado a reflectir.
       - Não há maneira de comprar bom tabaco. Por lá havia melhor…, Biagá fez um gesto vago
Na manhã seguinte, quando o outro apareceu embrulhando a nudez numa manta vermelha encontrou Biagá a afiar cuidadosamente a lâmina de uma espada que encontrara pendurada na palhota. Ficou a observá-lo com curiosidade, um sorriso nos lábios ao reconhecer que ninguém o faria com melhor jeito. Estava ali um guerreiro dos bons tempos das razias. Só quando Biagá passou um dos dedos pelo fio e correu o olhar ao longo da lâmina é que ele o interpelou.
- Que estás fazendo?
- Vou matá-lo. Hei-de perguntar, saber quem ma levou. Queres vir comigo?
O outro pareceu a princípio não compreender. Quando atentou, po­rém, no trajo de Biagá é que se recordou estar na presença de um homem que fora apartado daquela terra, que despira a camisa, experimentara os músculos do braço, firmara-se nos jarretes como um corredor que parte para uma prova de velocidade. Em seguida lançara um grito de guerra, despedira em carreira veloz pelo mato e, ao acercar-se da pri­meira árvore, saltou para cortar de um golpe rápido, que fez relampejar a lâmina, o ramo que lhe parecera mais robusto. Dentro de si acordara subitamente o selvagem abrasado em febre de desforra. Haviam-se ma­nifestado deste jeito todos os complexos psicológicos que lhe faziam o carácter.
- Bom braço tens ainda, Biagá!
- Vou partir, disse este com naturalidade.
- Não. Senta-te e escuta.
- ??
- Senta-te, repetiu o outro com energia. Vê-se bem que desconheces a nossa vida. Tudo isso já passou. Que seria de ti, de mim, de todos nós se tal fizesses! Vinganças, correrias pelos matos para presar haveres dos fracos, lutar por um arrozal ou por uma mulher de lindos peitos, boa para ter filhos, são hoje histórias que se ouvem à luz das fogueiras. Agora é o branco quem decide tudo, Biagá. Os tempos mudaram. Se quiseres reaver a mulher e o filho terás de ir ao Comando apresentar a queixa. De contrário voltarás a essa terra para onde te mandaram. Ouviste? A nós, homens de outras idades, só nos resta a fogueira para aquecer o reumatismo e as lembranças.

E, ante o espanto do outro, acrescentou:
 - Tem paciência. Dá cá a espada.

Fausto Duarte





3 de novembro de 2011

293-Mudança de nomes de Canchungo e Gabu

Mudança de nomes de Canchungo e Gabu
para Teixeira Pinto e Nova Lamego, respectivamente

Foi desta maneira:

«Tendo ficado decidido na primeira Conferência dos Administradores do ano de 1947 [ver em baixo quem era este “povo” que tomou a decisão], encarar a substituição de alguns nomes geográficos que não têm significado, nem tradição ou história que os consagre ou recomende;
Tendo sido nessa mesma reunião sugerido o nome de «Teixeira Pinto» como adequado para a povoação de Canchungo, porque assim se prestaria uma justa home-nagem à memória de quem, com inexcedível dedicação, inquebrantável coragem e fé patriótica, tanto contribuiu para a definitiva pacificação da Guiné e da Circunscrição em especial;
Atendendo a que, em consequência de tal decisão, o administrador da Circunscrição Civil de Cacheu ouviu os moradores de Canchungo os quais com entusiasmo aprovaram a substituicâo daquele nome pelo de «Teixeira Pinto» ;
[Com entusiasmo encararam, depois da independência, o regresso ao nome original e secular de Canchungo. Não será que o que o administrador viu foi um abanar de cabeça de assentimento resignado de alguns chefes manjacos?...
Zona de Canchungo em 1947, segundo António Carreira, "Vida Social dos Manjacos"
]
Considerando que será também oportuno fixar definitivamente naquela vila a sede da Circunscrição de Cacheu;
O Governador, etc., determina :
Art.º 1.º - Que passe a denominar-se «Teixeira Pinto» a actual vila de Canchungo ;
Art.º 2.º - Que a sede da Circunscrição Civil de Cacheu seja definitivamente fixada em «Teixeira Pintos ;
Art.º 3.º - Que os serviços público, alterem, desde Já, todos os impressos, selos e registos e procedam às demais formalidades necessárias;
Art.º 4º" - Que as autoridades administrativas e especialmente o Serviço dos Correios, Telégrafos e Telefones promovam, por todos os meio, a informacâo do público, tanto do interior como do exterior da Colónia.
«Não se justificando a existência de alguns nomes geográficos, actualmente em uso na Guiné, por não terem tradições ou outras razões que os recomendem;
Sendo assim necessário restaurar designações que, tendo sido dadas por navegadores, guerreiros ou colonos portugueses, caíram em desuso, quer por falta de espírito e de verdadeira compreensão quer por [alta de continuidade nos meios de divulgação;
Verificando-se que a sede da Circunscrição Civil de Gabú – nome já de si deturpado e que de resto nada significa [A cidade foi o centro do antigo reino mandinga de Gabu até que este fosse sobrepujado pelo reino vizinho de Fouta Djallon, no século XIX. Gabu, é assim, o núcleo do que viria a ser mais tarde a república de Guiné-Bissaun - Wikipedia] - foi primeiramente nomeada pelo administrador de então, Tenente de Infantaria Adolfo de Jesus Leopoldo, Vila Lamego;
Considerando que o nome de Vila Gabú Sara, dado posteriormente à actual sede da Circunscrição, é completamente estranho à nossa acção colonizadora;
Considerando o que a este Governo propôs o adrninistrador da Circunscrição Civil de Gabú;
O Governador, etc…, determina :
Arl.º 1.º - Que passe a designar-se «Nova Lamego» a actual sede da Circunscrição Civil de Gabú;
Art.º 2.º - Que os serviços públicos alterem, desde já, todos os impressos, selos e registos e procedam às demais formalidades necessárias ;
Art.º 3.° - Que as autoridades administrativas e especialmenteos Serviços dos Correios, Telégrafos e Telefones promovam, por todos às meios, a informação do público, tanto do interior como do exterior da Calúnia.
Cumpra-se.
Residência do Governo da Colónia da Guiné, em Bissau, 18 de Junho de 1948;.
O Governador, M. M. Sarmento Rodrigues, Capitão de Fragata».





