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28 de janeiro de 2012

372 Entrevista ao general Bettencourt Rodrigues

Controverso, e parece-me que os entrevistadores não souberam explorar algumas questões (ver aqui). Mas vamos "ouvir" o homem... 


Estudos Gerais da Arrábida
A DESCOLONIZAÇÃO PORTUGUESA
Painel dedicado à Guiné (29 de Julho de 1997)


(…)

Manuel de Lucena: Sobre a sua acção no Leste [de Angola], pode dizer-nos alguma coisa sobre os seus acordos com Jonas Savimbi? 
General Bettencourt Rodrigues: Relativamente a esse assunto, entendo que não devo falar, uma vez que a pessoa em questão ainda está viva e politicamente activa. No entanto, esclareço que após o 25 de Abril nunca tive nada a ver nem com a UNITA, nem com o MPLA. 
Manuel de Lucena: O brigadeiro Passos Ramos, que nos prestou dois depoimentos em 1995 e 1996, levantou um pouco  a ponta do véu sobre esses acordos. Disse-nos, nomeadamente, que houve um entendimento entre o Exército português e a UNITA com vista à formação de um santuário, que, naturalmente, funcionava contra o MPLA. Disse-nos também que a UNITA não era um movimento fantoche: estava bem implantada, cobrava impostos aos madeireiros, controlava áreas muito vastas - em suma, dava-nos trabalho.  
General Bettencourt Rodrigues: A única coisa que posso dizer é que o general Costa Gomes estava dentro desse entendimento, tal como o professor Marcelo. Caetano. O que não equivale a atribuirlhes a paternidade da ideia. 
Luís Salgado de Matos: O fim do modus vivendi com Savimbi ficou a dever-se à inabilidade do seu sucessor?
General Bettencourt Rodrigues: Em certa medida. A guerra subversiva é uma guerra - como direi? - suja, pouco ortodoxa. Se sigo com demasiada intransigência os meus princípios - e essa foi a opção meu sucessor - não estou a jogar pelas regras do jogo. 
Luís Salgado de Matos: Mas essa inflexão face à UNITA terá tido o assentimento do ministro, não? 
General Bettencourt Rodrigues: Não sei. Mas note que o Leste de Angola é um sítio remoto. Naquele conflito gozávamos de uma grande margem de autonomia.
Manuel de Lucena: Quando estive exilado, falei uma vez com um homem do MPLA, um mestiço, Castro Lopo, que se confessou muito impressionado com as dificuldades que o movimento então experimentava na Frente Leste. Dificuldades sobretudo ao nível dos abastecimentos - vinha tudo de muito longe, da Zâmbia, por exemplo, forçando-os a longas caminhadas… 
General Bettencourt Rodrigues: Precisamente. Por outro lado, eram essas as vantagens dos terroristas na Guiné. Mas o Governo Zâmbia não regateava apoios à subversão. À semelhança, aliás, de alguns lobbys norte-americanos, como o American Comitte for Africa. Quem tocava no Caminho de Ferro de Benguela era a UNITA, o que não convinha nada à Zâmbia, um país de hinterland com acesso ao mar bloqueado. Isso dava-nos um grande trunfo sobre o Kaunda. É por isso que chamei à guerra subversiva uma guerra suja: cada um dos lados combatia com manhas e artimanhas.
Manuel de Lucena: Nesse sentido, o acordo com a UNITA revestiase de um carácter eminentemente prático; quanto muito implicaria uma integração de quadros dirigentes daquele movimento na administração portuguesa. É isso? 
General Bettencourt Rodrigues: Sim, é mais ou menos isso. 
Luís Salgado de Matos: Passando agora para a Guiné. O sr. general chegou a organizar algum Congresso do Povo? 
General Bettencourt Rodrigues: Sim, o quinto. Foi até o acontecimento político-social mais marcante do meu mandato como Governador. Para sua informação, eu descrevo isso com algum detalhe no depoimento que o Paradela de Abreu me solicitou em tempos, Vitória Traída. Mas houve também os congressos regionais, de onde eram cooptados os delegados para o Congresso Provincial. Tudo isso movimentou na altura milhares de pessoas, completamente à margem do PAIGC.
Manuel de Lucena: Mas essa não interferência do PAIGC era deliberada por parte deles…
General Bettencourt Rodrigues: Incapacidade militar, meu caro amigo! 
Luís Salgado de Matos: Havia alguma reflexão no Estado Maior sobre a táctica que o general Spínola estava a desenvolver na Guiné? 