Participantes na primeira Conferência dos Administradores do ano de 1947 (3 de Junho):

«Presidiu o Governador da Colónia, Capitão de Fragata Manuel Maria Sarmento Rodrigues, ladeado pelo Reverendo Padre José Maria da Cruz, Vigário Delegado substituindo o Prefeito Apostólico, D. José Ribeiro de Magalhães, em viagem para Lisboa, e pelo Chefe da Repartição Central dos Serviços de Administração Civil, Doutor António Francisco Borja Santos.
Assistiram à reunião :
Capitão António Joaquim Correia, substituto do Juiz da Comarca, Doutor Honó¬rio José Barbosa, em serviço em Cabo Verde, e Comandante do Corpo de Polícia de Segurança Pública; Capitão João das Dores Nunes Palrão, substituindo o Comandante Militar da Colónia, Major Pedro Menezes da Cunha Pinto Cardoso, ausente em Bolama, e Chefe da Repartição Militar; Doutor Alvaro Rodrigues da Silva Tavares, Delegado do Procurador da Repúhlica; Chefe da Repartição Central dos Serviços Aduaneiros, Caetano Filomeno de Sá; Chefe da Repartição Central dos Serviços Geográficos e Cadastrais, Eduardo José de Pereira da Silva; Chefe da Repartição Técnica dos Serviços Agrícolas e Florestais, Engenheiro José Soares; Chefe de1 Repartição Técnica dos Serviços de Veterinária e Indústria Animal, Doutor João Leal da Silva Tendeiro; Chefe da Repartição Técnica dos Serviços de Obras Públicas e Minas, Enge¬nheiro Bernardo de Sá Nogueira; Chefe da Repartição Central dos Serviços de Correios, Telégrafos e Telefones, Engenheiro Manuel A. Vieira e Sousa; Chefe da Repartição Central dos Serviços de Fazenda e Contabilidade, Vicente António Martins; Subdirector dos Serviços de Fazenda e Contabilidade, Alfredo António José de Melo; Chefe da Secção de Estatística, Doutor Aguinaldo Carvalho Veiga; Autúnio da Cruz Vieira, Vogal do Conselho do Governo; Abel Ferreira da Costa, Vogal do Conselho do Governo ; Mário Lima Wahnon, Vogal do Conselho do Governo; Virgolino José Pimenta, Gerente do Banco Nacional Ultramarino; e Engenheiro Raúl Pires Ferreira Chaves, Presidente da Direcção da Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Bissau; Francisco Artur Mendes, Administrador do Concelho de Bissau; Augusto do Sacramento Monteiro, Administrador da Circunscrição Civil de Farim; Marcelino Mendes ~foreira, Administrador da Circunscrição Civil de Fulacunda; Luís Correia Garcia, Administrador da Circunscrição Civil de Gabú; Fernando Rodrigo Rogado Quintino, Administrador da Circunscrição Civil de Mansôa ; Carlos Caetano Roque António Francisco das Angústias e Costa, Administrador da Circunscrição Civil de Bafatá; Paulo José Pereira Guimarães, Administrador do Concelho de Bolama ; Nicolau Tolentino Lopes da Cruz, Administrador, interino; Amadeu Inácio Pereira Nogueira, Administrador da Circunscrição Civil de S. Domingos, interino; James Pinto Buli, Administrador, interino; Joaquim Moreira, Encarregado da Administração da Circunscrição Civil de Cacheu, na ausência do respectivo Administrador António Barbosa Carreira, em gozo de licença graciosa especial; Francisco José Júlio Mário da Costa Mousinho; Chefe do Posto, interino, de Begene, Manuel da Silva Caetano Lopes dos Santos; Chefe do Posto de Binar, José dos Santos Ribeiro e Silva; Chefe do Posto, interino, de Biombo, Francisco Grandão; Chefe do Posto, interino, de Bissorã, Eugénio da Silva Levy; Chefe do Posto de Buba, Ademar Rodrigues dos Santos; Chefe do Posto, interino, de Cacheu, João Bernardo Viana; Chefe do Posto, interino, de Cacine, António Baptista Morais Trigo; Chefe do Posto, interino, de Caió, Artur Martins de Meireles; Chefe do Posto de Calequisse, Joaquim Estêvão dos Reis; Chefe do Posto de Chitole, Horácio Rodrigues da Graça Fernandes; Chefe do Posto, interino, de Cubisseque, Eusébio Estêvão Vieira; Chefe do Posto de S. João, Augusto Quintino de Almeida Cabrita; Chefe do Posto de Mansabâ, Francisco da Costa Gaspar; Chefe do Posto de Nhacra, António Vicente de Matos Ruas; Chefe do Posto, interino, de Porto Gole, Armando Larcher de Andrade Castelo Branco e Ovídio; Chefe do Posto de Prábis, João Faria Leitão; Chefe do Posto de Safim, João Eleutério Conduto; Chefe do Posto, interino, de Sedengal, Antero da Costa Taveira; Chefe do Posto de Sonaco, António George Cristovam de Sousa Franklim , Chefe do Posto, interino, de Suzana, António da Cunha Taborda; Chefe do Posto de Tite, Jorge Pinto da Silva; Chefe do Posto, interino, de Uno, Adolfo Gomes Ramos; Aspirante Jorge Wahnon Júnior, Encarregado do Posto de Pirada; Aspirante Cândido Gomes Lopes, Encarregado do Posto de Bula, por virtude de se encontrar a prestar serviço na Sede o Chefe do Posto, estagiário, José Júlio Costa de Araújo.»




Este “povo” decidiu e o de Canchungo, dizem então, aplaudiu. O de Gabú não dizem como se comportou.

31 de outubro de 2011

290-Éramos bandos dentro do arame farpado...

...e não fazíamos nada, apenas à espera que nos viessem atacar. Na altura comentei esta infeliz (e ofensiva) opinião noutro local (aqui), mas vou repetir o que disse, porque eu, que fui um elemento desses "bandos" com várias operações, patrulhamentos e emboscadas no pelo, muitos dias e noites nas matas da Guiné, ferido em combate e com meses no hospital da Estrela, não me posso esquecer dessas palavras, continuam a magoar-me, tanto mais que não tenho conhecimento de alguma re...consideração de quem as proferiu:
O senhor General Almeida Bruno, referindo-se aos combatentes na Guiné, disse que: “…a maioria esmagadora eram bandos que estavam atrás do arame farpado à espera que o inimigo atacasse para se defenderem… havia muito pouca iniciativa”, põe como excepção os pára-quedistas e os fuzileiros (admiro-me que não fale nos comandos…). Parece-me que se trata de uma manifestação de sobranceria estilosa e de menosprezo da actividade, dos problemas e sacrifícios dos que estavam obrigados aos dispositivos táctico-estratégicos determinados não por eles mas por quem dirigia a guerra, quer para gestão de quadrículas quer para ocupação de pontos considerados importantes para manobras operacionais ou para enquadramento de populações. Esta declaração entristece-me vindo de quem vem, sabendo eu o que sei, apesar de estar longe de ser alguma sumidade na arte da guerra, o que não é o caso do senhor General. É só pelo que vi e vivi, e também tenho lido.
Segundo os dados que colhi das publicações da CECA, 1.276 é o total de elementos que constituem o “bando”, então, dos mortos em combate na Guiné, não estando neste número, é claro, nem os fuzileiros nem os pára-quedistas (aos quais manifesto o meu respeito e admiração), que também lá tiveram mortos.
Uma “limpeza” que a guerrilha fez atrás dos nossos arames farpados?… Eu “vi” que não foi assim.
A primeira companhia em que estive (CART1690) teve 10 mortos em combate, na zona do Oio: 3 soldados e 1 alferes em ataques à base do PAIGC em Sinchã Jobel; 1 soldado e 1 capitão em deslocação entre destacamentos da companhia; 2 soldados, 1 furriel e 1 alferes em ataques do PAIGC a destacamentos nossos. Foram também evacuados para o HMP de Lisboa, por ferimentos em combate, 2 alferes (1 num deslocamento entre destacamentos, 1 numa operação) e 3 soldados (em operações).
Quanto à outra por onde passei, de guineenses do recrutamento local (não era tropa especial): enquanto foi 1.ª CCAÇ, teve 7 mortos em combate, quando andou por Bissorã, Talicó, Bedanda, mata de Cudana, Sambuiá…; depois de se transformar em CCAÇ3, teve 15 mortos em combate, sendo 3 em ataques do PAIGC a Barro, 3 em ataques do PAIGC a Guidage (onde teve elementos destacados) e os restantes em operações ou emboscadas (Sano, Sambuiá, Canja...).
Quanto à “muito pouca iniciativa”:
À CART1690, quando chegou à Guiné, foi-lhe dada a responsabilidade de uma quadrícula de 1600km2, na mata do Oio. Nessa quadrícula tinha, inicialmente, quatro destacamentos: Geba (onde era a sede da companhia), Camamudo, Cantacunda e Banjara (estes dois a cerca de 40km de Geba). Depois constituiu mais um destacamento em Sare Banda. A companhia foi, pois, desmembrada desta maneira… por “iniciativa” dos altos comandos da guerra.
Mesmo assim:
- forças suas participaram em 61 operações com nome de código, 12 destas com PCV;
- forças suas realizaram 1561 patrulhamentos, 36 emboscadas e 442 outras acções
Quanto à CCAÇ3 não tenho dados numéricos, mas, da minha experiência pessoal, garanto, senhor General, que os pelotões desta companhia realizaram inúmeras emboscadas e patrulhamentos na fronteira com o Senegal, nas zonas de Sano e Canja, e participaram em várias operações em Sambuiá.
O que diz o senhor General é a “sua” verdade, com muita coisa em falta, que, pelos vistos, desconheceu (embora me custe a crer…). Vou dar outros dados que constituíram a verdade dos “bandos” que estavam atrás do arame farpado:
- da CART1690 houve 15 elementos que foram evacuados para o HMP de Lisboa por motivo de doença
- e dois exemplos de uma das razões disso: o destacamento de Banjara esteve, em certa altura, com dois meses sem abastecimentos, tendo os seus ocupantes que se desenrascar comendo macacos e cobras; quanto à água, porque só havia fora do arame farpado, estabeleceu-se tacitamente uma escala: num dia iam os do PAIGC da zona e noutro dia iam os nossos buscá-la; em Barro, quando as barcaças demoravam muito tempo a trazer-nos os abastecimentos pelo Cacheu, tínhamos de ir “caçar” as vacas que o PAIGC tentava levar do Senegal para o Oio – era uma forma de poder comer de jeito.
As condições que tínhamos no arame farpado não eram as mesmas, naturalmente, do que as que tinha quem estava em Bissau. Até das coisas mais comezinhas tínhamos, muitas vezes, que nos privar. Eu, por exemplo, que sempre fui um fanático por óculos escuros “rayban”, nunca os pude usar. É que, quando no arame farpado, eram topados ao longe e, quando em emboscadas, patrulhamentos ou operações, seria logo referenciado. É claro que não me interessava ser um alvo privilegiado.
Parece-me que, num programa com a projecção de “A Guerra” não foram nada cuidadas as declarações do senhor General, mesmo que delas esteja (mal) convencido. Os que estão a leste do que foi a guerra pensaram mal de nós, os ex-combatentes, alguns terão mesmo pensado que andámos lá a passar férias. Os que querem conhecer o que ela foi ficaram mal informados, induzidos em erro. Para nós raiou a ofensa.
E vou, agora, acrescentar mais alguns dados:
À CART1690 foi atribuída esta quadrícula (os tais 1.600km2 na mata do Oio, não por decisão do capitão do "bando" mas sim pelos altos comados, como disse)
Foi assim disperso o "bando", com uma base do PAIGC a meio (Sinchã Jobel), nunca destruída (Jigajoga, Jigajoga2, Jacaré, Imparável, Invisível) e outra a norte (Samba Culo), destruída uma vez (Inquietar I e Inquietar II) , mas, evidentemente, reconstruída (Cantacunda). O "bando" esperava ataques (quem não esperava?...) e tiveram-nos (Banjara, Cantacunda, Sare Ganá, Sare Banda). 