General Bettencourt Rodrigues: Ele fazia a sua política, era lá com ele. Cada um tinha as suas características próprias. Volto a repetir: os comandantes militares gozaram sempre de uma larga autonomia.  Quando cheguei à Guiné em 1973, habituado como estava à largueza de Angola, o que mais me impressionou foi a pequenez daquilo tudo. A Guiné é um país cuja área varia em função da maré! 
Manuel de Lucena: Na Guiné, o sr. general chegou a pensar numa concentração do dispositivo? 
General Bettencourt Rodrigues: Sim, planeava converter as 225 guarnições em 80 e tal. A dispersão é inimiga da eficácia. Mas já não tive tempo,
Manuel de Lucena: Por outro lado, a quadrícula dispersa é sinal de presença efectiva, possibilita o contacto directo com as populações…
General Bettencourt Rodrigues: É uma outra forma de ver as coisas. Simplesmente, havia que fazer uma opção.
Luís Salgado de Matos: Manteve o acordo do general Spínola com os Felupes, em que estes recebiam 100 escudos por cada cabeça de guerrilheiro abatido?
General Bettencourt Rodrigues: Não estava ao corrente desse acordo, mas se ninguém o denunciou…
Manuel de Lucena: Quando chegou à Guiné encontrou uma tropa bem preparada, motivada, com bons quadros? Faço lhe esta pergunta porque a ideia que normalmente se tem acerca do estado de espírito da nossa tropa na Guiné é a de uma desmoralização generalizada.
General Bettencourt Rodrigues: Sobre isso direi o seguinte: só se morre uma vez, não há mortes provisórias. Quando se combate com convicção e tenacidade, quando se tem a certeza de um trabalho bem feito, a motivação é coisa que não falta.
Manuel de Lucena: Mas o MFA na Guiné, ao nível dos quadros, aparentava estar bem organizado, tinha um número muito significativo de adesões. Qual era a sua percepção? 
General Bettencourt Rodrigues: Não tive conhecimento disso, Que as condições eram terríveis, não contesto. Agora dizer que a tropa estava desmoralizada, de maneira nenhuma! Em Angola podia cumprir-se uma comissão alternando sítios fáceis com difíceis. Na Guiné não; vivia-se num sobressalto permanente. Por isso é que na Guiné as comissões duravam 21 meses e em Angola 24. Só quando os  strellas entraram em cena é que as comissões passaram a 24 meses. O general Spínola deixou ficar os que lá estavam e aumentou o contingente com tropas frescas. 
Manuel de Lucena: O 25 de Abril foi então uma surpresa para si? 
General Bettencourt Rodrigues: Tanto foi que me assaltaram o gabinete! Embora quase tivesse assistido ao golpe das Caldas, quando vim a Lisboa em Março de 1974, não dei por nada. Quando a Revolução estalou, estava perfeitamente inocente. 
Luís Salgado de Matos: O sr. general tinha confiança na tropa das informações? Na Marinha, onde fiz o meu serviço militar, corria que o Exército, na Guiné, estava infiltrado pelo PAIGC de alto a baixo. 
General Bettencourt Rodrigues: Em geral tinha. Nas Informações trabalhava-se em estreita colaboração com a DGS, reconhecidamente competente nesse campo. O PAIGC, de resto, não tinha técnica para entrar um jogo desses.  Diz-se que um dos efeitos da contra-subversão é a lassidão, Mas a lassidão também os afectava a eles. O PAIGC não estava menos exausto que nós.
Manuel de Lucena: De qualquer forma, de todos os MFA's, não restam dúvidas de que o MFA da Guiné era o melhor estruturado. Basta atentar nos nomes proeminentes do 25 de Abril que saíram da Guiné. Se eles fossem fracos, o sr. general, no dia 25, ter-se-ia rido na cara deles e dado voz de prisão. Depois, o evoluir dos acontecimentos logo após o 25 Abril veio a demonstrar que na Guiné a vontade de regresso à Metrópole se sobrepunha praticamente a tudo. 
General Bettencourt Rodrigues: Olhe, como dizem os brasileiros, quando um general passa à reserva vira historiador. Foi o que sucedeu comigo. Reformado aos 55 anos, dediquei-me  ao estudo. Pesquisei, li, meditei, E sabe a que conclusão cheguei? Que o país nunca teve um problema de defesa nacional em África. A tropa podia estar farta, mas obedecia. Faz parte da nossa natureza. A esse respeito nunca tive dificuldade - fui sempre obedecido. Raramente tive de usar de expedientes punitivos; escolhi sempre a via do exemplo: quando era preciso suportar dificuldades, eu fazia questão em suportá-las. Quando estive em Lisboa em Março de 1974 - vim cá buscar 150 contos -, achei isto uma coisa horrorosa. Tinha havido a remodelação ministerial, a última do professor Marcelo. Senti um mal-estar generalizado, uma atmosfera pesada. Felizmente, o episódio da «brigada do reumático» apanhou-me já a caminho da Guiné. 