Mas, contrariamente ao que diz o senhor general, também saíu do arame farpado:
E dava nisto:
Não é justo dizer que este "bando" não fez nada. Os que morreram não foi de saudades. Os que foram feitos prisioneiros não foi para passar férias em Conakry.


30 de outubro de 2011

289-O Choro de Mosongo

 ENQUILlM - pequeno tambor feito em madeira da terra - em ritmo convencional, ouvia-se à distância, a transmitir aconteci­mento raro.
A notícia, veloz como o vento, ultrapassara matas e campa das, rios e bolanhas e chegar-a a lugarejos recônditos de palhotas anichadas entre matas exuberantes, a anunciar a morte de Monsongo.
Balantas folgazões, entretidos com as lavras, ora cantando, ora soltando gargalhadas trocistas, misturadas de pilhérias maliciosas, acusam-se mutuamente de estranhas aventuras - furtos de mulheres e de vacas - façanhas cheias de riscos por estarem sujeitos a serem apanhados de surpresa.
 distância, para as bandas do palmar, situa-se a «lagoa grande~, éden de caça plumosa, refúgio dos mais variados espécimes, onde centenas ou talvez milhares da patos marrecos, patos ferrões, águias pesqueiras, corvos marinhos e pica-peixes malhados vivem entre alismas amarelejadas. Era local seguro, desde que intrépidos caçadores, como o Barbosa da Imprensa ou o cabo Machado, não se lembrassem de entrar na bolanha, por vezes em manhãs de céu plúmbeo, chuvosas e frias, com água pelo peito! Nessas manhãs era o fim. Sempre que a lala silenciosa, ao romper da alva, acordasse em sobressaltos, na «lagoa grande: matança extraordinária era facto consumado. Quatro tiros apenas ... e a caçada - a grande caçada daquele domingo - redundara em pleno êxito. Horas depois. em Jabadá, o Pires do Jamíl, homem alegre e bom porque era justo, recebia sorridente a remessa dos saborosos palmípedes, carne excelente para a famosa «cafrialada», pitéu ainda hoje preferido pelo branco que vive no mato.
Lavradores balantas, com arados primitivos, continuavam a reta­lhar a terra ensopada da bolanha imensa, que se estendia até à barreira amarela esverdeada de mangais e de tarrafe, que ao longe definia o limite das águas na preia-mar, Os balantas trabalhavam com ânimo, porque anteviam aquelas terras esplêndidas num futuro próximo apinha­das de gramíneas dobradas com o precioso arroz jambarã, o mais produtivo da região. Mais além, outro grupo de balantas, de troncos luzidios de suor que, afoitamente, lavravam a terra, abandonaram os arados e regressaram a Bicílão, onde há momentos se dera o passamento do lavrador mais respeitável daquele chão de balantas.
Por seu turno, parentes e amigos do finado, entretidos com traba­lhos agrícolas, ao ouvirem o enquilim transmitir a notícia, deixaram os campos, e, quase em ar festivo, regressaram às moranças, prepa­rando-se para o grande choro que durante dias iria alterar a vida monótona daquela gente aborígene tão simples como feliz.
Mulheres novas, até uma ou outra seresma, enquanto se adere­çavam com colares, búzios, mandilhas e panos coloridos, não ocultavam o júbilo que as dominava por irem assistir a um choro grande, talvez o mais famoso de todos os tempos daquela região, devido à importância da pessoa do falecido. :É: que, em cerimónias idênticas, jamais faltara a presença de jovens circuncidados e, desta vez, em maior número, porque a morte de Monsongo coincidira com o termo das festas do Fanado. O Fanado (circuncisão) sempre fora rito de grande trans­cendência na vida do balanta, porque a partir daí é tido como adulto e, como tal, autorizado a manter relações com mulheres.
Por esse motivo, a presença de mulheres mais ou menos crapulosas da tribo seria maior, até porque constitui gesto de honra o facto de serem possuídas por «homens em primeira mão».
Monsongo era o homem mais velho daquele chão. A sua morte era aguardada de um dia para outro. A atestar a sua longevidade estava a cor amarelecida dos seus cabelos e das barbichas mal cuidadas. Entretanto o simpático ancião possuía uma lucidez perfeita. Retinha na memória vários episódios das lutas do passado e recordava os tempos de quando as tribos se guerreavam sem tréguas, em guerras sanguinolentas, que só terminavam quando as tropas do Governo intervinham. Foi o que sucedeu, vezes sem conta, nos primórdios da ocupação...
Monsonqo, de quando em quando, rememorava feitos e passagens distantes, com a rara habilidade que sempre caracterizara os grandes das tribos da Guiné, apalermando, com relativa facilidade, novos e velhos que o escutavam boquiabertos.
duas luas, talvez nem tanto, debaixo da figueira brava, ao fundo do terreiro, em noite morna e luarenta, conseguira prender, durante horas, numeroso auditório, com várias narrativas de guerras do passado. Entre elas. não se cansava de enaltecer a figura de um bravo militar, preclaro, que veio de Lisboa submeter os que se haviam rebelado contra o Governo, só porque era possuidor das mezinhas e guardas de corpo mais raras e poderosas de todo o imenso chão afrí­cano. «Se o quereis conhecer - dizia Monsongo - olhai para as notas do banco onde o seu rosto se mantém, como aviso permanente tanto para os que têm muito dinheiro como para os que têm pouco».
O respeitável ancião contara outra história verídica, relacionada com a maneira como se havia tornado o mais abastado lavrador da região.
- Certo dia - contava Monsongo - aportara em Bolama um barco de guerra que trazia a bordo vários deportados. Entre outros, destaca­vam-se dois homens de tipo estranho. Tinham os olhos em forma de amêndoa e os rostos lívidos, como se viessem acometidos da malária. Falavam, porém, a língua do branco. Um deles, o mais velho, chama­va-se Alassane. O nome do outro fugira-me da memória. Vieram dos lados donde o Sol nasce, do outro lado do mar, das terras de Macau. Não teriam feito acção digna, para serem deportados para tão longe.
Para o Balanta, tão destemido, que prima em desafiar o perigo, seria morte certa. O Balanta, na realidade, é destemido e valente; morre no entanto como um passarinho, quando arrancado ao seu chão, e sabe que jamais voltará.
Entretanto - prosseguira Monsongo - em boa hora os dois infelizes vieram para o Tombali. O crime que praticaram ninguém o soube ao certo. Para nós, foram humanos, justos e atê generosos. Com todo o carinho ensinaram-nos a cultivar o arroz, dado que as nossas bolanhas eram pouco produtivas. Depois da sua vinda, a produção redobrou, e foi ainda Alassane que nos ensinou a cultivar bolanhas profundas. Se hoje sou o maior lavrador das terras de Títe, como oiço dizer, devo-o incontestavelmente aos dois coitados que, mau grado seu, vieram aqui encontrar a morte, roídos de saudades das gentes e das terras longínquas, vítimas da fatídica malária.
Nos últimos dias. o chefe balanta sentira-se alquebrado e triste. Tristeza diferente. Talvez a mais lúgubre de toda a sua vida. As forças desapareciam-lhe dia após dia. E enquanto, durante a noite, o corpo se lhe cobria de suor gelado, o peito arquejante abrasava. Por fim, ficara acusmático. Das muitas vozes imaginárias que pela noite fora ouvia, as que mais o atemorizavam era a voz do Irã, ali a dois passos da palhota. Mesmo assim, nunca se arrabujara. Sabia sofrer com resignação.
Certo dia, à tardinha, olhara o Sol toldado por nuvens de fumo que, em forma de grande bola de cristal cor-de-rosa alaranjada, mer­gulhara, quase de repente, na floresta densa. Sentira estranho alívio percorrer-lhe o corpo com a brisa vinda do mar, agitando suavemente as folhas das mangueiras. Animado pelo inesperado sopro de vida, empunhara o inseparável bordão, levando na outra mão trémula uma garrafa com aguardente de cana, segura por um cordel. Ia consultar o Irã, oculto entre poílões e calabaceiras.
A demora fora curta. De regresso parecia feliz. Sim, porque o Irã, senhor absoluto do destino das gentes, havia ditado a última sentença. Monsongo sabia que, no dia seguinte, ao cair da tarde, ia morrer. Sabia-o perfeitamente. Não tinha a menor dúvida!
Com enorme sacrifício conseguira chegar à palhota. Deitara-se mas não dormira. O cachorro malhado, que dava pelo nome de anquinanquê, nome que em balanta significa «se soubesse não vinha cá», ganiu baixinho e enrolou-se pegado ao canapé. Ao romper da aurora, Mon­songo quis erguer-se, mas não teve forças. Sentira arrepios de frio. Um frio horrível. Ainda assim, num esforço supremo, conseguira arras­tar-se até à porta da palhota e lançou o último olhar pelas mangueiras floridas, que, há décadas, havia plantado com mil cuidados na sua campada.
Sentara-se em tronco corroído. Mandara reunir a família (onze mulheres, trinta e seis filhos de ambos os sexos e uma infinidade de netos, que jamais soubera distinguir). O filho dilecto era Irmna, por ter herdado de Monsongo os dotes que em novo, ainda blufo, o haviam feito famoso: ladrão valente, lutador invicto e folgazão como não havia nas redondezas. Além disso, Irmna tinha servido durante três anos, como soldado atirador, na Guarnição Militar de Bolama. Fora impedido do Comandante da Companhia e no Quartel aprendera a falar, a ler e a escrever razoavelmente. Ao regressar à tabanca, Irmna não sentia muita atracção pela vida do mato. Tinha saudades do Quartel, da Instrução de ginástica e na luta corpo a corpo, em que se tornara famoso. O velho lavrador não se fartava de o mimar. Revia-o constan­temente de alto a baixo. Monsongo admirava os brancos do Quartel que lhe haviam modificado o filho.
Das mulheres, a mais jovem e mais prendada era Enramne. Viera de Encheia, mas havia sido criada em casa de chefe de Posto. Primeiro em Binar e depois em Encheia. O Chefe de Posto com a família regressara a Lisboa. Enramne regressou a Enquida. O Chefe de Posto quisera levá-Ia, mas o pai não autorizou. Enramne quis fugir, mas fora ameaçada com o Irã. Enramne não podia ir para Lisboa, porque havia sido prometida ao cipaio da Administração de Mansoa, Pigna Cul, o qual, pouco depois, encontrara a morte numa desordem em Olossato. Em seguida, fora cedida a Monsongo por preço exorbí­tante em dinheiro, cana e vacas. Enramne era realmente linda. Não tinha dentes limados. Em princípio, na tabanca, vestia como menina branca, mas as colegas troçavam dela. Nos primeiros tempos, em Enquída, levara uma vida degradante por não se conformar com a sua desdita. Chorou muito. As lágrimas haviam levado do seu rosto meigo e alegre os últimos sinais de beleza. De quando em quando, sonhara com Lisboa. Lisboa era terra de sonhos, assim dizia a Senhora do Chefe de Posto, e Enramne sonhara com Lisboa, mas uma Lisboa diferente. O Irã implacável tolhera-lhe o caminho! Enramne bem sabia que não tinha sido o Irã que a impedira de ir a Lisboa. Mas de igual modo sabia que o Balanta e o Irã caminham lado a lado. O Balanta sem Irã deixaria de existir por não ter quem lhe guiasse os passos.