Manuel de Lucena: Como foi a reacção ao golpe das Caldas na Guiné? 
General Bettencourt Rodrigues: Irrelevante. O Ultramar ficava muito longe.
Luís Salgado de Matos: O facto do general Spínola ter saído após Guileje foi entendido como uma derrota? Não afectou as pessoas que lá estavam? 
General Bettencourt Rodrigues: Note: o general Spínola esteve lá oito anos, fora nomeado no tempo do dr. Salazar. Eu até dizia: o Spínola não deve sair da Guiné senão por limite de  idade ou de caixão. E, caramba, oito anos na Guiné é de morrer! A partir de determinada altura, admito que as coisas terão deixado de lhe correr de feição, nomeadamente porque o Governo não lhe dava todo o dinheiro que pretendia para a sua política de aliciamento das populações.  Apesar de cada um ter a sua maneira de comandar, eu não enjeitei a sua política de melhoria desenvolvimento das populações autóctones. Mas com uma diferença: eles não me metiam a mão no bolso! Quer dizer; não lhes satisfazia todos os pedidos. Recordo-me de um dia ter ido a uma sanzala e de um grupo de mulheres me ter pedido rádios. Vejam bem: rádios para falar com os maridos quando  estes iam a Bissau! Não fui para a Guiné para agradar a toda a gente. Fui lá para cumprir o que devia ser cumprido. 
Manuel de Lucena: Na conversa que teve com o professor Marcelo, antes de ir para a Guiné, não ficou com a sensação que a saída do general Spínola lhe causava a ele, Marcelo, um problema bicudo? 
Luís Salgado de Matos: E a isso eu acrescento: a implicava a admissão da derrota de Spínola na Guiné? 
General Bettencourt Rodrigues: Leiam o Depoimento do professor Marcelo Caetano. Ele narra a nomeação a reunião com os altos comandos. 
Manuel de Lucena: E quando é nomeado para a Guiné tem outra entrevista com o professor Marcelo ... 
General Bettencourt Rodrigues: Naturalmente. No entanto, o pretexto dessa conversa até foi outro assunto, designadamente, a negociação de um contrato publicitário entre a RTP e a Movierecord - eu nessa altura em administrador delegado da RTP. Só depois é que o Presidente do Conselho me assediou para a Guiné, onde a situação se deteriorara nos últimos tempos.
Luís Salgado de Matos: Mas porque é que saltaram a escala hierárquica e o escolheram a si? Não foi pela aura vitoriosa que trazia do Leste de Angola?
General Bettencourt Rodrigues: Sim, pode aceitar-se essa leitura. 
Manuel de Lucena: Mas o sr. general Bettencourt e o sr. general Spínola são comandantes de estilos e escolas diferentes, não é assim? 
General Bettencourt Rodrigues: O mais possível. 
Manuel de Lucena: De resto, a «terceiro-mundialização» que o Exército português conheceu durante o PREC - e que se traduzia em ordens por despacho, ultrapassagem das hierarquias, etc. - não procedeu da organização do general Spínola na Guiné?
General Bettencourt Rodrigues: Mas note que, ao contrário do que muita gente pensa, o general Spínola não era assim tão popular na Guiné. 
Manuel de Lucena: Quando fui subordinado do major Salles Golias, que servira sob as ordens do general Spínola na Guiné, e depois se tornou seu inimigo figadal recordo-me de ele ter dito que era capaz de tudo para evitar que o general Spínola, já depois do 25 de Abril, voltasse a pôr os pés na Guiné. O major Golias estava ciente que o general Spínola deixara uma multidão de indefectíveis, tanto cá como na Guiné.
General Bettencourt Rodrigues: Mas esses fiéis - o Monge, o Bruno, o Fabião, etc. - já haviam todos regressado quando fui para a Guiné. O sr. general Spínola, lamento dizê-lo, era  muito faccioso. Para ele, quem não tivesse andado no Colégio Militar ou não fosse de Cavalaria era menos que zero.

Texto fixado por Pedro Aires Oliveira, a partir de  notas suas e de Fátima Patriarca.