      Enramne fora finalmente para Bicilão. Era mulher de Monsongo. Ele com oitenta anos. e ela com dezoito! Monsongo recebera-a com alegria. Mais uma peça de trabalho... E desta vez valiosa, porque Enramne era nova e saudável. Enramne, em Bícílão, passara os dias mais tristes da sua existência. Chorara dias seguidos. Desconhecia, porém, que, na tabanca, havia alguém que sofria imenso ao vê-la sofrer. Sofria em silêncio, mas pouco a pouco fora-se abeirando da infeliz. Irmna falava-lhe sempre em «crioulo» a Incutír-lhe ânimo e esperança. Os balantas de Bícílão não compreendiam «crioulo», pelo que de nada se aperceberam. Os dias foram passando e os diálogos entre Irmna e Enramne tornaram-se mais amistosos e íntimos. Irmna falara-lhe muitas vezes do quartel de Bolama, e Enramne da casa do Chefe de Posto, onde a Senhora branca a ensinara a fazer trabalhos domésticos «muíto giros». Assim, entre a bolanha e a floresta, Enramne deixara de chorar enquanto a alegria e a beleza iam retomando lugar no seu rosto meigo e bronzeado. O jovem par compreendera então que o longo convívio com os brancos lhes mudara o destino. Não era o mato o seu lugar, porque um mundo novo os chamava. Não sabiam ainda definir bem esse mundo, mas devia relacionar-se com uma palavra mágica que retinham na memória, a qual haviam aprendido, ele no Quartel e ela em Encheia: Civilização!
Monsongo tinha enorme vaidade na mulher e no filho. Por vezes confundia-os. A amizade que tinha por Enramne era bem diferente da que tivera pelas outras mulheres. Realmente Monsongo gostava imenso de Enramne, mas ... ele tinha oitenta anos e ela dezoito!
Irmna vivia preocupado. Sabia que havia procedido mal e tinha remorsos. Não devia ter praticado aquele acto indigno, porque o pai era seu amigo. Mas Monsongo fora o único culpado em ter desposado uma jovem encantadora com dezoito anos de idade. Irmna tinha vinte e um. Entretanto, enquanto os dias se passavam monótonos e iguals, Enramne mais se deixara prender de amores por Irmna. E, neste comenos, Enramne estava grávida. Monsongo não o duvidara. Sabia até quem tinha sido o autor daquele acto menos digno, mas preferira o silêncio. Pelo sim e pelo não, um dia, quando Enramne vinha da fonte, chamou-a a sós e suplicou-lhe comovido:
- Enramne, quando parires, se o teu filho for «macho», gostaria que tivesse o nome de Irmna, por ser o nome do meu filho mais novo. E porque não o nome do pai do meu último filho?! - concluiu irado.
Monsongo, quando se viu rodeado pelos que o haviam ajudado a vencer na vida, fora dominado por forte emoção. Levaram-no para o canapé no interior da palhota. Pouco depois, mais calmo, com um sorriso indefinido a acentuar-se-lhe nos lábios gretados pela febre, aguardava sereno que se quebrasse o ténue fio que o prendia à vida. Ainda assim, conseguira sorrir por instantes. Sorrira, ao notar a pre sença de um raíozínho de sol que, furtivamente, penetrara por abertura do capim que cobria a palhota, como se enviado dos céus para lhe iluminar o rosto sereno, nos últimos alentos de uma vida despreocupada e feliz.
Monsongo deixara de sorrir. Fizera sinal com a mão para que se aproximassem. Com visível dificuldade, entre convulsões e soluços, conseguira balbuciar de modo impressionante:
- Dentro de instantes serei cadáver. Não quero lágrimas nem lamentações. Uma coisa, porém, vos peço. É a minha última vontade. Pretendo um choro como jamais se vira neste chão. As trinta e duas vacas da laia do Enxudé são para abater. No cerco da tagarra grande temos arroz limpo que chega para mais de cem pessoas durante uma semana. Debaixo do cerco da mancarra tenho escondidos dez tambores com aguardente de cana, com duzentos litros cada. Se não chegar, adiante, pa... ra os la... dos. .. do ... vídum...
não terminou a frase! Deixara cair bruscamente o braço, que erguera com dificuldade para indicar algo de importante. Os dedos esqueléticos crisparam-se num repente, para se distenderem lentamente, muito lentamente mesmo! O raiozinho de sol incidia agora sobre garrafa de vidro cheia de mezinha da terra, dependurada na parede, um pouco acima do rosto de Monsongo. Cintilava na penumbra do quarto mortuário como estrela resplandecente que iria acompanhar ao mundo dos justos a alma do velho e honrado lavrador. Monsongo estava morto!
Anquinanquê, o cachorro malhado, que havia permanecido aninhado junto do canapé, deu um salto, e lambeu-lhe as mãos e o rosto, e cirandou de um canto para outro, como aturdido com o infausto acon­tecimento. Depois, fugiu para o terreiro e correu sem rumo certo, direito à mata, ganindo e uivando desesperadamente, como se quisera anunciar bem alto a morte do seu melhor amigo.
Todos se retiraram em silêncio. Sem o menor lamento. Todavia no rosto de Irmna via-se agora maior apreensão e o seu olhar era cúmplice. Chorou por se lembrar do que havia feito com Enramne, que era agora sua mulher. De igual modo, só Irmna sabia onde o velho havia escondido o garrafão com as notas do banco. Estavam ali bem perto no vidundji-pêbe (cemitério de balantas), de quando em quando remexido por hienas famintas. Vira-o uma tarde, por entre palmares, quando frechava rolas no mato.
Silêncio de morte. Ouvira-se o matraquear de enquilim, seguido do rufar de tambores a confirmar a morte de Monsongo. Em breves segundos, as terras circundantes souberam da morte do velho chefe de Bícílão.
Ao fundo do terreiro, debaixo das mangueiras, Balantas do seu tempo e outros mais novos quedaram-se, acenando a cabeça, como se resignados com o desenlace. Enquanto o mulherio preparava a água para o primeiro banho do cadáver. Morna Cumba, considerado o mais famoso necrólogo da região, em voz compassada e dolente ia relem­brando diversas passagens da vida do finado desde os recuados tempos em que fora ladrão de vacas, lutador valente e invicto e hábil ferreiro como não houvera outro nas redondezas. Morna Cumba terminara por enaltecer as virtudes de Monsongo nas últimas décadas da sua vida de chefe gentílico, cumpridor, justo e humano, qualidades que o leva­ram à conquista de estima e respeito não só dos Balantas da sua área, mas também das autoridades administrativas. Fora sempre homem prestante, trabalhador e leal e, por isso, agora. iria receber o prémio da sua bondade. Mas isso era com o Irã! ...
Os tambores rufavam! .......... Rufavam continuamente ...
Um touro de pelo fulvo e luzidio, preso a tronco abatido, urrou enraivecido e ajoelhara ao encaixar entre os chifres curtos a lâmina de aço de terçado manejado por destro magarefe. Logo depois, outro e mais outros tiveram a mesma sorte. Todavia, os últimos urros e gemidos eram abafados pelo barulho ensurdecedor dos tambores de peles retesadas.
Balantas das tabancas limítrofes, que chegavam a Bicilão, entravam e saíam, ordeiramente, da palhota mortuária. Todos quiseram prestar a última homenagem ao velho balanta, que em vida tanto os havia ajudado. Todos são parentes, e o Balanta, quando rico, não admite pobreza na sua morança. Era o caso de Monsongo.
O cadáver fora sentado em cadeira de tarrafe; permanecia inerte de rosto sereno; na mão direita, espada ferrugenta que em novo lhe granjeara fama e prestígio; na cabeça, cofió encarnado e, envolto ao pescoço, um lenço branco; vestia fato forrado, sem cor definida, amarrotado, que anos antes lhe havia oferecido um engenheiro que viera de Lisboa e percorrera a área para ver as palmeiras. O seu aspecto era de estátua bronzeada, talhada por hábil escultor.
As exéquias foram dirigidas pelo novo chefe de Bicílão, que. segundo a tradição. seria o filho mais velho de Monsongo. Fora auxiliado pelo Pêbe - coveiro - que na tribo gozava de grande prestígio. O corpo ficara sentado em cova circular voltada para Nascente. Monsongo, além de chefe gentílico, fora ferreiro. E, para o Balanta, homem que saiba dominar o ferro merece prestígio à parte. Fora envolto em esteira de palmeira, nova e limpa, porque a terra não pode tocar o corpo de um ferreiro. Em vista do elevado número de homens e mulheres que barraram a cabeça e o peito com a lama acinzentada da bolanha, adivinha-se o conceito em que era tido o velho chefe dos Balantas.
Como sucede entre os grandes da tribo, só no dia seguinte ao falecimento teve lugar a cerimónia do choro.
A mortandade entre novilhos e vacas havia ultrapassado todas as previsões. Blufos, quase exaustos, prosseguiam a faina sanguinolenta, esquartejando dezenas de reses agonizantes. Outros, em azáfama sem precedentes, transportavam balaios de arroz limpo e pedaços de carne tremulante, que atiravam para enormes tambores de gasolina, cortados a meio, assentes sobre enormes fogueiras espalhadas pelo terreiro. A fervura erguera no ar alvos cachões fumegantes que espalhavam odor agradável a aguçar o apetite desmedido de centenas de balantas, que, impacientes, formigavam em volta dos caldeiros, sem se impor­tarem com o cheiro nauseabundo das vísceras, avidamente disputadas por centenas de jagudis.
Entrementes, enquanto continuava a distribuição de cabaços de arroz e nacos de carne, bem regados com óleo de palmeira e aguar­dente de cana, lá ao fundo, à entrada da mata, algo de irregular se passava.
As gentes de Monsongo (mulheres. filhos e netos) gritavam e insultavam-se mutuamente, gesticulando e saltando de modo estranho, até porque a aguardente ainda não tinha tempo de exercer os seus efeitos. Os grandes da tabanca haviam acorrido ao local, procurando acalmar os mais exasperados, com receio de que o choro de Monsongo terminasse em tragédia, como tantas vezes sucede em casos seme­lhantes. Porém, pouco depois, com pasmo dos presentes, aquela família, em litígio tão confuso como estranho, correra para a palhota que fora do velho lavrador. Ali tivera lugar um acto cómico, com balbúrdia invulgar no chão dos Balantas.
A cobertura de palha da casa que fora de Monsongo era desman­telada, malas de madeira despedaçadas, potes de barro feitos em mil pedaços, talhas de arroz voltadas nos corredores, colchões, depois de remexidos, desfeitos em tiras, enquanto as paredes estavam a ser batidas palmo a palmo. Porém, ao fim de busca minuciosa e turbulenta, nada encontraram. Mistério... Verdadeiro mistério!... Ninguém conse­guira encontrar as notas de banco que Monsongo, anualmente, trazia de Bolama ou de Fulacunda, quando vendia a colheita de arroz ou de mancarra. O dinheiro não era só de Monsongo! Pertencia também às mulheres, filhos e netos ...
Serenados os ânimos depois de uma arrumadela à palhota, não se falara mais no caso. Se o Irã assim o quis, nada havia a fazer!
- Vamos para o choro! - acordaram unanimemente.
De cima de enormes poilões e tagarras que envolviam o povoado, o Irã espreitava, dia e noite, os movimentos das «suas gentes». Assim pensavam os balantas idosos.
Na tabanca, os tambores continuavam a rufar, cada vez com mais furor.
Homens e mulheres, velhos e novos, comiam e bebiam desmedida­mente. Outros, em grande número, tem-te-não-caías, dançavam no terreiro com mil gestos símiescos. Ao rufar dos tambores, não havia no povoado nenhum balanta, mesmo cambaleante, que não procurasse acompanhar o ritmo em jeitos de dança, desarticulando-se em gestos difíceis de imitar.
Barulheira infernal. Um balanta, de tronco nu, já idoso, sumira-se na mata próxima, com uma perna de vaca às costas. Talvez receasse que a carne das trinta e seis vacas não chegasse para todos! Aquele balanta sem norte era Pêbe, o coveiro dos balantas, o qual, como era hábito na tribo, levara a sua quota-parte, a melhor perna de vaca.
Homens idosos, aturdidos, de mãos dadas, em pequenos grupos, cuspinhando a cada passo, caíam aqui e além, aninhando-se a seu jeito, sem se preocuparem muito com a dureza do leito...
O alarido redobrara. Os tambores rufavam ainda com mais furor! Mulheres novas, excitadas pelo álcool e pela dança sensual em ritmo de batuque, deixavam-se levar pelos blufos para moitas de capim ali a dois passos, entregando-se-lhes com o à-vontade que caracteriza povos primitivos.
Facto curioso! Entre os Balantas, as mulheres, enquanto novas, são autorizadas pelos maridos a praticar o adultério. Julgam assim praticar o mais sensato acto de justiça, dado que, no seu tempo de homens viris, da mesma forma lhe foram relevadas vezes sem conta faltas no género. Além do mais, é honra para o Balanta ver que as suas mulheres são requestadas por homens estranhos. O comportamento das mulheres, nesse capítulo, é menos interessante. Sempre que uma amiga da tabanca próxima a visite e queira aproveitar o ensejo para dormir com o seu homem, prima em lhe proporcionar o melhor acolhi­mento, circundando-a de atenções e procurando em primeiro lugar arranjar-lhe boa cama. Ela sabe muito bem que, na altura em que lhe for retribuir a visita, pode contar ainda com melhor acolhimento, porque nenhuma gosta de ficar atrás.
As festas prosseguiriam ainda enquanto durassem as provisões de arroz, da cana e de vaca. Ninguém arredava pé. Agora, era a vez de as mulheres de menor atracção tentarem a sua sorte. Mas nada con­seguiam. Os Blufos estavam exaustos da bebedeira e da estroíníce.
A madrugada surgia. O orvalho desprendia-se dos galhos circundantes em gotas de prata. Dispersos pelo terreiro, dezenas de corpos inertes davam aspecto de tragédia. O álcool imobilizara-os! Dezenas de fogueiras mortiças tremulavam ainda à distância. Pelo terreiro, mesmo até junto da mata, cabaços e mais cabaços de arroz e restos de carne sobejavam com abundância. Um bidão de aguardente de cana havia-se esvaziado por incúria durante a noite. O cheiro do álcool na terra ensopada dominava o ambiente. Surgira o dia. Os galos deixa­ram de cantar. Milhares de pardais saíam dos cachos de ninhos que enfeitavam a velha calabaceíra, chilreavam incessantemente a animar o povoado. Bandos enormes de garças brancas, voando em caprichosas formações, seguiam rumo ao poisio distante. Centenas de jagudis, empoleirados nos galhos, aguçavam o bico preparando-se para o último repasto, de quando em quando interrompidas por lutas inúteis. Por fim, à distância, ouvia-se ainda o som vibrante de trombeta impro­visada de chifre de vaca, cujos acordes anunciavam a alvorada na selva!
Calaram-se os tambores. Terminaram finalmente as provisões de arroz, de vaca e de cana e com elas o choro de Monsongo. Um choro famoso, que irá perdurar pela vida fora na lembrança dos Balantas daquela região!
Só decorridos dias, as gentes de Monsongo conseguiram ânimo para retomar o trabalho. Era preciso continuar. A bolanha reclamava a sua presença. De resto tudo continuaria como dantes. Dia após dia, todos regressaram à bolanha. Bessunha dirigia agora as lavras de Monsongo e por isso todos regressaram.
Todos, não!... Faltavam Irmna e Enramne e ainda o cachorro malhado. Durante a euforia do choro ninguém dera pela sua ausência. Ninguém sabia do seu paradeiro. Abandonaram a selva. Talvez tivessem atravessado a raia para chão diferente, para muito longe mesmo, em busca da palavra mágica que um dia os brancos lhe ensinaram: Cívi­hzaçãol
Enramne, Irmna e o cachorro malhado desapareceram misteriosa­mente, e, com eles, as notas de banco do garrafão de vidro que o velho Monsongo, pensando no choro, havia escondido avaramente no velho e infecto vindundji-péba (cemitério de Balantas).